poesia, tradução

Dylan Thomas, por Matheus Mavericco

Dylan Thomas

Entre 1914 e 1953 uma das vidas mais conturbadas bateu ponto aqui na terra. Dylan Thomas, que Augusto de Campos chamou de bardo rejeitado, certamente não é do tipo de poeta que se resolva nem em notas biográficas e nem em páginas impressas. O leitor deverá terminar de ler a postagem aqui no escamandro e correr pra conferir a primeira gravação do autor declamando que puder encontrar. Isso dispensará muita coisa. Assim como Manuel Bandeira disse em relação a T. S. Eliot (o mesmo Eliot que rejeitou, e se arrependeu depois, a poesia de Dylan), certas coisas só poderão ser entendidas se assim fizermos. Certo que existe mais. Por exemplo a famosa e terrível boemia que o vitimou tão cedo e que nos permite lembrar do definhamento aos poucos de Leminski. O paralelo, aliás, não é gratuito. Assim como subjaz um fundo cristão ou no mínimo hagiográfico (conforme estudado por Flora Süssekind) na poesia do autor curitibano, na do autor galês nós podemos chegar a conclusões análogas. Claro que existem controvérsias: o leitor tem de saber de antemão que Dylan Thomas é famoso por suas metáforas, e essas, lembra Carpeaux, movem-se em torno de acontecimentos elementares como o nascimento e a morte, e é embasado nestes que o lastro cristão percorre o substrato poemático. E além disso, pra terminar o paralelo Leminski-Thomas, um e outro fazem as pazes também com um trabalho eminente e inventivamente formal (ambos leitores apaixonados do Finnegans Wake), permitindo florescer, num percurso que o próprio Dylan caracterizou como doloroso, a genuína alegria da poesia.

Não sei até que ponto o poema que traduzo e compilo abaixo consegue demonstrar tudo isso. Você vai perceber se observar o certo alheamento nervoso que Dylan proclama ao longo do poema, criando uma espécie de santidade em torno dessa imagem do poeta que cai de boca (presumivelmente) na noite, para depois como que se refugiar em sua mansarda e dar vida às portas de pérola dúbia das boates de que fala Drummond. Em suma, aquilo que, ainda em Leminski, foi-se dito da poesia como algo inútil: ou seja, in-útil, a utilidade da poesia residindo na própria poesia, na própria resistência calada de que, ao se escrever de forma tão inventiva e contestadora como Dylan, se subentenda a recusa (e a inclusão de Dylan na antologia de Augusto, sob o título “Poesia da Recusa”, é paradigmática).

O poema é, sem dúvidas, o mais famoso de Dylan Thomas, e se o selecionei, leia-se nesta seleção uma espécie de protesto, já que que se trata de um autor injustamente esquecido. Algo assim não deveria acontecer, tendo em vista que temos uma tradução completa de sua obra e que temos o nome de Thomas gravado na mente, pelo menos, dos poetas praxistas e da vanguarda concreta. O que houve?, você pode se perguntar. Eu não sei. É muito irônico que ainda hoje desprezemos o Craft or Sullen Art de Dylan. É muito irônico e muito triste, pois quem tem a perder somos apenas nós.

Em minha tradução, pra explicar pro leitor onde me desviei, quis manter uma estrutura formal próxima do original. Assim a escolha do verso de sete sílabas, embora deva lembrar que o original é muito cambiante, e assim um esquema rímico vagamente fixo nas duas estrofes, tentando manter as rimas em “-im” para o penúltimo e antepenúltimo versos e um dístico espargido lá no começo da estrofe. O resto é estripulia, como, afinal de contas, é o próprio original: vale dizer, a busca de sonoridades máximas, o que meu uso e abuso das aliterações em R talvez consiga indicar (criando um paralelo mais uma vez com Drummond, só que agora o Drummond de Oficina Irritada ― quem sabe, pode-se supôr, um correspondente funcional da Craft or Sullen Art de Dylan).

(Matheus “Mavericco”)

§

NESTE MEU ENCARGO OU ARTE AMARGA.
tradução de Matheus “Mavericco”.

Neste encargo ou arte amarga
Tarde da noite exercido
Quando só a lua açula
E os amantes vão pro leito
Com toda a dor em seu peito,
Trabalho sob a luz cantante
Sem ambição e sem pão
Nem fanfarras ou encanto
Em tablados de marfim,
Mas pelo salário afim
A seu secreto coração.

Nem pelo soberbo à parte
Da lua que açula escrevo
Nestas páginas de tornados,
Nem por mortos encastelados
Com seus pássaros e salmos,
Mas aos amantes, cujo peito
Abraça a época ruim
Que não paga o salário afim
A este encargo ou arte amarga.

*

SE EM MEU OFÍCIO, OU ARTE SEVERA.
tradução de Mário Faustino.

Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando ―
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.

Não pelo homem altivo, alheio
A tormentosa lua escrevo
Sobre estas páginas de espuma
Nem pelos monstros imponentes
Com seus rouxinóis, seus salmos,
Mas pelos que se amando estreitam
Nos braços toda a dor das eras,
Que não louvam, não pagam, nem escutam
O meu ofício ― ou arte severa.

*

NO MEU OFÍCIO OU ARTE AMARGA.
tradução de Ivo Barroso.

No meu ofício ou arte amarga
Que à noite tarda é exercido
Quando alucina só a lua
E dormem lassos os amantes
Com as dores todas entre os braços,
É que trabalho à luz cantante
Não pela glória ou pelo pão,
Desfile ou feira de fascínios
Por sobre palcos de marfim,
Mas pela paga mais afim
De seus secretos corações!

Não para alguém altivo à parte
Da lua irada é que eu escrevo
Os respingados destas páginas
Nem pelos mortos presumidos
Cheios de salmo e rouxinóis.
Mas para amantes cujos braços
Têm os cansaços das idades
Que não me dão louvor nem paga
Nem prezam meu ofício ou arte.

*

EM MEU OFÍCIO OU ARTE SEVERA.
tradução de José Lino Grünewald.

Em meu ofício ou arte severa
Na sossegada noite exercido
Quando apenas ruge a lua e, ao leito,
Pairam os amantes com tôdas ânsias
Nos braços concentradas, eu trabalho
À luz cantante, nem por glória ou pão
Ou pela permuta e pompa de encantos
Ein palcos de marfim, mas pela paga
Simples em seu mais quieto coração.

Não ao orgulhoso, alheio à luz uivante
Escrevo nestas espumadas páginas;
Nem também ao cadáver altaneiro
Com seus rouxinóis e salmos, e sim
Aos amantes, seu braços circundando
Todos o padecer dos tempos, aquêles
Que não prestam louvor nem recompensa
Nem se importam com ofício ou arte.

