poesia, tradução

Cunt Shakespeare, de Dodie Bellamy

Dodie-Bellamy

Dodie Bellamy é uma autora feminista experimental norte-americana associada ao movimento literário da New Narrative das décadas de 1970 e 1980, ao lado de figuras como Kathy Acker (1947 – 1997) e Dennis Cooper (1953 – ). Como diz a breve notinha introdutória à sua entrevista para a revista Paris Review, ela escreve obras “genre-bending” (ô, termo difícil de traduzir: eu arriscaria algo como “subversoras de gênero”… no caso, é no sentido textual, mas ninguém há de duvidar de que vale para o sentido sexual também, genre/gender) com enfoque para “sexualidade, política e experimentação narrativa, desafiando as distinções entre ficção, ensaio e poesia” e “revisões radicalmente feministas de obras canônicas”. Ela tem publicado desde 1990, quando estreia com seu primeiro livro, de contos, chamado Feminine Hijinx, ao que se segue Real: The Letters of Mina Harker and Sam D’Allesandro (1995), uma obra mais estranha, em colaboração com Sam D’Allesandro, consistindo de um romance (?) epistolar, que recontextualiza a história do Drácula de Bram Stoker para a San Francisco flagelada pela epidemia (então recente) de AIDS dos anos 90. Esse livro, publicado a princípio por uma editora pequena, foi republicado mais recentemente em 2004 pela editora da Universidade de Wisconsin.

Para nós, porém, pensando mais nas questões de poética, imagino que o seu trabalho mais interessante seja o que vem sido desenvolvido desde 2002 com a publicação de Cunt-Ups (volume publicado pela editora Tender Buttons. Não consigo pensar num nome melhor para uma editora que publica um livro desses). Cunt-Ups consiste num trabalho de intervenção sobre o texto à moda da técnica dos cut-ups (recorte e colagem) dos beats, dos quais o exemplo mais famoso é William Burroughs, autor, por exemplo, do famoso Almoço Nu (1959). Mas o que transforma aqui o cut em cunt (um dos termos ingleses mais pesados para a genitália feminina, que também serve de ofensa (tipo “you cunt”), mas que convém traduzir aqui por “buceta” ou ainda “xoxota”, depende de como é onde você mora) é o aspecto não exatamente pornográfico (os textos não são feitos para excitar), mas sexualmente explícito, subversor, dessa prática, que sugere uma “violência sexual/textual que é mais do que uma mera ‘desorganização dos sentidos’, mas um desmembramento do corpo marcado pelo gênero também”, como diz a orelha do livro. Essa prática encontrou continuação no seu novo volume, publicado ano passado, chamado Cunt Norton, em que o cunt-up é aplicado à famosa Norton Anthology of Poetry – uma das instituições mais respeitáveis da edição de poesia do mundo anglófono, que, como com qualquer instituição respeitável e pomposa, é impossível não sentir uma pontinha de vontade de profanar. E é basicamente isso que Bellamy faz aqui: de Chaucer, Spenser e Shakespeare, até John Ashbery e Hughes, passando por Milton, Pope, Blake, Keats & Shelley, Poe, Whitman, Dickinson, Stevens, Pound, cummings, ela vai à desforra, cortando, colando, fundindo e – bem, que adianta ser pudico nessas horas? – fodendo os textos, conforme mescla os autores do panteão da alta cultura de língua inglesa com a virtualmente anônima literatura (no sentido lato da palavra) erótica mais barata de banca de revista. E os resultados são curiosíssimos, surpreendendo como textos mesmo, linguisticamente interessantes (sobretudo para quem tem gosto por poesia conceitual), mesmo depois que se dissipa o choque imediato e paramos de rir um pouco para prestar uma maior atenção. Em alguns momentos, ele chega a dar uma prosa bonita de fato, e eis talvez o paradoxo inato da prática de Bellamy: ao mesmo tempo uma profanação do cânone – “O que acontece quando enrabam a Norton Anthology of Poetry?”, começa a resenha de Adam Fitzgerald sobre Cunt Norton – e uma “canção de amor” a ele, uma forma torta de homenagem, Cunt Norton parece encarnar na prática aquilo que Baudelaire descreveu como a perda da auréola, lançando esses nomes já sacralizados à muito bem-vinda lama do cotidiano e das paixões humanas (sobretudo as mais baixas).

Para ilustrar o que estou dizendo aqui (eu sei que fica bastante vago só de descrever), eu selecionei um dos textos do livro, chamado “Cunt Shakespeare” (todos os títulos consistem de Cunt + o nome do poeta… o “Cunt Chaucer”, “Cunt Spenser”, “Cunt Shakespeare” e o introdutório “Cunt Norton” podem ser vistos no excerto disponibilizado online pela editora clicando aqui), arregacei as mangas e o traduzi. No entanto, como se trata de uma obra apropriativa, imaginei que uma tradução direta não seria adequada. Em vez disso, procurei identificar as referências – no caso, os sonetos 116, 129, 130, 138 e 146, mas deve ter outros que me escaparam, com certeza – e fui atrás das traduções, mais ou menos como fiz quando traduzi aquele poema do Aaron Shurin no ano passado. Como temos várias traduções desses sonetos à disposição, de variados graus de sucesso, eu me permiti utilizá-las liberalmente. Por exemplo, na primeira parte de “Cunt Shakespeare”, Bellamy utiliza recortes do soneto 116. No começo, eu me vali da tradução de Jorge Wanderley, para reproduzir no jogo entre o verbo “desertar” e o substantivo “desertor” a relação entre “remove” e “remover” do inglês, que outras traduções não mantêm. No entanto, preferi a do Ivo Barroso na parte “Love bears it out even to the edge” (“of doom”, continua, em Shakespeare, mas o “doom” foi cortado em Bellamy), porque “persevera ao limiar (da morte)” me serve melhor aqui do que “resiste até o Dia (do Juízo)”, e assim por diante, sobretudo como sugestão sexual, o “limiar” como a proximidade do orgasmo. No fim, apesar do pequeno volume e da falta de metro, rima e outros elementos tradicionalmente considerados difíceis de se verter na poesia, esse é um texto bastante lento de se traduzir, ainda que divertido.

Por fim, eu escolhi “Bucetado” para traduzir o “Cunt” aqui usado como qualificador no título, em parte porque acredito que “buceta” (com u mesmo) seja uma boa tradução para “cunt” (no caso, eu descartei a leitura, ainda que possível, do cunt como qualificador ofensivo, semelhante a “cuzão”, “filho da puta”, etc) e em parte porque também imagino que se mantenha alguma relação sonora com a palavra “recortado”, em alusão ao cut-up (e, talvez, só talvez, eu tenha gostado também do eco pornô-paródico com o título do filme Shakespeare Apaixonado, o que foi acidental, mas um acidente muito feliz). Pensei também em “embucetado” ou “embuçado” (com um jogo de palavras com um termo que já existe) e ainda algo como “Xoxote do Shakespeare” (uma referência ao estilo musical do xote). Decisões, decisões. É claro, porém, que não é nada definitivo, e essa aqui é só uma tentativa experimental (no sentido de “tentativa”) de traduzir um texto de uma poética experimental. Mas vale a pena a experiência.

(Adriano Scandolara)

Achei essa imagem na internet, não consegui achar o contexto, mas vou deixar aqui, porque me pareceu muito apropriada.

Achei essa imagem na internet, não consegui identificar o contexto, mas vou deixar aqui assim mesmo, porque me pareceu muito apropriada.

 

Shakespeare Bucetado

O que impeça o amor não é amor. Levei tua lingerie até meu desertor para desertá-la: ai, não! São teus peitos que balançam no ritmo, abalados até os astros. Teus peitos são toda grande vaca e me nutrem sagrados com pensamentos das alturas por alçar. O amor não é enquanto toquei punheta, pensando em ti em segredo, não poupando a minha alfange na enseada, no cinema, no restaurante, na garagem. O amor persevera ao limiar. Provavelmente eu não teria dado meu decreto nem te amado anos atrás. Arrio minhas calças e obro até a ação, a luxúria perjura, minha língua na tua orelha por só um segundo, extrema, rude, cruel, desleal. Desprezado o escroto contra o meu antigo pergaminho, na frente; e logo desfrutei-te, perdida a razão, odiada a atenção dada ao seu pau. Eu ao ser possuído insano, enlouquecida presa e perseguido nas saudades do passado e o desejo de foder; extrema a felicidade como prova – e provei, rasguei tua blusa, arregaçado sonho. O mundo bem sabe; porém foder-te-ia pra caralho. Ao inferno me conduz, meu amor de olhos assim vaidosos; com licença: me fode. Deslizo entre rubros teus lábios: se a neve é branca, por que então as paredes. Enfio o teu pau de rocha em minha buceta por pelo menos quinze minutos. Noto que teus seios são escuros; se a cabeleira ao arame é igual, negra aberta de novo e de novo até gozares adamascada, rubra e branca, brisas de rosa e manchas. Belisco teus mamilos; dá mais prazer o hálito do que cativar teu caralho? Vai minha deusa, meu amor, caminha em suas calcinhas. Se eu não tivesse lido Anaïs Nin juraria que meu amor é raro; ela desmentiu minha pomba contra a tela do computador. Declaro que a minha pomba é feita de verdades; nela creio mesmo quando desço meus dedos e aliso as minhas dobras; não sou jovem inconsequente, desconhecendo os mundos de mim e de ti. É um mapa. Penso que minha pomba me julga nova; ela te sabe aqui e agora no chão ao lado dos meus porquês: não é ela que é razão infiel. Estava eu rosnando à tua braguilha, “Vai, mete”. Meu maior dom fingir sinceridade. No amor a idade é não dizer o belo nome da foda em vão: minto contigo, e tu comigo, e nossos erros latejam entre teus lábios e no centro do meu mundo de pecado. Senhor destes rebeldes porquês, quero que me fodas em meio a esta penúria e sofrimento, as cores em expansão.

