poesia

A caça da baleia, por Frei Manuel de Santa Itaparica

baleia

neste fim do dia 20 de novembro, da consciência negra, em vez da celebração alegre que ocorreu em tantas partes, optei por uma dolorosa representação do escravo negro caçando baleia no séc. XVIII, porque a tomada de consciência é também reviver os modos de descrição/enquadramento/representação do negro na cultura brasileira ainda em desenvolvimento. por isso, a imagem tão distante historicamente apresenta ainda tantos negros: os espaços sociais mudam pouco, embora o sistema econômico tenha variado bastante — no fundo a foto celebratória reencarna a celebração heroica da ilha de itaparica pela descrição da violência/sobrevivência desses negros que se expõem ao risco & à caça.

no poema e na imagem: ela, um monstro ao olhar dos homens, foi caçada pelo que os homens insistiam/insistem em tornar monstros.

uma tristeza sem heróis. ou, como disse reynaldo damazio, um heroísmo inútil.

guilherme gontijo flores

ps: vale a pena ainda conferir este post do pádua fernandes, também dedicado ao racismo nos anos da ditadura.

* * *

Descrição da Ilha de Itaparica, Termo da Cidade da Bahia (primeira edição de 1796)

de Frei Manuel de Santa Rita Itaparica

Canto Heróico

XVI

Também pertence aqui dizer ousado
Daquele peixe, que entre a fauce escura
O Profeta tragou Jonas sagrado,
Fazendo-lhe no ventre a sepultura;
Porém sendo do Altíssimo mandado,
O tornou a lançar são sem lesura
(Conforme nos afirma a Antigüidade)
Em as praias de Nínive Cidade.

XVII

Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Co’a barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.

XVIII

Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se Sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E que para bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.

XIX

Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que fazem c’os remos mais ligeiras.

XX

Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.

XXI

Assim partem intrépidos sulcando
Os palácios da linda Panopéia,
Com cuidado solícito vigiando
Onde ressurge a sólida Baleia.
Ó gente, que furor tão execrando
A um perigo tal se sentenceia?
Como, pequeno bicho, és atrevido
Contra o monstro do mar mais destemido?

XXII

Como não temes ser despedaçado
De um animal tão feio e tão imundo?
Por que queres ir ser precipitado
Nas íntimas entranhas do profundo?
Não temes, se é que vives em pecado,
Que o Criador do Céu e deste Mundo,
Que tem dos mares todos o governo,
Desse lago te mande ao lago Averno?

XXIII

Lá intentaram fortes os Gigantes
Subir soberbos ao Olimpo puro,
Acometeram outros de ignorantes
O Reino de Plutão horrendo e escuro;
E se estes atrevidos e arrogantes
O castigo tiveram grave e duro,
Como não temes tu ser castigado
Pelos monstros também do mar salgado?

XXIV

Mas enquanto com isto me detenho,
O temerário risco admoestando,
Eles de cima do ligeiro lenho
Vão a Baleia horrível avistando:
Pegam nos remos com forçoso empenho,
E todos juntos com furor remando
A seguem por detrás com tal cautela,
Que imperceptíveis chegam junto dela.

XXV

O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad’um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.

XXVI

Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostrar Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.

XXVII

Qual o ligeiro pássaro amarrado
Com um fio sutil, em cuja ponta
Vai um papel pequeno pendurado,
Voa veloz sentindo aquela afronta,
E apenas o papel, que vai atado,
Se vê pela presteza, com que monta,
Tal o peixe afrntado vai correndo
Em seus membros atada a lancha tendo.

XXVIII

Depois que com o curso dilatado
Algum tanto já vai desfalecendo,
Eles então com força e com cuidado
A corda pouco a pouco vão colhendo;
E tanto que se sente mais chegado,
Ainda com fúria os mares combatendo,
Nos membros moles lhe abre uma rotura
Um novo Aquiles c’uma lança dura.

XXIX

De golpe sai de sangue uma espadana,
Que vai tingindo o Oceano ambiente,
Com o qual se quebranta a fúria insana
Daquele horrível peixe, ou besta ingente;
E sem que pela plaga Americana
Passado tenha de Israel a gente,
A experiência e vista certifica
Que é o mar vermelho o mar de Itaparica.

XXX

Aos repetidos rasgos desta lança
A vital aura vai desamparando,
‘Té que fenece o monstro sem tardança,
Que antes andava os mares açoitando:
Eles puxando a corda com pujança
O vão da lancha mais perto arrastando,
Que se lhe fiou Cloto o longo fio,
Agora o colhe Láquesis com brio.

XXXI

Eis agora também no mar saltando
O que de Glauco tem a habilidade,
Com um agudo ferro vai furando
Dos queixos a voraz monstruosidade:
Com um cordel depois, grosso e não brando,
Da boca cerra-lhe a concavidade,
Que se o mar sorve no gasnate fundo
Busca logo as entranhas do profundo.

XXXII

Tanto que a presa tem bem subjugada
Um sinal branco lançam vitoriosos,
E outra lancha para isto decretada
Vem socorrer com cabos mais forçosos:
Uma e outra se parte emparelhada,
Indo à vela, ou c’os remos furiosos,
E pelo mar serenas navegando
Para terra se vão endireitando.

XXXIII

Cada um se mostra no remar constante,
Se lhe não tem o Zéfiro assoprado,
E com fadigas e suor bastante
Vem a tomar o porto desejado.
Deste em espaço não muito distante,
Em o terreno mais acomodado
Uma Trusátil máquina esta posta
Só para esta função aqui deposta.

XXXIV

O pé surge da terra para fora
Uma versátil roda sustentando,
Em cujo âmbito longo se encoscora
Uma amarra, que a vai arrodeando:
A esta mesma roda cá de fora
Homens dez vezes cinco estão virando,
E quanto mais a corda se repuxa,
Tanto mais para a terra o peixe puxa.

XXXV

Assim com esta indústria vão fazendo
Que se chegue ao lugar determinado,
E as enchentes Netuno recolhendo,
Vão subindo por um e outro lado:
Outros em borbotão já vêm trazendo
Facas luzidas e o braçal machado,
E cada qual ligeiro se aparelha
Para o que seu ofício lhe aconselha.

XXXVI

Assim dispostos uns, que África cria,
Dos membros nus, o couro denegrido,
Os quais queimou Faeton, quando descia
Do terrífico raio submergido,
Com algazarra muita e gritaria,
Fazendo os instrumentos grão ruído,
Uns aos outros em ordem vão seguindo,
E os adiposos lombos dividindo.

