poesia

Lucio Carvalho (1971—)

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu calor
são plantas loucas as que alimentam
o cultivo da floresta
desordenada e íngreme
que me faz subir e subir
e nunca parar de subir –
que modo estranho elas têm
elas todas são tão igualmente
compenetradas e objetivas
na devoração das pedras
e no consumo da água
e vão extrair até a última gota
sem sacrifício
mas eu não sei para o que sirvo
nem o que vim fazer aqui
deve ser um sonho que não tive
e que me sonhou, de onde acordei
e deparei com a selva intacta
e o carinho feroz de seus animais
esse que tem a cara de antílope
é brando e quer tocar meu coração
com seus dedos desumanos
e aquela dríade que nasceu dentro de mim
vai a varrer minhas pegadas
e a engolir meu caminho
aqui não é como nas savanas
onde os rugidos prenunciam o óbvio
mas tudo é sorrateiro como as sombras
que ocultam o dia da noite
e vice-versa
é mais ou menos o caos completo
ninguém passa gritando ou buzinando
a regra é dita em rumores e o ramo de rosas
que se guarda sob a pele
só pode abrir-se por invocação
ao transformar-se em vapor
e nos perfumes do alimento
quando acabamos não há muito o que ver
nem entender nem acalmar
o tempo parou para eu tocar
nos poros e na seiva dos seres
e tudo o que existe lá fora
é apenas tédio e aborreceres
dizem por aí que viver é pouco
mais que haver comida e bebida
o bastante e coisas elementares
que se devem ter por direito
um dia desses posso dizer – quando sair daqui
a salvo e a sós, como deve ser o sujeito –
viver só vale a pena para provar seu efeito

§

À natureza

empenho aos seus olhos
como notas promissórias
duas dúzias de palavras
nas quais o silêncio envergonha-se
e começo a dizer outra vez
como tudo pode acontecer
é assim, espetado de ponta a ponta,
que atravesso meus dias
e as noites por sua vez atravessam-me
criando hiatos e prenúncios de véspera
(a criação é uma bandeira
trêmula e lunar nestes lugares)
eu sei que em breve
no vento que vem do oriente
nos sinais de um livro entre as estantes
nos versos que nunca fizeram sentido
eu nascerei na forma de palavras
que nunca esgrimiram, afora estas vinte
(fosse um lutador versátil
como um puma distante de casa
cuja fome especula a vítima
até que ela possa defender-se
enorme e inacessível
como uma montanha
teria gasto as unhas nas pedras
até que me convencesse por elas
do que deveria ou não fazer –
meu maior temor é temer
o sobejo soterramento
e eu vir abaixo)
estou à direita, no corredor ao lado
há um arbusto falso
que nunca me oferece certeza
se o que estou a ver
ou a fazer
pertence mesmo à natureza

§

Provisória

não espero fazer nada
e que tudo esteja cumprido
nem entender o que seja
mas estar desde já entendido
que quando abra meus olhos de dia
é que a noite foi esconder-se
o pouco que sei aprendi
sem lastro nem alicerce
como o acaso desenha nas nuvens
ou um algoz o machado afia
olhando bem em meus olhos
sou quem ele nem desconfia
ao juntar meus pedaços do chão
sossego a alma que grita
depois que tudo acabar-se
talvez eu a ela demita
a minha parte estará feita
não que isso melhore a história
querendo-a pouco ou demais
a vida é solução provisória

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poesia

uma poema de nina rizzi

fredy alexandrakis

arte: fredy alexandrakis

‘nossa pele água toda
carne ossos pele
como coisa única

tenho um mapa nas pernas
poros que se coçam nas axilas e virilhas

e ainda mais um mapa linhas transparentes
verdes que me sobem da barriga até os braços

disseram que eu ame o meu corpo

era o bom quando o conhecia
o sangue espesso e quente que me escorria

cada dorzinha absurda
em seu devido lugar

as festinhas que me fazia em êxtase
cantando um tanto louca o bliss o amor

agora cá dentro um bicho que me come
dizem mulher
digo Coralina

nome destino
sereia petrificada
água e coral

Coralina é toda mole
de tão mole chega a ser dura
como negação de seu ser toda água

toda água
cheia d’água Coralina

abraço-a
mas então é toda bicho
selvagem e rígida dói-me toda

até que sou também
esse imenso recife de corais
espelho d´água toda síndrome

cabelos e pelos caem
caem    caem    caem

penso numa deusa do milho
num verso que diga
“bonecas de milho afogadas
…………………………………. adeus”

enquanto uma agulha me vara a barriga
de fora adentro mordo as mãos da mulher
que me recita documentos e valores

e o essa é a vontade de deus
um deus de leis e vontades
que em mim se vinga

por uma eva e sua maçã
que jamais existiram

Coralina cresce
a água toda

eu espero
eu espero

a barreira de coral
se alarga
ela é uma sereia

feia?
bonita?

implacável com seu coração
de florezinhas petrificadas

meu corpo um mar desconhecido
furioso de nostalgias e quebrantos

es
go ta
men to
……………………………………. água-forte

o que é esta mulher?
o que é uma mulher?