*

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA.
tradução de Ivan Junqueira.

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

*

NESTE MEU OFÍCIO OU ARTE.
tradução de Augusto de Campos.

Neste meu ofício ou arte
Soturna e exercida à noite
Quando só a lua ulula
E os amantes se deitaram
Com suas dores em seus braços,
Eu trabalho à luz que canta
Não por glória ou pão, a pompa
Ou o comércio de encantos
Sobre os palcos de marfim
Mas pelo mero salário
Do seu coração mais raro.

Não para o orgulhoso à parte
Da lua ululante escrevo
Nestas páginas de espuma
Nem aos mortos como torres
Com seus rouxinóis e salmos
Mas para os amantes, braços
Cingindo as dores do tempo,
Que não pagam, louvam, nem
Sabem do meu ofício ou arte.

*

EM MEU OFÍCIO OU SOMBRIA ARTE.
tradução de Rodrigo Madeira.

Em meu ofício ou sombria arte
Exercida na noite estanque
Quando só a lua se enraivece
E os amantes jazem num colchão
Com suas dores todas entre os braços
Trabalho à luz cantante
Não pela cobiça ou pelo pão,
Cabotino comércio de encantos
Sobre palcos de marfim,
Mas pelo salário mínimo, isso sim,
De seu mais secreto coração.

Não para o soberbo na solidão
Da lua furiosa escrevo
Nestas páginas espargidas
Nem para os mortos conspícuos
Com seus salmos e rouxinóis
Mas para os amantes, o abraçar-se
Aos pesares de tempos idos,
Que não me dão salário ou elogios
Nem estimam meu ofício ou arte.

*

IN MY CRAFT OR SULLEN ART.

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

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O soneto das vogais e o livro Bahir

Arthur Rimbaud por Ernest Pignon-Ernest, Paris 1978/79

Arthur Rimbaud por Ernest Pignon-Ernest, Paris 1978/79

Faz alguns meses que eu fiz uma postagem sobre a teoria das correspondências de Swedenborg, ilustrado pelo soneto das correspondências de Baudelaire, numa tentativa de explicitar, via citação das fontes primárias mesmo, o elo entre o poeta, que permanece em posição absolutamente central em discussões sobre poesia moderna e modernidade, e uma doutrina mística que foi muito popular à época, mas hoje é pouco estudada e, no geral, não costuma render mais do que uma breve nota de rodapé nos comentários sobre ele. Agora iremos voltar a essa discussão, com enfoque desta vez em Arthur Rimbaud (1854 – 1891), um poeta que, acredito, dispense maiores apresentações – enfant terrible dos círculos do simbolismo francês do fin-de-siècle, foi alvo do amor e do ódio de Paul Verlaine, revolucionou a poesia tanto com a obra em versos quanto com a prosa poética de Iluminações e Uma estadia no inferno antes mesmo de ter a idade hoje necessária para poder beber legalmente, para então largar tudo e ir traficar armas na África e morrer antes dos 40. Uma das histórias de vida de poeta favoritas de qualquer leitor.

“Voyelles”, o célebre soneto das vogais, é provavelmente um dos seus poemas mais famosos:

Voyelles

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes:
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre ; E, candeur des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silence traversés des Mondes et des Anges:
— O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux!

Aqui segue a tradução de Augusto de Campos, presente no seu volume Rimbaud Livre (1993):

Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas e areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes:
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos:
 Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!

Apesar de ser um belo trabalho de tradução poética, eu gostaria de emendar também a do Ivo Barroso, presente no volume de Poesia Completa de Rimbaud, por ela acompanhar em alguns pontos mais de perto a semântica do original francês (notem, por exemplo, que Augusto optou por deixar a palavra “alquimia” de lado no português, uma palavra que tem toda uma ressonância particular na obra desse poeta):

Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Um dia hei de dizer vossas fontes latentes:
A, negro e veludoso enxame de esplendentes
Moscas a varejar em torno aos chavascais,

Golfos de sombra; E, alvor de tendas tumescentes,
Lanças de gelo altivo, arfar de umbelas reais;
I, púrpuras, cuspir de sangue, arcos labiais
Sorrindo em fúria ou nos transportes penitentes;

U, ciclos, vibrações dos mares verdes, montes
Semeados de animais pastando, paz das frontes
Rugosas de buscar alquímicos refolhos;

O, supremo Clarin de estridores profundos,
Silêncios a esperar pelos Anjos e os Mundos:
 O, o Ômega, clarão violáceo de Seus Olhos!

O soneto costuma ser acompanhado por um breve poema composto de um único quarteto intitulado “A estrela chorou rosa…”, que é visto como uma adendo que serve de conclusão, uma forma de coda:

L’étoile a pleuré rose au coeur de tes oreilles,
L’infini roulé blanc de ta nuque à tes reins ;
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l’Homme saigné noir à ton flanc souverain.

A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.

(tradução de Augusto de Campos)

A estrela chorou rosa ao fundo de tua orelha,
O espaço rolou branco entre a nuca e o quadril
O mar perolou ruivo a mamila vermelha
E o homem sangrou negro o flanco senhoril.

(tradução de Ivo Barroso)

E então fica a dúvida: sobre o que diabos falam esses versos? o movimento é evidente, cada vogal é associada a uma cor, e essa cor, por sua vez remete a um apanhado de imagens que possuem essa coloração: um enxame de moscas negras, o branco ao mesmo tempo da neve e do deserto, repleto de tendas e reis (árabes, supõe-se), o vermelho de uma cusparada de sangue, o verde dos mares e pastos, o azul, que se matiza em violáceo, do infinito (ok, aqui no final a coisa fica um tanto mais confusa). Que cada imagem esteja associada a uma cor é compreensível, mas a relação entre cada vogal e cada cor é claramente arbitrária. E a coda também não esclarece nada, apesar de que a presença de um corpo provavelmente feminino (fala-se em peito e quadris) que abrange em si o universo (note o espaço construído com o céu na orelha, o infinito no torso, os mares nos peitos, num tom que lembra algo como uma mito de criação do mundo), dê a impressão de uma referência mística erótica, enxergando o ato sexual como uma forma de sacrifício (que é a interpretação para a qual a escolha de palavras feita por Augusto parece apontar: altar dos teus quadris). Não cabe aqui falar de todo o histórico da recepção e interpretação deste poema, mas, como resume um comentador, John M. Lipski, citando Cazals (clique aqui para ver o artigo), ele se divide entre aqueles que tentaram a sério estabelecer um entendimento mais profundo e os que acharam que não passava de puro nonsense.