 

Cunt Shakespeare

Impediments to love are not love. I have put thy underwear up to my remover to remove: O, no! it is thy tits swaying in rhythm, shaken to the stars. Thy tits are every large cow and they feed me sacredly with thoughts of heights be taken. Love’s not while I jerked off, thinking of thee covertly, bending my sickle’s compass in a cove, a movie, a restaurant, a parking garage. Love bears it out even to the edge. I probably wouldn’t have given writ nor ever loved thee years ago. I pull down my pants and push action til action, lust is perjured, my tongue in thy ear for just a second, extreme, rude, cruel, not trusting. I enjoyed no scrotum into my ancient parchment, in front; and no sooner I had thee, past reason, I hated giving thy cock much attention. I the taker am mad, mad in pursuit and in nostalgia for our past and the desire to fuck; we had extreme bliss as proof—and proved, I ripped thy shirt open, tugging dream. All this the world well knows; yet really I do want to fuck the shit out of thee. Lead me to this hell, my mistress whose eyes are vain like that; excuse me: fuck me. I slide between thy lips red: if snow be white, why then walls. I stick thy cock stone inside my cunt for at least fifteen minutes. I notice that thy breasts are dun; if hairs be wires, black opened it over and over again until thou camest damasked, red and white, such rose breezes and spots. I pinch my nipples; is there more delight in breath than in making friends with thy cock? My goddess go, my mistress, walk on thy panties. If I hadn’t read Anaïs Nin I’d think my love as rare; she belied my pussy against the computer screen. I put forth that my pussy is made of truth; I do believe her though I reach down and unravel my wrinkles; I’m no untutored youth, unlearned in the worlds of me and thee. It’s a map. I realize my pussy thinks me young; she knows thee right now here on the floor beside my wherefore: not she is unjust. I’m at thy pants snarling, “Give it to me.” My best habit is in seeming to trust. Age in love shouldn’t take the beautiful word fuck in vain; as I lie with thee, and thou with me, our faults throb along thy lips and in the centre of my sinful earth. Lord of these rebel becauses, I want thee to fuck me within this suffering and dearth, painting outward.

(Dodie Bellamy, cunt-up de William Shakespeare, tradução de Adriano Scandolara)

 

PS: para quem leu até o final e ficou martelando na cabeça as possibilidades e problemas de tradução de termos como “cunt” e “pussy”, segue um videozinho legal que pode ajudar a ampliar o vocabulário e ajudar na discussão:

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6 carjas anônimas (séc. xi), seguidas de 4 poemas anônimos espanhóis

jarchas

a carja (ou kharja, ou  jarcha) é a estrofe final do moachaha, um tipo tradicional de poesia árabe; muitas vezes escrita em moçárabe (usado pelos cristãos da espanha moura.) ao fim de um poema todo escrito em árabe. no entanto, elas também poderiam aparecer como poema solitário, conciso, em que geralmente uma jovem mulher apaixonada revelaria seus sentimentos. apresento logo abaixo seis dessas carjas que foram traduzidas na abertura do livro Lírica espanhola de tipo tradicional, por josé bento (ed. assírio & alvim, 1995).

como é muito provável que esses poemas breves tenham suas origens ainda no séc. x ou xi, portanto antes do desenvolvimento do trovadorismo provençal & galego-português, penso que sejam de grande importância para pensarmos o desenvolvimento da poesia cantada ocidental. é nessa cultura popular anônima que vão se formando os lugares comuns em que a elite trovadoresca buscará fundar sua poesia. em resumo: melopeia amorosa. sobretudo aquela que veremos nas nossas cantigas de amigo, poemas em que a persona feminina ocupa o lugar do desejo & do dilema entre corpo & moral cristã. noutras palavras, entre o senhor divino & o senhor amoroso, por isso o amor pode ser uma doença (carja 2), por isso também encontramos uma comparação inusitada do amante a um filhinho (carja 4). é na fenda cristã entre corpo e alma que a poesia amorosa tem seu elã, porque não se resolve facilmente, ou pelo menos não até chegarmos a dante, que santifica sua beatriz (tratei do assunto aqui). por ora, o que mais teremos é a dor do desejo ou o arrependimento da realização, com poucos momentos daquela joi provençal.

a tradução, infelizmente, não é das mais felizes na melodia, pois em geral prefere o português escorreito – seja lá o que isso for — e retira o bilinguismo das construções. de qualquer modo, o trabalho de josé bento tem momentos felizes & já vale pela seleção tradutória.

além das 6 carjas, escolhi ainda 4 poemas breves anônimos (posteriores, certamente, talvez dos sécs. xiv ou xv, embora a datação não seja fácil), com  o amor feminino: 4 pérolas dessa poesia de ninguém.

guilherme gontijo flores

ps: desconfio que a carja 5, v. 3 tenha um problema de tradução; porém, como meu espanhol arcaico com influência moçárabe não existe, calo-me quanto a sugestões e deixo a mera impressão.

* * *

 ….¿Qué faré yo o qué será de mibi?
¡Habibi,
no te tolgas de mibi!

….Que farei eu ou que será de mim?
Amigo,
não te apartes de mim!

§

….¡Tanto amare, tanto amare,
habib, tanto amare!
Enfermeron olios nidios
e dolen tan male.

….Tanto amar, tanto amar,
amado, tanto amar!
Meus olhos adoeceram,
doem, de tanto mal.

§

….Vaise mio corachón de mib.
¡Ya Rab!, ¿si me tornarad?
Tan de mal me dóled li-l-habib:
enfermo yed, ¿cuánd sanarad?

….Vai-se o meu coração de mim.
Ai, Deus! Acaso voltará?
Tanto me dói por meu amado:
está doente, quando sarará?

§

….Como filyolo alieno,
no más adormes a meu seno.

….Como um filhinho alheio,
já não dormes em meu seio.

§

Meu sidi Ibrahim, ya nuemne dolche,
……..vent’a mib de nohte.
In non, si non queris, yereim’ a tib:
……..garme a ob legarte.

Meu senhor Ibrahim, oh doce nome,
……..vem até mim de noite.
Se não queres, vou ter contigo:
……..diz-me onde achar-te.

§

….Al-sabah bono,
garme d’on venis.
Ya lo sé que otri amas,
a mibi non queris.

….Alva formosa,
diz-me de onde vens.
Já sei que amas outras
e a mim não me queres.

* * *

….Las mis penas, madre
de amores son.
….Salid, mi señora,
de so’l naranjale,
que sois tan hermosa,
quemarvos ha el aire,
de amores sí.

….Minhas mágoas, mãe,
de amores são.
….Saí, senhora minha,
desse laranjal,
que sois tão formosa,
o ar vai queimar-vos,
de amores, sim.

§

.Recordad, mis ojuelos verdes,
que a la mañana dormiredes.

….Acordai, meus olhinhos verdes,
que de manhã vós dormireis.

§

….Malferida iba la garza
enamorada:
….sola va y gritos daba.
Donde la garza hace su nido,
ribericas de aquel río,
sola va y gritos daba.

….Muito ferida ia a garça
enamorada:
vai sozinha e gritos dava.
….Onde a garça faz o ninho,
na margem daquele rio,
vai sozinha e gritos dava.

§

….— Decid, hia garrida,
quién os manchó la camisa?
— Madre, las moras del zarzal.
— Mentir, hija, mas no tanto,
que no pica la zarza tal alto.

….— Dizei, filha, bonita,
quem vos manchou a camisa?
— Mãe, as amoras do silvado.
— Mentir, filha, mas não tanto,
que a silva não vai tão alto.

