poesia

3 poemas de francesca cricelli

francesca cricelli

Francesca Cricelli (Ribeirão Preto, 1982) tradutora e pesquisadora, seu livro de poemas Repátria será lançado em julho de 2015 (Selo Demônio Negro). Doutoranda em Estudos da Tradução (USP), organizou e traduziu as cartas trocadas entre Ungaretti e Bizzarri 66-68 (Scriptorium, 2013) e é curadora das cartas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco (Mondadori, 2016). Sócia fundadora do Hussardos Clube Literário com Vanderley Mendonça, traduziu plaquettes de Luzi, Pasolini, Ungaretti, Leopardi, Jacopone da Todi presentes na coleção do clube. Adora cozinhar.

* * *

REMOVER DO CORPO AS CROSTAS DO SILÊNCIO

No se puede contemplar sin pasión.
(Borges)

Remover do corpo as crostas do silêncio
tudo que é vivo e exposto grita
e gira, pela avenida
a dor se junta ao rumor.

Para chegar à clarividência
procura-se um ritmo, qualquer um,
que descompasse as artérias —

a vida enverga sobre a avenida
no peito só a voragem do eterno,
a fração do abalo sísmico,
desenha na mão cataclismos.

§

RIMUOVERE DAL CORPO LE CROSTE DEL SILENZIO

No se puede contemplar sin pasión.
(Borges)

Rimuovere dal corpo le croste del silenzio,
ciò che è vivo ed esposto grida
e gira, lungo il Viale
il dolore si mescola al rumore.

Per giungere alla chiaroveggenza
si cerca un ritmo, uno qualunque,
che disallinei le arterie —

sul viale la vita si piega
nel petto solo la voragine d’eterno,
la frazione dello sbalzo sismico,
disegna nel palmo cataclismi.

§

CATEDRAIS

Força sutil e estrondosa
a nossa, catedral
erguida no peito vazio –

no silêncio dos olhos,
sós e incessantes
construímos um penhasco,
ponte de uma dor a outra.

Como todo ser vivo,
hoje estamos
cada um com seu vício.

CATTEDRALI

Forza sottile e scrosciante
la nostra, cattedrale
innalzata sul vuoto del petto –

nel silenzio degli occhi,
soli e incessanti,
abbiamo fatto una scogliera
ponte da un dolore all’altro.

Come ogni essere vivo,
oggi stiamo
ognuno col suo vizio.

§

RISCO

O tempo se arrisca
no mistério
da prece.
O resto é mar.

RISCHIO

Il tempo s’arrischia
nel mistero
del pregare.
Il resto è mare.

Padrão
poesia

3 poemas inéditos de Sergio Cohn

sergio cohn sinuca

Sergio Cohn é poeta e editor. Nasceu em São Paulo, em 1974, e mora no Rio de Janeiro desde 2000. Criou em 1994 a revista de poesia Azougue, e em 2001 a Azougue Editorial. Como poeta, publicou Lábio dos afogados (1999), Horizonte de eventos (2002), O sonhador insone (2006) e O sonhador insone – poesia 1994-2012 (com o inédito “Poemas atuais”, 2012). Organizou diversos livros, de autores como Roberto Piva, Vinicius de Moraes, Antonio Risério, Boris Schnaiderman, Gary Snyder, Michael McClure e Jerome Rothenberg.

* * *

3 poemas inéditos:

BALDIO

a poesia é a linguagem não-comunitária

que deriva, erra, espraia

desocupa o fascio da identidade

 

não é aqui nem selvagem

é o baldio de relações

sempre renovadas

§

a concha que se agarra à pedra
contra a fúria das ondas.
o dente que se cerra na carne
dura da maçã. o azul que resta
entre nuvens, entre folhas,
a primeira luz da manhã.
o pulsar, gesto
e jenipapo, orla de fogo
no mato, mancha
no dorso da onça.

