poesia, tradução

O Divan de Goethe, por Daniel Martineschen

"Goethe na Campânia Romana", 1786, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein.

“Goethe na Campânia Romana”, 1786, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein.

hoje é aniversário do velho goethe,
por isso este post-homenagem
com um dos que tentam
mantê-lo vivo, jovem.
mantê-lo em viço
na nossa língua.

guilherme gontijo flores

* * *

West-östlicher Divan

O West-östlicher Divan é uma das obras mais controversas e de recepção mais complicada de Goethe. Não bastasse o título de cara misteriosa – que usa um quase-neologismo um tanto quanto modernoso (“west-östlich”) e um termo que chama todo o imaginário europeu da época sobre o Oriente (“Divan”) –, os poemas se valem de um temário e uma imagética que, mesmo que ele diga que não, apelam para o “exótico” relativo ao Oriente, em especial o Oriente muçulmano e das “Mil e uma noites”. Além disso, a posição autoral é difusa, por motivos que vou abordar a seguir. Para finalizar, o Divan tem duas partes: uma primeira, composta de 12 livros de poemas, e uma segunda, em prosa, intitulada “Notas e reflexões para melhor compreensão”. Tudo isso ajuda a tornar o Divan, nas palavras do crítico Hendrik Birus, “um livro sob sete selos”.

Goethe começou a escrever o Divan em 1814, após ler a primeira tradução integral para o alemão do poeta persa Hafez de Shiraz (~1320-~1389), feita pelo orientalista austríaco Joseph von Hammer. Dessa leitura – feita na viagem de coche a termas próximas a Weimar – surgiu a inspiração para que, nas palavras do próprio Goethe, ele “encontrasse motivo para tomar sua própria posição”. Mais do que seguir a mania tradutória da época, Goethe quis dar a sua contribuição por meio da sua própria obra, que teve sua primeira edição em 1819 e uma segunda em 1827. O Divan de Goethe é, portanto, um convite para uma viagem poética ao Oriente.

Essa viagem já se anuncia no primeiro poema, “Hégira”, do “Livro do Cantor”, que como que resume o Divan inteiro e remete tanto à fuga de Maomé para Medina quanto à própria fuga de Goethe – do mundo burocrático e bélico napoleônico do início do XIX para a terra da poesia. A viagem se prolonga por todos os doze livros – que levam à Pérsia de Hafez à sabedoria corânica, da sabedoria proverbial à contemplação religiosa, do amor carnal à bebedeira – e não termina no último livro, “Livro do Paraíso”: a seção de “Notas” é epigrafada por um poema que convida à terra da poesia todo aquele que quiser entendê-la. As “Notas”, então, não são um apêndice bibliográfico, mas a continuação da viagem iniciada pelos poemas.

A autoria do Divan é complexa: se a maioria esmagadora dos poemas é da pena de Goethe, alguns são da de Marianne von Willemer, um dos muitos amores do poeta e que, num jogo poético de máscaras, é representada por Zuleica, a amada de Hatem. Muitos dos poemas são traduções ou apropriações, tanto de poemas inteiros de Hafez ou outros poetas persas, quanto de versos do Corão, quanto também de verbetes enciclopédicos (como é o caso do “Inverno e Timur” abaixo). Essa difusão torna o Divan uma obra claramente mista: poesia persa travestida de alemã, mas sem poder ser chamada de “tradução propriamente dita” – pelo menos na sua maior parte. Por outro lado, é uma obra de tradução, no sentido em que dá testemunho da convivência de um poeta com outro.

Essa convivência não é neutra nem acidental. Goethe aborda o Oriente segundo seus padrões de religião, cultura, língua e literatura; de maneira seletiva, valoriza o Islã por ser uma Offenbarungsreligion, uma religião de revelação, e rejeita a “idolatria” indiana. Sua imagem do “árabe” é também uma construção, pois jamais esteve perto de qualquer país do Oriente. Para ele, o “árabe” é honrado, tem honra tribal, espírito de pertença, respeita tradições, mas é ávido por guerra, vingativo e irascível. Uma posição um tanto quanto questionável se tentarmos enxergar o Divan como obra de intercâmbio cultural.

O Divan também é tido por boa parte da crítica como uma obra exemplar da Weltliteratur como concebida por Goethe (a literatura que surge no entrelugar, a partir do intercâmbio entre os literatos), tanto por congregar em si a Weltpoesie, a poesia mundial, quanto por manifestá-la via tradução, um dos modos de realização da Weltliteratur segundo o próprio Goethe.

Mesmo com todas essas qualidades e complexidades, o Divan é um ilustre desconhecido fora da germanística. Para o inglês há várias traduções, mas para todas as demais línguas europeias em que há tradução existe somente uma, muitas delas em prosa (como a francesa) ou antigas e esgotadas. Por outro lado, o Divan tem uma larga recepção no mundo islâmico e oriental “como um todo”, tendo sido traduzido para o persa, árabe, turco, azerbaijano, turcomento, tadjique, japonês e mandarim – das que tenho notícia. Na nossa língua pátria, temos umas poucas traduções – Manuel Bandeira traduziu o poema “Selige Sehnsucht” como “Anelo”, e na coletânea apresentada recentemente pelo Adriano há alguns poucos poemas traduzidos. O capítulo “Traduções” das “Notas” é o trecho mais conhecido do Divan como um todo, por apresentar o momento de reflexão mais concentrada de Goethe sobre tradução (o que eu considero uma desproporção, pois esse capítulo só é o ápice, a ponta do iceberg tradutório que é movimentado pelo Divan como um todo).

Selecionei os poemas abaixo do “Livro do cantor”, como uma amostra do Divan. As quadrinhas “Vinte anos fiz fluir” e “É na terra do poema” epigrafam respectivamente o “Livro do cantor” e as “Notas”. Os poemas são “Hégira”, “Talismãs”, “Confissão” e “Anelo abençoado”. A edição consultada é a da editora Deutscher Klassiker Verlag, mas há edições de bolso baratas e, claro, o Projeto Gutenberg e o Zeno.org (tá tudo lá).

Por fim, o título. Como ainda não há tradução do West-östlicher Divan para o português, refere-se a ele normalmente como Divã ocidental-oriental ou Divã do Ocidente e do Oriente. Penso que West-östlich tem em si tanto um movimento do Ocidente em direção ao Oriente quanto um paralelismo, um balanceamento entre as duas regiões do globo. Penso que o título tem que corresponder a isso, sem abandonar o adjetivo como faz a versão francesa (“Le Divan”). Minhas propostas atuais são Divã ocidento-oriental e Divã ocidentoriental, esta última com um tom haroldiano, e que acho que gosto mais.

PS: Publiquei um pequeno ensaio na edição 79 da Revista Brasileira sobre problemas de tradução do Divã: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=16360&sid=31, seção “Pars Orientalis”.

Bônus: O maestro argentino Daniel Barenboim, juntamente com Edward Said, fundaram uma orquestra internacional, formada por músicos israelenses e palestinos, como manifestação contra o conflito na região. O nome da orquestra? West-eastern Divan (http://www.west-eastern-divan.org). Como diz um poema do espólio: “Quem a si e outros conhece/Há de aqui acreditar:/Oriente e ocidente/Não vão mais se separar” [“Wer sich und andere kennt/Wird auch hier erkennen:/Orient und Okzident/Sind nicht mehr zu trennen”].

Daniel Martineschen

* * *

Zwanzig Jahre ließ ich gehn
Und genoß was mir beschieden;
Eine Reihe völlig schön
Wie die Zeit der Barmekiden

Vinte anos fiz fluir
de uma vida bem vivida;
maravilhas a fruir
qual na era Barmecida.

§

Hegire

Nord und West und Süd zersplittern,
Throne bersten, Reiche zittern,
Flüchte du, im reinen Osten
Patriarchenluft zu kosten,
Unter Lieben, Trinken, Singen
Soll dich Chisers Quell verjüngen.

Dort, im Reinen und im Rechten,
Will ich menschlichen Geschlechten
In des Ursprungs Tiefe dringen,
Wo sie noch von Gott empfingen
Himmelslehr in Erdesprachen
Und sich nicht den Kopf zerbrachen.