me dissolvo lentamente
11 semanas
17 semanas

um homem diz
não mais que 20
já se vão 28

sou um experimento genético

um corpo que pertence ao estado
ao deus
à ciência
………………………………………… ao além

eu sei de cor
o esperar
o esperar

essa vontade que não é minha
e todo homem com seu eu te amo
e a cartinha contravenção

o eu te amo habeas-corpus
vindo assim da boca-
-documento sem tamanho

{eu te prendo
}eu me rendo

olha
Coralina
eu te amo

eu sei o bicho que me come dentro
eu sei eu sou uma mulher

[nina rizzi]

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xanto

XANTO| Daniel Faria e o complexo de Sísifo: o processo cíclico da poesia a partir da palavra e do silêncio, por Patrícia Lino

Tentativas 1-3 seguidas da morte: transportar a enorme pedra até ao cume da montanha/ deixá-la rolar encosta abaixo/ procurar um lugar entre o sopé e o cume da montanha

daniel_faria_gf

καὶ μὴν Σίσυφον εἰσεῖδον κρατέρ ̓ ἄλγε ̓ ἔχοντα
λᾶαν βαστάζοντα πελώριον ἀμφοτέρηισιν.

E vi Sísifo a suportar grandes sofrimentos,
ao tentar, com as mãos, erguer uma enorme pedra.

Od. XI, 593-594

Inque tuo sedisti, Sisyphe, saxo.

E também tu, Sísifo, te sentaste sobre a tua pedra.

Ov., Met., X, 44

 

A visão e a escuta precedem o gesto poético e existem, num espaço extratemporal, a par uma da outra. Como nota Carlos Azevedo[1], Daniel Faria mantém-se fiel a esta ideia quando a 14 de Julho de 1993 escreve: “Poeta é o que descobre. Isto é, o que vê primeiro”[2]. Insiste, aliás, na mesma premissa cinco anos mais tarde, ao parafrasear Joyce, “quem começa pela escuta pode ver”[3]. Escutar e ver, resultados do mais pleno silêncio, são, além disso, sinônimos da revelação: há um enorme poder em estar calado.

Podem responder-me que não tenho poder para tanto. Mas tenho, entretanto, poder para calar-me, e é estranho que haja homens que não se assustem com um poder assim.[4]

Se o propósito de Daniel é ascender ao lugar do “verbo absoluto”[5], o silêncio sustenta os alicerces do seu universo poético, essa “epifania, lugar de revelação ou de aparição”[6]: “Precisava de falar-te ao ouvido/ De manter sobre a rodilha do silêncio/ A escrita”[7]. A “rodilha do silêncio” ou o suporte da escrita parte, de resto, da própria impotência — ser capaz de ser rigorosamente nada. À impotência opõe-se a potência — ser capaz de escrever. Logo, não há potência sem impotência; à exceção de Deus, porque não-ser se diz dos mortais, e Deus é imortal. Assim, quando Daniel escreve “rodilha do silêncio”, lembra, ao mesmo tempo, o que Giorgio Agamben aponta como requisito ao poeta[8] e o que sugeria já Górgias no “Tratado do Não-ser”:

Na verdade, é com a palavra que identificamos algo, mas a palavra não é nem aquilo que está à vista nem o ser; logo, aos que nos rodeiam, não comunicamos o ser mas sim a palavra, que é diferente das coisas visíveis.[9]

O propósito poético é não dizer. A potência pertence ao que a possui sem a pôr em prática. O indizível nega, porém, a linguagem; o que significa que o propósito poético se nega e reafirma toda a vez que o poeta tenta apreendê-lo pela palavra. O silêncio e a palavra são dois veículos comunicativos válidos e coexistentes[10].

Por isso, embora José Ricardo Nunes note que a poesia de Daniel Faria vive de “uma constante dialéctica, cujos polos, para além da proximidade e da distância, são ainda a presença e a ausência, o pleno e o vazio, a errância e o regresso”[11], o polo palavra/silêncio parece sustentar, mais do que qualquer outro, a referida estrutura dialética:

Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio

Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço[12]

A “Explicação do Poeta”, incluído em Explicação das Árvores e de Outros Animais (1998) e transcrito acima, vem, por exemplo e à semelhança de várias outras passagens, demonstrá-lo: o poeta cava o silêncio em direção a Deus e fá-lo através da palavra; o que é aparentemente contraditório. O próprio ato de cavar, avesso aos céus, adensa a contradição: a enxada transforma-se num “punhal” e brilha como uma “lâmina”.

A palavra despe-se
O silêncio despe-se

Nus
Os sexos ardem

[…]

O silêncio
E a palavra

O poeta
E o poema[13]

A interpretação do projeto poético de Daniel Faria faz-se, portanto, neste sentido: o silêncio não nega a escrita e a escrita deriva do não-silêncio. O silêncio (a escuta, a visão) e a palavra — como o gesto físico do poeta —, são elementos discursivos; dizem-se e não-dizem-se. O movimento é, além do mais, paradoxal: o silêncio questiona as limitações da palavra e a palavra questiona as limitações do silêncio; que, perante Deus, são e serão insuficientes.