XXXVII

O povo que se ajunta é infinito,
E ali têm muitos sua dignidade,
Os outros vêm do Comarcão distrito,
E despovoam parte da Cidade:
Retumba o ar com o contínuo grito,
Soa das penhas a concavidade,
E entre eles todos tal furor se acende,
Que às vezes um ao outro não se entende.

XXXVIII

Qual em Babel o povo, que atrevido
Tentou subir ao Olimpo transparente,
Cujo idioma próprio pervertido
Foi uma confusão balbuciante,
Tal nesta torre, ou monstro desmedido,
Levanta as vozes a confusa gente,
Que seguindo cad’um diverso dogma
Falar parece então noutro idioma.

XXXIX

Desta maneira o peixe se reparte
Por toda aquela cobiçosa gente,
Cabendo a cada qual aquela parte,
Que lhe foi consignada do regente:
As banhas todas se depõem à parte,
Que juntas formam um acervo ingente,
Das quais se faz azeite em grande cópia,
Do que esta Terra não padece inópia.

XL

Em vasos de metal largos e fundos
O estão com fortes chamas derretendo
De uns pedaços pequenos e fecundos,
Que o fluido licor vão escorrendo:
São uns feios Etíopes e imundos,
Os que estão este ofício vil fazendo,
Cujos membros de azeite andam untados,
Daquelas cirandagens salpicados.

XLI

Este peixe, este monstro agigantado
Por ser tão grande tem valia tanta,
Que o valor a que chega costumado
Até quase mil áureos se levanta.
Quem de ouvir tanto não sai admirado?
Quem de um peixe tão grande não se espanta?
Mas enquanto o Leitor fica pasmando,
Eu vou diversas cousas relatando.

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poesia

4 poemas inéditos de alexandre guarnieri (1974-)

guarnieri

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Atualmente pertence ao corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens e integra (desde 2012), com o artista plástico, músico, ator e poeta, Alexandre Dacosta, o espetáculo mutante [versos alexandrinos]. Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia e está disponível online (no issuu.com). Publicou poemas em revistas e jornais, dentre eles o Panorama da Palavra, Urbana, O Carioca, Suplemento Literário de Minas Gerais, dEsEnrEdoS, RelevO, Eutomia, Zunái, Musa Rara, Acrobata e Germina. Em 2014, participou das antologias Essas águas (Org. Vagner Muniz, 2014 [ebook]) e Hiperconexões: realidade expandida, volume 2 (poemas sobre o pós-humano; Org. Luiz Bras, Patuá). Seu próximo livro, Corpo de Festim (Confraria do Vento)está no prelo e será lançado em breve. Email: alex.guarni@gmail.com
Os poemas a seguir são “livro aberto”, na primeira imagem, e 3 poemas “o sangue”, “o suor” & “a lágrima”, que fazem parte da série mecânica dos fluidos; todos pertencem ao livro inédito, Corpo de Festim.
* * *
livro aberto 2
§
fluidos 2
(poemas de alexandre guarnieri)
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poesia

3 poemas inéditos de andré caramuru aubert (1961-)

André_Caramuru_Aubert

aquelas caminhadas sem fim

o melhor daquelas caminhadas sem fim e sem vontade de chegar a
……………………………………………………………………..[parte alguma
naqueles caminhos antigos em meio a montanhas antigas
por estradas antigas nas quais já se apagaram há muito os rastros
………………………………………………………………………………[antigos
e aqui e ali, espalhados, cavalos e vacas sem memória e
as pequenas e delicadas flores do cerrado, às vezes muito azuis,
………………………………………………[outras vezes muito amarelas e
em busca da transcendência que havia em cada passo, que deve
………………………………………………………………[haver em cada linha
em busca da transcendência que há na concisão, e que há também
……………………………………………………………………….[na explicação,
que há na métrica, e na quebra da métrica, no ritmo e na respiração
o melhor daquelas caminhadas tendo o céu azul como proteção e
o sol forte a castigar a pele mas pelo menos tínhamos óculos escuros
…………………………………………………………………………………………..[e
cães latindo ao longe e moscas e vespas e sabíamos que
em algum lugar teria que haver cerveja gelada
porque sabíamos que melhoraram muito os esquemas de
…………………………………………………[distribuição dos fabricantes e
sabíamos de alguma coisa mas da maior parte não sabíamos nada e
[nem sabemos ainda e víamos outras flores muito roxas, ou muito
…………………………………………………………………………..[vermelhas
em busca da transcendência dos caminhos entre as montanhas
como no poema de Liu Ch’ang Ch’ing, que diz:
“Pôr do sol. Picos azuis se desfazem no lusco-fusco /
Sob as estrelas do inverno.”

§

sonho

para o Nica, em memória

às vezes um amigo morre, nós vamos ao enterro, nós
lamentamos                          nós choramos
(porque isso é uma merda indescritível), e
depois prosseguimos
com a vida, com as coisas, porque isso é natural e inevitável. E
numa noite dessas eu sonhei com um amigo que morreu e
no sonho ele estava vivo, quer dizer, ele não tinha morrido,
ele tinha passado anos em coma, e depois acordou
ele estava cabeludo, mas era bem ele, mas
estava difícil de conversar porque
havia outras pessoas na sala, e tanto tempo tinha
se passado, tanta coisa acontecido, e
ele não conheceu nossos filhos (por exemplo), e
aí eu acordei, e por segundos eu acreditei que ele estava vivo, mas
não, não                 enquanto eu me virava para fora da cama e
………………….[procurava pelos chinelos no chão do quarto ainda
na penumbra eu me dei conta, porque
tanto tempo se passou, tanta coisa aconteceu.

§

gesso

em memória de minha tia Stellinha

o gesso cobria toda a perna (esquerda?) dela
quebrada quando Tupã, o cavalo, que tinha fama de arisco, a
…………………………………………………………………….[derrubou
as amigas iam até lá em casa e falavam e riam
e desenhavam e escreviam no gesso
deviam ser bobagens, coisas de menina, todas elas eram novinhas,
meninas de colégio de freiras do começo dos anos sessenta
mas para mim elas pareciam muito grandes e lindas
e eu só olhava, de pé, meio de perto, meio de longe, um pouco
…………………………………………………………………….[envergonhado
como eu ia saber que aquela seria a última lembrança que eu teria
…………………………………………………………………………………..[dela?

