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Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002)

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Mario del Valle e Fernando Ferreira de Loanda. Agosto de 1991. Foto: Maricela Terán.

topei com fernando ferreira de loanda (luanda 1924- rio de janeiro 2002) assim numa puta cagada: lendo a antologia d’os cem melhores poetas brasileiros do século, organizada por josé neumanne pinto e publicada pela geração editorial, em 2001. pouca coisa sobre a vida dele está disponível na internet. aquilo que achei foi: nasceu em angola mas naturalizou-se brasileiro; fundou, com lêdo ivo, darcy damasceno, fred pinheiro e bernardo gersen, a revista orfeu (publicada no rio de janeiro entre 1947 e 1953). foi, ao que tudo indica, uma figura importantíssima dentro da chamada “geração de 45”, além de um grande amigo de lêdo ivo. fato que agora me faz ver que essa tal geração tem salvação (risos).

segundo wilson martins (clique aqui), “Assim falava o procurador geral da República das Letras, rejeitando o que lhe parecia o peso morto dos antepassados. Os modernistas de 1922/1930, apesar de Drummond e Bandeira, pareciam então monumentos algo empoeirados de uma idade que se esfumava no horizonte, incluindo o passado recente representado pelos poetas de 45. Estes últimos tiveram em Fernando Ferreira de Loanda o seu arquivista cautelosamente prematuro – nem por isso menos definitivo com o “Panorama da poesia brasileira” (1951), a “Antologia da nova poesia brasileira” (1965) e a “Antologia da moderna poesia brasileira”, em 1967. Prefaciando em 1991 o que parece ter sido o seu último volume de versos (“Kuala Lumpur”), Lêdo Ivo, que foi, creio eu, o mais alto poeta da geração, assinalava que, em sua atividade editorial, Fernando Ferreira de Loanda lançou praticamente todos os poetas então emergentes: “Foi ele o primeiro editor ‘comercial’ de João Cabral, ao apresentar, nos ‘Poemas reunidos’ (1954), uma obra então rara. E a esse nome consular, acrescentemos os de Afonso Félix de Sousa, Darcy Damasceno, Nilo Aparecido Pinto, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Marly de Oliveira, Octavio Mora, Marcos Konder Reis, Domingos Carvalho da Silva, Walmir Ayala, Gilberto Mendonça Teles, Stella Leonardos e tantos outros que constituem a chamada ‘Geração de 45’[…].” Tudo terminou, para ele e em grande parte para todos, na melancolia cinzenta dos triunfos extintos: “Os poetas da minha geração, a malograda,/ e os posteriores, os antolhados frívolos da glória,/ esqueceram-se de colocar a chave sob o tapete” (Fernando Ferreira de Loanda. “Ode para Walt Whitman ou Efraín Huerta”)”.

maricela terán, traduzindo loanda pro espanhol (clique aqui), diz: “imerso numa tradição propensa ao assombro, à rebeldia e à conaturalidade dos fenômenos humanos, destacou-se como um dos principais protagonistas da literatura atual do Brasil”. fato que, sabemos, não se confirma, dado o completo estado de ostracismo ao qual foi relegado seu nome. fora essas poucas informações, nada mais encontrei sobre a vida ou a obra do poeta. todavia, deixo-vos estes poemas que seguem.

 

sergio maciel

* * *

INVERNO

Assobiam-nos, vindo de um sul
frígido, ventos
que nos queimam a boca e as rosas;
o beija-flor enrijece,
a água congela e tolhe o peixe.
Mas o homem permanece — e é necessário
que seja lembrado numa estátua —
desvia rios, abre canais, constrói cidades,
voa e nada.

E procria sem necessitar de primavera.

 

§

ODE

Acolitando nuvens
brancas não fossem.

            Pastor do céu
anjos houvesse.

            E em rapto febril
de vitrais, evadir-me

à luz, desvanecido
sob gelosias de fugas.

E ser o milhafre que tomba
exangue na travessia

infinita de uma longinque
latitude, à derradeira.

Mensagens experimentasse
e tudo esquecesse, após.

Não fora eu,
tu não serias.

Junho, 1947.

§

HOMEN DE INCOERCÍVEL ESPERANÇA

Para Gabino-Alejandro Carriedo

Homem de incoercível esperança
transita, sem sonhos ou amanhã,
cúmplice, intemporal, urde a teia,
e ante o silabar e o afresco
trânsfuga, transmuta, transige.

Repetir sempre, tudo já foi dito;
importa é como dizê-lo, insinuá-lo.
Não te acovardes ante a palavra implume.
Se desbotada ou erodida, dá-lhe
tua seiva, tua vivência – investe:
morre quem ousa, quem ousa ama.

