poesia, tradução

Vincent Bounoure, por Natan Schäfer

Roberto Matta, Micheline e Vincent Bounoure, 1969 (arquivos Bounoure)

Depois de estudar na Escola de Minas de Nancy, Vincent Bounoure (Strasbourg, 1928 – Paris, 1996) recusou empregos em pesquisas industriais e militares e juntou-se ao grupo surrealista de Paris na primeira metade dos anos 1950 — grupo do qual ele faria parte até o fim de sua vida. Bounoure notabilizou-se tanto por sua atuação em âmbito internacional — contribuindo, inclusive, para a realização da XIII Exposição Internacional Surrealista organizada por Sergio Lima em São Paulo, em 1967 — assim como por ter sido um dos principais membros do grupo surrealista de Paris a posicionar-se contra sua autodissolução em 1969. Teve também uma intensa atividade militante e teórica — esta última parcela de sua produção pode ser encontrada nos volumes La Civilisation Surréaliste (et. al., Payot, 1976) e Moments du Surréalisme (L’Harmattan, 1999), este último publicado postumamente. Além disso, embora menos conhecida, deixou uma relevante obra poética, cuja edições são atualmente bastante raras e que encontra-se totalmente inédita em português.

Como podemos observar nesta breve seleta, os poemas de Bounoure são irrigados pelas mesmas veias e artérias que irrigaram sua vida: o maravilhoso, a alquimia, o coração selvagem, tudo associado ao viver para além do que é dado — sem concessões e submissões.

Os poemas aqui apresentados fazem parte dos volumes Talismans (Éditions Surréalistes, 1969), realizado em colaboração com o cubano Jorge Camacho; e Envers l’ombre (Éditions Surréalistes, 1965), o qual conta com ilustrações do canadense Jean Benoît e cuja tradução para o português será publicada no verão de 2021 pela Contravento Editorial.

Bom maravilhamento!

Natan Schäfer

* * *

Desenho que acompanha “A mão majestosa”

A mão majestosa

Pálida com a alva
Nos círculos das noites pesadas
A masmorra da sua luva de toupeira parda
Como a aparição da ladra de lágrimas.

(in: Talismãs, 1969; desenho por Jorge Camacho)

La main majestueuse

Pâle comme l’aube
Dans les cercles de la nuit lourde
Le donjon sort de son gant de taupe
Comme l’apparition de la voleuse de larmes.

(in: Talismans, 1969; dessins de Jorge Camacho)

§

Caos

Depois de massacrada nossa complacência
E enfiadas as garras na memória dos anjos,
Ela desceu portando pedras santas nas mãos.

A liberdade de rolar cabeças
Exatamente
Como a aurora desenrola uma cabeleira sobre as tumbas.

A hora de nácar,
Os bichos deslumbrados
Nos levam pela coleira,
Ela mais nua por ser longa e sob o ouro
A testa negra afogada,
Eu sem voz,
Abençoamos nossa despossessão.

Dobrem as apostas
Com belos soluços.

(in: Envers l’ombre, 1965; ilustrações de Jean Benoît)

Chaos

Une fois notre complaisance massacré,
Les griffes plantées dans la mémoire des anges,
Elle est descendue portant les pierres saintes dans ses mains.

La liberté fait rouler des têtes
Parfaitement
Comme l’aurore déroule une chevelure sur les tombeaux.

L’heure de nacre,
Les bêtes éblouies
Nous tirent à la chaîne,
Elles plus nue d’être longue et sous l’or
Le front noir noyé,
Mais sans voix,
Nous bénissons notre dépossession.

Doublez vos mises
De beaux sanglots.

(in: Envers l’ombre, 1965; illustrations de Jean Benoît)

§

Sem fôlego

A boca que ela traz na testa come uma pedra lunar.

A brasa ali selada.
O marfim é opaco aos disparos,
Os broches inalienáveis nas bainhas
Estão afivelados numa luminária inclinada.

A faísca pálida no gorjal
Jorra a cada esforço da vaga.

O ovo da galinha d’água despencado em seu peito
Eclode sob o buquê de pistache e o estrondo dos lustres
Rumo aos recifes.

(in: Envers l’ombre, 1965; ilustrações de Jean Benoît)

Hors d’haleine

La bouche qu’elle porte au front mange une pierre de lune.

La braise scellée là.
L’ivoire est opaque aux coups de feu,
Les broches inaliénables dans les ourlés
Sont bouclées sur une lampe inclinée.

L’étincelle pâle au gorgerin
Jaillit à chaque effort du flot.

L’oeuf de râle chu dans sa poitrine
Eclôt sous les gerbes de pistache et le fracas des lustres
Vers les brisants.

(in: Envers l’ombre, 1965; illustrations de Jean Benoît)

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea, tradução

“A pandemônia” de Leonardo Froés — paisagem sonoro-visual

No dia 25 de maio de 2020, Leonardo Froés publica no site da revista Quatro Cinco Um o poema “A pandemônia”. Inspirado pelo modo vertiginoso com que passeia pela cidade deserta e por seus espaços de morte e vida, ecoando as dinâmicas sociais que ali se jogam e sobre as quais reflete, traduzi-o em paisagem sonora, com o intuito de fazê-lo ecoar, inventando para ele ainda um ostinato no violão. O músico e arranjador João Marcondes aceitou o desafio e, a partir do poema declamantado ali, e das vozes que sobrepus, refez o violão, ao qual somou guitarra, baixo, sopros percussões e efeitos. Tudo mixado por ele a partir de nossas conversas e impressões. O todo foi então compartilhado com o poeta, designer gráfico e produtor de mídia André Vallias, que, a partir de imagens extraídas do noticiário da pandemia e algumas outras, tornou a paisagem visível, criando ainda um diagrama em que a voz é representada por ondulações e o fundo musical por uma linha pontilhada que vai gradativamente aumentando de altura.

Álvaro Faleiros

* * *

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Laís Reis (1988-2020)

Laís Reis (1988-2020). Nasceu em São Bernardo do Campo. Formada em Letras, Português e Latim Clássico, pelas Universidades de São Paulo e Coimbra. Participou da Cooperativa da Invenção: Poesia e Tecnologia (2017) e do Curso Livre de Preparação de Escritores (2019), ambos na Casa das Rosas em São Paulo.

* * *

1.
*Você morre*

Quando que não morre?
Lucky Strike Duchampignon pronto para refletir
entre um smoke e um strike que a poesia não salva o
mundo
mas salva
o minuto.

2.

eu quero a explosão, a antítese, a esquizofrenia desenfreada que dilata e retorce toda essa visão quadrada e empobrecida que nos é empurrada goela a baixo. eu quero toda a paleta de cores misturadas, sem nenhum sentido, cheia de incongruências e erros de estética e moda. eu quero subverter o belo até que o feio seja aplaudido de pé e ovacionado, e faça lágrimas caírem por ele. eu quero o sol na noite e a lua no dia. eu quero um jantar romântico no meio de um tiroteio, quero acender uma vela e rezar pra mim mesmo, quero subir tão alto até chegar embaixo novamente. e quero não saber de tudo e gozar do prazer de não opinar. na verdade, quero opinar sobre todos os assuntos, até mesmo os que eu não tenho o menor conhecimento, e depois pintar nas paredes da humanidade o inverso do que eu disse. eu quero escrever livros sem palavra alguma, e gritar silêncios no meio de sessões de cinema. eu quero abrir o corpo e acreditar que em vez de ossos e vísceras, na verdade somos formados de poemas e confusões. e eu quero, ao mesmo tempo, o contrário de tudo isso que escrevi aqui. por que querer não é poder. na verdade, no meu universo tosco e em formação interminável, o Querer pega o Poder pelo colarinho e o esmurra até ele concordar em me ajudar. o meu Querer é foda.

3.

Se não podemos nos apoiar no ar pra evitar uma queda, por que a culpa seria do ar?
Se a queda é inevitável, que ao menos aproveitemos a experiência do corpo solto no ar
Um percurso estritamente reto é sempre de se desconfiar

tipos retos
não tropeçam
incapazes de alcançar
o chão

4.
como dentes-de-leões
 que morrem no soluço do vento 

 se me desfaço
 em pedaços
 saiba que não é
 para me fragilizar
 mas multiplicar

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poesia latinamericana, poesia norte-americana, tradução

Pedro Pietri thel Nuyorican, por Nina Rizzi

rev.-pedro

“Eu não posso salvar sua alma com religião; posso salvar sua vida com um preservativo”

Pedro Pietri foi poeta e dramaturgo. Nasceu em Ponce, Porto Rico em 1944 e foi criado em Manhattan. Poucos anos depois de se formar no ensino médio foi convocado para o Exército e serviu na Guerra do Vietnã. Após seu retorno a Nova York, Pietri se juntou ao Young Lords, um grupo ativista dos direitos civis de pessoas porto-riquenhas. 

Em 1973, co-fundou o Nuyorican Poets Café, onde jovens Nuyoricans (continue lendo para saber mais) que viviam na cidade de Nova York, podiam recitar sua própria poesia, bem ao estilo sarau. Nesse mesmo ano publicou Puerto Rican Obituary, seu poema épico mais conhecido.