Como resultado da insuficiência do polo palavra/silêncio, o projeto de Daniel assenta de modo consistente no jogo intertextual: desde Homero, Apolodoro, Dante, São João da Cruz, Santa Teresa de Jesus — estes dois últimos com maior destaque —, até passagens de poetas modernos como Herberto Helder, Luiza Neto Jorge, Carlos Drummond de Andrade, Maria Gabriela Llansol, Sophia de Mello Breyner ou Ruy Belo. O fenômeno intertextual ou a repetição, porque “o poeta não tem para a poesia mais do que as palavras dos outros ou as palavras de outrem[14], tanto interrompe como corrobora a insuficiência que a motivou em primeiro lugar.

Sei que estou em viagem na palavra que se move.[15]

*

Busquemos apenas
As palavras repetidas.[16]

Escrever com os outros ou a partir deles não basta. Mais: o gesto poético, primo e privilegiado, corresponde evidentemente ao gesto voluntário do autossacrifício. Qualquer ideia de privilégio anula-se, de resto, a si mesma: “a minha poesia é um punhal contra si mesma”[17]; independentemente, aliás, de quem a pense: “eles [os gênios] não são assim tão amparados apesar de estarem tão mais próximos de Deus”[18]. O poeta sacrifica-se em nome de uma distância a que jamais poderá ganhar e, pela mesma razão, o “verbo absoluto” é tão desejado quanto temido.

A expressão ou verbo absoluto cruza obviamente os dois tempos do poema: o abstrato, porque escutado ou visto em silêncio — o momento anterior à poiese, onde, segundo Derrida, o poema verdadeiramente existe[19] —, e o físico, falado e escrito. Por isso, quando Daniel escreve, segundo “a proclamada harmonia do espírito do desprendimento”[20], existe antes de qualquer palavra a escuta:

O que escrevo é a fonte
Transformada.[21]

A vertigem da unidade absoluta, em que ἔκστασις (ekstasis) e αἴσθησῐς (aisthesis) coincidem, pesa ao poeta como a enorme pedra pesa a Sísifo. A falta de um lugar ou a disposição do corpo num lugar permanentemente mal situado compõem o cenário onde se caminha, sem sucesso, para o alto (“Da minha casa subirei sem palavras/ Em silêncio”[22]). Mal situado, o poeta é um ponto na circunferência, semelhante a todos os outros, distando apenas do centro — onde está Deus. Explicar por que razão se caminha para o alto, inacessível e indecifrável, acaba por ser tão inútil como a própria caminhada. As explicações de Daniel não são, por isso, explicações:

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
[…]
Estou ligeiramente acima do que morre
[…]
Ando ligeiro acima do que digo
[…]
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
[…]
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede[23]

Além do mais, as explicações que não são explicações carregam perguntas labirínticas: onde estão as coisas que ficam entre o céu e a terra? Se o gesto de escrever, de recorrer ao verbo para falar com Deus, está reservado aos mortais, o uso da palavra — terrena ou dessituada — nada mais é do que a preparação para a morte?

O meu projecto de morrer é o meu ofício[24]

Não se encara a morte apenas como um “projecto pessoal, mas como ofício, isto é como o trabalho a desempenhar, em execução firme do projecto central da vida”[25]. E o amor a Deus não se estende só ao silêncio (“porque o amor será sempre do silêncio”[26]), mas sustenta a caminhada silenciosa até à morte; o único sentido, parece-me, do labirinto cíclico de Daniel — morrer sem acabar: “Esta nau não me levará a casa/ E seguir-te não será morrer”[27]. Daniel repete, de resto, o gesto monástico dos que, sobre o chão, procuravam irmanar-se com a terra[28]:

Se eu um dia me suicidar, não há-se ser pela infelicidade da minha vida, mas pela felicidade da morte. Nada, como a morte às vezes, me é tão sedutor. Não é dor, nem medo, nem ausência, nem peso. É apenas essa estranha leveza de não-ser.[29]

Se a potência da escrita corresponder à potência do que pode não ser escrito, a vida plena passa a ser a que pode não ser vivida (“entrei em morte sucessiva no que vive”[30]). E é precisamente até aqui que o processo cíclico de Daniel Faria nos traz, a um lugar cheio de luz: “Soubesse eu soldar o silêncio/ […]/ Soubesse eu morrer iluminando”[31]. A φῶς (phôs) ou a luz dá lugar, como diz Carneiro Leão a propósito dos antigos, “[a]o princípio de tudo (arché panton)”[32]. O mesmo acontece no pensamento monástico: a luz, parte de Deus e deificadora (theosis), mencionada em praticamente todas as páginas de São Simeão e Gregório Palamas, foi a luz que os discípulos de Cristo viram no Monte Tabor. A tal realidade supratemporal, consagradora do silêncio, corresponde o segundo processo labiríntico: entender a morte luminosa. Com efeito, a relação imperfeita entre a palavra e o silêncio existe a par da relação entre a morte e a luz e, como nota Carlos Azevedo, é a dureza da luz que prepara o caminho para a morte[33]:

Amo-te com a constância do moribundo que respira
Já sem saber de que lado o visita a morte
Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dos temporais[34]

Ao mesmo tempo, a luz parece definir o que vem depois da morte e, ao mesmo tempo, aclarar o tom crescente, porém frágil, da sequência: uma vida cheia de luz, uma morte luminosa e um mundo feito de luz. Nenhuma das três partes garante a existência ou o funcionamento das outras duas. No entanto, cada uma delas confirma o óbvio: o projeto poético de Daniel parte da construção, desconstrução e consequente reconstrução do(s) labirinto(s). Sopé, subida, cume — descida, sopé, subida, cume.

De enrolares a pedra é redonda
A vida[35]

 

* * *

NOTAS:

[1] “Daniel Faria, Operário do Silêncio”, E Agora Sei que Oiço As Coisas Devagar, org.: Francisco Topa e Marco de Oliveira Marques, Porto, Sombra pela Cintura, 2010, p. 29: “Ao definir o exercício poético como resultante dessa busca do silêncio, de um abrir do terreno da vida para descobrir o caminho primeiro da realidade, Daniel Faria é fiel ao que escrevera já no Livro do Joaquim”.

[2] Livro do Joaquim, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2007, p.72.

[3] O texto a que fazemos referência, “Auto-retrato do artista enquanto jovem”, pode ser encontrado nos anexos ao estudo “Para o Instrumento Difícil do Silêncio” de Francisco Saraiva Fino, publicado na Revista da Faculdade de Letras – Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2008 [2006], pp. 428-429.

[4] Idem, p.429.

[5] Expressão de Rosa Maria Martelo, “Anos Noventa: Breve Roteiro da Novíssima Poesia Portuguesa”, Via Atlântica, no. 3, São Paulo, Universidade de São Paulo, 1999, p. 228: “A poesia de Daniel Faria apresenta-se como via para um conhecimento unitivo e totalizante, onde a palavra ganha a consistência de verbo absoluto.”

[6] Ibidem.

[7] Daniel Faria, Poesia, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2006, p. 20.

[8] Bartleby, Escrita da Potência, ed.: Giorgio Agamben e Pedro A. H. Paixão, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 24: “Apenas no ponto em que nos conseguimos calar neste Tártaro e fazer experiência da nossa própria impotência nos tornamos capazes de criar, nos tornamos poetas.”

[9] “Tratado do Não-ser ou da Natureza”, Testemunhos e Fragmentos, trad.: Manuel Barbosa e Inês de Ornellas e Castro, Lisboa, Colibri, 1993, p. 34.

[10] Recordo Modesto Carone, quando, com base nas leituras de João Cabral de Melo Neto e Paul Celan, reflete sobre a poética do silêncio: “Essa é, no entanto, a própria condição de surgimento do indizível, o filtro que o revela: malogro inevitável e necessário de toda linguagem que tenta dizê-lo”, A Poética do Silêncio, São Paulo, Editora Perspectiva, 1979, p. 89.

[11] José Ricardo Nunes. “Daniel Faria”, 9 Poetas para o Século XXI, Coimbra, Angelus Novus, 2002, p. 23.

[12] Op. cit., 2006, p. 101. Ainda sobre esta passagem, Raquel Ribeiro escreve: “Ser poeta é, por isso, ser homem de enxada na mão, trabalhar a terra, colher os frutos, amar as plantas e os animais, procurar gritos novos para que o poema não morra”, Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas, org.: Pedro Eiras, Porto, Deriva Editores, 2008, p. 82.

[13] Op. cit., 2006, p. 386.

[14] Manuel Gusmão, Tatuagem e Palimpsesto, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 13.

[15] Op. cit., 2006, p. 132.

[16] Idem, p. 341.

[17] Livro do Joaquim, 2007, p. 67.

[18] Ibidem.

[19] “Nunca há senão poema, antes de toda a poiese”, Che cos’è la poesia?, trad.: Osvaldo Manuel Silvestre, Coimbra, Angelus Novus, 2003, p. 9.

[20] Martin Heidegger, A Caminho da Linguagem, trad.: Marcia Sá Cavalcante Schuback, São Paulo, Editora Vozes, 2003, p. 59: “Poetizar significa: dizer seguindo a proclamada harmonia do espírito do desprendimento. Antes de tornar-se um dizer, ou seja, um pronunciamento, poesia é na maior parte de seu tempo escuta.”

[21] Op. cit., 2006, p. 264.

[22] Idem, p. 214.

[23] Idem, p. 39.

[24] Idem, p. 85.

[25] Carlos Azevedo, “Soubesse Eu Morrer Iluminando”: O Sentido da Morte em Daniel Faria”, Revista Interdisciplinar sobre o Desenvolvimento Humano, no. 1, Outubro 2010, p. 54.

[26] Livro do Joaquim, p. 71.

[27] Op. cit., 2006, p. 65.

