poesia

1 poema inédito de Leila Danziger

10857208_1136894756327403_1115146407768535745_o

LEILA DANZIGER é Artista plástica, poeta e professora do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) desde 2006, pesquisadora (CNPq e Faperj).

* * *

 

OZ NA CINELÂNDIA

No dia em que comemorava
vinte e cinco anos
meu pai perdeu
seu pai.

………………………….Na manhã
em que faria noventa
e sete no jornal
a manchete –

Amos Oz, Israeli Literary Giant, Dies at 79

e não
…………….não há nexo algum
apenas relutância
em aceitar
a morte –

ao anoitecer
da sexta-feira
rezo

……………de pé
numa livraria
onde entro ao acaso
e leio um poema
de Yehuda Amichai
sobre seu pai
que rezava
…………….imóvel, obrigando Deus a oscilar
…………….como junco e rezar a meu pai
que tenho certeza
não rezava
como os personagens de Oz
tampouco rezam
ao acordar
às 5 da manhã
vestem-se com a camisa azul dos pioneiros
fazem rondas e rondas
recebem o vento do deserto
abraçam os próprios ombros
…………….como se sentissem sempre frio
cravam as sandálias na terra
e as vezes
se balançam
como o junco

ou
como as palmeiras

transplantadas
ao Brasil onde Oz esteve
três ou quatro vezes –

caminhou no Aterro? na Cinelândia?
sentou-se no Amarelinho?
talvez

próximo à mesa
em que seis monges
almoçavam em julho
ou agosto
o que me recordo
agora
neste último shabat do ano
em que os jornais noticiam –

Amós Oz morreu

sem
a paz.

Rio de janeiro, dezembro de 2018

Anúncios
Padrão
poesia

Pâmela Filipini

P.F. FILIPINI nasceu em Rolim de Moura, Rondônia, em 1994. Formada em Pedagogia, atualmente dedica-se exclusivamente à escrita. Cultiva solidão e se planta ao silêncio para sobreviver, eis sua costura de compreensão. Escreve. E nas horas vagas, existe: esta é toda sua substância. Vive através de uma timidez que lhe parece inerente, e é por isso que escreve: para ordenar cernes, e tentar penetrar à realidade que sua conjuntura tanto dificulta. A condição humana é o pilar de seus escritos evidenciando que, além da habilidade com as palavras, inegavelmente, é a palavra que, habilidosamente, concretiza a feitura da escritora. Publicou os livros FOLHAS DOS OSSOS ou o tratado das coisas insignificantes (Patuá, 2017), e Ensaio sobre a Geografia dos Cernes (Temas Originais, Portugal, 2017).

*

As tardes também morrem dentro de nós
É por isso que existem os pássaros:

são a afirmação de que há uma
tarde, um canto, uma morte,

uma fresta entre pedras que
soluciona a equação complexa

do espaço diminuto e sufocante
que corrompe o número,
a quantidade, a mesmice – e gera
um caule órfão que não é coisa alguma

senão uma flor solitária sem função,
que não produz senão uma alegria magra
que fornece ao mundo uma linguagem de vida:

um som de solidão que fere
a falsidade dos que têm sede
de vazio, de caminho reto,
de espírito intacto.

[…]

Só os espíritos feridos existem.

Os intactos nunca conseguirão
enxergar as flores, pois jamais

serão capazes de suportar qualquer
beleza sem desejar serem vazios.

§

SAGRADO

A minha própria prece sou eu

os móveis, as paredes
[a flor no vasinho

e o barulho da chuva
[me rezam

[…]

Há algo de sagrado
em ser sozinha.

§

Deixe-me plantar uma flor
no teu quintal

para que sempre
eu tenha que perguntar:
[como ela vai?

Quando na verdade
quero saber de ti.

§


MESMO QUE MORRA UM PÁSSARO

não há de passar o tempo
onde o tempo não é morada

e se te amo é porque já nasceram
as flores
[e há um pássaro que canta sempre

e se te amo é porque nada mais
conheço senão os teus olhos

[e há um pássaro que canta sempre

e se te amo é porque já fui rasa
e chão

e tão superfície como superfície
é a vontade de tocar aquilo
que só me custa um passo

e se te amo é porque não sei mais
tirar-me disto, e se soubesse
beberia seu esquecimento

e o pássaro continua cantando
porque é assim que funciona o amor:

mesmo que morra um pássaro
os outros voam em refrão

juntos e minúsculos
bobos e despercebidos

então é assim que te amo:

como quem planta uma flor
para cada dia de vida

para esperar sua morte fazendo
nascer outras mortes.

§

O silêncio é uma picada
de abelha

o ruído cheio de pássaros
a voz que não termina

[…]

todo silêncio é um coletivo
dentro da gente.

§

A vida é esta fresta
entre os pores do sol

que tramam a existência
das coisas

no fim de morrer

[…]

O que é efêmero não dá
trégua.

§

Se persigo o infinito,
jamais hei de me encontrar

[…]

Se não acumulo finais nos
meus olhos

morrerei para sempre.

