Emily Dickinson e suas traduções – parte IV

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[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (a tradução de Ivo Bender), parte III (Isa Mara Lando)]

Imagino que, dentre quem vem acompanhando este ciclo e ainda não se enfastiou da minha verborragia, deva haver quem esteja ansioso para que eu chegue logo na tradução de Augusto de Campos. Para Augusto, Dickinson é já amor velho, como se diz. No seu Anticrítico, publicado em 1986, ele havia já dedicado uma seção do livro a ela, onde traduziu 10 de seus poemas (vide aqui ) e, na “prosa porosa” que caracteriza os poemas-ensaios introdutórios a cada um dos poetas traduzidos neste volume, Augusto diz o seguinte de Emily:

no reino das letras e artes
onde as vaidades e os exibicionismos
conhecem todos os truques
(…)
fenômenos como o de emily dickinson
chegam a ser quase incompreensíveis

(…)

mulher-poeta
foi vítima de dupla discriminação
por ser mulher
e por ser poeta
original e intransigente

a densidade
de sua linguagem poética
a faz mais atual do que a de whitman
nenhum poeta norte-americano
(nem mesmo emerson ou poe)
tinha levado tão longe
a elipse e a condensação do pensamento
ou a ruptura sintática
até a pontuação foi por ela liberada
travessões interceptam os textos
substituindo vírgulas e travessões
e dando aos poemas
uma fisionomia fragmentária
já totalmente moderna

 

E assim por diante.

Mais recentemente, em 2008, Augusto retomou o trabalho com Dickinson e compôs um volume intitulado Não Sou Ninguém (editora da Unicamp), com 45 poemas, contando os 10 já presentes no Anticrítico, mais 35 outros. Essa seleção consiste nos seguintes poemas (os publicados anteriormente estão aqui marcados com um asterisco): “There is a word”, “A sepal, petal, and a thorn”, “We lose – because we win” (*), “If recollecting were forgetting” (*), “Success is counted sweetest” (*), “Our share of night to bear”, “‘Tis so much joy! ‘Tis so much joy!”, “Safe in their Alabaster Chambers”, “I held a Jewel in my fingers” (*), “I felt a Funeral, in my Brain” (*), “I’m Nobody! Who are you?” (*), “We play at Paste”, “Much Madness is divinest Sense”, “I died for Beauty”, “Beauty – Be not caused – It Is”, “Some such Butterfly be seen”, “I fear a Man of frugal Speech -”, “Delight – becomes pictorial -”, “Me from Myself – to banish -” (*), “Pain – has an Element of Blank -”, “I dwell in Possibility”, “As if the Sea should part”, “Publication – is the Auction”, “I could not drink it, sweet”, “Banish Air from Air -” (*), “These tested Our Horizon -” (*), “Drab Habitation of Whom?”, “I hide myself within my flower”, “Pain – expands the Time”, “Death is the Dialogue between” (*), “The Opening and the Close”, “Too scanty ’twas to die for you”, “Best Witchcraft is Geometry”, “The Voice that stands for Floods to me”, “Great Streets of silence led away”, “Because my Brook is fluent”, ” A word is dead”, “The Riddle we can guess”, “So proud she was to die”, “In this short Life”, “Yesterday is History”, “The Mushroom is the Elf of Plants”, “Could mortal lip divine”, “A Dimple in the Tomb”, “Fame is a bee”.

"In this short Life / that only lasts an hour / How much — how little — / is within our power" E nós cá crentes de que escrever poesia em guardanapo de boteco era muito marginal, muito moderno

“In this short Life / that only lasts an hour / How much — how little — / is within our power”
E nós cá crentes de que escrever poesia em guardanapo de boteco era muito marginal, muito moderno

Eu venho insistindo nisso de qual é a seleção dos poemas feita pelo tradutor de cada volume por causa de uma coisa interessante e que talvez não seja óbvia para todos, que é o ato crítico embutido na atividade da tradução de poesia. O que eu quero dizer com um ato crítico? Pensemos num crítico literário. Não é fácil definir qual é o papel do crítico, mas me parece algo claro qual efeito ele de fato obtém sobre a recepção de um autor. Ao meu ver, os bons críticos são os que focam obras que lhes interessam e são capazes de elucidá-las expondo o porquê de essas obras merecerem a atenção que lhes está sendo dada – e os melhores são os que conseguem lançar um novo olhar, mais interessante, sobre um poeta já batido ou até mesmo ressuscitar tradições inteiras, como foi feito por Eliot & cia. com os poetas metafísicos no século XX (ainda que esse revival tenha vindo às custas de outros poetas, como Milton e os românticos). Enquanto isso, os maus críticos lançam elogios genéricos, não elucidam nada, e tudo que dizem parece valer para qualquer outro poeta (especialmente quando jogam trocentos outros nomes na resenha, não para traçar algum paralelo útil para a elucidação, mas como forma de conceder um selinho Inmetro de “boa poesia” ou certificado de pedigree, tipo wow, esse cara vem da tradição de Baudelaire, Mallarmé, Rilke, Eliot e Pound, que linhagem excelente!), e os piores eu creio que sejam os que se dedicam longamente à crítica destrutiva. A crítica negativa só é uma imposição ao resenhista pago, como é o caso do crítico de jornal, cujo próprio trabalho (remunerado, espero) é elaborar um comentário breve sobre tudo aquilo que os editores lhe mandam resenhar, independente das qualidades (ou ausência de) daquilo que está sendo lido. E, ainda que eu (confesso) me divirta muito lendo críticas sarcásticas, me parece que o apelo desse gênero deriva mais das suas semelhanças com o que parece ser um tipo erudito de stand-up comedy do que com a crítica literária de fato. E é claro que é importante apontar as falhas mesmo na obra de autores importantes (e as falhas nos ensinam muito sobre o que funciona ou não na literatura), mas a vida é curta demais para se gastar tempo e esforço com maledicências, e eu concordo com o que diz Shelley no prefácio ao seu Prometeu Desacorrentado: “Quaisquer talentos que uma pessoa possa possuir para divertir e instruir os outros, irrisórios como possam ser, devem ser por ela exercidos: se essa tentativa for ineficaz, que o castigo de um propósito não-cumprido seja o suficiente; que ninguém se perturbe em cumular o pó do esquecimento sobre seus esforços; a nuvem que levantam trairá sua sepultura, que poderia, de outro modo, ser desconhecida”. O melhor a fazer com a má poesia, creio, é relegá-la ao esquecimento, e isso é impossível se o crítico insistir em mencionar de novo e de novo e de novo o nome de um poeta que ele queria que saísse de cena. Há usos mais produtivos do seu tempo.

Então, o que há de crítico no ato tradutório? Pois, se o que o crítico faz é elucidar e selecionar os poetas que ele acredita que as pessoas deveriam ler – e, dentro do contexto da obra desses poetas, qual a sua faceta mais importante –, logo o trabalho do crítico e do tradutor de poesia (o tradutor de prosa é um caso à parte, porque geralmente é contratado por uma editora que já tem planos, bem como também os direitos, de publicação de determinado autor, e por isso ele costuma ter menos autonomia) passam a ser muito próximos. Nenhum tradutor tem mundo e tempo o suficiente para dar conta de traduzir tudo que lhe atrai, por isso é preciso escolher quais autores traduzir e quais poemas traduzir desses nomes. É evidente que há questões práticas em jogo: a facilidade ou dificuldade da linguagem do autor, a existência ou não de traduções anteriores, a questão dos direitos autorais (é mais fácil publicar uma obra de um autor em domínio público do que um autor vivo, e infinitamente mais fácil publicar um autor vivo e comunicável do que um recentemente morto, dado o pé-no-saco que costumam ser os herdeiros, com raríssimas exceções), mas elas são periféricas em relação à importância maior dessa questão de seleção. Para fazer uma comparação bestíssima, é como se o tradutor fosse um tipo de bombeiro num museu em chamas (para o propósito do símile, tinha que ser um museu… a princípio era uma casa, que dava um exemplo menos afetado, mas ninguém se arrisca para salvar os pertences de uma casa em chamas), tentando salvar o maior número possível de obras antes que a estrutura inteira seja consumida, e por isso escolhas precisam ser feitas: a obra completa de tal autor ou obras parciais de vários autores? um autor mais difícil ou vários autores mais fáceis? um autor que muita gente já traduziu ou um desconhecido que merecia ser mais lido? dedicar-se longa e arduamente à tradução de poesia ou ganhar dinheiro? Enfim.

Os tradutores irresponsáveis traduzem qualquer coisa de qualquer jeito, e isso tem um impacto muito negativo sobre os autores traduzidos, mas é evidente que Augusto de Campos não é um deles. De qualquer forma, ele e seu irmão Haroldo são um bom exemplo para demonstrar a importância do enfoque na trajetória como tradutor: ambos tinham talento para traduzir com maestria o que bem quisessem e optaram não por traduzir obras completas (com a única exceção sendo, posteriormente, a Ilíada, de Haroldo) mas por poder dar ao público brasileiro uma amostra razoável de um grande número de poetas: Dante, Mallarmé, Goethe, Maiakóvski, cummings, Pound, Joyce, Rimbaud, Rilke, Gertrude Stein, Hopkins, etc. Já a opção de Carlos Alberto Nunes, para citar um contra-exemplo, foi o completo oposto, preferindo se dedicar à tradução de obras completas, como a de Shakespeare, Platão e a Ilíada e Odisseia. E, com sorte, é isso que dá para fazer em uma vida.