Wo sie Väter hoch verehrten,
Jeden fremden Dienst verwehrten;
Will mich freun der Jugendschranke:
Glaube weit, eng der Gedanke,
Wie das Wort so wichtig dort war,
Weil es ein gesprochen Wort war.

Will mich unter Hirten mischen,
An Oasen mich erfrischen,
Wenn mit Karawanen wandle,
Schal, Kaffee und Moschus handle;
Jeden Pfad will ich betreten
Von der Wüste zu den Städten.

Bösen Felsweg auf und nieder
Trösten, Hafis, deine Lieder,
Wenn der Führer mit Entzücken
Von des Maultiers hohem Rücken
Singt, die Sterne zu erwecken
Und die Räuber zu erschrecken.

Will in Bädern und in Schenken,
Heil’ger Hafis, dein gedenken,
Wenn den Schleier Liebchen lüftet,
Schüttelnd Ambralocken düftet.
Ja, des Dichters Liebeflüstern
Mache selbst die Huris lüstern.

Wolltet ihr ihm dies beneiden
Oder etwa gar verleiden,
Wisset nur, daß Dichterworte
Um des Paradieses Pforte
Immer leise klopfend schweben,
Sich erbittend ew’ges Leben.

Hégira

Norte e oeste e sul se espalham,
tronos racham, reinos falham.
Foge à terra oriental,
sorve o ar patriarcal;
No amar, beber, cantar
Quíser vai te remoçar.

Onde tudo é justo e puro
Vou buscar com muito apuro
a raça humana, lá na origem,
quando ouvia – sem vertigem –
na sua língua o tom de Deus,
claro outrora para os seus.

Onde os pais ainda honrava,
e outros cultos rejeitava;
Vou gozar do desatino,
com fé ampla e pouco tino,
já que o forte era a palavra,
pois falada era a palavra.

Aos pastores vou mesclar-me,
num oásis saciar-me,
quando em caravana e a pé:
há xale, almíscar e café;
Quero andar pelas picadas
do deserto até as muradas.

Nos rochedos, pela trilha,
com sua mula vai o guia;
às estrelas canta alto –
medo assoma os maus de assalto.
Ó Hafez, sem teus poemas
esta terra tem problemas.

Pelas termas e tavernas
tuas honras canto eternas:
meu benzinho sopra o véu,
cachos d’âmbar solta ao léu
Sim, o poeta, sussurrando,
deixa as houris se corando.

Saibam todos que o invejam
ou que seu caminho pejam,
que as palavras do poeta
fazem súplica discreta
na portada do Eterno
por seu tempo sempiterno.

§

Talismane

Gottes ist der Orient!
Gottes ist der Okzident!
Nord- und südliches Gelände
Ruht im Frieden seiner Hände.

Er, der einzige Gerechte,
Will für jedermann das Rechte.
Sei von seinen hundert Namen
Dieser hochgelobet! Amen.

Mich verwirren will das Irren;
Doch du weißt mich zu entwirren.
Wenn ich handle, wenn ich dichte,
Gib du meinem Weg die Richte.

Ob ich Ird’sches denk und sinne,
Das gereicht zu höherem Gewinne.
Mit dem Staube nicht der Geist zerstoben,
Dringet, in sich selbst gedrängt, nach oben.

Im Atemholen sind zweierlei Gnaden:
Die Luft einziehen, sich ihrer entladen;
Jenes bedrängt, dieses erfrischt;
So wunderbar ist das Leben gemischt.
Du danke Gott, wenn er dich preßt,
Und dank ihm, wenn er dich wieder entläßt.

Talismãs

É de Deus o Oriente,
é de Deus o Ocidente!
Norte ou sul, todo torrão
jaz na paz da Sua mão.

Ele, o único que é Justo,
quer a todos só o justo.
De seus nomes, muitos, cem,
que louvemos este! Amém.

O Errado me confunde,
mas só tu me desconfundes.
Quando ajo ou poeto,
tu me dás caminho reto.

Quando penso no mundano,
realizo um alto plano.
A mente não dispersa pelo pó
se ergue à escuta por si só.

Existem duas graças no respirar:
sorver o ar, dele se liberar.
Um refresca, o outro oprime:
a vida é assim, mista e sublime.
Graça a Deus, se te aperta,
graça a Ele, se liberta.

§

Geständnis

Was ist schwer zu verbergen? Das Feuer!
Denn bei Tage verrät’s der Rauch,
Bei Nacht die Flamme, das Ungeheuer.
Ferner ist schwer zu verbergen auch
Die Liebe; noch so stille gehegt,
Sie doch gar leicht aus den Augen schlägt.
Am schwersten zu bergen ist ein Gedicht;
Man stellt es untern Scheffel nicht.
Hat es der Dichter frisch gesungen,
So ist er ganz davon durchdrungen.
Hat er es zierlich nett geschrieben,
Will er, die ganze Welt soll’s lieben.
Er liest es jedem froh und laut,
Ob es uns quält, ob es erbaut.

Confissão

O que é ruim de esconder? O fogo!
Pois de dia a fumaça o entrega,
E à noite a chama, o monstro, o ogro.
Pior de esconder (e que macega):
O amor; guardado em cura calma,
Pula ágil fora d’alma.
O pior mesmo: esconder um poema,
Pois cobri-lo dá o maior problema.
Se o poeta o recém-cantou,
De poesia ele se encharcou;
Se o poeta o escreveu com classe,
Quer que todo o mundo o abrace.
A todos lê, alegre e forte;
Azar de nós – ou será sorte?

§

Selige Sehnsucht

Sagt es niemand, nur den Weisen,
Weil die Menge gleich verhöhnet,
Das Lebend’ge will ich preisen,
Das nach Flammentod sich sehnet.

In der Liebesnächte Kühlung,
Die dich zeugte, wo du zeugtest,
Überfällt dich fremde Fühlung,
Wenn die stille Kerze leuchtet.

Nicht mehr bleibest du umfangen
In der Finsternis Beschattung,
Und dich reißet neu Verlangen
Auf zu höherer Begattung.

Keine Ferne macht dich schwierig,
Kommst geflogen und gebannt,
Und zuletzt, des Lichts begierig,
Bist du, Schmetterling, verbrannt.

Und solang du das nicht hast,
Dieses: Stirb und werde!
Bist du nur ein trüber Gast
Auf der dunklen Erde.

Tut ein Schilf sich doch hervor,
Welten zu versüßen!
Möge meinem Schreibe-Rohr
Liebliches entfließen!

Anelo abençoado

Conte só a quem é sábio,
pois o povo zomba logo:
louvarei o vivo, volátil,
que deseja a morte no fogo.

Na fresca da noite de amor,
que te gerou e onde geraste,
cai-te estranho dissabor
quando a chama a vela gaste.

Nunca mais quedas sofrido
sob a treva tão sombria.
E se renova em ti o pedido
por mais alta companhia.

Não te impedem as distâncias,
vens voando e encantada;
pela luz tens muitas ânsias.
Mariposa: és chamuscada.

“Morre e te transforma:” assim
que cumprires teu destino,
deixarás de ser, enfim,
nesta terra um peregrino.

Como o caldo vem da cana
e adoça a todo o mundo,
flua amor de minha pena
sem parar nem um segundo.

§

Wer das Dichten will verstehen,
Muß in’s Land der Dichtung gehen;
Wer den Dichter will verstehen,
Muß in Dichters Lande gehen.

É na terra do poema
que se entende o poema;
é na terra do poeta
que se entende o poeta.

 (Goethe, trads. de Daniel Martineschen)

 * * *

Daniel Martineschen (1981-) é tradutor literário, técnico e juramentado de língua alemã, e é doutorando em Estudos Literários na UFPR, traduzindo o Divã como centro da tese (tradução com previsão de publicação para 2016). Traduziu recentemente “Travessia” de Anna Seghers (2013, Ed. UFPR). Tem também formação em informática pela UFPR, joga truco e nada borboleta muito bem.

