poesia, tradução

Alguns poemas da lírica de Goethe (1749 – 1832)

Goethe_(Stieler_1828)

Johann Wolfgang von Goethe é um daqueles nomes tão portentosos que eu não sei nem por onde começar a falar dele. Nascido em 1749 na Cidade Livre de Frankfurt e morto em 1832, podemos enxergá-lo como um dos últimos dos polímatas, tendo se envolvido não só com literatura (tanto em verso quanto em prosa e crítica), como ficou mais conhecido, mas também com biologia (especialmente botânica e anatomia), geologia (era fascinado por rochas) e física (teoria das cores), e chegou até a ser político. Numa postagem do mês passado sobre Victor Hugo, o Gontijo o inclui ao lado do grande autor francês como um desses canônicos que nós conhecemos, mas não lemos – digo, não em sua obra lírica, pelo menos. De fato, sua prosa, como a de Hugo, ainda é bastante lida (especialmente Os Sofrimentos do Jovem Werther, mas também Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister), e desde o século XIX temos algumas traduções já do seu Fausto, que vão desde a de António Feliciano de Castilho para a primeira parte (1800 – 1875, em domínio público, pode ser lida clicando aqui) até a tradução completa das partes primeira e segunda feita por Jenny Klabin Segall (1899 – 1967), reeditada recentemente pela editora 34, e os trechos traduzidos e comentados por Haroldo de Campos em seu Deus e o Diabo no Fausto de Goethe (1981). No entanto, para nós como brasileiros é difícil entender o peso que Goethe tem sobre a cultura alemã – tem ou então teve, em parte por conta da Segunda Guerra, quando a grande tradição germânica começa a ser mais questionada (em especial no tocante a uma certa visão comum sobre a literatura que a relacionava ao “cultivo de valores morais”… uma noção cujos problemas, desnecessário dizer, se tornaram então bastante evidentes), em parte porque, para bem ou para mal, nenhum país do ocidente está livre da influência da indústria cultural. Walter Benjamin, por exemplo, conhecia a obra do poeta de trás para frente e o comenta em ensaios e em várias de suas correspondências. Para o historiador da arte Erich Gombrich, a tradição alemã da Bildung é nada menos que “o legado que chega até nós vindo de Goethe”, e mesmo para as comunidades judaicas em geral da Alemanha e da Áustria (entre os que não haviam sido batizados), Goethe era um nome importante, porque simbolizava a adesão dos judeus de classe média-alta à Kultur alemã. Ele chegava, inclusive, a ser citado pelos rabinos em seus sermões.

Os nossos românticos por aqui o leram com atenção, sobretudo Gonçalves Dias (as pessoas nem sempre lembram, mas a famosa “Canção do Exílio” tem uma epígrafe em alemão tirada da canção de Mignon em Wilhelm Meister) e Álvares de Azevedo (o que talvez não agradaria o próprio Goethe, que, apesar de ser considerado um romântico, era no fundo um classicista, e já condenou o tipo de poesia tal como seria feita pelos ultrarromânticos como “poesia de hospital”). Fora isso e uma ou outra alusão esporádica (como em “Paisagem nº 3″ de Mário de Andrade, que alude ao poema do Rei de Tule, que é uma canção que faz parte do Fausto, mas também funciona como um poema à parte), a lírica de Goethe me parece algo distante do nosso universo de referências – tanto que encontrar volumes de traduções de poemas curtos é por si já algo raro. Fora a Trilogia da Paixão, traduzida por Leonardo Fróes (L&PM), eu achei um livro da editora Átomo, chamado Poesias escolhidas, organizado por Samuel Pfromm Netto. É dele que retiro então as traduções que estou compartilhando neste post. No caso, a edição não é um livro organizado por um autor que selecionou e traduziu pessoalmente todos os poemas, mas uma coletânea de traduções de diversos outros tradutores, com alguns poucos sendo recorrentes, incluindo o próprio Pfromm Netto. De um ponto de vista de projeto de tradução, essa composição é meio problemática, porque assim não há uma unidade nos métodos aplicados – usar rima x não usar rima (ou quais tipos de rima usar), qual metro em português equivale a qual metro alemão, etc – mas, bem, acho que isso é sintomático do problema maior da falta de traduções de Goethe. No mais, para quem não está familiarizado com o poeta, essa ediçãozinha (algo difícil de encontrar… tem só cinco edições na Estante Virtual agora, por exemplo) é bastante útil. Ele conta com um ensaio introdutório, uma breve biografia, uma nota sobre cada poema selecionado e até uma musicografia, listando obras musicais inspiradas pelo poeta (que se estende por mais de 30 páginas, a maioria de compositores alemães, o que dá alguma ideia do tamanho de sua influência no mundo germânico).