Heinrich Khunrath - The Hermaphrodite (Amphitheatrum sapientiae aeternae, 1595)

Heinrich Khunrath – The Hermaphrodite (Amphitheatrum sapientiae aeternae, 1595)

Num artigo intitulado “Rimbaud: Sex, Verse, and Modernity” (1994), um estudioso chamado Amittai Aviram identifica em “Voyelles” uma intertextualidade com o “Correspondências” de Baudelaire, no sentido de que ele supostamente desconstruiria a visão swedenborguiana das correspondências por encontrar o foco das suas relações não entre as coisas dos mundos material e espiritual, a tal floresta de símbolos, mas entre as coisas e meros sinais gráficos, “as letras, elementos constituintes de textos, o que demonstra uma auto-reflexividade marcante sobre a textualidade do poema” – uma mudança, portanto, do “naturalizante” para o “textualizante”, que faria de Rimbaud um pós-moderno em comparação com a modernidade de Baudelaire.

Pessoalmente, eu acho essa interpretação um pouco exagerada, apesar de que ainda recomendo o artigo do Amittai para quem se interessa pelo debate (ele também discute o “Bateau Ivre” e chega a comparar com o “Alastor”, de Shelley, o que é um ponto positivo na minha concepção). O que parece ter escapado à leitura do Amittai é que, para o judaísmo, mesmo o judaísmo rabínico mais ortodoxo, as letras nunca são meras representações gráficas aproximadas dos sons da fala, mas a raiz crucial de toda a base das correspondências com o divino, como fica claro em vários momentos dos comentários da Talmud e Midrash. E isso é ainda mais exacerbado nas tradições místicas, desde o Sefer Yetzirah (Livro da Formação), cuja data de autoria é desconhecida, até os textos fundadores da Cabala dos séculos XII-XIII, como o Zôhar (Esplendor) e o Sefer HaBahir (Livro da Iluminação). Noções da Cabala, que se tornou estranhamente popular na época do renascimento (tendo como adeptos os célebres alquimistas John Dee e Heinrich Khunrath, de quem retirei a ilustração acima) e no século XVIII (quando arrebanha figuras tão distintas quanto Swedenborg e ninguém menos que o matemático Gottfried Leibniz), se encontra no cerne da maioria das tradições esotéricas europeias, incluindo as do século XIX como o pensamento de Eliphas Lévi, a teosofia de Mme. Blavatsky e a Ordem Hermética da Aurora Dourada, que ajudaram tanto para disseminá-las quanto para diluí-las. Tudo isso pairava no ar ao longo do século, e me parece provável que deve ter influenciado muitos escritores indiretamente, pela leitura de outros escritores que tiveram acesso às fontes. Mas Rimbaud é um caso especial, porque ele foi apresentado a essas coisas por via direta, através do seu amigo ocultista Charles Bretagne. É difícil dizer exatamente, porém, o que ele leu, mas parece que envolve desde Eliphas Lévi até algo sobre misticismo islâmico (“Eu não tinha em mente a sabedoria bastarda do Corão”, diz ele no poema em prosa “L’Impossible”).

Como eu gostaria de demonstrar aqui, algumas das coisas em que Rimbaud toca em “Voyelles” encontram uma forte ressonância com parágrafos do Bahir – no sentido de que, lendo certos trechos do livro na edição traduzida e comentada pelo grande Aryeh Kaplan (1934 – 1983), foi impossível ver a menção às vogais sem gritar (internamente, ao menos) eita, que isso é Rimbaud! Não quero sugerir que Rimbaud tenha lido o Bahir (sequer deveria existir tradução para o francês na época… aliás, não sei nem se existe hoje), mas é provável que ele tenha, de algum modo, entrado em contato com ideias dele.

Eis um exemplo de discussão sobre as letras do alfabeto hebraico no livro:

Bahir, p. 6

The Bahir: Illumination (Boston, MA: Weiser Books, 1989), p. 6

Traduzindo para o português, então, a partir da tradução do Kaplan (a edição usada para verter a citação bíblica é a da Bíblia Hebraica na tradução de David Godorovits e Jairo Fridlin):

14. Por que a letra Bet é fechada em todos os lados e aberta na frente? Isso nos ensina que ela é a Casa (Bayit) do mundo. Deus é o lugar do mundo, e o mundo não é o Seu lugar.

Não leia Bet, mas Bayit (casa).

Assim está escrito (Provérbios, 24:3), “Pela sabedoria se edifica uma casa, pela inteligência é (firmemente) estabelecida, e pelo conhecimento são suas câmaras recheadas com riquezas e preciosidades”.

Bet (ב) é a segunda letra do alfabeto e a primeira letra que aparece na Bíblia, em Bereshit (בראשית), literalmente “no princípio”, o título do livro do Gênesis em hebraico e a primeira palavra do primeiro versículo: בְּרֵאשִׁית, בָּרָא אֱלֹהִים…. Mas há outros trechos que tratam especificamente das vogais. Como se sabe, o alfabeto do hebraico, como o árabe, é um abjad, em que só constam as 22 consonantes, que são o foco da maior parte das práticas místicas. Nos textos bíblicos e literários, porém, as vogais são marcadas, e isso se dá via pontos e traços geralmente inseridos abaixo da consoante (ou acima, em alguns casos). Uma dessas vogais é o patach, um tracinho no lado inferior, um pouco para a esquerda, que representa o som do “a” aberto. Diz o parágrafo 34, então:

34. Eles lhe indagaram: Por que a letra Het (ח) é aberta? E por que a sua vogal é um pequeno patach (חַ)?

Ele disse: porque todas as direções (Ruach-ot) estão fechadas, exceto pelo norte, aberto para o bem e para o mal.

Eles disseram: Como podes dizer que é para o bem? Não está escrito (Ezequiel, 1:4), “Olhei e percebi que um vento tempestuoso vinha do norte, uma nuvem imensa, dentro da qual resplandecia uma chama”. O fogo não é nada que não a fúria violenta, como está escrito (Levítico, 10:2) “E saiu fogo de diante do Eterno e os queimou, e morreram diante do Eterno”.

Ele disse: Não há dificuldade alguma. Um dos casos fala de quando Israel cumpre a vontade de Deus, enquanto o outro fala de quando a vontade de Deus não é cumprida. Quando Israel não a cumpre, então desce o fogo [para destruir e castigar]. Mas quando a cumpre, então os Atributos da Piedade o envolvem e abrangem, tal como está escrito (Miqueias, 7:18) “Ele não mantém Sua cólera para sempre”.

(Ruach-ot, no caso, é uma referência à primeira ocorrência da letra Het na Bíblia, na palavra ruach (sopro), no segundo versículo do Gênesis, “o espírito (sopro) de Deus” (וְרוּחַ אֱלֹהִים)).

E depois o 37:

37. O que é o Patach? É uma abertura (Petach).

O que se entende por abertura? É a direção do norte, aberta para o mundo inteiro. É o portão pelo qual o bem e o mal emergem.