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Marcelo Pierotti (1984)

pierottiMarcelo Pierotti (1984) é um nome que me foi recomendado por outro poeta que já passou por aqui, o Leandro Rafael Perez, numa tentativa, como o Leandro mesmo me disse descaradamente, de me influenciar à la Harold Bloom – algo sobre induzir um clinamen, ou desvio, ou coisa assim. Não posso afirmar nada de cara sobre ter sido influenciado (nem acho que isso vá interessar alguém aqui) ou sobre a validade da teoria da angústia da influência, mas é fato que há ao menos uma óbvia afinidade temática. O prefácio do seu livro publicado em 2013 pela editora Patuá, Domingo no Matadouro, conta uma anedota interessante sobre como, em 2007, ele, o Leandro e Raquel Parrine (a autora do prefácio) planejavam montar uma editora artesanal e que o primeiro livro a sair nela seria uma antologia de poemas do Pierotti sem o seu consentimento, chamada Antologia Furtiva, com cada um dos outros dois selecionando 10/15 poemas e esperando que houvesse interseção nos poemas selecionados. Diz o relato que ambos acabaram escolhendo 10/15 poemas completamente diferentes, enfatizando facetas diferentes do poeta, que Raquel descreve como uma sendo “mais simbolista (?)” e “outra mais prosaica”. Acabou que a editora não deu certo, mas alguns desses poemas, agora misturados sem separação de facetas, sobreviveram e entraram com mais outros no Domingo no Matadouro, e o livro foi ganhador do prêmio ProAC em 2012 e integra a coleção Patuscada, cujos livros contam com uma tiragem de 1500 exemplares (em contraste com a média normal, bem menor, de 100 exemplares). Se alguém esperava algum comentário crítico mais profundo de minha parte, bem, desta vez, até por conta do desconforto da proximidade de poéticas, eu vou ficar vos devendo. Mas selecionei aqui alguns poemas do Domingo para servir de amostra do livro. Pierotti atualmente reside em São Paulo e, segundo boatos, anda preparando um volume futuro chamado Ciclo Cínico.

Adriano Scandolara

 

Pierotti lê os poemas “Extravio ou 2008″, “Dois que fumam”, “Mil tsurus” e “Meu esporte” na Casa das Rosas

 

Prova de três

Meu quarto
– meu último quarto
até aqui –
caberia numa gaveta
das várias que vi
nos outros quartos
pelos quais
passei

Minhas latas vazias
vão acumuladas
desde os dezoito
anos de idade,
enquanto mulher
não acumulei
mais que uma.

Não acumulei também
dinheiro ou noite dormida.
Gastei tudo com comida,
umas dúzias de sapatos,
vidro, vento, vermífugos
e meias brancas descartáveis.

Como conta exata me
basta apenas uma:
em minha vida tive
três cachorros mortos.

O maior tinha
quarenta quilos
que carreguei
encharcados
numa noite chuvosa.

 

Um belo dia

Todo mundo já o fez,
todo mundo frente a fuzil
ou fera em pleno sertão,

solto no mar –
sobre pedaço de pau podre –
entre duas ilhas numa
imensidão de água.

Todo mundo, mesmo que
num carro emborcado
de cabeça para baixo,
com a carteira na mão
diante de um revólver.

Todo mundo, eu também,
na mira de dois olhos
faiscantes – raivosos –
que nem dona mais têm.

 

Debaixo da cômoda

Não é um caminho
do ponto A até o B
pelo qual se atravessa
a passos medidos por
fluido que corre ferroso
e no fim você morre.

É uma coleção de fotos
que já vem meio velhas,
vistas cada vez mais sob uma luz,
cada vez mais difíceis de achar
(e no fim você morre).

 

Toda criança é astronauta

O Sol, casado
com a Lua,
deu uma prole
incontável
de astros miúdos
soltos pelo céu.

Com o dedinho
ela indica seus conhecidos:

menino, menina
menina, menino

Concorde:
você, um dia
também esteve
assim
tão íntimo
das estrelas.

 

Dia de faxina

E faz tanto tempo.

Das que foram meio perdidas
no sal e nas cortinas
dos dias contados
ficam unhas
ancas e pés.

Não o melhor,
se bem me lembro,
mas é o que temos.

(Marcelo Pierotti)

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Bohdan Zadura (1945-), por Luciano R. Mendes

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Bohdan Zadura (Puławy, 1945) debutou, como muitos outros importantes poetas poloneses, no ano de 1968 – o início da chamada Nowa Fala (Nova Onda) da literatura polonesa. Sua poesia, a princípio, utilizava-se de formas clássicas, em especial o soneto mas, a partir dos anos 1980, abandonou essas tendências e deixou-se influenciar por poetas mais contemporâneos, notadamente os norte-americanos da assim chamada Escola de Nova Iorque. Suas temáticas, porém, mantiveram-se mais ou menos constantes, incidindo sobre a vida dos indivíduos e sua relação com a vida social, cultural e política, refletindo especialmente sobre os termos linguísticos dessa relação.

Selecionei alguns poemas retirados de dois de suas antologias mais recentes (Kaszel w lipcu, de 2000; e Ptasia Grypa, de 2002).

Luciano R. Mendes

* * *

ANTYGONA Z PRIŠTINY

Sarajewo było raz (w ogniu) i drugi
I wystarczy
Minęło jak wszystko

Chciałbym żyć raz
a długo
żeby zdążyć

zapomnieć
raz
a dobrze

Twoje ciało
jak ciało Polinejka
Tylko choć myli mi się

Kreon Charon i Chronos
chyba nic już nie jest
możliwe

Antígona de Pristina

Sarajevo esteve uma vez (em chamas) e uma segunda
e basta
Passou, como tudo

Eu queria viver só uma vez
mas o bastante
para conseguir

esquecer
de uma vez
por todas

Teu corpo
como o corpo de Polinices
Só que apesar de eu confundir

Creonte, Caronte e Cronos
pode ser que nada seja
possível

Fashion TV

Czy gimnastyka szwedzka jest zdrowa Nie mówię że nie jest
choć przysłowiowy polot Szwedów daje do myślenia

a fizyczna tężyzna? łzy napływają do oczu na wspomnienie
masowych pokazów gimnastycznych na powiatowych spartakiadach

dziś gdy w Fashion Television oglądam karnawał w Rio
znów przed oczami mi stają nasze białe zapadnięte klatki

i na trybunach w kretonowych sukienkach w kolorowe kwiatki
nasze matki do wtóru sekretarzom bijące nam brawo

i ciastowate uda dziewczyn, spodenek sprany granat
w których coś się rozpycha nie zawsze kiedy trzeba

i wstyd że się jest punkcikiem w jakiejś figurze na trawie a z nieba
żadna kurtyna deszczu na wstyd ten nie opada

i choć jesteś ofermą nikt cię zwolnić nie chce
od przysiadów przewrotów wymachów ramion i przebieżek

no bo gdyby zwalniano ofermy to powiedzmy szczerze
wuefista by tutaj tylko ćwiczył z wuefistką

Fashion TV

Será que ginástica sueca é saudável Eu não disse que não
apesar de que a proverbial inventividade sueca dá o que pensar

mas e a boa forma? lágrimas escorrem dos olhos de lembrar
as massivas demonstrações de ginástica dos jogos estudantis municipais

hoje quando assisto ao carnaval do Rio na Fashion Television
mais uma vez pairam diante de meus olhos nossos peitos magros e brancos

e nas arquibancadas com vestidos de bramante com flores coloridas
nossas mães acompanhadas dos secretários nos aplaudindo

as celulites nas coxas das moças, shorts azul marinho
nos quais algo nem sempre estica na hora certa

e se envergonha de ser um pontinho na grama e no céu
nenhuma cortina de chuva cai sobre essa vergonha

e apesar de você ser um inútil ninguém quer te liberar
dos agachamentos, saltos mortais, swings, flexões e corridas

não, pois se os que foram afastados por inaptidão falarem francamente
só os professores e professoras de educação física treinariam

Za pięć dwunasta

śmierć daje większe możliwości wyboru
dlatego pytamy na co umarł a nie
na co się urodził

Cinco para meia-noite

a morte dá mais possibilidades de escolha
por isso perguntamos do que foi que morreu e não
do que foi que nasceu

Myślałem o samobójstwie

Wczoraj że jestem za młody
Dzisiaj że jestem za stary

Eu pensava em suicídio

Ontem, que era muito jovem
Hoje, que sou velho demais

(poemas de Bohdan Zadura, trad. de Luciano R. Mendes)

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Índio(s) num poema de Jorge de Lima (1895-1953)

Índios exterminados — imagem de De Bry que ilustra livro de Bartolomeu de las Casas, "Brevisima Relacion De La Destruycion De Las Indias", 1598 (edição latina)