Dito isso, escolhi aqui alguns dos poemas selecionados por Pfromm Netto, muitos deles bastante famosos, de modo a poder fazer algo como uma pequena apresentação para quem, como eu (confesso), não conhece muito dessa faceta goethiana. Eu gostaria de ter incluído também “O aprendiz de feiticeiro” (sim, o que inspirou o compositor Paul Dukas a escrever uma peça sinfônica de mesmo nome, que foi popularizada pelo filme Fantasia, da Disney), bem como o poema “Prometeu”, que provavelmente serviu de inspiração para poetas como Byron e Shelley explorarem o mesmo tema, mas são ambos poemas mais longos e que merecem sozinhos uma discussão à parte e assim eu achei melhor aqui me concentrar na lírica curta.

Adriano Scandolara

(“König in Thule”, musicado por Franz Schubert)

 

Canção do rei de Thule

Houve um rei de Thule, que era
mais fiel do que nenhum rei.
A amante, ao morrer, lhe dera
um copo de oiro de lei.

Era o bem que mais prezava
e mais gostava de usar:
e quanto mais o esvaziava
mais enchia de água o olhar.

Quando sentiu que morria,
o seu reino inventariou,
e tudo quanto possuía,
menos o copo, doou.

Depois, sentando-se à mesa,
fez os vassalos chamar
à sala de mais nobreza
do castelo, sobre o mar.

E ele ergue-se acabrunhado,
bebe o último gole então
e atira o copo sagrado
às ondas que em baixo estão.

Viu-o flutuar e afundar-se,
que o mar o encheu de seus ais.
Sentiu a vista enevoar-se:
E não bebeu nunca mais!

(trad. de Guilherme de Almeida)

 

Der König in Thule

Es war ein König in Thule,
Gar treu bis an das Grab,
Dem sterbend seine Buhle
einen goldnen Becher gab.

Es ging ihm nichts darüber,
Er leert’ ihn jeden Schmaus;
Die Augen gingen ihm über,
So oft er trank daraus.

Und als er kam zu sterben,
Zählt’ er seine Städt’ im Reich,
Gönnt’ alles seinen Erben,
Den Becher nicht zugleich.

Er saß beim Königsmahle,
Die Ritter um ihn her,
Auf hohem Vätersaale,
Dort auf dem Schloß am Meer.

Dort stand der alte Zecher,
Trank letzte Lebensglut,
Und warf den heiligen Becher
Hinunter in die Flut.

Er sah ihn stürzen, trinken
Und sinken tief ins Meer,
die Augen täten ihm sinken,
Trank nie einen Tropfen mehr

 

Livro de leitura

O livro mais primoroso
É o livro do amor;
Eu o li com atenção:
Poucas folhas de alegrias,
Cadernos inteiros de dores;
Para a ausência, um parágrafo.
Reencontro! um curto capítulo,
Fragmentário. De mágoas, tomos inteiros
Repletos de explicações,
Sem término e sem medida.
Oh, Nisami! – Mas, no fim,
Achaste o caminho justo;
O insolúvel, quem o resolve?
Os que se amam e voltam a encontrar-se.

(trad. de Samuel Pfromm Netto)

 

Lesebuch

Wunderlichstes Buch der Bücher
Ist das Buch der Liebe;
Aufmerksam hab ich’s gelesen:
Wenig Blätter Freuden,
Ganze Hefte Leiden;
Einen Abschnitt macht die Trennung.
Wiedersehn! ein klein Kapitel,
Fragmentarisch. Bände Kummers
Mit Erklärungen verlängert,
Endlos, ohne Maß.
O Nisami! – doch am Ende
Hast den rechten Weg gefunden;
Unauflösliches, wer löst es?
Liebende, sich wieder findend.

 

Mar calmo

Tranqüilo, o mar não canta nem ondeia.
O nauta, imerso noutro mar de mágoas,
Os olhos tristes e úmidos passeia
Pela tranqüila quietação das águas.