Essa é uma boa ocasião para trazer à tona esse tipo de discussão, porque, ao que tudo indica, Augusto é um dos tradutores que mais têm consciência disso, como nos deixa claro o seu Anticrítico, um livro que tem seu cerne justo nesse ato crítico, ou, bem, anticrítico (porque é o oposto da crítica literária, sobretudo à crítica literária no mau sentido da palavra, a “dialética da maledicência”), da tradução poética. Voltando ao caso da tradução de Ivo Bender, por exemplo, me parece claro que, onde Bender tira o corpo fora na questão dos travessões (segundo ele, a função deles em Dickinson “ainda está por ser definida pela crítica”), Augusto afirma enfaticamente sua presença como crítico-tradutor com a sua interpretação: “travessões interceptam os textos / substituindo vírgulas e travessões / e dando aos poemas / uma fisionomia fragmentária / já totalmente moderna”, uma leitura que ele mantém, anos depois, no ensaiozinho introdutório ao Não Sou Ninguém (“traços ou travessões que interceptam os textos, no lugar da pontuação convencional, e que acenam com pausas e recortes sintáticos significativos e imprevistos”), uma introdução, diga-se de passagem, muito iluminadora, focada principalmente sobre os poetas a quem Dickinson teve ou não acesso e os ecos que a sua poesia encontra no século XX. Detalhes mínimos, porém reveladores.

capa-não-sou-ninguémVoltando à questão de qual foi a seleção feita por Augusto, eu diria que ela me parece bastante pautada por uma questão de representatividade, visto que vários dos poemas que ele traduziu são emblemáticos de Dickinson e figuram na lista dos mais traduzidos (aqui). E, no geral, ela me parece mais bem arquitetada do que a de Bender e menos focada num certo tom de delicadeza como é a tradução de Lando, com os poemas de amor e as abelhas e pequenas criaturas do jardim, e mais preocupada com questões, digamos, existenciais (há 10 poemas em comum entre as seleções dos dois tradutores, porém). Não é uma seleção longa – é a mais breve das que eu tenho em minha coleção aqui –, mas me parece que um leitor que não conheça a poeta há de ter uma boa noção geral do que é o estilo de Dickinson, na medida, é claro, em que é possível abstrair qualquer noção disso a partir de um corpus de ~2,6% do total da obra – e, acredito, mesmo o número total de títulos traduzidos de Dickinson para o português não deva exceder uma porcentagem muito superior a essa. Há, ainda assim, espaço para um ou outro poema que só Augusto traduziu (como “‘Tis so much joy!”) ou, então, traduzido só por ele e apenas um dos outros tradutores (“The Mushroom is the Elf of Plants”). Outro elemento que ele parece ter privilegiado na sua abordagem, como não poderia faltar no caso de um poeta/tradutor tão virtuosista como ele é, foi o do jogo de palavras, conforme Augusto destaca, num dos parágrafos da introdução, que “Emily é exímia em jogos vocabulares”. Em “There is a word / That bears a sword”, por exemplo, com um acréscimo de um ‘s’ a palavra (word) se arma com uma espada (sword), versos que Augusto verte por “Uma palavra se abre / como um sabre”, e assim por diante, deixando claro que, em sua seleção, houve uma preferência pelos poemas em que algum virtuosismo formal pudesse ser demonstrado – justo o tipo de poema de que a maioria dos tradutores foge ou que, quando traduzidos, a tradução tende a passar por cima desse tipo de efeito.

Aliás, tamanho é o virtuosismo de Augusto que, eu diria, ele parece ter muito mais rigor formal do que a própria Dickinson. Onde, como temos visto desde o começo aqui, Dickinson relaxa no metro e chega a empregar rimas apenas nos versos pares de cada estrofe (e muitas vezes rimas imperfeitas), Augusto se vale de um metro mais rigoroso e quase sempre faz questão de rimar todos os versos na estrofe (exceto no caso dos poemas estruturados de outra forma que não quartetos), muitas vezes com rimas engenhosas – nada de entupir de -ão e -ar.

Como era de se esperar, os resultados obtidos estão acima de qualquer suspeita… exceto em um único exemplo – e valham-me os deuses, porque eu estou prestes a reclamar de algo num trabalho do Augusto. É meio constrangedor para mim (especialmente para mim que, de fato, não sou ninguém) apontar para algum problema aqui, mas seria desonesto que eu o avistasse e não o mencionasse, por isso digo que num momento, no poema “The Mushroom is the Elf of Plants”, Augusto acaba pesando a mão:

The Mushroom is the Elf of Plants —
At Evening, it is not —
At Morning, in a Truffled Hut
It stop upon a Spot

O Cogumelo — à Noite —
É o Gnomo da Floresta — e
De Dia, Trufo-Travesti,
Estaca, um Toco.

 

Ele mantém com graciosidade o jogo de palavras em “stop upon a Spot” com “Estaca, um Toco”, mas parece que entrou de gaiato ali no verso anterior a palavra “travesti”. Acho que dá para entender o que seja um “trufo-travesti”  – pelo menos vagamente… um trufo que se traveste de gnomo? um toco que de noite vira outra coisa? ok, confesso que não sei ao certo e, o que quer que esteja sendo dito, no momento em que aparecem travestis no poema, é como se uma drag queen (a Divine, talvez, fantasiada aqui tematicamente de cogumelo) entrasse cantando e roubasse a cena – o que, apesar de uma imagem mental divertida, imagino que não fosse bem o que o poema de Dickinson quisesse dizer. Mas enfim, trata-se de um pequeno deslize ao qual estamos todos sujeitos. No mais (para sermos breves na rasgação de seda), sentimos que a única falta deste volume mesmo é não ser mais extenso.

(Adriano Scandolara)

 

O Sucesso é mais doce
A quem nunca sucede.
A compreensão do néctar
Requer severa sede.

Ninguém da Hoste ignara
Que hoje desfila em Glória
Pode entender a clara
Derrota da Vitória

Como esse — moribundo —
Em cujo ouvido o escasso
Eco oco do triunfo
Passa como um fracasso!

 

Success is counted sweetest
By those who ne’er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.

Not one of all the purple Host
Who took the Flag today
Can tell the definition,
So clear, of Victory!

As he, defeated — dying —
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Burst agonized and clear!

*

A Dor — tem Algo de Vazio —
Não sabe mais a Era
Em que veio — ou se havia
Um tempo em que não era —

Seu futuro é só Ela —
Seu Infinito faz supor
O seu Passado — que desvela
Novos Passos — de Dor.

 

Pain — has an Element of Blank —
It cannot recollect    
When it began — or if there were
A time when it was not —
 
It has no Future — but itself —
Its Infinite contain
Its Past — enlightened to perceive
New Periods — of Pain.

*

Esses testaram o Horizonte —
E desapareceram
Pássaros antes de cumprir
A Latitude.

Nossa Retrospectiva Deles
Prazer pousado,
Nossa Antecipação
— Dúvida — Dado —

 

These tested Our Horizon —
Then disappeared
As Birds before achieving
A Latitude.

Our Retrospection of Them
A fixed Delight,
But our Anticipation
A Dice — a Doubt —

*

Morrer por ti era pouco.
Qualquer grego o fizera.
Viver é mais difícil —
É esta a minha oferta —

Morrer é nada, nem
Mais. Porém viver importa
Morte múltipla — sem
O Alívio de estar morta.

 

Too scanty ’twas to die for you,
The merest Greek could that.
The living, Sweet, is costlier —
I offer even that —

The Dying, is a trifle, past,
But living, this include
The dying multifold — without
The Respite to be dead.

*

Nesta Vida tão breve
De que nos dão só um gole
Quanto — quão pouco — está
Sob o nosso controle

 

In this short Life
that only lasts an hour
How much — how little —
is within our power

(Emily Dickinson, traduções de Augusto de Campos)

gustavo caso rosendi, por ricardo pozzo

soldados confederados mortos: batalha de antietam (1862, foto de alexander gardner)

soldados confederados mortos: batalha de antietam (1862, foto de alexander gardner)

nós já fizemos um post com poemas do argentino gustavo caso rosendi, em traduções de ronaldo cagiano. que vocês podem conferir aqui, com algumas informações. como nosso conterrâneo ricardo pozzo vem traduzindo alguns poemas de soldados, aqui estamos nós com mais 4 poesias desse livro violento sobre a guerra das malvinas.

guilherme gontijo flores

* * *

Monte Longdon

é como um desfile é como se fosse em fevereiro passado a partir de uma vitrola enferrujada canta castillo segue o baile uma mulher com rosto de íbis passeia em chingui-chingui chovem serpentinas a avenida com lampadinhas de cores carnavalescas tudo enevado, mas não lhe parece estranho porque sabe que lhe cabia olhar para frente e vontade de beber uma cerveja e um aceno de cabeça e outro e mais outro e aí está procurando marcela entre as pessoas mas uma estátua o detêm lhe beija a testa o cachecol lhe escapa como um pássaro cego vai enganchando entre os ramos se desfia escocês no céu e chega um frio escuro escuro escuro e já não pode inteirar-se daquele fio que lhe apóia a garganta justamente quando se acendem os primeiros gritos da noite

Monte Longdon

es como un corso es como si fuera el último febrero desde una vitrola oxidada canta castillo siga el baile una mujer con rostro de ibis pasea en el chingui-chingui llueven serpientes de papel la avenida con lamparitas de colores gualeguaychú todo nevado pero no le parece raro porque sabe que le tocaba mirar hacia el frente y ganas de tomarse una cerveza y un cabeceo y otro y otro más y ahí está bus-cando a la marcela entre la gente pero una estatua lo detiene le besa la frente la bufanda se le escapa como un pájaro ciego se va enganchando entre las ramas se deshilacha escocesa en el cielo y llega un frío oscuro oscuro oscuro y ya no puede enterarse de aquel filo que se le apoya en la garganta justo cuando se encienden los primeros alaridos de la noche

Despedida

Aguardava Caronte
em seu barco imundo
Enquanto a Liberdade rosto tostado
barrete frígio ensanguentado
beijava um soldado moribundo

Despedida

Aguardaba Caronte
en su bote inmundo
Mientras la Libertad rostro tiznado
gorro frigio ensangrentado
besaba a un soldado moribundo

 

Esse soldado nunca soube de qual
mordida maçã havia
surgido como um verme no mundo

Deve ter sido essa a causa pela qual
passeava sua elegância de salgueiro
na garoa escondendo um pouco
esses olhos de peixe seco
e parecia quicar na paisagem
com a insistência do inseto
que se choca contra uma lâmpada

Deve ter sido essa a causa pela qual
retirava-se para procurar-se para não
encontrar-se quando voltava
e não ver-se e essas coisas
que se pensam

Deve ter sido por isso
por isso, simplesmente, deve ter sido
que não ouviu a voz de alerta nem o apito
e quando o vento negro
meteu-se por seus buracos
esse soldado gritou
“mamãe”

A única coisa que gritou foi essa palavra

Ese soldado nunca supo de qué
mordisqueada manzana se había
asomado como gusano al mundo

Debió ser esa la causa por la que
paseaba su garbo de sauce
en la llovizna ocultando un poco
esos ojos de pescado reseco
y parecía rebotar en el paisaje
con la insistencia del bicho
que choca contra un farol