ESTAR EM VOCÊ COMO

§

CONVERSA NO JARDIM

“Sempre que acreditei
que não havia nada acontecendo
descobri que era eu
que estava no lugar errado”

sentamo-nos no chão ressequido
como suas mãos
a enrolar um fumo

“veja, aqui é silêncio
mas se olharmos com mais calma
ali no canto há uma luta de morte
entre um besouro e as formigas.
num jardim, assim como no mundo,
sempre tem coisas acontecendo”

o fósforo era brasa sob brasa
tudo era brasa às duas horas
da tarde.

ele fumou em silêncio, os olhos quietos,
a boca lutando contra a secura
do arredor e de dentro.

ao seu lado, observava as plantas
até me fixar uma mirrada, no esforço
para crescer à margem das graminhas.
perguntei que erva era aquela.

“não sei, nunca a vi.
nem sei se é boa ou daninha.
mas, na dúvida, melhor deixar germinar”.

§

e 1 não-inédito:

UM CONTRAPROGRAMA

1
esta montanha invade a cidade
e à sua margem penso
não no silêncio, na astúcia
e no exílio (que já foram
tentados a contento) mas
do lado de dentro
mesmo que impossível
extraviar-me no alheio

2
o alheio: não o outro
do morro ou o rosto
da rua, mas o que
ainda despercebido pulsa
e sobreviverá ao tempo
porque o fim disto
– desta cidade – não é
o de todas as coisas.

Padrão
poesia

Ginsberg por Kiraly

ginsberg

Apenas a Ponta do Ice(Gins)berg

Escrevo este texto sobre o Ginsberg por causa das traduções que fiz de seus poemas. As boas traduções, em língua portuguesa, a que tive acesso foram as do Claudio Willer e do Paulo Henriques Britto. Li-as mesmo antes de conhecer o texto no original, por essa razão havia para mim dois Ginsberg. Daí comprei os volumes da City Lights, pequenos e bonitos. Resolvi os ler um atrás do outro, de novo e de novo, para esgarçá-los. Pronto, alguns poemas me falavam alto demais, num bom sentido; depois de escolhidos, comecei a vertê-los para o português. Passei a julgar que poderia haver um Ginsberg meu, em português, o do Willer me parecia nervoso e o do Britto muito sofisticado. O meu seria dotado de pressa constante, como um eterno estilo de juventude, aliado a uma demoníaca e inexplicável maturidade congênita. Um jovem velho. De modo que estaria viva nele a vontade de dizer antes que as coisas se dissolvessem, de tal forma que seria imperioso, para ele, esse meu Ginsberg, dar um jeito para estar pronto para dizer, sem ser dissolvido pela tarefa, ou, que seja, mesmo aceitando o risco.

A empreitada da tradução, devo dizê-lo, tem sido apenas a ponta do meu ice(gins)berg. Encontrei no Ginsberg elementos harmônicos com o meu ceticismo, ele realiza, de forma desorganizada, descobertas que para mim se deram de forma um tanto linear. Ele realiza um percurso violento para ter coisas que vieram a mim de forma calma. Como seria se tornar cético depois de tanta errância? A lida com o judaísmo, os exercícios de redução do ego pelo budismo, o respeito à consciência pelo atravessamento das drogas lisérgicas, a presença da sedução na prática do ensino e as evidências da virtude na conjugação do estabelecimento de regras com a admissão de costumes menos restritivos no concernente à sexualidade e à moral familiar.

As cartas trocadas entre Ginsberg e seu pai me fariam refletir, como não poderia deixar de ser, sobre a relação com o meu próprio pai. Além da descoberta, no vínculo entre os dois, de uma abissal crueldade do pai contra o filho. O meu ceticismo, até o momento pelo menos, nunca me levou a ter um Walden para chamar de meu, como realizou para si Ginsberg, mas a vida retirada e as modificações do corpo pela realização física de alguma coisa, como cortar madeira no caso dele, para mim fez todo o sentido, na beleza da antianatomia que o corpo pressupõe e guarda. Até o momento, a omissa relação de Ginsberg com a doença psiquiátrica da sua mãe, foi um dos pontos mais tensos da minha relação com o poeta. Os poemas que expõem esse conteúdo sempre me fizeram chorar, antes mesmo que eu soubesse muita coisa sobre o assunto. Além do que a minha própria infância em hospitais psiquiátricos era trazida à tona nas leituras. Não lembro de outro poeta que tenha me feito retornar a esses conteúdos dessa forma.