(poemas anônimos, trad. de José Bento)

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Archibald MacLeish por Levi Freitas

 

archibald-macleish

Archibald MacLeish (1892 – 1982) foi poeta, dramaturgo, ensaísta e membro da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que, infelizmente, não tem sido muito traduzido para o português. Temos um livro inteiro só – uma peça de teatro em verso chamada J. B., que reconta a narrativa bíblica de Jó e que foi traduzida para o português por Lélia Coelho Frota para a Agir Editora (1971) – e alguns poemas esparsos, como o seu famoso “Ars Poetica”, traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos, presente no volume Rosa do Mundo, da ed. Assírio & Alvim, com seus 2000 poemas de 2000 poetas.

José Olivir Freitas (1987, Óliver, Levi ou Olivetta, para os íntimos) é bacharel em Estudos Literários pela UFPR e funcionário público e nos mandou essa bela contribuição, com traduções de 6 poemas de MacLeish e um breve ensaio introdutório (por isso que eu não vou dizer mais sobre o poeta aqui, sob o risco de soar redundante), que compartilho com vocês abaixo.

Adriano Scandolara

 

Archibald MacLeish – político, poeta e celebridade.

Archibald Macleish é um poeta americano bastante ovacionado pelos seus gentios. O cara foi premiado com o Pulitzer três vezes, duas pela obra poética e uma por uma peça de teatro, intitulada J. B.. Mas fique calmo, a fama é ainda maior que isso. MacLeish foi nomeado bibliotecário da Biblioteca do Congresso por Theodore Roosevelt, um cargo importante nos cenários da política e da literatura dos Estados Unidos, geralmente ocupado por um bibliotecário. Não bastasse ter despertado a ira dos bibliotecários da nação, o escritor recebeu também um Oscar por um documentário de longa metragem chamado A história de Eleanor Roosevelt. Nascido em Ilinois, em 1892, MacLeish viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, tendo passado uma temporada “exilado” em Paris. MacLeish esteve em contato com gente como Gertrude Stein, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Aparentemente, ele era fã de T. S. Eliot e Ezra Pound.

MacLeish curtia um tinteiro. Publicou vinte e dois livros de poesia e antologias, quinze peças de teatro e vários trabalhos em biblioteconomia, literatura e política. Recebeu vários prêmios, até aquele Oscar, minha gente. De seu trabalho poético, o mais famoso é “Ars poetica” (1926), no qual a persona exprime, em doze dísticos, algumas ideias caras ao modernismo americano:

 

Ars Poetica

Um poema deve ser palpável e mudo
Como redondo fruto,

Quieto
Como velhos vinténs no dedo,

Silencioso como a pedra desgastada
Do batente das janelas onde o musgo faz morada -

Um poema deve ser sem palavras
Como o voo da passarada.

Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua ascende,

Deixando, conforme a lua liberta
Galho a galho árvores pela noite encobertas,

Deixando, como a lua as folhas de inverno ausenta,
Memória por memória a mente -

Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua ascende.

Um poema deve ser igual a:
Não há.

Por toda a história da dor
Uma soleira vazia e uma folha de bordo.

Por amor
A relva leniente e duas luzes sobre o mar -

Um poema não deve significar
Mas ser.

 

Ars Poetica

A poem should be palpable and mute
As a globed fruit,

Dumb
As old medallions to the thumb,

Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown -

A poem should be wordless
As the flight of birds.

A poem should be motionless in time
As the moon climbs,

Leaving, as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,

Leaving, as the moon behind the winter leaves,   
Memory by memory the mind -

A poem should be motionless in time   
As the moon climbs.

A poem should be equal to:
Not true.

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf.

For love
The leaning grasses and two lights above the sea -

A poem should not mean   
But be.

 

"Me and the Moon" (1937), de Arthur Dove (1880 - 1946)

“Me and the Moon” (1937), de Arthur Dove (1880 – 1946)

MacLeish e sua esposa passaram um tempo na França. A temporada do casal no estrangeiro começou em 1923, tão logo MacLeish abandonou o exercício da advocacia. Retornaram aos Estados Unidos em 1928. O fato de MacLeish ter morado por um tempo na França pode invocar a ideia de que ele seria um “poeta do exílio”. Essa é uma maneira interessante de classificar poetas e ligar a vida do poeta-autor com a ação do poeta-personagem. Quando há sincronia entre o tempo da escrita do texto pelo autor fora de casa e as argumentações e filosofias do eu-lírico, é comum que espelhemos o texto poético na biografia do escritor. Quando um autor é apontado como poeta ou ficcionista expatriado, sua reputação entre compatriotas permanece intocada, haja vista que não mancha o sentimento de pertença à nacionalidade e mantém, para todos os efeitos de uma leitura sociológica, a escrita ligada ao país de onde veio quem produziu o texto. Expatriate pode tanto ser o estrangeiro residente em relação ao país onde vive como o exilado, isto é, aquele que foi banido de seu país fisicamente, mas não ideologicamente. Elizabeth Bishop é considerada baluarte da poesia estadunidense, mesmo tendo escrito boa parte de sua obra no Brasil. Ela foi uma expatriate. Para nós, brasileiros, isso pode significar tanto que a poeta escreveu à moda de Gonçalves Dias, cantando das aves que gorjeiam melhor nas terras ianques, como também que Bishop arquitetou uma construção sensorial da vivência no estrangeiro, passando a declarar sua ligação com o Outro geograficamente, como o faz em “One Art” (1979):

Uma Arte

[...]
Perdi duas cidades, adoráveis. E, pior,
uns reinos que tive, dois rios, um continente
Saudades, mas não fora um dissabor
[...]

[...]
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent
I miss them, but it wasn’t a disaster
[...]

Assim como Bishop, MacLeish não pode ser lido como apenas um poeta do exílio. Além de ambos terem mesclado o eu-lírico exilado, o estrangeiro residente e o poeta na sua terra ao longo de toda sua produção, a comparação da trajetória pessoal com o desenvolvimento das personas na obra do autor não pode ser a única fonte de interpretação de um poema ou, melhor, de uma obra poética. A discussão sobre a confusão entre pessoa e persona é importante porque os poemas de MacLeish traduzidos aqui podem ser lidos, em alguma medida, como exemplares do cadafalso que encontramos quando lemos determinada obra poética considerando a biografia do poeta. Por mais hipócrita que pareça, faremos uma breve descrição histórica do autor, de modo que possamos evidenciar, considerando elementos textuais e paratextuais dos poemas escolhidos, que é possível, ainda que precariamente, demonstrar uma virtual unificação que resulta no poeta-persona, isto é, na inserção de elementos biográficos do autor na ação do eu-lírico.

MacLeish escreveu por bastante tempo. Seu primeiro livro saiu em 1915, tinha 23 anos. Com poucos intervalos mais longos, escreveu até 1980. Em 1983, foi publicada uma coletânea com suas cartas de 1907 a 1982, ano em que morreu. Em novembro de 1980, Macleish e outros coetâneos saíram em uma antologia na revista Poetry. Uma breve antologia reuniu poemas inéditos de MacLeish e de outros autores. MacLeish figurou ao lado de vários nomes, entre iniciantes e veteranos, como John Ciardi, Andrew Weiman, May Swenson, Leslie Fiedler e David Wagoner. A capa da edição ainda apresentava, em fonte menor, os nomes de Amy Clampitt, Tony Connor, Robert Dorsett, Josephine Jacobsen, Jack Matthews e Linda Pastan, além de resenhas feitas por Robert Pinsky e Ben Howard.

A Poetry é uma bem conceituada revista sediada em Chicago, Illinois. A revista publicou, desde 1912, inúmeros poetas, como os nomes acima bem exemplificam. Vários desses nomes, como Jacobsen, Connor, Howard, Pinsky e Swenson, eram ou passaram a ser badalados escritores nacionais. Outros, nem tanto. No trecho da edição de 1980 da Poetry disponível para visualização na internet, a microantologia de MacLeish recebeu duplo título. Da capa da edição consta o título “Cinco Poemas Perdidos (Five Lost Poems). Já na seção onde estão os poemas o título é “Cinco poemas dos anos 1920” (Five poems from the 1920s). Os dois títulos reafirmam o caráter de novidade dos trabalhos que ali figuram. São novidade porque ganharam público mais de cinquenta anos depois de ter sido escritos. Ao mesmo tempo, ambos os títulos da seleção se apresentam como marcas da reinvenção do poeta. Se ele de fato escreveu tais poemas nos anos 1920 e se eles realmente estavam perdidos, não faz diferença saber. A memória invocada pelos títulos é eficaz. Podemos conectar os cinco poemas perdidos à produção do poeta no mesmo período citado no outro título. Podemos, ainda, extrair dos poemas os estertores de memória do poeta no fim da vida. Os perdidos tanto podem ser fantasmas daquele passado, Paris inclusa, como podem ser de fato produtos do mesmo passado, recuperados pelo autor num ataque de autocomiseração pela própria escrita poética.

Os livros de MacLeish andam, ainda que na língua original, longe das estantes brasileiras não virtuais. A microantologia da Poetry serve como pretexto e vitrine para o autor. Este texto aqui também. Vamos a ela.