Debió ser esa la causa por la que
se retiraba a buscarse para no
encontrarse cuando regresara
y no verse y esas cosas
que se piensan

Debió haber sido así
Así nomás debió haber sido
que no oyó la voz de alerta ni el silbido
y cuando el viento negro
se le metió por los agujeros
ese soldado gritó
“mamá”

Lo único que gritó fue esa palabra

Brinde

Subia e descia colinas
até chegar ao soldado Sañisky
Dava-lhe um abraço
colocava entre suas mãos meu maço de Marlboro
este é teu – dizia -
é tudo que tenho
e nos dedicávamos a dar baforadas
igual àqueles orifícios
que repentinamente surgiam
no carvão em brasa como
acne irremediável

Hoje quando nos encontramos
em alguma festa de aniversário
e acendo um cigarro
sentimos que estamos lá novamente
Então meu amigo
- que já não fuma -
coloca entre minhas mãos
uma taça de vinho
e olhamos como correm
nossos filhos
como falam nossas mulheres

E porque ainda perdura
a tristeza é que estamos felizes
e porque sabemos que de alguma
maneira não nos venceram
é que brindamos

Brindis

Subía y bajaba colinas
hasta llegar al soldado Sañisky
Le daba un abrazo
le ponía entre las manos
mi paquete de Marlboro
esto es tuyo -le decía-
es todo lo que tengo
y nos dedicábamos a echar humo
igual que aquellos agujeros
que de pronto aparecían
en la turba como un
acné irremediable

Hoy cuando nos juntamos
en algún cumpleaños
y enciendo un cigarrillo
sentimos que estamos allá de nuevo
Entonces mi amigo
–que ya no fuma-
me pone en la mano
una copa de vino
y miramos cómo corren
nuestros hijos
cómo hablan nuestras mujeres

Y porque aún nos perdura
la tristeza es que estamos felices
y porque sabemos que de alguna
manera no nos han vencido
es que brindamos

(poemas de gustavo caso rosendi, trad. ricardo pozzo)

* * *

Gustavo Caso Rosendi nasceu en Esquel (Chubut) em 3 de agosto de 1962. Reside na cidade de La Plata. Foi declarado Ciudadano Ilustre de la ciudad de La Plata por sua participação como soldado na Guerra das Malvinas. Vinte e sete anos depois da guerra pôde terminar o livro Soldados, que foi publicado pelo Ministerio de Educación através de seu programa “Educación y Memoria”.

Ricardo Pozzo nasceu em Buenos Aires (1971) e mora em Curitiba. É poeta, fotógrafo, tradutor, músico e blefador. Curador responsável pelo Vox Urbe, projeto literário do WNK Bar e editor assistente do Jornal RelevO.

morte e ressurreição na poesia tardo-antiga: prudêncio & venâncio

detalhe do mosaico "megalopsychia" ("magnanimidade"), em antioco, séc. V. medidas: 7 m. X 7.20m

detalhe do mosaico pavimental “megalopsychia” (“magnanimidade”), em antioco, séc. V. medidas: 7 m. X 7.20m

o fim da antiguidade é, pra quase todo mundo (& mesmo eu me incluo, apesar de latinista), um buraco negro. nada se sabe &, em geral, nem se quer saber. por isso, em clima de semana santa, decidi verter dois trechos poeticamente poderosíssimos dos séc. IV-VI.

no primeiro, tirado da Psychomachia de Aurélio Clemente Prudêncio (348-?410 d.c.), uma narrativa alegórica das batalhas da alma contra os vícios, temos a imagem violentíssima da morte da Heresia personificada. em vez de um desaparecimento alegórico, o que vemos é um cadáver estraçalhado por animais, enquanto sua imundície se espalha. o horror talvez se compense, se lembrarmos que a heresia, no poema, é uma figura infernal, afundada no enxofre & de um corporeidade que é a mesma do humano. o horror dela é o nosso.

no segundo, um trecho da Vita Martini, de São Venâncio Fortunato (?530-?605 d.c.) uma espécie de poema épico-biográfico-hagiográfico sobre a vida de São Martinho. o trecho descreve seu primeiro milagre, uma ressurreição; & toda sua força está na concretude desse corpo que retorna, parte a parte, até se realizar como uma pós-vida, casa & hóspede, herdeiro de si mesmo. também metáfora da condição humana, para o cristianismo: o corpo é um templo reconstruído na fé da ressurreição.

os dois poemas foram escritos em hexâmetros datílicos — o metro típico da épica — & optei por verter os trechos escolhidos em verso livre (sabendo que nenhum vers será libre, como já disse T. S. Eliot). o recurso visual aos dois pontos se dá por um motivo crítico de leitura, na busca por um sopro rítmico do poema (talvez bastante influenciado por leituras de Henri Meschonnic). eu cheguei a esses trechos pela obra de Michael Roberts, The jeweled style (1989), que trata da poética tardo-antiga a partir do seu gosto por enumeração & antítese. os dois pontos, na tradução, portanto, buscam marcar os ritmos internos dessas enumerações no contraponto da mesura do verso, por um desenho simples de respiração, no lugar da pontuação tradicional.

enfim, não sou propriamente cristão. mas não vejo motivo para não re-avaliarmos & re-visarmos essa poesia cristã em tempos irreligiosos: não será só fé que ela tem a nos oferecer. a língua bem que agradeceria se aparecessem tradutores.

guilherme gontijo flores

* * *

Prudêncio, Psychomachia (Batalha da alma), vv. 719-25: a morte da Heresia.

::a besta-fera é tomada por mãos inúmeras::
cada um carrega seus pedaços::para espalhar na brisa::
dar aos cães:: aos transvorazes corvos
entregar::enfiar em fétidos valões
nojentoss::jogar às presas dos monstros marinhos::
dilacerado entre animais imundos o cadáver
todo é dividido::perece a heresia desmembrada::

Carpitur innumeris feralis bestia dextris.
Frustatim sibi quisque rapit, quod spargat in auras,
quod canibus donet, coruis quod edacibus ultro
offerat, immundis caeno exhalante cloacis
quod trudat, monstris quod mandet habere marinis.
Discissum foedis animalibus omne cadauer
diuiditur, ruptis Heresis perit horrida membris.

 

Venâncio Fortunato, Vita Martini (Vida de Martinho) 1.169-76): um milagre da ressurreição.

::mas no moroso espaço de horas gêmeas
seu vulto retorna::vapores saltam dos seus membros::
volta a cor para a face::a pupila relume nos olhos::
um novo espelho aparece no rosto::
a veia cresce numa fonte fluida de sangue::
aos poucos nessa fábrica tremente uma coluna surge::
& se erguem num só tempo::o lar::o hóspede::
ele vive depois de si::seu próprio autor&herdeiro::

Interea geminis spatio remorante sub horis
ecce redit facies, saliunt per membra uapores,
stat rubor inde genis, oculos pupilla repingit
rursus et insertus renouat specularia uisus,
uena tumet riuis animato fonte cruoris.
Paulatim adsurgit fabrica titubante columna
erigiturque iacens pariter domus et suus hospes,
ipse iterum post se uiuens, idem auctor et heres.

(trad. guilherme gontijo flores)

Anacreonte

Natural de Téos, Ásia menor, Anacreonte viveu entre os séculos VI e V a.C. Frequentou a corte de Polícrates, em Samos, e, quando este foi assassinado pelos persas em 522, mudou-se para Atenas, onde participou da corte do tirano Hiparco.

Foi bastante popular, tanto em vida quanto depois de sua morte. Máximo de Tiro dizia que até mesmo as crianças o amavam por suas palavras doces e cantos graciosos.

Não se pode dizer, com Ateneu, que ele fez depender toda sua arte literária da intoxicação, mas, sua poesia, em boa parte dizia a respeito ao vinho, aos banquetes e ao amor (Antípater da Sidônia, na Antologia Palatina, o apresenta como um devoto das Musas, Eros e Dioniso).

Apresento aqui algumas traduções minhas de uns fragmentos breves de sua poesia. O primeiro deles, o fr. 505d, aparece citado nos Stromata, 6, 14, 7, de Clemente de Alexandria:

o amor o delicado
brotando com diademas
de muitas flores quero cantar
ele! dos deuses soberano,
ele! que subjuga os mortais.

 

Fr. 396, citado por Ateneu (que Demétrio, em seu Sobre o Estilo, afirma ter um ritmo semelhante ao de um velho embriagado):

traga água, traga vinho, jovem! traga floridas para nós
as coroas, para que eu lute contra o Amor.

 

Fr. 398, que aparece nos escólios a Homero:

os dados do Amor são
a loucura e o tumulto.

 

Fr. 385, preservado em Estobeu:

grisalhas já estão
as temporas e branca a cabeça
e não mais a graciosa juventude
está conosco – velhos estão os dentes,
e não da doce vida
muito tempo resta
por isso choro
sempre o Tártaro temendo
é terrível do Hades
as profundezas, dolorosa até ele
o caminho de descida – e é certo
que o que para lá desce não sobe mais.

Dama recatada, senhora pudica, amada esquiva – Andrew Marvell em tradução

Godfrey Kneller - Andrew MarvellAndrew Marvell (1621 – 1678), ao lado de outros nomes muito bem conhecidos hoje como John Donne, foi um dos chamados “poetas metafísicos”, termo pejorativo cunhado pelo crítico Samuel Johnson para se referir a um grupo de poetas mais ou menos equivalente, cronologicamente (ainda que também em temática em alguns casos, sobretudo em Donne), ao nosso barroco – este também, como se sabe, outro termo a princípio pejorativo. Foi autor de obras satíricas em prosa contra os monarquistas e a Igreja Católica, amigo e aliado de John Milton na luta contra a monarquia na Inglaterra e membro do parlamento inglês antes da Restauração em 1660. À época de sua morte, Marvell era mais conhecido por sua trajetória política do que poética, e a má reputação posterior dos metafísicos não ajudou a sua recepção. Os metafísicos, no entanto, voltaram a ser lidos no começo do século XX, em parte por conta dos esforços de T. S. Eliot, que publica dois ensaios em periódicos em 1921, intitulados “The Metaphysical Poets” e “Andrew Marvell”, artigos presentes depois também em seu volume Selected Essays de 1931. Por volta do final da década também o mapa da literatura inglesa de F. R. Leavis passa a incorporar os metafísicos em seu cânone.

