crítica, poesia, tradução

Via, de Caroline Bergvall

Caroline_Bergvall

Caroline Bergvall é uma poeta nascida em 1962 na Alemanha, filha de um casal franco-norueguês, e radicada na Inglaterra desde 1989. Como era de se esperar, com um background cultural desses, sua produção se foca em temas como multilinguismo, bem como também feminismo e questões de identidade cultural, muitas vezes trabalhando não só com o texto escrito, mas também performance, poesia sonora e instalações multimídia. Sua instalação Say: ‘Parsley’, por exemplo, tem como foco conflitos entre registros de fala e foi comissionada e exibida pela primeira vez pela Spacex Gallery em Exeter em 2001. Sua obra escrita inclui os livros Strange Passage: A Choral Poem (1993), Goan Atom (2001), Fig (2005) – onde está incluído o texto de Say: ‘Parsley’, junto do texto anglo-francófono “About Face” e do poema “Via”, de que falaremos aqui –, Alyson Singes (2008), uma versão sincrética de inglês moderno com inglês médio do conto da Mulher de Bath de Chaucer, e Meddle English (2010), onde Bergvall dá continuidade a esse trabalho de exploração do inglês médio em contato com o inglês moderno, o francês e o norueguês.

“Via”, em referência ao verso “che la diritta via era smarrita” do primeiro terceto do Inferno, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, é um poema conceitual já bastante notório. Como aponta esse comentário de Genevieve Kaplan na revista Jacket, ele é algo anômalo em Fig, porque é um poema com “cara de poema”, no meio de outros textos poéticos em formatos mais prosaicos e fragmentários. Sua proposta é simples: pegar todas as 47 traduções registradas do Inferno na British Library e transcrever o primeiro terceto de cada uma, com o sobrenome do tradutor e ano de publicação abaixo, organizando-os em ordem alfabética (primeiro uma tradução cujo primeiro verso é “Along the journey of our life half way”, depois outro que começa com “At the midpoint in the journey of our life” e assim por diante). A ideia é algo incomum, mas o efeito é hipnótico, com a figura de Dante constantemente reentrando a e se perdendo na floresta escura, o “sujeito da escrita desaparecendo infinitamente nas palavras de tradutores de Dante”, como diz Marjorie Perloff, em O Gênio Não Original. Continua ela depois:

“Ao organizar as traduções em ordem alfabética (pela primeira letra do primeiro verso, começando com “Along the journey of our life halfway”), ignorando a cronologia e inserindo o nome e a data do autor em parênteses após a citação, Bergvall produziu um texto estarrecedor que demonstra o quanto é impossível – e, no entanto, inevitável – a tarefa da tradução. A selva oscura de Dante é ao mesmo tempo escura [dark], sem sol [sunless], sombria [darkling], tenebrosa [gloomy], grande [great], obscura [obscure], umbrosa [shadowy] e fosca [darksome]; sua via diritta pode ser o caminho mais próximo ou o correto, a estrada direta ou o caminho adequado; essa estrada está smarrita – perdida [lost], bloqueada [blocked], desviada [strayed from], impossível de encontrar [not to be found]. Os tradutores citados variam de poetas famosos do século 19 como Longfellow (1867) a contemporâneos como Robert Pinsky (1994) e inclui tradutores já estabelecidos, de Henry Francis Cary (1805) a Allen Mandelbaum (1980), a figuras obscuras, tais como James Innis Minchin (1885) ou Geoffrey L. Bickersteth (1955). Igualados pelo jogo alfabético e desindividualizados pela omissão do primeiro nome do tradutor, esses tercetos citados (alguns rimados em esquema aba como na terça rima, alguns em verso livre ou prosa) transmitem a genialidade do original, cujas palavras, cada uma delas, encontram ressonâncias com possíveis sentidos mesmo ao produzirem um poema independente escrito num nonsense curioso de “meio de caminho”, variantes de rimas repetidas midway/astray e versos iniciais com “amid”, “in the middle of” e “half-way”, de modo que o badalar dos sons produz um tipo de salmodia, perturbada a cada quatro versos pelo som e imagem discordantes de um nome próprio e data ordinários.”

Ilustração de William Blake para o Canto I

Ilustração do Canto I, por William Blake

 

Para a tradução, Bergvall então cria um problema curioso. Talvez seja possível fazer uma tradução poética, digamos, “normal” de “Via”, se atentando para as diferentes refrações das palavras do italiano na língua inglesa e no modo como dá para reproduzir esse efeito no português sem acabar se prendendo ao original de Dante… o que pode ser particularmente complicado no caso das 17 destas traduções que são rimadas (e um número maior que ainda é metrificado). A coisa da ordem alfabética, porém, seria um problema. No entanto, eu imagino que a graça esteja em refazer o mesmo movimento que Bergvall fez, uma recriação se valendo do mesmo princípio: pegar as traduções disponíveis de Dante para o português (o que, infelizmente, dá um número menor do que 47), transcrevê-las, com sobrenome e data, e dispô-las em ordem alfabética. Foi o que fez, no ano passado, no espanhol, o tradutor Carlos Soto Román para a revista Letras En Línea, cuja tradução pode ser lida clicando aqui.

E isso nos leva a pensar uma questão do conceitualismo que é a sua relação tensa com a possibilidade da tradução. A poesia conceitual, especialmente a do conceitualismo mais de raiz, como praticado por Kenneth Goldsmith, Vanessa Place e outras figuras infames da contemporaneidade, inverte a dinâmica estabelecida por Mallarmé de que poesia se faz com palavras e não com ideias, constituindo uma poética de fato de ideias (mais sobre aqui neste artigo de Archambeau). Na prática, isso significa que, se pensarmos numa dicotomia entre projeto e execução – em que um poeta começa com uma ideia sobre um poema e elabora sobre ela – a poesia moderna mais tradicional, canônica, apesar de vir exigindo cada vez mais originalidade dos projetos (literalmente pode-se dizer que não se faz mais poemas pastorais como antigamente), privilegia a execução (que pode ser mal feita mesmo quando um poeta tem um projeto bom, o que dá sempre aquela sensação horrível de potencial desperdiçado), ao passo que, para a poesia conceitual, a execução (que, como diz Goldsmith, talvez de piada, mas não dá para ter certeza, não é para ser lida) é menos importante do que o projeto – e isso, no limite, faz com que cada poema conceitual seja irrepetível. Você pode escrever um livro inteiro de poemas amorosos, com a variação dos poemas entre si repousando em sua execução, mas não é possível repetir um poema como “Via” e menos ainda um livro absurdo como Traffic, de Goldsmith, porque a novidade por trás da ideia se esgota muito rapidamente. Desse modo, a linha entre tradução e criação (não-)original é cada vez mais borrada, mais ainda do que no caso das traduções “normais” de poesia, porque, ao mesmo tempo em que eu posso apresentar o “meu” “Via” como uma tradução, eu também posso dizer que se trata de um novo poema conceitual em português que segue os mesmos parâmetros, mas envolvendo as traduções de Dante para o português – mais ou menos como eu poderia aproveitar a ideia por trás dos poemas amorosos altamente imagéticos de cummings, por exemplo, para escrever os meus próprios poemas amorosos em português. Talvez seja por isso que Goldsmith tenha dado declarações difíceis de engolir como a de que a tradução está “ultrapassada” e que o “deslocamento” (displacement) é o que deverá tomar o seu lugar (clique aqui). Diz ele:

“A tradução é o grande gesto humanista. Educada e razoável, é uma construtora de pontes exageradamamente cautelosa. Sempre pedindo licença, ela roga por compreensão e amizade. É otimista, porém provisória, apostando as esperanças num resultado harmonioso. No final, sempre fracassa, pois o discurso que propõe acaba sendo inevitavelmente fora de registro; a tradução é uma aproximação do discurso.”