Vernissage

No dia da abertura do show de automóveis o bem-
Conhecido Presidente da República Francesa com seu
Alto escalão (com senadores) levantou do real trono
Na Grande Escadaria e se moveu sobre pés invibrantes
Desceu o Corredor Triunfal para a gradual aglomeração
Da fanfarra enquanto a quase inaudível batida
De suas válvulas de assento subia o ar e caía.

Os automóveis foram, contudo, indiferentes. Os mais
Caros modelos preservaram seu decoro, mas quatro
Citroens tossiram. Houve risos, assobios, gargalhadas
Mesmo a alta cilíndrica preta brilhante
Cartola do chefe de Estado dos Gaul-
eses não conseguiu impressionar. Não houve aplauso.

 

Vernissage

On the opening day of the automobile show the well-
Known President of the French Republic complete
In high body (with senators) rose from the royal seat
In the Grand Stair and moved on vibrationless feet
Down the Triumphal Aisle to the gradual swell
Of the brass band while the all but inaudible beat
Of his sleeveless valves rose in the air and fell.

The automobiles were however indifferent. The more
Expensive models preserved their decorum but four
Citroens coughed. There were giggles, cat-calls, guffaws
Even the shiny black cylindrical tall
Top hat of the chief of state of the Gall-
ic People failed to impress. There was no applause.

 

Nascimento eventual de Vênus

Levantada pelo mar
Pela sétima onda
Além do alcance do mar
Nos escombros de erva e de
Galho úmido
A ainda não anfíbia
Animalcula
Suspira e serpeia na praia
Reúne seus longos cabelos d’ouro sobre ela
E contempla com puros olhos
O mundo desconhecido

 

Birth of eventually Venus

Cast up by the sea
By the seventh wave
Beyond the sea reach
In the rubble of weed and
Wet twig
The not yet amphibious
Animalcula
Gasps and wiggles on the beach
Gathering her long gold hair about her
And gazing with pure eyes
Upon the unknown world

 

Poema

                   Quem de todos nós terá visto a
Nudeza?
Inclinando-se sobre as pedras lavadas do rio
A saia se enrola perto do joelho, os seios mostram

Aquilo, ou um braço arredado enquanto a porta fecha

Mas os colãs são animais deitados em folhas,
A barriga é secreta como tigres correndo sob raios do sol
Quem entre nós já viu essas meninas nuas mais do que vimos
A forma do vento sob a seda da soleira?

 

Poem

                   Who of us all have seen
Nakedness?
Leaning above the wash stones by the river
The skirt pulls close at the knee, the breasts show

That, or an arm withdrawn as the door closes

But the bare tights are animals lying in leaves,
The belly is secret as tigers running in sun ripple

Who among us have seen these nude girls more than we’ve seen
The wind’s shape under the silk in the doorway?

 

Projeto para uma estética
Subtítulo: Luar de um Homem

Sr. e Sra. Longfellow Little que
Desaprovavam o Picasso (tendo – o catálogo errou –
Permitido a si mesmos as emoções apropriadas a
O Guache de um Nu enquanto contemplavam O Esboço da Palavra
Inclinado Com Bananas) que desaprovavam
O Picasso (e não que Picasso fosse Moderno e não
Que Sr. e Sra. Little demorassem a se comover
Com Belas Artes – considerando que reconheceram o que

Era que os tinha comovido – mas como dizer que alguém deve
Admirar uma coisa senão quando puder dizer dela Isso é
Uma taça, Isso é uma moça? Como alguém poderia amar
O que pode ou não ser Importante?) Sr. e Sra.
Little que desaprovavam o Picasso compraram
Uma Natureza Morta. Dava para dizer o que é que estava Morta.

 

Project for an aesthetic
Sub-title: Moonlight of a Man

Mr. and Mrs. Longfellow Little who
Disapproved of Picasso (having – the catalogue erred –
Permitted themselves the emotions appropriate to
The Gouache of a Nude while beholding the Sketch of The Word
Prone With Bananas) who disapproved
Of Picasso (and not that Picasso was Modern and not
That Mr. and Mrs. Little were slow to be moved
By Good Work – provided they recognized what
 
It was they were moved by – but how could one tell if one ought
To admire a thing unless one could say of it This is
A glass, This is a girl? How could one love
What might or might not be Important?) Mr. and Mrs.
Little who disapproved of Picasso bought
A Still Life. One knew what a Life was of.

 

Poema dedicado ao avanço da aviação

Mas está tudo diferente agora. Eles já ajeitaram.
Eles dão prêmios a Artistas Autênticos.
Eles não põem Colley Cibbers{1} em seus compêndios.
Eles botam Homeros e Hacks{2} nos seus lugares.
(Dá para dizer quais as obras de Homero pela orelha)
Eles sabem os ordinários do que não é dela.
Eles nunca o sal e o açúcar misturaram -

Eles sabem demais. E quando tudo estiver pronto e dito,
Quando todas as romancistas mulheres e puras
Poetisas forem (se ainda há) carnes de verme cruas
E nomes em revistas, i.e., falecidos.
Nenhuma cria desconhecida terá coroa triunfal.
Mas hein! Não haverá Keatses que lhes faça mal!

(Notas:
1. Colley Cibber (1671-1757) foi um ator e diretor de teatro. Recebeu críticas por fazer adaptações ruins de peças de Molière e Shakespeare.
2. Hack pode ser referência a hack writer, isto é, um escritor que faz maus trabalhos ou escreve por encomenda. Seria uma anáfora ao nome citado anteriormente no poema. Entretanto, também pode se referir à escritora inglesa de livros infantis Maria Hack (1777-1844).)

Poem dedicated to the advancement of aviation

But that’s all different now. They’ve got it fixed.
They give the prizes to Authentic Artists.
They put no Colley Cibbers in their lists.
They know the Homers and the Hacks apart.
(You tell the works of Homer by the blurbs)
They know the bum ones from what’s not hers.
They never get the salt and sugar mixed -

They know too much. And when all’s done and said,
When all the lady novelists and neat
She-poets are (if worms still be) worm’s meat
And names in magazines, i.e., are dead.
No unknown kid will get laurel stem.
By Yee! They’ll have no Keatses crowding them!

(texto e traduções de Levi Freitas, poemas de Archibald MacLeish)

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poesia, tradução

george oppen (1908-1984)

george-oppen

george oppen é uma figura sui generis na poesia norte-americana. nascido de uma família judia (oppenheimer, que o pai viria a mudar para oppen em 1927) de new rochelle, no estado de nova iorque, ele penou o suicídio da mãe quando tinha apenas 4 anos, o que certamente foi um trauma que o levou ao álcool & a muitas brigas: em 1925, ele bateu o carro num acidente que matou um jovem; no ano seguinte, depois de uma série de viagens solitárias pela europa & de retornar aos eua, ele conheceu & se juntou com mary colby, então saíram viajando pelo país, entre caronas & bicos.

1930 ele se juntou ainda ao jovem grupo dos objetivistas, como louis zukofsky, william carlos williams & charles reznikoff, dentre outros. em 1934 lançou pela objectivist press seu primeiro livro de poemas, discrete series, prefaciado por ezra pound. no entanto, pouco depois disso, em 1936 oppen se filiou ao partido comunista & passou praticamente 25 anos sem escrever. em 1942, voluntariou-se para combater na segunda guerra mundial, onde sofreu um ferimento seríssimo, que lhe rendeu condecorações. depois da guerra, a perseguição americana aos comunistas forçou os oppen a um exílio no méxico, que durou até 1958. foi então que voltaram a nova iorque & george voltou à poesia, para lançar em 1962 (29 anos depois!) seu segundo livro, the materials.

a partir de então, sua produção foi mais constante: em 1965 lançou this in which, em 1968 of being numeorous (vencedor do pulitzer de 1969), em 1972 seascape: needle’s eye, em 1975 myth of the blaze (anexo aos collected poems organizados pelo poeta), & em 1978 primitive. depois disso, george oppen foi vítima de alzheimer até sua morte, em 1984.

estou roendo a obra de oppen há algum tempo, na edição dos new collected poems de 2002, organizada por michael davidson & acompanhada por notas & por um CD com leituras do poeta. uma pérola, em resumo. optei por traduzir alguns trechos dos 40 segmentos que constituem o poema “of being numerous”, do livro homônimo, porque é considerado por muitos como a obra-prima de oppen. como na maior parte da sua poesia, a fragmentação tem papel proeminente; ao mesmo tempo, o eu do poema está praticamente desaparecido, apesar de tratar de seu processe de “exílio de retorno” a nova iorque: no meio disso tudo, temos flashes da segunda guerra, da guerra do vietnam, de problemas ecológicos, econômicos & existenciais: “ser numeroso” & testemunhar o “naufrágio do singular” não é um processo fácil ou unívoco: para oppen, o humano pende entre sua existência coletiva (não há outro modo de estar no mundo) & seu destino singular, incompartilhável: de algum modo, a escolha de um dos polos parece um fracasso, é nesse meio indeterminado que aparece a “assustadora e estreita luz / antes da aurora”.

por fim, aconselho aos interessados a leitura deste artigo preciso  & precioso de marjorie perloff — the shipwreck of the singular: george oppen’s “of being numerous”. desconheço edições lusófones da sua poesia, porém há algumas traduções de oppen disponíveis na internet:

“five poems  about poetry”, por ruy vasconcelos
dois poemas citados um estudo de ruy vasconcelos
“the forms of love”, por rubens akira kuana

guilherme gontijo flores

* * *

De ser numeroso

1

Há coisas
Entre as quais vivemos “e vê-las
É sabermo-nos”.