“To His Coy Mistress” é o poema mais célebre de Marvell, e o seu verso de abertura é famosíssimo: “Had we but world enough, and time“, firmemente inserindo esse poema de convite amoroso na tradição do carpe diem. Em suas três estrofes, o eu-lírico argumenta, da forma mais extravagante, sobre a brevidade da vida, de modo a tentar convencer a amada a… bem, a dar para ele (sinto muito pela quebra súbita de estilo na frase aqui, mas no Brasil do século XXI é impossível dizer isso de qualquer outro modo). Ele começa com uma fantasia ou capricho (“fancy” é o termo de Eliot), que ele desenvolve com grande efeito, listando tudo que os dois poderiam fazer se tivessem tantos mais anos (milênios, aliás) de sobra na vida, para que pudessem fazer quaisquer outras coisas que não desfrutar um do corpo do outro, depois prossegue por uma estrofe que corta essas fantasias bruscamente para tratar da realidade da morte. Aqui Eliot o compara com Horácio (“Pallida Mors cequo pulsat pede pauperum tabernas, / Regumque turris…”) e Catulo (“Nobis, cum semel oecidit brevis lux, / Nox est perpetua una dormienda“). A última estrofe faz o pedido, de fato, para que os dois gozem em vida do amor, enquanto ainda é possível. Temos, portanto: fantasia, realidade, convite, nesta ordem.

Porém, o que diferencia o poema de Marvell de tantos outros nessa mesma tradição é o uso de uma ironia finíssima que faz parte da sua wit – esse tipo espirituoso de humor intelectual. Desde o ritmo do poema, calcado em dísticos de tetrâmetros jâmbicos (had we | but world | e nough | and time) em rimas emparelhadas, já me parece difícil não ver algum tipo de sorrisinho malandro despontar no rosto de Marvell quando chega o segundo verso:  “This coyness, Lady, were no crime“. Não é que isso seja obra do metro e da rima em si (outro poema,  “A Dialogue between the Soul and the Body” emprega a mesma forma, com resultados mais solenes), mas esses elementos certamente influenciam, visto que o verso mais comum à época para a poesia séria era o dístico heroico, que consiste em pentâmetros jâmbicos em rima emparelhada, e o único soneto de Shakespeare (possivelmente apócrifo porém), o 145, escrito em tetrâmetros, é de tom leve e quase cômico – para uma análise do metro e efeitos desse poema, talvez este post num blog chamado PoemShape seja útil. Enfim, mas não é só isso. O uso das imagens e das expressões é também dos mais incomuns. É fácil de imaginar qualquer poeta barroco dizendo que começaria a amar a amada antes do Dilúvio até, digamos, o dia do Juízo Final, mas é preciso um poeta particularmente irônico para traçar essa data limite na conversão dos judeus. De modo semelhante, “amor vegetal” é uma escolha bastante estranha, como são também as imagens da última estrofe, das “amorosas aves de rapina” e de enrolar toda a força e doçura do casal numa bola. E há ainda um tom particularmente doméstico no final das duas primeiras estrofes, rebaixando o tom elevado para o tipo de registro de “polite conversation” que muito deve ter agradado o Sr. Eliot – não por acaso, Marvell é uma referência recorrente nele, sobretudo no seu “Prufrock”.

Esses elementos todos poderiam fazer com que “Coy Mistress” fosse um poema cômico, uma paródia do poema amoroso, mas também não parece ser esse o caso. Há momentos sublimes de força lírica, sobretudo no trecho final da primeira estrofe, a partir do verso que começa com “An hundred years”, que é particularmente bonito em sua devoção amorosa, imagens dignas de um Petrarca. Por isso, creio que faz mais sentido enxergá-lo como um poema de fato amoroso, mas com um grau de consciência do discurso (o quase intraduzível self-awareness talvez fosse o termo mais adequado) que lhe permite esses gracejos irônicos que criam uma dissonância latente, muito ao gosto moderno, acredito.

A tradução já publicada de que tenho notícia em português é a de Augusto de Campos, no volume Verso Reverso Controverso (1978). Mas, dada toda a graça desse poeminha, mesmo ciente do risco que é apresentar uma tradução sua ao lado de uma do Augusto, eu simplesmente não pude evitar propor uma tradução própria, ainda que dotada de um projeto diferente. A tradução de Augusto é das mais livres, mais ainda do que costuma ser a sua própria média, se permitindo variar o comprimento dos versos (qualquer coisa entre 5 e 10, até 12 sílabas) e alterando radicalmente o esquema de rimas. Eu propus algo um pouco menos radical (porque, se não posso fazer melhor, posso ao menos tentar algo diferente) e imagino que eu tenha obtido resultados menos bonitos também, tentando manter a unidade dos dísticos em rimas emparelhadas e uma constância no metro. Já fiz alguns experimentos aqui com Blake, Coleridge e Browning em tentar manter o ritmo marcadamente jâmbico em português, mas acredito que, no caso de Marvell, por se tratar de um poema argumentativo, eu não acho que eu conseguiria manter o sentido dentro da concisão extrema que esse rigor todo exige. Assim sendo, a princípio optei por versos de 9 sílabas (uma sílaba a mais, portanto, do que as oito que somam os versos de tetrâmetros jâmbicos), o que, eu bem o sei, é uma opção bastante estranha em português. Depois mostrei os resultados para o Guilherme, que se empolgou (apesar de não ter gostado da minha versão) e fez a versão dele também, em decassílabos.

Na sequência, retornei ao trabalho e fiz mais uma versão, desejando com veemência evitar o ritmo estável decassilábico (nada contra, até porque é bom contar com sílabas a mais para manter o sentido, mas eu prefiriria mesmo manter uma distinção em relação à equivalência pentâmetro-decassílabo) e, tendo em mente a unidade formada pelos dísticos de Marvell, propus uma segunda tradução composta por dísticos em que o primeiro verso é decassilábico, e o segundo, heptassilábico, alternando assim entre 10/7/10/7/10/7 em todo o poema, uma forma que eu tenho certeza que é algo comum entre poetas de língua portuguesa e que permite ainda uma maior proximidade com o número de sílabas do original (cada dístico em inglês conta 16 sílabas, contra as minhas 17 nesse esquema, com o aumento discreto de meia sílaba por verso).  De qualquer forma, compartilho aqui as minhas duas tentativas – imagino que, mesmo que eu fracasse, pelo menos o fracasso pode também servir para alguma reflexão – junto com a tradução do Guilherme e a do Augusto.

Adriano Scandolara

        

To His Coy Mistress

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

(Andrew Marvell)

        

À sua dama recatada

(primeira tentativa)

Fosse-nos o mundo, o tempo, lato,
não fora crime, amor, teu recato;
para nos sentarmos, a supor
planos de nossos dias de amor;
tu, a caçar no Ganges indiano
seus rubis, e eu, em desengano,
a chorar no Humber. Até antes
do Dilúvio seríamos já amantes;
e enjeitarias convites meus
até a conversão dos judeus;
mais que impérios, a crescer vultoso
o amor vegetal, e mais moroso.
Um século para venerar
teus olhos, e a fronte admirar;
outros dois em cada seio arfante
mas trinta mil anos ao restante;
uma era em cada canto e beira,
e teu coração na derradeira.
Pois és digna, dona, desses bens,
e por menos eu não te amo também.

         Mas escuto sempre, agalopado,
chegando, o carro do tempo alado;
e adiante, só podemos ver, decerto,
a vasta eternidade, em deserto.
Teus encantos não mais verei,
nem nos teus mármores entoarei
meu canto ecoante; e o verme há de
roer a bem guardada virgindade,
e em pó tornar esse teu pudor
e em cinzas só todo o meu ardor.
A tumba é um lugar bem reservado,
mas ninguém nela está acompanhado.

         E, então, ora, enquanto se assenta o
viço em teu rosto, feito relento,
e na alma consentes e transpiras
de cada poro rápidas piras,
ora folguemos, com rapidez,
devorando o tempo de uma vez
como fôssemos ave rapace,
e ele, então, lento, nos devorasse.
E embrulhemos todo nosso arroubo
e delicadeza num só globo.
rasgando o gozo em lutas doídas
no férreo portão de nossas vidas.
E, assim, podemos não deter o halo
do sol, mas iremos apressá-lo.

(Andrew Marvell, tradução de Adriano Scandolara)

        

À sua dama recatada

(segunda tentativa)

Se nos sobrasse, dona, mundo e dias,
justo, o teu pudor seria,
p’ra sentarmos, com planos por urdir
dos dias de amor por vir;
tu, com rubis no Ganges indiano,
e eu, chorando o desengano
No Humber. E ansiaria anos antes
do Dilúvio ser-te o amante;
e enjeitarias os convites meus
’té a conversão dos judeus;
cresceria o arbóreo amor, vultoso
mais que impérios, mais moroso.
Cem anos a apreender o teu olhar
e a tua fronte venerar;
duzentos anos, cada seio arfante,
mas trinta mil no restante;
uma era em cada canto, cada beira,
e o ventre na derradeira.
Não és indigna, cara, dessa herdade,
nem por menos quero amar-te.

         Só que ouço como chega, agalopado,
o carro do tempo alado;
e adiante e vasta, só se vê, decerto,
a eternidade, um deserto.
Sei que os encantos teus não mais verei,
nem no mármore entoarei
meu canto em ecos; e eis que o verme há de
espoliar tua virgindade,
e ao pó reduzirá o recato teu,
e em cinza o desejo meu.
O túmulo é um lugar bem reservado,
só não se entra acompanhado.

         E agora, então, enquanto em ti se assenta o
viço ao rosto, qual relento,
e n’alma tu consentes e transpiras
dos poros rápidas piras,
devoremos, então, com rapidez,
todo o tempo de uma vez
qual ave fôssemos, no amor, rapace,
e ele lento, nos tragasse.
E ora embrulhemos todo nosso arroubo
e brandura num só globo.
rasgando o gozo em luta dolorida
nos férreos portões da vida.
E, assim, se não podemos deter o halo
do sol, hemos de apressá-lo.