Óbvio que devemos ler as opiniões de Goldsmith com um grão (ou um caminhão) de sal (é difícil não enxergá-lo como um tipo de troll literário, afinal de contas, o que é muito interessante dum ponto de vista bakhtiniano, mas isso é assunto para outra ocasião), e eu inclusive tenho um pé atrás com esse discurso num nível ético, especialmente quando essa empolgação dele pelo modernismo do século XXI me traz flashbacks incômodos de Marinetti. Mas, em todo caso, serve de provocação, e a discussão, creio, há de ser frutífera.

Voltando a Bergvall agora, a “minha” tradução (já explico o porquê das aspas) talvez destoe um pouco da proposta dela. As 47 traduções em “Via” estão todas registradas na British Library, ao passo que, das 16 aqui, 5 são, digamos, extra-oficiais. O trabalho aqui começou com um post nessa famigerada rede social que é o facebook, procurando as traduções disponíveis de Dante (um assunto em que, até então, eu era bastante leigo) e eis que o pessoal se empolgou, e o Guilherme Gontijo Flores, o Rubens Canarim, o Daniel Martineschen e o Ademir Demarchi me mandaram as suas traduções desse primeiro terceto (e eu, por fim, cedi e acabei fazendo a minha também). Como, mesmo assim, ainda estamos desfalcados em número de traduções, achei por bem ir contra a letra do projeto do poema (mas seguindo-o em espírito, porque o que há de mais modernismo-século-XXI do que um poema feito no facebook?) e incluí-las, com um agradecimento aos tradutores e também ao poeta Pádua Fernandes e a Gustavo Petter por terem todos me ajudado a encontrar as edições. A que eu tenho é a do Italo Eugênio Mauro, da editora 34, por isso ela e a tradução em domínio público de Xavier Pinheiro foram o meu ponto de partida, ao qual as outras traduções foram sendo somadas depois. No entanto, eu estou ciente de que não consegui localizar todas as traduções. Falta, por exemplo, a do Barão da Vila da Barra, do século XIX, e também me foram apontados nomes como Yan Dargent, Rui Viana Pereira, Fábio M Alberti, Fernanda Botelho, Sophia de Mello Breyner, Armindo Rodrigues, Teixeira de Aguilar, Cordélia Dias D’Aguiar e Cecilia Casas. Esta tradução, portanto, acaba sem querer confirmando o que disse Goldsmith e sendo provisória, um work-in-progress ao qual todos os leitores do escamandro estão convidados a participar – e que pode muito bem, contrariando o Goldsmith, derivar a sua força dessa situação provisória. E por isso eu hesito em dizer que essa tradução seja minha, o que talvez seja a postura mais adequada dentro do conceitualismo.

O original de Bergvall, que não transcrevo aqui por conta do tamanho, pode ser visto no site da Poetry Foundation, clicando aqui.

Adriano Scandolara

Ilustração do Canto I, por Salvador Dali.

Via

17 Variações de Dante

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita

A Divina Comédia – Pt. 1 Inferno – Canto 1 – (1-3)

1. À meia-idade da terrena vida,
perdido achei-me numa selva escura,
a senda certa estando já perdida
               (Ziller, 1953)
2. A meio caminhar de nossa vida
fui me encontrar em uma selva escura:
estava a reta minha via perdida.
               (Mauro, 1998)
3. Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa.
               (Donato, 1978)
4. Ao meio das quebradas desta vida
Me vi perdido pelo breu das brenhas
Extraviado de qualquer saída.
               (Flores, 2014)
5. Aos meus 35 annos, termo medio commum da nossa vida, dei accordo de mim n’uma selva escura, porque do recto caminho me afastára.
               (Pinto de Campos, 1886)
6. DA nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
               (Pinheiro, 1907)
7. Dos dias no mear desta jornada,
Embrenho-me num verde e negro umbral,
Desvio à via reta, irretornada.
               (Canarim, 2014)
8. Em meio do caminho de nossa vida,
encontrei-me por uma selva escura…
Porque o reto (direito) caminho era perdido
               (Tahan, 1947)
9. Era ao mei’ traçado da nossa vida
que me embrenhei numa quiçaça
que a via destra já se via evadida.
               (Martineschen, 2014)
10. No meio do caminho de nossa vida
encontrei-me numa selva escura
porque me tinha extraviado da via do bem
               (Braga, 1955)
11. No meio do caminho desta vida
desencontrei-me numa selva escura
que do rumo direito vi perdida
               (Wanderley, 2004)
12. No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.
               (Campos, 1986)
13. no meio do caminho e da vida
perdi o amor na selva obscura
errando dor, sem direção e saída
               (Demarchi, 2014)
14. No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida
               (Moura, 2011)
15. Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo.
               (Rocha, 1999)
16. Tendo já meia vida palmilhado,
Numa escura floresta me flagrei,
E da correta via fui desviado
               (Scandolara, 2014)

 

(poema de Caroline Bergvall em cima de Dante Alighieri, em tradução de vários tradutores, organizada por Adriano Scandolara)

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Um tombeau a Walter Benjamin

“O futuro parece certo
certo
que prosseguirá
sem nós.
O futuro parece certo
que prosseguirá
prosseguirá
O futuro parece
que prosseguirá
o futuro certo
parece certo
prosseguirá
sem nós.”

– últimas palavras do personagem de Walter Benjamin na ópera Shadowtime, de Brian Ferneyhough, com libreto de Charles Bernstein (tradução minha).

walter-benjaminAgora, ao pôr-do-sol de 26 de setembro, terminam as festividades do Rosh Hashanah, o ano novo judaico, anunciando o começo do ano 5775. Há 74 anos, nessa mesma data, no entanto, Benjamin estava chegando à estalagem em Portbou, na Espanha e, ao achar que lhe seria negada a passagem e que sua tentativa de fuga da França colaboracionista terminaria aí, Benjamin tirou a própria vida com uma overdose de morfina. Seus companheiros de viagem, porém, puderam prosseguir no dia seguinte. Parece que nos últimos anos surgiram suspeitas sobre a autenticidade do seu suicídio e que ele poderia ter sido assassinado por agentes stalinistas, e a situação toda é misteriosa (uma mala que Benjamin portava consigo, por exemplo, parece ter desaparecido, e Henny Gurland, sua companheira de viagem, destruiu os bilhetes que ele deixou). O que quer que tenha acontecido, é inegável, desde antes, o caráter melancólico que tinge o pensamento e a vida de Benjamin, que, em todo caso, já havia considerado em pelo menos uma outra ocasião a possibilidade do suicídio – uma ideia também já contemplada, mas felizmente não levada a cabo, por outro contemporâneo seu, o filósofo também judeu Ludwig Wittgenstein.

O poeta alemão Bertolt Brecht, com quem Benjamin passou as tardes do verão de 1934 na Dinamarca jogando xadrez, o homenageou com quatro poemas em 1941, ao descobrir o destino do amigo. Um desses poemas se chama “An Walter Benjamin, der sich auf der Flucht vor Hitler entleibte” [A Walter Benjamin, que se matou em fuga de Hitler] e consiste de um breve epitáfio de um quarteto, que eu traduzo aqui:

Ermattungstaktik war’s, was dir behagte
Am Schachtisch sitzend in des Birnbaums Schatten.
Der Feind, der dich von deinen Büchern jagte,
läßt sich von unsereinem nicht ermatten.