E o que é o bem?

Ele riu e disse: Não vos disse que é um pequeno Patach (abertura)?

Eles disseram: nós nos esquecemos, ensina-nos outra vez.

Ele repassou e disse: Como é sua aparência? Um rei tinha um trono. Por vezes o carregava em seu braço, por vezes na cabeça.

Eles perguntaram o porquê, e ele respondeu: Porque era maravilhoso e seria uma pena sentar nele.

Este trecho, segundo Kaplan (sem as notas dele, certo que seria impossível a leitura, exceto para os iniciados, o que talvez fosse o propósito), provavelmente se refere aos tefillin, as filacterias com tiras de couro usadas para preces no judaísmo, que são amarradas na mão e na cabeça, os lugares portanto, onde o rei carregava o trono nessa anedota absurda. Patach, diz ele, se refere à sabedoria (Chokmá, a 3ª das séfirot), enquanto o segol (outra vogal, representada por três pontinhos abaixo da consoante, com som de ‘e’) é o amor (Chesed), a mão direita. Mas o ponto a que eu queria chegar são três parágrafos bastante posteriores, em que o autor fala mais detidamente das vogais.

114. Qual o significado da palavra Shevet [que tem a conotação tanto de uma tribo quanto um cajado]?

É algo simples e não quadrado.

Qual é o motivo?

Porque é impossível ter um quadrado dentro de outro quadrado. Um círculo dentro de um quadrado tem espaço para se mover. Um quadrado em um quadrado é imóvel.

115. Quais são as coisas que são circulares?

São os pontos de vogais na Torá de Moisés, pois são todos redondos. São para as letras como a alma, que habita o corpo do homem.

É impossível que o homem venha [a este mundo] a não ser que a alma resista dentro dele. É impossível que ele pronuncie qualquer coisa, grande ou pequena, sem ela.

De modo semelhante, é impossível dizer palavra, grande ou pequena, sem os pontos das vogais.

116. Todo ponto de vogal é redondo, e todas as letras são quadradas.

Os pontos das vogais são a vida das letras, e é através delas que as letras resistem.

Os pontos das vogais passam pelos canais até as letras através do olor de um sacrifício, que imediatamente desce. É portanto chamado de “uma fragrância descendente (agradável) para Deus” – indicando que agrada a Deus.

Eis o sentido do versículo (Deuteronômio, 6:4), “Escuta, Israel! O Eterno é nosso Deus, o Eterno é um só!”

Acredito que, apesar de Rimbaud não estar de fato citando o Bahir, há semelhanças o suficiente entre os discursos para apontar algum grau de familiaridade senão com este livro de fato, pelo menos com o pensamento místico por trás, de modo que haja um princípio semelhante orientando a ambos. Mas há um deslocamento claro em Rimbaud: o misticismo do Bahir é sustentado por uma relação, possivelmente conflituosa, mas clara, com a religião judaica tradicional, para a qual o hebraico tem um estatuto de língua sagrada. Ao transpor esse processo para o alfabeto latino e falar não de patach e segol, mas de AEIUO, ao meu ver, ocorre algo parecido com quando Baudelaire e Mallarmé tratam de transcendência, que, como comenta famosamente Hugo Friedrich em Estrutura da Lírica Moderna, é uma transcendência vazia. E, assim, ao recorrer a um processo semelhante de associação de imagens, Rimbaud está reivincando para si um papel como o do místico ou do vidente, mais ou menos nos moldes daquilo que Scholem descreve no trecho que citei aqui numa postagem anterior. Não se trata (pelo menos não necessariamente) de uma experiência mística real, mas da poesia como uma metáfora dessa experiência. Nada disso vai elucidar o sentido por trás das imagens individuais usadas por Rimbaud aqui, apesar de que o que é dito no parágrafo 115, que as vogais são a alma da fala, parece ser profundamente significativo – em todo caso, essas coisas são algo a ser levado em conta, que, pelo menos para mim, parece desfazer muito da névoa de arbitrariedade opaca que envolve o poema.

(Adriano Scandolara)

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9 poemas de marcus fabiano

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Marcus Fabiano Gonçalves (1973) é gaúcho e mora no Rio de Janeiro, onde é professor de Hermenêutica e Filosofia do Direito na Universidade Federal Fluminense. Os textos dessa seleção pertencem ao seu segundo livro de poemas, ARAME FALADO (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012). O autor também publica ensaios e inéditos no endereço: marcusfabiano.wordpress.com

* * *

Me habéis preguntado qué hila el crustáceo
entre sus patas de oro y os respondo: el mar lo sabe.
Pablo Neruda

OS NOMES DO MAR

o mar cria seus próprios cavalos e torna-se pedra quando muito gelado. ele não conhece flor nem fogo e mesmo assim pode queimaduras e adornos. tem enguias e mães d’água, corais e algas. o seu chão constela-se de esponjas e anêmonas. o mar é pródigo em estrelas e proventos. mas não tem galhos para os pássaros nem cabelos para os afogados. o mar é um cofre de naufrágios. no seu fundo caminham os escafandristas. entre moreias e meros seus sapatos levitam. o mar é duro e delicado como a carapaça de um crustáceo. em suas angras ele brinca de aquário. é aéreo nas nuvens e seu humor sujeita-se à lua. o mar arrasta ou empurra. e seus abismos devoram muitas âncoras. são os brincos que Iemanjá reclama. na praia a onda lambe a areia mas nunca há ânsia. o plâncton escoa na garganta e o píer é um palito que por ela avança. e se um farol a ilumina, ei-la sem amídalas. o mar é inteiro boca e saliva. e nunca cospe, apenas engole. quem pensa em ressaca o enxerga de fora. ou acredita em mentiras. o mar exige sorte além de perícia. o mar salga e salva. seu imenso é um cemitério de almas. o mar não se cala quando quer, por isso é bem maior que o céu. ele dá a volta ao mundo sem andar em círculos e move as nadadeiras do pensamento perdido. o mar pode ser lindo e sinistro. solares e umbrívagos são seus caminhos. e eles recolhem muita espuma pelas bordas. o mar é imêmore e guarda todas as horas. e só chega à costa para que alguém possa vê-lo. o homem que o vê é um peixe seco. de ar e sangue, e sem guelras. o homem é igual ao mar, concebe e faz guerras. deus separou a porção seca do mar e pôs o homem a viver nela. a terra separa as águas como a vontade faz com os homens. em sua crosta há duas árvores: a do conhecimento e a da vida. a lei é que certas frutas vermelhas são interditas. para ir de um lado a outro o homem tem pés. para atravessar o mar, navios e Moisés. em terra o homem é o lobo do homem. já o lobo marinho é bem mais tranquilo. é mimoso feito um ouriço recém-nascido e quando cresce não promete espinhos. frente ao mar o homem tem arroubos divinos: caminhar sobre as águas, multiplicar os peixes. mas sua vida terrestre é de carne e leite. o homem brinca de deus quando teima. ele se consome de porquês e se fabrica problemas. o homem brinca de deus porém vive no tempo. e no mar ele nomeia seus medos: mar morto, mar negro, mar vermelho. o homem é água e enredo.