(Andrew Marvell, tradução de Adriano Scandolara)

        

À sua senhora pudica

Se nós tivéssemos mais tempo e mundo
mal não seria o teu pudor profundo
nós sentaríamos tramando um modo
de caminhar passar um dia todo.
você no ganges indiano iria
achar rubis & eu me lamentaria
na foz do humber. te amaria indúbio
até dez anos antes do dilúvio
tu poderias recusar-me então
até judeus buscarem conversão
meu amor vegetal tem crescimento
mais vasto que os impérios & mais lento.
até que inteiro um século eu passasse
no louvor dos teus olhos tua face
dois séculos no ardor de cada seio
trinta mil anos no mais puro anseio
ia uma era a cada teu trejeito
para na última invadir-te o peito
querida isso é tudo que mereces
nem quero amar-te menos pelas preces.

         mas sempre escuto às costas assombrado
o carro em que se achega o tempo alado
e à nossa frente vejo longe e perto
a vasta eternidade num deserto
tua beleza não se encontrará
nem nos teus mármores ecoará
meu canto & aos vermes vejo devorada
a longa virgindade mais guardada
& a tua honra condenada ao pó
& o meu desejo relegado à mó
a cova é requintado e fino paço
porém ninguém nos vem naquele abraço.

         portanto agora que vigora o viço
na tua pele feito orvalho passadiço,
& n’alma consentida mais transpiras
por cada poro em instantâneas piras
gozemos quanto possa a nossa sina
como amorosas aves de rapina antes
sorver o tempo num segundo
que fenecer em seu poder sem fundo
com a fúria e o fulgor que nos anima
rolemos esta bola morro acima
rasgando os gozos numa dura lida
pelos portões de ferro desta vida
Verdade o sol não pode ser parado
correndo é que ele fica ao nosso lado.

(Andrew Marvell, tradução de Guilherme Gontijo Flores)

        

à amada esquiva

dessem-nos tempo e espaço afora
não fora crime essa esquivez, senhora.
sentar-nos-íamos tranqüilos
a figurar de modos mil os
nossos dias de amor. eu com as águas
do humber choraria minhas mágoas;
tu podias colher rubis à margem
do ganges. que eu me declarasse
dez anos antes do dilúvio! teus
nãos voltar-me-iam a face
até a conversão dos judeus.
meu amor vegetal crescendo vasto,
mais vasto que os impérios, e mais lento,
mil anos para contemplar-te a testa
e os olhos levaria. mais duzentos
para adorar cada peito,
e trinta mil para o resto.
um século para cada parte,
o último para o coração tomar-te.
pois, dama, vales tudo o que ofereço,
nem te amaria por mais baixo preço.
mas ao meu dorso eu ouço o alado
carro do tempo, perto, perto,
e adiante há apenas o deserto
sem fim da eternidade.

tua beleza murchará mais tarde,
teus frios mármores não soarão
com ecos do meu canto: então
os vermes hão de pôr à prova
essa comprida virgindade,
tua fina honra convertendo em pó,
e em cinzas meu desejo. a cova
é ótimo e íntimo recanto. só
que aos amantes não serve de alcova.
agora, enquanto pousa a cor
da juventude em ti como na flor
o orvalho, enquanto por
todo poro teu a alma transpira
com urgentes fogos,
entreguemo-nos aos jogos
do amor e, amantes aves de rapina,
antes de um golpe devoremos nosso tempo
que enlagueçamos em seu lento
queixo. enrolemos nosso alento
e suavidade numa só esfera.
e rasguemos prazeres como feras
pelos portões férreos da vida.
assim, se não sustamos nosso sol,
ao menos o incitamos à corrida.

(Andrew Marvell, tradução de Augusto de Campos)

Emily Dickinson e suas traduções – Parte III

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[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (a tradução de Ivo Bender), parte IV (sobre a tradução de Augusto de Campos)]

E o trabalho continua.

Hoje voltaremos nossas atenções para a edição de Isa Mara Lando, Loucas Noites / Wild Nights. Para esta postagem, eu gostaria de agradecer à Amanda Zampieri, que me fez o gesto amabilíssimo (sim, o trocadilho aqui é intencional) de me enviar o seu próprio exemplar de presente, para a biblioteca do escamandro. Obrigado, Amanda!

Uma edição bancada pela própria tradutora, o Loucas Noites (2009) é um volume dos mais difíceis de se achar – não consta nenhum exemplar, por exemplo, na Estante Virtual, e o projeto da UNESP não o contabiliza em sua bibliografia – , mas, como nos diz o seu prefácio, ele é, na verdade, uma revisitação de um livro um pouco mais velho de Lando, Fifty Poems / Cinqüenta Poemas (Imago / Alumni, 1999, este ainda disponível na Estante Virtual). A diferença entre ele e a sua encarnação anterior é a substituição de alguns poemas selecionados (há 15 deles em Cinquenta Poemas que não se encontram em Loucas Noites, que totaliza 48 poemas, e, pela lógica, há de ter substituído esses 15 poemas por outros 13) e o acréscimo de uma seção no final em que Lando expõe e argumenta, brevemente, sobre como cada poema foi traduzido, justificando suas escolhas e muitas vezes expondo suas dificuldades com a tradução. Ainda que seja provável que o leitor médio não vá se beneficiar muito dessa discussão, para o leitor com domínio parcial do idioma (do tipo que entende alguma coisa, mas se sente inseguro para leitura de literatura) ou para os tradutores de poesia iniciantes (que têm muito o que aprender vendo os pormenores da atividade), esse tipo de exposição é inestimável – o que faz com que a raridade do volume seja realmente uma pena. No final, sob a seção intitulada faixa-bônus, Lando faz ainda algumas brincadeiras mais livres sobre a poesia de Dickinson, inclusive transformando o “As if the sea should part” num fado, não resistindo ao apelo notavelmente português da temática e tratamento do poema, um apelo que Augusto de Campos também nota, como veremos na próxima postagem (cenas do próximo capítulo).

A seleção feita por Lando consiste nos seguintes poemas, em ordem alfabética: “A little Madness in the Spring”, “A sepal, petal, and a thorn”, “Answer July –” , “As if the Sea should part”, “Beauty – Be not caused – It Is”, “Bee! I’m expecting you!”, “Take all chances from me”, “By Chivalries as tiny”, “‘Faith’ is a fine invention”, “Fame is a bee”, “‘Hope’ is a thing with feathers – “, “How slow the Wind”, “I died for Beauty”, “I fear a Man of frugal Speech – “, “I had been hungry, all the Years”, “I held a Jewel in my fingers”, “I many times thought Peace had come”, “I never hear the word ‘escape’”,  “I’m Nobody! Who are you?”, “I’ve seen a Dying Eye”, “If I can stop one Heart from breaking”, “If I shouldn’t be alive”, “It’s all I have to bring today”, “It’s such a little thing to weep – “, “Look back on Time, with kindly eyes”, “Love – thou art high”, “Much Madness is divinest Sense”, “My friend must be a Bird, “My River runs to thee”, “On this wondrous sea”, “Our lives are Swiss”, “Papa above!”, “Pass to they Rendezvous of Light”, “Success is counted sweetest”, “Surgeons must be very careful”, “That such have died enable Us”, “The Bee is not afraid of me”, “The Dying need but little, Dear”, “The Heart asks Pleasure – first -”, “The name – of it – is ‘Autumn’”, “The words the happy say”, “This is my letter to the World”, “To make a praire it takes a clover and a bee”, “Too scanty ’twas to die for you”, “What Inn is this”, “Whether my Bark went down at Sea”, “Wild Nights! – Wild Nights -”. Os poemas inclusos em Cinquenta Poemas que não constam aqui, a julgar pela listagem do projeto da UNESP, são “Over the fence –”, “I reason, Earth is short –”, “Of Course – I prayed –”, “They dropped like Flakes –”, “I took my Power in my Hand –”, “To fill a Gap”, “Afraid! Of whom am I afraid?”, “I asked no other thing –”, “Publication – is the Auction”, “Alter! When the Hills do –”, “Presentiment – is that long Shadow…”, “How still the Bells in Steeples stand”, “The Pedigree of Honey”, “Lightly stepped a yellow Star”, “Nature rarer uses Yellow”.

Emily_Dickinson_'Wild_nights'_manuscript

Manuscrito do poema “Wild Nights”

Se arrisco dizer algo, ainda que algo extremamente vago, sobre a seleção feita aqui, é que ela parece ter como foco a delicadeza de Dickinson, os poemas sobre coisas miúdas, as abelhas (muitos poemas sobre abelhas), as flores, as moscas, os passarinhos, duendes, tudo que habita o jardim – e lembremos, Dickinson tinha uma verdadeira paixão pela botânica e dedicação ao seu herbário, que parece ter sido a principal faceta que Lando quis nos apresentar. Além disso, estão inclusos também alguns poemas amorosos e clássicos dickinsonianos como “I died for Beauty”, “Success is counted sweetest”,  “I’m Nobody! Who are you?” e “This is my letter to the World”.

Quanto à tradução em si, o projeto de Lando é bastante diferente do de Bender, que vimos na postagem anterior. Bender tinha como seu principal enfoque a semântica dos poemas, evitando dispensar o conteúdo informativo (eu enfatizo aqui o informativo em vez de usar só o termo “conteúdo” de forma genérica, porque acredito piamente que o o conteúdo, de fato, como um todo, é a soma do sentido com a forma). Já Lando demonstra uma grande preocupação com os aspectos formais, chegando às vezes muito perto, inclusive, das soluções de Augusto de Campos, no caso de um poema como “I’m Nobody!”. Ainda que nem sempre consiga manter um número de sílabas por verso tão próximo ao original, há, via de regra, um maior cuidado com a métrica, evitando-se, sempre que possível os versos excessivamente longos. Não é o mesmo rigor formal absoluto que veremos em breve na tradução de Augusto, mas fica evidente que Lando tem um ouvido bastante atento aos elementos que compõem os poemas, e, por isso, ao que tudo indica, ela me parece mais feliz, no resultado geral, do que o que vimos com a tradução de enfoque mais puramente semântico. Eu arriscaria dizer que a postura de Lando é algo como um meio de caminho, talvez, entre esse enfoque e a abordagem do maior rigor formal.

Uma última coisa que eu gostaria de comentar aqui é o repertório de recursos de que Lando se vale ao longo do livro. Quando traduzimos poemas individualmente, imagino que a tendência geral (e não só mau hábito meu, espero) seja determinarmos de forma ad hoc quais são as técnicas válidas para a tradução, já que elas serão aplicadas apenas naquele poema em específico. No entanto, quando temos diante de nós um projeto maior, como um livro de 40 e poucos poemas, é importante deixar essas coisas claras já de antemão (para se fazer uma comparação, meio besta talvez, é como se isso fosse a organização de uma caixa de ferramentas ou os instrumentos cirúrgicos de um médico antes da operação) de forma a garantir um efeito de continuidade e coesão ao longo do volume, sem o qual corre-se o risco de passar uma impressão de relaxo ou de arbitrariedade, tipo “traduzi assim porque eu quis” ou “ah, comecei traduzindo com mais rigor, depois deu preguiça”. E assim, observando quais métodos fazem parte da caixa de ferramentas de cada tradução,  é mais ou menos esse o mapa que desejo esboçar aqui com esse ciclo de postagens, ainda que eu não possa no momento dar a esse trabalho a profundidade que ele merece.

