poesia

Pornô-poética, de Ana Kiffer

Ana Kiffer é escritora, professora de literatura da PUC-Rio, colunista da Revista Pessoa, Editora da Revista DR, publicou pela Editora Garupa Tiráspola e Desaparecimentos em 2016. E pela Coleção Megamíni – Ed. 7Letras A Punhalada (2016). Alfabetizou-se com uma das suas vistas tampadas. Dizem que lia e escrevia tocando. Buscando garantir que as letras estavam ali. Nunca mais parou. De escrever como quem toca. Ou tenta tocar. Talvez por isso suas pesquisas versem sobre as relações entre os corpos e a escrita. Foi assim que foi pesquisar o Antonin Artaud, sobre quem já falou, escreveu e deu a ler muito por aí – Antonin Artaud (EDUERJ, 2016); A Perda de Si – Cartas de A. Artaud (Rocco, 2017). Hoje a Ana gostaria de escrever como quem vai para o mundo. Gostaria que as pessoas trocassem seus cadernos. Não para revelarem seus segredos. Mas quiçá para multiplicarem suas magias. Hoje a Ana acha que tem duas coisas que importam muito ao Brasil discutir sem parar: o racismo e o machismo que vive entre nós. E cada letra posta nisso vale sim alguma forma de vida.

Esse poema inédito que a Escamandro publica está aí também: foi escrito para integrar uma Antologia de Poesia Pornográfica que sairá em 2018. Mas acabou abrindo na Ana esse “método” pornopoético que agora se desenrola num livro que ela ainda está escrevendo [aviso aos editores interessados!!].

* * *

pornô-poética
-da vulva-externar

maintenant je le sais, je n’ai plus les mots pour le dire
M.D.

Araki

a cada vulva aberta ingressava
no oriente
o tremor cósmico
flexionava
os confins do meu corpo
um abrigo antiaéreo
e partia de novo
rumo ao sul de mim
vê-la ali
nas extremidades
nos pontos
do toque
aonde vivem como se
não fosse possível dizer
essa estranha relação
entre os dedos
as mulheres e
o escrever
tudo na vulva é
exterior
como a língua que se fala
no Japão
entre os vãos de mim
vive o extremo de tudo
como uma bomba no mundo
mon amour
a sua vulva na minha
é a ultra-percepção
fina
do toque
feito
de pontas e dobras
alheias
de um infinito aberto
ao mínimo
e o eu
depois de você
é só o fato das nossas dolores
compressivas
dos dias posteriores
em que cada impacto
feito do hiato
do nosso nó
desata
a corda que agarra
a destemida-farra
a saia plissada
na dobra da calcinha
sou o teu arranca
imoral
de fera
sem língua
nas escadas da analista
sem vista
sou a menina
vendada no divã
as 15hs e 20 minutos
sou o nosso abrupto

porque mulher, quando fode,
é crueldade

contra toda a fraude
que inventaram
que sexo
é côncavo e convexo
não

porque mulher, quando fode,
é crueldade

na minha filosofia
pornô-poética
o sexo
é só
fresta e dobra
toque e aresta
infinitamente minúscula
contração submersa
sob a sua superfície

porque mulher, quando fode,
é crueldade

tal um dia
na esquina
mais tênue
da vida
onde te entreguei

toma

a profusão pornô-poética
da vulva-externar
esse novo conceito
teórico-prático
insuflando pib’s
sem bem-estar

porque mulher, quando fode,
é crueldade

e a pornô-poética não veio
para
um lugar
ao sol queima no escuro
das ruínas sem museu
e nada
em seu beco tem eu
um lírico corrupto
mina
a sua crina modular
a vulva-externar
não é a expressão de um dentro

porque mulher, quando fode,
é crueldade

ali mesmo
nesse buraco
onde sempre viveu
sabe que nada interior
delimita
é contra o seísmo
de quem mima
a mímesis
que a vulva-externar projeta
o denso fora
sem forma
feita dessa matéria aérea
voa
sopra
veloz
a vulva
obra das mais intensas
lentidões
ritmos sem compasso
escritas a-geométricas
desmedida
a pornô-poesia
invade
abre
fende
fode
e repete
feliz

porque mulher, quando fode,
é crueldade

e quem
toma
dela
da pornô-poética
in-festa
sem fim.

Anúncios
Padrão
crítica, xanto

XANTO| “Descalço/nos/trópicos/sobre/pedras/portu/guesas” de Thiago Camelo, por Alexandre Werneck

DESCALÇO
NOS
TRÓPICOS
SOBRE
PEDRAS
PORTU
GUESAS (2017)

Thiago Camelo, Nós

Ao iniciarmos a leitura de Descalço/nos/trópicos/sobre/pedras/portu/guesas — o título nos é apresentado em verso, em um movimento que parece sugerir mais do que um performatismo de design —, nos deparamos com uma descrição: um avião, uma mulher que dorme, uma turbulência, um idoso. Essa forma textual, que sempre impõe ao tempo certo congelamento — por sua vontade de apresentação de cenário —, é o dispositivo narrativo do mundo construído pelo poeta Thiago Camelo e dispõe sobre ele justamente uma infinidade de coisas: a partir daquele momento, assentos, roupas, aeromoças, carpetes, fones, ruídos de motor etc. vão se colocando — sendo colocados — de forma a contar: eles contam uma história, eles são levados em conta, eles prestam conta, eles contam com a leitura. A estrutura da dinâmica poética, em geral mais contemplativa, é aqui produzida por um tensionamento daquilo que podemos chamar intensividade: vemos alguns elementos do mundo serem capturados e, com uma lente de aumento, potencializados em sua capacidade de se mostrar determinante.