Índios exterminados, por  De Bry em ilustração do livro de Bartolomeu de las Casas, Brevisima Relacion De La Destruycion De Las Indias, 1598 (edição latina)

em tempos continuamente violentos contra os índios, um trabalho coletivo como o Índio é Nós tem um valor importantíssimo, porque dá voz(es) para as possibilidades do índio numa sociedade brasileira que busca calá-lo em cultura, terra, vida.

relendo a Invenção de Orfeu de jorge de lima, esse poema-tudo da poesia brasileira, me flagrei pasmo com o poder do poema 31, canto 1. j. de lima teve a capacidade – creio que até então inédita, na poesia brasileira – de promover uma crítica histórica, social & literária da figura do índio, tantas vezes morto em corpo, mas ainda mais morto & remorto nos mitos racionais do homem branco: contra essa morte pela ideia, o poeta não apresenta uma contra-ideia revolucionária, uma nova versão do que é (ou deveria ser) o índio. contra os mitos sobre o índio catalogado no saber ocidental (“Agora finalmente somos listas”), a poesia nos dá um índio plural, com pontos de vista vários: ora estamos na primeira pessoa no branco (“nós os bastos / nós os complexos, nós os pioneiros, / nós os devastadores e assassinos”), ora numa terceira pessoal que não podemos identificar com clareza (“nós também sabemos coisas”), ora como índio (“nós indígenas”) que logo se entrega como um outro (“vós indígenas”).

Família de ameríndios do BRasil, por Jean de Léry, 1611.

Família de ameríndios do Brasil, por Jean de Léry, 1611.

lendo & relendo me peguei pensando naquela frase-bomba de viveiros de castro, “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, para atualizar trechos como “Mas como foi esse índio? Todos sabem. / Ele mora no vosso olhar já verde, / na vossa louridão, no vosso passo [...] dessas coisas anciãs ficou um pouco / de tudo, esses anzóis pescando taras”. me peguei pensando mesmo na importância atual do Índio é Nós, a começar pelo nome do projeto.

j. de lima, lá nos anos 50, tinha percebido que a revisão do índio era revisão primária nossa que não poderia se dar sem um processo de re-identificação & multiplicação, sem entendermo-nos ao mesmo tempo como índios & incapazes de determinar o que é o índio que somos.

guilherme gontijo flores

Índios escravizados, por Debret, c. 1816-1831

Índios escravizados, por Debret, c. 1816-1831

 * * *

Invenção de Orfeu, Canto I, poema 31

Esquecidos dos donos, nós os bastos,
nós os complexos, nós os pioneiros,
nós os devastadores e assassinos,
vamos agora fabricar o índio
com a tristeza da mata e a fuga da
maloca, com a alegria de caçar.

Vamos dar-lhe paciências de amansar
os bichos, de juntar as belas penas
raízes, frutos; vamos abalar
com ele o chão da maloca, batucando.
Essa terra dançada, D. Manuel,
de ponta a ponta é toda de arvoredos.

É toda de arvoredos e de ar bom,
como o ar bom de Entre-Douro-e-Minho, e as águas
são muitas, infinitas, tudo dando,
dando peixe, lavando a carne nua,
lambendo os pés da selva embaraçosa,
a feição o ser parda, bons narizes.

Boas vergonhas nuas, boas caras,
e bons Jeans de Léry contando as coisas.
Ausentamos recalques e pudores
e colares de dentes e de contas
para atrair as musas e as mães-d’água,
e adornos para os sexos merecidos.

Nenhuma ideia exata possuímos
sobre origens de carnes e de sangues,
mas de mortes somente, mesmas caras
que vós, mesmos desejos, nós indígenas,
vós indígenas, nós madeiras mesmas,
decadentes, corroídas, não pacíficas.

O nosso cão doméstico aprendeu
a latir. Nós também sabemos coisas,
tatuamos índios para que os maus gênios
de nós não se apoderem. Canibales,
canibais, upupiaras, cães e peixes,
homens fluviais, nós índios, curiqueãs.

Goiazis, matuins, encantada Índia,
sempre Índia ocidental, oriental Índia,
povoada de cardumes mitológicos,
minhas proas cortando os tenebrosos
mares, de duendes lusos e outras nuvens,
promontórios, gigantes e grandezas.

E eu menino pequeno, todo penas,
com essas flechas sem leis e esses colares
prefaciando viagens, aventuras,
narradores de petas europeias,
eu sem ouros, com apenas maracás,
bondades naturais, recém-nascidas.

Eu índio diferente, mau selvagem,
bom selvagem nascido para o humanismo,
à lei da natureza me despindo
com pilotos e epístolas, cabrais,
navegações e viagens e ramúsios,
santas-cruzes, vespúcios, paus-brasis.

E eu palavreando com esses papagaios,
completamente apócrifo do mundo,
cosmogonia nua, áspero clima,
sem moeda e comércio, muito bem,
liberdade social, perfeitamente
com tacapes ferindo mas sem guerras.

Sobretudo eu escravo do homem branco,
ó cunhas, inocências e pobrezas,
curiosidades sobre meus amores,
visões de missionários, flor de peles,
narrativas de naus e manuscritos,
madeiras de Colombos e de Espanhas.

Vivo estranho em Lisboas babeladas
entre chins e japões pelas ruelas,
os domínios distantes me afogando,
cotovelando pelo Rei das quinas,
resgatando com fardos e tonéis,
descoberto de trajes e de galas.

Ou então em bororo me chamando.
— Que venha o peixe ocogue! e o peixe veio
e outros peixes gerados com ixegui.
Quero dois paus para acender meu fogo,
a morada das almas me chamou,
bororo forte, linguagem de bororo.

Dentro dos jenipapos o ser grávido
subiu na árvore, fruto, irmã menor,
para flechar morada de assovios,
as águas se alargaram, a anta veio,
então chegou a terra e se embebeu,
formou um vale, o vale se fendeu.

Conheço plantas pra grudar memórias,
boas embiras amarrando os cantos,
resinas, cascas para funerais,
para caçadas, cantos de pescar,
ó filas de antas, taquarais, canastras,
ruídos tristes, largados, desabados.

O fogo na penugem da montanha,
o fogo sobre o rio, sobre a mata,
nos limites da mata, roda as onças,
urro em fogo das onças, onças indo
com a montanha de fogo, mata em fogo,
antas indo com o fogo, e o fogo indo.

Cortar caminho, vendo com os dois pés,
tirar ouro pra os outros pagar dízimos,
zona de ipecacuanha, de mezinhas,
não se liga matar os emboabas,
quero posse de bispos e caciques,
abolir o limite meridiano.

Tomar salsaparrilhas para o sangue.
Predomínios de matas e de rios,
solos salinos, pastos suculentos,
eclesiásticos ambulantes, contas,
e a viagem para o Norte, sol e sol,
a fronteira não tem parido légua.

Comer, nós não comemos nenhum bispo,
o branco mente muito, o corrompido,
embaraça essa vida, o branco é assim.
Comer nós não comemos nenhum branco,
nem fumamos mentiras, fumo nosso,
fumo de paz ou guerra, mas valente.

Vistosos os adornos do homem branco
pras bodas do Delfim com a Infanta Espanha
eu peça pra pinturas e anarquias,
pra trovadores, angos, gafaréis,
eu mico de Nassau, topinambou,
Sorô-bebé de insurreição, o nu.

Cravado de premissas e de olhares,
de holofotes e cines, eis teu índio,
grudado de tucanos e de araras,
operário sem lei e sem Rousseau,
incluído em dicionário filosófico;
metáfora, gravura, ópera, símbolo.

Utopia de santo e de sem-Deus,
teu índio, teu avô, teu deserdado
Adão, perfeito Adão sem teus pudores
falsos, consciências, dúvidas, receios,
Emílio bronco, pai de que Rousseau?
De que Montaigne? De que outra convivência?

Índio que te contém como moldura
guardando personagens obrigadas,
umas em redes, outras em gavetas,
em redomas de prata, umas vestidas,
outras despidas, umas tantas mortas,
retratos desbotados, faces idas.

Caveiras em museus; Pedro Segundo
vendo estantes, fantásticos barbaças!
E ao lado as prateleiras com uma fauna
de peixes empalhados, irmãos gêmeos
de teu anfíbio índio mergulhado,
dissolvido nos rios e nas febres.