Seus poemas, performances e peças teatrais frequentemente refletem fortes visões políticas e denunciam a opressão política e social dos Nuyoricans na sociedade estadunidense. Dessa maneira, inspirou jovens a escrever com orgulho de sua origem e cultura.

Publicou os livros: Illusions of a Revolving Door: Plays (1992), The Masses are Asses (1984), Traffic Violations (1983), Lost in the Museum of Natural History (1980), Invisible Poetry (1979), and Puerto Rican Obituary (1973), e os álbuns de poesia performática, Loose Joints e One Is a Crowd, além de ter seu trabalho foi amplamente antologizado. Faleceu em 2004.
*

Nuyorican é uma junção dos termos “New York” e “Puerto Rican” (como o que fiz com o thel ali no título, juntando “the” e “el”: o) e tem um significado muito amplo: se refere tanto às pessoas como a cultura da diáspora porto-riquenha vivendo no entorno ou à Nordeste de Nova York e seus descendentes (especialmente pessoas criadas ou ainda vivendo na área de New York); também é usado por Boricuas (pessoas porto-riquenhas nascidas e vivendo em Porto Rico há mais de duas gerações; boricua pode derivar de boricuá: “comer caranguejos”, no Arawak-lokono, que era como os povos originários Tainos caribenhos se chamavam, como também pode derivar de borinquén: antiga denominação indígena da atual ilha de Porto Rico, que significa “terras do bravo/ arrogante senhor”) para diferenciar pessoas nascidas em Porto Rico de seus descendentes que não vivem lá; pode ser utilizado ainda para se referir ao espanhol falado em Nova York por pessoas porto-riquenhas, onde se concentra a maior comunidade porto-riquenha fora de Puerto Rico. Comunidades porto-riquenhas em outras cidades cunharam termos semelhantes, incluindo “Philly Rican” para quem está na Filadélfia, e “Chi-Town Rican” para quem está em Chicago.

A história e cultura de Porto Rico no Lower East Side, conhecida por grande parte da sua comunidade porto-riquenha como Loisaida, é longa e extensa. Do início de 1400 ao final de 1800, Porto Rico foi escravizado pela Espanha. Com autonomia concedida em 1897, foi autorizado pela coroa espanhola a eleger e imprimir sua própria moeda por um ano como território, mas em 1898, os EUA assumiram o controle do território, de quem eram dependentes da cana-de-açúcar e do café. Em 1910, o governo estadunidense começou a temer um levante e a fim de evitar que Porto Rico fosse independente, impuseram com a Lei Jones-Shafroth, de 2 de Março de 1917, a cidadania dos EUA para praticamente todas as pessoas porto-riquenhas, obviamente sem querer saber o desejo das pessoas reais que tinham uma ligação ancestral com a ilha. E como o país praticava a monocultura da de cana-de-açúcar e não permitia outro tipo de produção, as pessoas começaram a passar fome, ficando sem escolha sobre não deixar a ilha em busca de uma vida melhor nos EUA.

Porto-riquenhos começaram então a migrar para lugares como Nova York, especificamente para enclaves porto-riquenhos, como Lower East Side, San Juan Hill e Spanish Harlem, criando uma nova identidade, cultura e modo de vida. O período é conhecido como a Gran Migración que se acelerou nos anos 1940 e 1950 e diminuiu no final dos anos 1960, justamente quando a monocultura já não era tão forte na ilha. Muitos Nuyoricans são da segunda e terceira geração de porto-riquenhos-estadunidenses cujos pais ou avós chegaram na área metropolitana de Nova York durante a Gran Migración

Dentre as inúmeras consequências nas vidas de Nuyoricans em Nova Iorque, está o próprio desenraizamento de seus pares: algumas pessoas nascidas em Porto Rico não consideram que Nuyoricans sejam porto-riquenhos de verdade por causa de suas diferenças culturais e usam o termo de forma depreciativa, para descrever porto-riquenhos assimilados à cultura estadunidenses, ou “nascidos na ilha americanizada”: pessoas de ascendência porto-riquenha, que em grande parte perderam o contato com sua cultura tradicional, mesmo que ainda se identifiquem com Puerto Rico. 

Embora o termo tenha conotações negativas para alguns, é orgulhosamente usado por membros desta comunidade para se autoreferenciar, identificar sua história e filiação cultural a um ancestral comum ao serem separados da ilha, tanto física como através da linguagem e mudanças culturais. Esta distância criou uma dupla identidade que, mesmo se identificando com a ilha, reconhecem as influências tanto da geografia como da “assimilação cultural” que tiveram. 

O Dicionário Oxford de Inglês cita que a palavra evoluiu lentamente através do último terço do século XX, com a primeira referência feita pelo poeta Jaime Carrero usando neorriqueño em 1964, como sendo um adjetivo combinando neoyorquino e puertorriqueño de língua espanhola. Já Nuyorican data das primeiras sessões públicas do Nuyorican Poets Café, fundado em 1973, como um meio de validar a experiência porto-riquenha nos EUA, especialmente para pessoas pobres e da classe trabalhadora que sofriam marginalização, falta de perspectivas e discriminação. Assim, o termo originado e usado como um insulto foi reclamado por artistas que transformaram seu significado (como também foi feito com o boricua), o transformando em movimento artístico. 

Alguns dos mais conhecidos Nuyoricans que têm escrito sobre suas experiências na literatura são: Bimbo Rivas, Giannina Braschi, Lucky Cienfuegos, Miguel Algarín, Miguel Piñero, Piri Thomas, Richard August, Sandra Maria Esteves, Willie Colón e Pedro Pietri, e mais recentemente Bonafide Rojas, Caridad de la Luz (La Bruja), Edwin Torres, Emanuel Xavier, Flaco Navaja, JL Torres, Lemon Andersen, Nancy Mercado e Willie Perdomo. As organizações atuais incluem a The Acentos Foundation sediada no Bronx, que publica poesia, ficção, memórias, entrevistas, traduções e obras de arte de escritores e artistas latines emergentes e consagrados através da The Acentos Review e da Capicu  Cultural Showcase com sede no Brooklyn, onde produzem poesia ao vivo e eventos culturais inspirados nas tradições originais dos Poetas Nuyoricans desde 2007.
*

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um passante, harlem español

há alguns anos tenho me debruçado em questões de dupla/ múltipla identidade na poesia, pesquisado poetas que trabalham essas questões, fazendo assim uma “teoria poemática da identidade”. o desejo não é apenas por puro conhecimento: meu bilinguismo ou poliglotismo é aquele do chaves del ocho: uma troglodita, dançando com uma diferensa derridiana “não posso ter senão uma uma língua, ora ela não é a minha”.

i mean/ es decir/ intendo/ digo: uma dificuldade de dizer: o espanhol soa bem, mas muitas vezes não deixa de ser um portuñol, assim como o italiano é macarrônico, o inglês é quebrado, e, são sufocantes as expectativas e exigências do “falar bem a língua”, fazer desaparecer o sotaque, como se todes não tivéssemos sotaque dentro de nossas próprias comunidades y, dentro delas mesmas não nos quisessem rasurar/ apagar – deve ser alguma rebeldia interna, por exemplo, que depois de quase quinze anos morando no ceará, ainda puxo o erre no sotaque como a boa caipira que também sou (sotaque odiado por paulistinhas que inúmeras vezes me solicitaram que “anulasse” para fazer uma peça, por exemplo, da mesma maneira que me solicitavam para emagrecer se quisesse mesmo fazer determinado papel); e lembro bem de quando vim pra cá e minha filha ainda era bebê de colo e alguns diziam “não deixe ela pegar aquele sotaque horrível”. isso não é nada perto do que nordestines ouvem no sul/sudeste, argelines na frança, latines nos EUA… opa, um mano ou uma mona das quebradas falando gíria nas áreas nobres da cidade.

lo que pasa é que mesmo suprimindo artigos & fazendo redundâncias bleed blooding/ sangrando sangue deixamos de conversar em inglês; mismo hablando, no hablamos con nuestres hermanes; mesmo capiscando bem o italiano, deixamos de oferecer um bom spaghetti alphabetti; mesmo falando “o português gostoso do brasil”, deixamos de dizer/ escrever – a língua paterna castra, a língua materna castra, falantes me castram, eu me castro y no soy fidel. e a cada vez que alguém não “fala errado” comigo, uma vontade absurda de “falar errado”, que quer dizer simplesmente falar, vai se calando aqui também. so sad. somos um povo excluído também linguisticamente.

but/ pero/ ma/ mas: as pessoas sempre escreveram, até mesmo sem suas línguas, e inclusive sobre a opressão da língua que não é senão a opressão do sistema. uma poeta que tratou sobre o assunto e que já colou por aqui é Glória Anzaldúa, e dentre essas milhares de pessoas também Pedro Pietri e uma comunidade imensa de latines vivendo sob essa opressão nos EUA – e no reino desunido, frança, alemanha, enfim, no mundo branco todo errado.