§

Há em cada espírito solitário
um ilhado

que no primeiro afeto
se torna múltiplo e encolhe

e ainda que encolher-se
o apequene

sabe que – por ser sua própria
intimidade, fica vasto.

§

Estou rapidamente envelhecendo

e a palavra tem se tornado
cada vez mais jovem em mim

[…]

Temo e a felicito, pois algum dia
de tão jovem se tornará semente

e somente os pássaros carregam
sementes.

§

Todas as coisas simples
de tão simples se tornam
mestras
não medem dificuldade
nem nada

abrangem o sentimento:

amar alguém é anular as
eternidades, negar a oração.

*

Padrão
Uncategorized

Cândido Rolim (1965—)

Cândido Rolim (1965, Várzea Alegre,Ceará) é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC/RS e reside atualmente em Fortaleza. Publicou Arauto (1988, Ed. Dubolso, Sabará/MG), Exemplos alados (1997, Ed. Letra & Música, Fortaleza/CE), Pedra habitada (2002, Ed. AGE, Porto Alegre/RS), Fragma (2007, Ed. Secult, Fortaleza/CE) e Camisa qual (2008, Ed. Éblis, Porto Alegre/RS). Publica poemas, artigos e ensaios em alguns sítios e revistas de literatura e crítica na web, editou o blogue Signagem com o poeta e crítico gaúcho Ronald Augusto. Em 2018 lançou, pela editora TextoTerritório, o livro Sutur.

* * *

A PESSOA BALEADA PEDE ÁGUA

E ali o cara estirado entre
curiosos – mãos tapumes para
os ouvidos – enquanto o mundo aos
poucos mais se calcinava e
árvores sombras pessoas
pedras nada era o
nome que chamava.
Ninguém lhe dava um
pedaço líquido de si
ninguém era mais de carne –
mudos coágulos humanos pareciam desejar
a sede maior que
a morte

§

DE CIMA ABAIXO

E esse senhor bem vestido de cima
espiando o contorno
opalescente das unhas
nada diz nada fala nada
comunica a esse outro que
lhe engraxa os sapatos

§

MÃE

estranho só agora
posso medir esse tempo em
que vivemos chamando um
pelo outro – aquela perenidade 
menor a cada dia

Padrão
poesia, tradução

Peter Waterhouse (1956—), por Matheus Guménin Barreto

Peter Waterhouse (1956- ) é um poeta e tradutor austríaco. Publica prolificamente até o presente, e seu mais recente livro foi publicado apenas alguns meses atrás: Equus. Wie Kleist nicht heißt (2018). Waterhouse é constantemente considerado um dos mais significativos poetas da virada do século, e já recebeu quase todos os prêmios que um autor germanófono poderia receber, entre eles o Prêmio H. C. Artmann (2004), o Prêmio de Literatura da Cidade de Viena (2008), o Prêmio Ernst Jandl (2011) e o Grande Prêmio Nacional Austríaco (2012). Até onde me foi possível averiguar, nenhum poema de Waterhouse foi ainda publicado em língua portuguesa.

Os poemas abaixo foram publicadoa no livro passim (1986), que traduzo no momento.

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal (plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Revista Germina, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], A Bacana e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

Na Escamandro publicou o ciclo de poemas homoeróticos “Um corpo incendiado: este” (inédito) e traduções de Ingeborg Bachmann.

***

O nome da língua

O nome da língua quer dizer: Ausência. Diz-se, por exemplo,
neste nome: Mesa. A Mesa é uma formação dura
ante nós. Nós somos uma formação dura
ante a Mesa. Nós nos transformamos e
nos nomeamos Quem-faz-mesas. Os Quem-faz-mesas (em relação a
                                           [nós)
dizem: Nós, Quem-faz-mesas. Ou: Nós, Quem-faz-cadeiras.
Nós quer dizer aqui: Não há nós, nós
é distante, nós qual nada. Há cadeiras. O que às vezes senta nela
se nomeia e me nomeia: Eu. (Na cadeira, o Quem-faz-mesas
escreve, de corpo presente, uma carta na Uma-dessas-formações-
                                          [para-escrever.)
Qual carta? Tudo escapa. Os contextos não são mais
nossos pretextos. Lá em frente estamos nós, no
nada absoluto, bom dia.

Agora: O material. Por vezes o material é um eu
por vezes o mesmo material é uma semente de maçã, uma farpa de
                                         [madeira
folha outonorubra. Um floco de neve momentâneo
cai quase roçando no momentâneo olho. É-se um
olho quase na rota de um floco que cai. De qual
floco?

O nome da língua quer dizer: Ausência. Hungria. Donau. Pisa.
Maria. Semente de maçã. Há mesmo muito à nossa disposição.
Tudo escapa. Criamos um antetexto. Criamos
um pretexto. Nosso louvor quer dizer: nós temos bons pretextos.
Quais?

