Ingeborg Bachmann

Nascida em Klagenfurt, Áustria, em 1926, Ingeborg Bachmann se tornou uma das mais interessantes poetas de língua alemã do pós-guerra. Influenciados pela poesia de Rilke e Celan, mas também por filósofos como Heidegger e Wittgenstein (doutorou-se em filosofia pela Universidade de Viena com a tese Recepção Crítica da Filosofia Existencial de Martin Heidegger), seus poemas, repletos de evocações da natureza e imagens herméticas apontam para o silêncio que está além das palavras e para o tempo que contém em si a própria superação.

Também refletem, como seria de se esperar em uma obra poética em língua alemã que se desenvolve sobretudo nos anos 50 (seus dois grandes livros de poesia, Die gestundete ZeiteAnrufung des grossen Baren são respectivamente de 1953 e 1956), a inquietação de um mundo que viu suas ilusões serem destruídas por bombardeios e câmaras de gás.

Todos esses temas, obviamente, não são capazes de explicar a beleza de seus poemas. É antes na maneira como os aborda, como os transforma em linguagem e símbolo que está sua força. Apesar de seu trabalho filosófico, Bachmann não foi autora de um tratado sobre o ser e o tempo, mas de um livro chamado Tempo Aprazado.

Aliás, esse também é o título de uma coletânea em português de sua poesia, que apesar dissopossui poemas de suas diversas fases, publicada, em uma edição bilingue, pela editora Assírio & Alvim de Portugal em 1992, tendo como tradutores João Barrento e Judite Berkemeier. É dessa edição que seleciono os três poemas que se seguem:

 

DESPRENDE-TE, CORAÇÃO

Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.

Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

 

TEMPO APRAZADO

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areai sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães

Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

 

DIZER TREVAS

Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.

Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda úmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.

Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.

A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.

E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.

Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.

 

bernardo lins brandão

microantologia da “antologia de spoon river”, de edgar lee masters

eu pensei em três jeitos de começar este post:

1 – ezra pound (eu já disse em outro post) também era um idiota às vezes. ele, por exemplo, fez o desfavor para este mundo de despaideumizar a obra de edgar lee masters (1868-1950). nós fazemos o desfavor de não sairmos de paideumas prontos; & aqui ele é dos irmãos campos via pound; i.e., by by shelley, whitman, masters, &céteras, que supostamente estão fora do formalismo inventivo ou da linha evolutiva da literatura universal (em caixa alta por favor)!

2 – um dos meus contistas favoritos, pra não dizer meu favorito, já que prefiro evitar esse tipo de julgamento, é edgar lee masters, sobretudo no seu livro intitulado spoon river anthology (1915), com mais de 200 poemas(?) baseados na vida dos seus conterrâneos provincianos de petersburg & lewistown, ficcionalizada no universo da cidade inventada de spoon river, às margens do rio homônimo.

3 – o epigrama funerário de edgar lee masters é uma das maiores contribuições da poesia moderna, um marco do modernismo americano fundado na poesia grega (mais especificamente na anthologia palatina), que quase ninguém conhece. ele é o whitman fora de si: enquanto o velho whitman incorporava tudo no canto de si mesmo, lee masters se incorporava no cantar do outro. não à toa, fica impossível não ver ecos dos seus versos no que há de melhor em w.c.w., ginsberg & bukowski, dentre outros.

dito isso, na dúvida sobre como começar, deixo três começos, sem resultado, fora a tradução de alguns desses poemas, que andaram me movendo nos últimos dias…

ps: conheci lee masters pela edição bilíngue de josé miguel silva, pela relógio d’água. eu poderia ter postado traduções dele, mas não tenho lado lusitano para traduções: elas sempre me parecem erradas, ou quando certas, certamente assim eu acho pelos motivos errados. por isso tentei repassar nestas versões o nosso coloquial literário brasileiro que definitivamente não aparece na versão portuguesa.

MICROANTOLOGIA DA ANTOLOGIA DE SPOON RIVER

HOD PUTT

Aqui jazo junto à cova
Do velho Bill Piersol,
Que enriqueceu no comércio com índios e que
Depois se aproveitou da Lei da Falência
Pra ficar mais rico ainda.
Eu cansado de labor e miséria,
Ao ver como o velho Bill e outros ganharam dinheiro,
Roubei certa noite um viajante perto de Proctor’s Grove
E sem querer acabei matando,
Então fui condenado à forca.
Foi o meu jeito de declarar falência.
Hoje nós dois que de algum jeito nos aproveitamos da lei da falência
Repousamos lado a lado.

OLLIE MCGEE

Vocês viram passar pela vila
Um homem cabisbaixo e cadavérico?
É meu marido, que por uma crueldade
Inenarrável me roubou a beleza e a juventude;
Até que enrugada, de dentes amarelos,
Sem orgulho, humilhada e submissa,
Afundei nesta cova.
Sabem o que remorde o coração do meu marido?
O rosto do que eu fui, o rosto que ele me fez!
É Isso que o traz até aqui.
Na morte, então, estou vingada.

CHASE HENRY

Em vida, eu fui o cachaceiro da cidade;
Quando morri o padre me negou enterro
Em solo santo,
O que acabou por ser a minha sorte.
Porque os protestantes compraram este lote
E me enterraram aqui.
Junto à cova do banqueiro Nicholas
E da sua mulher Priscilla.
Atentem, ó almas pias e prudentes,
Às contracorrentes da vida,
Que honram os mortos que viveram humlihados.

KINSEY KEENE

Atenção, Thomas Rhodes, gerente do banco,
Coolbaugh Whedon, editor da Argus,
Rev. Peet, pastor da igreja principal,
A. D. Blood, tantas vezes prefeito de Spoon River,
E todos vocês, membros do Clube da Pureza Social –
Atenção às palavras finais de Cambronne,
Junto aos heróis da resistência
Guardas de Napoleão, sobre monte Saint Jean,
Na batalha de Waterloo,
Quando o inglês Maitland bradou:
“Rendam-se, ó bravos franceses!” –
No final do dia, sem esperanças de vitória,
Quando um bando de homens, não mais o exército
Do grande Napoleão,
Flutuava pelo campo feito farrapos
De nuvens na tempestade.
Bem, o que Cambronne disse a Maitland
Antes que o fogo inglês aplainasse a colina
Contra a luz fugidia do entardecer,
Também eu digo, e pra todos vocês,
E pra você, mundo.
Com o engargo de gravarem
Na minha tumba.