Pensando nisso, então, há pelo menos dois métodos dignos de nota aqui empregados por Lando: o primeiro é que, conforme necessário, ela se permite alterar o esquema de rimas. Se o ballad meter de Dickinson emprega o esquema x-a-x-a (menciono o ballad meter de Dickinson aqui em específico, porque no de alguns outros poetas, como Wordsworth, pode-se ver rimas em todos os versos, em esquema a-b-a-b, o que é um pouco mais difícil de traduzir de forma satisfatória), Lando acha apropriado, por exemplo, em “I’m Nobody!”, trocar o esquema de rimas para x-x-a-a, o que não é nenhum grande deslocamento, como podemos ver, e funciona muito bem. O outro recurso de que ela se vale é a não obrigatoriedade de certos poemas em tradução terem o mesmo número de versos que os originais – o que é super comum na tradução de poemas longos em verso branco, como o Paraíso Perdido, mas representa um procedimento um pouco mais arriscado em poemas líricos menores. Assim, quando a tensão entre a semântica e a concisão exige um maior desdobramento, ela se permite tomar um verso e fazer dele dois, como uma solução para evitar, ao mesmo tempo, quebrar o metro, tanto quanto dispensar informação semântica – e é claro que nesses casos ela também se vale do outro recurso de alterar o esquema de rimas, de forma a poder manter uma estrutura no poema que seja sustentável. O “A little Madness in the Spring” é exemplar disso:

A little Madness in the Spring
Is wholesome even for the King,
But God be with the Clown,
Who ponders this tremendous scene—
This whole experiment of green,
As if it were his own!

Do qual ela faz:

Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte —
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz, “Os Verdes são todos meus!”

No original, que consiste de duas repetições de um tipo de variação do ballad meter com dois versos em tetrâmetro seguido por um de trímetro, temos um esquema de rimas a-a-b-c-c-b, sendo que as rimas em -own são imperfeitas. A partir disso, Lando desdobrou cada metade da estrofe de 3 para 4 versos, com todos eles, exceto o último, em redondilhas maiores, num esquema de rimas a-b-b-a-c-d-d-c, repetindo a imperfeição das rimas na primeira metade. É um modo engenhoso de traduzir o poema, e o resultado me parece funcional, recuperando esse tom popularesco – quase ingênuo – que reveste enganosamente a poesia de Dickinson.

Com isto em mente, eu compartilho com vocês alguns dos poemas traduzidos por Isa Mara Lando neste belo voluminho, para que possam observar em ação o que comentei sobre a tradução dela e também para nutrir alguma esperança de que esse trabalho seja continuado e que talvez possamos ver futuramente uma reedição mais disponível.

(Adriano Scandolara)

 

Abelha! Espero por ti!
Ontem mesmo eu ia falando
Para Alguém que tu conheces
Que logo estarás chegando —

Semana passada voltaram as Rãs —
Estão bem instaladas, no seu afã —
As Aves, todas aqui novamente —
O Trevo, espesso e quente —

Receberás minha Carta lá pelo
Dezessete; Responde,
Ou melhor, vem ter comigo, urgente —
Tua Amiga Mosca,
Cordialmente.

 

Bee! I’m expecting you!
Was saying Yesterday
To Somebody you know
That you were due—

The Frogs got Home last Week—
Are settled, and at work—
Birds, mostly back—
The Clover warm and thick—

You’ll get my Letter by
The seventeenth; Reply
Or better, be with me—
Yours, Fly.

*

 

Morri pela Beleza — mas mal estava
Em meu túmulo deitada
Alguém, que pela Verdade morreu, foi colocado
Na Câmara logo ao lado —

Perguntou-me, suave, por que eu caí
“Pela Beleza”, respondi —
“E eu — pela Verdade — Uma só as duas são —
Tu e eu somos Irmãos” —

E assim fraternalmente nos encontrávamos —
E à Noite entre as Câmaras conversávamos —
Até que o Musgo nossos lábios alcançou —
E os nossos nomes — apagou —

 

I died for beauty, but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.

He questioned softly why I failed?
“For beauty,” I replied.
“And I for truth – the two are one;
We brethren are,” he said.

And so, as kinsmen met a-night,
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names.

*

 

Com uma Jóia guardada em meus dedos —
Deitei-me e fui dormir —
O dia era quente, os ventos sem segredos —
Pensei: “Vai resistir” —

Despertei — e meus dedos honestos censurei
Onde a Jóia? — Foi-se embora —
E uma lembrança Ametista
É tudo que tenho agora —

 

I held a Jewel in my fingers —
And went to sleep —
The day was warm, and winds were prosy —
I said: “’Twill keep.” —

I woke — and chid my honest fingers,
The Gem was gone; —
And now, an Amethyst remembrance
Is all I own —

*

 

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Tu és — Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não contes! — Tu sabes — vão falar!

Que tédio — ser — Alguém!
Tão público — um Sapo a coaxar —
A repetir seu nome — o mês de Junho todo —
Para as palmas do Lodo!

 

I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?
Then there’s a pair of us
Don’t tell! They’d advertise — you know!

How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June —
To an admiring Bog!

 

*

 

Loucas Noites — Loucas Noites —!
Estivesse eu contigo
Loucas Noites seriam
O nosso luxo, nosso abrigo!

Fúteis — os Ventos —
Para um Coração no porto —
Adeus Bússola —
Adeus Carta de marear —!

Remando no Éden —
Ah, o Mar!
Ah, se eu pudesse —
Esta Noite —
Em Ti – ancorar!

 

Wild nights — Wild nights —!
Were I with thee
Wild nights — should be
Our luxury!

Futile — the Winds —
To a Heart in port —
Done with the Compass —
Done with the Chart —!

Rowing in Eden —
Ah, the Sea!
Might I but moor —
Tonight —
In Thee!

(poemas de Emily Dickinson, tradução de Isa Mara Lando)

bob kaufman (1925-1986)

bob kaufman nos anos 80.

bob kaufman nos anos 80.

bob kaufman é um dos menos conhecidos dos beats americanos. por isso estou preparando algumas traduções para a r.nott magazine, revista em editada por — dentre outros — nosso ex-parceiro vinicius barth, um espaço bacaníssimo de que tenho participado como colunista de literatura. como digo algumas coisas por lá, não pretendo me alongar aqui.

o principal é saber que esse homem, que, ao longo dos seus 60 anos de vida, produziu inúmeros poemas orais pelos bares de são francisco, teve apenas 7 livros publicados, 1 póstumo: Abomunist Manifesto (958), Second April (1958), Does the Secret Mind Whisper? (1959), Solitudes Crowded with Loneliness (1965), Golden Sardine (1967), The Ancient Rain: Poems 1956–1978 (1981) & Cranial Guitar: Selected Poems by Bob Kaufman (póstumo, 1996); quase todos saíram pela editora city lights, capitaneada pelo poeta-valente lawrence ferlinghetti.

a poesia de bob kaufman é uma mistura dos movimentos catapultados pelos beats, somada a uma experimentação constante com o surrealismo, a improvisação de fonte jazzística (bebop), o budismo & a cultura negra. o resultado é um dos mais radicais &, ao mesmo tempo, dos mais impactantes. em resumo, a gente tem muito a aprender com essa figura.

escolhi o poema all those ships that never sailed pela sua delicadeza prenhe de simbolismo. mas também pelo contexto: reza a lenda que kaufman teria feito um voto budista de silêncio após a morte de jfk, em 1963, um voto que se alongou por 10 anos até 1973, quando os americanos começaram a sair do território vietnamita. a quebra de tanto silêncio teria se dado por este poema.

guilherme gontijo flores

* * *

All those ships that never sailed
The ones with their seacocks open
That were scuttled in their stalls…
Today I bring them back
Huge and transitory
And let them sail
Forever.

All those flowers that you never grew-
that you wanted to grow
The ones that were plowed under
ground in the mud-
Today I bring them back
And let you grow them
Forever.

All those wars and truces
Dancing down these years-
All in three flag swept days
Rejected meaning of God-

My body once covered with beauty
Is now a museum of betrayal.
This part remembered because of that one’s touch
This part remembered for that one’s kiss-
Today I bring it back
And let you live forever.

I breath a breathless I love you
And move you
Forever.

Remove the snake from Moses’ arm…
And someday the Jewish queen will dance
Down the street with the dogs
And make every Jew
Her lover.

Todas as naus que não singraram
Aquelas com válvulas abertas
Que foram naufragadas nas baias…
Hoje as trago de volta
Imensas, transitórias
Pra singrarem
Pra sempre.

Todas as flores que você não cultivou—
Que queria cultivar
Aquelas aradas sob
O solo na lama—
Hoje as trago de volta
Pra você cultivá-las
Pra sempre.

Todas as guerras e pazes
Dançando sobre os anos—
Em dias varridos de três bandeiras
Sentido renegado de Deus—

Meu corpo antes coberto de beleza
Agora é um museu de traição.
Esta parte lembrada graças ao toque de alguém
Esta parte lembrada pelo beijo de alguém
Hoje a trago de volta
Pra você viver pra sempre.

Respiro um irrespirável eu te amo
E te mexo
Pra sempre.

Tire a serpente do braço de Moisés
E um dia a rainha judia vai dançar
Rua abaixo junto aos cães
E fazer de todo judeu
Seu amante.

(poema de bob kaufman, trad. de guilherme gontijo flores)

Hans Magnus Enzensberger (1929)

hans-magnus

Hans Magnus Enzensberger é um poeta, ensaísta e tradutor alemão nascido em 1929 e considerado por muitos o maior poeta vivo da língua. Criou-se em Nuremberg, a terra natal do nazismo, e passou pela guerra entre 44 e 45, tendo sido convocado, inclusive, pela Juventude Hitlerista, da qual foi expulso não muito tempo depois. Tinha 15 anos quando a Segunda Guerra acabou e 28 quando lançou seu primeiro livro de poemas, Verteidigung der Wölfe (Defesa do Lobo, 1957), que lhe rendeu, pelo seu forte tom de revolta política, o apelido de “jovem irado” e que continuou e continua firme em sua produção até hoje – ainda que o tom colérico tenha aos poucos  dado espaço a uma ironia e um senso de humor (negro) mais refinado.