* * *

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo no longínquo ano de 1961. É historiador, editor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Trip e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz, entre seus preferidos, algum poeta estrangeiro. Publicou os romances A Vida nas Montanhas, A Cultura dos Sambaquis e Cemitérios. Há pouco tempo decidiu que já estava mais do que na hora de tirar seus poemas da gaveta e espalhá-los por aí.

 

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crítica, poesia, tradução

Rosas doentes

William-Blake

Em duas ocasiões anteriores, tratamos aqui dos poemas “The Tyger” e “The Lamb”, das Canções de Inocência & Experiência de William Blake. Recentemente eu fiquei meio obcecado com outro poema desses dois livros, “The Sick Rose”, e sinto que, apesar de ser curtíssimo, o poema merecia uma postagem inteira dedicada a ele.

Segue no original:

The Sick Rose

O Rose thou art sick.
The invisible worm,
That flies in the night
In the howling storm:

Has found out thy bed
Of crimson joy:
And his dark secret love
Does thy life destroy.

Destaco duas traduções aqui deste poema. Uma de Mário Alves Coutinho & Leonardo Gonçalves, presente no volume Canções da Inocência e da Experiência, da editora Crisálida:

A ROSA DOENTE

Ó Rosa, estás doente.
O verme que vadia,
Invisível na noite
De uivante ventania:

Achou teu leito feito
De prazer carmesim:
Seu negro amor secreto
Dedica-se ao teu fim.

E outra de Augusto de Campos, que acompanha uma versão verbivocovisual:

A rosa doente

Ó Rosa, estás doente!
Um verme pela treva
Voa invisivelmente
O vento que uiva o leva

Ao velado veludo
Do fundo do teu centro:
Seu escuro amor mudo
Te rói desde dentro.

a-rosa-doente

Publicado pela primeira vez em 1794 (antes, portanto, até mesmo das Lyrical Ballads de Wordsworth & Coleridge, que “fundam oficialmente”, por assim dizer, o romantismo na Inglaterra), “The Sick Rose” é um poema muito estranho. Qual é o sentido dessa parábola? O verme invisível “voa na noite”, pela “tempestade que uiva”, descobre o sugestivo “leito de alegria carmim” da rosa e destrói a sua vida com seu amor negro e secreto. E é isso, nenhuma explicação sobre a moral da história, nenhuma ideia do que possa ser o verme invisível (e como e por que diabos ele voa? e por que na noite, na tempestade?). É evidente que esse não é um poema sobre jardinagem e que as duas figuras são metafóricas, apontando para algo além de si mesmas, mas para o quê? Nem Baudelaire, com toda a sua modernidade (que os críticos e teóricos amam glosar), num poema como “O Albatroz” resiste àquela ponta de vontade iluminista de explicar as coisas, e, mesmo depois de martelar já na nossa cabeça que quem é o rei dos ares acaba sendo reduzido a uma criaturinha patética ao descer dos céus e ser obrigada a andar (que é o albatroz, logo, o poeta, na metáfora), resolve enfiar uma quarta estrofe explicitando essa relação: “Le Poète est semblable au prince des nuées“. Aaaah, claro, Charles! Nunca iríamos adivinhar.

Mas, bem, piadas às custas de Baudelaire à parte (eu ainda sou um baudelairiano irremediável, porém), voltando ao poema, é impossível não notar a aura pesada de erotismo que paira sobre o “The Sick Rose”. “Crimson joy” é uma expressão muito sugestiva, e o gesto do verme encontrando a rosa e, imagina-se, abrindo suas pétalas remete a claramente aos lábios da vulva, ao ato sexual. Mas, em todo caso, é um erotismo mórbido. O crítico S. Foster Damon, num texto de 1924, William Blake: His Philosophy and Symbols faz uma leitura algo cristianizada do poema: a rosa é a flor do Amor, e o verme é a Carne, e Damon identifica na destruição da rosa uma ideia de que esse amor casto é destruído pelo sexo – e, assim, Blake acreditaria num amor inocente e puro, muito em consonância com uma certa visão castrada que se tem da poesia romântica.

Mas essa é uma visão bem inocente. Sem querer fazer uma leitura biográfica aqui, mas já a meio caminho de fazê-la, gostaria de lembrar que a historiadora Marsha Keith Schuchard, em seu livro Why Mrs Blake Cried: William Blake and the Sexual Basis of Spiritual Vision (2006), aponta para documentos que confirmam uma suspeita antiga dela, a de que os Blake eram filiados a uma igreja bastante curiosa, a Moravian Chapel, em Fetter Lane, liderada pelo Conde Zinzendorf. Para explicar e entender o que acontecia na Moravian Chapel, basta pensar nas já famosas descrições do êxtase místico de Santa Teresa d’Ávila, que se parecem muito com a descrição do êxtase sexual. No caso dos Moravians, a semelhança não era metafórica e de fato o Conde Zinzendorf incentivava relacionamentos abertos entre os membros da igreja, dava aulas de educação sexual para recém-casadas e instruía preces e hinos direcionados à ferida na costela de Jesus, que tem um longo histórico de representação iconográfica em que ela se assemelha a uma vagina. Pois é.

Wound of Christ circa 1375

E parece que a Moravian Chapel tinha também alguma coisa com apropriação de noções de meditação cabalística aplicadas à prática sexual (como se concentrar nas letras do alfabeto hebraico), o que permitiria o visionarismo, mas enfim, estou me estendendo demais já sobre o assunto. O ponto a que eu quero chegar é que Blake não era nenhum Álvares de Azevedo, que sonhava com virgens puras entre nuvens inatingíveis. E isso, longe de ser um detalhe biográfico, encontra reflexo em sua poesia, o que faz com que a leitura de Damon pareça um tanto equivocada, talvez refletindo os valores conservadores de sua própria época. O mesmo acontece com a crítica em torno de Shelley (muitas vezes, não por acaso, comparado a Blake), lido como um poeta do amor espiritual puro, mas que a uma leitura mais detida revela um louvor ao amor livre e uma carnalidade bem acentuada.