N’algumas fotografias da sua juventude, por vezes, acho-nos parecidos, e torço para que fiquemos bem diferentes na velhice, se eu a tiver. As traduções que fiz, a despeito da minha vontade, tomaram-me um tempo imenso, e, apesar de fazê-lo há algum tempo, são as primeiras que torno públicas. No início do trabalho com o Ginsberg o meu intuito era de promover uma imperiosa recriação, como dita em tanto livros de teoria que admiro, no fim, acho que fui amansando, deixei estar, pelo menos dessa vez. O mais difícil foram as gírias. Nunca tive vivência cotidiana em língua inglesa, muito menos dos redutos aos quais os poemas remetem, e conversas eruditas não contaram como experiência prévia, então precisei suprir a deficiência com muita pesquisa. O mais divertido foi imaginar as dinâmicas anatômicas de todos os poemas de conteúdo erótico, cuja atração exercida em mim por ser sentida na razão implícita das minhas escolhas.

——-

Este texto pode ser lido como introdução ao que se encontra na apresentação do da edição 9 do Caderno-Revista de Poesia 7faces, que foi dedicado ao Allen Ginsberg: http://www.revistasetefaces.com/2014/08/7faces-caderno-revista-de-poesia-ano-v.html .

Um evento de leituras dessas traduções pode ser assistido: https://youtu.be/bfUqN6o3rsM?list=PLNfq2Fv5vuWSwqieFd-gFOwfSi8AGiaGe .

Um especial agradecimento deve ser feito ao Guilherme Gontijo Flores, que não só escreveu um texto introdutório ao número que a 7faces lançará com essas e mais traduções de poemas do Ginsberg, como anotou o trabalho e nos ofereceu correções e belas sugestões.

Cesar Kiraly

* * *

The Reply

God answers with my doom! I am annulled
                                    this poetry blanked from the fiery ledger
                         my lies be answered by the worm at my ear
              my visions by the hand falling over my eyes to cover them
                                                      from sight of my skeleton
              my longing to be God by the trembling bearded jaw flesh
                           that covers my skull like monster-skin
                  Stomach vomiting out the soul-vine, cadaver on
                           the floor of bamboo hut, body-meat crawling toward
                                    its fate nightmare rising in my brain
The noise of the drone of creation adoring its Slayer, the yowl
                                     of birds to the Infinite, dog barks like the sound
         of vomit in the air, frogs croaking Death at trees
I am a Seraph and I know not whither I go into the Void
I am a man and I know not whither I go into Death – –
                                    Christ Christ poor hopeless
                           lifted on the Cross between Dimension –
                              to see the Ever-Unknowable!
a dead gong shivers thru all flesh and a vast Being enters my
                  brain from afar that lives forever
         None but the Presence too mighty to record! the Presence
                 in Death, before whom I am helpless
                           makes me change from Allen to a skull
Old One-Eye of dreams in which I do not wake but die –
             hands pulled into the darkness by a frightful Hand
                  – the worm’s blind wriggle, cut – the plough
is God himself
What ball of monster darkness from before the universe come
         back to visit me with blind command!
         and I can blank out this consciousness, escape back
                                    to New York love, and will
                  Poor pitiable Christ afraid of the foretold Cross,
                                             Never to die –
Escape, but not forever – the Presence will come, the hour
         will come, a strange truth enter the universe, death
                           show its Being as before
and I’ll despair that I forgot! forgot! my fate return,
                                                      tho die of it –
What’s sacred when the Thing is all the universe?
    creeps to every soul like a vampire-organ singing behind
                                    moonlit clouds –
                                                        poor being come squat
under bearded star in a dark filed in Peru
                           to drop my load – I’ll die in horror that I die!
Not dams or pyramids but death, and we to prepare for that
         of ants and wind, & our souls to prepare
                                                               His Perfection!
The moment’s come, He’s made His will revealed forever
     and no flight into old Being further than the starts will not
         find terminal in the same dark swaying port
of unbearable music
No refuge in Myself, which is on fire
     or in the World which is His also to bomb & Devour!
                  Recognize His might! Loose hold
         of my hands – my frightened skull
                                                      – for I had chose self-love –
my eyes, my nose, my face, my cock, my soul – and now
                                             the faceless Destroyer!
                           A billion doors to the same new Being!
                  The universe turns inside out to devour me!
and the mighty burst of music comes from out the inhuman
                                                               door –

1960

Kaddish and Other Poems. p. 96-98.