Ocorrência, parte
Duma série infinita,

As tristes maravilhas;

Disso se disse
A estória da nossa maldade.
Não é nossa maldade.

“Você lembra daquela velha cidade que visitamos e sentamos na janela em ruínas e tentamos imaginar que pertencíamos àqueles tempos — Está morta e não está morta e você nem consegue conceber sua vida ou sua morte; a terra fala e a salamandra fala, a primavera vem e só a obscurece —”

2

E falou da existência das coisas
Um panteão incontrolável

Absoluto, mas dizem
Árido.

Uma cidade de corporações
Vidrada
Em sonhos

E imagens —

E a alegria pura
Do fato mineral

Embora impenetrável

Como o mundo, se for matéria,
É impenetrável.

3

As emoções se engajam
Ao entrar na cidade
Como em qualquer cidade.

Não somos coevos
De um lugar
Mas achamos que os outros são,

E os encontramos. Na verdade
Uma multidão flui
Pela cidade.

Essa é uma língua, afinal, de Nova Iorque.

5

A grande pedra
Sobre o rio
No poste da ponte

‘1875’

Congelada ao luar
No ar congelado da vereda, consciência

Que nada tem a perder, que nada espera
Que ama a si mesma.

6

Sofremos pressão, pressão de um no outro,
Ouvimos dizer num segundo
O que quer que aconteça

E a descoberta do fato rebenta
Num paroxismo de emoção
Hoje e sempre. Crusoé,

Dizemos, foi
“Resgatado”.
Foi assim que escolhemos.

7

Obcecados, perplexos

Pelo naufrágio
Do singular

Escolhemos o sentido
De ser numerosos.

10

Ou, nessa luz, Novas artes! Ditirâmbica, público-como-artistas! Mas eu vou escutar um homem, vou escutar um homem, e quando eu falar vou falar, embora ele falhe e eu falhe. Mas vou escutar que fale. A mudança de um bando não é nada — bem, nada senão os muitos que somos, mas nada.

Arte urbana, arte das cidades, arte dos jovens nas cidades — O homem isolado está morto, o mundo a seu redor exausto

E ele falha! Falha, o homem meditativo! E de fato eles não “suportam” isso.

13

………………..incapaz de começar
Ao começo, o afortunado
Encontra tudo agora pronto. São compradores,
Seletores, juízes; . . . E agora o brutal não tem
problema, é beco sem saída.
Desenvolvem
Argumentos só para falar, tornam-se
irreais, irreais, a vida perde
solidez, perde extensão, baseball é seu jogo
porque baseball não é um jogo
mas argumento e a divergência de opiniões
faz corridas de cavalo. São fantasmas que arriscam

A alma alheia. Algo muda
No ar
E fede a mofo, eles já chegam ao fim
De uma era
Primeiros dos povos
E convém manter uma honrável
Distância
Se possível.

15

Coro (andrógino): “Me encontre
Pra que eu exista, encontre meu umbigo
Pra que ele exista, encontre meus mamilos
Pra que eles existam, encontre cada pelo
Desta barriga, eu sou do bem (ou do mal)
Me encontre.”

18

É o ar de atrocidade,
Um evento tão comum
Quanto um presidente.

Uma pluma de fumo, visível ao longe
Onde o povo queima.

22

Clareza

No sentido de transparência
Não digo que se possa explicar muita coisa.

Clareza no sentido de silêncio.

25

Estranho que os mais jovens que eu conheço
Morem nos prédios mais velhos
Esparsos pela cidade
Em quartos negros
Do passado — e os imigrantes

Os prédios
Pretos retangulares
Dos imigrantes.

Eles são filhos da classe média.

“Os puros produtos da América —”

Que investem
Os prédios antigos
Se acotovelam

No semiesquecido, negócio ponderoso
Essa Muralha da China

28

A luz
Das páginas cerradas, bem cerradas, umas contra as outras
Expõe o novo dia,
A assustadora e estreita luz
Antes da aurora.

32

Só que isso devia ser belo.
Só que isso devia ser belo.

Ó, belo

Verde azul carmim — lábios úmidos
rindo

Ou a curva da concha branca

E a beleza feminina, os tendões perfeitos
Sob a pele, a vida perfeita

Que se torce numa inundação
De desejo

Não verdade mas um ao outro

A pele clara, clara, as mãos dela vacilantes
Numa incrível necessidade

33

Que é nossa, que é nós,
É nosso júbilo
Exaltado e velho como a veracidade
Que ilumina a fala.

35

. . . ou definir
O homem além do resgate
do empobrecido, dissolver
cidades inteiras

antes de encararmos
de novo
selvas e prados . . .

38

Você vai ser
A última a conhecê-lo
Enfermeira.

Não conhecê-lo,
Ele está velho,
Um paciente,
Então como conhecê-lo?

Você vai ser
A última a vê-lo,
Ou tocá-lo,
Enfermeira.

39

Enquanto ocorre “nem por si
nem pela verdade”

As tristes maravilhas

Na última circunstância crível,
Tempestade ou bombardeio

Ou o leito de um homem muito velho.

40

Whitman: “19 de abril de 1864

O capitólio cresce sobre a gente a cada dia, sobretudo agora que puseram a grande estátua lá no topo e dá pra vê-la muito bem. É uma grande estátua de bronze, o Gênio da Liberdade, acho. É deslumbrante na hora do pôr-do-sol. Eu adoro ir lá vê-la. O sol, quando está bem baixo, brilha na cabeça e ela reluz e ofusca como uma estrela enorme: é bem

curioso . . .

 §§§

Of being numerous

1

There are things
We live among ‘and to see them
Is to know ourselves’.

Occurrence, a part
Of an infinite series,

The sad marvels;

Of this was told
A tale of our wickedness.
It is not our wickedness.

‘You remember that old town we went to, and we sat in the ruined window, and we tried to imagine that we belonged to those times—It is dead and it is not dead, and you cannot imagine either its life or its death; the earth speaks and the salamander speaks, the Spring comes and only obscures it—’

2

So spoke of the existence of things,
An unmanageable pantheon

Absolute, but they say
Arid.

A city of the corporations

Glassed
In dreams

And images—

And the pure joy
Of the mineral fact

Tho it is impenetrable

As the world, if it is matter,
Is impenetrable.

3

The emotions are engaged
Entering the city
As entering any city.

We are not coeval
With a locality
But we imagine others are,

We encounter them. Actually
A populace flows
Thru the city.

This is a language, therefore, of New York

5

The great stone
Above the river
In the pylon of the bridge

‘1875’

Frozen in the moonlight
In the frozen air over the footpath, consciousness

Which has nothing to gain, which awaits nothing,
Which loves itself

6

We are pressed, pressed on each other,
We will be told at once
Of anything that happens

And the discovery of fact bursts
In a paroxysm of emotion
Now as always. Crusoe

We say was
‘Rescued’.
So we have chosen.

7

Obsessed, bewildered

By the shipwreck
Of the singular

We have chosen the meaning
Of being numerous.

10

Or, in that light, New arts! Dithyrambic, audience-as-artists! But I will listen to a man, I will listen to a man, and when I speak I will speak, tho he will fail and I will fail. But I will listen to him speak. The shuffling of a crowd is nothing—well, nothing but the many that we are, but nothing.

Urban art, art of the cities, art of the young in the cities—The isolated man is dead, his world around him exhausted

And he fails! He fails, that meditative man! And indeed they cannot ‘bear’ it.

13

unable to begin
At the beginning, the fortunate
Find everything already here. They are shoppers,
Choosers, judges; . . . And here the brutal
is without issue, a dead end.
They develop
Argument in order to speak, they become
unreal, unreal, life loses
solidity, loses extent, baseball’s their game
because baseball is not a game
but an argument and difference of opinion
makes the horse races. They are ghosts that endanger

One’s soul. There is change
In an air
That smells stale, they will come to the end
Of an era
First of all peoples
And one may honorably keep

His distance
If he can.

15

Chorus (androgynous): ‘Find me
So that I will exist, find my navel
So that it will exist, find my nipples
So that they will exist, find every hair
Of my belly, I am good (or I am bad),
Find me.’