A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta,
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta.

(trad. de Francisca Júlia)

 

Meeresstille

Tiefe Stille herrscht im Wasser,
Ohne Regung ruht das Meer,
Und bekümmert sieht der Schiffer
Glatte Fläche ringsumher.

Keine Luft von keiner Seite!
Todesstille fürchterlich!
In der ungeheuern Weite
Reget keine Welle sich.

 

Mignon

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro,
No céu azul perpassa a brisa num gemido,
A murta ne se move e nem palpita o louro…
Não a conheces tu? Pois lá… bem, longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

A casa, sabes tu? Em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
- Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu? Pois lá… bem, longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada…
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita…
Não a conheces tu? Pois lá… bem, longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!

(trad. de João Ribeiro)

 

Mignon

Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,
Im dunkeln Laub die Goldorangen glühn,
Ein sanfter Wind vom blauen Himmel weht,
Die Myrte still und hoch der Lorbeer steht?
Kennst du es wohl? Dahin!
Dahin möcht’ ich mit dir,
O mein Geliebter, ziehn.

Kennst du das Haus? Auf Säulen ruht sein Dach,
Es glänzt der Saal, es schimmert das Gemach,
Und Marmorbilder stehn und sehn mich an:
Was hat man dir, du armes Kind, getan?
Kennst du es wohl? Dahin!
Dahin möcht’ ich mit dir,
O mein Beschützer, ziehn.

Kennst du den Berg und seinen Wolkensteg?
Das Maultier such im Nebel seinen Weg,
In Höhlen wohnt der Drachen alte Brut;
Es stürzt der Fels und über ihn die Flut.
Kennst du ihn wohl? Dahin!
Dahin geht unser Weg!
O Vater, laß uns ziehn!

 

Noturno do viandante

Tu que lá dos céus promanas,
E aplacas todas as dores,
Que ao duplamente inditoso
Dobradamente consolas,
Cansadou estou desta lida!
Que sentido, acaso, tem
Nossa alegria e pesar?
Doce espírito da paz, vem,
Vem minha alma sossegar!

(trad. de Pedro de Almeida Moura)

 

Wandrers Nachtlied

Der du von dem Himmel bist,
Alles Leid und Schmerzen stillest,
Den, der doppelt elend ist,
Doppelt mit Erquickung füllest;
Ach, ich bin des Treibens müde!
Was soll all der Schmerz und Lust?
Süßer Friede,
Komm, ach komm in meine Brust!

 

Noturno do viandante [outro]

Sobre todos os cimos da montanha há paz,
Mal percebes uma aura pelas frondes;
Emudeceram, na mata, os passarinhos –
Espera, que, dentro em breve, também descansarás.

(trad. de Pedro de Almeida Moura)

 

Ein Gleiches

Über allen Gipfeln
Ist Ruh,
In allen Wipfeln
Spürest du
Kaum einen Hauch;
Die Vögelein schweigen im Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.

(poemas de Goethe, traduções retiradas do volume organizado por Samuel Pfromm Netto)

Padrão
poesia

Francisca Júlia (1871 – 1920)

francisca-julia

Talvez seja algo estranho que eu tenha tido contato pela primeira vez com a poesia da parnasiana Francisca Júlia (1871 – 1920) através do Tratado de Metrificação de Glauco Mattoso, onde o nosso célebre poeta/podólatra cita e comenta o seu soneto “Dança de Centauras”. Nascida na cidade de Xiririca (hoje Eldorado, em SP), como comenta Péricles Eugênio da Silva Ramos, pouco se sabe de sua biografia pessoal, além do que temos documentado sobre sua carreira (que começa no jornal O Estado de São Paulo, com um poema publicado em 6 de setembro de 1891), seu casamento e viuvez com Filadelfo Edmundo Munster, que contrai tuberculose em 1916 e morre da doença em 1920, ao que se segue o (presumido) suicídio da poeta. Deixou-nos uma obra pequena, porém digna de alguma atenção – tanto quanto de qualquer outro poeta da época, pelo menos.