Talvez a sua maior obra poética — ou pelo menos seu projeto mais ambicioso — seja Der Untergang der Titanic (O Naufrágio do Titanic, 1978), um longo poema épico-lírico (e com o subtítulo de “uma comédia” ainda por cima) que enxerga nessa catástrofe, que lhe dá seu título e que põe em xeque toda uma crença progressivista no avanço tecnológico, uma imagem para o fracasso da empreitada utópica ocidental como um todo, ao mesmo tempo em que, como comenta o crítico Alasdair King (em seu livro Hans Magnus Enzensberger: Writing, Media, Democracy), Enzensberger “sugere estratégias positivas para combater o barbarismo, a desilusão e a repressão, na vida ordinária e nos prazeres dos atos criativos”.

Além de uma boa parte de sua obra em prosa já ter sido traduzida, temos em português, até onde sei, dois volumes de poemas de Enzensberger. Um é O Naufrágio do Titanic, uma tradução integral (mas não bilíngue), realizada por José Marcos Mariani de Macedo, dos 33 cantos que compõem o Der Untergang (Companhia das Letras, 2000). E o outro, Eu falo dos que não falam, traduzido por Armindo Trevisan e Kurt Scharf (Brasiliense e Instituto Goethe, 1985), consiste numa antologia bilíngue mais ampla, contendo poemas dos livros Verteidigung der Wölfe , Landessprache, Blindenschrift, Gedichte 1955-1970: Davor, Gedichte 1955-1970: Danach, trechos do Der Untergang, e Die Furie des Verschwindens.

Eu já citei um trecho do Naufrágio do Titanic num post anterior aqui do escamandro sobre relações entre poesia, ideologia, poder e linguagem (clique aqui), mas é agora, dada a ocasião nada comemorativa dos 50 anos do Golpe, que os versos ácidos de Enzensberger – tanto os dos poemas mais antológicos como “Defesa dos lobos” quanto os dos pouco menos conhecidos, mas ainda assim pungentíssimos em nosso contexto, como “Os desaparecidos” – mais ganham impacto e se fazem necessários. As traduções abaixo foram retiradas dos dois volumes, Eu falo dos que não falam e O Naufrágio do Titanic, respectivamente.

PS: para mais traduções de Enzensberger, vide as seguintes postagens no blog da Modo de Usar & Co. e no blog pessoal do Ricardo Domeneck, clicando aqui, aqui e aqui.

(Adriano Scandolara)

 

Para o livro de literatura de segundo grau

Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

 

Ins Lesebuch für die Oberstufe

lies keine oden, mein sohn, lies die fahrpläne:
sie sind genauer, roll die Seekarten auf,
eh es zu spät ist. sei wachsam, sing nicht.
der tag kommt, wo sie wieder listen ans tor
schlagen und malen den neinsagern auf die brust
zinken, lern unerkannt gehn, lern mehr als ich:
das viertel vechseln, den paß, das gesicht.
versteh dich auf den kleinen verrat,
die tägliche schmutzige rettung. nützlich
sind die enzykliken zum feueranzünden,
die manifeste: butter einzuwickeln und salz
für die wehrlosen, wut und geduld sind nötig,
in die lungen der macht zu blasen
den feinen tödlichen staub, gemahlen
von denen, die viel gelernt haben,
die genau sind, von dir.

 

Defesa dos lobos contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?
O que exigem do chacal,
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
por que olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue
nas calças do general? Quem
trincha, diante do agiota, o capão?
Quem pendura orgulhoso, a cruz de lata
sobre o umbigo que ronca de fome? Quem
aceita a propina, a moeda de prata,
o centavo para calar-se? Há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
os aplaude, quem
lhes põe insígnias no peito, quem
é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade,
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre os lobos:
andam em alcatéias.

Louvados sejam os salteadores: vocês
convidam para o estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.

 

Verteidigung der Wölfe gegen die Lämmer

soll der geier vergissmeinicht fressen?
was verlangt ihr vom schakal,
dass er sich häute, vom wolf? soll
er sich selber ziehen die zähne?
was gefällt euch nicht
an politruks und an päpsten,
was guckt ihr blöd aus der wäsche
auf den verlogenen bildschirm?
wer näht denn dem general
den blutstreif an seine hose? wer
zerlegt vor dem wucherer den kapaun?
wer hängt sich stolz das blechkreuz
vor den knurrenden nabel? wer
nimmt das trinkgeld, den silberling,
den schweigepfennig? es gibt
viel bestohlene, wenig diebe; wer
applaudiert ihnen denn, wer
steckt die abzeichen an, wer
lechzt nach der lüge?

seht in den spiegel: feig,
scheuend die mühsal der wahrheit,
dem lernen abgeneigt, das denken
überantwortend den wölfen,
der nasenring euer teuerster schmuck,
keine täuschung zu dumm, kein trost
zu billig, jede erpressung
ist für euch noch zu milde.

ihr lämmer, schwestern sind,
mit euch verglichen, die krähen:
ihr blendet einer den anderen.
brüderlichkeit herrscht
unter den wölfen:
sie gehen in rudeln.

gelobt sein die räuber: ihr,
einladend zur vergewaltigung,
werft euch aufs faule bett
des gehorsams. winselnd noch
lügt ihr, zerrissen
wollt ihr werden. ihr
ändert die welt nicht.

 

Os Desaparecidos

Não foi a terra que os engoliu. Foi o ar?
Tão numerosos como a areia, mas não se tornaram
areia, e sim nada. Em massa
Foram esquecidos. Muitas vezes, de mãos dadas,

como os minutos. Mais do que nós,
porém sem memória. Não registrados,
não decifráveis no pó, mas desaparecidos
seus nomes, colheres e solas.

Não nos fazem arrepender. Ninguém
os lembra: nasceram,
fugiram, morreram? Saudade deles
não se sente. Sem vazios
é o mundo, porém seguro
pelos que não moram nele,
os desaparecidos. Eles estão em todas as partes.

Sem os ausentes não haveria nada.
Sem os fugitivos nada seria firme.
Sem os esquecidos nada seria certo.

Os desaparecidos são justos.
Assim também se vão nossos búzios

 

Die Verschwundenen

Nicht die Erde hat sie verschluckt. War es die Luft?
Wie der Sand sind sie zahireich, doch nicht zu Sand
sind sie geworden, sondern zu nichte. In Scharen
sind sie vergessen. Häufig und Hand in Hand,

wie die Minuten. Mehr als wir,
doch ohne Andenken. Nicht verzeichnet,
nicht abzulesen im Staub, sondern verschwunden
sind ihre Namen, Löffel und Sohlen.

Sie reuen uns nicht. Es kann sich niemand
auf sie besinnen: Sind sie geboren,
geflohen, gestorben? Vermißt
sind sie nicht worden. Lückenlos
ist die Welt, doch zusammengehalten
von dem was sie nicht behaust,
von den Verschwundenen. Sie sind überall.

Ohne die Abwesenden wäre nichts da.
Ohne die Flüchtigen wäre nichts fest.
Ohne die Vergessenen nichts gewiß.

Die Verschwundenen sind gerecht.
So verschallen wir auch.

 

Breve História da Burguesia

Este foi o momento, quando nós,
sem os apercebermos, durante cinco minutos
estávamos imensamente ricos, generosamente
refrigerados com a eletricidade no verão,
ou caso fosse o inverno,
a lenha, trazida de longe via aérea, ardia
em lareiras estilo renascentista. Curioso:
havia tudo, vindo por avião,
de certa maneira automaticamente. Elegantes
éramos, ninguém nos aturava.
Jogávamos pelas janelas concertos de solistas,
chips, orquídeas, embrulhadas em celofante. Nuvens
que diziam “Eu”. Únicos!

Íamos a todas as partes em vôos de carreira. Mesmo os nossos suspiros
eram pagos com cartões de crédito. Xingávamos
como gralhas, todos ao mesmo tempo. Cada um
guardava a sua própria desgraça debaixo do assento,
à mão. Que pena!
Era tão prático. A água
corria à toa das torneiras.
Lembram-se? Simplesmente atordoados
por nossos sentimentos minúsculos
comíamos pouco. Se soubéssemos
que tudo passaria
em cinco minutos, teríamos saboreado
bem mais, muito mais, o roast-beef Wellington.

 

Kurze Geschichte der Bourgeoisie

Dies war der Augenblick, da wir,
ohne es zu bemerken, fünf Minuten lang
unermeßlich reich waren, großzügig
und elektrisch, gekühlt im Juli,
oder für den Fall daß es November war,
loderte das eingeflogene finnische Holz
in den Renaissancekaminen. Komisch,
alles war da, flog sich ein,
gewissermaßen von selber. Elegant
waren wir, niemand konnte uns leiden.
Wir warfen um uns mit Solokonzerten,
Chips, Orchideen in Cellophan. Wolken,
die Ich sagten. Einmalig!

Überallhin Linienflüge. Selbst unsre Seufzer
gingen auf Scheckkarte. Wie die Rohrspatzen
schimpften wir durcheinander. Jedermann
hatte sein eigenes Unglück unter dem Sitz,
griffbereit. Eigentlich schade drum.
Es war so praktisch. Das Wasser
floß aus den Wasserhähnen wie nichts.
Wißt ihr noch? Einfach betäubt
von unsern winzigen Gefühlen
aßen wir wenig. Hätten wir nur geahnt,
daß das alles vorbei sein würde
in fünf Minuten, das Roastbeef Wellington
hätte uns anders, ganz anders geschmeckt.

(Hans Magnus Enzensberger, traduções de Armindo Trevisan & Kurt Scharf)

 

O Naufrágio do Titanic

 

Canto quinto

Roubem o que lhes roubaram,
tomem finalmente o que lhes pertence, ele gritou,
tremendo de frio em seu casaco pequeno demais,
os cabelos ondeando ao vento, sob os gavietes,
estou com vocês, ele gritou,
o que estão esperando? Chegou
a hora, botem abaixo os tabiques,
atirem os canalhas ao mar
junto com suas malas, cães e lacaios,
as mulheres inclusive e até as crianças,
com violência, com facas, com mãos nuas!
E mostrou-lhes a faca,
mostrou-lhes a mão nua.