 

§

VISEU REVISITED

Não falo das ruas da minha infância,
nem as nomeio,
para que ignorem a pequenez do meu mundo.

Tinham, porém, fauna e flora,
as árvores davam sombra e frutos,
os homens bom-dia e os pássaros cantavam.

 

§

PORLAMAR

Baixo às profundas
abissais da palavra:
colho-a como um ovo
entre as algas, como
um pêra na geladeira,
como um peixe roubado
à voracidade de outro,
como um pato abatido
no pântano, como areia
fina, na barra, a fugir
entre meus dedos.
Como-a
com uma pitada de sal.
Se de veias, sangro-a;
pétrea, sob o cinzel,
dirá o que direi, nua,
galada e engalanada,
confiante e confidente.

Busco-a a madrugar,
mastim, de tocaia,
como se colhesse amoras
temendo as silvas.

 

§

POEMA DOS CINQUENTA ANOS

Vejo o tempo passar, perder-se,
frio,
caminhando felino como um gole de água,
ou um leopardo e evaporar-se.

O amanhecer da grande cidade
e o canto dos pássaros valorizo;
e o pão e o café na mesa posta,
a erva daninha e a formiga,
coisas, sutis talvez,
sem importância para os que
me cercam: envelheço.

Cuido dos cactos, do loureiro e da goiabeira,
respondo cartas, queimo livros antigos e amigos.
Camões e Pessoa, Gullén e Vallejo fazem maior minha ilha.
Compromisso, sem que o assumisse,
só com a morte,
o demais para o diabo.

 

§

ODE PARA BARTOLOMEU DIAS

Ah, Bartolomeu Dias,
marinheiro sem mulheres,
sem cais,
tanto suaste para divisar o Índico
além da tempestade e da fábula,
tanto quiseste ver-te senhor do Oriente,
plantar as quinas e a cruz muito além do teu sonho,
tantas estrelas seguiste,
louco e lúcido,
e outros tantos alfarrábios e adivinhos consultaste,
fundindo o real ao fantástico –
– e os poetas não falaram de ti, o proficiente,
nem dos teus sonhos,
nem dos fantasmas que evocaste,
embora sulcasses a cortina que envolvia
as palavras e o abismo.

Pensavas servir a pátria
e serviste a muitas,
Bartolomeu Dias da minha infância,
símbolo da minha raça,
fremes e estuas no meu peito,
e te apegas às minhas veias
para alevantar ao vento as velas
e me arrastar ao Índico.

Ah, Bartolomeu Dias,
meu Ulisses lusíada,
eu te sagrarei na pedra,
com a palavra e ante Deus!
Do outrora te lançarei ao porvir,
e não há tempestade
que te abata mais uma vez.

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Glória Anzaldúa (1942-2004), por Thais Soranzo

gloria

NO ano passado fui convidada, junto de outros poetas-tradutores, a escrever para o Suplemento Pernambuco uma indicação de poetas para serem traduzidos no Brasil. A matéria tem rendido belezuras: em sua disciplina sobre Tradução Literária no IEL/UNICAMP, o professor Marcos Siscar solicitou como trabalho final uma tradução de cada aluno; e alguns deles traduziram poetas que indiquei no especial do Suplemento Pernambuco 🙂 

Jennifer Araújo já apareceu aqui com traduções de Carina Sedevich. Hoje é a vez de Thaís Soranzo, com a incrível Glória Anzaldúa

nascida no Vale do Rio Grande, no sul do Texas, em 1942, e autodeclarada mestiça,  Gloria Evangelina Anzaldúa, foi acadêmica, ativista política, feminista, escritora e poeta. Mais conhecida como autora de Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (San Francisco: Aunt Lute Books, 1987), uma coleção híbrida de poesia e prosa escolhida como um dos 100 Melhores Livros do Século pelo Hungry Mind Review e Utne Reader.
Autora versátil, Anzaldúa publicou poesia, ensaios teóricos, contos, narrativas autobiográficas, entrevistas, livros infantis e antologias de vários gêneros. Como uma das primeiras autoras americanas de origem mexicana assumidamente lésbica, Anzaldúa desempenhou um papel de grande relevância na redefinição de identidades chicanas, lésbicas e queer. Como editora ou co-editora de três antologias multiculturais; também desempenhou um papel vital no desenvolvimento de um movimento feminista de que trouxe valiosas contribuições para os estudos que interseccionam, dentro do feminismo, a categoria mulher com outras, como “raça”, “cor”, “região” etc.