Em seu modelo para a análise de narrativas, o semiólogo lituano Algirdas Greimas propõe o conceito de actante como uma alternativa para se entender como se dá o avanço das construções textuais cuja base é a passagem do tempo: diferentemente do personagem, que impõe à narração uma determinação decisória — e, portanto, impinge tanto a pessoas quanto a coisas um certo excedente de racionalidade e de capacidade e, nesse sentido, às próprias histórias um excedente de teleologia (e acaba por criar um autor em geral onipotente) —, o actante representa aquilo que é decisivo, aquilo que faz diferença efetiva no andar da carruagem. Com um tratamento como esse, fica claro que, por mais que não se ignore que o autor tenha sempre uma vontade — e, pensemos em Foucault, que outro motivo a autoria teria de ser se não a manifestar? —, não é tanto ela que está mais fortemente em jogo para se estabelecer a lógica efetiva de uma diegese narrativa, mas sim sua capacidade de administrar competentemente a intervenção de seres (sejam pessoas sejam coisas) no interior de uma gramática, uma lógica autodeterminada que mais propõe do que impõe (como o narrado tem que fazer sentido – mesmo que um sentido que escorra pelos dedos, mergulhado em projetos non-sense – o autor, essa entidade abstrata sempre terá que se haver com a potência dos actantes, com sua actância).

Dessa maneira, a ideia mesma de determinar a narrativa ganha uma revisão, na medida em que se trata de uma outra forma de definição aqui em jogo. Não mais de uma situação conclusiva — aquela que encerraria qualquer história —, mas de uma situação atentiva: é de uma micronarrativa de como se atrai a atenção que se trata. Cada momento da leitura consiste em experimentar a experiência de um outro — aquele que “em teoria” (na dupla acepção da expressão) é o “eu poético” — por meio de sua afetação, de sua afetividade: que actante sequestra sua atenção e como? E, na outra ponta da relação, que característica desse outro é possuída por um mundo de pequenas coisas que viram, nesse momento, estímulos, a sepultar uma “atitude blasé” (para pensar no sociólogo alemão Georg Simmel)?

Assim, por exemplo, uma reflexão sobre uma banalidade (uma afirmação capturada em um documentário) é trocada rapidamente por uma ressituação do mundo, agora em um restaurante. Mas não porque o eu lírico seja volúvel ou aéreo ou padeça de déficit de atenção: ele é errante, fluxo — porque tudo é, toda cognição é (voltarei a ela). E isso determina uma fuga do épico central a esse empreendimento: não parece nunca se tratar de elevar esses pequenos “momentos” à condição de grandiosidades insuspeitadas, não se trata de cobrir com trecho de ópera uma cena de um gesto banal em um filme para revela-la como algo de beleza singularíssima. Trata-se de comentar aquilo que ao autor — ou a ele como imaginado no interior do poema — se impôs (ou a ele foi imposto pela actância incontornável das coisas) como assunto: ele, veja só, falaria o dia inteiro sobre a amendoeira — não sobre amendoeiras, mas sobre a forma abstrata mesmo, a generalização depreendida de se ter visto folhas, de se ter comido frutos — há algo de profundamente indutivista em seu olhar; ou ele reflete sobre o conceito de entropia a partir da mudança de, digamos, estado termodinâmico da vida de um amigo e da improbabilidade do sucesso de um dos mais bem-sucedidos jogadores de basquete da atualidade.

E esse movimento de descrição se manterá por todo o livro, mas, como disse no início, no exercício de uma, digamos, função narrativa. Entretanto, se soa como uma certa história o que Camelo nos apresenta, isso parece ser mais bem representado pela ideia de um certo fluxo de historiação: fatos acontecem (narração) com coisas e pessoas como elas são/estão (descrição) e especialmente conforme elas intervenham (actação) e, com isso, é exposto um certo universo semiótico. O mundo produz mundo(s) porque as coisas do mundo se fazem signos, se mostram significativas, e se congregam em uma teia de significados aos olhos — do escritor e (por contaminação, se houver a captura) do leitor. E, nesse sentido, faz muito sentido que o eu lírico diga que se interessa mais por objetos do que por pessoas: eles estão simetrizados, ambos são objetos (a escolha da palavra é oportuníssima). E não porque as pessoas sejam “objetificadas”, no sentido de uma desvalorização, mas porque tanto um quanto o outro são objetivos, no duplo sentido de serem o fim e o princípio, de serem aquilo que se persegue e o recorte lógico que permite perseguir.