Eu encontrei um site aqui de um professor da Universidade de Minnesota chamado Norman Fruman, que reconta uma anedota em sala de aula em que uma aluna sugere que o verme invisível do poema seja um símbolo fálico, ao que outra aluna responde: “se você acha que o verme invisível é um símbolo fálico, você precisa arranjar outro namorado” (fonte). Apesar da sagacidade da piada da moça (eu, pelo menos, ri), acontece que o verme tem de fato uma conotação fálica em Blake. Ele aparece em “O Livro de Thel” com essa dupla simbologia de imagem do sexo (falo) e da morte (o verme que rói os cadáveres), mas é uma figura patética, porque a narrativa se passa em Beulá, o jardim da inocência, na mitologia de Blake, que Thel habita e do qual se recusa a sair. No estado de inocência não existe morte e geração (i.e. procriação), assunto de que já tratamos anteriormente numa postagem sobre Joseph Campbell (clique aqui), e por isso Thel tem pena da criaturinha ridícula, ao mesmo tempo um verme inócuo e pênis infantil. E isso muda muito em “The Sick Rose”, não um poema do livro da inocência, mas da experiência.

E aqui eu vou ter que citar Harold Bloom. Sei que muita gente tem problema com ele, e com toda a razão, mas o Bloom de começo de carreira era um ótimo leitor dos românticos, e o seu livro The Visionary Company: a reading of English Romantic poetry (1961) é uma excelente introdução a Blake, Wordsworth, Coleridge, Keats, Shelley e Byron, escrita na época em que ele ainda não estava completamente obcecado com termos cabalísticos, angústia da influência e defesa do cânone. Na seção sobre “The Sick Rose”, que emenda com uma seção anterior sobre o poema “Earth’s Answer”, também sobre dominação sexual, Bloom diz o seguinte:

Porém os amantes se encontram nas florestas da noite e não à luz do dia. Esse tema encontra sua perfeita expressão em “The Sick Rose”, trinta e quatro palavras que formam um poema maravilhosamente compacto. Como com “The Tyger”, a dificuldade deste poema o faz herdar o tom problemático de sua abertura exclamatória:

O Rose, thou art sick!

A ênfase aqui é na palavra “art” (és/estás) e o tom é macabro, com a assertividade de um profeta que viu sua profecia de calamidade ser cumprida:

The invisible worm
That flies in the night,
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy,
And his dark secret love
Does thy life destroy.

O leito precisa ser “descoberto” porque está oculto, e já é um leito de “alegria carmim” antes que o verme chegue a ele. Os elementos de ocultação deliberada e de autogratificação sexual deixam claro que o poema é uma invectiva contra o mito de que são as mulheres que fogem e os homens que as buscam, com seu padrão sinistro de recusa sexual e subsequente destrutividade. O amor do verme é um amor negro e secreto e portanto destrói a vida, porém o verme vem invisivelmente à noite e pela ação da tempestade que uiva, porque um amor solar e declarado não poderia ser recebido. Nem o verme, nem a rosa têm culpa, na verdade, porque foi a Natureza que ocultou o leito da rosa e assim pôs os contrários gerativos masculino e feminino um contra o outro. A força do poema se encontra no paralelo humano que fica sugerido, em que a ocultação é mais elaborada e o casamento-estupro destrutivo é um ritual social.

E essa leitura me parece estar mais alinhada ao sentido ético geral da mitologia elaborada por Blake, que não tem espaço para essa dicotomia simples entre amor “puro” e o amor erótico – dicotomia esta cujo tom implícito de disciplina e proibição remete a Urizen, o demiurgo da cosmologia blakiana que representa a lei e a razão e visa restringir a liberdade humana, e, em todo caso, é angelical demais para partir da mesma persona que reclama, em O Matrimônio do Céu e do Inferno, que Swedenborg só “escreveu as velhas falsidades” por ter conversado “apenas com os Anjos, que são todos religiosos, & não os Diabos, que odeiam, todos, a religião”. Esse topói do amor que é destrutivo por ser obrigado a ser oculto e clandestino, já prepara o terreno ainda para a releitura homossexual do poema no contexto da segunda metade do século XX, nas mãos de figuras como o cineasta Derek Jarman (1942 – 1994), que foi grande leitor de Blake. Não me por acaso também, o grupo de música eletrônica e industrial Coil (1982 – 2004), que trabalhou com Jarman em projetos como The Angelic Conversation (1985) e Blue (1993), utiliza o poema como mote no álbum Love’s Secret Domain (1991).

Mas voltemos ao texto. Notem que Bloom, infelizmente, como costuma fazer em suas análises, não presta muita atenção aos elementos formais mais básicos do poema. Para dar um exemplo, a pontuação usada por ele (que tem aquele ponto de exclamação horroroso) é diferente da que se vê na placa em que o poema está ilustrado:

The_Sick_Rose_(Fitzwilliam_copy)

A pontuação idiossincrática, com essa falta de vírgulas, soma uma camada a mais de estranheza ao poema, junto de sua métrica irregular, que leva a uma contagem de sílabas 5/6/5/5 e 5/4/6/5:

o / ROSE | thou / art / SICK |
the  / in / VI | si / ble / WORM |
that / FLIES | in / the / NIGHT |
in / the  / HOWL | ing / STORM |

has / FOUND | out / thy / BED |
of / CRIM | son / JOY |
and / his / DARK | sec / ret | LOVE |
does / thy / LIFE | dest / ROY |

…no primeiro verso temos um jambo (sílaba fraca + sílaba forte)  e um anapesto (sílaba fraca + sílaba fraca + sílaba forte), depois dois anapestos nos dois versos seguintes e uma combinação de anapesto e jambo que inverte a do primeiro verso. “Of crimson joy” consiste de dois jambos só, e “dark secret love” é uma expressão complicadinha de escandir, por causa da dinâmica de força entre as tônicas do inglês em que geralmente os adjetivos acabam perdendo para os verbos e substantivos. Mas aqui há um encavalamento de adjetivos e, assim, temos 3 opções: ou imaginamos que este seja um verso anômalo no poema com 3 tônicas, e o lemos com o choque desagradável de duas tônicas (DARK | SEC | ret) ou ainda com o “dark” perdendo a tonalidade para o “his” (o que é bem forçado); ou supomos que o pé métrico usado seja um com três sílabas átonas e uma tônica, o chamado peônio (and / his / dark / SEC | ret / LOVE), que é uma opção meio bizarra; ou lemos “secret” como sendo uma palavra inteiramente átona, o que é também uma opção bem estranha, que foi o Guilherme que me sugeriu aqui e que eu rejeitei a princípio, mas depois acabei vendo que era a melhor opção, fazendo com que ele seja, como o segundo verso, anapéstico.