maybe/ quizás/ forse/ talvez; na verdade muito provavelmente: esta é a primeira postagem de uma série de traduções de poemas/ poetas que tratam do tema. ulálá. e que quero muito, quero muito de verdade falar – falar como quem sussurra quando ama, grita quando tem raiva, geme quando tem desejo, desarticula quando lê poemas; como uma criança que não tem medo de falar porque está na fase pré-silábica, como um bicho que uiva. com toda força y beleza da minha língua troglodita.
*

Obituário Puertorriqueño é um épico e é uma performance, apresentando temas destrinchados nas próximas estrofes e com entradas fantasmático-irônicas “rise table rise table” – que escolhi traduzir como “levanta a mesa” sugerindo tanto a coisa sobrenatural como o jogo de roleta, quer dizer, fantasma que se diverte.

nesta poema o poeta faz moderado uso do spanglish/ espanglês, sendo a maior parte dos versos escritos em inglês; no espanhol temos as expressões “Mira Mira”, “Que Pasa” (sem o acento no qué, que acentuei, marcando o espanhol), “Como Esta Usted” (também sem acento no cómo, que acentuei), “gringos”, e na última estrofe, quando já não se refere aos EUA usa em diversos versos o “Aqui”, ao invés de “Here” – e num desses versos “Se Habla Español” -, obviamente mantive o aqui porque o correspondente em português brasileiro é o mesmo. no entanto, para marcar esse “aqui” traduzi o verso “all the time”/ “o tempo todo”, como “todo el tiempo”. y, uma liberdade: embora o poeta use os gentílicos estadunidenses ao se referir a Porto Rico, e ao Harlem Espanhol, escolhi traduzir em espanhol e não manter em inglês ou, arre, verter para o brasileiro.

li e reli muitas vezes o poema em inglês antes de começar a fazer esta versão em brasileiro. e ouvi o poeta dizendo essa poema, esse grito, essa teoria, tudo isso que é tão poderoso (e que também não deixa de ser tão triste de verouvir porque as pessoas muitas vezes parecem alheias, como se poetas fossem vendedores de perfumes, ou pior: vendedores das palavras de um deus que não existe com suas igrejas e comércios), tentando pegar ali o ritmo não só da palavra escrita, mas sua spoken poetry/ poesia falada, que lembra tanto o que vemos hoje em saraus e slams – e por isso o vídeo antecede a tradução. dessa maneira, li e reli também a versão em voz alta muitas vezes, tentando encontrar esse ritmo-manifesto. e assim está, como sempre, for a while/ por ahora/ per un po/ por enquanto.

nina rizzi

*


OBITUÁRIO PUERTORRIQUEÑO

Trabalharam
Chegaram sempre na hora
Nunca se atrasaram
Nunca falaram pelas costas
quando foram insultados
Trabalharam
Nunca tiraram uma folga
que não estivesse no calendário
Nunca fizeram greve
sem permissão
Trabalharam
dez dias por semana
e só receberam por cinco
Trabalharam
Trabalharam
Trabalharam
e morreram
Morreram fodidos
Morreram endividados
Morreram sem nunca saber 
como brilha a entrada da frente
do first national city bank

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
passando suas dívidas
para o parente mais próximo
Todos morreram
esperando que o jardim do éden
abrisse novamente
sob nova direção
Todos morreram
sonhando com a américa
que lhes acordasse no meio da noite
gritando: Mira Mira
seu nome está no bilhete dos ganhadores da loteria 
de cem mil dólares
Todos morreram
odiando os mercados
que venderam carne de gato 
e arroz e feijão à prova de balas

Todos morreram esperando sonhando e odiando
Puertorriqueños mortos
que nunca souberam que eram Puertorriqueños
que nunca fizeram uma pausa nos dez mandamentos
para tomar um café
e MATAR MATAR MATAR 
os latifundiários de seus crânios partidos
e se comunicar com suas almas latinas

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Nas ruas em colapso nervoso
onde os ratos vivem como milionários
e as pessoas não conseguem viver
estão mortas e nunca estiveram vivas

Juan
morreu esperando seu número ser sorteado
Miguel
morreu esperando o cheque da previdência
para ir e vir e ir de novo
Milagros
morreu esperando que seus dez filhos
crescessem e trabalhassem
para que ela pudesse parar de trabalhar
Olga
morreu esperando um aumento de cinco dólares
Manuel
morreu esperando seu supervisor cair morto
para que ele pudesse ser promovido

É uma longa viagem
do Harlem Español
para o cemitério de long island
onde estão enterrados
Primeiro o trem
depois o ônibus
e a fria parada para o almoço
e as flores
que serão roubadas
quando o horário de visitas acabar
É muito caro
É muito caro
Mas elas entendem, eles entendem
Seus pais entenderam
É uma longa viagem sem fins lucrativos
do Harlem Español
para o cemitério de long island

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Todos morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
Sonhando
Sonhando com o queens
Bairro limpo, branco como lírio
Cena de Puerto Semricos
Casa de trinta mil dólares
Os primeiros spics[1] do bloco
Orgulhosos de pertencer a uma comunidade
de gringos que os querem linchados
Orgulhos de passar longe
da sagrada frase: Qué Pasa

Esses sonhos
Esses sonhos vazios
dos quartos de faz-de-conta
que seus pais deixaram
efeitos colaterais
dos programas de televisão
com a ideal
família branca americana 
com empregadas negras
e porteiros latinos
bem treinados –
para fazer todo mundo
rir de suas fuças
seus cobradores 
e as pessoas que representam

Juan
morreu sonhando com um carro novo
Miguel
morreu sonhando com novos programas antipobreza
Milagros
morreu sonhando com uma viagem para Puerto Rico
Olga
morreu sonhando com joias de verdade
Manuel
morreu sonhando com a loteria irlandesa

Todos morreram
como morre um sanduíche de herói
nos cantos do vestiário
meio-dia em ponto
número da previdência às cinzas
contribuições sindicais para poeira

E sabiam
que nasceram para chorar
e manter o emprego de coveiros
enquanto juram fidelidade
à bandeira que os quer destruídos
E viram seus nomes listados
na lista telefônica da destruição
E estavam treinando para oferecer
a outra face aos jornais
que pronunciaram seus nomes errado
que não entenderam seus nomes
e comemoraram quando a morte veio
e lhes roubou o último bilhete da lavanderia

Nasceram mortos
e morreram mortos
Está na hora
de visitar a irmã lopez novamente
a benzedeira número um
e negociante da roda da fortuna
no Harlem Español
Ela pode se comunicar
com seus parentes falecidos
por um preço razoável
Boas notícias são garantidas
Sobe A Mesa Sobe a Mesa
a morte não é muda e burra –
Quem te ama quer saber
o número certo para jogar
Deixe-os saber agora mesmo
Sobe A Mesa Sobe a Mesa
a morte não é muda e burra
Agora que seus problemas acabaram
e você não carrega o mundo nas costas
ajude quem que você deixou para trás
encontre a financeira paz de espírito 
Sobe A Mesa Sobe a Mesa
a morte não é muda e burra
Se acertamos o número 
todos os nossos problemas vão partir
e vamos visitar seu túmulo
em cada feriado prolongado
Quem te ama quer saber
o número certo para jogar
deixe-os saber agora mesmo
Nós sabemos que seu espírito é capaz
A morte não é muda e burra
SOBE A MESA SOBE A MESA

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Todos morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
Odiando lutando e roubando
quebrando as janelas uns dos outros
Praticando uma religião sem teto
O antigo Testamento
O novo testamento
de acordo com o meu evangelho
da receita interna
o juiz e júri e carrasco
protetor e eterno cobrador
Merda de segunda mão à venda
aprenda a dizer: Cómo Esta Usted
e vai fazer uma fortuna

Estão mortos
Estão mortos
e não vão voltar dos mortos
até que parem de negligenciar
a arte do seu diálogo –
por aulas de inglês quebrado[2]
para impressionar o senhor goldsteins –
que lhes garante emprego
como lavadores de pratos
porteiros mensageiros boys
operários empregadas domésticas balconistas
camareiras carregadores assistente de carteiro
assistente, assistente assistente
para o assistente do assistente
lavador de pratos assistente e automático
porteiros com sorrisos artificiais
pelos salários mais baixos de todas as eras
e fúria quando você pede um aumento
porque é contra a política da empresa
promover SPICS SPICS SPICS

Juan
morreu odiando Miguel porque Miguel
tinha um carro usado em melhores condições de dirigir
do que seu carro usado
Miguel
morreu odiando Milagros porque Milagros
tinha uma televisão em cores
e ele ainda não podia comprar uma
Milagros
morreu odiando Olga porque Olga
ganhou cinco dólares a mais no mesmo trabalho
Olga
morreu odiando Manuel porque Manuel
acertou seus números mais vezes
do que ela acertou seus números
Manuel
morreu odiando a todos 
Juan
Miguel
Milagros
e Olga
porque todos falavam um inglês quebrado
mais fluente do que ele