——-

A Resposta

Deus responde com a minha ruína! Eu estou anulado
                           esta apagada poesia do livro ardente
                  minhas mentiras respondidas pelo verme em minha orelha
         minhas entre vistas pela mão caída para o cobrir os olhos
                                             da visão do meu esqueleto
         meu desejo de ser Deus pela encarnada mandíbula de barba tremulante
                        que cobre meu crânio como a pele de um monstro
                  Estômago vomitando a alma-videira, cadáver sobre
                   o chão da cabana de bambu, corpo-carne rastejando até
                           seu destino pesadelo ascendente em meu cérebro
O ruído da criação adorando seu Portento, o uivo
                           dos pássaros ao infinito, o cachorro late como o som
    do vômito no ar, sapos coaxando Morte nas árvores
Eu sou um Serafim e não sei para onde Eu adentro o Vazio
Eu sou um homem e não sei para onde Eu adentro a Morte – –
                                    Cristo Cristo pobre desesperançoso
                           levantado na cruz entre Dimensão –
                               para ver o Eterno-Incognoscível!
um gongo morto arrepia a carne e um vasto Ser de longe penetra
                      meu cérebro que vive para sempre
         Apenas a Presença toda poderosa se inscreve! a Presença
               na morte, diante da qual estou indefeso
                    muda-me de Allen em crânio
Velho Caolho dos sonhos nos quais não acordo senão morto –
         mãos puxam para a escuridão por uma temível mão
                  – os vermes cegos contorcem, corte – o arado
                                                      é ele mesmo Deus
que baile de monstra escuridão de onde o universo vem
         de volta para me visitar com comando cego!
         e eu posso apagar essa consciência, retornar
                                             para o amor New York, e vou
                  Pobre lamentável Cristo medroso na antevista Cruz,
                                             Nunca Morrer –
Escapar, mas não para sempre – a Presença virá, a hora
         chegará, uma estranha verdade vem ao universo, morte
                  mostrará seu Ser como antes
e me desesperarei porque eu esqueci! esqueci! meu destino retorna,
                                                                        para morrer disso –
O que é sagrado quando a Coisa é todo o universo?
   assusta toda alma com um órgão-vampiro cantando atrás
                                                      de nuvens enluaradas –
                                                               pobre ser venha agachado
  debaixo duma estrela barbuda numa escuridão posta no Peru
                  para soltar minha carga – Morrerei de tanto medo de morrer!
Sem barragens ou pirâmides mas morte, e nós preparados para ela
         das formigas e vento, & nossa alma para preparar
                                                                        Sua Perfeição!
O momento chega, ele revela para sempre sua vontade
    e nenhum vôo ao velho Ser vai além das estrelas
         encontrar por fim no mesmo velho trêmulo pórtico
                                                               de música insuportável
Nenhum refúgio em mim, que estou em chamas
    ou no mundo que é dele também para bombas & devoração!
                  Reconhece Seu poder! Escapa
         das minhas mãos – meu apavorado crânio
                                                      – eu tinha que escolher amor-próprio –
meus olhos, meu nariz, meu rosto, meu pau, minha alma – e agora
                                                      o Destruir sem Rosto!
                  Um bilhão de portas para o novo Ser!
         O Universo vira do avesso para me comer!
e o poderoso estrondo da música vem sai da porta
                                                                                 inumana –

1960

——-

On Burroughs’ Work

The method must be purest meat
         and no symbolic dressing,
actual visions & actual prisons
         as seen then and now.

Prisons and visions presented
         with rare descriptions
corresponding exactly to those
         of Alcatraz and Rose.

A naked lunch is natural to us,
         we eat reality sandwiches.
But allegories are so much lettuce.
         Don’t hide the madness.

San Jose 1954

Reality Sandwiches. p. 40.

——-

Sobre a Obra de Burroughs

O método deve ser carne pura
         e nenhum tempero simbólico,
prisões reais & visões reais
         como se viu antes e agora.

Visões e prisões apresentadas
         com descrições raras
correspondentes exatas àquelas
         de Alcatraz e Rosa.