18

It is the air of atrocity,
An event as ordinary
As a President.

A plume of smoke, visible at a distance
In which people burn.

22

Clarity

In the sense of transparence,
I don’t mean that much can be explained

Clarity in the sense of silence.

25

Strange that the youngest people I know
Live in the oldest buildings
Scattered about the city
In the dark roomns
Of the past—and the immigrants,

The black
Rectangular buildings
Of the immigrants

They are the children of the middle class.

‘The pure products fo America—’

Investing
The ancient buildings
Jostle each other

In the half-forgotten, that ponderous busines
This Chinese Wall.

28

The light
Of the closed pages, tightly closed, packed against each other
Exposes the new day,
The narrow, frightening light
Before a sunrise.

32

Only that it should be beautiful,
Only that it should be beautiful,

O, beautiful

Red green blue—the wet lips
Laughing

Or the curl of the white shell

And the beauty of women, the perfect tendons
Under the skin, the perfect life

That can twist in a flood
Of desire

Not truth but each other

The bright, bright skin, her hands wavering
In her incredible need.

33

Which is ours, which is ouselves,
This is our jubilation
Exalted and as old as that truthfulness
Which illumines speech.

35

. . . or define
Man beyond rescue
of the impoverished, solve
whole cities

before we can face
again
forests and prairies . . .

38

You are the last
Who will know him
Nurse.

Not know him,
He is an old man,
A patient,
How could one know him?

You are the last
Who will see him
Or touch him,
Nurse.

39

Occurring ‘neither for self
Nor for truth’

The sad marvels
In the least credible circumstance,
Storm or bombardment

Or the room of a very old man

40

……………………………….Whitman: ‘April 19, 1864

The capitol grows upon one in time, especially as they have got the great figure on top of it now, and you can see it very well. It is a great bronze figure, the Genius of Liberty I suppose. It looks wonderful toward sundown. I love to go and look at it. The sun when it is nearly down shines on the headpiece and it dazzles and glistens like a big star: it looks quite

curious . . . ‘

(george oppe, trad. de guilherme gontijo flores)

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poesia, tradução

O Divan de Goethe, por Daniel Martineschen

"Goethe na Campânia Romana", 1786, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein.

“Goethe na Campânia Romana”, 1786, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein.

hoje é aniversário do velho goethe,
por isso este post-homenagem
com um dos que tentam
mantê-lo vivo, jovem.
mantê-lo em viço
na nossa língua.

guilherme gontijo flores

* * *

West-östlicher Divan

O West-östlicher Divan é uma das obras mais controversas e de recepção mais complicada de Goethe. Não bastasse o título de cara misteriosa – que usa um quase-neologismo um tanto quanto modernoso (“west-östlich”) e um termo que chama todo o imaginário europeu da época sobre o Oriente (“Divan”) –, os poemas se valem de um temário e uma imagética que, mesmo que ele diga que não, apelam para o “exótico” relativo ao Oriente, em especial o Oriente muçulmano e das “Mil e uma noites”. Além disso, a posição autoral é difusa, por motivos que vou abordar a seguir. Para finalizar, o Divan tem duas partes: uma primeira, composta de 12 livros de poemas, e uma segunda, em prosa, intitulada “Notas e reflexões para melhor compreensão”. Tudo isso ajuda a tornar o Divan, nas palavras do crítico Hendrik Birus, “um livro sob sete selos”.

Goethe começou a escrever o Divan em 1814, após ler a primeira tradução integral para o alemão do poeta persa Hafez de Shiraz (~1320-~1389), feita pelo orientalista austríaco Joseph von Hammer. Dessa leitura – feita na viagem de coche a termas próximas a Weimar – surgiu a inspiração para que, nas palavras do próprio Goethe, ele “encontrasse motivo para tomar sua própria posição”. Mais do que seguir a mania tradutória da época, Goethe quis dar a sua contribuição por meio da sua própria obra, que teve sua primeira edição em 1819 e uma segunda em 1827. O Divan de Goethe é, portanto, um convite para uma viagem poética ao Oriente.

Essa viagem já se anuncia no primeiro poema, “Hégira”, do “Livro do Cantor”, que como que resume o Divan inteiro e remete tanto à fuga de Maomé para Medina quanto à própria fuga de Goethe – do mundo burocrático e bélico napoleônico do início do XIX para a terra da poesia. A viagem se prolonga por todos os doze livros – que levam à Pérsia de Hafez à sabedoria corânica, da sabedoria proverbial à contemplação religiosa, do amor carnal à bebedeira – e não termina no último livro, “Livro do Paraíso”: a seção de “Notas” é epigrafada por um poema que convida à terra da poesia todo aquele que quiser entendê-la. As “Notas”, então, não são um apêndice bibliográfico, mas a continuação da viagem iniciada pelos poemas.

A autoria do Divan é complexa: se a maioria esmagadora dos poemas é da pena de Goethe, alguns são da de Marianne von Willemer, um dos muitos amores do poeta e que, num jogo poético de máscaras, é representada por Zuleica, a amada de Hatem. Muitos dos poemas são traduções ou apropriações, tanto de poemas inteiros de Hafez ou outros poetas persas, quanto de versos do Corão, quanto também de verbetes enciclopédicos (como é o caso do “Inverno e Timur” abaixo). Essa difusão torna o Divan uma obra claramente mista: poesia persa travestida de alemã, mas sem poder ser chamada de “tradução propriamente dita” – pelo menos na sua maior parte. Por outro lado, é uma obra de tradução, no sentido em que dá testemunho da convivência de um poeta com outro.

Essa convivência não é neutra nem acidental. Goethe aborda o Oriente segundo seus padrões de religião, cultura, língua e literatura; de maneira seletiva, valoriza o Islã por ser uma Offenbarungsreligion, uma religião de revelação, e rejeita a “idolatria” indiana. Sua imagem do “árabe” é também uma construção, pois jamais esteve perto de qualquer país do Oriente. Para ele, o “árabe” é honrado, tem honra tribal, espírito de pertença, respeita tradições, mas é ávido por guerra, vingativo e irascível. Uma posição um tanto quanto questionável se tentarmos enxergar o Divan como obra de intercâmbio cultural.

O Divan também é tido por boa parte da crítica como uma obra exemplar da Weltliteratur como concebida por Goethe (a literatura que surge no entrelugar, a partir do intercâmbio entre os literatos), tanto por congregar em si a Weltpoesie, a poesia mundial, quanto por manifestá-la via tradução, um dos modos de realização da Weltliteratur segundo o próprio Goethe.

Mesmo com todas essas qualidades e complexidades, o Divan é um ilustre desconhecido fora da germanística. Para o inglês há várias traduções, mas para todas as demais línguas europeias em que há tradução existe somente uma, muitas delas em prosa (como a francesa) ou antigas e esgotadas. Por outro lado, o Divan tem uma larga recepção no mundo islâmico e oriental “como um todo”, tendo sido traduzido para o persa, árabe, turco, azerbaijano, turcomento, tadjique, japonês e mandarim – das que tenho notícia. Na nossa língua pátria, temos umas poucas traduções – Manuel Bandeira traduziu o poema “Selige Sehnsucht” como “Anelo”, e na coletânea apresentada recentemente pelo Adriano há alguns poucos poemas traduzidos. O capítulo “Traduções” das “Notas” é o trecho mais conhecido do Divan como um todo, por apresentar o momento de reflexão mais concentrada de Goethe sobre tradução (o que eu considero uma desproporção, pois esse capítulo só é o ápice, a ponta do iceberg tradutório que é movimentado pelo Divan como um todo).

Selecionei os poemas abaixo do “Livro do cantor”, como uma amostra do Divan. As quadrinhas “Vinte anos fiz fluir” e “É na terra do poema” epigrafam respectivamente o “Livro do cantor” e as “Notas”. Os poemas são “Hégira”, “Talismãs”, “Confissão” e “Anelo abençoado”. A edição consultada é a da editora Deutscher Klassiker Verlag, mas há edições de bolso baratas e, claro, o Projeto Gutenberg e o Zeno.org (tá tudo lá).

Por fim, o título. Como ainda não há tradução do West-östlicher Divan para o português, refere-se a ele normalmente como Divã ocidental-oriental ou Divã do Ocidente e do Oriente. Penso que West-östlich tem em si tanto um movimento do Ocidente em direção ao Oriente quanto um paralelismo, um balanceamento entre as duas regiões do globo. Penso que o título tem que corresponder a isso, sem abandonar o adjetivo como faz a versão francesa (“Le Divan”). Minhas propostas atuais são Divã ocidento-oriental e Divã ocidentoriental, esta última com um tom haroldiano, e que acho que gosto mais.

PS: Publiquei um pequeno ensaio na edição 79 da Revista Brasileira sobre problemas de tradução do Divã: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=16360&sid=31, seção “Pars Orientalis”.