Nesse sentido, embora se conecte com uma movimentação típica de certa poesia moderna — Drummond, por exemplo, também é encantado (embora em geral de uma maneira um tanto blasé) e confere especial atenção à intensividade e à pregnância das coisas — e com certa técnica de prosa contemporânea — em alguns momentos, parece que lemos as frases curtas, entrecortadas, de, digamos, Rubem Fonseca em sua versão mais brutalista —, o exercício de Camelo busca uma voz própria em sua atitude: ele se dá ao leitor como dispositivo, como aparato a permitir a experiência de uma cognição, de uma maneira de apreender o mundo: na leitura, fica-se como imerso em um laboratório de contato com o universo, no qual as coisas e pessoas (objetivados), os seres, em suma, são sempre ao mesmo tempo percebidos — isto é, captados automaticamente como perturbações do fluxo da rotina — e interpretados — ou seja, significados conforme um processo de comparação com uma vasta biblioteca de referências — e isso porque são sempre ao mesmo tempo genéricos e íntimos daquele que ali fala: ele ao mesmo tempo os categoriza, os situa em uma grande taxonomia dos seres, e os reconhece, tem para cada um comentário “de causa”, particularizado, crítico por vezes (e estupefato em outras, como diante da dinâmica informacional/comunicacional da experiência cognitiva contemporânea na internet), como se vivesse cercado por eles o tempo todo, como se não tivesse outra vida senão a de observador das coisas — e somos levados a experimentar essa mesma condição.

Assim, não são tanto os actantes — e a “beleza das pequenas coisas” — que efetivamente importam aqui, mas a actancialidade: o que é revelado é justamente aquele dispositivo laboratorial. Ele é sutil, oculto, mas está lá. É ele quem brota da experiência, como se o projeto consistisse em perceber um planeta no qual se está de pé e, de tão grande, torna-se invisível.

Mas, ora, sobre o qual se está de pé descalço e, portanto, com o qual se trava contato direto.

Alexandre Werneck

Padrão
poesia

Ana Estaregui

por marina wang2

Fotografia de Marina Wang

Ana Estaregui nasceu em Sorocaba e vive em São Paulo desde 2005. Formada em artes visuais, publicou seu primeiro livro de poemas, Chá de Jasmim (Editora Patuá) em 2014, com um projeto selecionado pelo ProaC de Poesia. Em 2015, publicou o livro digital Buracos (Editora E-Galáxia) pelo projeto Selo Jota. No mesmo ano foi contemplada em primeiro lugar no concurso de contos OFF FLIP de Literatura com o conto Seis canivetes para abrir uma baleiaCoração de boi (7Letras, 2016), é seu segundo livro de poesia contemplado no ProaC de poesia e finalista do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional.
***

I.

o coração do boi sobre a pia
vai esfriando à medida
em que o músculo absorve
a friúra do granito e lança nele
seus desejos de sempre, meio vis
quentes, como tudo o que nele era
pastos, pelos, as tetas esplêndidas
das vacas de leite
e em pouco tempo tudo dele se cala
se equipara ao grau da pedra
as artérias e veias
os espaços entre os átrios, o feno, tudo

 

II.

a palavra ocupou a sala toda
calou as janelas, o radinho de pilhas
e os porta retratos
arrancou os livros da estante
produzindo tsunamis com as persianas
abafou nossas vozes ao grau zero
e ficamos todos espremidos entre ela
e a parede, ela e o teto
ela e as ripas de madeira do piso
no curto vão de oxigênio livre
a palavra grudou no sótão
e agora passamos nossos dias presos
olhando pra ela, uma estrela

 

III.

bati a clavícula na quinta feira
enquanto abria o armário
o osso me dói desde então
acordei na sexta com torcicolo
e os tendões da mão esquerda inflamados
sábado, lavando louça, quebrei dois copos
bati na pia um outro pires que lascou
ontem, foi uma taça
e ainda arranquei sangue de duas cutículas
enquanto fazia as unhas do pé
na mesma noite deixei cair no chão
uma vasilha com sopa
que espatifou
e deixei o pão passar do ponto
hoje estou de folga, sozinha,
e até o momento só queimei a ponta língua
bebendo café

 

IV.

um cavalo pode mudar o curso
de um poema
é preciso não temê-lo
os saltos, os espaços vazios
de como se arranjam entre si
de como, sem atrito, produzem luz
disse
deixe o seu corpo boiar
pra que as letras pairem diante dos olhos
é preciso que o dia nos encubra
com alguma névoa pálida
e a fumaça dos automóveis forme
entre nós e as coisas
uma espécie de anteparo vertical
quase transparente
e nos faça avistar de longe os músculos rijos
de um bando de animais que trotam
por entre os carros

 

V.

o que aconteceria aos poemas
se neles acrescentássemos matéria sólida
se, como nas canções,
onde há som voz cordas de metal
depositássemos
alguma seiva e um pouco de ar?
se lançássemos sobre eles
um punhado de sementes
e então nos sentássemos para esperar
por muito tempo
algum movimento sutil
alguma oscilação inaudível
uma dobra só que fosse
sobre a página um pequeno rumor
de qualquer tipo, capaz de levantar
do chão branco alguma voz
o que aconteceria aos poemas
se pudéssemos esperar um pouco mais