E agora estão juntos
no vazio do saguão principal 
Viciados em silêncio
Fora dos limites do vento
Confinados à supremacia dos vermes
no cemitério de long island
Este é o futuro bacana
a caixa de esmolas protestante
que falava tão alto e orgulhosa 

Aqui jaz Juan
Aqui jaz Miguel
Aqui jaz Milagros
Aqui jaz Olga
Aqui jaz Manuel
que morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
Sempre fodidos
Sempre devendo
Sem nunca saber 
que são pessoas bonitas
Sem nunca saber
a geografia de sua cor

PUERTO RICO É UM LUGAR LINDO
PUERTORRIQUEÑOS SÃO UMA LINDA RAÇA
Se apenas 
desligassem a televisão
e sintonizassem em sua própria imaginação
Se apenas 
usassem a supremacia branca das bíblias 
como papel higiênico
e fizessem de suas almas latinas
a única religião de sua raça
Se apenas 
voltassem à definição do sol
depois da primeira tempestade de neve mental
no verão de seus sentidos
Se apenas 
mantivessem seus olhos abertos
no funeral de seus colegas de trabalho
que vieram a este país para fazer fortuna
e foram enterrados sem cuecas

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
agora vão fazer suas próprias coisas
onde pessoas bonitas cantam
e dançam e trabalham juntas
onde o vento e o tempo miserável
são desconhecidos
onde você não precisa de um dicionário
para se comunicar com seu povo
Aqui
Se Habla Español
todo el tiempo
Aqui você saúda primeiro a sua terra 
Aqui não tem comercial do sabonete dial
Aqui todo mundo cheira bem
Aqui não se janta em frente a tevê
Aqui os homens e mulheres admiram o desejo
e nunca se cansam um do outro
Aqui o Qué Pasa é o poderoso o que está acontecendo 
Aqui ser chamado de negrito
quer dizer AMOR


[1] Um acrônimo para “Spanish Person In Custody” (pessoa hispânica/ latina sob custódia), e usado como  termo altamente ofensivo que se refere de forma depreciativa a uma pessoa latina de qualquer país ou território de língua espanhola da América Central, América do Sul ou Caribe.

[2] Broken english: Inglês incorreto ou mal estruturado, geralmente falado ou escrito por falantes não nativos; muitas vezes é referido de forma pejorativa contra estrangeiros.
*

PUERTO RICAN OBITUARY

They worked
They were always on time
They were never late
They never spoke back
when they were insulted
They worked
They never took days off
that were not on the calendar
They never went on strike
without permission
They worked
ten days a week
and were only paid for five
They worked
They worked
They worked
and they died
They died broke
They died owing
They died never knowing
what the front entrance
of the first national city bank looks like

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
All died yesterday today
and will die again tomorrow
passing their bill collectors
on to the next of kin
All died
waiting for the garden of eden
to open up again
under a new management
All died
dreaming about america
waking them up in the middle of the night
screaming: Mira Mira
your name is on the winning lottery ticket
for one hundred thousand dollars
All died
hating the grocery stores
that sold them make-believe steak
and bullet-proof rice and beans
All died waiting dreaming and hating

Dead Puerto Ricans
Who never knew they were Puerto Ricans
Who never took a coffee break
from the ten commandments
to KILL KILL KILL
the landlords of their cracked skulls
and communicate with their latino souls

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
From the nervous breakdown streets
where the mice live like millionaires
and the people do not live at all
are dead and were never alive

Juan
died waiting for his number to hit
Miguel
died waiting for the welfare check
to come and go and come again
Milagros
died waiting for her ten children
to grow up and work
so she could quit working
Olga
died waiting for a five dollar raise
Manuel
died waiting for his supervisor to drop dead
so he could get a promotion

Is a long ride
from Spanish Harlem
to long island cemetery
where they were buried
First the train
and then the bus
and the cold cuts for lunch
and the flowers
that will be stolen
when visiting hours are over
Is very expensive
Is very expensive
But they understand
Their parents understood
Is a long non-profit ride
from Spanish Harlem
to long island cemetery
Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
All died yesterday today
and will die again tomorrow
Dreaming
Dreaming about queens
Clean-cut lily-white neighborhood
Puerto Ricanless scene
Thirty-thousand-dollar home
The first spics on the block
Proud to belong to a community
of gringos who want them lynched
Proud to be a long distance away
from the sacred phrase: Que Pasa

These dreams
These empty dreams
from the make-believe bedrooms
their parents left them
are the after-effects
of television programs
about the ideal
white american family
with black maids
and latino janitors
who are well train—
to make everyone
and their bill collectors
laugh at them
and the people they represent

Juan
died dreaming about a new car
Miguel
died dreaming about new anti-poverty programs
Milagros
died dreaming about a trip to Puerto Rico
Olga
died dreaming about real jewelry
Manuel
died dreaming about the irish sweepstakes


They all died
like a hero sandwich dies
in the garment district
at twelve o’clock in the afternoon
social security number to ashes
union dues to dust

They knew
they were born to weep
and keep the morticians employed
as long as they pledge allegiance
to the flag that wants them destroyed
They saw their names listed
in the telephone directory of destruction
They were train to turn
the other cheek by newspapers
that mispelled mispronounced
and misunderstood their names
and celebrated when death came
and stole their final laundry ticket


They were born dead
and they died dead
Is time
to visit sister lopez again
the number one healer
and fortune card dealer
in Spanish Harlem
She can communicate
with your late relatives
for a reasonable fee
Good news is guaranteed
Rise Table Rise Table
death is not dumb and disable—
Those who love you want to know
the correct number to play
Let them know this right away
Rise Table Rise Table
death is not dumb and disable
Now that your problems are over
and the world is off your shoulders
help those who you left behind
find financial peace of mind
Rise Table Rise Table
death is not dumb and disable
If the right number we hit
all our problems will split
and we will visit your grave
on every legal holiday
Those who love you want to know
the correct number to play
let them know this right away
We know your spirit is able
Death is not dumb and disable
RISE TABLE RISE TABLE

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
All died yesterday today
and will die again tomorrow
Hating fighting and stealing
broken windows from each other
Practicing a religion without a roof
The old testament
The new testament
according to me gospel
of the internal revenue
the judge and jury and executioner
protector and eternal bill collector
Secondhand shit for sale
learn how to say Como Esta Usted
and you will make a fortune

They are dead
They are dead
and will not return from the dead
until they stop neglecting
the art of their dialogue—
for broken english lessons
to impress the mister goldsteins—
who keep them employed
as lavaplatos
porters messenger boys
factory workers maids stock clerks
shipping clerks assistant mailroom
assistant, assistant assistant
to the assistant’s assistant
assistant lavaplatos and automatic
artificial smiling doormen
for the lowest wages of the ages
and rages when you demand a raise
because 
is against the company policy
to promote SPICS SPICS SPICS

Juan
died hating Miguel because Miguel’s
used car was in better running condition
than his used car
Miguel
died hating Milagros because Milagros
had a color television set
and he could not afford one yet
Milagros
died hating Olga because Olga
made five dollars more on the same job
Olga
died hating Manuel because Manuel
had hit the numbers more times
than she had hit the numbers
Manuel
died hating all of them
Juan
Miguel
Milagros
and Olga
because they all spoke broken english
more fluently than he did

And now they are together
in the main lobby of the void
Addicted to silence
Off limits to the wind
Confine to worm supremacy
in long island cemetery
This is the groovy hereafter
the protestant collection box
was talking so loud and proud about

Here lies Juan
Here lies Miguel
Here lies Milagros
Here lies Olga
Here lies Manuel
who died yesterday today
and will die again tomorrow
Always broke
Always owing
Never knowing
that they are beautiful people
Never knowing
the geography of their complexion

PUERTO RICO IS A BEAUTIFUL PLACE
PUERTORRIQUENOS ARE A BEAUTIFUL RACE
If only they
had turned off the television
and tune into their own imaginations
If only they
had used the white supremacy bibles
for toilet paper purpose
and make their latino souls
the only religion of their race
If only they
had return to the definition of the sun
after the first mental snowstorm
on the summer of their senses
If only they
had kept their eyes open
at the funeral of their fellow employees
who came to this country to make a fortune
and were buried without underwears

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
will right now be doing their own thing
where beautiful people sing
and dance and work together
where the wind is a stranger
to miserable weather conditions
where you do not need a dictionary
to communicate with your people
Aqui
Se Habla Español
all the time
Aqui you salute your flag first
Aqui there are no dial soap commercials
Aqui everybody smells good
Aqui tv dinners do not have a future
Aqui the men and women admire desire
and never get tired of each other
Aqui Que Pasa Power is what’s happening
Aqui to be called negrito
means to be called LOVE

*

Padrão
poesia, sessão vagalume, tradução

Sessão Vagalume | Collana Gialla, por Prisca Agustoni

Há sete anos, a editora italiana Lietocolle publica, em parceria com o prestigioso festival literário Pordenonelegge (www.pordenonelegge.it), que ocorre todo ano no mês de setembro, uma coleção de poesia, “la gialla” (a amarela). Incialmente pensada para lançar ao público novas vozes da poesia italiana contemporânea, ao longo dos anos as edições ganharam também uma coleção paralela, “la gialla oro” (a ouro), que reúne trajetórias mais maduras e notas na cena poética italiana.
A coleção amarela “jovem” – que sempre é lançada em ocasião do festival literarário – tem hoje um público de leitores e críticos que confiam nas escolhas editoriais realizadas ano após ano, e que já lançou livros de poetas como Maria Borio, Laura Di Corcia, Laura Pugno, Azzurra d’Agostino, Tommaso Di Dio, alguns deles já traduzidos aqui na sessão Vagalume, outros a caminho.