Os episódios famosos de sua carreira envolvem a demonstração, nada anacrônica, diga-se de passagem, de machismo à brasileira por parte dos poetas que lhe foram contemporâneos. Severiano de Rezende, por exemplo, lhe sugerira: “Minha senhora, há ocupações mais úteis: dedique-se aos trabalhos de agulha”. Após ser publicada, em meados da década de 1890, no periódico A Semana, de Valentim Guimarães, o poeta e dramaturgo Artur de Azevedo também declara: “não acreditei [que esses versos] saíssem de mãos femininas”, e o mesmo pensou o poeta, crítico e filólogo João Ribeiro, que imaginou que fosse um caso de “mistificação” e atribuiu a autoria dos poemas à Raimundo Correia, aproveitando para publicar um poema em resposta sob o pseudônimo de Maria Azevedo, com a declaração: “Eu respondo a esta imaginária poetisa”.

Mas Francisca Júlia era bem real e mais tarde foi autora de dois volumes de poesia, Mármores (1895) e Esfinges (1903), além dos infanto-juvenis Livro da Infância (1899) e Alma Infantil (1912). O primeiro livro é considerado mais parnasiano, enquanto o segundo, além de reunir poemas do primeiro, apresenta novos poemas onde se nota influências simbolistas, por sua temática mais mística e contemplativa, por vezes chegando ao devocional, sobretudo nos poemas adicionados na segunda edição. Quem tiver algum grau de TOC com datas há de notar aqui a mínima diferença cronológica que separa o seu livro de estreia do de Olavo Bilac, Poesias (1888) – Bilac então tinha 23 anos, e Júlia, 17, publicando Mármores depois aos 24. Ele próprio, aliás, a elogia, e diz de seu português que era “o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura”. Bem, é um comentário que não diz muita coisa (antigo português remoçado? tipo, com renew? com botox?), mas é um elogio vindo do Bilac, ainda assim.

É complicado discutir qual a situação canônica de Francisca Júlia atualmente, em parte porque o próprio parnasianismo ainda existe como uma espécie de gigante antigo e anacrônico derrotado pela estética modernista – e que, justamente por ter sido uma estética dominante e porque as nossas sensibilidades já não batem, nem de longe, com as deles (e eu digo isso como alguém que passou as últimas semanas mergulhado nos sonetos do “Via Láctea”), não me parece que será revisto tão cedo. Mas pode ser que isso seja só impressão minha e que, de fato, talvez essa revisão não seja realmente necessária.

De qualquer modo, F. Júlia me parece em grau ter sido aceita já como um dos grandes nomes do nosso parnasianismo, e encontra-se o nome dela em sites de educação aqui e ali, e há alguns trabalhos acadêmicos disponíveis online (quem tiver interesse, pode consultar dois deles clicando aqui e aqui)… sua presença e disponibilidade, no entanto, ainda são bem reduzidas. O único volume de poemas dela publicado após sua morte é o Poesias, de 1961, organizado por Péricles Eugênio da Silva Ramos, que também é responsável pelo texto introdutório e notas. Só para exemplificar: neste momento, ao todo, há 30 livros de autoria dela na Estante Virtual (alguns sendo edições raras e caras como as das primeiras edições de Mármores e Esphinges), ao passo que uma procura por Olavo Bilac retorna 980 resultados. Também não me parece fácil encontrar sua obra completa disponível online para download, apesar de estar em domínio público.

Enfim, essas são questões inevitáveis de se ponderar ao entrar em contato com a poesia de Francisca Júlia, e, por isso, gostaria de compartilhar alguns de seus poemas abaixo, extraídos de ambos os seus livros, conforme constam em Poesias.

Adriano Scandolara

           

            poemas publicados pela primeira vez em Mármores:

Em Sonda

Quieta, enrolada a um tronco, ameaçadora e hedionda,
A boa espia … Em cima estende-se a folhagem
Que um vento manso faz oscilar, de onda em onda,
Com a sua noturna e amorosa bafagem.

Um luar mortiço banha a floresta de Sonda,
Desde a copa da faia à esplêndida pastagem;
O ofidiano, escondido, olhos abertos, sonda …
Vai passando, tranqüilo, um búfalo selvagem.

Segue o búfalo, só … mas suspende-lhe o passo O
ofidiano cruel que o ataca de repente,
E que o prende, a silvar, com suas roscas de aço.