 

VI.

se nunca tivesse havido
as metáforas
ainda poderíamos trocar
um punhado de cerejas
pelo encosto ainda quente
no banco de trás do carro
um calhamaço de papel sulfite
por dois ou três versos livres
por dois dentes do siso
por quatro incisivos
pelo voo circular e ininterrupto
de um urubu
por um pacote de carvão mineral
por um livro sem capa
por uma imagem fosca de um submarino japonês
por uma magnólia branca
ainda poderíamos trocar
um pedido de desculpas
por um sorvete de avelã
se nunca tivesse havido as metáforas
ainda poderíamos trocar o silêncio
por um copo de leite

*
Padrão
poesia

“2047: Brazilian Wars”, de Raphael Sassaki

Shiva Press é um projeto de auto-publicação de poesia que usa os recursos do PDF e outras mídias digitais para fins literários e sub-literários: https://shivapress.tumblr.com/.

Ele surgiu há 3 meses, com a finalidade de publicar livros simples de poesia lírica, que não tinham onde ou como serem editados naquele momento.

Mas desde então virou uma espécie de repositório de livros que dificilmente seriam publicados se não fosse assim.

Uma das coisas que fazemos é usar critérios objetivos para modular a linguagem e fazer incursões para além do poema-poema.

Certas práticas que podem ser mencionadas:

-aplicação de filtros sobre databases

-loops de sintaxe

-apropriação/roubo

-restos de linguagem introduzidos no pedestal

-AI’s produzindo dramas mal diagramados

-conceitualismo que se pode dançar

+

2047: Brazilian Wars”, o livro exibido aqui, é uma mistura de diversos manuais do nazi-brasileirismo, e uma tentativa de congelar a linguagem da violência em ação, c/ um soundtrack vapourwave.

Já o “Minha Consciência” é um livro nostálgico feito com nomes de arquivos de computador alfabetizados e divididos por classe.

Todos os livros do site são gratuitos, já que:

1) não são retângulos de papel, mas ondas eletromagnéticas

2) ninguém pagaria por eles anyway

3) a poesia é o que está entre nós e as palavras

obs.: para ouvir o som tem que abrir fora do navegador, no reader da adobe, e ter flash instalado.

00001001000101010101010101010101010101010111010

* * *

manual_1911

Padrão
poesia

luís gomes (2000-)

23845325_1817608318269349_1725260702_nluís gomes, alagoano, de Maceió. 17 anos. poeta irresponsável. escreve no: luiszgomes.tumblr.com

***

dentro da fotografia

o comentário de um futuro
lá dentro
tudo
escuro

§

 

nona décima  e morta

1

primeiro nascer
o parto durou 8 horas meu amor o negócio é cesariana

2

chorar de dengo
motivo de conversa na vizinhança a manta é
azul demais ela é menina menina viada

3

mentir sobre
as consequências da festa

4

decepcionar-se com helena,
com  maria, com roberta, com  adalgisa
(mas pelo menos rir do nome adalgisa)

5

comprar acessórios cool
passar numa faculdade particular
ser cool falar que é cool mas
não saber falar inglês

6

esquecer de deus

7

abusar de alcaloides
quase morrer por isso

9

dormir no escuro entre
as unhas e os pelos do bigode

10

morrer
e o resto e o resto
pensa em deus chamar pra dançar de agonia
beijar a santinha

§

somente ou depois do almoço eu resolvo a vida
as mãos, as rugas, o sol no portão

o tempo entre a luz e a escuridão; o azul
da piscina imitando as ondas de um
mar de feriado. O coque, a miopia,
o desmonte. Os dedos trêmulos (físicos)
no frio da solidão. Não mais existe
um outro ventre, um outro ritmo de
sangue para sossegar o mundo:
deitar-se no chão, no chão de terra
parente, irmão mudo. Não mais existe
– mundo – existe o quintal, a chuva mansa
e sem perdão.

§
a luta diária
não é uma luta sem cor
a dor não é
simplesmente uma
de uma esquina prometo aos
homens que não puderam vir
a minha melhor roupa

§

 

piscinas áridos
quintais balas
perdidas
escombros
recolher-se aos cantos
silenciosos das festas

antes de qualquer explicação
já havia marcas na pele de
antes do nascimento

um nobre nome sobre os escombros
fantasmas de lençóis adormecem
sempre usar aquela camisa azul marinheiro

§

 

\ a cama silenciosa cobria a fuga da primeira luz
do dia \  são muitos os motivos a se definhar pelos veículos \
pelas correntes \ pelos córregos escrotos  \ pelos
vínculos desmoronados

#

\ sequestrar os segundos \ gastar todo o tempo
possível \ com calçadas e ventos de debaixo da \
pitangueira

#

\ não adianta sumir \ que tudo termina
assim mesmo \ o nosso cheiro preso \ é
impossível de se esquecer

#

\ às vezes é difícil acreditar \ em anjos \ quando
o precipício das mãos sequer toca \ a mucosa da
boca

§

 

o dia do morto

descer toda uma ladeira chorando ver
meu pai chorar ver minha mãe chorar ver
até o morto chorar

*

Padrão
entrevista

Um fato no limite da nudez: entrevista com Manuel de Freitas, por Fabio Weintraub

Foto de Pádua Fernandes, 2007.