EMILY SPARKS

Cadê meu garoto, o meu garoto –
Onde ele está neste mundo?
O garoto que mais amei em toda a escola? –
Eu, professora, solteirona, coração puro,
Que os considerava todos como filhos.
Será que eu conhecia o meu garoto
Ao pensar que era espírito ardente,
Ativo, sempre à frente?
Ah, garoto, meu garoto, por quem tanto rezava
Em tantas noites de insônia,
Você lembra da carta que escrevi
Sobre o belo amor de Cristo?
Quer tenha recebido ou não,
Garoto, onde quer que esteja,
Trabalhe pela tua alma,
Para que todo teu barro, todo teu pó
Cedam ao teu fogo,
Até que o fogo seja pura luz!…
Pura luz!

TRAINOR, O FARMACÊUTICO

Só um químico sabe dizer, mas nem sempre,
O que resulta da mistura
Entre fluidos e sólidos.
E quem sabe dizer
Como interagem homens e mulheres
Entre si, ou que filhos daí resultam?
Por exemplo, Benjamin Pantier e sua mulher,
Bons em si mesmos, maus um para o outro:
Ele oxigênio, ela hidrogênio,
Seu filho, um fogo devastador.
Eu, Trainor, o farmacêutico, que misturo químicos,
Morto durante um experimento,
Nunca me casei.

KNOWLT HOHEIMER

Fui as primícias na batalha de Missionary Ridge,
Quando senti a bala entrar no coração,
Desejei ter ficado em casa ou sido preso
Por roubar os porcos de Curl Trenary,
Em vez de fugir e entrar para o exército.
Mil vezes a prisão municipal
Do que jazer sob uma imagem de mármore com asas
E as palavras “Pro Patria”.
O que que isso quer dizer?

LYDIA PUCKETT

Knowlt Hoheimer fugiu pra guerra
Um dia antes de Curl Trenary
Arranjar a ordem de prisão com o juiz Arnett
Por roubar seus porcos.
Mas não foi por isso que virou soldado.
Ele me pegou correndo com Lucius Atherton.
Brigamos e eu disse pra ele nunca mais
Aparecer na minha frente.
Aí ele roubou os porcos e foi pra guerra –
Por trás de cada soldado há uma mulher.

FRANK DRUMMER

De uma cela para este breu –
O fim aos vinte e cinco!
Minha língua não sabia explicar o que acontecia dentro de mim,
E a cidade me achava louco.
Mas no início havia uma visão clara,
Um desígnio sublime e urgente em minha alma
Que me fez a tentar decorar
A Enciclopédia Britânica!

LUCIUS ATHERTON

Quando eu enrolava o bigode
E os meus cabelos eram pretos,
E usava calças apertadas
E um alfinete de diamante,
Fui um grande valete de copas, com mil truques.
Mas quando comecei a ficar grisalho –
Ah! Uma nova geração de jovens
Riam de mim, sem me temer,
E eu não tinha mais aquelas aventuras
Onde quase levei tiros por diabas sem coração,
Mas só casos sem graça, casos mornos
De outros tempos e outros homens.
E o tempo passou e eu fui morar no restaurante Mayer’s,
Entre pratos do dia, grisalho, maltrapilho
Desdentado, descartado, um tosco Don Juan…
Há uma imensa sombra aqui que canta
Uma certa Beatriz,
E vejo agora que a força que o fazia grande
Me levou pra fossa da vida.

O POETA THEODORE

Quando jovem, Theodore, você passava horas sentado
Nas margens do turvo Spoon,
Com olhar pregado na porta da cova do caranguejo,
Esperando que ele aparecesse e mostrasse
Suas antenas ondulantes feito palha de feno,
E então seu corpo na cor da pedra-pomes,
Cravado de olhos de azeviche.
E imaginava num transe do pensar
O que ele saberia, desejava e por que sequer vivia.
Depois sua visão procurou homens e mulheres
Escondidos nas covas do destino entre grandes cidades,
Na espera de que a suas almas saíssem,
Para você ver
Como vivam e pra quê,
E por que rastejavam tão sérios
Pelo areial por onde a água é escassa
Enquanto o verão declina.

RABEQUEIRO JONES

A terra insiste em vibrar
Dentro do peito, e isso é você.
E se sacam que que você é bom na rabeca,
Vai ficar na rabeca pelo resto da vida.
Você vê uma colheita de trevos?
Ou um prado que vai dar no rio?
O vento vem no milho, você esfrega as mãos
Porque o gado está pronto pro mercado;
Ou então ouve o rumor das saias
Como quando as garotas dançam em Little Grove.
Para Cooney Potter, um pilar de pó,
Ou o redemunho de folha, é sinal de dura seca;
Eles me pareciam o Sammy Ruivo
Nos passos de seu “Toor-a-Loor”.
Como eu poderia arar quarenta acres,
Nem falo em comprar outros,
Com um bando de trompas, fagotes e flautins
Fervendo em meu cérebro, com corvos e melros,
Ou o ranger do moinho – só isso?
E eu nunca comecei a lavrar nesta vida,
Sem que alguém parasse na estrada
Pra me levar à dança ou ao piquenique.
Acabei com quarenta acres;
Acabei com uma rabeca quebrada –
E um sorriso quebrado e mil lembranças,
E nem um remorso sequer.

GEORGE GRAY

Atentei muitas vezes
Ao mármore esculpido em minha tumba –
Um barco ancorado, com velas recolhidas.
Ele não representa o meu destino,
Mas minha vida.
Poi me ofereceram o amor, e eu temi desilusões;
A mágoa bateu em minha porta, e eu tive medo;
A ambição me chamou, mas não ousei.
Só que sempre ansiei por sentido em minha vida.
E agora sei que é preciso dar velas
E aceitar os ventos do destino
Aonde quer levem nosso barco.
Dar sentido à vida pode acabar em loucura,
Mas a vida sem sentido é uma tortura
De desassossego e de desejo vago –
É um barco que anseia o mar e ainda tem medo.