Usavas táticas de guerra de desgaste
No tabuleiro, sob a pereira sentado.
Vindo o inimigo, dos teus livros te afastaste,
Que não será por nossa laia derrotado.

brecht-benjamin

Creio que esteja já bem estabelecido que Benjamin não é um autor dos mais fáceis de se ler. Qualquer tradutor que tenha lido o seu “A Tarefa do Tradutor” provavelmente saiu com mais dúvidas do que respostas. Seu trabalho de habilitação A origem do drama trágico alemão, foi condenada por sua banca na Universidade de Frankfurt por ser “opaca” e “incompreensível”, o que pôs um fim à sua carreira acadêmica. Seu colega, o poeta, crítico e tradutor Hans Sahl, por exemplo, ficou igualmente confuso quanto ao seu famoso ensaio sobre a reprodução mecânica e achou “tudo muito místico, apesar de sua atitude anti-mística” (fonte), e à época ninguém sabia direito o que fazer do seu Livro das Passagens, uma extensa obra de colagem deixada inacabada (e possivelmente, por sua própria natureza, inacabável), que, por isso, foi criticado duramente por autores como Theodor Adorno. Apesar de eu não ser nenhum especialista em Benjamin, se me permitem um pitaco, eu diria que os seus escritos talvez fossem melhor vistos não tanto como uma obra fechada quanto uma obra tentativa, um esforço, em diversas frentes, de tentar entender um mundo num momento de virada que parece só fazer algum sentido a partir deste nosso viés narrativo, de retrospecto. E isso é ainda mais complicado quando se lembra que Benjamin era um judeu para quem a identidade judaica retinha bastante importância, diferente do que ocorre com Wittgenstein ou Husserl ou mesmo Derrida, na geração seguinte, que eram judeus para quem a assimilação, num sentido mais interno, como estado de espírito, parece ter sido mais completa. Grande amigo do cabalista Gershom Scholem, Benjamin nunca foi um judeu tradicional, praticante, mas seu interesse pelas tradições místicas é evidente em seu pensamento, para qual o messianismo era um aspecto especialmente relevante – a contraparte metafísica, poderíamos dizer, para o seu materialismo marxista.

Um de seus trechos mais famosos, presente em Teses sobre a filosofia da história, é um parágrafo em que Benjamin trata da pintura Angelus Novus (1920) de Paul Klee, descrevendo essa figura estranha, que parece estar em movimento, se afastando de algo que olha fixadamente, como a imagem de como deveria ser o anjo da história, contemplando impotente o progresso histórico, que ele vê como uma única catástrofe e não como uma cadeia de acontecimentos, enquanto um vendaval vindo do paraíso o impele irresistivelmente ao futuro. É uma imagem poderosa e, como muitas das ideias de Benjamin, dotada de um forte tom poético.

Klee - Angelus Novus

Klee – Angelus Novus

Por isso, é uma coincidência bastante feliz que o nosso colega e co-editor do escamandro, Guilherme Gontijo Flores, tenha recentemente concluído o seu projeto Tróiades, para lançá-lo agora em tempo para esta homenagem. As Tróiades são um trabalho poético online que, apesar de construído como apropriação e subversão de poemas do grego e do latim clássico, a saber, poemas dramáticos sobre os derrotados da guerra de Troia (vista aqui como uma espécie de antepassado mítico de todo os massacres) reserva, em vários sentidos, um papel central para Benjamin e sua noção da história. O site pode ser acessado clicando aqui.

Em alguma medida, o suicídio de Benjamin é também um problema teológico.  Para o judaísmo, como para todas as religiões monoteístas, o suicídio é um pecado grave, e aos suicidas tipicamente não é permitido enterro em cemitérios judaicos (Benjamin, porém, para somar mais um detalhe desviante para as circunstâncias de sua morte, apesar de não ter sido visto como suicida na ocasião, foi enterrado num cemitério católico). Acontece que o conceito judaico de inferno, o Gehinnom, é mais próximo do purgatório cristão do que qualquer outra coisa, e pouco se diz sobre a escatologia judaica, o HaOlam HaBa, o Mundo-por-vir. Além disso, as visões sobre o assunto têm mudado com os anos, e hoje muitos rabinos são da opinião de que os suicidas costumam estar sofrendo de algum mal psicológico/psiquiátrico (eis a persistente relação entre a melancolia clássica e a depressão moderna…), o que faz com que o ato seja derivado do desespero e não do livre arbítrio. É um eufemismo dizer que se trata de uma questão delicada e longe de ser resolvida. Em todo caso, parece que essa é uma das tarefas mais nobres que recaem sobre nós, os vivos, perpetuamente redimir os mortos, ou talvez redimir-nos diante dos mortos.

Da minha parte, encerro aqui esta homenagem com algo que não costumamos fazer mais aqui no escamandro que é postar poemas próprios. Desta vez, porém, acredito que seja por um bom motivo.

Poema de mote judaico (II)

Se te consola,
mensageiro caduco, alguns
dos mortos tiveram, pasto de aves,
o sono negado, ingênuo supor
que o homem sem cova,
o dos pulmões queimados, a filha violada, irão
levantar comovidos da vala
para revogar as ordens:

não vos esqueçais de mim,
meu sangue há de inundar o ar
que respirais, etc
                              como se
houvesse tempo sem memória e fosse
adiantar muita coisa também colar
esses cacos: é deitá-los no chão
                                             que outra vez em
72 outros pedaços se
partem,
               schlemiel
de um vaudeville barato, com vasos
quebrados e mal entendidos
                                             (e é talvez porque
não nos entendemos
que só pela pilha de destroços
se chegue ao céu).

(Adriano Scandolara)

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Nova “Terra sem Mal”

nenhum gesto sem passado
nenhum rosto sem o outro

acabou de sair online o livro Terra sem Mal, uma parceira entre poemas de Josely Vianna Baptista & desenhos de Guilherme Zamoner: em resumo, primor. mas, ainda que breve, preciso dizer duas cositas sobre essa alegria — seria o livro uma terra sem mal neste remate de males que chamamos mundo? — & que justificam ainda mais sua leitura.

terra sem mal

1. não se trata do tradicional texto/imagem; não há mera ilustração, nem simplicidade de apresentações. o trabalho de ilustrador & designer feito por Zamoner mescla obra própria & recortes de obras alheias com um repertório que vai de mapas & desenhos botânicos a uma espécie de fotomontagens de imagens. algo como tradução de imagens, pelo poder transfigurador (aqui sem metáfora) dos deslocamentos & reorganizações.

2. a poesia de Josely funde deliberadamente tradução de canto guarani com criação própria — também numa espécie fotomontagem de poemas? — realizando mescla que também convida à intervenção sobre quanto da tradução é criação — alguém ainda duvida? — & quanto da criação está entregue à tradução, consciente ou inconsciente. mais ainda, os poemas acontecem simultaneamente: ao longo de páginas, pelo menos 4 poemas (um deles assumidamente tradutório & em apresentação bilíngue) se desenvolvem cercados por notas explicativas e outros poemas esparsos.

oh, o corolário disso tudo: não, não se trata de mudernage gratuita, ou pós-modernismo — no sentido pejorativo do termo (esse que explicita apenas muita confusão experimental sem maior rigor). pelo contrário a fusão & transbordamento de imagens, colagens, poemas, traduções, tudo em simultaneidade, cria um efeito de ambiente. o leitor, claro, pode seccionar tudo, ler ordenadamente quando & quanto quiser; mas aquele que se entregar (& é o que vos aconselho; meninos, eu vi) ao caos aparente, esse ressurge de uma experiência com um, digamos assim, convívio complexo (do latim complexus, que, como amplexus, também tem o sentido de “abraço”). um sonho de terra sem mal já noutra língua.