Der Name der Sprache

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Man sagt zum Beispiel
in diesem Namen: Tisch. Der Tisch ist ein hartes Gebilde
vor uns. Wir sind ein hartes Gebilde
vor dem Tisch. Wir wandeln uns ab und
nennen uns Tischler. Die Tischler (in Zusammenhang mit uns)
sagen: Wir Tischler. Oder: Wir Gesesselten.
Wir will hier heißen: Wir gibt es nicht, wir
ist fern, wir als nichts. Es gibt Sessel. Was manchmal darin sitzt
nennt sich und nennt mich: Ich. (Der gesesselte Tischler

schreibt an Schreibsolchemgebilde anwesend einen Brief.)
Welchen? Alles flieht. Die Hintergründe sind nicht mehr
unsere Gründe. Ganz vorne stehen wir, im
unmittelbaren nichts, guten Tag.

Jetzt: Das Material. Einmal ist das Material ein ich
einmal ist dasselbe Material ein Apfelkern, Holzsplitter
herbstrotes Blatt. Eine augenblickliche Schneeflocke
fällt am augenblicklichen Auge kurz vorbei. Man steht
als Auge kurz an der Bahn einer fallenden Flocke. Welcher
Flocke?

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Ungarn. Donau. Pisa.
Maria. Apfelkern. Uns steht ziemlich vieles zur Verfügung.

Alles flieht. Wir bilden einen Vordergrund. Wir bilden
einen Grund. Unser Lob heißt: Wir haben gute Gründe.
Welche?

§

Sobre o que calamos?

É um Cair-Cá-Para-Fora (terrível Cair-Cá-Para-Fora
maravilhoso Cair-Cá-Para-Fora): no exemplo caem-se
as árvores: cá para baixo
cai o que nos agrada o paladar, e com a mesma boca o nomeamos
Abricote (terrível cair de Damasco
maravilhoso cair de Damasco): todos caem,
e o que é doce quer dizer, com a mesma boca,
Beijo. Beijo quer dizer: Aqui Se Cala. Sobre?
Aqui se cala sobre o Cair-Cá-Para-Fora.

Árvore = Prado.
Casa = Porão.
Deus = Chuva = Rã.
Metamorfose Vertical = Metamorfose Horizontal. Metamorfose quer dizer:
Aqui Se Cala. Sobre?
Porão sob a Casa cala sobre a Casa.

Tropeçamos no porão e lá calamos. Mas
pela escada subimos à casa e
em cima comemos a geleia de amarena achada embaixo. Mas significa aqui:
Depois do terrível tropeçar nós nos
metamorfoseamos e calamos maravilhosamente.
Sobre o que calamos?

Resumo do poema:

Alguém — ao decidir comer geleia de frutas — se enreda num jogo amoroso com amarenas. Outro – ao decidir comer geleia de frutas – se enreda num jogo amoroso com damascos. Damasco é como deus feito rã terrível ou como casa feita terrível porão. Mas é do terrível que a comida foi trazida para cá. Do terrível que se abatera é que nasce algo que é raro e volátil e silencioso.

Worüber schweigen wir?

Es ist ein Herausfallen (furchtbares Herausfallen
wunderbares Herausfallen): Im Beispiel lassen sich
die Bäume fallen: Unten heraus kommt
was uns schmeckt, und wir nennen es mit demselben Mund
Aprikose (furchtbarer Marillenfall
wunderbarer Marillenfall): Jeder fällt
und was süß schmeckt, heißt mit demselben Mund
Kuß. Kuß heißt: Hier wird geschwiegen. Worüber?
Hier wird geschwiegen über das Herausfallen.

Baum = Wiese.
Haus = Keller.
Gott = Regen = Frosch.
Senkrechte Verwandlung = Waagrechte Verwandlung. Verwandlung heißt:
Hier wird geschwiegen. Worüber?
Keller unter dem Haus schweigt über das Haus.

Wir stolpern in den Keller und schweigen dort. Aber
mit der Treppe kommen wir ins Haus und
essen oben das unten gefundenen Morellengelee. Aber meint hier:
Nach dem furchtbaren Stolpern machen wir
eine Verwandlung und schweigen wunderlich.
Worüber schweigen wir?

Zusammenfassung des Gedichts:

Jemand ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Morellen verwickelt. Ein anderer ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Marillen verwickelt: Marille ist wie Gott als furchtbarer Frosch oder wie Haus als furchtbarer Keller. Aber aus dem Furchtbaren ist die Speise geholt worden. Aus dem Furchtbaren, das gefallen ist, kommt etwas, das anders ist und unbeständig und schweigsam.