***

O espaço da fronteira, para Glória Anzaldúa, não se restringia a uma delimitação geográfica, mas sim representava uma metáfora que problematizasse outras questões de identidade, como, por exemplo, a do idioma falado pelos chicanos e chicanas. Embora nascidos nos Estados Unidos, são descendentes de mexicanos e assim, apesar de possuírem o domínio fluente do inglês para se comunicar na vida social, também consideram o espanhol como língua materna, já que é o idioma usado entre os membros da família.

Ao mesmo tempo em que o espanhol representa um caminho para resgatar as origens chicanas, o inglês permite que a identidade anglo-americana não seja negada. Por sua vez, esse uso simultâneo do espanhol e do inglês na criação artística de Anzaldúa caracteriza não apenas a temática da interligação entre culturas, mas também a própria estrutura formal dos poemas.

No entanto, além da mescla entre o inglês e o espanhol – mais especificamente o vocabulário usado pelos chicanos –, os poemas de Anzaldúa contêm referências culturais e geográficas típicas do sul dos Estados Unidos. Assim, a tradução dos poemas lidou diretamente com estas problematizações: de que maneira o leitor brasileiro poderia de fato compreender a tensão existente no convívio entre a cultura mexicana e a anglo-americana sem saber o inglês e o espanhol? Ou ainda, como representar essa experiência se esse leitor não está habituado a certos fatores culturais e até mesmo geográficos característicos dessa região?

O dilema de traduzir ou não todos os termos em inglês/espanhol ou a tentativa de preservar de alguma forma uma referência local estão relacionados às imagens predominantes dos poemas. Tentei ao máximo preservar essas imagens, por vezes bastante fortes, pois Anzaldúa com frequência utiliza metáforas da lavoura para ratificar a agressividade de certas cenas. Assim, os poemas aqui selecionados possuem sujeitos, registros e temáticas diferentes, representando cada um a seu modo a experiência ambígua da fronteira. Por isso, cada poema precisou de um cuidado especial, não sendo possível estabelecer um padrão de escolhas tradutórias que se aplicasse a todos eles. Mas Glória Anzaldúa talvez fosse a primeira afirmar que, ao se tratar de culturas, não se pode estabelecer padrões.

Thaís Soranzo

***

Chamamos eles de sebosos

Eles estavam aqui quando cheguei
plantando milho nos seus pequenos ranchos
criando gado, cavalos
cheirando à fumaça e a suor.
Sabiam quem era foda:
tiraram o chapéu
colocaram sobre o peito,
baixaram os olhos na minha presença.

Não faziam questão de ter muita coisa,
nem sequer eram donos da terra, mas a repartiam.
Não era difícil expulsá-los dali,
covardes, isso sim, não têm peito pra aquilo.
Mostrei pra eles um papel com qualquer coisa escrita
disse que deviam impostos
precisavam pagar agora ou cair fora mañana.
Depois que eu e meus homens sacudimos
aquele mesmo papel pro resto das famílias
ele já não tinha mais borda.

Uns levaram suas galinhas crianças esposas e porcos
em carroças bambas, panelas e ferramentas chacoalhando
tilintando por todos os lados.
Não podiam levar o gado –
durante a noite meus garotos botaram o terror.
Ah, mas ainda tinha os encrenqueiros
falando que a gente é que era intruso.
Alguns tinham concessão da terra
e recorreram aos tribunais.
Era o maior sarro
eles tentando falar inglês.
Uns ainda não queriam sair dali
mesmo depois de tudo ter sido queimado.
E as mulheres — bem, lembro de uma em particular.

Ela estava embaixo de mim chorando.
Meti nela com força
continuava forçando e forçando
notei que ele olhava da árvore
escutei ele grunhindo como um animal selvagem
naquele momento senti imenso desprezo por ela
cara redonda e olhos pequenos iguais de uma índia.
Depois sentei na cara dela até
que seus braços parassem de se debater,
não queria gastar uma só bala com ela.
Os garotos não me olhavam nos olhos.
Fui até o marido preso na árvore
e cuspi na cara dele. Linchem ele, disse aos garotos.