Aproveitando a proximidade do festival Pordenonelegge, que este ano vai acontecer entre 16 e 20 de setembro na cidade italiana de Pordenone, a revista Escamandro propõe na sessão Vagalume a tradução de poemas de três dos quatro poetas escolhidos esse ano pela Editora para lançar seus livros. São Alberto Cellotto, Giorgia Esposito e Luca Bresciani. O quarto nome escolhido para este ano para publicar com a Gialla é esta que vos escreve que traduz, cuja obra se encontra com maior facilidade no Brasil, publicada pelas editoras nacionais.

* * *

Alberto Cellotto (1978_)

Alberto Cellotto (Treviso, 1978) vive em Maserada sul Piave. Trabalha como responsável de comunicação numa empresa de produtos esportivos. Publicou os livros de poesia Vicine scadenze (Zona, 2004, com uma nota de Antonio Turolo, prêmio APS de Pordenonelegge), Grave (Zona, 2008, com um prefácio de Fabio Franzin) e Pertiche (La Vita Felice, 2012, prefácio de Gian Mario Villalta). È Traduziu Gore Vidal, Stewart O’Nan e Frank Norris para a editora Fazi e Amos Edizioni. Colaborou com diferentes revistas e agora escreve no blog Librobreve.

La decenza comune. Lietocolle-Pordenonelegge, 2002.

1.

Un uomo va a mangiare e un altro ha già
mangiato. Un parcheggio pieno serve bene
a diseredare la speranza. Le porte e gli spifferi
sono premute dai colori caldi, in fronte una donna
ha i nomi che non mangia, quello che non assaggia.

Um homem vai comer e outro já
comeu. Um estacionamento cheio serve bem
para deserdar a esperança. As portas e as brisas
são carregadas pelas cores quentes, na testa uma mulher
tem os nomes que não come, aquilo que não saboreia.

2.

Bene bene, nel libero spazio che si può calcare, nel poco
onore, negli ultimi miti titolati, una volta a crociera
può deviare il respiro e rimandare il giorno la gioia
e l’astratto avanti e indietro, giù su per lo schermo.
In tutto ho fatto poca strada ma non pensiamoci.

Muito bem, no livre espaço que é possível pisar, na pouca
honra, nos últimos mitos titulados, uma abóbada em cruzeiro
pode desviar a respiração e reenviar o dia a alegria
e o abstrato, para frente e para atrás, acima abaixo da tela.
Em geral andei pouco caminho, mas melhor não pensar nisso.

* * *

Giorgia Esposito (1995_)

Giorgia Esposito (Napoli, 1995) é formada em Letras Modernas com especialização em Filologia Moderna pela Universidade dos estudos de Nápoles Federico II. Tem poemas publicados em diferentes revsitas e integra a redação da revista Inverso-Giornale di Poesia. Seu livro publicado pela Amarela é sua estréia.

Smarginature. Lietocolle-Pordenonelegge, 2020.

1.

La pelle si sgrana e l’acqua non purifica,
non ripara, non è più ritorno vitale:
corpo lattiginoso reclama muto.
È sempre stata questa la fronte,
le mani, questo il neo sul collo.
Non potrei giurarlo.
L’oblio non è definitivo

……………….spuntano bestie
……di un tempo premitico
…..sulle facce dei pendolari.

Fere-se a pele e a água não purifica,
não repara, já não é retorno vital:
corpo leitoso mudo reclama.
Sempre foi essa a fronte,
As mãos, esta pinta no pescoço.
Não poderia jurar.
O esquecimento não é definitivo

Surgem feras………………..
de um tempo pré-mítico…..
no rosto dos trabalhadores.

2.

Spiegarono, grosso modo così.
Quello di sua figlia è
uno spettro di ereditarietà
mal smaltito. Un principio
di psicosi. Ne soffriva anche
la zia, il padre, il fratello.
È ormai certo che un giorno
sfidò il buio come un gran
nemico, seminando il piscio
come acqua santa. Quando
la notte, al Grimaldi, la sana,
la madre, le restò a fianco,
capì quanto il principio
possa essere uno scandalo.

Explicaram, mais ou menos assim.
O da sua filha é
um espectro de hereditariedade
mal filtrado. Um princípio
de psicose. Também sofria disso
a tia, o pai, o irmão.
É coisa certa que um dia
desafiou o escuro como grande
inimigo, semeando o mijo
como água santa. Quando
de noite, no Grimaldi, a sã,
a mãe, ficou do lado dela,
soube quanto o princípio
possa ser um escândalo.

* * *

Luca Bresciani (1978_)

Luca Bresciani (Pietrasanta, 1978) publicou os livros Lucertola (Edizioni del Leone 2011), Modigliani (LietoColle 2015), L’elaborazione del tutto (Interno Poesia 2017) e Canzone del padre (LietoColle 2018). Na Itália tem poemas publicados em diferentes revistas online, como Poetarum Silva, Atelier Poesia, Interno Poesia, Perigeion, Poesia del nostro tempo, Laboratori Poesia, I poeti sono vivi e nos jornais la Repubblica.
Linea di galleggiamento foi entre os ganhadores do prêmio Guido Gozzano 2019 e Anna Osti 2019 sessão “livro inédito”.

Linea di galleggiamento. Lietocolle-Pordenonelegge, 2020.

1.

Un rettangolo di cotone
tra il legno e la fame
e nutrirsi senza strozzare con le mani
è ricomparire dalla parte degli uomini.

Due volte in un giorno
la memoria diventa indirizzo
e sono le briciole ai lati dei piatti
il numero civico dei nostri ritorni.

Um retângulo de algodão
entre a madeira e a fome
e nutrir-se sem engasgar com as mãos
é reaparecer ao lado dos homens.

Duas vezes no mesmo dia
a memória se faz endereço
e as migalhas contornando os pratos
são o número cívico de nossos retornos.

2.

Svegliarsi con luoghi abbandonati
all’estremità dei polsi
e l’erba nei corridoi delle vene
è sindrome del tunnel carpale.

Penso a un’usura per sottrazione
nello stallo di chi si astiene
e la natura violata delle braccia
di notte ci riconsegna alla terra.

Despertar com lugares abandonados
na extremidade dos pulsos
e a grama nos corredores das veias
é a síndrome do túnel carpal.

Penso na usura por subtração
no impasse de quem se abstém
e a natureza violada dos braços
de noite nos devolve à terra.

 

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5 poemas de Rodrigo Lobo Damasceno

Rodrigo Lobo Damasceno nasceu em Feira de Santana (ba), em 1985, e vive em São Paulo desde 2011. Escreve poemas, contos, romances e ensaios. Às vezes, traduz. Junto com a artista Camila Hion, edita textos e imagens pelo selo treme~terra, onde atua também como artesão e feirante. Ao lado de Fabiano Calixto, Natália Agra e Tiago Guilherme Pinheiro, faz a revista de poesia Meteöro.

imitação de bolaño (com enrique verástegui)

Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita

Paulo Colina

A noite amplamente ruidosa de São Paulo abre a boca
e um rapaz de 30 e poucos se inclina outra vez
sobre as ruas, observando, sem piscar os olhos, os motoboys
e os assassinatos, os mendigos velhos e os acidentes de carro,
as peixeiras e os atropelamentos – que, tipo uma plateia,
cercam o karaokê da Consolação, suas fronteiras ambíguas
(onde ele, vestindo calças jeans, botas e camiseta branca,
outra vez saúda uma garota de piercings e olhos brilhantes).

E os corpos tristes passam de mão em mão pela mesa
cheia de fumaça e de conversas nostálgicas de desempregados:
noites passadas numa Casa do Norte ou numa pizzaria perdida
em outra dimensão, agora inacessível apesar da degustação
das inflorescências andróginas do haxixe, contando
as linhas de cocaína que os anjos cheiravam (através
do murmúrio ele sente o contorno de vozes remotas vindo ainda
vivas de outras malocas, do Brás, Barra Funda, do Bixiga)
quando as palavras indicadas para saudar os jovens forasteiros
eram escolhidas entre os diversos letreiros luminosos
do centro enfumaçado de São Paulo: o escuro das esquinas
e certa elegância nos gestos dos seus sonâmbulos,
ou em sua clara e rápida forma de amar, fumar e matar
que o rapaz quer estudar antes de amar, fumar e morrer.