vejam lá:

em tempos de persistente massacre indígena no brasil, quando sentimos que nossa política insiste num fracasso ambiental, não haveria melhor alívio crítico.

guilherme gontijo flores

 

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emílio moura (1902-1971)

emílio moura

emílio moura é o poeta modernista mineiro mais importante que quase ninguém lê. dito isso, aos fatos: nascido em 1902, em dores do indaiá (que diabo de nome lindo para uma cidade), ele teve sua educação inicial em algumas cidades pequenas de minas, dentre elas bom despacho, terra da minha família materna, porque o mundo é deveras pequeno. depois ele foi para belo horizonte, onde formou o famigerado grupo d’a revista, junto com drummond, martins de almeida & gregoriano canedo, dentre outros.

o fato é que emílio não saiu de bh, & essa é talvez a causa de ter sido pouco lido: faltou-lhe a vida literária de capital. há outra coisa, sua poesia, ao contrária da de seu amigo drummond, caminhou para uma metafísica do amor & da poética. sua pequena obra consta dos seguintes livros: ingenuidade (1931), canto da hora amarga (1936), cancioneiro (1945), o espelho e a musa (1949), o instante e o eterno (1953), a casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (ainda de 1961) & itinerário poético (1969), que reúne toda sua obra anterior, uma espécie de obra completa em vida, que lhe rendeu o prêmio do instituto nacional do livro, em 1970. o poeta morreu em 1971, em belo horizonte.

os 10 poemas, pra dar uma amostra do poder de certos ápices de e.m., foram retirados da antologia poesia de emílio moura, com introdução e seleção de fábio lucas (art editora, 1991).

guilherme gontijo flores

* * *
Encantamento

Se eu algum dia regressar (oh! as impossíveis viagens em que meu
……………………………………………[corpo não estará presente!)
eu bem sei que só há de ser com o propósito de partir de novo.

Agora, por exemplo:

Tudo me traz, agora, esta ânsia virgem de mar alto.

Partir, partir, de novo…

Prestígio das ruas mal entrevistas, eu vos evoco;
eu vos evoco, sim, figuras sem nome, estradas esquecidas,
corpos de jamais, eu vos evoco.
Olhai: à sombra das coisas visíveis e invisíveis,
tudo se revelará, um dia, como no momento mesmo da criação.

§

Matinal

Sobre as ondas mansas brincam os barcos.
Diante de meus olhos matinais,
as coisas se ordenam simples e perfeitas:
o céu, o mar, teu corpo.

Ah, o teu corpo!

Meus olhos brincam sobre o teu corpo.
Nenhuma nuvem na minha alma.

§

Libertação

Quando a multidão, que há de chegar, estiver toda, toda, nas ruas,
ninguém mais se preocupará com o fio inquieto ou torturado de
…………………………………………………….[meus pensamentos.
O meu vulto não projetará nenhuma sombra ao redor de mim.
Ninguém procurará compreender, ninguém!
Certamente o sentido da minha derrota há de pairar como um signo
………………………………….[trágico sobre a cabeça de cada um deles,
mas será também como um signo inútil em que ninguém atenta.
Ah, então serei livre, livre,
e, antes de mim, como depois de mim, todos os mistérios poderão
…………………………………………………[permanecer invioláveis.

§

Canção

Não quero ver esta rosa,
nem saber por que floriu.
A cor mais bela do Arco-Íris
foi a cor que ninguém viu.

Não quero ouvir este canto,
nem saber de seu sentido.
Quem é que me conta
o que foi perdido?

§

Canção do náufrago

Entre estas margens e aquelas,
que abismos de solidão.
Quem me diz, nesta voragem,
se as águas vêm ou se vão?
Ó noite, dá-me o sentido
do que há de ser o Outro Lado
que meus olhos não verão.

§

Poema

Quantas vezes te destruí em mim para te criar de novo?
Quantas vezes te considerei mito, estrela desterrada de sua
…………………………………..[constelação, símbolo e chama?
De onde tirei a tua forma?
Dos mitos que sustentaram antes de tua vinda, ou de minha própria
……………………………………………………….[sede de poesia?
Mito! Eras mito e eu te esperava.
Estrela desgarrada, e meus olhos te reintegraram em tua
……………………………………………….[constelação mágica.

§

Bucólica

Olha este azul, Eliana!

Que importa o que não fui,
se o que não sou te embala?

§

Tarde

Aura da tarde, essa quietude de ermo
lenta, lenta, refaz o já perdido.
Asas soltas no céu planam, de leve,
ou se apagam no espaço? A tarde se recolhe,
concha abstrata no ar, como se fora
a alma mesma do tempo que, serena,
se fechasse em si mesma. Para sempre.

§

Poema

Duro caminho é o de saber que não há caminho.
O que há são fragmento de rota que o tecido do acaso
une ou desune. Estar, andar. Identificar-se com as coisas,
com o tempo. Estar aqui, ali. Estar antigamente, estar futuro,
ou buscar-se no espelho onde não há espelho.
Isso é tudo.
Mesmo assim nos sonhamos, e sonhamos
um roteiro, um destino.
Não no espaço, ou no tempo,
mas na parte de nós, ah, tão frágil, que se devora
e, perdida, se salva.

§

Naufrágio

Meu grito não chega nunca
lá onde a aurora é possível.
A vida que nunca tive
me sustenta sobre as águas.

(poemas de emílio moura)

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Cunt Shakespeare, de Dodie Bellamy

Dodie-Bellamy

Dodie Bellamy é uma autora feminista experimental norte-americana associada ao movimento literário da New Narrative das décadas de 1970 e 1980, ao lado de figuras como Kathy Acker (1947 – 1997) e Dennis Cooper (1953 – ). Como diz a breve notinha introdutória à sua entrevista para a revista Paris Review, ela escreve obras “genre-bending” (ô, termo difícil de traduzir: eu arriscaria algo como “subversoras de gênero”… no caso, é no sentido textual, mas ninguém há de duvidar de que vale para o sentido sexual também, genre/gender) com enfoque para “sexualidade, política e experimentação narrativa, desafiando as distinções entre ficção, ensaio e poesia” e “revisões radicalmente feministas de obras canônicas”. Ela tem publicado desde 1990, quando estreia com seu primeiro livro, de contos, chamado Feminine Hijinx, ao que se segue Real: The Letters of Mina Harker and Sam D’Allesandro (1995), uma obra mais estranha, em colaboração com Sam D’Allesandro, consistindo de um romance (?) epistolar, que recontextualiza a história do Drácula de Bram Stoker para a San Francisco flagelada pela epidemia (então recente) de AIDS dos anos 90. Esse livro, publicado a princípio por uma editora pequena, foi republicado mais recentemente em 2004 pela editora da Universidade de Wisconsin.