Tenta o pobre lutar; os chavelhos enresta;
Mas tomba de cansaço e morre … Tristemente
No alto se esconde a lua, e cala-se a floresta …

           

Rainha das Águas

            a Alberto de Oliveira

Mar fora, a rir, da boca o fúlgido tesouro
Mostrando, e sacudindo a farta cabeleira,
Corta a planura ao mar, que se desdobra inteira,
Na esguia concha azul orladurada de ouro.

Rema, à popa, um tritão de escâmeo dorso louro;
Vão à frente os delfins; e, marchando em fileira,
Das ondas a seguir a luminosa esteira,
Vão cantando, a compasso, as piérides em coro.

Crespas, cantando em torno, as vagas, à porfia,
Lambem de popa à proa o casco à concha esguia,
Que prossegue, mar fora, a infinda rota, ufana;

E, no alto, o louro sol, que assoma, entre desmaios,
Saúda esse outro sol de coruscantes raios
Que orna a cabeça real da bela soberana.

           

A Noite

                  A Venceslau de Queiroz

Um vento fresco e suave entre os pinhais murmura;
A Noite, aos ombros solta a desgranhada coma,
No seu plaustro de crepe, entre as nuvens, assoma…
Tornam-se o campo e o céu de uma cor mais escura.

Um novo aspecto em tudo. Um novo e bom aroma
De látiros exala a amplíssima verdura.
Num hausto longo, a Noite, aos ares a frescura
Doce, entreabrindo a flor dos negros lábios, toma…

Por vales e rechãs caminha, passo a passo,
Atento o ouvido, à escuta… E no seu plaustro enorme
Cujo rumor desperta a placidez do espaço,

À encantada região das estreles se eleva…
E, ao ver que dorme o espaço e o mundo inteiro dorme,
Volve, quieta, de novo, à habitação da treva.

           

A Ondina

Rente ao mar, que soluça e lambe a praia, a ondina,
Solto, às brisas da noite, o áureo cabelo, nua,
Pela praia passeia. A alvacenta neblina
Tem reflexos de prata à refração da lua.

Uma velha goleta encalhada, a bolina
Rota, pompeia no ar a vela, que flutua
E, de onda em onda, o mar, soluçando em surdina,
Empola-se espumante, à praia vem, recua…

E, surdindo da treva, um monstro negro, fito
O olhar na ondina, avança, embargando-lhe o passo…
Ela tenta fugir, sufoca o choro, o grito…

Mas o mar, que espreitando-a, as ondas avoluma,
Roja-se aos pés da ondina e esconde-a no regaço,
Envolvendo-lhe o corpo em turbilhões de espuma.

           

À Noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar… De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebra descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso…

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma…

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

           

            poemas publicados pela primeira vez em Esfinges:

Dança de Centauras

Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga…
A dança hípica pára e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece…

           

Adamah

            A Júlia Lopes de Almeida

Homem, sábio produto, epítome fecundo
Do supremo saber, forma recém-nascida,
Pelos mandos do céu, divinos, impelida,
Para povoar a terra e dominar o mundo;

Homem, filho de Deus, imagem foragida,
Homem, ser inocente, incauto e vagabundo,
Da terra substância, em que nasceu, oriundo,
Para ser o primeiro a conhecer a vida;

Em teu primeiro dia, olhando a vida em cada
Ser, seguindo com o olhar as barulhentas levas
De pássaros saudando a primeira alvorada,

Que ingênuo medo o teu, quando ao céu calmo elevas
O ingênuo olhar, e vês a terra mergulhada
No primeiro silêncio e nas primeiras trevas…

           

Crepúsculo

Tôdas as cousas têm o aspecto vago e mudo
Como se as envolvesse uma bruma de incenso;
No alto, uma nuvem, só, num nastro largo e extenso,
Precinta do céu calmo a caris de veludo.

Tudo: o campo, a montanha, o alto rochedo agudo
Se esfuma numa suave água-tinta… e, suspenso,
Espalhando-se no ar, como um nevoeiro denso,
Um tom neutro de cinza empoeirando tudo.

Nest’hora, muita vez, sinto um mole cansaço,
Como que o ar me falta e a fôrça se me esgota…
Som de Ângelus, moroso, a rolar pelo espaço…

Neste letargo que, pouco a pouco, me invade,
Avulta e cresce dentro em mim essa remota
Sombra da minha Dor e da minha Saudade.

           

Natureza

Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas…

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.

           

(poemas de Francisca Júlia)

Padrão