[28] Recordo David Le Breton, quando, a partir da ideia do silêncio, escreve: “La vie monastique se recoupe en bien des endroits malgré les différences de sensibilité et d’organisation. Elle est un renoncement aux passions et aux biens de la vie profane pour accéder à une communion plus parfaite à Dieu”, Du Silence, Paris, Métailié, 1997, p. 193.

[29] Livro do Joaquim, 2007, p. 73.

[30] Op. cit., 2006, p. 175.

[31] Idem, p. 302.

[32] Filosofia grega — Uma Introdução, Teresópolis, Daimon, 2010, p. 89.

[33] Op. cit., p. 56: “São os momentos de dureza da luz a preparar o mártir na oração para morrer”.

[34] Op. cit., 2006, p. 246.

[35] Idem, p. 69.

Padrão
poesia, tradução

Dez imagens da vaquejada, de K’uo-an Shih-Yuan, por Guilherme Gontijo Flores

all creation
endless
interpenetration
(John Cage)

Não me sinto à vontade para apresentar a história, o contexto e as interpretações filosóficas desta série de poemas atribuídos ao mestre K’uo-an Shih-Yuan (séc. XII, também conhecido como Kuoan Shiyuan, ou em japonês como Kakuan Shion), com as conhecidas pinturas de Tensho Shubun (1414-1463). Há uma série de comentários, paráfrases e traduções neste site, https://terebess.hu/english/oxindex.html, além de outras versões das pinturas.

Para não dizer que não disse nada, me parece importante que

Dito isso, vai abaixo uma relação poética com essa série.

guilherme gontijo flores

* * *

Dez imagens da vaquejada
Por Kuoan Shiyuan (séc. XII), com pinturas de Tenso Shubun (séc. XV)
A partir das traduções de Suzuki Daisetsu Teitarō, de Stanley Lombardo e de Catherine Despeux

1. Buscar o boi

numa busca por tudo entre capins
rios montes extravios infindos
sem força e ânimo onde encontrar
entre bordos cantares de cigarras

2. Achar o rastro

ribeira e árvore com tanto rastro
plantas de cheiro espesso adocicado
junto a montanhas vales e ninhos
nem mesmo céu esconde seu focinho

3. Olhar o boi

em ramos papa-figo entoa entoa
sol morno salgueiral e vento brota
ali sozinho boi encurralado
cabeça chifres quem os põe num quadro?

4. Pegar o boi

com todo empenho capturá-lo boi
incontrolável e forte e feroz
porém prossegue ainda monte acima
evanescência entre vale e bruma

5. Domar o boi

está na mão está o laço a corda
não vai se desprender em meio a pó
bem vaquejado já retorna manso
e segue do lado sem contenção

6. Montar o boi

suave monta o boi e ruma ao lar
e por neblina some som de flauta
solta cantiga trina de alegria
inexprimível que só se adivinha

7. Largar o boi

alcançar nesse dorso a choupana
o boi não há agora se descansa
em sol vermelho a pino sobre sonho
com corda e laço largados ao chão

8. Além do boi

corda laço homem boi tudo nada
ideia não penetra azul de abóbada
neve jamais suporta forno em brasa
ali unir-se a mestres patriarcas

9. Tornar à fonte

tornar à fonte origem sem afã
no lar e só sentado na cabana
surdo cego pro mundo exterior
rio corrente enrubescer de flor

10. Entrar na aldeia

descalço e desnudo entrar pela aldeia
sorrindo imundo em meio a lama e terra
sem poder imortal e sem feitiço
ensina árvores secas a florir

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Natasha Felix

2.

Natasha Felix nasceu em 1996 em Santos-SP. Publicou os zines anemonímia (2016) e j. não é um nome (selo manga, 2017) e mariana compra um dildo (2018). Tem textos publicados revistas físicas e digitais. Os poemas abaixo integram Use o alicate agora, seu livro de estreia.

*

MATERNIDADE

Rocamadour dorme como se não existisse.
pensar em Rocamadour é pensar em escamas de peixe.
quando a Maga pensa escamas de peixe pensa escama         de peixe
se ela pensa Rocamadour, por exemplo, enquanto amola
a faca,
não pensa
Rocamadour é meu filho, isso é uma faca, aquilo é um peixe.
se Maga pensa Rocamadour pensa meu peixe
é preciso tirar as escamas do peixe.

§

 

O ATIRADOR DE FACAS

em um primeiro momento
estranho o alvo ser qualquer coisa que não a cabeça.
depois é fácil conduzir a postura.

o atirador de facas sorri.
existe algo entre os seus sapatos e meus pés
que desconheço                   um nome quem sabe.

confio acima de tudo em seus erros.
meus dentes todos feito cães de apartamento
sossegam de repente.

alguém da plateia
grita eu me assusto
não me movo, espero.

o atirador de facas gosta de mim
porque sou quieta.

§

 

OUTRO TIPO DE OFERTA

a febre redobra suas forças.
me acena menos tímida do que fogo
de repente é isso.
ter pernas esse detalhe
tenho necessidades fundamentais.
por exemplo morder as
palmas das mãos
debaixo erguer o império.
não escrevo, não respiro, não
limpo as costas.
recolho os dentes te ofereço
meu sorriso mais indecente.