E sua muda fala com os das águas
que o rei jamais entende, fala seca
conservada nos álcoois ou moquém
de sombra nas malocas devastadas
pelos filhos do rei. Catalogados
uns fiapos, umas tangas, uns chocalhos.

Cobre-lhe o asfalto a marca de seus passos
tão bêbedos que ignora se morreu,
sono de índio cansado destes séculos,
dessa malícia branca, desses ópios.
Teve lições de infância recordada;
como tu dóis, Timbira, nesses cantos!

Não obstante o transporto a outros misteres,
transformado em pretéritos de língua
geral fossilizada, moqueada, urna
de traças roendo mortos não chorados,
hoje encontrados secos igaçabas
como empolas do tempo latejando.

Mas como foi esse índio? Todos sabem.
Ele mora no vosso olhar já verde,
na vossa louridão, no vosso passo,
na vossa descendência, partos simples
como fumar, falar essas conversas,
ou dizer que não mente se mentindo.

Ou no riso cavado, na denúncia,
na carência, na flecha inda enfeitada,
no papeiro de louça, na moqueca,
no caju, no cabelo enxundiado,
dessas coisas anciãs ficou um pouco
de tudo, esses anzóis pescando taras.

Ficou um tanto de dentro disfarçado
em abelhas servis e aves-bonecas
e cobras papa-ovos para os ratos.
Ficou o abraço aberto para vós,
ficou o medo de coisas caiporadas,
de estrelas corredeiras, de cometas.

E esse grande Gonçalves, vosso neto
desapartado aos cinco, da mãe parda,
pra rouxinóis, choupais, capas, mondegos;
e a colina coimbrã e as travessias,
e o pão do exílio sem sabiás timbiras,
e Ana Amélia, meu Deus, tão impossível.

Vossa vagabundagem pelo mundo,
vossas mazelas, vossa volta à pátria,
para morrer na praia, sob um mastro,
sob uma quinta, sexta-feira ou sábado
em veleiro de proa carcomida,
sem vos curiosiarem nem sequer.

Sorte vossa, chifrados, como dói,
no silêncio parado, paranado,
sem nunca vos sarar, índio-mirim,
lambuzado de ideias estrangeiras,
passando de formigas jaquitáguas,
estrela da manhã sem vos clarear.

Nem matinado, sempre entardecido,
nossos pipios já não chamam ventos;
vossos enfaros, vossos borrachudos
alargando o silêncio maresiado,
abicado no escuro destes tempos,
sem pau-brasil, sem ouros, sem espadas.

Capital da República habitais
com chinelos, pensões, nomes de tudo,
carapanãs, estádios, urupemas,
pensamenteando ideias, feriados,
batalhas de confetes, constituintes,
eis de trabalho, vaga-lumes, fordes.

Pois vaga-lumes, sim relumeando
vossos caminhos, câmaras, senados,
com vossa proteção paragrafeada,
habitações de luz de quem cedestes
este cerrado bosque de brasis
com doces firmamentos e cruzeiros.

Vamos nos consolar nos coletivos,
sentar juntos, beber nossos orvalhos,
olhar mansas coxilhas, nos coçar,
gozar praias amenas, filas, bondes,
nomearmo-nos chefes-de-seções,
conseguir sinecuras, nossos índios.

Vossos índios ocultos, ranchos deles,
tecendo teias sobre vossos olhos,
e no pino do dia o calorão,
a tristeza do sol dormindo esperta,
tudo largado aí com os nossos índios,
com o pino do meidia, com as sezões.

Quem vos mandou inventar índios… Morus,
ilhas escritas, Morus, utopias,
Morus, revoluções, Morus, ó Morus?
Os índios se esconderam no homem branco,
nos seus assombros, ele se invadindo
de ocasionados índios, de outros índios.

E nós nessas salmouras ou pilando
ou comendo mixiras, tracajás,
temporizando fogos brandos, lenhas,
pirões precipitados, mandipubas;
e nossos columins sobressaltados
pelos iuruparis de importação.

E em nós os nossos índios federando
sabedorias íntimas, vontades,
caprichos devastados, confissões
contidas sob os pelos enroupados,
madornas de urucus, noites suadas,
coceiras de frieiras e desejos.

Padres-mestres vigiando redes fundas,
jiraus estremecendo, castidades
moles, as cunhatãs de sono leve,
os pecados voando pelo escuro,
mariposas paradas esperando,
por mariposas ou por lagartixas.

Enfieira rés-a-rés de som pobrinho,
nós ilhéus engasgados com oficlides
esquecemos mandingas, pajelanças,
com esse canto planando para danças
pra Tupã e morenas se entregar.
Catimbó, Catimbó, na noite imensa.

Há piranhas aos cachos, hoje aéreas,
tingindo os arrebóis, de sangue humano;
é bem melhor babar ternuras que
violências, escutar qualquer cantiga,
que aturar esses bichos, onças pardas,
onças-pintadas, onças disfarçadas.

Assuntamos os cismas aninhados,
aprendendo, imitando os guaçus chefes,
para deles zombar, (os famanados!)
que as saudades arrulhem. Nós de novo,
queremos secundá-los, nos flecharmos,
nos clarinarmos com cauim dormindo.

Moremos esse doce papiri,
sem maliciando ações, sem cancerando,
sem desejar as terras dos vizinhos,
banhando-nos nas chuvas de janeiro,
sem desgastes no juízo memoriado,
sem preparos de flechas e de chumbos.

Graça da vida, e marca de horas boas,
caminho alumiado, arco de adventos,
carismas e outros dons mais compreendidos,
dilúvios de branduras, indolências,
preguiças planizadas, gozos quietos,
quereis a mão na mão, quereis sofias?

Conhecemos jesuítas, se os conhecemos!
Com eles andamos pelos megaís,
pelos jequitinhonhas, grãos-mogóis;
a corcova do padre ia na frente,
a batina em velame, pés descalços,
cantochão ponteirando esses mundões.

Criamos cascos, galopando, firmes.
Dromedários de Cristo com esses montes
nas costas calvarinas, navegamos
entre jaguatiricas, suçuaranas,
enrolados de cobras como cordas,
cascavéis chocalhando guizos fúnebres.

Recalcando saudades caducadas
pelo arrocho da vida mal-querida,
calcanhares mordidos de saúva,
existimos, fugindo de boiunas.
Mas, esquecemos muitas dores, muitas,
Faz-de-conta, Timbiras que esquecemos.

Tradição de indianada, tudo isso.
Timbira ausente entrando pelas testas
como um remorso bom, saudade leve,
pranto constante, sempre nos poemas.
Podeis frechar-nos índios atuais,
e mesmo detestar-nos, devorar-nos.

Já não estais, timbiras, já não sois.
É preciso andar sertões pra encontrar-vos,
verter íntimos sangues, correr matos,
braúnas, umbuzais para encontrar-vos.
Já não sois belos como nos Caminhas,
e sois enfermos e não sois tão nus.

Viveis presos, timbiras, nessas selvas
selvagens, das memórias recalcadas,
reclusos em varizes de libidos.
Nós choramos, timbiras, nós covardes,
nós nos comendo pra nos conhecer,
sofrendo os nossos dentes em nós mesmos.

Moquém rui, de carnes embricadas,
corrompido de terra e morticínios,
de aguardente, varíolas, vícios brancos,
nós nascidos libertos, nós cativos,
nós cedidos, cedidas nossas ocas,
dissolvidos nos sangues de outras gentes.

Sim, guardamos memórias que se adensam,
lhes damos importâncias afetadas
pra que elas nos assombrem com fantasmas,
com boiunas tiradas dos oito anos,
dos casimiros nossos traduzidos
em primaveras quentes e soluços.

Que sopranistas falas nesses índios!
Eles que jantam? Pratos? Pesadumes?
No momento que corre, deficiências,
comidas enfeitadas, que acalentam
escorbutos de fomes escondidas,
todavia saudades e suspiros.

Perdemos nossos rastros pelos barros
encruzilhados, cheios de almas frias
abandonadas nessas solidões,
riscados de cometas; céus nos cobrem
com as mortalhas rasgadas por corujas.
Enfim, nos figuramos nessas nuvens.