§

PAPAYAS A TUS PIES

palha, madeira ou tijolo:
o lobo mau assoprando
o leitão natalício do porco

(como uma bigorna filosófica
dentro se pode levar peso morto)

Lima, bairro de Miraflores
margeando o Pacífico
um motorista de táxi ensina-me
algumas palavras em quéchua:
ura, quiere decir cabeza

depois mostra uma ponte:
mira, de allá saltan los locos
o los desesperados

y se caen al suelo
a tus pies (ploft!)
como papayas.

§

TUBO DE RAIOS CATÓDICOS

sim, a gravidade é só esse detalhe
se um trapézio emparelha o Pégaso
e o olho é o novo umbigo do limbo
com os ouvidos por tubo digestivo

mera burla nesse cipoal de psicóticos
que se abole à custa de uns colchetes
e mormaços de manás propiciatórios

o teclado no covil dos metacarpos
e logo a luz desnumbra os nimbos:
raios escarificam bruxas e odaliscas
imoladas em fogueiras de vaidades
ou atiçadas pelas próprias crinas

e recolados à tela da TV que somos
as muitas Moiras e um Belerofonte
se revelam no elemento Estrôncio.

§

TALHERES DE PRATA

naquelas noites enluaradas
ele passava de calvo a hirsuto
e o seu jeito calmo, taciturno
mudava em espasmos e uivos

toda pele comichava muito
e durante um jantar de gala
ele explicava aos convivas
sua grave alergia à prataria

no canto do terraço escuro
sob uma lua já cheiíssima
foi visto abrindo um tubo
grande, como de vitamina

pensaram em crise cardíaca
porém no rótulo constava
pastilhas para licantropia.

§

GRILAGEM

os jagunços dizendo que capavam
nada sabiam das bolas de Abelardo:
brandiam páginas sem cabeçalho
de arcabuz engatilhado no sovaco

em um varal de fios desencapados
andrajos espichados pelos caibros:
o couro do pandeiro trina o nervo
e uma mulher berra sobre o berço

no vau desse mato mal emancipado
várias vidas esgravatam sob o taco
da luzida bota do dito proprietário.

§

DRUMMOND, FARMACÊUTICO

na usinagem das anginas, o melhoral:
do neurônio à reles bactéria digestiva
bálsamo para as dores que excruciam

contra as tênias do tédio, o vermífugo
que clareia a fosca alameda dos cinzas
e ladrilha uma vereda com pedrinhas

o velho tônico de combate à anemia:
o ferro do sangue, o mesmo da mina
sabendo a bílis negra da melancolia

e para os achaques de asma ou mialgias
a melhor cânfora que arrepia as plumas
ali onde é mais viva a nossa carne crua.

§

Quando te aproximares da terra, abre os olhos.
Américo Vespúcio, 1503

AVISO AOS NAVEGANTES

no perene provisório o atol é sem atalhos: Abrolhos
e os abra como se ordenasse um Sésamo, bem abertos
mais ainda se as quilhas que singram entranhas do mar
são longas lâminas de foices ceifando contra o fúcsia
onde – avisa Vespúcio – há recifes de floração súbita.

§

MIDAS BIJUTERIAS

dispensado
da joalheria
cultivava
suas cintilâncias
com o que tinha:
de um ouro
aparente
e de umas gemas
de acrílico
o velho ourives
seguia tirando
o sustento
dos filhos

da alquimia
à maquiagem
obtinha ligas
que tingidas
de dourado
a todos olhos
encantavam

meticuloso
só não gostava
que dissessem
ser de tolo
o seu precioso
falso ouro

tão modesto
com seu dom
de reproduzir
o que cintila
que só dizia
imitar o Midas
em seu toque
de bijuteria.

§

SPAGHETTI WESTERN

por três segundos, naqueles fotogramas da sétima arte, só um coldre sobre o catre. um corte para o vilão (carranca de bebeu vinagre) e dois índios impávidos (mexicanos de forte-apache). na tomada alguns agaves e pelotas de feno pela rua do combate. quatro closes alternados completam a sequência do face a face e o tema do suspense encaminha-se para o ápice. as mãos rápidas e então os saques: cai o mocinho sem acreditar que seu Smith & Wesson engasgue. agora entendes a insistência na imagem? tiraram as balas do revólver do coldre sobre o catre. velhos truques da dramaticidade: bandido bom, melhor se for covarde.

Padrão
poesia, tradução

poesia flarf, por danilo augusto

flarf

INTRODUÇÃO À POESIA FLARF

O poeta Gary Sullivan ligou para saber da saúde do seu avô, dias antes de sua morte, e recebeu a notícia orgulhosa que ele, o avô, havia ganhado um concurso de poesia promovido pelo poetry.com. Este site lembra o nosso recantodasletras.com.br, onde uma base gigantesca de escritores tem seu perfil pessoal e onde trocam mútuos elogios; com este diferencial de fazer concursos por encomenda onde os “ganhadores” devem pagar por seu prêmio.

Consternado, Gary resolveu fazer sua inscrição no site e enviar-lhes “o poema mais ofensivo que pudesse”. Ele escreveu este primeiro poema que consta na tradução, sem nome, onde o primeiro verso se constituía, apenas, por: mm-hmm. E foi assim que, três semanas depois, ele recebeu em casa uma carta com seu poema impresso, informando que, entre milhões de envios, mm-hmm havia sido selecionado para integrar um grande projeto de publicação em “couro aristocrático e inscrições douradas”, pois apresentava uma “visão única da vida” e “acendia a imaginação”.

Mm-hmm foi o primeiro poema flarf.

Gary convidou outros poetas e amigos a enviarem obras para poetry.com e os textos que surgiram foram depois batizados com este neologismo meio difícil de traduzir, mas fácil de intuir. Flarf aglutinaria, primeiramente, noções como “tosco”, “gordurento”, “equivocado”, mas também algo como “fofo” e “porra-loca”. Um termo que marcaria bem a intenção de borrar qualquer separação entre o que pode e não pode entrar em um poema.