§

Retorno do êxtase

Qual árvore. Estamos muito quietos frente a frente. A árvore.
Aqui o mundo é assim. Céu, aves, relva.
Tantos dedos para as tuas cerejas. Tu me amas? Rápido.
Qual a nossa aparência de novo, nós formigas?
Me chamo Muro. Salta-o. É pequenininho qual camundongo.
Camundongo. Milharal. Salva-me de quem me ceifa.
Salva-me, o céu me empurra para dentro deste rio.
Pensar azul. Onde os pés
se não os tenho, eu água? Por que peixe?
Qual peixe sob o céu? Amas-me ainda?
O céu já foi aprazível? Já foi, já foi.
Salta-o. O que é uma árvore?
Uma árvore é uma patinha de camundongo do céu.
Junto a, sob, para. Qual bosque
muitos climas passam pra lá. Eu me chamo Clima
com riachos qual pé liquefeito. Os pés. Os pés
chegam a quem? Como somos rápidos.
O camundongo é uma árvore com velocidade.
Muitíssimo amada; e, qual o céu, foi; e depois as aves.
A ave que me entende. O clima
é uma árvore sobre o aprazível mundo. Falar ainda, aqui,
com a fala, não é nada fácil. Rápido se apaixona.
São muitos… Como sou esquecido. Já
como uma maçã. Eu a maçã sou comido.
Precisa-se tentar proximidade. Eu a aprendi.
Beijar é também um tipo de beijo. O que é que sabemos mesmo?
Nariz é uma palavra besta? Onde o céu esteve
ele foi. Agora falo muito só. Um nariz por pessoa.
Estamos muito quietos frente a frente. Peixe ao ataque.
Eu sou a árvore e o peixe. A arvorezinha.
O milharal rumo ao alto, ao clima: qual a minha aparência? Olho,
olha aqui.

Rückkehr der Ekstase

Als Baum. Wir sind voreinander sehr still. Der Baum.
Hier ist die Welt also. Himmel, Vögel, Gras.
So viele Finger für deine Kirschen. Liebst du mich? Schnell.
Wie sehen wir wiede aus, wir Ameisen?
Ich heiße Zaun. Spring drüber. Als Maus ist es herzlich klein.
Maus. Mais. Hilf mir vor dem, der mich mäht.
Hilfe, der Himmel drückt mich in diesen Bach hinein.
Blaues Denken. Wo sind die Füße
wenn ich als Wasser keine habe? Warum Fisch?
Als Fisch unter dem Himmel? Liebst du mich noch?
War der Himmel einmal herzlich? Ist gewesen, ist gewesen.
Spring drüber. Was ist ein Baum?
Ein Baum ist ein Mäusebein des Himmels.
An dem, unter, für. Als Wald
laufen viele Wetter vorüber. Ich heiße Wetter
mit den Bächen als flüssigem Fuß. Die Füße. Die Füße
kommen zu wem? Wie schnell wir sind.
Die Maus ist ein Baum mit der Geschwindigkeit.
Herzlich geliebt und gewesen als Himmel und also die Vögel.
Der Vogel, der mich versteht. Das Wetter
ist ein Baum über der herzlichen Welt. Hier noch zu sprechen
mit der Sprache ist nicht ganz leicht. Schnell verliebt.
Das sind viele . . . Wie vergeßlich ich bin. Schon
esse ich einen Apfel. Ich der Apfel werde gegessen.
Man muß oft du sagen. Du sagen habe ich gelernt.
Küssen ist auch eine Art zu küssen. Was wissen wir nämlich?
Ist Nase ein dummes Wort? Wo der Himmel war
ist er gewesen. Jetzt spreche ich sehr alleine. Eine Nase pro Person.
Wir sind voreinander sehr still. Fisch im Ansturm.
Ich bin der Baum und der Fisch. Das Bäumchen.
Der Mais in die Höhe zum Wetter: wie sehe ich aus? Auge
schau her.

 

Padrão
poesia

11 poemas inéditos de Gilcevi

Foto por Flávia Bernardo

gilcevi é poeta, músico e produtor cultural.

Publicou o livro/cd “Os ratos roeram o azul” (Letramento, 2016. esgotado).

É vocalista da banda Cadelas Magnéticas que lançou o EP “Encruzilhada” (2017), disponível em todas as plataformas digitais. Também lançou com a banda Carolina Diz os discos “Se perder” (2004) e “Crônicas do amanhecer” (2008). Seu novo livro “Retrato do poeta quando devedor do aluguel” acaba de ser lançado pela Letramento.

2016

tudo aconteceu muito rápido
numa semana
os fascistas tomaram o poder
na outra ana foi pra alemanha 
perdi o emprego
tive que pegar minhas coisas
meu semblante orgulhoso
& guardar no porão
da casa de minha mãe
beijar a mão morta de meu pai

um par de dias outra notícia
o amigo também perdera o emprego
& havia se matado
outros chegavam sem aviso
cheios de fúria & de fome
cansados demais para pegar em armas
novamente
josé me encarou com a vertiginosa lucidez
dos loucos & disse vou a brasília vou matar o presidente
foda-se a morte foda-se o cárcere
tenho a companhia de todos esses anjos
a me perdoarem a me guiarem
quem entre nós reinventará
não a roda mas a guilhotina?