Um almoço nu nos é natural,
         comemos sanduíches de realidade.
Mas alegorias são apenas verduras.
         Não esconda a loucura.

San Jose 1954.

——-

Scribble

Rexroth’s face reflecting human
         tired bliss
White haired, wing browed
         gas mustache,
                  flowers jet out of
                           his sad head,
listening to Edith Piaf street song
         as she walks the universe
                           with all life gone
                           and cities disappeared
                                    only the God of Love
                                             left smiling.

Berkeley, March 1956

Reality Sandwiches. p. 59.

——-

Garatuja

O rosto de Rexroth reflete a cansada
         bênção humana
Cabelos brancos, asa-délticas sobrancelhas
         bigode boquirroto
                  flores escapolem da
                           sua triste cabeça,
ouvindo as canções citadinas da Edith Piaf
         enquanto ela caminha no universo
                  com toda a vida ida
                  e cidades desaparecidas
                           apenas o Deus do amor
                                    restou sorrindo.

Berkeley, Março 1956

(Allen Ginsberg, trad. de Cesar Kiraly)

Padrão
tradução

2 contos de Nescio, por Daniel Dago

11656020_10155962158065314_569352016_o

Principal contista holandês do século XX, Nescio (“não sei”, em latim), pseudônimo de Jan Hendrik Frederik Grönloh (1882-1961), teve uma vida totalmente à parte do meio literário. Trabalhou a vida inteira em uma empresa de importação/exportação e escreveu muito pouco. Apenas três livros curtos, todos de contos, foram publicados durante sua vida. Pouquíssimo conhecido, somente meses antes de sua morte ganhou um prêmio. Desde então sua fama cresce e hoje é tido como figura incontornável da literatura holandesa, considerado o introdutor do coloquialismo nas letras de seu país, com personagem icônicos e estudados nas escolas e universidades. A abertura de seu principal conto, “O parasita”, é considerada o começo mais famoso da literatura holandesa. O autor frequentemente é comparado a Anton Tchékhov e Robert Walser.

Citado por dez entre dez escritores holandeses como sua principal influência, nos últimos anos, Nescio tem ganhado cada vez mais traduções mundo afora. Especula-se que um dos motivos da demora de sua divulgação no estrangeiro deve-se ao fato de que é extremamente difícil de traduzir seu coloquialismo. Até agora constam versões ao alemão, inglês, francês, húngaro, indonésio, italiano, polonês, eslovaco, sueco. Ainda este ano sairá na Espanha e Turquia. No Brasil, Daniel Dago traduziu dois de seus livros, que na Holanda sempre são lançados num único volume, considerado a edição padrão de sua obra. Os contos aqui presentes, cada um de um livro de Nescio, não apresentam o estilo coloquial tão característico de sua obra, mas demonstram a concisão e beleza de sua escrita.

Daniel Dago

* * *

O VALE DAS OBRIGAÇÕES

Sento na montanha e olho para o vale das obrigações. Ele é árido, não há água, o vale não tem flores ou árvores. Há muitas pessoas andando nele. A maioria está disforme e esmorecida, olham continuamente para o chão. De vez em quando alguns olham para cima e depois gritam. Após algum tempo, todos morrem, mas eu não vejo diminuir a quantidade, o vale sempre aparenta o mesmo. Mereciam coisa melhor?

Estico-me e vejo diante de meus braços o céu azul.

Permaneço no vale, em um aterro de entulhos com brasas pretas, junto à uma pequena pilha de tábuas quebradas e uma chaleira inutilizável. Olho e vejo a mim mesmo ali, naquele lugar, e uivo como um cão na noite.

Novembro 1922   

§ 

ESTE ANO

Este ano estou novamente em Kortenhoef e permaneço no cemitério ao lado da igreja, vendo a terra à beira de Het Gooi e a torre de Hilversum. Uma última papoula se foi na semana passada, junto com um leve vento. Em uma curva e pequena pereira, as diminutas peras já têm cor. É o começo de um novo século. A vida, graças a Deus, não me ensinou quase nada.

“A vida me ensinou muito”, disse o pateta.