Por ocasião do lançamento de Suite de pièces que l’on peut jouer seul (São Paulo: Corsário-Satã, 2017, 168 p., R$ 50,00), sua terceira antologia de poemas publicada no Brasil, o poeta português Manuel de Freitas concedeu ao Escamandro a entrevista que você lerá a seguir. Nascido no Vale de Santarém em 1972, Freitas publicou seu primeiro livro em 2000 e de lá para cá lançou mais de quarenta títulos, situando-se entre os mais destacados autores da lírica portuguesa contemporânea. Tradutor de Cioran e Lautréamont, Freitas é também, ao lado da poeta Inês Dias, editor de revistas como a Cão Celeste e a Telhados de Vidro, diretor da editora Averno e um dos sócios da livraria Paralelo W, em Lisboa. Na conversa com o Escamandro, o poeta falou um pouco das relações entre poesia e peste, afirmou detestar em certo sentido “a literatura e quem lá anda”, falou de sua relação com a música e os gatos, entre outras coisas.

Fabio Weintraub

§

escamandro: Na coletânea de poemas seus que o crítico e poeta Luís Maffei organizou para a coleção “Ciranda da poesia”, da Eduerj, ele lê o prefácio que você escreveu para a antologia Poetas sem Qualidades (“A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades”), de 2002, como um protocolo de intenções útil para entender a sua própria poesia, marcada pela recusa do “aliteratado”, do decorativo, e pelo compromisso ético com o nosso tempo. Quinze anos decorridos da redação do referido prefácio, nós imersos em um tempo casa vez mais reificante, você acrescentaria algo àquela exigência de “desqualificação”?

Manuel de Freitas: Sempre entendi esse prefácio como um mero desabafo, que visava menos a minha poesia do que a de outros autores que me pareciam, então, muito estimulantes. A recusa do “aliteratado” estava neles como estará, creio, no que escrevo, embora com modos e timbres diversos. Quanto aos puetas com qualidades que eu atacava nesse mesmo prefácio, nada se alterou. Manuel Alegre recebeu entretanto o Prémio Camões, Nuno Júdice talvez ainda venha a receber o Nobel. E não será por acaso que o actual Ministro da Cultura português é um poeta completamente irrelevante. A reificação continua, mas não concebo uma poesia digna e actuante (e digo-o sem quaisquer ilusões políticas) se ela não se mantiver à margem das instituições. Para que conste, alguns dos autores incluídos em Poetas sem Qualidades são hoje deputados ou pavoneiam-se alegremente em jardins presidenciais. E estão no seu direito, claro, mas o que era “verdade” em 2002 é-o talvez um pouco menos em 2017. Pela minha parte, não retiro nem acrescento uma linha ao prefácio que escrevi.

Nas “Coordenadas líricas” do número 4 da revista Cão Celeste, você recorda as críticas feitas por Vitor Silva Tavares, editor da & etc., ao projeto do seu primeiro livro de poemas: “Apeteceria pedir ao poeta que se despisse da literatura. Porque das duas, uma: ou se usa fato próprio (que leva muito tempo a fazer ao feitio) ou é preferível a nudez – aquela condição em que o silêncio e porventura o nada ganham sentido”. Anos mais tarde, ao publicar seu terceiro livro de poemas, Game over, incorporando críticas e sugestões do Vitor e do Rui Caeiro, você declara ter reescrito muita coisa a fim de encontrar “um fato próprio, no limite da nudez”. Uma roupa própria, sob medida, no limite da nudez, não seria outro modo de formular, pela via do despojamento, aquele “compromisso ético” com o nosso tempo?

Tudo o que disse nesse texto, e pensando sobretudo nas sugestões e observações de Vitor Silva Tavares, ia no sentido limpo e depurado de assegurar um “estilo” próprio. O Vitor, exímio leitor, depressa percebeu que eu ganhava – ou o livro, melhor dizendo – se lhe tirássemos umas dezenas de adjectivos inúteis. Como diz muitas vezes o meu amigo António Barahona, “no tirar é que está o ganho”. Quanto a compromissos, tenho-os apenas a título afectivo – e enquanto duram. Se falo deste tempo, é porque me coube vivê-lo.

“Lembra apenas o perdido corpo/ de quem te chama”; “um poema, mesmo que seja insuflável,/nunca salvou ninguém do seu corpo”; “Até que a solidão se torne/ uma soberania obscena e impessoal, e o corpo se confunda, num demorado réquiem,/ com as esquinas e becos imundos/ desta cidade viva, a agonizar”; “Um corpo serve para muito pouco,/ desde os caprichos da libido/ às infecções urinárias”; “O corpo./ Uma duração precisa,/ que se despede informalmente/ no beijos que já não dá.” De que maneira essa presença obsedante do corpo – em relação metonímica com a cidade, com o envelhecimento e a morte – se liga (se é que o faz) àquela ideia de literatura como veste “no limite da nudez”?