A primeira “técnica” que veio caracterizar a poesia flarf foi a escrita baseada em buscas na internet. Talvez, fazendo parte de um ethos de uma escrita “não-original”, de “segunda mão”, onde o “recortar-copiar-e-colar” abre margens pra duas consequências majoritárias. A primeira, e mais óbvia, é o sem-sentido, a arbitrariedade e uma negação da subjetividade. Mas a segunda é um jogo com algo que, talvez, possamos chamar de uma “superestrutura do senso comum”. Os sofisticados e gigantescos logaritmos do Google permitem ao poeta acessar uma teia de milhões de bilhões de entradas e sair com denominadores da maioria. No meio da miríade rizomática da internet, o mecanismo de busca fornece uma amostra por contabilidade e presunções numéricas. Uma resposta maquinal com base em um grande escopo de entradas pessoais. Como um grande fornecedor do senso comum social.

O uso do Google não foi exclusivo nem pioneirismo dos poetas flarfs, e remonta a uma semelhança, por exemplo, com a prática de Angélica Freitas. Ela, em alguns momentos, faz algo que poderíamos chamar, pelo menos, de “mais ordenado” quando direciona perguntas ao Google e o deixa responder. Assim, a poeta ganha acesso a certo zeitgeist e incorpora ele próprio, o zeitgeist, como matéria de seus poemas. Outras medidas flarfs, mais dadaístas, consistiam em fazer entradas aleatórias no Google e escrever a partir destes resultados. Assim se dá, por exemplo, o Three Poems on Demand, de Jordan Davis, (que se encontra nestas traduções). Outra característica do Flarf seria idiossincrasias bastante arbitrárias de grafia de palavras e disposição tipográfica do poema como, por exemplo, vemos em Steve Roggenbuck, poeta mais novo do que os outros dois. Às vezes a grafia, em Roggenbuck, parece se assemelhar à pratica de uma digitação informal, porém em outros casos, os “erros” parecem não ter nenhuma ligação com alguma prática de escrita e serem puramente estranhos e arbitrários à norma padrão.

Os poetas flarfs transformaram em um movimento, em uma vertente poética de língua inglesa, algo que, desde o surgimento dos grandes mecanismos de pesquisa, vem sendo apropriado de diferentes formas por escritores, profissionais ou não, do mundo todo. Hoje, existe, por exemplo, alguns sites e blogs destinados somente a prints de entradas e sugestões do Google, sendo que cada print constitui um poema. Um exemplo é o poesiadogoogle.com, porém há diversos outros.

A escrita de poemas em ambiente de rede é algo que já remonta há, pelo menos, três décadas; porém que só veio a ganhar maior relevo e estudos iniciais há poucos anos. Mesmo os recursos fornecidos pelas plataformas da internet ainda parecem ser timidamente explorados. Uma escrita em ambiente digital poderia incorporar aspectos verdadeiramente múltiplos e com grandes inovações formais, onde a utilização de buscadores ou formatadores de textos se constituem como apenas alguns dos exemplos. Um novo caminho, ainda apenas iniciado, seria o prosseguimento do desejo concretista por uma “melodia de timbres”, onde a palavra, já em sua natureza verbovocovisual, se alinhasse à tipografia digital, imagem, vídeo, som e a essas duas características mais próprias e, talvez, menos exploradas na escrita digital: o hiperlink e a atualização em tempo real. E que o ambiente virtual, enfim, presenteasse a literatura com toda esta potência imanente em sua natureza mais referenciada: a velocidade e a multiplicidade.

Este post se faz como uma rápida introdução à poesia flarf e uma pequena amostra do que nela foi escrito. E, também, como uma brevíssima introdução ao que de novo tem sido feito e ao que se pode fazer na junção entre internet e escrita, principalmente a escrita de poemas. Por isso, a tradução que apresento brinca com certa noção intersemiótica, que retirei das aulas de graduação que venho tendo. Pensando a própria tradução como a arte de chegada, uma recriação desta técnica comum ao flarf (a escrita com auxílio de buscadores) foi fácil e direta. Os poemas foram escritos e reelaborados a partir de resultados e opções providos pelo Google Tradutor e por dicionários de colaboração aberta como o urbandictionary.com.

Danilo Augusto

* * *

 POESIA FLARF TRADUZIDA A PARTIR DE RESULTADOS DO GOOGLE TRADUTOR

 

GARY SULLIVAN

Mm-uuhhmm
Sim, uumm-huhmm, é verdade
grandes pássaros fazem
grande caca! Tenho fogo no rabo
meu cara(lho) de macaco
vai ser agressivo, vai ser gorduroso aêê sim deus
quer Cáaa! Caaaaa!
Pffffffffffffffffffffffffft! Etcha!
oooh assim baby vai tremer e cozer e então receber
AÊÊÊSS Tá Cá seu dinnndiin, meu pudim (hiii hiiii)
bela-bosta-boa-bunda-buga-buga
ei ei! seu gringo retardado! cai
fora da gringolândia e me sai
com um todinho carai
bota Gil pra rodar e mexe té vomitar
rola-fula-fura-bunda-DING DONG
porra! merda! mijo! oh é tão triste
está síndrome chamada Tourette
me faz ÊÊÊPAA! gritar bem alto
Pq te amo. Obrigado, meu Deus, por escutar!

Mm-hmm
Yeah, mm-hmm, it’s true
big birds make
big doo! I got fire inside
my “huppa”-chimpTM
gonna be agreessive, greasy aw yeah god
wanna DOOT! DOOT!
Pffffffffffffffffffffffffft! hey!
oooh yeah baby gonna shake & bake then take
AWWWWWL your monee, honee (tee hee)
uggah duggah buggah biggah buggah muggah
hey! hey! you stoopid Mick! get
off the paddy field and git
me some chocolate Quik
put a Q-tip in it and stir it up sick
pocka-mocka-chocka-locka-DING DONG
fuck! shit! piss! oh it’s so sad that
syndrome what’s it called tourette’s
make me HAI-EE! shout out loud
Cuz I love thee. Thank you God, for listening!

JORDAN DAVIS

Canapés

Sinto falta do quebra-quebra ao lado da cama.
As regras duras e ligeiras, o negócio,
Andando pela cidade as mãos do meu bem nas minhas
Dão-me angústia mal amadurecida Rosado

Quem não adora ouvir alguma angústia.
Você não estaria tão equivocada para acordar
De um sonho em uma reclusa de um parque em Rioja
Pós-Auden deu água obrigado ao burburinho do Timex

Esses sentimentos estão em sua boa sorte.
Sequer preciso da bolacha duma hóstia
Para precisar transmitir maldições
Sumir como um docente enquanto a bolsa cai

Amuse-Bouche

I miss the moshpit pushed to the side of the bed.
The hard and fast rules, the business,
Walking across town the baby’s hand in mine
Gave me anxiety Rosado barely mellowed.

Who doesn’t love to hear about anxiety.
You wouldn’t be too wrong to wake from dreaming
Into an amusement park sluice of Rioja
Eau de post-Auden thanks a lot Timex hubbub.