We Call Them Greasers

I found them here when I came.
They were growing corn in their small ranchos
raising cattle, horses
smelling of woodsmoke and sweat.
They knew their betters:
took off their hats
placed them over their hearts,
lowered their eyes in my presence.
Weren’t interested in bettering themselves,
why they didn’t even own the land but shared it.
Wasn’t hard to drive them off,
cowards, they were, no backbone.
I showed ‘em a piece of paper with some writing
tole ‘em they owed taxes
had to pay right away or be gone by mañana.
By the time me and my men had waved
that same piece of paper to all the families
it was all frayed at the ends.
Some loaded their chickens children wives and pigs
into rickety wagons, pans and tools dangling,
clanging from all sides.
Couldn’t take their cattle –
during the night my boys had frightened them off.
Oh, there were a few troublemakers
who claimed we were the intruders.
Some even had land grants
and appealed to the courts.
It was laughing stock
them not even knowing English.
Still some refused to budge,
even after we burned them out.
And the women — well I remember one in particular.
She lay under me whimpering.
I plowed into her hard
kept thrusting and thrusting
felt him watching from the mesquite tree
heard him keening like a wild animal
in that instant I felt such contempt for her
round face and beady black eyes like an Indian’s.
Afterwards I sat on her face until
her arms stopped flailing,
didn’t want to waste a bullet on her.
The boys wouldn’t look me in the eyes.
I walked up to where I had tied her man to the tree
and spat in his face. Lynch him, I told the boys.

§

 

Cagado abismo, quero saber

por que durante as geadas de novembro
arrasto meu corpo bruto até seu focinho
por que em janeiro tremo de frio esperando abril.
Quero saber, maldito abismo
por que estou cercada por paredes
prisioneira ante uma fome
que não tem nome
por que fui tonta, por que sou desgraçada.
Te digo, you fucker, nunca quis
que você roçasse sua boca na minha.

 Aqui estou, estalando os dedos
tentando ver o futuro nas cartas
me envolvendo mais nas suas barbas
fazendo perguntas a Urano.
Quero saber por que a alma indomada
continua a perseguir
minha carne bruta entre os espinhos do nopal.
Sem flautas e sem flores esta viagem
de morcego cego vai à sua direção.
Nunca quis que você mordesse minha boca.

 Cagado abismo, quero saber
por que passo a vida aguentando
noites sem você.
Quero saber se passarei meus dias sozinha
me transformando em pedra a cada dia. 

Quero saber por que meu ser nu
avança mudo de joelhos
engolindo a poeira dos seus caminhos.
Quero saber por que as sombras
aumentam a cada dia,
por que estou viva se você me quer morta.
Já percebi depois de tantos anos
que ser mulher não é tão bom assim.
Querido abismo, quis somente isto:
que você me quisesse, que me devorasse.
Por que não me arrebata de uma vez?

 

Cagado abismo, quiero saber

por qué en los hielos de noviembre
arrastro mi bruto cuerpo hacia tu hocico
por qué en enero tiritando de frío espero abril.
Quiero saber, pinche abismo
por qué estoy rodeada de paredes
prisionera frente de una hambre
que no tienen nombre
por qué fui pendeja, por qué joy desgraciada.
Te digo, you fucker, nunca quise
que tú lamieras mi boca con la tuya.

 Aquí me tienes tronándome los dedos
encadenando el futuro con las barajas
enredándome más honda en tus barbas
haciéndole preguntas a Urano.
Quiero saber por qué el alma indomado
continúa rastreando
mi bruta carne sobre espinas de nopal.
Sin flautas y sin flores este viaje
de murciélago ciego va hacia tu rumbo.
Nunca quise que tú mordieras mi boca.

 Cagado abismo, quiero saber
por qué paso la vida aguantando
noches sin ti.
Quiero saber si pasaré mis días sola
haciéndome más piedra cada día.

 Quiero saber por qué mi ser desnudo
pasa mudo de rodillas
tragándose el polvo de tus caminos.
Quiero saber por qué las sombras
se hinchan más cada día,
por qué yo vivo cuando tú me quieres muerta.
Ya me di cuenta después de tantos años
que ser mujer no es cosa tan dichosa.
Querido abismo, nomás esto he querido:
que tú me quieras, que tú me devoraras.
¿Por qué no me arrebatas de una vez?

§

 

Viver na Fronteira significa que você

não é nem hispana índia negra espanhola
nem gringa, você é mestiça, mulata, cabocla
surpreendida entre um fogo cruzado numa batalha
enquanto carrega cinco raças nas costas
sem saber pra que lado virar, ou correr;

Viver na Fronteira significa saber
que a índia em você, traída por 500 anos,
já não fala mais com você,
que mexicanas te chamam de Judas,
que negar ser Anglo-americana
é tão ruim quanto ter negado ser Índia ou Negra;

Quando se vive na fronteira
pessoas passam por você, o vento rouba sua voz,
você é burra, toupeira, bode expiatório,
precursora de uma nova raça,
meio a meio – mulher e homem, nenhum deles –
um novo gênero;