Para nós, porém, pensando mais nas questões de poética, imagino que o seu trabalho mais interessante seja o que vem sido desenvolvido desde 2002 com a publicação de Cunt-Ups (volume publicado pela editora Tender Buttons. Não consigo pensar num nome melhor para uma editora que publica um livro desses). Cunt-Ups consiste num trabalho de intervenção sobre o texto à moda da técnica dos cut-ups (recorte e colagem) dos beats, dos quais o exemplo mais famoso é William Burroughs, autor, por exemplo, do famoso Almoço Nu (1959). Mas o que transforma aqui o cut em cunt (um dos termos ingleses mais pesados para a genitália feminina, que também serve de ofensa (tipo “you cunt”), mas que convém traduzir aqui por “buceta” ou ainda “xoxota”, depende de como é onde você mora) é o aspecto não exatamente pornográfico (os textos não são feitos para excitar), mas sexualmente explícito, subversor, dessa prática, que sugere uma “violência sexual/textual que é mais do que uma mera ‘desorganização dos sentidos’, mas um desmembramento do corpo marcado pelo gênero também”, como diz a orelha do livro. Essa prática encontrou continuação no seu novo volume, publicado ano passado, chamado Cunt Norton, em que o cunt-up é aplicado à famosa Norton Anthology of Poetry – uma das instituições mais respeitáveis da edição de poesia do mundo anglófono, que, como com qualquer instituição respeitável e pomposa, é impossível não sentir uma pontinha de vontade de profanar. E é basicamente isso que Bellamy faz aqui: de Chaucer, Spenser e Shakespeare, até John Ashbery e Hughes, passando por Milton, Pope, Blake, Keats & Shelley, Poe, Whitman, Dickinson, Stevens, Pound, cummings, ela vai à desforra, cortando, colando, fundindo e – bem, que adianta ser pudico nessas horas? – fodendo os textos, conforme mescla os autores do panteão da alta cultura de língua inglesa com a virtualmente anônima literatura (no sentido lato da palavra) erótica mais barata de banca de revista. E os resultados são curiosíssimos, surpreendendo como textos mesmo, linguisticamente interessantes (sobretudo para quem tem gosto por poesia conceitual), mesmo depois que se dissipa o choque imediato e paramos de rir um pouco para prestar uma maior atenção. Em alguns momentos, ele chega a dar uma prosa bonita de fato, e eis talvez o paradoxo inato da prática de Bellamy: ao mesmo tempo uma profanação do cânone – “O que acontece quando enrabam a Norton Anthology of Poetry?”, começa a resenha de Adam Fitzgerald sobre Cunt Norton – e uma “canção de amor” a ele, uma forma torta de homenagem, Cunt Norton parece encarnar na prática aquilo que Baudelaire descreveu como a perda da auréola, lançando esses nomes já sacralizados à muito bem-vinda lama do cotidiano e das paixões humanas (sobretudo as mais baixas).

Para ilustrar o que estou dizendo aqui (eu sei que fica bastante vago só de descrever), eu selecionei um dos textos do livro, chamado “Cunt Shakespeare” (todos os títulos consistem de Cunt + o nome do poeta… o “Cunt Chaucer”, “Cunt Spenser”, “Cunt Shakespeare” e o introdutório “Cunt Norton” podem ser vistos no excerto disponibilizado online pela editora clicando aqui), arregacei as mangas e o traduzi. No entanto, como se trata de uma obra apropriativa, imaginei que uma tradução direta não seria adequada. Em vez disso, procurei identificar as referências – no caso, os sonetos 116, 129, 130, 138 e 146, mas deve ter outros que me escaparam, com certeza – e fui atrás das traduções, mais ou menos como fiz quando traduzi aquele poema do Aaron Shurin no ano passado. Como temos várias traduções desses sonetos à disposição, de variados graus de sucesso, eu me permiti utilizá-las liberalmente. Por exemplo, na primeira parte de “Cunt Shakespeare”, Bellamy utiliza recortes do soneto 116. No começo, eu me vali da tradução de Jorge Wanderley, para reproduzir no jogo entre o verbo “desertar” e o substantivo “desertor” a relação entre “remove” e “remover” do inglês, que outras traduções não mantêm. No entanto, preferi a do Ivo Barroso na parte “Love bears it out even to the edge” (“of doom”, continua, em Shakespeare, mas o “doom” foi cortado em Bellamy), porque “persevera ao limiar (da morte)” me serve melhor aqui do que “resiste até o Dia (do Juízo)”, e assim por diante, sobretudo como sugestão sexual, o “limiar” como a proximidade do orgasmo. No fim, apesar do pequeno volume e da falta de metro, rima e outros elementos tradicionalmente considerados difíceis de se verter na poesia, esse é um texto bastante lento de se traduzir, ainda que divertido.

Por fim, eu escolhi “Bucetado” para traduzir o “Cunt” aqui usado como qualificador no título, em parte porque acredito que “buceta” (com u mesmo) seja uma boa tradução para “cunt” (no caso, eu descartei a leitura, ainda que possível, do cunt como qualificador ofensivo, semelhante a “cuzão”, “filho da puta”, etc) e em parte porque também imagino que se mantenha alguma relação sonora com a palavra “recortado”, em alusão ao cut-up (e, talvez, só talvez, eu tenha gostado também do eco pornô-paródico com o título do filme Shakespeare Apaixonado, o que foi acidental, mas um acidente muito feliz). Pensei também em “embucetado” ou “embuçado” (com um jogo de palavras com um termo que já existe) e ainda algo como “Xoxote do Shakespeare” (uma referência ao estilo musical do xote). Decisões, decisões. É claro, porém, que não é nada definitivo, e essa aqui é só uma tentativa experimental (no sentido de “tentativa”) de traduzir um texto de uma poética experimental. Mas vale a pena a experiência.

(Adriano Scandolara)

Achei essa imagem na internet, não consegui achar o contexto, mas vou deixar aqui, porque me pareceu muito apropriada.

Achei essa imagem na internet, não consegui identificar o contexto, mas vou deixar aqui assim mesmo, porque me pareceu muito apropriada.

 

Shakespeare Bucetado

O que impeça o amor não é amor. Levei tua lingerie até meu desertor para desertá-la: ai, não! São teus peitos que balançam no ritmo, abalados até os astros. Teus peitos são toda grande vaca e me nutrem sagrados com pensamentos das alturas por alçar. O amor não é enquanto toquei punheta, pensando em ti em segredo, não poupando a minha alfange na enseada, no cinema, no restaurante, na garagem. O amor persevera ao limiar. Provavelmente eu não teria dado meu decreto nem te amado anos atrás. Arrio minhas calças e obro até a ação, a luxúria perjura, minha língua na tua orelha por só um segundo, extrema, rude, cruel, desleal. Desprezado o escroto contra o meu antigo pergaminho, na frente; e logo desfrutei-te, perdida a razão, odiada a atenção dada ao seu pau. Eu ao ser possuído insano, enlouquecida presa e perseguido nas saudades do passado e o desejo de foder; extrema a felicidade como prova – e provei, rasguei tua blusa, arregaçado sonho. O mundo bem sabe; porém foder-te-ia pra caralho. Ao inferno me conduz, meu amor de olhos assim vaidosos; com licença: me fode. Deslizo entre rubros teus lábios: se a neve é branca, por que então as paredes. Enfio o teu pau de rocha em minha buceta por pelo menos quinze minutos. Noto que teus seios são escuros; se a cabeleira ao arame é igual, negra aberta de novo e de novo até gozares adamascada, rubra e branca, brisas de rosa e manchas. Belisco teus mamilos; dá mais prazer o hálito do que cativar teu caralho? Vai minha deusa, meu amor, caminha em suas calcinhas. Se eu não tivesse lido Anaïs Nin juraria que meu amor é raro; ela desmentiu minha pomba contra a tela do computador. Declaro que a minha pomba é feita de verdades; nela creio mesmo quando desço meus dedos e aliso as minhas dobras; não sou jovem inconsequente, desconhecendo os mundos de mim e de ti. É um mapa. Penso que minha pomba me julga nova; ela te sabe aqui e agora no chão ao lado dos meus porquês: não é ela que é razão infiel. Estava eu rosnando à tua braguilha, “Vai, mete”. Meu maior dom fingir sinceridade. No amor a idade é não dizer o belo nome da foda em vão: minto contigo, e tu comigo, e nossos erros latejam entre teus lábios e no centro do meu mundo de pecado. Senhor destes rebeldes porquês, quero que me fodas em meio a esta penúria e sofrimento, as cores em expansão.