APÊNDICE: A LÁPIDE DE EDGAR LEE MASTERS

Caros amigos, para os campos…
Depois de caminhar um pouco, eu peço perdão:
Estou com sono. Não há nada mais doce,
nem fado mais abençoado do que o sono.
Sou um sonho saído dum sono abençoado -
Vamos andar e ouvir a cotovia.

guilherme gontijo flores

redescobrindo álvaro de campos – vinicius ferreira barth

campos

álvaro de campos, poeta nascido em tavira e em lisboa em outubro de 1890, é famoso pelos seus clamores vanguardistas, futuristas e pessimistas, entre outros notáveis istas que poderíamos listar deliciosamente. no nosso grupo escamandrista, exerceu influência notável sobre adriano scandolara. alguns críticos chegam a julgar que a poesia de scandolara, sob a luz de campos, é atingida mais pela ‘angústia’ que pela ‘influência’. há, no entanto, quem discorde. ademais, não há demasiados detalhes da vida do poeta português que possamos explorar além da sua inócua vida sexual e do fato de ele ter nascido sob o signo de libra. sua poesia é categorizada comumente entre três fases, sendo elas: decadentista, futurista e pessimista. por fim, até hoje praticamente nada se sabia da infância de álvaro de campos.

por isso o escamandro traz agora um documento de valor inestimável aos estudos do poeta e à literatura portuguesa. trata-se da reprodução de uma página impressa em um periódico desconhecido de cunho vanguardista que foi encontrada dobrada dentro de um volume bastante desgastado do tartufo de molière, no fundo do banheiro externo de um barracão em tavira, com um texto assinado pelo pequeno poeta. ao que tudo indica, tal texto nunca antes veio a público. e assim, contrariando as ‘fases’ já estabelecidas da produção do autor e lançando novas luzes ao eu-biográfico de álvaro de campos, essa nova página descoberta e finalmente trazida a público desvela uma faceta do poeta que até então era completamente desconhecida. (na verdade quase todas as facetas o são. vide acima o único retrato de álvaro tirado em vida). vê-se, acima de tudo, uma curiosa antecipação do futurismo de marinetti, o que nos leva a crer que as influências possam ter corrido em caminhos inversos. também a tendência ao isolamento e as críticas dirigidas à sua contemporaneidade (em sua maioria composta por desconhecidos) causam impressão por sua força verbal incutida num movimento de renovação da tradição estabelecida. é, enfim, um depoimento enérgico.

sem mais delongas, clique no player abaixo (que virou link) para ouvir a nossa sugestão de acompanhamento à leitura, e, finalmente, mais abaixo ainda para visualizar o documento em modo aumentado.

vinicius ferreira barth

 

http://grooveshark.com/s/Let+s+Do+It+Let+s+Fall+In+Love/2RwWrw?src=5 

 

manifesto_campinhos

6 poemas de Jacques Prévert

Não sei vocês, mas meu primeiro, e até pouco tempo, único, contato com a poesia de Jacques Prévert havia sido um poeminha engraçadinho chamado “Mea culpa”, que transcrevo abaixo:

C’est ma faute
C’est ma faute
C’est ma très grande faute d’orthographe
Voilà comment j’écris
Giraffe

(in Histoires)

…que traz consigo também uma discussão chata que ronda os estudos da tradução sobre a tradução de Mário Laranjeiras do poema, que, para sermos breves, considera a “girafa” (escrita errado em francês) do último verso semanticamente irrelevante – i.e. ela serve para rimar com “orthographe” e para estar escrito errada (o certo é girafe) – e a substitui por uma “bassia”, assim:

Minha culpa
Minha culpa
Minha máxima culpa em ortografia
Vejam como escrevi
Bassia

A discussão sobre se a decisão de Laranjeiras é uma boa decisão ou não e blá blá blá já foi repetida inúmeras vezes e quem tiver paciência, pode ter alguma ideia sobre ela nos artigos da primeira página de busca do google por “mea culpa” prévert laranjeiras. Eu, pessoalmente, acho válida a substituição, mas me incomoda um pouco a “bassia”… não é por nada, não, mas sinto que falta algo da expressividade sonora e da exoticidade da palavra girafa, que acho que tem a ver com a poética do Prévert. Eu pensei, talvez, em algo como harpia (arpia) ou lichia (lixia), que são mais estranhos do que uma “bacia”, mas para não fazer uma tradução que seja mera cópia de uma já existente com uma alteração do último verso, eis uma versão minha tentando manter a rima, a girafa e o erro de ortografia:

Eu errei
Eu errei
Eu errei muitíssimo como se ortografa
Olhem como escrevi
Jirafa.

Agora esqueçam este poema, que a obra do poeta é infinitamente mais rica do que este pequeno chiste.

Nascido em 1900 e morto em 1977, Jacques Prévert foi um importante membro do surrealismo francês, ao lado de Marcel Duchamp e do cofundador da Oulipo, Raymond Queneau. Ele escreveu 7 livros de poemas (Paroles, SpectacleGrand bal du printemps, La pluie et le beau temps, Histoires, Fatras e Choses et autres), alguns livros infantis e redigiu roteiros para uma dezena de filmes e animações, sobretudo para o diretor Marcel Carné, cujo filme Boulevard do Crime (Les infants du Paradis) é considerado por muitos um dos melhores do cinema francês. E ainda em se falando de aproximações com o cinema, acredito que não seria um exagero aproximar Prévert de Buñuel, não o Buñuel que todo mundo conhece de Um Cão Andaluz, mas de sua obra mais tardia como a bizarra comédia O Fantasma da Liberdade – ou poderíamos ainda aproximá-lo a filmes posteriores ainda mais bizarros como A Montanha Sagrada, de Jadorowski, e Eu irei como um cavalo louco, de Fernando Arrabal –, em que a famosa porralouquice de imagens do surrealismo se encontra carregada de uma dimensão política e de crítica social, que, convém lembrar, são parte integrante já do surrealismo, pois, afinal de contas, Prévert não só viveu e escreveu durante o período da guerra, como estava na França na época da invasão nazista. Esse é um “detalhe” que parece se perder no meio das imagens loucas de Dali que são mais prováveis de vir a mente ao se falar em “surreal”.