Bônus: O maestro argentino Daniel Barenboim, juntamente com Edward Said, fundaram uma orquestra internacional, formada por músicos israelenses e palestinos, como manifestação contra o conflito na região. O nome da orquestra? West-eastern Divan (http://www.west-eastern-divan.org). Como diz um poema do espólio: “Quem a si e outros conhece/Há de aqui acreditar:/Oriente e ocidente/Não vão mais se separar” [“Wer sich und andere kennt/Wird auch hier erkennen:/Orient und Okzident/Sind nicht mehr zu trennen”].

Daniel Martineschen

* * *

Zwanzig Jahre ließ ich gehn
Und genoß was mir beschieden;
Eine Reihe völlig schön
Wie die Zeit der Barmekiden

Vinte anos fiz fluir
de uma vida bem vivida;
maravilhas a fruir
qual na era Barmecida.

§

Hegire

Nord und West und Süd zersplittern,
Throne bersten, Reiche zittern,
Flüchte du, im reinen Osten
Patriarchenluft zu kosten,
Unter Lieben, Trinken, Singen
Soll dich Chisers Quell verjüngen.

Dort, im Reinen und im Rechten,
Will ich menschlichen Geschlechten
In des Ursprungs Tiefe dringen,
Wo sie noch von Gott empfingen
Himmelslehr in Erdesprachen
Und sich nicht den Kopf zerbrachen.

Wo sie Väter hoch verehrten,
Jeden fremden Dienst verwehrten;
Will mich freun der Jugendschranke:
Glaube weit, eng der Gedanke,
Wie das Wort so wichtig dort war,
Weil es ein gesprochen Wort war.

Will mich unter Hirten mischen,
An Oasen mich erfrischen,
Wenn mit Karawanen wandle,
Schal, Kaffee und Moschus handle;
Jeden Pfad will ich betreten
Von der Wüste zu den Städten.

Bösen Felsweg auf und nieder
Trösten, Hafis, deine Lieder,
Wenn der Führer mit Entzücken
Von des Maultiers hohem Rücken
Singt, die Sterne zu erwecken
Und die Räuber zu erschrecken.

Will in Bädern und in Schenken,
Heil’ger Hafis, dein gedenken,
Wenn den Schleier Liebchen lüftet,
Schüttelnd Ambralocken düftet.
Ja, des Dichters Liebeflüstern
Mache selbst die Huris lüstern.

Wolltet ihr ihm dies beneiden
Oder etwa gar verleiden,
Wisset nur, daß Dichterworte
Um des Paradieses Pforte
Immer leise klopfend schweben,
Sich erbittend ew’ges Leben.

Hégira

Norte e oeste e sul se espalham,
tronos racham, reinos falham.
Foge à terra oriental,
sorve o ar patriarcal;
No amar, beber, cantar
Quíser vai te remoçar.

Onde tudo é justo e puro
Vou buscar com muito apuro
a raça humana, lá na origem,
quando ouvia – sem vertigem –
na sua língua o tom de Deus,
claro outrora para os seus.

Onde os pais ainda honrava,
e outros cultos rejeitava;
Vou gozar do desatino,
com fé ampla e pouco tino,
já que o forte era a palavra,
pois falada era a palavra.

Aos pastores vou mesclar-me,
num oásis saciar-me,
quando em caravana e a pé:
há xale, almíscar e café;
Quero andar pelas picadas
do deserto até as muradas.

Nos rochedos, pela trilha,
com sua mula vai o guia;
às estrelas canta alto –
medo assoma os maus de assalto.
Ó Hafez, sem teus poemas
esta terra tem problemas.

Pelas termas e tavernas
tuas honras canto eternas:
meu benzinho sopra o véu,
cachos d’âmbar solta ao léu
Sim, o poeta, sussurrando,
deixa as houris se corando.

Saibam todos que o invejam
ou que seu caminho pejam,
que as palavras do poeta
fazem súplica discreta
na portada do Eterno
por seu tempo sempiterno.

§

Talismane

Gottes ist der Orient!
Gottes ist der Okzident!
Nord- und südliches Gelände
Ruht im Frieden seiner Hände.

Er, der einzige Gerechte,
Will für jedermann das Rechte.
Sei von seinen hundert Namen
Dieser hochgelobet! Amen.

Mich verwirren will das Irren;
Doch du weißt mich zu entwirren.
Wenn ich handle, wenn ich dichte,
Gib du meinem Weg die Richte.

Ob ich Ird’sches denk und sinne,
Das gereicht zu höherem Gewinne.
Mit dem Staube nicht der Geist zerstoben,
Dringet, in sich selbst gedrängt, nach oben.

Im Atemholen sind zweierlei Gnaden:
Die Luft einziehen, sich ihrer entladen;
Jenes bedrängt, dieses erfrischt;
So wunderbar ist das Leben gemischt.
Du danke Gott, wenn er dich preßt,
Und dank ihm, wenn er dich wieder entläßt.

Talismãs

É de Deus o Oriente,
é de Deus o Ocidente!
Norte ou sul, todo torrão
jaz na paz da Sua mão.

Ele, o único que é Justo,
quer a todos só o justo.
De seus nomes, muitos, cem,
que louvemos este! Amém.

O Errado me confunde,
mas só tu me desconfundes.
Quando ajo ou poeto,
tu me dás caminho reto.

Quando penso no mundano,
realizo um alto plano.
A mente não dispersa pelo pó
se ergue à escuta por si só.

Existem duas graças no respirar:
sorver o ar, dele se liberar.
Um refresca, o outro oprime:
a vida é assim, mista e sublime.
Graça a Deus, se te aperta,
graça a Ele, se liberta.

§

Geständnis

Was ist schwer zu verbergen? Das Feuer!
Denn bei Tage verrät’s der Rauch,
Bei Nacht die Flamme, das Ungeheuer.
Ferner ist schwer zu verbergen auch
Die Liebe; noch so stille gehegt,
Sie doch gar leicht aus den Augen schlägt.
Am schwersten zu bergen ist ein Gedicht;
Man stellt es untern Scheffel nicht.
Hat es der Dichter frisch gesungen,
So ist er ganz davon durchdrungen.
Hat er es zierlich nett geschrieben,
Will er, die ganze Welt soll’s lieben.
Er liest es jedem froh und laut,
Ob es uns quält, ob es erbaut.

Confissão

O que é ruim de esconder? O fogo!
Pois de dia a fumaça o entrega,
E à noite a chama, o monstro, o ogro.
Pior de esconder (e que macega):
O amor; guardado em cura calma,
Pula ágil fora d’alma.
O pior mesmo: esconder um poema,
Pois cobri-lo dá o maior problema.
Se o poeta o recém-cantou,
De poesia ele se encharcou;
Se o poeta o escreveu com classe,
Quer que todo o mundo o abrace.
A todos lê, alegre e forte;
Azar de nós – ou será sorte?

§

Selige Sehnsucht

Sagt es niemand, nur den Weisen,
Weil die Menge gleich verhöhnet,
Das Lebend’ge will ich preisen,
Das nach Flammentod sich sehnet.

In der Liebesnächte Kühlung,
Die dich zeugte, wo du zeugtest,
Überfällt dich fremde Fühlung,
Wenn die stille Kerze leuchtet.

Nicht mehr bleibest du umfangen
In der Finsternis Beschattung,
Und dich reißet neu Verlangen
Auf zu höherer Begattung.

Keine Ferne macht dich schwierig,
Kommst geflogen und gebannt,
Und zuletzt, des Lichts begierig,
Bist du, Schmetterling, verbrannt.

Und solang du das nicht hast,
Dieses: Stirb und werde!
Bist du nur ein trüber Gast
Auf der dunklen Erde.

Tut ein Schilf sich doch hervor,
Welten zu versüßen!
Möge meinem Schreibe-Rohr
Liebliches entfließen!

Anelo abençoado

Conte só a quem é sábio,
pois o povo zomba logo:
louvarei o vivo, volátil,
que deseja a morte no fogo.

Na fresca da noite de amor,
que te gerou e onde geraste,
cai-te estranho dissabor
quando a chama a vela gaste.

Nunca mais quedas sofrido
sob a treva tão sombria.
E se renova em ti o pedido
por mais alta companhia.

Não te impedem as distâncias,
vens voando e encantada;
pela luz tens muitas ânsias.
Mariposa: és chamuscada.

“Morre e te transforma:” assim
que cumprires teu destino,
deixarás de ser, enfim,
nesta terra um peregrino.

Como o caldo vem da cana
e adoça a todo o mundo,
flua amor de minha pena
sem parar nem um segundo.

§

Wer das Dichten will verstehen,
Muß in’s Land der Dichtung gehen;
Wer den Dichter will verstehen,
Muß in Dichters Lande gehen.

É na terra do poema
que se entende o poema;
é na terra do poeta
que se entende o poeta.