*

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poesia

Yasmin Nigri, 1 + 1

yasmin

Yasmin Nigri (1990), nasceu no Rio de Janeiro, é poeta, artista visual e mestre em Filosofia (UFF). Integra o coletivo Disk Musa. Participou da antologia 50 Poemas de Revolta (Cia da Letras, 2017) e é colaboradora da Revista Caliban. Seu livro de estreia, Bigornas, saiu em julho pela Editora 34. Mantém o canal Alokadostutoriais, onde, além de tutoriais divertidos, encontramos os textos aqui apresentados [aqui e aqui]; já apareceu aqui na escamandro com outros poemas.

*

Qual aviso

Alguns textos nós achamos difíceis de falar. Por isso nos tocamos tanto. Antes, em todo abraço, me sentia semelhante à árvore. Nos seus não penso em nada. Fora a infância e seus braços – limiares – é que penso infinitamente. Como hoje pensei no prazer dos inícios e reinícios. Você me disse, no carro onde nos olhamos verdadeiramente pela primeira vez: você não me assusta. Perdi o ônibus. Na rodoviária, uma da manhã, enrodilhado em mim, você esteve feliz, pois constatou que não abro mão do desejo. Apesar de amarga. Apesar de ferida. Reclamei do gosto que tem os seus excessos. Aprendi que para você os excessos são a afirmação da vida. Eu não gosto quando você assopra meus seios. Eu gosto quando você me acende uma ideia. Você não gosta da maestria. Você pensa o prazer enquanto experiência festiva. Eu penso em você quando penso em reinícios. Eu finjo sono para escapar da sua festa. Você diz que o amor é o local onde a felicidade se realiza. Que prazer e dor são indissociáveis. Eu prefiro dormir. Enquanto você acolhe fossas, ressacas, paixões… eu tento não pensar exageradamente na morte. Quando penso em você penso em inícios. Porque entre nós, mesmo que de natureza inexprimível, se abriu um lugar vazio onde sentimentos e palavras podem acontecer. Os encontros casuais são a matéria da vida. O amor é fácil como sentir culpa. É difícil como sentir culpa. Em qualquer parte do globo.

§

paranoica

que palavras foram essas
que trocamos
na nossa caminhada
e não se ligaram a nós
e não as ligamos a nada
alma frouxa cobra alada
cheiro seu silêncio
vou pra cama antes do tempo
é muito penoso estar acompanhada
de mim de coisa alguma assim
nisso vejo mal yasmin yasmin
e acordo à noite
em miséria metafísica
quando deus me tira a poesia
olho a dor, sinto a dor mesma
e fico farta da beleza
e fico péssima poeta
e me contenho de um jeito horrível
vigio o celular
posto stories
vigio os meus vigias
paranoica e no cio
embaixo da tela o nome dele
bajulo meu clitoris
o sono me vence e desmaio
no edredon fofinho
durmo sem medo
faca dentro da fronha
acordo forçada por uma lembrança
penso penso penso enquanto basta
mato as ideias até o café
me arrasto até o almoço
me escavo até a jantar
por falta dele ou do acerto de contas
penso
que resina
penso
que resina se apoderou daquela cabeça
penso
dedos mudos
penso
mente criminosa
concluo
agora mesmo ele se esconde
num meio-sorriso atávico
enquanto me espera

*

 

 

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poesia

Leonel D. Jr.

Leonel D. Jr é formado em Letras e vive em São Paulo num fazimento constante do vir-a-ser. Estes poemas fazem parte do livro (inédito) “botânicos e genesíacos”. Para contato: ldelalana@yahoo.com.br.
* * *

botânica

raízes fincadas em passado recente, rente ao horizonte do tempo da seiva,
por debaixo das portas, pelo vão mínimo das portas, às escondidas
rugosos dedos entrelaçados em nós, da floresta que ainda respira
raízes alongadas onde lunetas vislumbram musculaturas rijas
tão rijas quanto gosto de mãe e a severidade do pai
o tronco e as pernas do pai atribuídos ao encantamento
embrião para a vida toda – ganhando a vida desejando a morte:
amputação do rabo da lagartixa, a fruta cortada ao meio num lance de faca
do alto da sua frondosa cabeleira, dos seus raios e trovões
a impotência em frutos mirrados
sua pele rude e seus intermináveis dedos penetram a terra
minha filha tem intermináveis dedos, meu neto tem intermináveis dedos
a força do pai, sua ausência:
raízes