Foi com estas coisas em mente e ainda mais algumas, tais como apontadas por Jeremy Biles nesta postagem, que resolvi somar mais uma tradução do poema ao português, já que acredito que essas pequenas dissonâncias servem para deixá-lo mais intrigante e até mesmo, arriscaria dizer, mais moderno. O verme acabou aqui se tornando uma praga, no sentido botânico do termo, uma vez que a palavra “worm” em inglês pode ter uma conotação mais genérica que não sei se “verme” tem em português. Por exemplo, não me parece corrente falarmos em verme da maçã ou da goiaba (para nós, pelo menos na variação linguística à qual estou acostumado, diz-se “bicho”, que a fruta está “bichada”), ao passo que “worm” é comum nesses casos em inglês, e a ilustração de Blake nos mostra uma lagarta. “Praga”, além disso, também permite uma aliteração com “procela”, e o Jeremy Biles identifica na expressão “howling storm” um desdobramento da palavra worm (hoWling stORM) que se torna possível se aproximar, na tradução, com “procela” e “chegara”, no verso seguinte (PRocelA, cheGAra). Também tentei reproduzir uma certa irregularidade de metro (apesar de eu não ter me prendido tanto à estrutura dos pés métricos do original) e de pontuação, bem como a repetição da letra “o”, que no original ocorre em todos os versos menos o terceiro (o segundo, na minha tradução) e que parece ser significativa.

Segue a tradução, enfim:

A Rosa Doente

Ó Rosa adoeceste.
A praga invisível,
Que voa na noite
Na procela temível:

Chegara a teu leito
De gozo carmim:
E seu atro oculto amor
À tua vida põe fim.

 

(Adriano Scandolara)

 

PS: o Guilherme também se empolgou com a ideia de traduzir o “Sick Rose” e mandou uma tradução própria. Quem quiser mandar também a sua nos comentários, sinta-se à vontade:

A rosa adoentada

Ah rosa adoentada
um verme que se enrasca
no voo invisível
da uivante borrasca

achou a tua cama
rubra enlouquecida
e num negro amor
corrói a tua vida

(tradução de Guilherme Gontijo Flores)

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poesia

8 poemas de gabriel resende santos (1994-)

AHA

 

5 POEMAS DE ELEVADOR 

um carinho nos teus sonhos

o gosto do sucesso
no elevador social com
certeza que o elevador social
foi feito para me servir e aqueles
que voltam pra casa de sapatos,

o gosto do sucesso a
menina mais esperta
me olhar por mais que cinco segundos
antes de desviar-se para o desvio imprevisível
que as meninas mais espertas desviam,

o gosto do sucesso
as mãos naquela perna
os dedos naquela garganta
leve a chuva ácida deslizando
pelos relatórios e óculos de grau,

o gosto do sucesso
estou vivo estou vivo
você está viva também
subindo no seu elevador social
e preparando uma vitamina
de beterraba bem vermelha
talvez,

o gosto do sucesso
quando os corpos fundem-se
na banheira encharcada de
qualquer líquido espesso
sem água as giletes
gentilmente beijando as curvas
até chegar aonde o sucesso chega,

o gosto do sucesso
é só meu depois de três ou quatro dias
ele rasteja
contorce
e derrama-se sucedido na boca
pelas moscas e sapatos pisando
o tapete do elevador social.

§

aulas particulares

não espalhe:
o entendimento é um jogo de morte.

num romance louco sobre matrix viagens interplanetárias
inteligências artificiais e drogas futuristas
o que você entende
é um estalo de inspiração.

quando aceita na estrada
um pobre caronista
e conversas triviais
sobre abate de gado e
literatura norueguesa
revelam para desagrado
de sua boa vontade
o irmão esquizofrênico
e universitário do leatherface
pronde caminha a discussão?

nenhum açougueiro ensina o entendimento.

por isso vence o cordeiro
que sem querer
ensina ao ponto surpreendido
a pular de blake
pra te achar em pound.

§

até amanhã

amanhã tu vai. leva junto
teu romantismo frank booth
e dedo mindinho a única parte
em que sobra amor. queria aninha ficando
comigo e narrar melhor o vácuo nas garras
do namorado. problema é que aninha não curte
ser aninha. vai pra máquina do tempo ouvir
algum hit dos anos oitenta filme de terror em
dose dupla na apresentação do zé. queria comer
uma palavra sobre os exércitos do crack mas estou
pouco musical num mês tão engarrafado. os amigos
viajam por meses namoradas por milênios cachorros
pelos segundos em que o rabo não cansa tivesse eu
o fôlego dos psicopatas. os pastores dizem ô drummond
meu filho sai desse corpo que não te pertence que os poemas
desse moleque gabriel graças a jesus também não. minha parte
consciente fica ofendida e quer briga mas drummond
que é morto forte e rei não me dá bola. porra carlos.

fim de semana tu vai. com um facão debaixo do braço
e uma máscara de halloween pra dar susto em todo mundo
que todo mundo te incomoda demais. olha beleza sim
mas depois não me venha pedir receita de microondas
ou aquele disco emprestado. vai mesmo embora que deus
proteja. se for pra fazer o seppuku faz direito não faz
esguelha com os comprometidos anota o telefone de casa
não morde ninguém se te chamarem aceita tá com calma
que recusa pode ir sem sangue por favor tua memória
é mesmo uma bosta.

§

uma garota hardcore

a felicidade, línguas deslizam,
se veste de preto e pinta o cabelo com
cores primárias.

curte nietzsche desde a quinta série
e aprendeu a contar todos os pelos
de seu bigode velho.

aos treze anos pôs na língua
seu primeiro piercing e
não pretende mais nenhum.

a felicidade escreve em vastos diários
notas sobre seus sonhos, lamenta
não lembrar da maioria.

andou pensando em trocar seu nome
para karen jezkóva, atiçando a curiosidade
dos poetas míopes.

mas a felicidade precisa confessar
pra si mesma que as coisas como estão
não estão más.

perseguindo homens de areia
para mutilar seus dedos dos pés
e beber seus desejos.