 (Goethe, trads. de Daniel Martineschen)

 * * *

Daniel Martineschen (1981-) é tradutor literário, técnico e juramentado de língua alemã, e é doutorando em Estudos Literários na UFPR, traduzindo o Divã como centro da tese (tradução com previsão de publicação para 2016). Traduziu recentemente “Travessia” de Anna Seghers (2013, Ed. UFPR). Tem também formação em informática pela UFPR, joga truco e nada borboleta muito bem.

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poesia

Marcelo Pierotti (1984)

pierottiMarcelo Pierotti (1984) é um nome que me foi recomendado por outro poeta que já passou por aqui, o Leandro Rafael Perez, numa tentativa, como o Leandro mesmo me disse descaradamente, de me influenciar à la Harold Bloom – algo sobre induzir um clinamen, ou desvio, ou coisa assim. Não posso afirmar nada de cara sobre ter sido influenciado (nem acho que isso vá interessar alguém aqui) ou sobre a validade da teoria da angústia da influência, mas é fato que há ao menos uma óbvia afinidade temática. O prefácio do seu livro publicado em 2013 pela editora Patuá, Domingo no Matadouro, conta uma anedota interessante sobre como, em 2007, ele, o Leandro e Raquel Parrine (a autora do prefácio) planejavam montar uma editora artesanal e que o primeiro livro a sair nela seria uma antologia de poemas do Pierotti sem o seu consentimento, chamada Antologia Furtiva, com cada um dos outros dois selecionando 10/15 poemas e esperando que houvesse interseção nos poemas selecionados. Diz o relato que ambos acabaram escolhendo 10/15 poemas completamente diferentes, enfatizando facetas diferentes do poeta, que Raquel descreve como uma sendo “mais simbolista (?)” e “outra mais prosaica”. Acabou que a editora não deu certo, mas alguns desses poemas, agora misturados sem separação de facetas, sobreviveram e entraram com mais outros no Domingo no Matadouro, e o livro foi ganhador do prêmio ProAC em 2012 e integra a coleção Patuscada, cujos livros contam com uma tiragem de 1500 exemplares (em contraste com a média normal, bem menor, de 100 exemplares). Se alguém esperava algum comentário crítico mais profundo de minha parte, bem, desta vez, até por conta do desconforto da proximidade de poéticas, eu vou ficar vos devendo. Mas selecionei aqui alguns poemas do Domingo para servir de amostra do livro. Pierotti atualmente reside em São Paulo e, segundo boatos, anda preparando um volume futuro chamado Ciclo Cínico.

Adriano Scandolara

 

Pierotti lê os poemas “Extravio ou 2008″, “Dois que fumam”, “Mil tsurus” e “Meu esporte” na Casa das Rosas

 

Prova de três

Meu quarto
– meu último quarto
até aqui –
caberia numa gaveta
das várias que vi
nos outros quartos
pelos quais
passei

Minhas latas vazias
vão acumuladas
desde os dezoito
anos de idade,
enquanto mulher
não acumulei
mais que uma.

Não acumulei também
dinheiro ou noite dormida.
Gastei tudo com comida,
umas dúzias de sapatos,
vidro, vento, vermífugos
e meias brancas descartáveis.

Como conta exata me
basta apenas uma:
em minha vida tive
três cachorros mortos.

O maior tinha
quarenta quilos
que carreguei
encharcados
numa noite chuvosa.

 

Um belo dia

Todo mundo já o fez,
todo mundo frente a fuzil
ou fera em pleno sertão,

solto no mar –
sobre pedaço de pau podre –
entre duas ilhas numa
imensidão de água.

Todo mundo, mesmo que
num carro emborcado
de cabeça para baixo,
com a carteira na mão
diante de um revólver.

Todo mundo, eu também,
na mira de dois olhos
faiscantes – raivosos –
que nem dona mais têm.

 

Debaixo da cômoda

Não é um caminho
do ponto A até o B
pelo qual se atravessa
a passos medidos por
fluido que corre ferroso
e no fim você morre.

É uma coleção de fotos
que já vem meio velhas,
vistas cada vez mais sob uma luz,
cada vez mais difíceis de achar
(e no fim você morre).

 

Toda criança é astronauta

O Sol, casado
com a Lua,
deu uma prole
incontável
de astros miúdos
soltos pelo céu.

Com o dedinho
ela indica seus conhecidos:

menino, menina
menina, menino

Concorde:
você, um dia
também esteve
assim
tão íntimo
das estrelas.

 

Dia de faxina

E faz tanto tempo.

Das que foram meio perdidas
no sal e nas cortinas
dos dias contados
ficam unhas
ancas e pés.

Não o melhor,
se bem me lembro,
mas é o que temos.

(Marcelo Pierotti)

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poesia, tradução

Bohdan Zadura (1945-), por Luciano R. Mendes

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Bohdan Zadura (Puławy, 1945) debutou, como muitos outros importantes poetas poloneses, no ano de 1968 – o início da chamada Nowa Fala (Nova Onda) da literatura polonesa. Sua poesia, a princípio, utilizava-se de formas clássicas, em especial o soneto mas, a partir dos anos 1980, abandonou essas tendências e deixou-se influenciar por poetas mais contemporâneos, notadamente os norte-americanos da assim chamada Escola de Nova Iorque. Suas temáticas, porém, mantiveram-se mais ou menos constantes, incidindo sobre a vida dos indivíduos e sua relação com a vida social, cultural e política, refletindo especialmente sobre os termos linguísticos dessa relação.

Selecionei alguns poemas retirados de dois de suas antologias mais recentes (Kaszel w lipcu, de 2000; e Ptasia Grypa, de 2002).

Luciano R. Mendes

* * *

ANTYGONA Z PRIŠTINY

Sarajewo było raz (w ogniu) i drugi
I wystarczy
Minęło jak wszystko

Chciałbym żyć raz
a długo
żeby zdążyć

zapomnieć
raz
a dobrze

Twoje ciało
jak ciało Polinejka
Tylko choć myli mi się

Kreon Charon i Chronos
chyba nic już nie jest
możliwe

Antígona de Pristina

Sarajevo esteve uma vez (em chamas) e uma segunda
e basta
Passou, como tudo

Eu queria viver só uma vez
mas o bastante
para conseguir

esquecer
de uma vez
por todas

Teu corpo
como o corpo de Polinices
Só que apesar de eu confundir

Creonte, Caronte e Cronos
pode ser que nada seja
possível

Fashion TV

Czy gimnastyka szwedzka jest zdrowa Nie mówię że nie jest
choć przysłowiowy polot Szwedów daje do myślenia

a fizyczna tężyzna? łzy napływają do oczu na wspomnienie
masowych pokazów gimnastycznych na powiatowych spartakiadach

dziś gdy w Fashion Television oglądam karnawał w Rio
znów przed oczami mi stają nasze białe zapadnięte klatki

i na trybunach w kretonowych sukienkach w kolorowe kwiatki
nasze matki do wtóru sekretarzom bijące nam brawo

i ciastowate uda dziewczyn, spodenek sprany granat
w których coś się rozpycha nie zawsze kiedy trzeba

i wstyd że się jest punkcikiem w jakiejś figurze na trawie a z nieba
żadna kurtyna deszczu na wstyd ten nie opada

i choć jesteś ofermą nikt cię zwolnić nie chce
od przysiadów przewrotów wymachów ramion i przebieżek

no bo gdyby zwalniano ofermy to powiedzmy szczerze
wuefista by tutaj tylko ćwiczył z wuefistką

Fashion TV

Será que ginástica sueca é saudável Eu não disse que não
apesar de que a proverbial inventividade sueca dá o que pensar

mas e a boa forma? lágrimas escorrem dos olhos de lembrar
as massivas demonstrações de ginástica dos jogos estudantis municipais

hoje quando assisto ao carnaval do Rio na Fashion Television
mais uma vez pairam diante de meus olhos nossos peitos magros e brancos

e nas arquibancadas com vestidos de bramante com flores coloridas
nossas mães acompanhadas dos secretários nos aplaudindo

as celulites nas coxas das moças, shorts azul marinho
nos quais algo nem sempre estica na hora certa

e se envergonha de ser um pontinho na grama e no céu
nenhuma cortina de chuva cai sobre essa vergonha

e apesar de você ser um inútil ninguém quer te liberar
dos agachamentos, saltos mortais, swings, flexões e corridas

não, pois se os que foram afastados por inaptidão falarem francamente
só os professores e professoras de educação física treinariam

Za pięć dwunasta

śmierć daje większe możliwości wyboru
dlatego pytamy na co umarł a nie
na co się urodził

Cinco para meia-noite

a morte dá mais possibilidades de escolha
por isso perguntamos do que foi que morreu e não
do que foi que nasceu

Myślałem o samobójstwie

Wczoraj że jestem za młody
Dzisiaj że jestem za stary

Eu pensava em suicídio

Ontem, que era muito jovem
Hoje, que sou velho demais

(poemas de Bohdan Zadura, trad. de Luciano R. Mendes)

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