 

Cunt Shakespeare

Impediments to love are not love. I have put thy underwear up to my remover to remove: O, no! it is thy tits swaying in rhythm, shaken to the stars. Thy tits are every large cow and they feed me sacredly with thoughts of heights be taken. Love’s not while I jerked off, thinking of thee covertly, bending my sickle’s compass in a cove, a movie, a restaurant, a parking garage. Love bears it out even to the edge. I probably wouldn’t have given writ nor ever loved thee years ago. I pull down my pants and push action til action, lust is perjured, my tongue in thy ear for just a second, extreme, rude, cruel, not trusting. I enjoyed no scrotum into my ancient parchment, in front; and no sooner I had thee, past reason, I hated giving thy cock much attention. I the taker am mad, mad in pursuit and in nostalgia for our past and the desire to fuck; we had extreme bliss as proof—and proved, I ripped thy shirt open, tugging dream. All this the world well knows; yet really I do want to fuck the shit out of thee. Lead me to this hell, my mistress whose eyes are vain like that; excuse me: fuck me. I slide between thy lips red: if snow be white, why then walls. I stick thy cock stone inside my cunt for at least fifteen minutes. I notice that thy breasts are dun; if hairs be wires, black opened it over and over again until thou camest damasked, red and white, such rose breezes and spots. I pinch my nipples; is there more delight in breath than in making friends with thy cock? My goddess go, my mistress, walk on thy panties. If I hadn’t read Anaïs Nin I’d think my love as rare; she belied my pussy against the computer screen. I put forth that my pussy is made of truth; I do believe her though I reach down and unravel my wrinkles; I’m no untutored youth, unlearned in the worlds of me and thee. It’s a map. I realize my pussy thinks me young; she knows thee right now here on the floor beside my wherefore: not she is unjust. I’m at thy pants snarling, “Give it to me.” My best habit is in seeming to trust. Age in love shouldn’t take the beautiful word fuck in vain; as I lie with thee, and thou with me, our faults throb along thy lips and in the centre of my sinful earth. Lord of these rebel becauses, I want thee to fuck me within this suffering and dearth, painting outward.

(Dodie Bellamy, cunt-up de William Shakespeare, tradução de Adriano Scandolara)

 

PS: para quem leu até o final e ficou martelando na cabeça as possibilidades e problemas de tradução de termos como “cunt” e “pussy”, segue um videozinho legal que pode ajudar a ampliar o vocabulário e ajudar na discussão:

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poesia, tradução

6 carjas anônimas (séc. xi), seguidas de 4 poemas anônimos espanhóis

jarchas

a carja (ou kharja, ou  jarcha) é a estrofe final do moachaha, um tipo tradicional de poesia árabe; muitas vezes escrita em moçárabe (usado pelos cristãos da espanha moura.) ao fim de um poema todo escrito em árabe. no entanto, elas também poderiam aparecer como poema solitário, conciso, em que geralmente uma jovem mulher apaixonada revelaria seus sentimentos. apresento logo abaixo seis dessas carjas que foram traduzidas na abertura do livro Lírica espanhola de tipo tradicional, por josé bento (ed. assírio & alvim, 1995).

como é muito provável que esses poemas breves tenham suas origens ainda no séc. x ou xi, portanto antes do desenvolvimento do trovadorismo provençal & galego-português, penso que sejam de grande importância para pensarmos o desenvolvimento da poesia cantada ocidental. é nessa cultura popular anônima que vão se formando os lugares comuns em que a elite trovadoresca buscará fundar sua poesia. em resumo: melopeia amorosa. sobretudo aquela que veremos nas nossas cantigas de amigo, poemas em que a persona feminina ocupa o lugar do desejo & do dilema entre corpo & moral cristã. noutras palavras, entre o senhor divino & o senhor amoroso, por isso o amor pode ser uma doença (carja 2), por isso também encontramos uma comparação inusitada do amante a um filhinho (carja 4). é na fenda cristã entre corpo e alma que a poesia amorosa tem seu elã, porque não se resolve facilmente, ou pelo menos não até chegarmos a dante, que santifica sua beatriz (tratei do assunto aqui). por ora, o que mais teremos é a dor do desejo ou o arrependimento da realização, com poucos momentos daquela joi provençal.

a tradução, infelizmente, não é das mais felizes na melodia, pois em geral prefere o português escorreito – seja lá o que isso for — e retira o bilinguismo das construções. de qualquer modo, o trabalho de josé bento tem momentos felizes & já vale pela seleção tradutória.

além das 6 carjas, escolhi ainda 4 poemas breves anônimos (posteriores, certamente, talvez dos sécs. xiv ou xv, embora a datação não seja fácil), com  o amor feminino: 4 pérolas dessa poesia de ninguém.

guilherme gontijo flores

ps: desconfio que a carja 5, v. 3 tenha um problema de tradução; porém, como meu espanhol arcaico com influência moçárabe não existe, calo-me quanto a sugestões e deixo a mera impressão.

* * *

 ….¿Qué faré yo o qué será de mibi?
¡Habibi,
no te tolgas de mibi!

….Que farei eu ou que será de mim?
Amigo,
não te apartes de mim!

§

….¡Tanto amare, tanto amare,
habib, tanto amare!
Enfermeron olios nidios
e dolen tan male.

….Tanto amar, tanto amar,
amado, tanto amar!
Meus olhos adoeceram,
doem, de tanto mal.

§

….Vaise mio corachón de mib.
¡Ya Rab!, ¿si me tornarad?
Tan de mal me dóled li-l-habib:
enfermo yed, ¿cuánd sanarad?

….Vai-se o meu coração de mim.
Ai, Deus! Acaso voltará?
Tanto me dói por meu amado:
está doente, quando sarará?

§

….Como filyolo alieno,
no más adormes a meu seno.

….Como um filhinho alheio,
já não dormes em meu seio.

§

Meu sidi Ibrahim, ya nuemne dolche,
……..vent’a mib de nohte.
In non, si non queris, yereim’ a tib:
……..garme a ob legarte.

Meu senhor Ibrahim, oh doce nome,
……..vem até mim de noite.
Se não queres, vou ter contigo:
……..diz-me onde achar-te.

§

….Al-sabah bono,
garme d’on venis.
Ya lo sé que otri amas,
a mibi non queris.

….Alva formosa,
diz-me de onde vens.
Já sei que amas outras
e a mim não me queres.

* * *

….Las mis penas, madre
de amores son.
….Salid, mi señora,
de so’l naranjale,
que sois tan hermosa,
quemarvos ha el aire,
de amores sí.

….Minhas mágoas, mãe,
de amores são.
….Saí, senhora minha,
desse laranjal,
que sois tão formosa,
o ar vai queimar-vos,
de amores, sim.

§

.Recordad, mis ojuelos verdes,
que a la mañana dormiredes.

….Acordai, meus olhinhos verdes,
que de manhã vós dormireis.

§

….Malferida iba la garza
enamorada:
….sola va y gritos daba.
Donde la garza hace su nido,
ribericas de aquel río,
sola va y gritos daba.

….Muito ferida ia a garça
enamorada:
vai sozinha e gritos dava.
….Onde a garça faz o ninho,
na margem daquele rio,
vai sozinha e gritos dava.

§

….— Decid, hia garrida,
quién os manchó la camisa?
— Madre, las moras del zarzal.
— Mentir, hija, mas no tanto,
que no pica la zarza tal alto.

….— Dizei, filha, bonita,
quem vos manchou a camisa?
— Mãe, as amoras do silvado.
— Mentir, filha, mas não tanto,
que a silva não vai tão alto.