§

poema de amor

vale enquanto embaraça as caligrafias
subindo pulando nas menores curvas
do abc.

nas noites duas silhuetas caminhando
lado a lado – dedos entrelaçados
no erro da sombra.

valem contornos de conchas e areia
desenhando princesas nos castelos
e anjos do trópico de capricórnio.

vale sob pijamas pesados acender nos sonhos
o desencontro perfeito e primeiro.

valem samurais cuspindo beijos
e fuzileiros as balas carinhosas
que dão de graça aos fortemente armados
bebês das superpotências.

vale o vhs ressuscitado
e seu desserviço aos amantes
em alta definição. vale o panfleto
na melancolia do fim de eleição.

orelhas máscaras aviões de papel.
tralha voos musas a dez quilômetros de distância.
guarda-chuvas apaixonados pela água
e tampas de caneta carentes.

mas quando o amor
amor se torna (carne arfante)
é bom muito bom até melhor mas
por ausência de fôlego sua urgência
não inspira muitos poetas vivos.

já as cartinhas fantasmagóricas, além de mais
influentes, possuem um incontestável valor histórico.

* * *

3 INÉDITOS

se a coisa tá feia vamos pra lapa

nem tudo é sal no olho
respingo de água fervendo
que te queima os braços
ou aquele ruído de obra que
faz apitar de repente teu ouvido
nem tudo é funcionarismo sádico
e professor de palmatória
as garras do homem mau
que te arranham os lobos
se a insolação nos deixa tontos
vamos nos guiar pela festa
à luz dos arcos que crescem
e põem esperança nos copos cheios
até o dia seguinte

§

poesia é coisa séria

tem oráculo por aí dizendo que poesia é magia
que é feitiço umbandista cristão xamânico
de algo além do real, dimensão multitemporal
divina e transcendente que explica a origem da consciência
humana e animal: bom a poesia é mais ou menos divina
como um pau duro infinito que nunca broxa\

§

ô pessoa, qual é a tua?

louca medusa
se levanta que não é sua hora
ainda é cedo e as caveiras fumam
que prejuízo você me dá
jogando bombas no lago
derramando veneno nas folhas
vai dançar tango com um fantasma vai
se infiltrar na festinha da girafa
e sussurrar samba triste no arpoador
só não vem pra cá com esse bafo de cachaça
e esse olhar de quem comeu o mundo
cara de estrela estrelinha pegadora
sua alma tá cicatrizando feia da última pancada
e do mesmo jeito sei tu pensa que venham outras
pois do contrário não estamos falando de guerra
enquanto tenta manter a cerveja no copo trêmulo
louca
se levanta que não é sua hora
faz um favor: espera até que o vagalume acorde

* * *

Gabriel Resende Santos nasceu no Rio de Janeiro em maio de 1994. Acredita em Rimbaud e Whitman, mesmo sem assumir religião. Gosta de declamar Roberto Piva bem alto pra afastar praga e encosto. Crê na tese de que estamos todos perdidos no labirinto de um minotauro invisível. Patologicamente romântico e tímido, encontrou na poesia um porto relativamente seguro. Já apareceu em antologias e revistas, mas ninguém o reconhece na rua. Acabou de lançar seu primeiro livro de poemas Elevador (Patuá, 2014). Escreve no blog Occam, big bangs & outras explosões (http://hope-landic.blogspot.com) e no coletivo Os Escritores Invisíveis (http://osescritoresinvisiveis.blogspot.com.br/). Traduz de vez em quando.

Padrão
poesia, tradução

Irit Amiel (1931), por Luciano R. Mendes

Irit Amiel

Irit Amiel nasceu em Częstochowa, na Polônia, em 1931, sua origem judaica (a família de seu pai, Leon Librowicz, provavelmente consistia de judeus fugidos de Portugal e estabelecidos em terras alemãs cerca de 400 anos antes, de onde foram para a Polônia). Durante a Segunda Guerra Mundial ficou algum tempo no Gueto de Częstochowa, de onde escapou. Com documentos falsos e a ajuda de poloneses católicos, sobreviveu à Shoah. Depois da guerra conheceu Itzak Cukierman, uniu-se à Bricha e emigrou para Israel. Lá viveu inicialmente em um Kibutz e, depois, em Tel Aviv.

Sua carreira literária começou bastante tarde, apenas em 1994, com a coletânea de poemas de língua hebraica, ‘Exame do Holocausto’. Nos anos seguintes passaria a escrever poesia e prosa em língua polonesa, sempre a respeito dos temas da Shoah e da sua condição de sobrevivente.

Luciano R. Mendes

* * *

Starość

Z ciekawością i przerażeniem
jak w dziką knieję
wchodzę w starość

Stroma ścieżka
bezpowrotnie prowadzi
w dół

Nic nie powróci
Niczego nie da się naprawić
Co krok czyha zasadzka
W cieniu każdej paproci przepaść

Czy to już wyrok ostateczny?
Zniknę i wszystko potoczy się
jak gdyby nigdy nic

Beze mnie

Velhice

Com interesse e medo
como numa mata virgem
entro na velhice.

Um caminho íngreme
que inevitavelmente leva
para baixo.

Não tem volta.
Nada pode ser corrigido.
Em cada esquina espreita uma emboscada
Na sombra de cada samambaia – um abismo.

Já é o juízo final?
Eu desapareço e tudo continua
como se nada acontecesse

sem mim

Soir de Paris

Moja pachnąca paryskim wieczorem matka
pozostawiła na świecie szarą smugę dymu,
plik pożółkłych listów żydowskiej dziewczyny,
u progu szczęścia i nieszczęścia,
i moje stare żylaste dłonie muskające
o szarej godzinie głowy jej sześciu
izraelskich prawnuków.

Soir de Paris

Minha mãe de cheiro de anoitecer em Paris
deixou no mundo um rastro de fumaça cinza,
uma pilha de cartas amareladas de moças judias,
no limiar entre felicidade e tristeza
minhas velhas mãos musculosas acariciando,
à hora cinzenta, as cabeças de seus seis
netos israelenses.

Nie zdążyłam

Nie zdążyłam do Treblinki na czas
przyjechałam spóźniona o pięćdziesiąt lat
drzewa stały nago bo była jesień
chciałam uciec natychmiast
bo jak rekwizyt stał tam rdzewiejący pociąg
i cicho szumiał las.
Było pięknie szaro spokojnie pusto
i tylko wiatr muskał ziemię drzewa
kamienie i nas
gasząc naszą świeczkę
raz po raz.