Viver na Fronteira significa
colocar chile em uma borche,
comer tortilhas de farinha de trigo,
falar Tex-Mex com um sotaque de Brooklyn;
ser parada pela migra nos controles da fronteira;
Viver na Fronteira significa que você luta
para resistir ao atraente elixir de ouro da garrafa,
contra a puxada do gatilho,
contra a corda esmagando sua garganta;

Na Fronteira
você é o campo de batalha
onde os inimigos são parentes;
você está em casa, uma estranha,
as disputas na fronteira cessaram
a chuva de disparos acabou com a trégua
você está ferida, fraca
morta, reagindo;

Viver na Fronteira significa
que o moedor, de dentes brancos, quer dilacerar
sua pele oliva, tirar o grão, seu coração
te socar te apertar te esticar
que você cheire a pão branco, mas morto;

Para sobreviver à Fronteira
você deve viver sem fronteiras
ser um cruzamento.

 

 To live in the Borderlands means you

   are neither hispana india negra española
   ni gabacha, eres mestiza, mulata, half-breed
caught in the crossfire between camps
while carrying all five races on your back
not knowing which side to turn to, run from;
To live in the Borderlands means knowing
that the india in you, betrayed for 500 years,
is no longer speaking to you,
that mexicanas call you rajetas,
   that denying the Anglo inside you
is as bad as having denied the Indian or Black;
Cuando vives en la frontera
   people walk through you, the wind steals your voice,
you’re a burra, buey, scapegoat,
forerunner of a new race,
half and half – both woman and man, neither –
a new gender;
To live in the Borderlands means to
put chile in the borscht,
eat whole wheat tortillas,
   speak Tex-Mex with a Brooklyn accent;
be stopped by la migra at the border checkpoints;
Living in the Borderlands means you fight hard to
resist the gold elixir beckoning from the bottle,
the pull of the gun barrel,
the rope crushing the hollow of your throat;
In the Borderlands
you are the battleground
where enemies are kin to each other;
you are at home, a stranger,
the border disputes have been settled
the volley of shots have shattered the truce
you are wounded, lost in action
dead, fighting back;
To live in the Borderlands means
the mill with the razor white teeth wants to shred off
your olive-red skin, crush out the kernel, your heart
pound you pinch you roll you out
smelling like white bread but dead;
To survive the Borderlands
you must live sin fronteras

   be a crossroads.

§

 

Não se entregue, chicaninha
jovem Anzaldúa)

 Não se entregue, minha pretinha,
aperte o cinto, aguente.
Sua linhagem é antiguíssima,
suas raízes como as das mesquites,
bem plantadas, perfuram a terra
rumo a essa corrente, alma da terra mãe
sua origem.

 Sim, minha filha, sua gente cresceu nos ranchos
aqui no Vale pertinho do rio Grande
bem na fronteira
na época anterior a dos gringos
quando Texas era México.
Você é descendente dos primeiros vaqueiros
lá de Vergeles, em Jesus Maria terra Dávila.
Mulheres fortíssimas te criaram:
sua mãe, minha irmã, minha mãe e eu.
E sim, tiraram nossa terra.
Não sobrou nem o cemitério
onde enterraram Don Urbano, seu tataravô.
Tempos duros como pedra carregamos
de cabeça erguida caminhamos.

 Mas nunca tirarão nosso orgulho
de ser mexicana Chicana texana
nem nosso espírito índio.
E quando os gringos acabarem
olha como matam uns aos outros
aqui vamos estar
como os lagartos-de-chifres e as lagartixas
sobreviventes da Era do Fogo, o Quinto Sol.

 Talvez morrendo de fome como sempre
mas uma nova espécie
pele entre negra e bronzeada
quase cerrando as pálpebras
com o poder de ver o sol por olhos nus.
E viva, minha filha, muito viva.

 Sim, sinto que dentro de alguns anos ou séculos
a Raça se levantará, língua intacta
carregando o melhor de todas as culturas.
Essa víbora adormecida, a rebeldia, surgirá.
Como couro velho, acabará a escravidão
de obedecer, de calar, de aceitar.
Como víbora relampejando nos moveremos, mocinha.
Você vai ver!

 

No se raje, chicanita
(para Missy Anzaldúa)

No se raje mi prietita,
apriétese la faja aguántese.
Su linaje es antiguísimo,
sus raíces como las de los mesquites,
bien plantadas, horadando bajo tierra
a esa corriente, el alma de tierra madre –
tu origen.

 Si m’ijita, su gente se creó en los ranchos
aquí en el Valle cerquita del río Grande
en la mera frontera
en el tiempo antes de los gabachos
cuando Tejas era México.
De los primeros vaqueros descendiste
allá en los Vergeles, en Jesús María tierra Dávila.
Mujeres fortísimas te crearon:
tu mamá, mi hermana, mi madre, y yo.