Temos sido Gargântuas bem imensos;
hoje não somos nem comemos muito.
Apenas uns gorjalas quase baixos,
levados das palmeiras para as serras
quase colinas, para os medos quase
sombras, para as memórias quase extintas.

Agora finalmente somos listas,
registros e folclores, todo-o-mundo,
papagaios em círculos concêntricos
ou círculos de Dantes orientais,
fábulas criamos asas, somos poemas,
outras vez papagaios, papagaios.

 

Índios_escravizados,_século_XIX

Índios escravizados, fotografia anônima, séc. XIX.

Padrão
poesia

enaiê mairê azambuja (1990-)

Visby 177

Namorados no Museu
09/04/2014

Mulher Nua com Colar,
um raro conjunto de porcelana

Eles passam…

Engrenagens expostas de um relógio
Lá fora, leões escoltam
o tempo.

Uma múmia espreita de
sua tumba de vidro:
o peito nu de Buddha,
a seda sustentada
………………………………..(sem cuidado)
por entre dois dedos.

Eles os atravessam…

*

Terra dos porcos-espinhos
Em Fridhem, para Liselotte

Quando eles aparecem
nós nos sentamos muito quietos
e depois de um tempo
– um movimento sensato
ou dois -
cumprimentamos nossos
pequenos mestres espinhosos.

Aqui, eles se integram,
a terra dos porcos-espinhos,
e nossos pátios estão amplamente equipados
com a essência
da vida porco-espinho:
vasta coleção de ruibarbos,
frutas vermelhas,
beterrabas
condenadas pelo hálito de uma noite fria.

Eles se apegam, eu lhes digo:
a flexibilidade dos ruibarbos,
a abertura (vermelha) das frutas
o ângulo tímido de uma beterraba
porque todos pertencemos
à beterraba:
um reino mágico restrito.

A noite
(suas sombras)
torna-os iguais,
torna-nos a todos, de fato.

*

Noite quieta no porto de Visby

Pedalamos pela estrada em alta velocidade
mas o silêncio foi mais veloz do que qualquer movimento
ou emissão de luz.

O ferry chegava mais perto
ao que sentamos no chão, eu senti
as pequenas ondas varrendo
um enorme peso
para a plataforma.

Você observou suas pequeninas
mãos agitadas.
Desta vez, nós seguiríamos o caminho
para o sacrificante futuro de Nynäshamn.

Estávamos, inacreditavelmente
dentro de um vinco bonito da Terra
enquanto o vento fez a ovelha
da bandeira de Gotland
chocar-se contra o mastro e berrar
Eu sou todos vocês e ainda
eu morro.

*

O dia em que tomamos ácido

À noite, olhei-me no espelho
…………………………………….e chorei
enquanto você me chamava para a cama.
Uma das poucas vezes que confessei a mim mesma:
…………………………………….‘Você é bonita’.
Quando te enlacei
enquanto você dormia,
pude ouvir meu coração martelar
e o som afogado do pesado relógio
no andar de baixo.

Na mesma tarde,
você me levou para o jardim.
Sentei-me entre as flores gigantes de néon,
pernas e mãos
dobradas.

De repente, senti a Terra
estremecer diante de mim,
seus lamentos cada vez mais agudos,
à medida que as nuvens velozes
ofereciam-me
clareza sobre o tempo.

Você abriu caminho
entre campos de trigo,
Ollie perseguiu os mesmos velhos gravetos,
o vento envolveu meus olhos
e pressionou seu frescor
contra as minhas costas.

*

Inflorescência

Deslizo meu dedo ao longo da suave
curva de seu pênis
as raízes crescentes
de uma orquídea dentro de um vaso.

Toco uma parede aquecida
a orquídea murmura no escuro
seus lábios maiores do que
os
(aquosos)
olhos azuis.

*

Fotos do Primeiro Amor
Para Philip

Eu poderia lhe escrever toda a história
(como talvez irei, um dia)
sobre nós;
sobre como você tira suas roupas
para deitar-se na cama de madrugada.

mas, ao olhar para estas fotos,
elas me fazem sentir
que vivi o suficiente:
distâncias do primeiro amor
desenharam rugas em meu rosto,
a criança que cava
um punhado de areia
com uma pá de plástico.

As imagens mais fascinantes
são nossos retratos desfocados
tirados na sala-de-estar de um amigo.
O olhar congelado
(insistentemente)
sobre minha testa
enquanto observo seus lábios finos
à meio caminho de uma palavra.

Mais tarde,
desabamos na banheira,
nossos corpos entrelaçados:
peso sobre peso.

Imersos em água quente
só podíamos levantar
em câmera lenta.

*

A Separação
25/02/2014

Meu corpo desprende
da toalha de plástico estendida
……………………………..sobre o oceano,
pinturas esculpidas
em paredes molhadas.

A parede indestrutível:
reflexão tripartite de uma chama
bailando com a brisa,
……………………………………passando
através da porta.

Qual é
o nome
de um jarro
pleno
de água?

O que é o vazio
do que se tem drenado?

(poemas de enaiê mairê azambuja)

* * *

Enaiê Mairê Della Torre Azambuja nasceu em 1990 e, desde muito pequena, por influência dos pais, frequentou a Feira do Poeta no Largo da Ordem, em Curitiba (mas que, de fato, ela só ia mesmo pelo pastel da feira). Diz-se (palavras do pai e constatação por certificado) que ganhou seu primeiro prêmio de poesia infantil aos 3 anos de idade com o dístico “Vi um susto numa coceguinha / Era um fantasma andando por aí”. Depois, quando aprendeu a escrever, descobriu que poesia é artesanato árduo e ininterrupto. Posteriormente, tomou a literatura por profissão, e realizou estudos acadêmicos, tais como acerca da poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin e do poeta sueco Tomas Tranströmer, de quem vem traduzindo muitos porta-jóias (e “jóia-portas”). Já confeccionou seus próprios livros de poesia e já deu a eles títulos bizarros. Coleciona os títulos mais bem acabados, junto com moedas velhas, alguns discos (velhos), postais e cartas de amor. Houve um tempo em que criava joaninhas.

Padrão
crítica, tradução

Profetas, místicos e o que isso tem a ver com poesia

Maomé-e-o-anjo-Gabriel

A metáfora do poeta como profeta, tanto dentro do próprio fazer poético quanto na crítica, tem uma longa história. Entre os latinos, a comparação com a figura do vate era algo dúbia, oscilando entre uma conotação pejorativa (para os romanos preocupados com uma noção de civilização, o vate era associado a uma certa “selvageria” primordial, associada a deuses obscuros como Cibele, cujo culto envolvia até atos de autocastração) e um papel em que o poeta por vezes reivindica a si próprio (como é o caso, na cultura augustana, quando o termo volta à moda, de Horácio, Virgílio, Propércio) . A partir do romantismo, no entanto, essa imagem é cada vez mais consolidada. Pensemos em Shelley, por exemplo, no ensaio Uma Defesa da Poesia, cujo trecho final fala de “hierofantes de uma inspiração inapreendida” e “legisladores não-reconhecidos do mundo”, ou então em Rimbaud com a famosa carta do vidente, Mallarmé e a purificação das palavras da tribo e Stefan George, profeta nietzschiano da guerra, até as figuras mais recentes como Murilo Mendes, o “poeta-profeta da bagunça transcendente”, ou Roberto Piva, e o artista como “antena da raça” de Pound e o equivalente para o xamã tribal de Joseph Campbell. Também não por acaso, parece que do século XIX em diante os discursos poéticos e místicos começam a se cruzar cada vez mais, como vimos com Swedenborg anteriormente, por vezes indo até mesmo além do metafórico, como foi o caso de Fernando Pessoa, que chegou a fazer amizade com ninguém menos que Aleister Crowley, e William Butler Yeats.