minha geração sempre deveu aos deuses
& ao mundo

olhos de cão a quinhentos kilometros do mar

§

um rapaz latino americano

os pretos me aceitam branco
os brancos me tratam servo
a certidão atesta pardo
os índios me convidam irmão
deus me adestra cão
cavalo me honra o exu
oxóssi me guarda seu filho
homem a mulher me pragueja

§

um varão que acaba de nascer
ou da meritocracia

quando nasci
um anjo brasileiro saiu da sombra
me deu 10 reais
um revólver
um livro

& disse
bicho, agora é contigo

§

retrato do poeta pardo tentando escapar
do navio negreiro que ficou encalhado no subúrbio

a rua da infância continua no mesmo lugar
os amigos passam por ela
vindos da guerra ou da timidez

meninas de seios murchos amamentam meninos murchos
negras velhas banguelas áfrikas brankelas cuidam de você
& de mais um milhão de primos & primas
& irmãos & irmãs & bastardos & enteados & renegados & ajuntados
te surram com a bíblia porque você roubou uma maçã

acabou de chegar mais um carregamento
a fila começa a se formar nas bocas
pombos & anjos com diarréia se empuleiram sobre os barracos
um deus brasileiro – botokudo kaboclo yorubanto –
te dá a mão e te aponta o caminho

o céu capacho das cinzas do dia
você respira fundo: a névoa da siderúrgica é mesquinha
& quer o seu pulmão esquerdo o seu pulmão direito
seu tio está fumando crack e roubou todos os seus discos
o pai saiu em condicional finalmente voltou pra casa
o pai tomou a aliança de casamento da mãe pra vender
o pai está desmaiado sobre o próprio vômito
há uma semana a mãe está de plantão na cidade
faxinando cozinhando amamentando lavando passando
desinfetando engomando limpando o chão a casa a merda o cu dos ricos
fantasmas desaposentados pigarreiam constrõem um muro
o policial surra com o cacetete os joelhos do vapor
arquipélagos distantes notícias avultam rumo à febre
perfilados sobre a cratera hipotecada alcançamos a idade da desrazão
o mijo escorre sob o portão da escola
você olha em volta amassa o cigarro com o pé
e repete pra si mesmo o mantra roseano:
o que a vida quer da gente é coragem

§

anotação para obra de arte

um monumento à justiça brasileira
erigido com 450 kilos de cocaína

§

antena da raça

meu primo havia acabado de sair da cadeia
veio me visitar perguntou
me falaram que você agora é poeta é verdade?
respondi sim sou
ele sorriu malandro e disse sempre soube
que você era covarde

§

homo brasiliensis

em cada nascimento a mesma cruz
cadáver adiado na fila do sus

§

foi pego roubando um pacote de arroz

perdeu falou o segurança
prendeu falou o policial   
cifra falou o advogado
culpa falou o juiz         
curra falou o chefe da cela 
sida falou o sus 
solta falou o tempo
fim escreveu o poeta

§

na igreja

aquele mau cheiro que fica
quando deus morre

§

poema dos 40 anos

então é só isso
homens e outras coisas frágeis
que o céu devolve
às avenidas da terra