A Dita powiedziała – widzisz dobrze że nie zdążyłaś
i teraz jesteś moją starą mamą i objęła mnie mocno
i zaśmiała się smutno

Não cheguei a tempo

Não cheguei a tempo em Treblinka
atrasei-me uns cinquenta anos
as árvores nuas pois era outono
e eu queria fugir de uma vez
pois lá estava, como uma réplica, o trem enferrujado
e os murmúrios quietos da floresta.
Era o vazio: belo, cinzento e plácido
só o vento tocava a terra e as árvores
as pedras e nós
apagando as velas
uma a uma.

E Dita disse – veja só, que coisa boa que você se atrasou
e agora é a minha velha mãezinha e me abraçou com força
e sorriu com tristeza.

Ukraińska Akwarela

Na górze jest modre niebo
Popstrzone białymi chmurkami

Na dole jest beżowy dół
wysypany różowymi cukierkami

Na krawędzi dołu stoją szare
żydowskie dzieci z żółtą łatą

Dwaj zielonkawo-szarzy Niemcy
stoją na seledynowej murawie

Popielate dzieci skaczą do dołu
po porozrzucane cukierki

Pierwszy Niemiec szkarłatnie strzela
do nich kiedy są jeszcze w powietrzu

Drugi obrzuca je różowymi cukierkami
jak na Bar-Mycwie w Synagodze

A na lśniącej klamrze pasa obaj mają
napisane Gott mit uns

Aquarela Ucraniana

Em cima, o céu cerúleo
Manchado com nuvens brancas

Em baixo o solo bege
polvilhado com doces cor-de-rosa

E na beirada de baixo estão cinzentas
crianças judias com faixas amarelas

Dois alemães cinza-esverdeados
contra um muro verde celadon

As crianças cinzentas saltam para baixo
atrás das balas espalhadas

O primeiro alemão dispara projéteis escarlates
enquanto eles ainda estão no ar

Os segundo os cobre com doces cor-de-rosa
como no Bar-Mitzva, na Sinagoga

E nas fivelas dos cintos os dois levam
a inscrição Gott mit uns.

(poemas de Irit Amiel, trad. de Luciano R. Mendes)

Padrão
poesia

Vozes, de Ana Luísa Amaral

Ana-Luisa-Amaral

Ana Luísa Amaral é uma autora lisboeta nascida em 1956. Licenciou-se em Letras Germânicas na Faculdade de Letras do Porto, onde leciona até hoje. Completou uma tese de doutorado sobre Emily Dickinson (que pode ser baixada e lida clicando aqui), cujos poemas ela também já traduziu e publicou no volume Cem Poemas (ed. Relógio d’Água, 2010), uma edição que infelizmente me parece bastante difícil de se encontrar no Brasil. Suas áreas de investigação são Poéticas Comparadas, Estudos Feministas e Estudos Queer, e é coautora de um Dicionário da Crítica Feminista (ed. Afrontamento, 2005).

Como poeta, publicou Minha senhora de quê (1990), Coisas de partir (1993), Epopeias (1994), E muitos os caminhos (1995), Às vezes o paraíso, (1998), Imagens (2000), Imagias (2002), A Arte de Ser Tigre (2003), A Génese do Amor (2005), Entre Dois Rios e Outras Noites (2008), Se fosse um intervalo (2009), Vozes (2011), Próspero morreu: Poemas em acto (2011) e Escuro (2014), além de dois volumes de poesia reunida – um deles com o título muito adequado de Poesia Reunida (1990 – 2005), e Inversos (Poesia 1990 – 2010) –, um volume de prosa (Ara, de 2013) e alguns livros de literatura infantil. É ganhadora de diversos prêmios e já teve poemas traduzidos para o espanhol, o italiano, o francês, o sueco, o alemão e o holandês.

Seu livro Vozes, originalmente publicado pela editora lisboeta Dom Quixote em 2011, foi publicado ano passado em terras brasileiras pela Iluminuras e, ao lado de Observação de Verão seguido de Fogo, do também português Gastão Cruz, e dos brasileiros Ximerix, de Zuca Sardan (de que já tratamos aqui no escamandro anteriormente, como se pode ver clicando aqui) e brasa enganosa, de nosso coeditor Guilherme Gontijo Flores, é um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom deste ano. É desse volume que eu selecionei alguns poemas abaixo para compartilhar com nossos leitores, visto que imagino que muitos (por diversos motivos, incluindo problemas de natureza editorial) possam não ter ainda muito contato com a produção portuguesa contemporânea.

Vozes é estruturado como um longo intervalo entre dois poemas, um que carrega o título do livro, que encerra o volume, e outro chamado “silêncios”, i.e. um espaço, portanto, entre o silêncio e a sua quebra pela voz, o que acaba me lembrando daquela citação do Debussy de que a “música é o espaço entre as notas”. Ambos os poemas são marcados pela temática da perda e por uma metalinguagem que acaba permeando o livro inteiro, uma preocupação manifesta com a palavra, a linguagem, a escrita, o eterno problema da comunicação sob a ótica moderna. Entre este começo e este fim há 6 seções, intituladas “A impossível sarça”, “Breve exercício em três vozes”, “Trovas de memória”, “Escrito à régua”, “Outras rotações” e “Outras vozes”.

“A impossível sarça”, da qual retirei abaixo o poema homônimo, é uma referência clara ao episódio bíblico da sarça ardente no Êxodo, quando Deus fala com Moisés pelas chamas – explicitando aí também essa questão da linguagem (“Que mais fazer/ se as palavras queimam”,  “palavras// que não chegam/— mas cegam”). “Breve exercício em três vozes” consiste de 3 poemas, com variações sobre Rilke, Camões e Bocage (vozes que não a dela própria, portanto, ainda que tenham vindo inevitavelmente a fazer parte dela, pela leitura e influência), e “Trovas de Memória” retoma uma certa tradição medieval trovadoresca portuguesa, com poemas como “Inês e Pedro: Quarenta Anos Depois”, que lança um viés irônico sobre a história trágica de Inês de Castro, e alguns poemas com “memória” no título (“Mais um sal de memórias”, “Outro sal de memórias”, “E a memória em sextina”, “Em trovas de memória”), cujo mote é um diálogo entre uma dama e um cavaleiro, onde predomina o uso de formas mais fixas, como a quadra metrificada e rimada e a sextina, ainda que o uso dessas formas seja bastante liberal. “Escrito à régua” (da qual selecionei o poema “Vitória de Samotrácia” abaixo) retoma a discussão metalinguística e do problema da escrita, ao passo que “Outras rotações: cinco andamentos” consiste em um único poema intitulado “Galileu, a sua torre e outras rotações” não em 5, como se era de esperar, mas em 4 partes, ou”andamentos”, ficando sugerido, nos versos finais, esse último andamento por vir. Por fim, a seção que vem antes do último e solitário poema que encerra o livro, “Outras vozes”, é mais um excurso pelo passado, especificamente o passado português, dos emblemas míticos de Mensagem, de Pessoa, explorados agora pelo viés feminino – as outras vozes, então, as que foram abandonadas,  caladas e apagadas pelo registro oficial da história. Como diz Vinícius Dantas, no ensaio final que acompanha o livro, “Palavras sobre Vozes“:

É um olhar enviesado, e às vezes turvo, para o que é decisivo no processo de criação das imagens de magníficos personagens do passado, como o Infante D. Henrique, Dona Filipa de Lencastre ou D. Pedro, o Cru – um olhar mais interessado na figuração mítica e na sua transformação em símbolo do que que propriamente nas figuras histórias ou na interpretação histórica do período. Os pressupostos da aventura marítima e da expansão comercial aqui estão no escuro da alma – combinação de cobiça, terror, crenças e superstições. Ana Luísa apresenta no poema ‘Outras vozes’, do ciclo de mesmo nome, uma espécie de fábula alternativa sobre o deslumbramento dos viajantes com os corpos e a natureza, à maneira de uma visão realizada da utopia do diverso e do desconhecido, em contraste gritante com a visão cinza dos poderosos e dos ‘mais pequenos’, que juntaram as mesquinharias e os acabrunhamentos para as grandes viagens, abandonando mulheres e crianças.

É a parte mais ambiciosa do livro, na minha opinião, e é onde se encontram alguns dos seus poemas mais interessantes, como o longo “A Cerimônia”, que também selecionei abaixo. E o encerramento deste poema – “Por que outra noite trocaram/ o meu escuro?” – nos aponta já, ao que tudo indica, para a direção que Ana Luísa seguiu logo após Vozes, com o livro de 2014, Escuro, onde dá continuidade a esta releitura crítica da história.

Mais de e sobre Ana Luísa Amaral pode ser visto clicando-se aqui e aqui.

(Adriano Scandolara)

silêncios

         a meu amigo Paulo Eduardo Carvalho,
         a saudade, sempre

«não queres fazer o silêncio
comigo?»,
perguntei-te uma vez

agora, sei:

irradiando em sol
de mil palavras,
sempre o fizeste

a ele e à alegria

assim, alegria e silêncio
hão de ficar

os dois somados juntos,
lado a lado

e agora,
o sol está bem,
o azul igual a azul,
porque te tem

e as contas
todas
que tu corrigiste
hão de dar sempre certas

A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer

Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita   abençoada
mas de mais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam
 mas cegam

SALOMÉ REVISITADA

Deixa-a lá dentro, cortada, na cozinha,
e traz-me só café. Pousa a bandeja
ali, e depois vai. Não quero o seu olhar:

recorda-me a prisão que ele habitou
(sem ser por mim) e a outra
em que eu morei, e onde fiquei,

lembrando o seu olhar. Bolo de figos
e de mel, conchas de som – mas não é
Salomão que eu sinto em sonhos

nesse corredor, mas Salomé, a outra
a mesma que aqui está. E o seu olhar:
amputado de mim não pela espada,

mas por gume maior: o tempo
a insistir que eu nunca fui: multiplicada
pela sua íris. Agora, saí: é largo o corredor,

está certo o quarto, e eu decerto fiz bem.
Tão brilhante e tão quente. Como
sabe a vermelho este café

A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA

Se eu deixasse de escrever poemas em
tom condicional, e o tom de conclusão
passasse a solução mais que perfeita,
seria quase igual à Samotrácia.

Cabeça ausente, mas curva bem lançada
do corpo da prosódia em direção ao sul,
mediterrânica, jubilosa, ardente, leopardo
musical e geometria contaminada
por algum navio. A linha de horizonte:

qualquer linha, por onde os astros morressem
e nascessem, outra feita e fio de fino aço,
e outra ainda onde o teu rosto me contemplasse
ao longe, e me sorrisse sem condição que fosse.

Ter várias formas as linhas do amor: não viver
só de mar ou de planície, nem embalada
em fogo. Que diriam então ou que dirias?

O corpo da prosódia transformado em
corpo de verdade, as pregas do poema,
agora pregas de um vestido longo, tapando
levemente o joelho e tornozelo. E não de pedra,
nunca já de pedra. Mas de carne e com
asas

A CERIMÔNIA

Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,
mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,
em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.

Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.

Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.
Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.

A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um ceptro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,
ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último contei-lhe o caminho de
água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava
com as margens que havia deixado
para trás.

Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,
a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.

Antes lhe tivesse dito vezes sem conta como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.

Uma prenda, porém, me é boa na memória:
a do papel e das palavras. Dispensaria o ceptro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.
Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina,
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?

Onde ficaram as minhas tardes molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?

Por que outra noite trocaram
o meu escuro?

vozes

Eterno é este instante, o dia claro,
as cores das casas desenhadas em aguada rasa,
castanhos e vermelhos quase em declive,
as janelas limpíssimas, de vidros muito honestos.
Este instante que foi e já não é, mal pousei a caneta
no papel: eterno

Sonhei contigo, acordei a pensar
que ainda eras, como é esta janela,
como o corpo obedece a este vento quente, e é ágil,
mas tudo: tão confuso como são os sonhos

Agora, neste instante, recordo a sensação
de estares, o toque.
Não distinguo os contornos do meu sonho, não sei
se era uma casa, ou um pedaço de ar.
A memória limpíssima é de ti
e cobriu tudo, e trouxe azul e sol a esta praça
onde me sento, organizada a esquadro,
como as casas

E agora, o teu andar
acabou de passar mesmo ao meu lado, igual,
e agora multiplica-se nas mesas e cadeiras
que cobrem rua e praça,
e eu vejo-te no vidro à minha frente,
mais real que este instante, e se Bruegel te visse,
pintava-te, exatíssima e aqui.
E serias: mais perto de um eterno

(Eu, que nada mais sei, só o fulgor do breve,
eu dava-te palavras —

(poemas de Ana Luísa Amaral)

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