3 Agosto 1943

* *  *

Daniel Dago nasceu em São Paulo, em 1987. É tradutor e escritor. Apesar de falar vários idiomas, especializou-se na tradução de literatura clássica holandesa, sendo o mais ativo divulgador da área no país, a ponto de ser considerado, na Holanda, o “embaixador da literatura holandesa no Brasil”. Traduziu os romances Uma confissão póstuma, de Marcellus Emants; Sobre pessoas velhas e coisas que passam…, de Louis Couperus; Caráter, de Ferdinand Bordewijk; O jardim de cobre, de Simon Vestdijk; Urug, de Hella Haasse; e organizou e traduziu a primeira antologia do conto holandês feita no Brasil, Os holandeses – contos (1839-1938) (Hedra, 2015).

Padrão
poesia

1 poema inédito de ricardo pozzo

foto de Samara Bark

foto de Samara Bark

Autor do livro Alvéolos de Petit PavêRicardo Pozzo nasceu em Buenos Aires. Poeta, fotógrafo e músico. É um dos organizadores do Vox Urbe, projeto literário do WNK Bar. Editor assistente do Jornal RelevO e curador do projeto Pássaros Ruins.

* * *

Monólogo com Gullar

1.

As bananas penduradas
em seus cachos nas quitandas,
suas cascas como máscaras
do astro que atiça
a fogueira das fadigas
encenadas,
sofrem por dentro
ação de micro movimentos
não visíveis.

Igual na carne de concreto
da cidade, des construída
no queimar da pira da vaidade.

Igual em nossa carne
raiz da profundeza,
vaso sementeira de Ori.

Igual na carne, entredentes
líquido rubi nos matadouros
enviperando
em seus ganchos nos açougues.

2.

O astronauta pousado na face
da lua fotografa o globo
azul pousado no nada.

O que a lente não capta
é o intenso ir e vir dos ares
e mares esculpindo rochas,
animais e duplo sapiens e
suas hordas migratórias

o maquinário de larvas sugando a
crosta, a gritaria nas feiras e nas
bolsas de valores,
o instinto veloz na mente do assassino,
ou aquele que delira na sedução
barata das esquinas.

Na Hasselblad, o extático instântaneo,
que no entanto, se move

3.

Vertiginosamente

Padrão
poesia

Jeanne Callegari (1981)

10451061_10152339908391263_1847111388870330323_n

Jeanne Callegari é poeta e jornalista. Nasceu em Uberaba, MG, em 1981, e cursou Jornalismo na UFSC, em Florianópolis. Escreveu o livro Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Seu primeiro livro de poemas, Miolos Frescos, sai em breve pela editora Patuá. Faz parte do grupo de autores que criou o projeto Escritores na Estrada, que vai passar por várias cidades brasileiras com oficinas, batepapos e leituras.

 ***

 

se a cada comentário de blog eu ganhasse 10 centavos

como as águas de Netuno
ou os lúmens de Hemera, abundantes,
certamente nunca mais verei as palavras
aqui por mim proferidas

spike lee é um has been
do the right thing é coisa velha
você está ficando velha
e escreve MUITO

um velho e sebento REALEJO
um RETÁBULO pré-medieval

assustar um notário com um lírio
matar uma freira com um soco no ouvido
portar um corpo feminino de top model nu em pelo
e transitar toda a 5ª Avenida sobre um cavalo branco,
numa madrugada de inverno, deixando escorrer a menstruação pelos flancos
sem dar nenhuma entrevista

 

mindscapes

sylvia é musicista. em 2003, ela sofreu uma perda de audição aguda. um ano depois, passou a escutar músicas em sua cabeça, em looping, o tempo todo. como sylvia tem ouvido absoluto, pode transcrever e gravar suas canções internas. ela fez a primeira gravação de alucinações musicais do mundo.

ph é o primeiro humano conhecido a ouvir o que as pessoas dizem antes de perceber os lábios delas se moverem. ele sofre de um distúrbio em que o cérebro registra o som da fala antes do movimento da boca. a vida de ph é uma dublagem fora de sincronia.

depois de um derrame, tommy mchugh, um expresidiário, passou a pintar e esculpir compulsivamente, além de ter começado a falar em rimas. incapaz de machucar uma formiga, tommy sente seu cérebro como “infinitos, infinitos corredores”.