A última nudez é, necessariamente, a da morte. Resignadamente ou não, vamos todos morrer. E envelhecer, entretanto. Passa tudo pelo corpo. Recuso-me, aliás, a ter uma “ideia de literatura”. Se escrevo, ainda, é porque também ainda respiro, defeco, vomito, amo. Em certo sentido, detesto a literatura e quem lá anda.

No posfácio a Suite de pièces  que l’on peut jouer seul, sua terceira antologia poética publicada no Brasil, pela editora Corsário-Satã, Rosa Maria Martelo destaca o caráter intimista, autográfico, que teria servido de critério para a seleção de poemas. Você concorda com essa visão? Conte-nos um pouco sobre como foi organizada essa antologia.

Acho que toda a poesia que até hoje publiquei é “intimista” e “autográfica”. Limitei-me, portanto, a escolher os poemas que pudessem dar uma imagem não muito desfavorável do poeta. Foi um esforço enorme. Porque não gosto nada de me reler; muito menos de me antologiar. Mas senti, de algum modo, que tinha chegado o momento de o fazer.

“Somos sempre contemporâneos da merda”; “este paiol de esterco chamado humanidade”; “Do lixo, porém, temos um vasto/ e inútil conhecimento. Possa/ ele servir de rosa triste aos/ que não cantam sequer, por delicadeza”. A merda, o esterco e o lixo, contudo, parecem empestear os ares de diferentes maneiras de uns tempos para cá. Com que nariz os poetas hão de enfrentar a nova classe de miasmas?

Os poetas, feliz ou infelizmente, não funcionam, não interessam, raramente são consultados (e convém desconfiar um bocadinho dos que são ministros ou assessores culturais). É melhor deixar a peste grassar, livre e bruta. Os poetas, quando íntegros, serão apenas o contraponto possível do esterco em que vivemos. E já não é pouco.

Muito se tem destacado a importância das referências musicais na sua obra. No entanto, sinto maior presença da música como tema, assunto, motivo que como estrutura, procedimento operacional. Tal observação procede? Em caso negativo, em que momentos e de que maneira a música comparece em seus versos enquanto modo compositivo?

A música interessa-me muito mais do que a literatura. E isso acaba, fatalmente, por se reflectir no que escrevo, Mas nunca, creio, num plano que se possa considerar estrutural ou estruturante. A verdade é que me sinto mais próximo de Dolores Duran, Adoniran Barbosa ou Jacques Brel do que de Eliot, Drummond ou Mallarmé. Devo à música, e não à poesia, os mais intensos risos e lágrimas da minha vida.

Assim como a camaradagem e o amor, também o repúdio e a inimizade ocupam nos seus poemas lugar de relevo, sobretudo no campo literário: “É por esses e outros motivos/ que não gosto assim tanto/ dos poetas meus contemporâneos”; “um galgo aproxima-se devagar/ da mão que nunca lerá José Saramago”. Concorda com a afirmação de Cioran de que a juventude acaba quando deixamos de escolher nossos inimigos para nos contentarmos com os que temos à mão?

Eu concordo sempre com Cioran. Mas a juventude já passou, definitivamente; e tenho inúmeros inimigos, embora eu já não seja inimigo de ninguém. Acho isso uma perda de tempo. Sempre gostei mais de gatos e de cães do que de pessoas; e isso é que não vai mesmo mudar.

Como tradutor, você tem se dedicado a autores como Lautréamont (Os cantos de Maldoror), Cioran (Do inconveniente de ter nascido), Anatole France (Thaïs) e Simone Weil (Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos). Conte-nos um pouco desse trabalho tradutório e do espaço dedicado a textos traduzidos nas revistas Telhados de vidro e na Cão celeste.

Nas revistas Telhados de Vidro e Cão Celeste, temos procurado (eu e a Inês Dias, além de outros tradutores assíduos) partilhar textos de autores pouco conhecidos ou valorizados em Portugal. Quanto aos livros que traduzi para outras chancelas, o convite veio sempre do editor. Tenho a sorte de haver alguns editores portugueses que conhecem os meus gostos e afinidades, e considero um privilégio ter traduzido dois livros de Cioran para a Letra Livre. Mas nunca me lembraria, por exemplo, de traduzir Lautréamont por iniciativa própria. Foi um desafio enorme, que me ocupou durante cerca de três anos. Houve dias em que traduzi apenas uma frase, sendo que essa frase podia ocupar uma página inteira. Sem uma certa dose de masoquismo, é impossível traduzir Os Cantos de Maldoror. Gosto de traduzir, mas preciso de o fazer com uma ardente lentidão, pois sou mesmo muito preguiçoso.