Por isso, lendo o livro do pensador judeu alemão Gershom Scholem (1897 – 1982), A Cabala e o seu simbolismo, um estudo sério e muito lúcido sobre um tema em que há muita margem para charlatonismo, que é o das bases da tradição do misticismo judaico (um livro, aliás, ao qual eu acabei invariavelmente sendo guiado graças a George Steiner… então, se eu me perder nesse caminho, vocês sabem a quem culpar), ao me deparar com uma distinção traçada por Scholem entre as figuras muito confundidas do profeta e do místico, não tem como não pensar que essa distinção pode ser extrapolada para a poesia, e que, na maioria desses casos dos poetas entre o romantismo e o século XX (embora eu diria que esse papel tem sido dissolvido na poesia contemporânea para dar lugar a alguma outra coisa que é difícil de apontar qual é exatamente), talvez uma metáfora mais apta (ênfase aqui na palavra metáfora) seria não tanto com o profeta, dotado de uma mensagem clara, mas com o místico e a sua luta para traduzir em palavras e símbolos algo que é no limite extremamente nebuloso e que desenvolve com a tradição de que parte uma relação que é ao mesmo tempo de continuidade e de ruptura.

(Adriano Scandolara)

 

De um modo geral, pois, tende a experiência do místico a confirmar a autoridade religiosa debaixo da qual ele vive; sua teologia e símbolos são projetados para dentro de sua experiência mística, porém não brotam dela. Mas o misticismo tem mais um outro aspecto contrastante: precisamente porque o místico é o que é, precisamente porque se acha em relacionamento direto, produtivo, com o objeto de sua experiência, ele transforma o conteúdo da tradição na qual vive. Ele contribui não somente para a manutenção da tradição, mas também para seu desenvolvimento. Vistos com olhos novos, os valores antigos adquirem novo significado, mesmo lá onde o místico não alimentava tais intuitos ou nem sequer tinha noção de estar fazendo algo novo. De fato, a compreensão e interpretação que o místico tem de sua própria experiência pode, inclusive, levá-lo a pôr em dúvida a autoridade religiosa que até então apoiara.

Pois a mesma experiência, que num caso promove uma atitude conservadora, em outro pode produzir uma atitude diametralmente oposta. Um místico pode substituir sua própria opinião por aquela prescrita pela autoridade, justamente porque sua opinião parece originar-se dessa mesma autoridade. Isto explica o caráter revolucionário de certos místicos e dos grupos que aceitam os símbolos pelos quais os místicos deste gênero comunicaram sua experiência.

Ocasionalmente um místico revolucionário tem invocado dons proféticos, reivindicando funções de profeta, em seus esforços de reformar sua comunidade. Isto levanta um problema que devemos considerar rapidamente: podemos e devemos identificar revelação profética e experiência mística? É uma velha questão que tem levado a infindáveis controvérsias. Pessoalmente, rejeito tal identificação e estou convencido de que ela não traz nenhuma luz ao nosso problema. Não obstante, gostaria de dizer algumas palavras sobre o fenômeno paradoxal da profetologia medieval, que neste contexto é particularmente instrutiva.

Quão enigmático, para não dizer indigesto, se afigura o fenômeno do profetismo bíblico para quem esteja treinado no modo de pensar sistemático dos gregos, pode ser deduzido do fato de que, na filosofia medieval, tanto dos árabes quanto dos judeus, foi desenvolvida uma teoria acerca do profetismo que implica uma identificação do profeta com o místico. A análise iluminadora de Henry Corbin mostra, por exemplo, que a profetologia xiita foi essencialmente uma hierarquia de experiência e iluminação místicas, elevando-se de estádio em estádio. O conceito bíblico e corâmico do profeta como portador de uma mensagem é reinterpretado de modo a retratar o gênero ideal do místico, mesmo quando ele é chamado de profeta. Um profeta como Amós, a quem Deus convocou de entre os cultivadores de sicômoros, para convertê-lo em portador de Sua mensagem, é transformado pela profetologia bíblica em algo inteiramente diferente: um iluminado, que passa por sucessivas fases de disciplina e iniciação espirituais até que, ao fim de longos preparativos, é agraciado com o dom do profetismo, considerado uma união com o “intelecto ativo”, vale dizer, com uma emanação divina ou estádio de revelação. Por maior cautela que os autores tenham ao expressar-se, esta teoria do profetismo como união com o “intelecto ativo” sempre sugere algo no gênero da unio mystica, embora não do último grau. Neste sentido não existe diferença essencial entre uma doutrina tão radicalmente espiritualista como a profetologia dos ismaelianos e uma teoria racionalista como a de Maimônides.

Mas o profetismo, tal como foi originalmente entendido, é algo inteiramente diferente. O profeta ouve uma mensagem clara e por vezes fita uma visão igualmente nítida, tendo delas uma lembrança límpida. Uma mensagem profética desse gênero sem dúvida tem a pretensão direta de possuir autoridade religiosa. Nisso ela difere fundamentalmente da experiência mística. No entanto, ninguém cogitaria de negar ao profeta uma experiência imediata do divino. Estamos claramente lidando com duas categorias diferentes de experiências e duvido muitíssimo que um profeta possa justamente ser chamado de místico. Pois, como afirmamos, a experiência do místico é por sua própria natureza indistinta e inarticulada, enquanto que a mensagem do profeta é clara e específica. De fato, é precisamente o caráter indefinível e incomunicável da experiência mística que é a maior barreira à nossa compreensão dela. Ela não pode simples e totalmente ser traduzida em imagens ou conceitos agudos, e muitas vezes desafia qualquer tentativa – mesmo posteriormente – de supri-la de um conteúdo positivo. Ainda que muitos místicos tenham tentado semelhante “tradução” e tentado dar forma e corpo às suas experiências, o cerne do que um místico tem a dizer sempre permanece uma experiência sem forma, independentemente de nossa opção de interpretá-la como unio mystica ou “mera” comunhão com o divino. Mas é precisamente este âmago informe de sua experiência que esporeia o místico ao seu entendimento de seu mundo religioso e seus valores, e é esta dialética que determina sua relação com a autoridade religiosa e empresta-lhe significado.

Os mais radicais entre os místicos revolucionários são aqueles que não só reinterpretam e transformam a autoridade religiosa, mas aspiram a uma autoridade nova baseada na própria experiência. Em casos extremos, podem até alegar estarem acima de qualquer autoridade, serem uma lei própria. A informidade da experiência original pode até levar à dissolução de todas as formas, mesmo na interpretação. É esta perspectiva, destrutiva, porém não desvinculada do impulso original do místico, que nos permite entender o caso-limite do místico niilista como um produto muito natural de tormentos místicos íntimos, mesmo que tenha sido rejeitado com sentimentos de horror por todos ao seu redor. Todos os outros místicos tentam encontrar o caminho de volta à forma, que é ao mesmo tempo o caminho para a comunidade; só ele, porque em sua experiência a derrubada de todas as formas torna-se um valor supremo, tenta preservar a informidade num espírito não-dialético, em vez de tomá-lo, como outros místicos como um incentivo para a construção de formas novas. Toda autoridade religiosa aqui é destruída em nome da autoridade: temos aqui o aspecto revolucionário do misticismo em sua forma mais pura.

(Gershom Scholem. A Cabala e seu simbolismo. Trad. de Hans Borger e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1978. pp. 16-19)

Padrão
poesia, tradução

charles bukowski por fabiano calixto

Buk And Linda

A sua voz na minha boca Ou duas doses de conhaque vagabundo com Bukowski

Sempre curti muito ler o velho Buk. Desde muito jovem. Primeiro a prosa, depois a poesia. O primeiro livro que li, quando trabalhava numa biblioteca pública no ABC paulista e lá pegara emprestado um exemplar do maldito cujo, foi Crônica de um amor louco – o primeiro volume da obra Ereções, ejaculações e exibicionismos. Tudo naquela prosa me encantava e, muito mais importante, me divertia – o que no final deve dar no mesmíssimo mesmo. Ria alto lendo aquilo, seja no velho suburbano lotado dos finais de expediente, seja nos botecos pé-de-rato onde parava para molhar a goela nos dias quentes daquele verão. Os personagens dele sempre me cativaram, talvez por sermos todos da mesma laia. Ainda bem. A vida é curta pra ser pequena. São os desvalidos, os vagabundos, os poetas fracassados, os pirados, levando a solidão pra passear sob a chuva, dormindo em espeluncas de quinta categoria, entornando copos e copos em bares escuros e sujos, gente doida fazendo sexo adoidadadamente com a vida. O fracasso do teatro conhecido por american dream encenado em todos os lugares onde há alguém com um livro do velho Buk em mãos, num fim de tarde de sábado, tomando rabo-de-galo e cerveja, ouvindo a chuva dar conselhos à solidão geral e irrestrita.