Seu projeto mais curioso, na minha opinião, é o livro Fatras – que, em francês significa algo como “baderna”, “bagunça”, “zona”- , de 1966, uma obra esquisita, que faz jus ao título, ao misturar poemas com imagens surreais, feitas pelo autor através de colagens, mais uns textos em prosa, que, às vezes compõem sketches teatrais, às vezes simulam colagens de frases de outras pessoas, reais ou imaginárias. Procurei algumas das imagens no google para compartilhar com vocês, para não ter que scanear o livro, e, embora não tenha achado exatamente as que eu queria, pelo menos eu as encontrei a cores (enquanto as da minha edição são em preto e branco).

Infelizmente, Prévert se encontra pouco traduzido para o português. A única edição de que tenho notícia é a da editora Nova Fronteira, entitulada simplesmente Poemas, um antologia traduzida por Silviano Santiago. Sua escolha de poemas é boa, porém a execução com frequência deixa muito a desejar, especialmente quando alguma dificuldade de tradução se apresenta. O problema principal que podemos citar é que o tradutor parece ter seguido o caminho da tradução literal, perdendo as rimas e ignorando a expressividade do vocabulário de Prévert. No poema “O meteoro”, por exemplo, Santiago traduz a palavra “éclaboussé” por “sujo”, e, embora ele não esteja errado, “sujo” me parece mais adequada para traduzir a palavra “sale” do que “éclaboussé“, cujo comprimento de 4 sílabas e o uso das consoantes sugere algo mais icônico, mais sujo… por isso optei por “lambuzado”, que acho que passa melhor essa noção.

Compartilho com vocês, então, 2 poemas da antologia de Santiago (originalmente de Histoires), em retradução minha, mais 3 poemas do 3º livro de Prévert, La pluie et le beau temps (A chuva e o tempo bom) e um de Fatras, estes inéditos. Um desses poemas, creio, merece alguma explicação sobre sua problemática de tradução, o “Sceaux d’hommes égaux morts”, cujo título, que significa literalmente “Selos de homens iguais mortos”, revela, em sua sonoridade, as palavras “Sodome et Gomorrhe“. Dois versos próximos do final do poema também repetem esse efeito e confirmam a sugestão feita pelo título: “Seaux d’eau / Mégots morts” (literalmente “Balde d’água / Bitucas mortas”), como comenta Eclair Antonio Almeida Filho, neste artigo da Revista Agulha. Daí a necessidade de quebrar um pouco com a semântica para se manter o efeito na tradução.

E, como disse, a “jirafa” lá de cima é o menos interessante por aqui.

Adriano Scandolara

O Meteoro

Pelas barras do bloco penitenciário
uma laranja
passa como um raio
e cai como uma pedra
dentro do sanitário
E o prisoneiro
todo lambuzado de merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa ainda sempre em mim.

Le Metéore

Entre les barreaux des locaux disciplinaires
une orange
passe comme un éclair
et tombe dans la tinette
comme une pierre
Et le prisonnier
tout éclaboussé de merde
resplendit
tout illuminé de joie
Elle ne m’a pas oublié
Elle pense toujours à moi.

(in Histoires)

O discurso sobre a paz

No final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado, estrebuchante
com uma bela frase furada
fica hesitante
e desampara a bocarra escancarada
resfolegante
mostra os dentes
e a cárie dentária de seu raciocínio pacificante
deixa exposto o nervo da guerra
a delicada questão do montante.

Le discours sur la paix

Vers la fin d’un discours extrêmement important
le grand homme d’Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre
la délicate question d’argent.

(in Paroles)

Confissão pública (Loteria crítica)

Misturamos tudo
é fato
Aproveitamos o dia de Pentecostes para pendurar os ovos de Páscoa de São Bartolomeu na árvore de Natal do Catorze de Julho
Teve um mau efeito
Os ovos estavam vermelhos demais
A pomba se salvou
Misturamos tudo
é fato
Dia e ano desejo e remorso e leite e café
No mês de Maria que parecia o mais belo colocamos a Sexta-feira Treze e o Grande Domingo dos Camelos o dia da morte de Luís XVI o Ano terrível a Hora do amante e cinco minutos da pausa pro almoço
E somamos sem rima nem razão nem ruína nem mansão sem usina e sem prisão a grande semana de quarenta horas e aquela das quatro quintas-feiras
E um minuto de baderna
por favor
Perdemos nosso tempo
é fato
Um minuto de crise de alegria de canções para rir e de ruídos e de longas noites para dormir no inverno com as horas suplementares para sonhar que se está no verão e de longos dias para fazer amor e das rivieras para se banhar e de grandes sóis para se secar
Perdemos nosso tempo
é fato
mas era um mau tempo
Nós avançamos o pêndulo
Arrancamos as folhas mortas do calendário
Mas não tocamos as campainhas
é fato
Só escorregamos pelo corrimão das escadas
Falamos de jardins suspensos
você já estava em fortalezas voadoras e vinha desbastar a cidade mais rápido do que um pequeno barbeiro desbasta a própria vila num domingo de manhã
Ruínas em vinte e quatro horas
O próprio tintureiro morre
Como você quer que se fique de luto

Confession publique (Loto critique)

Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Nous avons profité du jour de la Pentecôte pour accrocher les oeufs de Pâques de la Saint-Barthélemy
dans l’arbre de Noël du Quatorze Juillet
Cela a fait mauvais effet
Les oeufs étaient trop rouges
La colombe s’est sauvée
Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Les jours avec les années les désirs avec les regrets et le lait avec le café
Dans le mois de Marie paraît-il le plus beau nous avons
placé le Vendredi treize et le Grand Dimanche des
Chameaux le jour de la mort de Louis XVI l’Année
terrible l’Heure du berger et cinq minutes d’arrêt
bufet.
Et nous avons ajouté sans rime ni raison sans ruines
ni maisons sans usines et sans prison la grande
semaine des quarante heures et celle des quatre
jeudis
Et une minute de vacarme
s’il vous plaît
Une minute de cris de joie de chansons de rires et de
bruits et de longues nuits pour dormir en hiver
avec des heures supplémentaires pour rêver qu’on
est en été et de longs jours pour faire l’amour et des
rivières pour nous baigner de grands soleils pour
nous sécher
Nous avons perdu notre temps
c’est un fait
mais c’était un si mauvais temps
Nous avons avancé la pendule
nous avons arraché les feuilles mortes du calendrier
Mais nous n’avons pas sonné aux portes
c’est un fait
Nous avons seulement glissé sur la rampe de l’escalier
Nous avons parlé de jardins suspendus
vous en étiez déjà aux forteresses volantes
et vous allez plus vite pour raser une ville que le petit
barbier pour raser son village un dimanche matin
Ruines en vingt-quatre heures
le teinturier lui-même en meurt
Comment voulez-vous qu’on prenne le deuil

A riviera

Teus jovens seios brilhavam ao luar
Mas arremeti o
Gelo frio
Da pedra gélida do ciúme
Contra o rio
Que refletia o
Dançar de tua nudez na riviera
Pelo esplendor do estio.