 Y sí, nos han quitado las tierras.
Ya no nos queda ni el camposanto
donde enterraron a Don Urbano tu vis-visabuelo.
Tiempos duros como pastura los cargamos
derechitas caminamos.

 Pero nunca quitarán ese orgullo
de ser mexicana Chicana tejana
ni el espíritu indio.
Y cuando los gringos se acaban
mira como se matan unos a los otros
aquí vamos a parecer
con los horned toads y los lagartijos
survivors del First Fire Age, el Quinto Sol.

 Quizá muriéndonos de hambre como siempre
pero una nueva especie
piel entre negra y bronces
segunda pestaña bajo la primera
con el poder de mirar al sol ojos desnudos.
Y vivas, m’ijita, retevivas.

 Sí, se me hace que en unos cuantos años o siglos
la Raza se levantará, lengua intacta
cargando lo mejor de todas las culturas.
Esa víbora dormida, la rebeldía, saltará.
Como cuero viejo caerá la esclavitud
de obedecer, de callar, de aceptar.
Como víbora relampagueando nos moveremos, mujercita.
¡Ya verás!

 ***

Thaís Soranzo é graduanda em Estudos Literários pela Unicamp. Durante a graduação, foi membro por um ano do corpo editorial da Revista Arcádia (IEL/Unicamp) e cursou um semestre acadêmico na Universidad Carlos III de Madrid, Espanha. Realizou também, através do programa High School, um intercâmbio de um ano em Ohio, Estados Unidos.

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Renan Porto (1993-)

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Renan Porto nasceu em 1993 na cidade de Jequié-BA, cresceu no povoado de Florestal, estudou Direito na Universidade de Uberaba (MG). É ensaísta, poeta e pesquisador associado à Rede Universidade Nômade.

* * *

AMPULHETA

o limite a lide do possível
sentença do arrego que
o pudor tutela: libera
ou não. pudera tê-la
feito gozar à vera
quem dera não
fosse teu juí
zo de velha
idade mé
dia coe
xistin
do com
a nova era
eu ajoelho pra
chupar tu ajoelha
pra reza. assim reveza
o tempo da torre e do brega
serenata provençal ou cachaça
na goela. de que importa o espaço
quando muda o tempo. por que porta
eu passo do futuro ao duro oco suspenso

§

HIPERSTIÇÃO

Veja,
nessa terra de nenhures
tudo é esgotamento. Os tetos são cada vez mais baixos
Vendem lotes por metro cúbico de pequeno volume
Um mero perímetro rodeado de paredes
Depósito de estafa. As disputas territoriais
alcançaram o céu

Não tem mais pra onde quando todo onde é igual
Tampouco quando que não passa de agora
O futuro um tratado de urgência sob custódia
de um gerente que só se conhece o reflexo
uma abstração que se escolhe a cor
Logo mais não sobrará silêncio

Mas veja,
é tudo muito concreto
objetivo como sangue
recorrente como dores
e bombardeios

É muito explícito: espaço, tempo: corpo
O que nos falta é uma outra forma de estar inconsciente
de reagir ao assalto, de dar defeito

Agora que não há mais fora
e tudo é velocidade
não se pode mais parar
o que se tem é a colisão
o colapso

O que fica por fazer é
solapar a inteligência que gerencia o medo
com um gesto sem registro
Confundir placas de memória
o susto como método

Depois,
quando tudo for só ruína
e o wormhole brechado no ar
nos expor a um grande nada, Que fazer?
Eis a tarefa do agora: criar novas condições de imaginação

§

PREPARANDO UM FAQUIR

da dor reverbera a dureza e a duração
na carne que malha a ideia com a vontade
até que o instante tudo suspende
– de imediato o corpo do chão sobeja
quando se faz ver a presença

o efetivo aguardo fabrica o branco
onde se escreve a condenação
do tão esperado momento

o improvisado encanto
à espreita da sorte
lucra a infâmia
de um maleficente
cultivo da desonra

deste involuntário ritual
no altar da auto-imolação
se produz o tormento
indispensável à esperança

feito
o faquir caminha sempre a um passo antes
do momento de sua realização
para que nunca seja satisfeita sua dor
e tenha da lamúria o constrangimento
de matutar o método a forma o jeito
mas nunca o ato

na incubação do virtual martírio
fomenta a potência de sua obra
bomba armada para a fortuna
sem fim além da ameaça de explodir

o esmagamento da utopia pelo medo
para que a utopia se mantenha como utopia
e a esperança como espera de esperar
confiada ao imaculado servidor da lei
que anuncia o tempo por vir
sem lhe caber julgamento

atado à coleira do futuro
o faquir senta ante o portão aberto
e aguarda pacientemente
uma aparição um sinal qualquer
uma face qualquer coisa
que lhe ensine o caminho de volta