§

redescobrimento

1.

abancado à escrivaninha em são paulo
no meu quarto de pensão da rua iquiririm
cochilo – o queixo bate no peito de tanto cansaço
e me dou um susto
trabalhei o ano inteiro
ganhei pouco
gastei muito na feira hoje de manhã
(bananas da terra maiores do que a minha esperança)
já já eu vou pra rua tomar cerveja na casa do norte
e ver as luzes e as gentes e os cães bem cuidados
as contas crescem
como os meus cabelos

2.

nem me lembro mais
quando descobri
que mário de andrade
lá na barra funda
muito longe e antes de mim
(e que faz muito se deitou, está dormindo)
era baiano que nem eu.

§

correio da estação do brás (viola)

coração aberto aos analfabetos,
empregados da cptm,
maquinistas dos trens,
mestres de obra à beira da rua e da ruína,
os tocadores cansados de viola,
todos os baianos: os paraibanos e os maranhenses,
os fracassados e os que se deram bem,
os que só passaram e os que não voltaram nunca mais,

– eu era o correio da estação do brás –

§

vale do capão

acho que a gente poderia ficar por aqui
mesmo,
(…)
— namorar, dançar
forró
— espiar a lua crescer na

encosta da serra
Adão Ventura

a noite está mais baixa do que nunca,
cobriu a serra inteirinha com seu escuro
e daqui, dos calcanhares do morro,
enquanto tomo cachaça,
sinto esfriar meu cocuruto
(visto meu capote em torno dos azuis noturnos da vila e do vale)
a lua está cheia
e perdeu a melancolia das cidades
meu coração está cheio
e perdeu a melancolia das cidades
sinto o sono que um gavião já está dormindo lá na árvore
lembro que a subida da serra é um plágio da vida
e que o poema é um plágio da subida da serra

§

invocações

  1. do quintal

um corpo cheio de comida e memória
levado de um lado a outro pela rede
vislumbra
(no mato escuro próximo ao trópico de capricórnio)
dois ou três vaga-lumes
e volta de volta à vida em que ainda voavam
aos bandos de vinte e nove
e nas conchas de minhas mãos miúdas
lançavam suas luzes
verdes –

de longe, de óculos na cara
e cigarros hollywood no bico,
meu pai me espreita

  1. do caruru

um corpo azedo de suor e cheio de azeite
no bucho baixa às outras noites
de caruru – um
dos sete meninos escreve,
e os outros, soltos
na noite aberta e vermelha do continente,
sentem
(ao mesmo tempo)
os cheiros
de dendê, vatapá, pipoca –

caruru não há mais,
mas os meninos
(os sete, por sorte)
ainda voltam

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Poesia Brasileira Contemporânea

Liana Salles Monteiro

liana salles monteiro

Liana Salles Monteiro é formada em Rádio e TV pela UFRJ e hoje cursa mestrado em Comunicação e Cultura na mesma instituição. Já teve poemas publicados em antologias e editou com amigos a Revista Transversal, espaço de experimentação literária e poética. Na adolescência, passou bons dias cuidando de um blog dedicado à poesia, o “Teresa, a mulher das balas”.
*

Pensamentos sobre uma fotogravura de Thereza Miranda 

Parte I — Vento
em seu esforço de remover a inércia das folhas.
Há folhas?
Há verde.
A inscrição “Machu Picchu” remove as folhas e
em seu lugar
inculcam-se pedras.

Parte II — A invariabilidade de uma pedra
o que causa ao instante em que
se fotografa?
Capta-se
o movimento?
Capta-se
o salto quântico?
O reordenamento quase secreto dos minerais?

Parte III — Sais
de prata no filme fotográfico
à luz, remontam, a um só tempo:
ao olho do passado e à imagem
do futuro
(revelar é fazer surgir o que não existe?)

Parte IV — Soluções alcalinas
de um papel submerso
interrompidas
para o efeito de estampar o
vazio,
criar a impressão
de uma cidade aérea
a dois quilômetros
acima do mar.

Parte V — Recobrar o instante
na matriz encoberta 
(os pigmentos são verdes).
Fazer surgir nova excitação:
transpõe-se um instante a outro;
impressiona-se, assim, uma pedra
e depois outra — constrói-se
uma cidade.

Parte VI — Intervenções manuscritas
interpretam vazios e
empenham-se em não deixar que
o ácido, o impulso de completar-se
dilua o verde 
das pedras
em apenas
verde.

Parte VII — Vejo
Machu Picchu
ou seriam
os rastros dos átomos
a envelhecerem
sobre nova superfície?

*

Díptico 

O corpinho cansado
neste quadro

O corpinho cansado

Eu tenho nas mãos
o mapa dos museus

Eu tenho no rosto
um rosto cansado

O quadro é o quarto
no mapa dos museus

Eu paro e desejo:
se este quadro fosse meu

Eu deitaria no museu
Eu deitaria neste quarto

De pernas abertas
neste quadro

Eu seria, eu seria
uma mulher deitada

E você, deste quarto
seria 

eu
a contemplar 
um quadrado

*

Tríptico

Eu me lembro dois minutos
atrás eu me lembrava três
dias mais longe eu
fazia de conta que 
me lembro catava 
caquinhos do chão
de vidro eu 
estava cortada já
e não me lembrava 
não me lembrava eu 
não 
me lembro todos 
os dias 
de frente
pro espelho
eu lembro minha
mãe
no espelho minha 
mãe cortada 
na fotografia

*

Padrão
poesia, tradução

Judy Grahn, por Nina Rizzi

Judy Grahn January 1988 Oakland CA by Robert Giard

Judy Grahn nasceu em 1940 em Chicago, Illinois. Atualmente mora na Califórnia e leciona no California Institute of Integral Studies, no New College of California e no Institute for Transpersonal Psychology, onde ensina mitologia feminina e literatura antiga, Consciência Metafórica (uma filosofia criada por Grahn) e Parentesco Incomum – um curso que usa teorias de sua filosofia metafórica.

Filha de pai cozinheiro e mãe assistente de fotógrafa, Grahn contou que sua infância foi “numa cidade deserta do Novo México perto da fronteira infernal do oeste do Texas no fim dos anos 1950, economicamente pobre e espiritualmente deprimida”. Fugiu de casa aos dezoito anos, com uma estudante chamada Yvonne, a quem credita por abrir seus olhos para a cultura LGBT(QI). Logo depois, ingressou na Força Aérea dos Estados Unidos, mas aos 21 anos, recebeu dispensa militar por ser lésbica.

Grahn sofreu homofobia ao longo de sua vida, alguns dos episódios mais marcantes que conta foram: durante a adolescência quando fazia pequenos trabalhos para pagar o próprio colégio, quando tentava encontrar moradia e foi espancada por causa de suas roupas masculinas. “Esses solavancos me ensinaram tudo que precisava saber sobre a opressão das pessoas lésbicas e gays”, disse em uma entrevista.

Aos 25 anos, contraiu linforreticulose (doença da arranhadura do gato), que a deixou em coma. Depois de superar a doença, decidiu que a poesia seria sua aliada (embora escrevesse poesia desde os nove anos). Essa percepção também se deve aos abusos que Grahn enfrentou por ser uma lésbica declarada. “Percebi que, se fosse fazer o que me propusera na minha vida, teria que ir até o fim e assumir todos os riscos que pudesse correr… Decidi que não faria nada que não quisesse, que me afastasse da minha arte.”

Então se mudou para a costa oeste, onde se tornou uma ativa militante no movimento poético feminista dos anos 1970. Foi membro do Gay Women’s Liberation Group/ GWLG (Grupo de Libertação das Mulheres Lésbicas), o primeiro coletivo lésbico-feminista da Costa Oeste, fundado em 1969. Grahn e sua parceira, a artista Wendy Cadden, produziram livros, poemas e gráficos. Isso contribuiu com a base do Women’s Press Collective/ WPC (Coletivo de Imprensa Feminina), que se dedicava “exclusivamente ao trabalho de lésbicas privadas de direitos de raça ou classe”. A GWLG também é responsável pela fundação da livraria feminina A Woman’s Place (Um lugar para Mulher).

Os poemas de Grahn circularam em “periódicos, performances, chapbooks e de boca em boca, e foram documentos fundamentais para o feminismo lésbico”. Seu trabalho não se estendeu a um público comercial até o final dos anos 1970; no entanto, conquistou um grande público underground antes de 1975. Carl Morse e Joan Larkin citam o trabalho de Grahn como “alimentando a explosão da poesia lésbica que começou nos anos 70”.

Sua poesia, quase sempre em versos livres, está impregnada de sua identidade lésbica feminista e permanece fiel às suas raízes da classe trabalhadora, abordando racismo, sexismo, classicismo e as lutas de ser mulher e lésbica.