La rivière

Tes jeunes seins brillaient sous la lune
Mais il a jeté
Le caillou glacé
La froide pierre de la jalousie
Sur le reflet
De ta beauté
Qui dansait nue sur la rivière
Dans la splendeur de l’été.

Soldados mas iguais morrem

Nas nádegas do chefe decapitado estava tatuado o nome do soldado familiar
e o nome do chefe estava tatuado no peito do homem fuzilado
As mãos enlaçadas e crispadas pareciam ainda viver
Misoginia mãe bélica
Xícaras e bules
O sol doma
Igual a morte
Dois corpos sob os escombros
na sombra do decoro.

Sceaux d’hommes égaux morts

Sur les fesses du chef décapité était tatoué le prénom du soldat familier
et le prénom du chef était tatoué sur la poitrine de son homme fusillé
Leurs mains enlacées et crispées faisaient semblant de vivre encore
Misogynie mère des guerres
Tasses et théières
Seaux d’eau
Mégots morts
Deux corps sous les décombres
dans l’ombre du décor.

(in La pluie et le bon temps)

A festa secreta

Na encruzilhada impossível da imobilidade
uma turba de objetos inertes
não para de se mover de fremir de dançar
E os carteiros do vento
espalham a correspondência
Cada coisa sem dúvida se destina a alguém
ou à alguma coisa talvez
A pluma da ave
como a concha da ostra
a cruz da legião de honra
como a estrela do mar
ou a pinça do siri e a âncora do navio
a perereca de ferro verde
e a boneca de som
e a coleira do cão
E nesta paisagem onde nada parecia se mexer
exceto a vela do náufrago na lanterna em ferrugem
é a festa secreta
a festa dos objetos.

La fête secrète

Au carrefour impossible de l’immobilité
une foule d’objets inertes
ne cesse de remuer de frémir de danser
Et les facteurs du vent
comme ceux de la marée
éparpillent le courrier
Chaque chose sans doute est destinée à quelqu’un
       ou à quelque chose peut-être
La plume de l’oiseau
comme l’écaille de l’huître
la croix de la légion d’honneur
comme l’étoile de mer
ou la patte du crabe et l’ancre du navire
la grenouille de fer vert
et la poupée de son
et le coller du chien
Et dans ce paysage où rien ne semble bouger
sauf la bougie du naufrageur dans la lanterne rouillée
c’est la fête secrète
la fête des objets.

(in Fatras)

Traduções de Adriano Scandolara.

100

we have kept our erasers in order
(propércio via ezra pound)

centésimo post é motivo de comemoração
principalmente
principalmente se
principalmente se se
trata de um blog de poesia tradução e crítica
coordenado por quatro grandes desconhecidos
a meio caminho da província completa
então bem que cabe uma historieta

ouçam

bota um ano e meio na conta
trocas de emails sobre poesia
mais do que isso – mais raro do que isso –
trocas sinceras de emails
id est
trocas de muitas críticas e poucos elogios
a coisa evolui para troca de críticas pessoais
pessoais digo cara a cara
junto com pound
o melhor amigo do homem
(é o nome carinhoso de um caneta
que deleta trechos e por vezes
destrói
poemas inteiros
implacavelmente
tal como o velho ez devastara a terra do sr. eliot
apenas com caneta e borracha
e assim fez seu melhor fertilizante)

foi das melhores coisas que me aconteceram
e pra eles também acho

vejamos o resumo da situação
adriano scandolara e vinicius ferreira barth
entraram no mestrado e saíram do século xix
(não necessariamente nessa mesma ordem)
o professor brandão começou
(sim, começou, e não retomou, concentrou etc.)
a escrever poesia
já no século xxi com uma pitadinha de misticismo persa medieval
e eu passei a escrever poesia
pensando na sua obrigação óbvia

ter leitores e ouvintes

(e não me venham com a lenga lenga
de que poesia é contra é da recusa
ou que inventa seu público
nem ousem me dizer que sou demagogo
ou que quero poesia rala para o povo)

mas depois de cem posts temos um motivo de comemoração
principalmente
principalmente se
principalmente se se
trata de um blog coordenado por grandes desconhecidos
e que tem tido um público maior a cada dia

por isso postar 4 poemas nossos
por isso escolher o amor por tema
ou amores
já que cupidos são muitos e variados

com aquele nosso abraço
de obrigado

guilherme gontijo flores

O incandescer do jardim de pupilas

raios de sol que pavimentam
                               meus caminhos
não bastam
o infinito vestido da noite
                   abotoado com estrelas
não basta e nem a forma imperecível
da perfeição que à vista despedaça
                          nunca
irá bastar e nem porções
                          de amálgamas da morte
com limão e gelo
que nunca bastariam
         fórminges caudais que movem terras
                    e cometas
                         qual lágrimas de deuses nunca
nunca bastam nem vida em plenitude
                     basta
                            no contemplar de ti que habita
                                                   as grutas dos meus olhos

(vinícius ferreira barth)

Virtuosismo

Busca do amor sem
            clichês, embora roce
na imagem de rosa desfeita orvalhada
da tua ruivice nua.

Sem os lugares-comuns
de língua pau buceta peitos coxas bunda
sem o virtuosismo da penetração.

Inventar novas formas de amar
como o eclipse
o sol deitando
sobre a lua
ou a lua sobre
o sol
na lenta ninfomania dos séculos.

Mas convida o mesmo templo ao retorno genuflexo
braços, coxas, seus pilares
naves de seios – cúpulas ao ar
e um altar ereto
onde num orgasmo cabe toda a eternidade.