As traduções dos poemas que ora seguem foram feitas por conta de encontros totalmente ao acaso. Livro neste país sempre foi muito caro. Poeta, se não é herdeiro, é um completo pé-rapado. Então, com o advento da internet, tudo se modifica, tudo se socializa, se compartilha, se abre a quem quiser. Livros, obras completas, tudo em pdf, tudo livre, tudo no-vasco. Daí, lendo, aqui e ali, seus poemas, alguns me chamaram muito a atenção, outros me deixaram completamente apaixonado. Acho que, como no caso de Bolaño, a poesia e a prosa de Bukowski se entreperfumam. São poucos os poemas que traduzi, e por puro prazer mesmo. De boa na lagoa, sussa na montanha-russa. Ou só por sacanagem. No Brasil, quem traduz muito bem a lírica de Bukowski é o poeta paranaense Fernando Koproski, que publicou as antologias Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7Letras, 2005) e Amor é tudo que nós dissemos que não era (7Letras, 2012) – ambos imperdíveis. Aqui, apenas mais uns exercícios de estilhaço e de afeto. Uma maneira de dizer: Bukowski, seu filho da puta, tou contigo, velho! a conta tu coloca na do Abreu, se ele não pagar, nem eu! valeu!

* * *

faz algum tempo

era quase manhã
melros no fio do telefone
esperando
enquanto eu comia
um sanduíche de ontem
às 6 da matina
dum calmo domingo.

um sapato no canto
de pé
o outro ao
lado

sim, algumas vidas foram feitas para ser
perdidas.

it was just a little while ago

almost dawn
blackbirds on the telephone wire
waiting
as I eat yesterday’s
forgotten sandwich
at 6 a.m.
an a quiet Sunday morning.

one shoe in the corner
standing upright
the other laying on it’s
side.

yes, some lives were made to be
wasted.

a geração perdida

tava lendo um livro sobre uma literata rica
dos anos vinte e seu marido
beberam, comeram e curtiram por toda a
Europa
encontrando-se com Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway e muitos
outros.
as celebridades eram como brinquedinhos para
eles
e pelo que li
as celebridades curtiram a ideia de ser
brinquedinhos.
durante todo o livro
esperei que ao menos uma das celebridades
dissesse para a literata rica e seu
rico literato marido
que caíssem fora
mas, pelo jeito, nenhum deles
o fez.
Em vez disso, deixaram-se fotografar com a senhora
e seu marido
em várias praias
com cara de inteligente
como se tudo isso fizesse parte
da Arte.
talvez o fato de a mulher e seu marido
serem donos de uma grande mídia
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou na calçada da livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles eram
artistas ótimos e/ou originais
mas tudo parecia tão esnobe e
afetado,
e o marido finalmente cometeu
seu tão anunciado suicídio
e a senhora publicou um dos meus
primeiros contos
nos anos 40 e agora
está morta, mas
não consigo perdoar nenhum dos dois
por suas vidas ricas e imbecis
também não consigo perdoar seus brinquedinhos
por se sujeitarem
a isso.

the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally committed his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40′s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

definindo a mágica

um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está na fissura
um bom poema é como um delicioso
sanduíche quando você está
faminto
um bom poema é uma arma quando
a bandidagem te cerca
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas da
morte
um bom poema faz a morte derreter como
manteiga
um bom poema emoldura a agonia e
a pendura na parede
um bom poema faz seus pés tocarem
a China
um bom poema faz a mente estilhaçada
voar
um bom poema torna possível cumprimentar
Mozart
um bom poema possibilita que você jogue dados
com o diabo
e vença
um bom poema pode quase tudo
e o mais importante
um bom poema sabe quando
parar

defining the magic

a good poem is like a cold beer
when you need it,
a good poem is a hot turkey
sandwich when you’re
hungry,
a good poem is a gun when
the mob corners you,
a good poem is something that
allows you to walk through the streets of
death,
a good poem can make death melt like
hot butter,
a good poem can frame agony and
hang it on a wall,
a good poem can let your feet touch
China,
a good poem can make a broken mind
fly,
a good poem can let you shake hands
with Mozart,
a good poem can let you shoot craps
with the devil
and win,
a good poem can do almost anything,
and most important
a good poem knows when to
stop.

sim

há coisas piores que
estar só
mas nos custam décadas
até que percebamos
e geralmente
quando conseguimos
é tarde demais
e não há nada pior
que
ser tarde demais

oh yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it’s too late
and there’s nothing worse
than
too late.

estar sozinho

quando a gente pensa no tanto
que deu errado
de novo e novamente
a gente começa a olhar pras paredes
e fica por lá
porque as ruas são aquele
mesmo velho filme
e todos os heróis acabam como
heróis de velhos filmes:
bunda gorda, cara gorda e o cérebro
de uma lagartixa.

não é de se admirar que
um homem sábio escalará
uma montanha de 3 mil metros
e sentará lá esperando
vivendo de frutinhas selvagens
em vez de confiar no bagaço dos joelhos
que certamente não durarão a vida toda
e em duas de cada três vezes
não sobreviverá uma noite sequer.

montanhas são difíceis de escalar.
as paredes são suas amigas.
aprenda com elas.

o que eles nos dão lá fora
nas ruas
é algo que mesmo as crianças
se encheram.

fique com suas paredes.
elas são o amor mais verdadeiro.

construa onde ninguém constrói.
é o último caminho que resta.

be alone

when you think about how often
it all goes wrong
again and again
you begin to look at the walls
and yearn to stay inside
because the streets are the
same old movie
and the heroes all end up like
old movie heroes:
fat ass, fat face and the brain
of a lizard.

it’s no wonder that
a wise man will
climb a 10,000 foot mountain
and sit there waiting
living off of berry bush leaves
rather than bet it all on two dimpled knees
that surely won’t last a lifetime
and 2 times out of 3
won’t remain even for one long night.

mountains are hard to climb.
thus the walls are your friends.
learn your walls.

what they have given us out there
in the streets
is something that even children
get tired of.

stay within your walls.
they are the truest love.

build where few others build.
it’s the last way left.

cometi um erro

me estiquei todo até a prateleira mais alta do armário
e puxei de lá um par de calcinhas azuis, minúsculas
e mostrei a ela
e perguntei: são suas?

ela olhou e disse:
não, devem ser da vadia

depois disso, ela se foi e não a vi
nunca mais. não está em sua casa.
continuo passando por lá, colocando bilhetes
por debaixo da porta. volto e os bilhetes
continuam lá. tiro a Nossa Senhora Aparecida
do retrovisor do meu carro e a amarro
em sua maçaneta com um cadarço, deixo
um livro de poemas.
na noite seguinte, quando retorno, tudo
continua no mesmo lugar.

continuo rondando as ruas à caça
daquele encouraçado roxo que ela dirige
sempre com a bateria fraca e as portas
penduradas, estropiadas.

dirijo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado com meu sentimentalismo e
possível amor.

um homem velho e confuso dirigindo na chuva
se perguntando onde é que a sorte
foi parar.

I made a mistake

I reached up into the top of the closet
and took out a pair of blue panties
and showed them to her and
asked “are these yours?”

and she looked and said,
“no, those belong to a dog.”

she left after that and I haven’t seen
her since. she’s not at her place.
I keep going there, leaving notes stuck
into the door. I go back and the notes
are still there. I take the Maltese cross
cut it down from my car mirror, tie it
to her doorknob with a shoelace, leave
a book of poems.
when I go back the next night everything
is still there.

I keep searching the streets for that
blood-wine battleship she drives
with a weak battery, and the doors
hanging from broken hinges.

I drive around the streets
an inch away from weeping,
ashamed of my sentimentality and
possible love.

a confused old man driving in the rain
wondering where the good luck
went.

Traduções & introdução: Fabiano Calixto

* * *

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns, PE, em 8 de junho de 1973. Vive em São Paulo. É doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, USP. Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998); Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000); Um mundo só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001) – com Kleber Mantovani e Tarso de Melo; Música possível (CosacNaify/ 7Letras, 2006); Sangüínea (Editora 34, 2007); A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013); Para ninar o nosso naufrágio (Corsário-Satã, 2013); Equatorial (Edições Tinta-da-China, 2014) e Nominata morfina (Corsário-Satã/Córrego/Pitomba, 2014).

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