§

DOMINGO DE CEIA

no primeiro pipoco caíram dez
de badocada quatro cabeças estouradas
vacilou no chão ficou a banha da pupila no gilete
de olho vazado já levantou de novo e meteu o segundo
no tropeço da sandália quebrada caiu só o pacote
aí já foram de chute e solada em cima das costelas
de um lado e de outro só pedrada e pedaço de pau voando
uma porrada de estaca no córtex direto pra sepultura
descendo a ladeira vinha chegando uma tropa de vagalume
só a galera da groovança pra efetuar o contra-ataque
do asfalto pro calçamento uma bike rachou o guidão
a ponta de ferro ferrugem foi direto na boca do estômago
era domingo praça cheia paredão tremendo
dezenas de bundas pro ar
antes da PM chegar metendo a mão e distribuindo sarrada
na campeira o risca-faca continuava quente
depois dali um monte de mina prenha e bebês sem pais
mas era domingo
e um caminhão de cerveja no gelo
as cadeiras vermelhas espalhadas pela calçada
pelo canto da rua escorria água cerveja e sangue
de onde ninguém sabe mas todo mundo viu quem subiu
todo mundo sentiu o gélido corte no tempo
todo mundo previu o grito das mães
todo mundo tinha aquele segredo comum
todo mundo segunda-feira
rua lavada
a porta do bar se desenrola
começou mais uma semana

Padrão
tradução

Ingeborg Bachmann, por Adelaide Ivánova

ingeborg-bachmann

Ingeborg Bachmann é uma poeta canceriana nascida na Áustria em 1926. Lançou dois livros de poesia – Die gestundete Zeit (1953) e Anrufung des Größen Bären (1956), e depois parou, disse que não ia escrever poesia nunca mais, que ia se dedicar à prosa (de fato, teve uma produção intensa, escrevendo novelas, contos, romances, libretos etc., que lhe renderam grande prestígio). E à prosa se dedicou, mas não somente. Ia enfiando seus poemas na gaveta, sem mostrar a ninguém. E como não pensava em publicá-los, escrevia o que lhe desse na (belíssima) telha, se libertando dos esquemas formais tão presentes (e tão austeros) dos seus dois primeiros livros – então se não quisesse finalizá-los, e se não quisesse colocar vírgulas e se quisesse inventar palavras e se quisesse tocar o fodase nas declinações do acusativo, assim ela faria; assim ela fez.

Daí vem o que depois veio a ser reunido pela Piper Verlag no volume Ich weiß keine bessere Welt, poemas póstumos que são mais que poemas não-publicados, são sei lá, o coração (esse caçador solitário, esse jovem perverso, como disse (mais ou menos) Belchior) dela. Ok, foi cafona. Desculpa.

Os textos póstumos se aproximam muito mais da vida interna de Bachmann do que a produção publicada oficialmente. Ela sofreu demais e, se nos livros de 1953 e 1956 podemos sentir uma alma em desajuste com o mundo, nos póstumos Bachmann aceitou que essa alma dói, sim, mas que além disso tem um corpo que será sistematicamente violado – por guerras, por regimes totalitários, pelos homens, pelos nosso vícios, pelas doenças, pelas instituições.

Ingeborg Bachmann morreu em Roma, depois de um incêndio no seu quarto de hotel, em decorrência das queimaduras, em 1973 – época em que tomava cerca de cem comprimidos por dia, entre uppers e downers.

Quanto às traduções, escolhi três póstumos em que Bachmann tematiza a perda – a da voz criadora, a de um relacionamento (ou seja, “do mundo”) e a do próprio ofício. Enfim, a perda de si mesma, esse perder-se de vista que é afinal toda ruptura. Traduzi os poemas no mesmo estado de espírito pois, ainda que Jakob não desse a mínima pras coisas que eu faço, ele era meu consultor de traduções. Ele me explicava quando a palavra era um neologismo, quando tinha uma declinação misteriosa que eu não conseguia decifrar por causa de um verbo inesperadamente fora de lugar (uma ingeborgice que tanto amo), me ajudava enfim quando o poema era areia demais pro meu caminhãozinho alemão.