§

oração do cidadão de bem

Ó Yehôshua Ó Yahweh Ó Iesous Ó Yeshua Ó YHWH Ó Jesus Christós Ó Autor da Salvação Ó Autor e consumador da fé Ó Advogado Ó Bom Pastor Ó Braço do Senhor Ó Cabeça da Igreja Ó Conselheiro Ó Consolador de Israel Ó Cordeiro Ó Criador Ó Cristo de Deus Ó Eleito de Deus Ó Emanuel Ó Estrela da Manhã Ó Filho Amado Ó Filho da Justiça Ó Filho de Davi Ó Filho de Deus Ó Bendito Filho do Altíssimo Ó Filho Unigênito Ó Glória do Senhor Ó Guia Ó Herdeiro Ó Homem de Dores Ó Imagem de Deus Ó Jesus Ó Jesus de Nazaré Ó Juiz de Israel Ó Justo Leão de Judá Ó Legislador Ó Libertador Ó Luz do Mundo Ó Mediador Ó Mensageiro da Aliança Ó Messias Ó Nazareno Ó Pai Eterno Ó Palavra de Deus Ó Palavra Ó Verbo Ó Pão da Vida Ó Pastor e Bispo Ó Pedra de Esquina Ó Poderoso Ó Porta Ó Precursor Primeiro e Último Ó Primogênito Príncipe Ó Príncipe da Paz Ó Príncipe da Vida Ó Profeta Ó Raiz de Davi Rei Ó Rei das Nações Ó Rei dos Judeus Ó Rei dos Reis Ó Rei dos Séculos Ó Renovo Ó Ressurreição e Vida Ó Rocha Ó Salvação Ó Salvador Ó Santo Ó Santo de Deus Ó Santo de Israel Ó Santo Servo Ó Senhor da Glória Ó Senhor dos Senhores Ó Sol Nascente Ó Sumo Sacerdote Supremo Ó Pastor Todo-Poderoso Ó Verdade Verdadeira Ó Luz Ó Vida Ó Videira Ó Cristo Ó Cristo do Senhor Ó Cristo de Deus Ó Cristo que vos foi destinado Ó Messias Ó Filho de Deus Ó Filho do Deus vivo Ó Filho de Deus que havia de vir ao mundo Ó Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e cujos pés são como latão reluzente Ó Filho do Pai Ó Filho do Bendito Ó Filho do Altíssimo Ó amado Filho de Deus, em quem Deus se compraz Ó Unigênito vindo de junto do Pai, que está no seio do Pai Ó Senhor Ó Senhor Deus, que é, que era e que vem, o Onipotente Ó Senhor da glória Ó Senhor da paz Ó Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas Ó Senhor dos senhores Ó Senhor dos mortos e dos vivos Ó Eterno dos exércitos Ó Eterno nossa justiça Ó Eterno forte e poderoso, Ó Eterno poderoso na batalha Ó Eterno, o meu Deus Ó Deus bendito eternamente Ó verdadeiro Deus Ó nosso Deus Ó nosso grande Deus Ó imagem do Deus invisível Ó expressa imagem do ser de Deus Ó resplendor da glória de Deus Ó Primogênito Ó Santo de Deus Ó Servo de Deus Ó santo servo de Deus Ó poder de Deus Ó sabedoria de Deus Ó justiça de Deus Ó salvação de Deus Ó instrumento da salvação de Deus Ó Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo Ó Eleito de Deus Ó Anjo do Eterno Ó Renovo do Eterno Ó braço do Eterno Ó Filho do homem Ó Filho do homem que está no céu Ó Filho de Davi Ó raiz e descendência de Davi Ó Rebento de Davi Ó raiz de Jessé Ó Filho de Abraão Ó descendência de Abraão Ó Poderoso de Jacó Ó Santo de Israel Ó Anjo do pacto Ó Anjo da sua face Ó Amado Ó caminho, a verdade e a vida Ó Palavra da vida Ó Príncipe da vida Ó pão da vida Ó pão vivo que desceu do céu Ó pão de Deus que desce do céu e dá vida ao mundo Ó luz do mundo Ó luz dos homens Ó verdadeira luz que alumia a todo homem Ó Aurora do alto Ó autor de uma salvação eterna para todos os que lhe obedecem Ó mediador do novo pacto Ó Salvador do mundo Ó Cordeiro que foi imolado Ó descendência da mulher Ó rocha espiritual que seguia os Israelitas Ó príncipe dos reis da terra Ó Leão da tribo de Judá Ó Nazareno Ó profeta de Nazaré da Galileia Ó profeta que havia de vir ao mundo Ó glória do teu povo Israel Ó consolação de Israel Ó redenção de Jerusalém Ó Primeiro e o Último, que foi morto e reviveu Ó Libertador Ó bom pastor Ó sumo Pastor Ó grande Pastor das ovelhas Ó porta das ovelhas Ó pedra angular Ó pedra que os edificadores rejeitaram Ó fundamento que já está posto Ó estaca Ó arco de guerra Ó esposo Ó cabeça da igreja Ó cabeça do corpo Ó cabeça de todo homem Ó cabeça de todo principado e potestade Ó Salvador do corpo Ó videira verdadeira Ó Príncipe da Paz Ó Aquele que nos trará a paz Ó rosa de Saron Ó Lírio dos vales Ó propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo Ó aliança do povo Ó fim da lei Ó Sol da justiça Ó resplandecente estrela da manhã Ó justo juiz Ó juiz dos vivos e dos mortos Ó homem que Ele destinou A vida eterna Ó ressurreição Ó esperança da glória Ó bem-aventurada esperança Ó primogênito entre muitos irmãos Ó primogênito de toda a criação Ó primogênito dentre os mortos Ó primícias dos que dormem Ó Princípio e o Fim Ó princípio da criação de Deus Ó primeiro e o último Ó Alfa e o Ômega Ó testemunha fiel e verdadeira Ó Amém Ó Vivente Ó Santo Ó justo Ó Verdadeiro Ó Fiel e Verdadeiro Ó Rei que vem em nome do Senhor Ó Rei dos Judeus Ó Rei de Israel Ó Rei da Filha de Sião Ó Rei da glória Ó Rei dos reis Ó Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé Ó autor da nossa salvação Ó Pastor e Bispo das nossas almas Ó homem de dores, que sabe o que é padecer Ó cordeiro sem defeito e sem mancha, preordenado antes da fundação do mundo, mas manifestado nos últimos tempos por amor de nós Ó grande luz Ó grande profeta Ó profeta poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo Ó homem que Deus aprovou entre os Judeus com milagres, prodígios e sinais que Deus por ele fez no meio dos Judeus Ó firme fundamento Ó pedra angular preciosa Ó pedra provada Ó pedra de tropeço e uma rocha de escândalo Ó Mestre vindo de Deus Ó misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas pertencentes a Deus Ó grande Sumo Sacerdote que penetrou nos céus Ó advogado junto do Pai Ó coroa esplêndida Ó diadema de honra Ó renovo justo Ó renovo de justiça Ó homem que nos disse a verdade que de Deus ouviu Ó Alguém maior do que o templo Ó maior do que Salomão Ó maior do que Jonas Ó nossa justiça, santificação e redenção Ó nosso Senhor Ó nosso Salvador Ó nossa Páscoa Ó nossa vida Ó nossa esperança Ó nossa paz Ó Aquele que havia de vir Ó Aquele que veio com água e com sangue Ó Aquele que serve Ó Aquele que não conheceu pecado Ó Aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo Ó Aquele que Deus enviou Aquele que vem em nome do Senhor Ó Aquele que vem do alto Ó Aquele que vem do céu Ó que busca a glória daquele que o enviou Ó Aquele que é desprezado pelos homens Ó Aquele que é detestado pela nação Ó Aquele que suportou tal oposição dos pecadores contra si Ó Aquele que será dominador em Israel Ó Aquele que traspassaram Ó Aquele que Deus ressuscitou Ó Aquele que morreu e ressuscitou por nós Ó Aquele que desceu às partes mais baixas da terra Ó Aquele que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas Ó Aquele que nos ama, e nos libertou dos nossos pecados com o seu sangue Ó Aquele que está em nós Ó Aquele que batiza com o Espírito Santo Ó Aquele que nos chamou por sua glória e virtude Ó Aquele que semeia a boa semente Ó Aquele que é desde o princípio Ó Aquele que cumpre tudo em todos Ó Aquele que tem a chave de Davi, aquele que abre e ninguém fecha, aquele que fecha e ninguém abre Ó Aquele que tem na sua destra as sete estrelas, e que anda no meio dos sete castiçais de ouro Ó Aquele que tem a espada aguda de dois gumes Ó Aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas Ó Aquele de quem escreveram Ó Moisés na lei, e os profetas Ó Filho de José O carpinteiro Ó Filho de Maria Ó irmão de Tiago e de José, de Judas e de Simão Ó Jesus de Nazaré Ó Nazareno Ó Jesus Ó Galileu Ó Davi Ó Bom Mestre Ó Tudo em todos Ó Herdeiro de todas as coisas Ó Pedra viva Ó Sumo Sacerdote dos bens futuros Ó Autor e consumador da fé Senhor do sábado Ó Príncipe e Governador dos povos Ó Testemunha dos povos Ó Ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, que o Senhor, e não um homem, erigiu Ministro dos circuncisos Ó Conselheiro Ó Maravilhoso Pai eterno