Chamam a atenção, no conjunto de poemas reunidos em Suite de pièces que l’on peut jouer seul, alguns fechos de valor interjetivo como “Por hoje estamos conversados” (p. 16); “Pois é” (p. 25); “Era só para te dizer isto” (p. 30); “Qualquer coisa assim” (p. 57), “Era isso” (p. 68). Convocar afetivamente o leitor, modular o enlevo lírico, infiltrar prosa nos versos, o que está exatamente em jogo nesses fechos? Aproveitando a deixa, a finalização do poema constitui para você algum tipo de desafio ou problema a mobilizar de modo especial sua atenção?

Nada disso é premeditado. Eu não penso no leitor enquanto escrevo. Escrevo sempre de jacto, muito de repente, por impulso. E não demoro a decidir se o poema merece ser trabalhado ou se vai direitinho para o caixote do lixo (que é o mais habitual). Caso o “salve”, tento dar-lhe a melhor afinação possível. É a minha “obrigação” poética, mas sinto-a como um dever puramente linguístico. O leitor, enquanto entidade abstracta, não me interessa rigorosamente nada. Interessam-me, porém, muitíssimo as opiniões dos amigos que realmente prezo enquanto leitores exigentes e sinceros.

Seja nas revistas que editam seja no catálogo da Averno, você e a Inês Dias têm publicado regularmente autores brasileiros como Luca Argel, Pádua Fernandes, Ana Martins Marques, Fabiano Calixto, Heitor Ferraz Mello, para citar alguns nomes. Outras editoras portuguesas (Cotovia, Douda Correria,Tinta da China, Mariposa Azual) têm aberto recentemente um espaço maior em seus catálogos para autores brasileiros contemporâneos. E também no Brasil verifica-se um interesse crescente pela literatura portuguesa produzida por autores portugueses mais jovens, nascidos a partir dos anos 1970, como Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Matilde Campilho. Você julga que que o trânsito literário entre Portugal e Brasil se intensificou nos últimos anos? Em caso afirmativo, por que, de que maneira, enfrentando que tipo de problemas?

Continua a haver um grande fosso entre Portugal e o Brasil. Os livros não circulam – e os políticos (e outra gentinha bastante pateta na sua lusofonia oca e demagógica) parecem mais interessados em pseudo-acordos ortográficos do que em aligeirar as barreiras postais e burocráticas que nos separam. Acabamos por ter um conhecimento bastante esporádico ou aleatório daquilo que, em matéria de poesia, se faz actualmente no Brasil. E devemo-lo (falo por mim) a contactos efectivos e afectivos entre poetas de ambos os países, bem mais do que a antologias desastrosas (refiro-me, claro, à de Adriana Calcanhotto).

Os autores portugueses mais jovens que refere são, quanto a mim, perfeitas nulidades, com a eventual excepção de Gonçalo M. Tavares. Mas até este, tendo escrito alguns livros interessantes, pouco traz de novo a quem conheça bem as obras de Walter Benjamin, María Zambrano, Hermann Broch ou Robert Musil. Ficaria mais feliz se soubesse que no Brasil se estava a verificar “um interesse crescente” por autores portugueses como Ana Teresa Pereira, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge ou Rui Nunes. Estes sim, são criadores de um mundo próprio, e não meros funcionários das letras. Mas cabe-lhes o azar de já não serem “jovens” e de não terem agentes literários.

 

Padrão
poesia

Poesia nórdica| Einar Már Guðmunsson, por Luciano Dutra

Foto: Gassi

Einar Már Gudmundsson (n. 18 de setembro 1954 em Reykjavík, capital da Islândia) é romancista, poeta e ensaísta. Estreou na literatura em 1980 com um volume de poemas e, desde então, já publicou mais de vinte obras. Teve seus livros traduzidos em mais de trinta idiomas. Anjos do Universo (Englar alheimsins), publicado também no Brasil (trad. de Luciano Dutra, São Paulo, Hedra, 2013) foi agraciado com o Prêmio Nórdico de Literatura em 1995, concedido pela mesma Academia do Prêmio Nobel. Um filme de longa metragem homônimo baseado no romance foi produzido pelo cineasta islandês Friðrik Thór Friðriksson.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

 HOMERO, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Numa tarde pesada de chuva,
num navio de um sonho que andou pelo mundo,
o contador de histórias Homero aportou em Reykjavík.
Saindo do cais
ele pegou um táxi que o conduziu
por ruas cinzentas de chuva
passando por casas tristonhas.

Numa esquina o contador de histórias Homero se virou
para o motorista e disse:
“E pensar
que aqui nessa modorra
cinzenta de chuva
vive uma nação de contadores de histórias!”
“Essa é exatamente a razão”, o motorista respondeu,
“nunca se quer mais
ouvir uma boa história
do que quando as gotas da chuva
golpeiam os vidros das janelas”

SAGNAÞULURINN HÓMER

Eitt regnþungt síðdegi,
á skipi úr viðförlum draumi,
kom sagnaþulurinn Hómer til Reykjavíkur.
Hann gekk frá hafnarbakkanum
og tók leigubíl sem ók með hann
eftir regngráum götum
þar sem dapurleg hús liðu hjá.