§

descoberta

o subsolo desliza por rugosas raízes (de um riacho, ainda há pouco, raro)
de um mundo impermeável reprimindo a busca não exatamente do pai
nem da mãe de preto rezando – ralhando?
da janela, o canavial interminável de dedos longos e digitais apagadas, da nona
retirando a tinta calcinada do batente, o atrito da lâmina deformando as falanges
e desenhando ranhuras na madeira
no arrebol, a usina carcomida e demarcada pelo sexo peludo da descoberta do outro
pelo vão da janela os seios murchos da nona
fotografias velhas esquecidas no fundo da gaveta
algo corrói, mas tudo corrói – o que não?
o vermelho-alaranjado minando… minando… como uma fonte inesgotável
lendários heróis que nunca tive:
no canavial das terras vermelhas revolvidas, desembestados, passando por entre
minhas pernas com a clara intenção de me derrubar: um pastor e um vira-lata
meu canavial não é o de joão, não é engenho, é um horizonte
vila sob eucaliptos, caravana que some na poeira, romaria, cavalo que dispara,
entorpecimento
tudo cercava a casa da vila, eu mesmo era (sou) “o da vila” – desde o soco
no estômago, na cara, do abuso da força alheia
do cheiro, dos beijos, do milharal apinhado, dos dedos que lavram o dia a dia do
passado
a descoberta de que não precisa pedir desculpas sempre

§

labirinto

extirpo raízes com seus minérios e mucosas, revolvo todas as substâncias
de éteres a cascalhos, dos espelhos aos oxalatos
(as pernas bambas da mesa andam cheias de cupim, disse o pai)
de visibilidades duvidosas, rentes e verticais, ao dente
ritualizo, me apego e desapego,
exausto vago sem rumo, quase sólido – glóbulo, granizo, grãos, compacto
como se sob fosse abismo, sem raízes,
solto ao vento, uma rasteira de possibilidades que vai aparando toda a grama
o corte, a seiva na parede raiz: odores, fotossínteses não conclusas, e,
o contentamento do eterno retorno – insiste, resiste:
da semente dentro da macieira, da chuva dentro da gota d’água,
de têmporas e tempéries, de uma estrutura latente, incubada, vulcânica
asas de cera, telhados de vidro, atados dos pés ao chifre
o que querem de nós, pensamentos prontos, delivery of thoughts?
palavras codificadas, labirintos, simulacros, túmulos, tumores, lixos mediáticos
a todo volume
uma vida de inverossimilhanças reais sob nebulosas difusas e absorventes
espiraladas difrações sonoras e imaginamos um mundo, de pronto
feito imagem e semelhança das imagens
um novo homem, sempre velho e inacabado
a verdade da criança morta, anestesia geral e irrestrita
o regozijo em concreto gozo
se os arqueólogos não sabem dos seus labirintos como se livrarão dos seus
minotauros?

§

visão

talvez, os dedos encurtem e fiquem as unhas no pulso
os pulsos sumam para dentro dos cotovelos e os cotovelos:
cata-ventos
no eixo dos ombros, girando em falso com um sorriso verdadeiro
que a garganta engoliu a seco,
o cérebro saudável de bondades
as bolas de ferro persas presas aos calcanhares protegendo as asas do sol
difícil pensar que somos personagens fora do comum
– anomalias, dádivas, dívidas já pagas
nas mesmas mãos, nos mesmos olhos:
no espelho da lâmina da faca, seu olhar, um céu sem nuvens e sol:
paraquedas despencam sem sobreviventes, um mundo sensível
e um clown em meus pés, quem sabe eu dance, cante, fique feliz
talvez um repouso, um pouso aos destroços dos meus voos
uma pausa que não seja tão assim,
aniquilamento

§

a doença das plantas

as raízes se afundam em pedregosos calcários, em ramificações de cores
extensões variáveis protegidas do vento
que insiste em todas as direções
adoecem impregnadas e submergidas em terras revoltas
uma árvore enraizada em todos os tempos e espaços – sem limites
tradições e contradições arquetípicas
as chagas estão abertas e não há mandrágoras que as curem:
envenenam as comidas, massacram a cultura e tudo
os estilhaços flutuam ao nosso redor e perfuram todo nosso corpo
e nossos mirrados filhos correm soltos por aí
repetindo… repetindo… o refrão da nossa existência
seus dedos rudes apertam gatilhos, assinam contratos, acariciam doentes
espelham a terra
caem de boca no abismo, se perdem no vácuo impreciso da materialidade
das coisas inúteis que deixam suas marcas, o saldo dilacerado de telúricas origens
das dores autóctones, das vozes adormecidas
ou nunca nascidas

§

dos argonautas e dos olhos azuis tristes do pai

as fronteiras demarcam os países, as cercas confinam os bois
mas o que demarca nossa existência?
terras ásperas de raízes expostas às cegueiras detestáveis de ostras cerradas
no fundo da escuridão das pérolas
o que são as pérolas em sua negridão de fundo de mar se
não-pérolas e nada mais?
o que sabemos do oco dos sonhos e das ovelhas que saltam de lá?
ah, terra incógnita, suas pérolas brilham em sua face e sabe o quão tristes são os
olhares opacos de seus filhos
o quão triste e cheio de medo eram os olhos azuis do pai
o quão triste foi o enfisema pulmonar do pai, o quão triste foi o pai
teus ombros fortes arquejam – o mundo está escasso de heróis, deuses e humanos
a fúria da descoberta do desespero de se descobrir em terras estrangeiras no meio da própria
casa,
às vezes, precisa-se pedir licença aos próprios pés
a adaga, a machadinha, a pedra e a vida lascada
os mitógrafos do primeiro decênio do século XXI expõem em seus facebooks
as mitologias da china comunista e da américa pós-apple
o mundo esférico ideal em um só clique, por onde argonautas e odisseus navegam
ocultos, impávidos, anônimos, implacáveis…