Ó Deus todo poderoso VAMOS MATAR A TODOS!

QUE ASSIM SEJA, MESSIAS BOLSONARO 2018.

Padrão
poesia

Um poema inédito de Ricardo Escudeiro

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e assistente editorial na Patuá. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), entre outras. Traduziu poemas da autora afro americana Nayyirah Waheed, publicados pelo Selo Gueto Editorial, da Revista Gueto, em 2017. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias “Os pastéis de nata ali não valem uma beata” (Enfermaria 6, 2018), “29 de abril: o verso da violência” (Editora Patuá, 2015), “Golpe: antologia-manifesto” (Punks Pôneis, 2016), “Poemas para ler nas ocupa” (Editora Estranhos Atratores, 2016).

sílex

para W.W.
minha estrela, meu silêncio perfeito

é domingo e já é tarde
mas
quando não é
procuro o controle
tá aqui
no beiral do sofá
aperto o botão liga desliga
nada
mexo nas pilhas dou umas duas ou três batidas no mesmo
nada
talvez seja mesmo o fim dessas pilhas
tento lembrar se foi por falta de dinheiro ou se foi por esquecimento
que deixei de trocá-las há tempos
há dias que falhavam
levanto e ligo a tevê
analogicamente
coloco um episódio de uma série que já vi
e dou uma volta pela casa
vejo no parapeito de uma das janelas baixas
o isqueiro bic tamanho grande azul que você esqueceu
e há semanas tá ali na beirada
penso o seguinte

nem fumamos juntos um último cigarro

mas penso
que dessa última vez que voltamos
há um bom tempo que eu já nem fumava mais
mas penso
agora em seguida que dizer eu ou dizer a gente
quando se fala assim só com o pensamento
a voz é a mesma embora os tons distintos
como dizer a chama artificial e dizer a chama cadente
como dizer a resistência às intempéries e dizer a resistência ao tempo
aciono o isqueiro e funciona de prima
contemplo
numa silenciosa beleza o que é ígneo

Padrão
crítica, xanto

XANTO| Versos de um fel antirracista — Lubi Prates por Bruno Vieira

Quando juntamos a palavra “corpo” e “negro” na mesma frase, criando a expressão “corpo negro”, diversas imagens nos vêm à cabeça. Uma hora nos vem a imagem da sambista seminua que desfila na escola de samba. Outra hora vem o capoeirista que evoca uma ancestralidade por meio da sua ginga. Certos lugares são mais evocados e outros se tornam esquecidos do lugar da pessoa negra na sociedade. E tais lugares são basicamente visões estereotipadas e/ou distorcidas do que a expressão pode evocar. E, ao se falar do livro “um corpo negro”, de Lubi Prates (nosotros, editorial), faça o favor de esquecer qualquer tipo de estereotipia. 
 