sandra experimenta um prazer intenso a cada vez que tem uma crise de epilepsia. ela descreve a sensação como a de um orgasmo, a que se chega progressivamente. acreditase que dostoiévski sofria do mesmo tipo de distúrbio.

o transtorno de identidade da integridade corporal foi descrito pela primeira vez no século 18, quando um inglês ameaçou um cirurgião francês com uma arma para que serrasse uma de suas pernas.

em 2004, graham acordou e descobriu que estava morto. ele tinha a síndrome de cotard, condição em que os portadores acreditam que seu cérebro, ou partes do seu corpo, faleceram.

heather sellers não consegue reconhecer nenhum rosto, nem mesmo o próprio. ela se vale de outros atributos, como a voz e as roupas, para identificar as pessoas.

a d. parece que, quando precisa escrever de forma analítica, está pensando pelo avesso.

a poesia é um defeito de recepção.

 

american psycho

disse montaigne:
um dia é como o outro
se você esteve em um esteve em todos
e viver é tentar salvar com uma caneca um barco que começa a fazer água pela manhã e
termina de naufragar quando chega a noite
inexoravelmente

ou ainda: entreter-se em preencher a passagem

road movies love stories
: return some videotapes
sentir o estômago brilhar enquanto percorre cuidadoso o momento de beijar alguém
pela primeira vez

mas você raramente faz qualquer uma dessas coisas
quase nunca, de fato
e quando faz
qual é o significado
que conhecimento disso se tira
se saber também é superestimado
boa ou má, dessa passagem não se leva óbolo
ou repertório
a vida é uma tragédia sem catarse

Padrão
poesia, tradução

várias canções em “another man done gone”

Dois varredores de rua em chain gang, Washington, D.C., 1909. Fotógrafo desconhecido.

Dois varredores de rua em chain gang, Washington, D.C., 1909. Fotógrafo desconhecido.

nós damos pouquíssima importância à poesia oral, ainda, acreditando apenas em textos. por tolice, claro. porque estamos cercados de poesia oral no dia a dia, em canções, raps, vocalizações, leituras, saraus, etc. sabemos que a poesia oral ocupou e ocupa a maior parte da história humana, mas deixamos o problema de lado, na maior parte das vezes, e seguimos com nossos papéis na mão.

acho que a maior causa disso é que não sabemos lidar bem com a fluidez das poéticas orais, porque nelas não temos um texto único, não há ponto final na interpretação (como também nos textos escritos) até porque não há exatamente um original, e cada performance renova e altera o texto, dá-lhe uma sequência e uma modificação, tanto pela capacidade performática do intérprete quanto pelo fato de que os textos de fato não permanecem iguais. então interpretar um poema oral é dialogar diretamente com sua performance, com o texto que aparece ali, naquele momento, e que pode nunca mais reaparecer.

mas piora. nesse caso, o que é que se traduz? a que se traduz quando se dá voz a um texto? ou quando se quer dar à voz, permitir que seja novamente cantável? abaixo fiz um experimento. traduzi três versões gravadas de “another man done gone”, uma canção poderosíssima do repertório negro norte-americano. a versão de vera hall (anos 40,  primeira a ser gravada), a de odetta (de 1956, embora haja uma versão de 1954 mais similar à de vera hall) e a de johnny cash (1963). o leitor poderá perceber que a letra, em sua primeira gravação, na voz de vera hall, é muito menor e mais vaga do que a de johnny cash, que já parece expor muito mais a cena de um assassinato; em vera hall é “ele” quem matou (talvez “eles” numa só frase), em cash e odetta são certamente “eles” que “o” mataram; em hall, a referência às correntes pode indicar as de um presidiário  membro de uma chain gang  (o que explica a última frase, porque o cantor terá que carregar o fardo que estaria sobrando nos trabalhos forçados da prisão, já que um companheiro teria sido liberto ou morrido de tanto trabalhar, ou executado — não sabemos a causa “por que se foi mais um?”). em odetta, as ambiguidades são minimizadas, e a letra volta para o assassinato de um homem, que logo imaginamos negro, morto numa sociedade racista. a de cash já cria uma narrativa, com filhos, um possível linchamento público com enforcamento, etc.