Those feelings are in their way good luck.
I don’t even need a communion wafer
To feel the need to broadcast imprecations
Fade like a docent as the hedge fund falls.

Três poemas por encomenda

Tartarugas geram poemas

Nenhuma surpresa que se movam tão lentamente–
Alguém ali está
Tentando escrever.

Imagem de Pernalonga vestido como um vândalo

O que me levou a desenhar esta imagem
De Pernalonga vestido como um vândalo?

Diverso. Imagens. Nem uma vez sequer
Esbocei seu lustroso torso tatuado

Mas repetidamente, dia após dia
O Pernalonga pareceu malvado, não foi?

Quando oh quando acaba esta eleição
Pra eu explodir a vida de novo

Sem produzir sem querer estes objetos
Tão belos e misteriosos-pra-mim?

Poema para o sexto aniversário de casamento

Você sabe melhor do que eu
O que está fazendo

Three Poems on Demand

Turtle Generate Poems

No wonder they move so slowly—
Somebody in there is
Trying to write.

Pictures of Bugs Bunny Dressed Like a Tug

What drove me to draw this picture
Of Bugs Bunny dressed like a thug?

Plural. Pictures. Not once did I sketch
The buff tattooed torso of Thug Bugs

But many times, over several days.
He looks mean, doesn’t he? When O when

Will this election be over
So I can blow off life again

Without inadvertently producing objects
Of great and mysterious-to-me beauty.

Poem for a Sixth Wedding

You know a lot better than I do
What you’re doing

NOTA: “Três Poemas por encomenda” foi escrito em resposta a uma pesquisa na web que levou ao extinto blog de Jordan Davis (os termos das pesquisas tornaram-se o título dos poemas)”

STEVE ROGGENBUCK

De Gosto de outubro quando estou morto

não dou a mínima pra leitura de poemas
quem você acha que sou, robert frost?
nunca fui à floresta e odeio caminhar

(…)

você se foi
tive amendoins no almoço

(…)

tenho dois girassóis murchando na estante
é isto
apenas
cai fora do meu poema

(…)

aluguei um filme e gravei duas horas de mim mesmo por cima
grito elogios pra minha família no vídeo
queimo meu carro de propósito
é janeiro
saúdo a mim mesmo no início de uma grande carreira

I like october when I am dead

i dont care about reading a poem
who do you think i am, robert frost?
i have never been in the woods and i hate walking

(…)

you are gone
for lunch i had peanuts

(…)

i have two sunflowers wilting on my bookshelf
thats it
thats all
the poem is done, get out

(…)

i have two sunflowers wilting on my bookshelf
thats it
thats all
the poem is done, get out

(…)

i rented a movie and recorded over it with two hours of myself
on the video i am shouting compliments at my family
i burn my car on purpose
it is january
i greet myself at the beginning of a great career

de BAIXE HELVETICA EM FREE.COM

É ASSIM QUE VOCÊ
ESCREVE ISSO?
ATREYU

O CÉU É LINDO…
BOM TRABALHO
CAPTURÁ-LO
NA SUA
FOTO

DESTINO
FINAL 3
SAIU EM DVD

ESTOU COMENDO
TORTA DE PERA, HAHA
BIZARRO

BIZARRÃO

NA TV, ELES
MOSTRARAM COMO O ESTÔMAGO É
REALMENTE GRANDE
E EU ESTAVA TIPO UAU…
COMO É PEQUENO


ACABEI DE COLOCAR
ALGO NA
MINHA GAVETA DE CIMA
E VI
A FOTO
DE VOCÊ E DE MIM

from DOWNLOAD HELVETICA FOR FREE.COM

IS THIS HOW YOU
SPEEL THIS?
ATREYU

THE SKY IS BEAUTIFUL…
NICE WORK
CAPTURING IT
IN YOUR
PHOTOGRAPHY

FINAL
DESTINATION 3
IS OUT ON DVD

I AM EATING
PEAR PIE, HAHA
WEIRD

WEIRD INDEED

ON TV, THEY
SHOWED HOW BIG A STOMACH
ACTUALLY IS,
AND I WAS LIKE WOW…
THAT IS SMALL

I JUST PUT
SOMETHING IN
MY TOP DRAWER
AND SAW
THE PICTURE
OF YOU AND ME

 

it was dark music(traduções. de danilo augusto)

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poesia

rodolfo jaruga (1982-)

rodolfo jaruga

Rodolfo Jaruga é curitibano do ano 82. É tradutor de Ezra Pound, T. S. Eliot e Jorge Luis Borges. Recebeu em 2009 o prêmio Helena Kolody de poesia, da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, pelo poema Ruínas de Tróia, ocasião em que foi publicado. É advogado, enxadrista e ativista social.

guilherme gontijo flores

* * *

Excertos do Terror

I. Uma mulher e um homem. Soldados.

Algum dia falaremos sobre amor?
Só quando a morte fizer sentido, respondeu,
e urinou sobre o cadáver do inimigo.

II. Ah, o mar Mediterrâneo

……….Carla, mon amour,
ele disse num francês que eu não me atreveria,
Carla, mon amour, beijo a tua boca
como quem beija uma esfinge.
E ele afundou a ponta do nariz
na penugem de cabelos da nuca dela.
……….E Carla então fez deslizar o dedo indicador
pelos botões,
a unha contra o branco da camisa,
soltou o cinto, abriu a braguilha
e disse, Nicolás, mon amour,
eu pego no teu pau como que pega num fuzil.
……….Na segunda noite, no mesmo hotel,
Nicolás lavou os pés de Carla Bruni com petróleo líbio.
Você consegue imaginar?
Ela deitada, a camisola ao vento e o mar
mediterrâneo emoldurado na janela
e o presidente ajoelhado untando os pés mais brancos da Europa.
……….Na terceira noite ele foi à guerra.

III. Franco-atirador no balcão de um bar

……….Foi do alto de um telhado,
na primavera de dois mil e quatro.
O primeiro caiu como um carvalho na floresta.
O segundo como uma velha no banheiro.
……….E o terceiro?
O terceiro caiu como uma torre de Manhattan.
Pam. Bem na cabeça.

IV. O discurso do Ministro Watkinson

……….Minhas palavras não cabem na boca de um poeta,
disse o ministro mui modestamente
enquanto o dedo indicador movia as pedras
que boiavam feito corpos frios
num copo de bourbon.
……….E a Senhora Rosenthal sorriu então,
cruzou as pernas ajustadas ao vestido prateado e exibiu
as longas unhas esmaltadas,
e no exato instante em que cessava o jazz
ela indagou, mas servem pra calá-lo?
……….Suas palavras servem pra calar a boca de um poeta?
Então, Senhor Ministro, dá no mesmo.
E todas as mulheres gargalharam.
……….Instantes depois ele subiu ao púlpito
e defendeu a invasão do Iraque
com mais fervor e coerência que um professor de Oxford
jamais defenderia alguma tese sobre James Joyce.