(adriano scandolara)

Ela ria dos versos insensatos
imprecisos

o coração, desvairado
aliciador dos menores carinhos, mendigo nas horas vagas
não sabia ser sincero
não cultivava a língua como ascese
mas como forma
de expressão

e o que sentia ao vê-la, sorrindo ao vento forte da tarde

isso
não havia ainda sido nomeado

(bernardo lins brandão)

feixe
            invisível
                               do olhar
lume que lastra
                               esse rastro
de gravidade
engolfa tudo
em torno
            toda
existência & trans
                    forma com
                     (su) prime
                    num só
                    pon
                    t
                    o
                    .
         como se um
microscópico buraco
                  negro
                 (amor)

(guilherme gontijo flores)

desastres e destrezas do amor, por leo gonçalves

o poeta leo gonçalves (de bh, hoje habitante de sampa) já dera o ar da sua graça por estas bandas com as traduções dos poemas homoeróticos de verlaine, com a promessa de nos agraciar inda mais com poesia própria, aqui cumprida. vale aqui, para ampliar a nota & fazer direito o meu serviço, lembrar que ele já lançou dois livros próprios: o levíssimo das infimidades (2004), que diálogava de modo mais estreito com as vertentes marginais & musicais da poesia brasileira, com seus poemas breves com uso corrente de rimas, paronomásias, aliterações, etc., tudo com uma linguagem coloquial. em seguida, veio o segundo livro, wtc babel s.a. (2008), que me impressionou demais: aqui o sr. gonçalves, a meu ver, deu um grande passo no seu uso de uma linguagem coloquial mais idiossincrática: um modus whitmaniano reaparece poliglota diante da queda das torres gêmeas & das novas (im)possibilidades do império americano: aquela leveza do primeiro livro deu lugar a uma experiência pesada de sobreposições entre indivíduo, sociedade, discursos do inconsciente, ou tomada de partido.

além disso também publicou traduções de do doente imaginário de molière, das canções da inocência e da experiência de william blake, de juan gelman (isso, em parceria com andityas soares de moura), e de diversos poetas, como aimé cesaire léopold sedar senghor, allen ginsberg, lawrence ferlighetti, édouard glissant, birago diop, &c.. atualmente ainda gerencia o blog salamalandro.

os dois poemas logo abaixo são inéditos, farão parte do novo livro intitulado “use o assento para flutuar”, que deve sair este ano, & formam uma dupla autopalinódica, dando a sensação (curiosa, se pensarmos que palinódia espera uma mudança de posição através do tempo) de que tanto um quanto o outro pode ser o primeiro, e o segundo sua negação, numa espécie de oroboro que já se anuncia no anagrama de “desastres”e “destrezas”. mas a graça principal está na fuga à dicotomia, à expressão dialética das contrariedades: em resumo, os dois poemas não se completam por oposição; eles são uma complementariedade disjuntiva, que sempre lança um espaço vazio que insiste em separá-los, pondo em cheque o nosso desejo de fechar o sentimento e sua concretização. o amor, como o corpo, é excessicamente concreto em suas dores e delícias, & ao mesmo tempo esquivo, ali onde o corpo falha, onde entra o corpo do outro, onde o próprio corpo é corpo do outro.

AS DESTREZAS DO AMOR

o amor é o alcance da mão
é tudo aquilo que ele roça
quando estica os braços
quando estica os dedos

produtos importados direto
do país das surpresas do país dos medos
delícias sobre a mesa ou ao contrário
melecas em geléia para o piquenique

o amor é tudo aquilo que a mão toca
seja com a destra seja com a sinistra
seja com a boca seja com a orelha
seja com a luva seja com a vista

ninguém reclama quando o amor ama
no meio da praça não é atentado
se o beijo escandaliza a massa
ou se o fogo incendeia o ministério público

ninguém se mete quando a moça
extasiada pela língua do poeta
inaugura uma estátua fátua
o beijo de rodin na praça principal

ninguém se liga quando a eletricidade
da cidade se embanana porque
o camarada ama ou porque a menina
agora toda nua é a culpada do apagão

o amor é um camarada raro
que brinca com ratos pela calçada
e caça palavras pelos cruzamentos
quebrando cabeça no meio dos carros

o amor com seus desastres
derrama o chocolate sobre a roupa dos amantes
obrigados a matar serviço reinventam
a manhã agora num brinquedo novinho em flor

são as destrezas do amor
tropeça todo dia nos seus próprios mortos
bebe ri dança e balança e até morre com eles
e é por isso que ele nunca está só

* * *

OS DESASTRES DO AMOR

o amor está ao alcance da mão
então você estica os braços
tenta colhê-lo e ao fazê-lo
o empurra para mais distante

a distância te ajuda a compreendê-lo
quer dizer, a tê-lo entre os dedos
mas entre os dedos não basta
então você estica os braços, quer acolhê-lo

e ao fazê-lo, empurra ainda
para mais distante: a distância
te completa de angústias
você tem que declarar seu desespero

o amor quer ser cantado a cântaros
você se derrama nas águas do amor
e o amor é tudo ao redor
você é rio você é vento luz do sol você é ar

e te pedem que brilhe
como ao meio dia
então você brilha
e a sua luz ofusca os olhos do amor

agora é guiar aquele que você procurava
você cego procura o caminho certo
e guia quem tem os olhos foscos
mas não há mais tempo:

você defendeu o amor em todas as guerras
travou lutas contra ele em favor dele mesmo
e da única causa na qual pôde crer
e assim o deixa cada dia mais distante

mas isso não é tudo
o amor está em toda parte, você
quer amá-lo quer beijá-lo degustá-lo
no entanto, você está só

(leo gonçalves)

natureza – vinicius ferreira barth

Peter Howson - blind leading the blind III (1991)

 

pior a buzina em contemplação
       procurando seu silêncio
                     pior o alarme introvertido
                          que cora quando urgente
pior um cadeado virgem
       que do penetrar se esquiva
                          pior
                                   monóculo em olho de bóreas
                                   um lápis que tem nojo do seu rastro
                                       ou a corrente de elos desunidos
pior a espada com mania de limpeza
       o escudo sem nenhuma cicatriz
       a vassoura com rinite
              a pá maneta
                          pior
                                   e bem pior
                                          palavra muda
o dente que não morde a boca que só chupa
o livro ainda cabacinho a virgem
                                                  (deus, a virgem!)
               pior o poeta que caga cheirosinho

pior o cego
que não quer
ouvir

 

vinicius ferreira barth

6 icebergs imaginários

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é um caso interessante, sobretudo para nós brasileiros: tendo recebido uma espécie de bolsa de viagem em 1951, ela veio ao Brasil, onde era para passar apenas 2 semanas, mas acabou ficando por 15 anos. Por aqui ela morou em Petrópolis e Ouro Preto, tendo um longo relacionamento com a arquiteta Lota de Macedo Soares e conhecendo (tanto literaria quanto pessoalmente) vários poetas brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, entre outros. Ela mesma fez traduções para o inglês – que planejo ainda apresentar aqui no blog – de poemas como “Poema de sete faces”, “Tragédia brasileira” e trechos de “Morte e vida severina” e ainda sambas e marchinhas carnavalescas.