Publicou os livros: Edward the Dyke and Other Poems (1971); A Woman is Talking to Death (1974); She Who (1977); The Queens of Wands (1982); The Work of a Common Woman: Collected Poetry (1964–1977) (1982); The Queen of Swords (1990); Love Belongs to Those Who Do the Feeling (2008); além das gravações Detroit Annie Hitchhiking (2009), e Lunarchy (2010).
*

Conheci a poesia de Judy Grahn a partir de um brevíssimo curso sobre Adrienne Rich e Ellen Myles com Mariana Ruggieri, que citou sua importância para o cenário da poesia caminhoneira estadunidense. Estou apaixonada por esta mulher que está tão viva e tão maravilhosa e que há mais de 50 anos está fazendo coisas que estamos fazendo hoje, por exemplo, sua Teoria Metafórica que remonta os antigos ritos menstruais – “A menstruação criou o mundo”!, diz -, que por sua vez remonta nossa Inanna, ave! viva! vivinha dizendo coisas há tanto tempo, como se começasse agorinha.

E é isso, fiquei com muita vontade de fazer uma outra original dessas poemas tipo brasileira dá uma linguada bem gostosa. Deitei-me cá com Judy, sentindo o ritmo como fosse o mais genuíno azeite na sua pele #olive – i love you/ te amo pra buceta, essas coisas. e deu nisso, por enquanto! 😉

nina rizzi

*

I.D.

I’m not a girl
I’m a hatchet
I’m not a hole
I’m a whole mountain
I’m not a fool
I’m a survivor
I’m not a pearl
I’m the Atlantic Ocean
I’m not a good lay
I’m a straight razor
Look at me as if you had never seen a woman before
I have, red hands and much bitterness

R.G.

Eu não sou uma menininha
Eu sou uma machadinha
Eu não sou um orifício
Eu sou a montanha inteira
Eu não sou uma tonta
Eu sou uma sobrevivente
Eu não sou uma pérola
Eu sou Atlântica
Eu não sou uma boa trepada
Eu sou o fio da navalha
Olha para mim como se nunca tivesse visto uma mulher antes
Eu tenho, mãos encarnadas e muita zanga

*

I am the wall at the lip of the water
I am the rock that refused to be battered
I am the dyke in the matter, the other
I am the wall with the womanly swagger
I am the dragon, the dangerous dagger  
I am the bulldyke, the bulldagger.

and I have been many a wicked grandmother
and I shall be many a wicked daughter.

Eu sou o dique no lábio d’água
Eu sou a rocha que se recusou a ser batida até furar
Eu sou a entendida no assunto, a outra
Eu sou a parede com a arrogância feminina
Eu sou o dragão, a adaga perigosa
Eu sou a sapatânica, a bulldaga.

e eu tenho sido uma avó muito perversa
e serei uma filha muito perversa.

*

Ah, Love, you smell of petroleum
and overwork
with grease on your fingernails,
paint in your hair
there is pained look in your eye
from no appreciation
you speak to me of the lilacs
and apple blossoms we ought to have
the banquets we should be serving,
afterwards rubbing each other for hours
with tenderness and genuine
olive oil
someday. Meantime here is your cracked plate
with spaghetti. Wash your hands &
touch me, praise
my cooking. I shall praise your calluses.
we shall dance in the kitchen
of your imagination.

Ai, Amor, você cheira a petróleo
e estafa
com graxa nas unhas,
tinta nos cabelos
tem essa expressão de dor em seus olhos
de desvalorização
você me fala das liláses
e flores de maçã que deveríamos ter
dos banquetes que deveríamos servir,
depois nos esfregamos uma na outra por horas
com delicadeza e genuíno
azeite de oliva
algum dia. Enquanto isso aqui está seu prato rachado
com espaguete. Lava as mãos &
me toca, elogia
como cozinho. Vou elogiar seus calos.
vamos dançar na cozinha
da sua fantasia.
*

Paris and Helen

He called her: golden dawn
She called him: the wind whistles

He called her: heart of the sky
She called him: message bringer

He called her: mother of pearl
Barley woman, rice provider,
millet basket, corn maid,
flax princess, all-maker, weef

She called him: fawn, roebuck,
stag, courage, thunderman,
all-in-green, mountain strider
keeper of forests, my-love-rides

He called her: the tree is
She called him: bird dancing

He called her: who stands,
has stood, will always stand
She called him: arriver

He called her: the heart and the womb
and similar
She called him: arrow in my heart.

Páris e Helena

Ele a chamou: aurora dourada
Ela o chamou: o vento sibila

Ele a chamou: coração do céu
Ela o chamou: portador da mensagem

Ele a chamou: madrepérola
mulher cevada, provedora do arroz,
cesta de milho, donzela do trigo,
princesa do linho, toda-criadora, tecedora

Ela o chamou: cervo, corço,
veado, coragem, homem-trovão,
todo-em-verde, passolargo da montanha
guardião das florestas, cavalga-meu-amor

Ele a chamou: a árvore é
Ela o chamou: pássaro dançando

Ele a chamou: quem fica de pé,
resistiu, sempre permanecerá
Ela o chamou: chegada

Ele a chamou: o coração e o útero
são semelhantes
Ela o chamou: flecha em meu coração.

*

A HISTORY OF LESBIANISM

How they came into the world,
the women-loving-women
came in three by three
and four by four
the women-loving-women
came in ten by ten
and ten by ten again
until there were more
than you could count

they took care of each other
the best they knew how
and of each other’s children
if they had any.

How they lived in the world,
the women-loving-women
learned as much as they were allowed
and walked and wore their clothes
the way they liked
whenever they could. They did whatever
they knew to be happy or free
and worked and worked and worked.
The women-loved-women
in America were called dykes
and some liked it
and some did not.

they made love to each other
the best they knew how
and for the best reasons

How they went out of the world,
the women-loving-women
went out one by one
having withstood greater and lesser
trials, and much hatred
from other people, they went out
one by one, each having tried
in her own way to overthrow
the rule of men over women,
they tried it one by one
and hundred by hundred,
until each came in her own way
to the end of her life
and died.

The subject of lesbianism
is very ordinary; it’s the question
of male domination that makes everybody
angry.

UMA HISTÓRIA DO LESBIANISMO

Como elas vieram ao mundo,
as mulheres-que-amam-mulheres
vieram de três em três
e quatro em quatro
as mulheres-que-amam-mulheres
vieram de dez em dez
e novamente de dez em dez
até que houvesse mais
do que você poderia contar

elas cuidaram uma da outra
da melhor forma que sabiam fazer
e dos filhos e das filhas uma da outra
quando tinham.

Como elas viviam no mundo,
as mulheres-que-amam-mulheres
aprenderam tanto quanto foram permitidas
e andaram e vestiram suas roupas
do jeito que gostavam
sempre que podiam. Elas fizeram tudo
sabiam ser felizes ou livres
e trabalharam e trabalharam e trabalharam.
As mulheres-que-amam-mulheres
na América eram chamadas de sapatonas
e algumas gostaram
e algumas não.

elas fizeram amor uma com a outra
da melhor forma que sabiam fazer
e pelas melhores razões

Como elas saíram para o mundo,
as mulheres-que-amam-mulheres
saíram uma por uma
resistindo as maiores e menores
provações e muito ódio
de outras pessoas, elas saíram
todas, uma por uma tentando
à sua própria maneira derrubar
o domínio dos homens sobre as mulheres,
elas tentaram uma por uma
e cem por cem,
até que cada uma chegou à sua maneira
ao fim de sua vida
e morreu.

A história do lesbianismo
é muito comum; e essa questão
da dominação masculina que faz de todas
bravas.

*

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Thadeu C. Santos [1987_]

Thadeu C Santos (Itaperuna, 1987) é poeta e editor de poesia. Autopublicou zensaída (2016) e nossa arte é postar (2018) e é um dos produtores da Subcena (2017-2020).

* * *

toque para ampliar

dobras no caminho
antes de vir. não vou, sem antes
olhar para o céu. se alguma coisa cair
que me tome de cima / baixo, use
esta calça caqui em que um pingo de café
entrega um jeito de ver

*

487 visualizações

duas linhas contraluz,
nada mais sério do que me mostrar
de costas, com os olhos presos na parede
à máquina de costura. lembranças. só mentiras
nos músculos por baixo da capa. antes de tirar a roupa,
a salada, uma mensagem nova
acaba de chegar. que nada diga,
se dirá

*

maria te enviou uma reposta

virar a cabeça
para ver o outro lado, se há notícia
de terra nova, imaginá-la
empapada de sangue, e contar pros amigos
em roda, sem hesitar, sobre essa água
que você jura ver, se enrolar a língua
o riacho sobe o morro

*

correr atrás da bola na frente de milhões de telespectadores

num rabo de olho
fecho a garganta

em segundos

tiro a pele
da frente da flecha
roendo a linha do arco

sismo que posso, e posso
fazer que estou longe
e faço

*

madrugada na fila do bar

de um sussurro que
eriça a pele, rasga pelo lado
de mim, a memória de uma guerra
antes de nascer, o amor é uma crise
de consciência, do tipo que se tem nas mãos antes de nascer

*

antes de ontem na casa da minha mãe

tomar o ar
na palma das mãos
e cozinhar com o calor do corpo, raspando as espigas
até fazer a farinha, e cantar o momento, tão exato
lembrando de quem passou e falou tudo o que sabia
e que não conseguimos explicar

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crítica, xanto

XANTO|”Não saber cantar é não ser canto?”, por José Pinto

Casem-se os poetas com a respiração do mundo
Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara), poeta cabo-verdiano

Escrito em 1942, o poema de Paul Éluard hoje conhecido pelo título ‘Liberté’ foi transportado clandestinamente de França, ocupada pelos nazis, para Inglaterra. Em 1943, o poema foi lançado por aviões aliados nos céus da Europa em guerra e refaço o exercício de imaginar o que poderia ter sentido um judeu num dos campos de concentração ao ler este texto, que habita entre os textos de elevada qualidade literária que vivem no álbum ‘I Who Cannot Sing’ da Patrícia Lino, editado em junho passado no Brasil pela Gralha Edições. Ouço-o neste instante. Enquanto nos fazem crer que vivemos agora uma guerra contra o invisível lá fora. Enquanto continuamos a assistir do lado de cá, confinados ao ecrã. A guerra contra o invisível é outra e existe antes do surto: a guerra dentro, a guerra que olha de frente o espelho. E este som dos passarinhos cá mais para os últimos mixes lembra-me que, contra a guerra que olha de frente o espelho, há a festa.