V. Carlitos e Alice

……….A mesma mão que tombou o muro de Berlim
cunhou esta moeda, ele falou, enquanto o rosto dela repousava
sobre peito gordo dele.
……….Quando em Atenas eu gastei o meu salário inteiro
pra comer tomates bem vermelhos, ele falou,
e queijo fresco,
em Frankfurt um banqueiro deu risada.
……….E ela passava o dedo indicador pelo cabelo engordurado dele.
……….Quando em Lisboa eu gastei o meu salário
pra beber o vinho branco como o mar
num quarto de pensão menor que este, ele falou,
em Frankfurt outro banqueiro deu risada.
……….Ah, menina, se você soubesse que a mesma mão
que tombou o muro de Berlim agora alisa a tua pela de imigrante.
……….Não seja tolo, ela me disse,
desabotoando
novamente
o sutiã.
……….Foi a vontade de foder que derrubou o muro de Berlim.
Igualzinha à tua.
……….E banqueiros não sabem foder, eles fazem amor.

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poesia, tradução

7 vezes “Aedh wishes for the cloths of Heaven”, de William Butler Yeats

Jackie Mackenna "He wishes for the cloths of Heaven", memorial com base no poema

Jackie Mackenna “He wishes for the cloths of Heaven”, memorial com base no poema

originalmente publicado no volume The wind among the reeds (1899), “Aedh wishes for the cloths of Heaven” é um dos poemas mais famosos de william butler yeats (1865-1939). tanto, que já apareceu até num filme como Nunca te vi, sempre te amei (84 Charing Cross Road) , na voz de antony hopkins. ele incorpora o que é visto muitas vezes como uma primeira fase da poesia de yeats, em que predominam as influências do romantismo, da poesia vitoriana e do simbolismo, ao lado de temas muitas vezes retirados da mitologia céltica e folclore irlandês – é anterior, portanto, a outros poemas famosos, como “The second coming” (1919-20) ou “Sailing to Byzantium” (1928). como já fizemos aqui outras vezes, acho que a maior homenagem que podemos fazer a um poema é reunir seus tradutores. por uma coincidência dessas que não sabemos como, bruno d’abruzzo me enviou sua tradução inédita na mesma semana em que eu havia visto a de andré vallias no facebook. além disso, eu já sabia da existência de pelo menos mais uma ou duas. aqui estão reunidas todas que pude encontrar.

guilherme gontijo flores

AEDH WISHES FOR THE CLOTHS OF HEAVEN

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

(William Butler Yeats)

* * *

* * *

OS TECIDOS DO CÉU

Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,
ornados de ouro e prata em luz,
panos azuis foscos breus
da noite, luz, e da meia-luz,
estenderia os tecidos sob teus pés.
Mas, pobre, tenho apenas sonhos;
são eles que estendo sob teus pés.
Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos.

(trad. inédita de Bruno D’Abruzzo)

* * *

AEDH DESEJA OS TECIDOS DO CÉU

Se eu tivesse, do céu, os tecidos
Drapejados, bordados com luz
De ouro e prata, e os escuros tecidos
Azuis da noite e a meia-luz
E a luz, deitava-os sob os teus pés:
Mas, pobre, tenho apenas meus sonhos;
Deitei meus sonhos sob os teus pés;
Pisa de mansinho, pois são meus sonhos.

(trad. quase inédita de André Vallias)

* * *

Ele deseja os tecidos bordados do paraíso

Tivesse eu os tecidos bordados do paraíso,
Adornados com luz dourada e prateada,
Os azuis, sombrios e escuros tecidos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu os estenderia sob seus pés:
Porém, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;
Eu estendi meus sonhos sob seus pés;
Pise suavemente porque você está pisando em meus sonhos.

(Trad. de Ricardo Cabús)

* * *

AEDH DESEJA OS TECIDOS DO CÉU

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)

* * *

AS SEDAS BORDADAS DO CÉU

Se eu tivesse as sedas bordadas do céu,
com bainhas de luz de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras,
da noite e da luz e da meia-luz,

deitava-as todas aos teus pés.

Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,
é nos meus sonhos que estás a pisar.

(Trad. de Miguel Esteves Cardoso)

* * *

ELE DESEJA OS MANTOS DO CÉU

Se eu tivesse os mantos bordados do céu,
Envoltos com luz de ouro e prata,
Os azuis e os cerúleos e os escuros mantos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu estenderia os mantos sob teus pés;
Mas eu, por ser pobre, só tenho os meus sonhos;
Eu estendi os meus sonhos sob teus pés;
Pisa com cuidado porque pisas nos meus sonhos.

(trad. de Rachel Gutiérrez)

 

 

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poesia

Hugo Langone (1987)

José de Arimateia

Se houve quem
Incompreendesse
O momento

Foi este
De que pouco se sabe

Cujo peito
Na noite sentiu o esplendor
Dum morto
Seu amigo

E ouviu
Segredar no silêncio
Da terra, dos anjos

Uma palavra só,
Incessante

*

Poema

É belo o poema que traz
Nomes de flores
E une a arte do Deus
À solidão de um só homem.
O poema que tem o olor
Das violetas, que transforma n’algo
O lírio e recorda quão delicada
É a criação.

*
Qual um historiador
 

Não se sabe que é cruel o mar
Até que se prostrem Penélope
Dido, Mônica, às suas margens
Até que se prostrem onde o mar toca a costa
E azul nenhum vale a terra firme
Que talvez florirá hoje, amanhã

Em mil anos.

*

Ao sacristão da Santa Maria Maggiore de Florença

Quando perguntarem por que mancas,
guarda para ti, contrito:
não diz que é o olhar de Francisco
e o linho roxo,
que um anjo te pesa ao pé a cada passo;
não diz, nem diz também que tem sorte, que
“é leve o peso da cruz
em meus ombros -
rígido como essa madeira, hoje
sou firme como o lenho!”
Deixa tudo de fora, sim,
nem diz que é só hoje,
que a cada manhã
todo peso se renova sempre,
imprevisível.

Hugo Langone é carioca, mestre e doutorando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aos 27 anos, traduziu autores como São João da Cruz, Bernard Lonergan, Roger Scruton, Lionel Trilling, Marshall McLuhan, Leo Strauss (no prelo), entre muitos outros. Sua poesia, eminentemente católica, é uma poesia de resgate da dimensão sobrenatural, do anseio pelo transcendente, na esfera do cotidiano. Os poemas que o Escamandro agora publica são de seu primeiro livro, recém-concluído.

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