O livro é uma coletânea de poemas escritos por Lubi dentro de um processo de reconhecimento do seu corpo como um elemento inscrito na sociedade. São poemas que não são facilmente inteligíveis do ponto de vista da razão, apenas, mas que causam profundo rendez-vous nas nossas mais íntimas entranhas. É um livro repleto de entranhas que não são estranhas às pessoas negras, diga-se de passagem. Pessoas negras que leem o livro se identificam com ele não no nível da consciência, mas de um inconsciente coletivo, de um sentimento de pertença que faz com que se enxergue cada pessoa negra em cada letra, em cada palavra, em cada verso e estrofe.
 
um corpo negro é um livro indigesto. Porque ele traz uma mensagem que precisa ser dita pela poeta e ouvida pelo leitor. Não é uma publicação linear tampouco se pretende a isso: escrito de maneira visceral pela poeta paulistana, o livro é uma coletânea de poesias que relatam as diversas maneiras de se experienciar a vivência de um corpo negro – geralmente subjugado e visto como inferior na nossa sociedade (racista) brasileira. O profundo e denso movimento a que essa publicação nos leva a fazer deixa-nos desbaratinados, tontos, des-realizados, mas ao mesmo tempo cientes do que é a condição de um corpo negro num mundo desigual, num mundo racista. 
 
Se você espera que um corpo negro seja uma publicação de fácil leitura, você se equivoca. Sabendo-se que o racismo é uma experiência venenosamente amarga às pessoas negras, o livro nos apresenta a condição de tais corpos no mundo e, ao mesmo tempo, revela que esses corpos não necessariamente irão sucumbir à discriminação. Ainda que ela exista, e se paute pela cor da pele, o livro é uma prova cabal de que resistência não é meramente uma palavra de ordem, mas ummodus operandi de uma população violentada há pelo menos 350 anos.
 
Não podemos esquecer que estamos em tempos sombrios. Tempos nos quais é fácil desacreditar e paralisar diante o inimigo. Por isso, um corpo negro pode ser um texto triste, cuja melancolia não aponta para a morte, mas apresenta como tem sido possível a existência e a resistência de corpos negros, diversos e diferentes, nesse nosso Brasil que se coloca acima de todos. 
 
* * *

arrancaram meus olhos
e cada pelo do meu corpo,
cortaram minha língua.
arrancaram unha a unha,
dos pés e das mãos.
cortaram meus seios e o clitóris,
cortaram minhas orelhas,
quebraram meu nariz.
encheram minha boca e os outros vácuos
de monstros:
eles devoraram tudo.
só restou o oco.
então, eles comeram este resto,
limparam os beiços.

depois, vomitaram.

§

quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela não ultrapassa
as páginas do dicionário e
do livro de História?

quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela está estática ou
cercada por outras palavras
nas páginas policiais?

quem tem medo da palavra
NEGRO
se transformam em:
moreno mulato
qualquer coisa bem perto de
qualquer coisa quase
branco?

quem tem medo da palavra
NEGRO
se quando eu digo
faz silêncio?

quem tem medo da palavra
NEGRO
que eu não digo?

quem
tem
medo
da
palavra
NEGRO

quando ela não faz pessoa:
carne osso e fúria?

§

meu corpo é meu lugar de fala

meu corpo é
meu lugar
de fala

embora
a voz seja
apenas
um resto
arranhando a garganta.

meu corpo é
meu lugar
de fala

e eu falo
com meus cabelos e
meus olhos e
meu nariz.

meu corpo é
meu lugar
de fala

e eu falo
com minha raça.

meu corpo
eu nomearia
território

se pudesse
inventar
um idioma próprio.

meu corpo é
meu lugar
de fala,

meu corpo é
meu território:

um caminho
sempre
insuficiente

construído
a partir de
escombros

moldado por
violências

tantas vezes invadido.

meu corpo é
meu território:

a fronteira
guarda o limite

um vazio
no lugar do
estômago.

meu corpo é
meu lugar
de fala

embora
a voz seja
apenas
um resto
arranhando a garganta.

meu corpo
eu nomearia
território

se pudesse
inventar
um idioma
próprio.

meu corpo
conta
por si só
histórias
além de mim.

* * *

Bruno Vieira é jornalista e mestre em Psicologia Social. Possui experiência em elaboração e execução de projetos socioculturais, bem como em articulação social. Atua com comunicação comunitária e em projetos de formação que visam contribuir para o acesso de pessoas negras à pós-graduação. É coordenador do projeto “Mente Preta”, podcast que entra no ar a partir de janeiro de 2019.

Padrão