Onde tem lugar o convívio, chamamos de festa, pegando em palavras do surrealista brasileiro Sergio Lima. Imagino a poeta-performer a receber xs convidadxs, a preparar o corpo para a ação performativa de uma dj e diria Vratislav Effenberger que ‘toda experimentação nas propriedades do imaginário é colocação em jogo, sobre o tabuleiro de xadrez da existência, dos poderes profundos que tendem à exaltação da vida’. A performer dá início a um ensaio pós-drama, no qual as linguagens se encontram equitativamente e dialogam na construção de paisagens, neste caso sonoras, e ‘o segredo da beleza da flor é seu jogo de balanceios’, como escreveu Malcolm de Chazal. Os passarinhos que escuto em ‘KKA . RAQUEL NOBRE GUERRA’ lembram-me que, contra a guerra, há a experiência do amor, da poesia e da rebelião: o triângulo sagrado extra-religioso de que Breton haverá falado certa vez, como vivência possível numa coletividade.

Se, por um lado, há festa num sentido de colaboração poética, por outro lado há festa além dos poemas, que podem ser não apenas ouvidos, mas lidos também. Esse outro sentido para a festa é o canto quase coral, em que os poemas são lidos pelos respetivos autores e autoras, antes do processo de construção musical. A poeta-dj prepara-nos com um warm-up intitulado ‘INTRODUÇÃO PARA VÁRIAS VOZES’. O álbum conta com a participação, além da própria Patrícia Lino, de Angélica Freitas, Camila Assad, Cláudia R. Sampaio, Colleen Conroy, Daniel Arelli, Fernanda Magalhães Ferrari, Gregório Camilo, Guilherme Gontijo Flores, Júlia de Carvalho Hansen, Letícia Féres, Luca Argel, Marta Chaves, Miguel Cardoso, Pedro Eiras, Raquel Nobre Guerra, Ricardo Domeneck, Vasco Gato e das vozes vivas dos poetas mortos Frank O’Hara, Paul Éluard e Sylvia Plath.

Diz a poeta que não há nada que possamos inventar hoje que já não tenha sido criado. Há na poética de ‘I Who Cannot Sing’ um revivalismo da tradição de cantar o poema, afinal secular, dado que a poesia e o impulso do canto atravessam a cultura grega, por exemplo, na qual a escrita do poema sofria inclusive alterações quando era cantado em apresentações ao vivo, inscrevendo-se de forma similar na poética de performances, leituras e espetáculos de teatro contemporâneos. Enquanto a proposta para x poeta cantar o seu poema está de pé, há uma outra leitura que a acompanha, que é a leitura e a escuta que a Patrícia faz dos poemas dos autores e das autoras, entrando em diálogo ou relação dialógica com as outras vozes, antecipando a tradução intersemiótica ou adaptação da matéria textual para canção.

Nesse diálogo com os poemas e as leituras, a poeta-tradutora parece repartir a sua atenção sobretudo entre a escuta e a construção dos novos objetos, onde o tom de voz, a projeção vocal e a interpretação dxs poetas influem nas composições musicais. Os arranjos, por sua vez, resultam de colagens de sons retirados de websites de domínio público, programas profissionais de música e mixagem. Editados mais tarde ou não, a Patrícia vai articulando estes sons, beats e acordes com sons corporais ou gravados na rua e outros dos seus instrumentos, como o MIDI, o xilofone, as maracas ou o baixo. Entre ambientes sonoros e paisagens ritmadas, não me arriscarei a escrever a que género pertencem as canções, até porque o exercício de experimentação vai excedendo os seus limites, a partir da confiança da poeta de que falhará e falhará sempre melhor, acabando por criar um objeto interartístico que parece sedimentar-se a partir de um pensamento e defesa da diversidade em múltiplos sentidos.

Ora, essa defesa da diversidade, espelhada no processo de criação do álbum, marca uma voz própria, que não a das leituras e dos poemas individualmente, mas que rumoreja ao longo de todo este trabalho, como um coro a ressoar. Uma voz comprometida com a obra passível de ser construída para espelhar, uma vez mais até ao limite, o que não é dito nos interstícios do quotidiano, já que capitalistas, unha e carne com as reminiscências e práticas colonialistas de hoje, saíram da quarentena mais arrogantes e desumanos. Enquanto resplandecem à luz do dia com a máscara em pedaços, poderão ter entrado em desespero, ao ver que as minorias juntas têm uma ação muito mais transformadora no mundo? O tempo em que vivemos parece ser a metáfora e ‘I Who Cannot Sing’ releva-se da indiferença para se tornar uma possibilidade de nos reposicionarmos de encontro aos novos mecanismos de controlo que estão de facto à nossa frente.

Num outro sentido da diversidade, entre os sons e tons delicados, de suspense, da natureza, da rua, humorísticos, hostis, mais interventivos e mais intimistas, a poeta abre-nos a viagens em loops que transmitem a sensação de transes dentro de transes dentro de transes, num ciclo não circular mas em espiral, com frestas por onde caberá ao ouvinte e à ouvinte decidir perder-se. O que poderá encontrar? Em ‘MANHÃ SEGUINTE . MIGUEL CARDOSO’, a Patrícia pinta um amanhecer de notas musicais para que Miguel Cardoso comece a ler ‘As manhãs seguintes / vêem-se de cima’. Em ‘JÁ NADA É COMO SOÍA . PEDRO EIRAS’, a batida tensa adverte que ‘Já nada é como soía / ainda nem há cinco minutos, / antes de todas as coisas desvalorizarem / subitamente’. A tonalidade grave e entrópica com que começa ‘TO DIE IS AN ART . SYLVIA PLATH’ ganha em certo momento a força que respira do vitalismo do texto, lido na própria e hipnótica voz da poeta.

J’ÉCRIS TON NOM . PAUL ÉLUARD’ imersa numa batida assertiva e anunciadora que vai crescendo ao longo da canção até culminar nos versos finais ‘Et par le pouvoir d’un mot / Je recommence ma vie / Je suis né pour te connaître / Pour te nommer // Liberté’. Em tradução livre: ‘E pelo poder de uma palavra / Recomeço a minha vida / Nasci para conhecer-te / Para nomear-te // Liberdade’. Porventura a Patrícia poderá querer anunciar ao que veio e porque está aqui? E pelo que estaríamos nós aqui? Que seria do canto – entenda-se agora canto poético – sem o ser, como tanto procura Rilke na sua obra literária, enlaçada à vida quanto o fruto à árvore e a criatura ao sopro criador? Não escreveu ele nas Elegias de Duíno que ‘Aqui é o tempo do dizível, aqui a sua pátria’ e ‘Depois da pátria / primeira, é-lhe a segunda híbrida e vento’? Possa Rilke ter encontrado uma resposta à sua inquietação no verso ‘Celebrar, isso mesmo! Ser destinado a celebrar’, d’Os Sonetos a Orfeu. Possa a Patrícia ter encontrado respostas nesta festa, em que é anfitriã, poeta, performer e tradutora.

Não haverá, suponho, em ‘I Who Cannot Sing’ um programa revolucionário em curso. Antes, uma interpretação de sentido livre e amplo do que poesia significa, no criar, fazendo, etimologicamente falando. Mesmo que a Patrícia não saiba cantar, é a falha que se entreabre ao longo do álbum e vai revelando neste novo objeto uma experiência de presença corporal e espiritual que Octavio Paz designa presença amada. Resultado de uma poética em que nenhuma linguagem artística procura impor-se a, mas jogar com outras linguagens, em pé de igualdade no que respeita à criação de sentidos, explorando também a poesia no território da web, no qual o álbum está acessível a toda a gente e inclui os materiais em separado. Isto é, inclui o álbum, os textos e os vídeo poemas, possibilitando que essas diferentes linguagens correspondam a diferentes sensibilidades recetivas do público. Em plena guerra que olha de frente o espelho, estes poemas lançados para dentro das redes do ciberespaço, olhos nos olhos.

José Pinto

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