Við gatnamót sneri sagnaþulurinn Hómer
sér að bílstjóranum og sagði:
„Hvernig er hægt að ímynda sér
að hér í þessu regngráa
tilbreytingarleysi búi söguþjóð?“
„Það er einmitt ástæðan,“ svaraði bílstjórinn,
„aldrei langar mann jafn mikið
að heyra góða sögu og þegar droparnir
lemja rúðurnar.“

§

A TRIBUNA DO DESTINO

Não venha me falar em
países grandes e países pequenos,
cu de Judas, fim do mundo, periferia.

Vivemos numa esfera; o centro
está bem debaixo dos teus pés
e muda de lugar, seguindo-
te aonde quer que vás.

*

Eis ali o país
em que os continentes se correspondem
em sua busca de silêncio e seixos.

Considera a geleira,
vê como ela perambula no azul
como urso polar em andança pelo mundo.

Portas se abrem nos sonhos
e a escuridão flui
feito lágrimas sono afora.

*

Eis ali o país
onde o tempo cai
como um jornal que escorre pela escotilha da correspondência
mas não há assinante algum,
nem espaço algum,
apenas um abismo
onde as estrelas brilham.

Ao afundarmos
no pantanal da noite
puxamos os próprios cabelos.

*

A Via Láctea
é uma rua num vilarejo,
o destino, uma rede
lançada sobre as casas,
brindamos
com profundidades pelágicas entre nós.

As auroras boreais
ardem no beco.

*

Estou à espera de uma tonelada de sentimentos.
Alguém me ajuda a descarregar?

RÆÐUPÚLT ÖRLAGANNA

Ekki tala um
stórar þjóðr og litlar þjóðir,
útkjálka, heimshorn og jaðra.

Þetta er hnöttur; miðjan
hvílir undir iljum þínum
og færist úr stað og eltir
þig hvert sem þú ferð.

*

Hér er landið
þar sem heimsálfurnar skrifast á
í leit sinni að þögn og grjóti.

Sjáðu jökulinn,
hvernig hann vappar um blámann
einsog ísbjörð á leið yfir heiminn.

Í draumnum opnast dyr
og myrkrið flæðir
sem tár gegnum svefninn.

*

Hér er landið
þar sem tíminn fellur
einsog dagblað í gegnum lúgu,
en það er einginn áskrifandi,
ekkert rúm,
aðeins hyldýpi
þar sem stjörnurnar glitra.

Þegar vi sökkvum
í fen næturinnar
drögum við okkur upp á hárinu.

*

Vetrarbrautin
er gata í litlu þorpi,

örlögin net
sem leggjast yfir húsin,
við skálum
með hafdjúpin á milli okkar.

Norðurljósin
loga við stíginn.

*

Ég á von á tonni of tilfinningum.
Vill einhver hjálpa mér að landa?

§

ESBOÇO DE POÉTICA

Talvez as palavras emerjam
do oceano
como salva-vidas.

Peixes e pássaros,
asas e caudas:
entre isso, o homem.

Quanto mais fundo mergulho
mais alto eu voo.

DRÖG AÐ SKÁLDSKAPARFRÆÐUM

Kannski koma orðin
upp úr hafinu
eins og lífsbjörgin.

Fiskar og fuglar,
vængir og sporðar:
þar á milli er maðurinn.

Því dýpra sem ég kafa
því hærra flýg ég.

§

A GURIA QUE AMASTE…

A revolução é como a guria que amaste um dia.
Achavas que ela também te amava
e que tu jamais iria amar nenhuma outra.
Mas um dia ela acabou contigo.
Tua tristeza foi incomensuravelmente profunda no vazio dos dias.
Hoje, passado tanto tempo, vês que ela nem era aquilo tudo
e não entendes como pudeste um dia
ter te apaixonado por ela.

Faz sentido, pois já não trazes mais no coração
a força magnética que te atraiu para ela…
pois a guria que amaste um dia
não é a guria que amaste
mas sim o anseio,
a busca que te fez partir,
não com o objetivo de encontrar
mas sim de buscar o que perdeste
para poder perder o que encontraste.

STELPAN SEM ÞÚ ELSKAÐIR …

Byltingin er einsog stelpan sem þú elskaðir einu sinni.
Þú hélst hú elskaði þig líka
og að þú myndir aldrei elska neina aðra.
En dag nokkurn sagði hún þér upp.
Sorg þín var ómælisdjúp í tómleika daganna.
Nú löngu síðar sérðu að það var ekkert varið í hana
og furðar þig á því að þú skulur nokkru sinni
hafa orðið ástfanginn af henni.

Og þó, ef segulkrafturinn sem dró þig að henni
er ekki lengur í hjarta þínu …
því stúlkan sem þú elskaðir einu sinni
er ekki stúlkan sem þú elskaðir,
heldur þráin,
leitin sem lagði af stað með þig,
ekki til að finna,
heldur leita að því sem þú týndir
til að geta týnt því sem þú fannst.

§

NÃO CONSIGO PARAR

não consigo parar
na esquina dos teus lábios
apesar de eles serem vermelhos
como as sinaleiras

ÉG GET EKKI STOPPAÐ

ég get ekki stoppað
við gatnamót vara þinna
þó þær séu rauðar
einsog götuljósin

Padrão