§

partículas de deus

cá estamos de sopro e supetão nesse vazio
primatas dentro do umbigo, solidificados, virtualizados, liquidificados
à virulência da vida (que vai ao ralo, ao rabo, ao rato,
liquidada, adiada, antecipada)
adâmico, busco o lado que me falta da costela
que sei desde sempre, balsâmica
em rota de peregrinação às histórias de cada um – a beleza salvará o mundo (?)
não sei não saberei
me responda você, que merda fizemos dele se tudo se contabiliza?
se não existe espaço para a arte como existe espaço às oito horas trabalhadas
e outras maldades mais
na vila izaura, acreditava, no azul do céu que a menina da rua de cima trazia,
acreditava
tudo começou ali, na expulsão do paraíso, a partícula maldita:
talvez isso explique nossa busca desenfreada do que nem sabemos, construindo
a felicidade eterna num graveto, afoito no prazer da dor do outro
– o sangue do capítulo IV do livro de gênesis –
queremos limpar nossas mãos do que nem cristo foi capaz
tateando o indizível quando a possibilidade do interruptor nos cega
estúpidos senhores e senhoras de dedos longos e raízes desesperadas observam
o nada o naufrágio o delírio,
um grito

§

raízes viris de sementes fecundas

onde se encontram duas coisas e o mundo acontece:
teatro de marionetes, epifanias, carrancas nas embarcações ou qualquer coisa
que detone movimento – difração
a cólera do não, a desmedida do quero garante o gozo
a beleza dos afetos pede razão: a eloquência dos corpos nus
pedras, ventos, riachos, insetos, cascas, mucosas se agitam, conta-gotas em
golfadas lancinantes, as rachas se abrem…
o movimento estabelece a continuidade do que não se estanca
o mundo se organizou de tal forma que não percebe sua extraordinária beleza
para a alegria da misoginia abundam seios e bundas siliconados a granel
não importa, onde se encontram as coisas o mundo acontece:
as soluções são numerosas e a preguiça tamanha
todo esse embaçamento ao alívio da dor
não ímpar, multíplice
talvez a gente queira demais dos nossos quereres
esquecendo da nossa condição quase anelídea

§

travessia dos mares

o canto das sereias televisivas edificando a visão
um mar de manto verde com suas folhas de digitais cortantes e reminiscências
lançados ao desconhecido de um inconsciente coletivo e bravio
onde imagens copulam e não há terra à vista
um engodo, uma isca para peixe, uma tira de pano vedando o desejo da busca
do outro, para tomar pose, não importa o fundo do mundo
merleau-ponty ou maurício de nassau ou mary poppins?
quem você levaria para sua ilha
– eu levaria minha mãe, pois ninguém deixa uma mãe judia assim… a ver navios
mefistófeles no meio do redemoinho, nonada:
viver é um troço impreciso e desnecessário nesse sertão de estrelas perdigueiras
raízes que se apequenam na imensidão de tudo
raiz do dente, do cabelo, quadrada ou da mandioca que é a própria mandioca
tudo envolta do umbigo e no umbigo não há descoberta, janelas fechadas, casas assépticas –
entristece
encantado pelo canto mágico se deixa na poltrona
não sabe da beleza da imensidão das águas

§

labirintos artificiais

geoffrey rush e fran lebowitz (separados no berço) ou fausto fawcett?
exausto, estático, em descarrego, caio em rito, em ritmo – calcário
vago compacto, quase gasoso, anidrido e dióxido de carbono na veia,
uma carreira de ácido acético testando minha plasticidade em alongar-me nos túneis da cidade
outra de ácido ftálico tingindo meus sonhos de azul-violeta
prumo em linha reta
com sebo na canela
vago em uma biblioteca onde os livros criam raízes e dão frutos, a bibliotecária
com a fúria e o som de uma serra elétrica vai colocando os livros prateleiras abaixo
para o deleite dos capitalistas das indústrias de papel – vou salvando o que é possível:
do meio do redemoinho
[de folhas, caules, frutos
cascas, seivas, formigas, flores, penas e maçãs]
um fausto cai em minha cabeça
zonzo já não sei se é outono europeu, inverno americano, primavera árabe ou verão abaixo da linha do equador
sob o sol que amolece os miolos e atiça o balacobaco-do-baixo-baco com suas belezas
excepcionais
espelhos e espinhos em abstrato gozo
[e os muros cinzas se erguem
e bonecas são queimada]
cinco disparos na garota afegã e o frenesi dos guardiões do alcorão
o gozo obsceno do ocidente no falo de suas prepotentes torres brochas
dão o tom da disfonia do terceiro milênio que está apenas começando

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