Mas, apesar da alegria das viagens (entre a Europa, o Brasil, os EUA), sua história de vida foi bastante sofrida, com a morte do pai e a loucura da mãe, na infância, e, na idade adulta, a luta contra o alcoolismo e o suicídio de Lota em 1967. No entanto, ao contrário de tantos outros poetas de sua geração, que recorreram a um estilo altamente confessional, incluindo detalhes sórdidos de sua vida em seus poemas, Bishop ficou conhecida pelo caráter “objetivo” de sua poesia. De fato, ela raramente recorre a detalhes biográficos, exceto talvez em alguns detalhes, como a referência às três casas que ela perdeu no poema “Uma arte”, já postado aqui, (sendo elas as casas em Key West, Petrópolis e Ouro Preto) ou ao ritual do banho de xampu com Lota no terraço em Petrópolis no poema “Banho de xampu”. Sobre esse aspecto objetivo de sua poética, Paulo Henriques Britto – que traduziu cerca de 60 de seus poemas (ou seja, cerca de metade de toda a reduzida obra de Bishop) no volume O Iceberg Imaginário e outros poemas, lamentavelmente esgotado e com o preço extremamente inflacionado nos sebos – comenta que essa sua objetividade de observação deriva da influência do modernismo americano e que, nela, deriva de um “efeito do ‘interesse interiorizante’ que a guia na contemplação do mundo”.

Na minha opinião, a habilidade de Bishop repousa em um dom de romancista para captar detalhes narrativos, que ela passa a desenvolver cada vez mais a partir do 3º livro, Questões de Viagem, escrito já no Brasil. Poucos poemas seus são do tipo contemplativo-focado-no-próprio-umbigo, por assim dizer, e tendem a expor um rico mundo exterior com personagens, histórias e fundos interessantes. Vide, por exemplo, o poema “Posto de gasolina” (“Filling station”), onde as latas de óleo esso sugerem um “so, so, so” para os carros, que, em inglês, é o que se diz para se acalmar um cavalo nervoso, e esse tipo de detalhe prosaico, acredito, não seria estranho em um grande romancista americano.

O poema que compartilhamos aqui vem de seu primeiro livro, Norte e Sul, e é talvez o mais famoso (depois de “Uma arte”) e o apresentamos em 5 versões diferentes – mais o original, portanto, seis icebergs imaginários, à moda dos nossos muitos carrinhos de mão de William Carlos Williams. São traduções de Paulo Henriques Britto (retirada do volume homônimo e supracitado) e de Horácio Costa, mais uma minha e do Guilherme Gontijo Flores, daqui do escamandro, além de uma de um nome inédito por aqui que é o de Anderson Lucarezi. Lucarezi é um poeta novo, só um ano mais velho que eu, que tem poemas publicados na antologia do III Festival de Literatura da Letras/USP e muito recentemente lançou seu primeiro livro, Réquiem, pela editora Patuá. Ele também mantém o blog literário Tudo Está Dito, onde posta principalmente traduções de poemas (de Hart Crane, cummings, Jerome Rothenberg, entre outros), além de alguns poemas próprios.

Como com os carrinhos de mão de Williams, a ideia não é tentar superar-nos uns aos outros, mas de apresentar várias possibilidades da inesgotabilidade da tradução – várias facetas, talvez, cortadas por dentro.

Adriano Scandolara

The Imaginary Iceberg

We’d rather have the iceberg than the ship,
although it meant the end of travel.
Although it stood stock-still like cloudy rock
and all the sea were moving marble.
We’d rather have the iceberg than the ship;
we’d rather own this breathing plain of snow
though the ship’s sails were laid upon the sea
as the snow lies undissolved upon the water.
O solemn, floating field,
are you aware an iceberg takes repose
with you, and when it wakes may pasture on your snows?

This is a scene a sailor’d give his eyes for.
The ship’s ignored. The iceberg rises
and sinks again; its glassy pinnacles
correct elliptics in the sky.
This is a scene where he who treads the boards
is artlessly rhetorical. The curtain
is light enough to rise on finest ropes
that airy twists of snow provide.
The wits of these white peaks
spar with the sun. Its weight the iceberg dares
upon a shifting stage and stands and stares.

The iceberg cuts its facets from within.
Like jewelry from a grave
it saves itself perpetually and adorns
only itself, perhaps the snows
which so surprise us lying on the sea.
Good-bye, we say, good-bye, the ship steers off
where waves give in to one another’s waves
and clouds run in a warmer sky.
Icebergs behoove the soul
(both being self-made from elements least visible)
to see them so: fleshed, fair, erected indivisible.

Elizabeth Bishop. North & South. 1946.

O Iceberg Imaginário

    por Paulo Henriques Britto:

O iceberg nos atrai mais que o navio,
mesmo acabando com a viagem.
Mesmo pairando imóvel, nuvem pétrea,
e o mar um mármore revolto.
O iceberg nos atrai mais que o navio:
queremos esse chão vivo de neve,
mesmo comm as velas do navio tombadas
qual neve indissoluta sobre a água.
Ó calmo campo flutuante,
sabes que um iceberg dorme em ti, e em breve
vai despertar e talvez pastar na tua neve?

Esta cena um marujo daria os olhos
pra ver. Esquece-se o navio. O iceberg
sobe e desce; seus píncaros de vidro
corrigem elípticas no céu.
Este cenário empresta a quem o pisa
uma retórica fácil. O pano leve
é levantado por cordas finíssimas
de aéreas espirais de neve.
Duelo de argúcia entre as alvas agulhas
e o sol. O seu peso o iceberg enfrenta
no palco instável e incerto onde se assenta.