mas não é só isso que está em questão. vera hall canta com uma voz delicada, ainda que sofrida, desacompanhada de qualquer instrumento, é verdadeiramente uma gravação de pesquisa feita por alan lomax nos anos 40, de modo que é difícil saber de onde hall tirou sua própria versão ou quanto ela estava interferindo deliberadamente (na poesia oral do blues essa questão parece se dissolver em outras mais importantes). já odetta se acompanha de batidas, com uma interpretação mais vigorosa, capaz de causar comoção mais imediata que a singeleza de vera hall, assim a música em leitura política também se enche de pathos. por fim, a de cash é acompanhada pela voz de june carter, numa espécie de diálogo, a construção fica mais enrijecida, enquanto a voz firme de cash se contrapõe aos agudos de june; o enrijecimento, aliado à narratividade e ao seu alongamento, acaba por dar um ar mais pop à canção, que pode ganhar sentidos mais imediatos para um ouvinte desatento.

seja qual for a favorita de qualquer um, não se deve postular uma origem, ou uma originalidade maior na mais antiga. é esse processo constante de alterações que constitui uma tradição oral como a do blues. performar é ressignificar. se procurarmos possíveis origens, veremos que essa canção é, por sua vez, muito próxima de “baby, please don’t go”, gravada por big joe williams em 1935:

e o próprio big joe a gravou mais algumas vezes. em cada uma delas, com algumas variantes melódicas, instrumentais, vocais & textuais; tal como odetta fez duas versões com textos razoavelmente diferentes para a nossa canção. mas há similaridades entre “baby, please don’t go” e “another man done gone”, já que ambas têm uma estrutura melódica muito similar e uma série de frases muito próximas, tais como “done gone”, “county farm”, “walk the log”. o que é certo é que quando essas canções chegam a (ou se transformam em) vera hall e big joe williams, elas já estão criando dois temas bem diversos: a perda amorosa (big joe) ou a perda da vida/vida no presídio (hall).

diante disso, 3 versões, 3 traduções, todas cantáveis segundo a melodia apresentada. diante da multiplicação dos originais, imagino que o sonho da diferença é ver diferentes versões tradutórias que, por sua vez, convidem a diferentes interpretações musicais que as alterem, numa sequência sem origem ou fim determináveis.

guilherme gontijo flores

* * *

por vera hall (gravada na década de 40)

Another man done gone
Another man done gone
From the county farm
Another man done gone

I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name

He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on

He killed another man
He killed another man
They killed another man
He killed another man

I don’t know why he gone
I don’t know why he gone
I don’t know why he’s gone
I don’t know why he’s gone

I’m gonna walk your log
I’m gonna walk your log
I’m gonna walk your log
I’m gonna walk your log

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Veio do interior
Hoje se foi mais um

Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi

Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos

Ele matou alguém
Ele matou alguém
Eles matar’ alguém
Ele matou alguém

Por que se foi mais um?
Por que se foi mais um?
Por que se foi mais um?
Por que se foi mais um?

Teu tronco eu vou levar
Teu tronco eu vou levar
Teu tronco eu vou levar
Teu tronco eu vou levar

§

por odetta (de odetta sings ballads and blues, 1956)

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
From the county farm
Another man done gone

I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name

He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on

They killed another man
They killed another man
They killed another man
They killed another man

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
From the county farm
Another man done gone

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Veio do interior
Hoje se foi mais um

Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi

Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos

Eles matar’ alguém
Ele matar’ alguém
Eles matar’ alguém
Ele matar’ alguém
Ele matar’ alguém

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Ele era agricultor
Hoje se foi mais um

§

por johnny cash (de blood sweat & tears, 1963)

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone

He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on

They hung him in a tree
They hung him in a tree
They let his children see
They let his children see

When he was hangin’ dead
When he was hangin’ dead
The captain turn his head
The captain turn his head

He’s from the county farm
He’s from the county farm
He’s from the county farm
He’s from the county farm

I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um

Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos

Vieram pra enforcar
Vieram pra enforcar
Seu filho estava lá
Seu filho estava lá

Quando morreu de vez
Quando morreu de vez
O chefe não quis ver
O chefe não quis ver

Veio do interior
Veio do interior
Veio do interior
Veio do interior

Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um

Padrão