(poemas anônimos, trad. de José Bento)

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crítica, poesia, tradução

Archibald MacLeish por Levi Freitas

 

archibald-macleish

Archibald MacLeish (1892 – 1982) foi poeta, dramaturgo, ensaísta e membro da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que, infelizmente, não tem sido muito traduzido para o português. Temos um livro inteiro só – uma peça de teatro em verso chamada J. B., que reconta a narrativa bíblica de Jó e que foi traduzida para o português por Lélia Coelho Frota para a Agir Editora (1971) – e alguns poemas esparsos, como o seu famoso “Ars Poetica”, traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos, presente no volume Rosa do Mundo, da ed. Assírio & Alvim, com seus 2000 poemas de 2000 poetas.

José Olivir Freitas (1987, Óliver, Levi ou Olivetta, para os íntimos) é bacharel em Estudos Literários pela UFPR e funcionário público e nos mandou essa bela contribuição, com traduções de 6 poemas de MacLeish e um breve ensaio introdutório (por isso que eu não vou dizer mais sobre o poeta aqui, sob o risco de soar redundante), que compartilho com vocês abaixo.

Adriano Scandolara

 

Archibald MacLeish – político, poeta e celebridade.

Archibald Macleish é um poeta americano bastante ovacionado pelos seus gentios. O cara foi premiado com o Pulitzer três vezes, duas pela obra poética e uma por uma peça de teatro, intitulada J. B.. Mas fique calmo, a fama é ainda maior que isso. MacLeish foi nomeado bibliotecário da Biblioteca do Congresso por Theodore Roosevelt, um cargo importante nos cenários da política e da literatura dos Estados Unidos, geralmente ocupado por um bibliotecário. Não bastasse ter despertado a ira dos bibliotecários da nação, o escritor recebeu também um Oscar por um documentário de longa metragem chamado A história de Eleanor Roosevelt. Nascido em Ilinois, em 1892, MacLeish viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, tendo passado uma temporada “exilado” em Paris. MacLeish esteve em contato com gente como Gertrude Stein, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Aparentemente, ele era fã de T. S. Eliot e Ezra Pound.

MacLeish curtia um tinteiro. Publicou vinte e dois livros de poesia e antologias, quinze peças de teatro e vários trabalhos em biblioteconomia, literatura e política. Recebeu vários prêmios, até aquele Oscar, minha gente. De seu trabalho poético, o mais famoso é “Ars poetica” (1926), no qual a persona exprime, em doze dísticos, algumas ideias caras ao modernismo americano:

 

Ars Poetica

Um poema deve ser palpável e mudo
Como redondo fruto,

Quieto
Como velhos vinténs no dedo,

Silencioso como a pedra desgastada
Do batente das janelas onde o musgo faz morada -

Um poema deve ser sem palavras
Como o voo da passarada.

Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua ascende,

Deixando, conforme a lua liberta
Galho a galho árvores pela noite encobertas,

Deixando, como a lua as folhas de inverno ausenta,
Memória por memória a mente -

Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua ascende.

Um poema deve ser igual a:
Não há.

Por toda a história da dor
Uma soleira vazia e uma folha de bordo.

Por amor
A relva leniente e duas luzes sobre o mar -

Um poema não deve significar
Mas ser.

 

Ars Poetica

A poem should be palpable and mute
As a globed fruit,

Dumb
As old medallions to the thumb,

Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown -

A poem should be wordless
As the flight of birds.

A poem should be motionless in time
As the moon climbs,

Leaving, as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,

Leaving, as the moon behind the winter leaves,   
Memory by memory the mind -

A poem should be motionless in time   
As the moon climbs.

A poem should be equal to:
Not true.

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf.

For love
The leaning grasses and two lights above the sea -

A poem should not mean   
But be.

 

"Me and the Moon" (1937), de Arthur Dove (1880 - 1946)

“Me and the Moon” (1937), de Arthur Dove (1880 – 1946)

MacLeish e sua esposa passaram um tempo na França. A temporada do casal no estrangeiro começou em 1923, tão logo MacLeish abandonou o exercício da advocacia. Retornaram aos Estados Unidos em 1928. O fato de MacLeish ter morado por um tempo na França pode invocar a ideia de que ele seria um “poeta do exílio”. Essa é uma maneira interessante de classificar poetas e ligar a vida do poeta-autor com a ação do poeta-personagem. Quando há sincronia entre o tempo da escrita do texto pelo autor fora de casa e as argumentações e filosofias do eu-lírico, é comum que espelhemos o texto poético na biografia do escritor. Quando um autor é apontado como poeta ou ficcionista expatriado, sua reputação entre compatriotas permanece intocada, haja vista que não mancha o sentimento de pertença à nacionalidade e mantém, para todos os efeitos de uma leitura sociológica, a escrita ligada ao país de onde veio quem produziu o texto. Expatriate pode tanto ser o estrangeiro residente em relação ao país onde vive como o exilado, isto é, aquele que foi banido de seu país fisicamente, mas não ideologicamente. Elizabeth Bishop é considerada baluarte da poesia estadunidense, mesmo tendo escrito boa parte de sua obra no Brasil. Ela foi uma expatriate. Para nós, brasileiros, isso pode significar tanto que a poeta escreveu à moda de Gonçalves Dias, cantando das aves que gorjeiam melhor nas terras ianques, como também que Bishop arquitetou uma construção sensorial da vivência no estrangeiro, passando a declarar sua ligação com o Outro geograficamente, como o faz em “One Art” (1979):

Uma Arte

[...]
Perdi duas cidades, adoráveis. E, pior,
uns reinos que tive, dois rios, um continente
Saudades, mas não fora um dissabor
[...]

[...]
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent
I miss them, but it wasn’t a disaster
[...]

Assim como Bishop, MacLeish não pode ser lido como apenas um poeta do exílio. Além de ambos terem mesclado o eu-lírico exilado, o estrangeiro residente e o poeta na sua terra ao longo de toda sua produção, a comparação da trajetória pessoal com o desenvolvimento das personas na obra do autor não pode ser a única fonte de interpretação de um poema ou, melhor, de uma obra poética. A discussão sobre a confusão entre pessoa e persona é importante porque os poemas de MacLeish traduzidos aqui podem ser lidos, em alguma medida, como exemplares do cadafalso que encontramos quando lemos determinada obra poética considerando a biografia do poeta. Por mais hipócrita que pareça, faremos uma breve descrição histórica do autor, de modo que possamos evidenciar, considerando elementos textuais e paratextuais dos poemas escolhidos, que é possível, ainda que precariamente, demonstrar uma virtual unificação que resulta no poeta-persona, isto é, na inserção de elementos biográficos do autor na ação do eu-lírico.

MacLeish escreveu por bastante tempo. Seu primeiro livro saiu em 1915, tinha 23 anos. Com poucos intervalos mais longos, escreveu até 1980. Em 1983, foi publicada uma coletânea com suas cartas de 1907 a 1982, ano em que morreu. Em novembro de 1980, Macleish e outros coetâneos saíram em uma antologia na revista Poetry. Uma breve antologia reuniu poemas inéditos de MacLeish e de outros autores. MacLeish figurou ao lado de vários nomes, entre iniciantes e veteranos, como John Ciardi, Andrew Weiman, May Swenson, Leslie Fiedler e David Wagoner. A capa da edição ainda apresentava, em fonte menor, os nomes de Amy Clampitt, Tony Connor, Robert Dorsett, Josephine Jacobsen, Jack Matthews e Linda Pastan, além de resenhas feitas por Robert Pinsky e Ben Howard.