É por dentro que o iceberg se faceta.
Tal como jóias numa tumba
ele se salva para sempre, e adorna
só a si, talvez também as neves
que nos assombram tanto sobre o mar.
Adeus, adeus, dizemos, e o navio
segue viagem, e as ondas se sucedem,
e as nuvens buscam um céu mais quente.
O iceberg seduz a alma
(pois os dois se inventam do quase invisível)
a vê-lo assim: concreto, ereto, indivisível.

Bishop, E. O Iceberg Imaginário e outros poemas. SP: Companhia das Letras, 2001.

    por Horácio Costa:

Preferimos o iceberg ao navio,
embora isto significasse o fim da viagem.
Embora ele estivesse melancólico, como pedra de nuvem
e todo o mar em volta fosse moção de mármore.
Preferimos o iceberg ao navio;
preferimos esta planície de neve que respira,
embora as velas do navio jazessem no mar
como segue no mar sem dissolver-se a neve.
Campo flutuante, solene, perceberás
que contigo um iceberg repousa,
que a seu despertar pastará as tuas neves?

Por esta cena um marinheiro daria os olhos.
O navio é ignorado. O iceberg sobe
e afunda de novo; seus pináculos de vidro
corrigem elípticas no céu.
Quem dissimular ante esta cena parecerá
artificialmente retórico. A cortina é o suficiente leve
para levantar-se a partir dos fios invisíveis
que as volutas de neve inventam.
As centelhas destas arestas brancas
competem com as do sol. O iceberg invade
com seu peso um cenário cambiante, e pára, e observa.

Este iceberg lapida-se de dentro as faces.
Como jóias deixadas num sarcófago
preserva-se perpetuamente e só a si
enfeita; talvez também o faça a neve
que tanto nos surpreendeu à flor d’água, inteira.
Adeus, dizemos, adeus, o navio se afasta
até onde as ondas a outras ondas cedem passo
e as nuvens correm por um céu mais cálido.
Os icebergs pedem à alma
(ambos se autoproduzem com elementos pouco visíveis)
vê-los assim: corpóreos, puros, eretos, indivisíveis.

Bishop, E. Poesias. SP: Companhia das Letras, 1990.

    por Guilherme Gontijo Flores:

Melhor seria o iceberg que o navio,
mesmo que fosse o fim da viagem.
Mesmo parado feito pedra, nuvem-pedra,
num mar de mármore revolto.
Melhor seria o iceberg que o navio;
melhor é este chão de neve, vivo,
mesmo que as velas tombem sobre o mar
feito neve insoluta sobre as ondas.
Solene campo flutuante,
sabe que um iceberg dorme contigo e, em breve
quando acordar, só pasta em tua neve?

Pela cena um marujo daria seus olhos.
Ignora-se o navio. O iceberg sobe
e afunda; o píncaro de vidro
corrige elípticas no céu.
Pela cena, quem passa nesta prancha
tem retórica tosca. A leve
cortina sobe em cordas finas
criadas no ar convulso em neve.
A astúcia das agulhas brancas
confronta o sol. Seu peso, o iceberg ousa
num palco instável, então olha e pousa.

O iceberg corta as facetas que há por dentro.
Feito joias na tumba,
eternamente salva-se e adorna
somente a si, talvez à neve,
que nos surpreende sobre o mar.
Adeus, dizemos,  e o navio parte
onde as ondas dão ondas uma à outra,
e as nuvens correm para um céu mais quente.
Um iceberg cabe à alma
(os dois se inventam do menos visível),
por vê-lo assim: carnal, concreto, indivisível.

    por Adriano Scandolara:

Preferíamos o iceberg ao navio,
ainda que fosse o fim da viagem.
Ainda que imóvel, nebulosa rocha,
e o mar todo fosse ondas de mármore.
Preferíamos o iceberg ao navio;
esta planície tão viva de neve
por mais que as velas estejam ao mar
como na água a neve indissoluta.
Campo flutuante e solene,
tens ciência de que o iceberg descansa
contigo e pasta sua neve quando levanta?

Pela cena um marujo daria os olhos.
Ignorado o navio. O iceberg sobe
E afunda outra vez. Seus píncaros vítreos
corrigem elipses no céu.
Pela cena quem pisa no convés
Vira um retórico sem arte. Leve,
Sobe a cortina nas mais finas cordas
das voltas aéreas da neve.
A astúcia desses alvos cumes
enfrenta o sol. Num palco móvel, para
O iceberg, disputa seu peso e encara.

O iceberg corta suas facetas por dentro.
Como joia tumular
ele salva a si, sempre, e adorna
somente a si, talvez as neves
que tanto surpreendem sobre o mar.
Adeus, damos adeus, parte o navio
aonde as ondas a outras ondas cedem
e as nuvens correm num céu mais morno.
Icerbergs clamam à alma
(ambos são de elementos invisíveis)
que os veja assim: carnais, firmes, indivisíveis.

    por Anderson Lucarezi:

Preferimos o iceberg ao navio,
embora indique o fim da viagem.
embora seja fixo em nuvem pétrea
e o mar um mármore que é móvel.
Preferimos o iceberg ao navio;
Preferimos ar do campo nevado
embora as velas tombem sobre o mar
enquanto jaz a neve sobre as águas.
Ó solene campo flutuante,
tens noção de que junto a ti repousa um iceberg
que ao acordar poderá pastar em tuas neves?

Tal cena um marujo paga pra ver.
O navio obscuro. O iceberg sobe
e afunda de novo; seu pico vítreo
corrige as elipses céu acima.
Quem quer que pise dentro desta cena
expõe retórica reles . O pano
é leve o bastante pras finas cordas
que frágeis flocos de neve fornecem.
Todo o engenho destes lumes brancos
duela com o sol. Seu peso o iceberg enfrenta
em cima do palco instável no qual se assenta.

O iceberg corta facetas por dentro.
Tal joias que há em um jazigo
ele se salva eternamente e adorna
apenas a si, talvez as neves
que surpreendem ao jazer no mar.
dizemos adeus, o navio se afasta
onde ondas cedem a outras ondas
e nuvens correm em um céu mais morno.
Estes icebergs incumbem à alma
(ambos feitos de elementos pouco visíveis)
de assim vê-los: encorpados, indivisíveis.