Mas a gente da terceira classe,
todos eles imigrantes, permanecia quieta
na escuridão e tirava calmamente
suas boinas da cabeça e o escutava.

Quando é afinal que vocês querem
se vingar, se não for agora?
Ou será que não suportam ver sangue,
além daquele dos seus filhos e do seu próprio?
E ele esfolou seu rosto
e cortou sua mão
e mostrou-lhes o sangue.

Mas a gente da terceira classe
Escutava-o sem abrir a boca.
Não porque ele não falasse lituano
(ele não falava lituano);
não porque estivessem bêbados
(tinham havia muito esvaziado
suas garrafas avelhantadas,
envoltas em panos grosseiros),
não porque tivessem fome
(se bem que fome eles tinham):

Não era nada disso. Não
era tão fácil explicar.
Eles bem que entendiam o que ele dizia,
mas não o compreendiam.
Suas palavras não eram as palavras deles.
Eram consumidos por outros medos
que não os dele, e por outras esperanças.
Deixavam-se ficar, pacientes,
com seus alforjes, seus rosários,
seus filhos raquíticos
junto aos tabiques; abriam espaço,
escutavam-no, respeitosos,
e aguardavam o momento de afogar-se.

 

Canto décimo sexto

O naufrágio do Titanic é atestado por documentos.
Ele é coisa de poetas.
Ele garante uma elevada dedução fiscal.
Ele é mais uma confirmação das teses de Vladímir Ílitch Lênin.
Ele vai ao ar domingo à noite, logo após o programa de esportes.
Ele é impagável.
Ele é inevitável.
Ele é melhor do que nada.
Ele folga na segunda-feira.
Ele é ecológico.
Ele abre caminho para um futuro melhor.
Ele é arte.
Ele gera empregos.
Ele aos poucos nos dá nos nervos.
Ele é protegido por lei.
Ele tem respaldo das massas.
Ele vem a calhar.
Ele funciona.
Ele é um espetáculo de beleza empolgante.
Ele devia dar o que pensar aos responsáveis.
Ele também não é mais o que costumava ser.

(Hans Magnus Enzensberger, tradução de José Marcos Mariani de Macedo)

lançamento em curitiba – escamandro #01

escamandro-1-capa

é com muita alegria que nós, os 4 coeditores do escamandro, convidamos a todos que estiverem em curitiba esta semana para participarem do lançamento em terra natal da primeira edição impressa de nossa revista-livro.

o lançamento será na sexta-feira (dia 4 de abril, o mês mais cruel), a partir das 19h nos círculos infernais do bar do dante (rua conselheiro carrão, esquina com alberto bolliger, 194, alto da xv).

nossa revista-livro, em capa dura, estará disponível por R$35,00 (por favor, levem em dinheiro ou cheque, de preferência com fundos).

clique aqui p/ mais informações sobre a revista (autores, isbn e tudo o mais)

clique aqui p/ postagens no blogue de poetas presentes nesta edição

clique aqui p/ o evento no facebook.

“parturition”, de mina loy

nós já tivemos um post da mina loy, na tradução de felipe paradizzo.

mas eu não paro de voltar a ela.

dessa vez, porque eu amo muito uma mulher que é a mãe da minha filha,

agora grávida de um menino.

é nesse amor por uma, por duas & por três que traduzi “parturition”.

um poema sobre parto, mas mais que isso — um poema-parto.

quem já viu uma mulher no processo sabe o transe & a transa toda.

no mais, a mina.

guilherme gontijo flores

* * *

Parto

Sou o centro
De um círculo de dor
Que excede seus limites em toda direção
O negócio do sol brando
Não tem nada comigo
Em meu congestionado cosmo de agonia
Que não tem saída
Em vibrações nervosas infinitamente prolongadas
Ou na contração
Até o ponto milimétrico do ser
Está uma irritação …….estranha
Ela é ……………………entranha
………………………….Entranha
Ela é estranha.
A área sensível
É idêntica à ……………extensidade
Da intensão

Sou a falsa quantidade
Na harmonia da fisiológica potencialidade
Com a qual
Por ganhar autocontrole
Eu deveria concordar
Em tempo

A dor não é mais forte do que a contraforça
A dor convoca em mim
A luta se iguala

A janela aberta está plena duma voz
Um pintor retratista da moda
Correndo escada acima do ap de uma mulher
Canta
……“As garotas ‘tão no ponto
……As garotas boazinhas
……Podem usar cachinhos
……Ou —”
Atrás dos pensamentos aos quais permito cristalização
A concepção …………………..Bruta
Por quê?
A irresponsabilidade do macho
Deixa à mulher sua Inferioridade superior
Ele corre escada acima

Escalo um monte distorcido de agonia
Incidentalmente na exaustão do controle
Alcanço o pico
E aos poucos amaino na antecipação do
Repouso
Que nunca chega.
Pois cresce um outro monte
Que instigada pelo inevitável
Eu devo atravessar
Me atravessando

Algo no delírio das horas noturnas
Confunde enquanto intensifica a sensibilidade
E borra os contornos espaciais
Pra acrescentar o ardil do circunscrito
Que o murmúrio de uma fera crucifixa
Vem de tão longe
E a espuma nos músculos tesos da boca
E nenhures de mim
Há um clímax na sensibilidade
Quando a dor que se supera
Se torna Exótica
E o ego pode unificar os polos positivo e negativo da sensação
Unindo forças opositoras, resistentes
Numa revelação lasciva

Relaxamento
Negação de mim como unidade
Interlúdio vácuo
Eu devia estar vazia de vida
Dando vida
Pois a consciência em crise ………….corre
Por depósitos subliminares de processos evolutivos
Será que eu não
Escrutinizei
Nalgum lugar
Uma mariposa morta de asa branca
Botando ovos?
Um momento
Sendo realização
Pode
Vitalizado pela iniciação cósmica
Ceder uma desculpa adequada
Pra aglomeração
Objetiva das atividades
Duma vida.
VIDA
Um salto com a natureza
Até a essência
Da imprevista Maternidade
Contra minha coxa
Toque de moção infinitesimal
Ondulação
Quase imperceptível
Calor …………….umidade
Mexida de vida incipiente
Que precipita em mim
O conteúdo do universo
Mãe sou
Idêntica
À Maternidade infinita
……Indivisível
……Agudamente
……Absorvida
……No
Era—é—sempre—será
Da reprodutividade cósmica

Surge do inconsciente
A impressão duma gata
Com filhotes cegos
Entre as patas
A mesma mexida ondulante na vida
Eu sou a gata

Surge do in-consciente
A impressão de pequenas carcaças
Cobertas por garrafas azuis
— Epicurista —
E por entre insetos
Ondeia a mesma ondulação da viva
Morte
Vida
Eu sei
Tudo sobre
……………Desdobrar-se

Na manhã seguinte
Cada mulher-do-povo
pé ante pé na pilha rubra do tapete
No seu serviço silencioso
Cada mulher-do-povo
Usando uma auréola
Uma absurda aureolinha
Que ela sublimemente ………nem nota

Um dia ouvi na igreja
— O homem e a mulher Deus os fez —
…………………………Graças a Deus.

(trad. guilherme gontijo flores)

* * *

Parturition

I am the centre
Of a circle of pain
Exceeding its boundaries in every direction
The business of the bland sun
Has no affair with me
In my congested cosmos of agony
From which there is no escape
On infinitely prolonged nerve-vibrations
Or in contraction
To the pinpoint nucleus of being
Locate an irritation ……..without
It is ………………………within
……………………….. …Within
It is without.
The sensitized area
Is identical with the ……..extensity
Of intension

I am the false quantity
In the harmony of physiological potentiality
To which
Gaining self-control
I should be consonant
In time

Pain is no stronger than the resisting force
Pain calls up in me
The struggle is equal

The open window is full of a voice
A fashionable portrait painter
Running upstairs to a woman’s apartment
Sings
…..“All the girls are tid’ly did’ly
…..All the girls are nice
…..Whether they wear their hair in curls
…..Or —”
At the back of the thoughts to which I permit crystallization
The conception              Brute
Why?
The irresponsibility of the male
Leaves woman her superior Inferiority.
He is running upstairs

I am climbing a distorted mountain of agony
Incidentally with the exhaustion of control
I reach the summit
And gradually subside into anticipation of
Repose
Which never comes.
For another mountain is growing up
Which goaded by the unavoidable
I must traverse
Traversing myself

Something in the delirium of night hours
Confuses while intensifying sensibility
Blurring spatial contours
So aiding elusion of the circumscribed
That the gurgling of a crucified wild beast
Comes from so far away
And the foam on the stretched muscles of a mouth
Is no part of myself
There is a climax in sensibility
When pain surpassing itself
Becomes Exotic
And the ego succeeds in unifying the positive and negative poles of sensation
Uniting the opposing and resisting forces
In lascivious revelation

Relaxation
Negation of myself as a unit
Vacuum interlude
I should have been emptied of life
Giving life
For consciousness in crises …………….races
Through the subliminal deposits of evolutionary processes
Have I not
Somewhere
Scrutinized
A dead white feathered moth
Laying eggs?
A moment
Being realization
Can
Vitalized by cosmic initiation
Furnish an adequate apology
For the objective
Agglomeration of activities
Of a life
LIFE
A leap with nature
Into the essence
Of unpredicted Maternity
Against my thigh
Touch of infinitesimal motion
Scarcely perceptible
Undulation
Warmth ………moisture
Stir of incipient life
Precipitating into me
The contents of the universe
Mother I am
Identical
With infinite Maternity
…..Indivisible
…..Acutely
…..I am absorbed
…..Into
The was—is—ever—shall—be
Of cosmic reproductivity

Rises from the subconscious
Impression of a cat
With blind kittens
Among her legs
Same undulating life-stir
I am that cat

Rises from the subconscious
Impression of small animal carcass
Covered with blue bottles
— Epicurean –
And through the insects
Waves that same undulation of living
Death
Life
I am knowing
All about
…………….Unfolding

The next morning
Each woman-of-the-people
Tiptoeing the red pile of the carpet
Doing hushed service
Each woman-of-the-people
Wearing a halo
A ludicrous little halo
Of which she is sublimely ……..unaware

I once heard in a church
— Man and woman God made them —
…………………………Thank God.

Mina Loy