A Poetry é uma bem conceituada revista sediada em Chicago, Illinois. A revista publicou, desde 1912, inúmeros poetas, como os nomes acima bem exemplificam. Vários desses nomes, como Jacobsen, Connor, Howard, Pinsky e Swenson, eram ou passaram a ser badalados escritores nacionais. Outros, nem tanto. No trecho da edição de 1980 da Poetry disponível para visualização na internet, a microantologia de MacLeish recebeu duplo título. Da capa da edição consta o título “Cinco Poemas Perdidos (Five Lost Poems). Já na seção onde estão os poemas o título é “Cinco poemas dos anos 1920” (Five poems from the 1920s). Os dois títulos reafirmam o caráter de novidade dos trabalhos que ali figuram. São novidade porque ganharam público mais de cinquenta anos depois de ter sido escritos. Ao mesmo tempo, ambos os títulos da seleção se apresentam como marcas da reinvenção do poeta. Se ele de fato escreveu tais poemas nos anos 1920 e se eles realmente estavam perdidos, não faz diferença saber. A memória invocada pelos títulos é eficaz. Podemos conectar os cinco poemas perdidos à produção do poeta no mesmo período citado no outro título. Podemos, ainda, extrair dos poemas os estertores de memória do poeta no fim da vida. Os perdidos tanto podem ser fantasmas daquele passado, Paris inclusa, como podem ser de fato produtos do mesmo passado, recuperados pelo autor num ataque de autocomiseração pela própria escrita poética.

Os livros de MacLeish andam, ainda que na língua original, longe das estantes brasileiras não virtuais. A microantologia da Poetry serve como pretexto e vitrine para o autor. Este texto aqui também. Vamos a ela.

Vernissage

No dia da abertura do show de automóveis o bem-
Conhecido Presidente da República Francesa com seu
Alto escalão (com senadores) levantou do real trono
Na Grande Escadaria e se moveu sobre pés invibrantes
Desceu o Corredor Triunfal para a gradual aglomeração
Da fanfarra enquanto a quase inaudível batida
De suas válvulas de assento subia o ar e caía.

Os automóveis foram, contudo, indiferentes. Os mais
Caros modelos preservaram seu decoro, mas quatro
Citroens tossiram. Houve risos, assobios, gargalhadas
Mesmo a alta cilíndrica preta brilhante
Cartola do chefe de Estado dos Gaul-
eses não conseguiu impressionar. Não houve aplauso.

 

Vernissage

On the opening day of the automobile show the well-
Known President of the French Republic complete
In high body (with senators) rose from the royal seat
In the Grand Stair and moved on vibrationless feet
Down the Triumphal Aisle to the gradual swell
Of the brass band while the all but inaudible beat
Of his sleeveless valves rose in the air and fell.

The automobiles were however indifferent. The more
Expensive models preserved their decorum but four
Citroens coughed. There were giggles, cat-calls, guffaws
Even the shiny black cylindrical tall
Top hat of the chief of state of the Gall-
ic People failed to impress. There was no applause.

 

Nascimento eventual de Vênus

Levantada pelo mar
Pela sétima onda
Além do alcance do mar
Nos escombros de erva e de
Galho úmido
A ainda não anfíbia
Animalcula
Suspira e serpeia na praia
Reúne seus longos cabelos d’ouro sobre ela
E contempla com puros olhos
O mundo desconhecido

 

Birth of eventually Venus

Cast up by the sea
By the seventh wave
Beyond the sea reach
In the rubble of weed and
Wet twig
The not yet amphibious
Animalcula
Gasps and wiggles on the beach
Gathering her long gold hair about her
And gazing with pure eyes
Upon the unknown world

 

Poema

                   Quem de todos nós terá visto a
Nudeza?
Inclinando-se sobre as pedras lavadas do rio
A saia se enrola perto do joelho, os seios mostram

Aquilo, ou um braço arredado enquanto a porta fecha

Mas os colãs são animais deitados em folhas,
A barriga é secreta como tigres correndo sob raios do sol
Quem entre nós já viu essas meninas nuas mais do que vimos
A forma do vento sob a seda da soleira?

 

Poem

                   Who of us all have seen
Nakedness?
Leaning above the wash stones by the river
The skirt pulls close at the knee, the breasts show

That, or an arm withdrawn as the door closes

But the bare tights are animals lying in leaves,
The belly is secret as tigers running in sun ripple

Who among us have seen these nude girls more than we’ve seen
The wind’s shape under the silk in the doorway?

 

Projeto para uma estética
Subtítulo: Luar de um Homem

Sr. e Sra. Longfellow Little que
Desaprovavam o Picasso (tendo – o catálogo errou –
Permitido a si mesmos as emoções apropriadas a
O Guache de um Nu enquanto contemplavam O Esboço da Palavra
Inclinado Com Bananas) que desaprovavam
O Picasso (e não que Picasso fosse Moderno e não
Que Sr. e Sra. Little demorassem a se comover
Com Belas Artes – considerando que reconheceram o que

Era que os tinha comovido – mas como dizer que alguém deve
Admirar uma coisa senão quando puder dizer dela Isso é
Uma taça, Isso é uma moça? Como alguém poderia amar
O que pode ou não ser Importante?) Sr. e Sra.
Little que desaprovavam o Picasso compraram
Uma Natureza Morta. Dava para dizer o que é que estava Morta.

 

Project for an aesthetic
Sub-title: Moonlight of a Man

Mr. and Mrs. Longfellow Little who
Disapproved of Picasso (having – the catalogue erred –
Permitted themselves the emotions appropriate to
The Gouache of a Nude while beholding the Sketch of The Word
Prone With Bananas) who disapproved
Of Picasso (and not that Picasso was Modern and not
That Mr. and Mrs. Little were slow to be moved
By Good Work – provided they recognized what
 
It was they were moved by – but how could one tell if one ought
To admire a thing unless one could say of it This is
A glass, This is a girl? How could one love
What might or might not be Important?) Mr. and Mrs.
Little who disapproved of Picasso bought
A Still Life. One knew what a Life was of.

 

Poema dedicado ao avanço da aviação

Mas está tudo diferente agora. Eles já ajeitaram.
Eles dão prêmios a Artistas Autênticos.
Eles não põem Colley Cibbers{1} em seus compêndios.
Eles botam Homeros e Hacks{2} nos seus lugares.
(Dá para dizer quais as obras de Homero pela orelha)
Eles sabem os ordinários do que não é dela.
Eles nunca o sal e o açúcar misturaram -

Eles sabem demais. E quando tudo estiver pronto e dito,
Quando todas as romancistas mulheres e puras
Poetisas forem (se ainda há) carnes de verme cruas
E nomes em revistas, i.e., falecidos.
Nenhuma cria desconhecida terá coroa triunfal.
Mas hein! Não haverá Keatses que lhes faça mal!

(Notas:
1. Colley Cibber (1671-1757) foi um ator e diretor de teatro. Recebeu críticas por fazer adaptações ruins de peças de Molière e Shakespeare.
2. Hack pode ser referência a hack writer, isto é, um escritor que faz maus trabalhos ou escreve por encomenda. Seria uma anáfora ao nome citado anteriormente no poema. Entretanto, também pode se referir à escritora inglesa de livros infantis Maria Hack (1777-1844).)

Poem dedicated to the advancement of aviation

But that’s all different now. They’ve got it fixed.
They give the prizes to Authentic Artists.
They put no Colley Cibbers in their lists.
They know the Homers and the Hacks apart.
(You tell the works of Homer by the blurbs)
They know the bum ones from what’s not hers.
They never get the salt and sugar mixed -

They know too much. And when all’s done and said,
When all the lady novelists and neat
She-poets are (if worms still be) worm’s meat
And names in magazines, i.e., are dead.
No unknown kid will get laurel stem.
By Yee! They’ll have no Keatses crowding them!

(texto e traduções de Levi Freitas, poemas de Archibald MacLeish)

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