Mas Jakob foi embora e esses poemas são os primeiros que traduzo sem sua ajuda, sem a ajuda de quase ninguém (Jörg Brüggemann e Bernhard Jarosch me deram uns insights sobre o que fazer com as palavras que não-traduzi como “névoa vermelha”, “rastejantes” e “Exilado”). Não está exato, mas me diga, se nada é exato nessa vida, não são minhas traduções que vão ser.

Estou convencida de que traduzir a coisa deve ser o mesmo que escrever sobre ela. Assim, em certo momento na feitura dessas traduções (especialmente do último, que foi pra mim o mais desafiador pela ausência de verbos auxiliares e declinações MALUCAS) eu decidi fazer com elas o que a vida tinha feito comigo – me perder delas. Saí andando igual a Travis de Paris, Texas, insolente, querendo ver aonde a tradução me levava. “Como eu escreveria esse verso?”, me perguntava, mas também pensava em como dar um pé-na-bunda, terminar o namoro com uma estrofe, uma palavra, toda vez que empacava num mistério semântico. Porque uma vez entendido o que o poema quer dizer, o resto é de responsabilidade do tradutor (with great responsability comes great power, já diria Ru Paul, mas eu digo que vem também o direito de se divertir). Tentei deixar essa imprecisão, essa ausência, essa quase-desistência, esse break-up (e essas invenções, como inventado é todo romance) claros na tradução do último poema, que foi o semanticamente mais desafiador. Enfim, umas tradução-recibo aí procês.

adelaide ivánova

 

* * *

Meine Schreie verlier ich
wie ein anderer sein Geld
verliert, seine Moneten,
sein Herz, meine großen
Schreie verlier ich in
Rom, überall, in
Berlin, ich verlier auf
den Straßen Schreie,
wahrhaftige, bis
mein Hirn blutrot anläuft
innen, ich verlier alles,
ich verlier nur nicht
das Entsetzen, daß
man seine Schreie verlieren
kann jeden Tag und
überall

(de Ich weiß keine bessere Welt, da Piper)

eu perco meus gritos
como uma pessoa perde
seu dinheiro, suas moedas,
seu coração, meus gritos mais
altos eu perco em
roma, em todo lugar, em
berlim, pelas ruas eu
efetivamente perco
meus gritos, até que
meu cérebro se cobre
de névoa vermelha, eu perco tudo,
a única coisa que eu
não perco é esse pavor
de saber que uma pessoa
pode perder seus gritos
todos os dias
em qualquer lugar

§

Eine Art Verlust

Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher
und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht,
verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer
die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich
mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und in ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für
unkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,

( – der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel
mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerei.
Von dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn,
zu grüßen.
Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine
äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war der Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.

(póstumo, mas publicado na edição de poesia completa – Sämtliche Gedichte – também da Piper)

Um tipo de perda

Juntos usamos: as estações do ano, livros e uma música.
As chaves, os saquinhos de chá, a cesta de pão, lençóis
e uma cama.
Herança de um vocabulário, de gestos, trazidos,
usados e gastos.
Obedecemos as regras do prédio. Dito. Feito. E a mão
sempre estendida.

Sempre me apaixonei pelo inverno, por um quinteto vienense
e pelo verão.
Por mapas, por uma casinha na montanha, por uma praia,
por uma cama.
Ritualizo datas, declaro incanceláveis as
promessas,
idolatro qualquer coisa e sou devota de coisa nenhuma,

( — do jornal dobrado, do cinzeiro cheio, do papelzinho
com um recado)
não tenho medo de religião, porque igreja era essa cama.

Da vista do mar nasceu essa pintura incansável.
Da varanda dava pra saudar os povos,
meus vizinhos.
Perto da lareira, em segurança, meu cabelo tinha
sua cor mais extrema.
O toque da campainha era o alarme da minha felicidade.

Não foi você que eu perdi,
foi o mundo.

§

Ich habe die Gedichte verloren
sie allein nicht, aber zuerst

Die Gedichte sind verloren gegangen
nicht sie allein, aber zuerst das Gedicht
dann der Schlaf, dann die

Alles verloren, die Gedichte zuerst
dann den Schlaf, dann den Tag dazu
dann das alles dazu, was am Tag war
und was in der Nacht, dann als nichts
mehr, noch verloren, weiterverloren
bis weniger als nichts und ich nicht mehr
und schon gar nichts war,

Rückzug muß ein inneres Hinterland
mit allen verbriefte Jahre und gesehene Orte
“noch vor den Augen, da die Erde
nicht mehr und keine Schmach, dann
hinten noch immer ein Raum
krallenumflogene Weiten für Taube, Stumme
Helle ruflange Weiten für er
die Ankunft, Erstummter

Für den Erstummten die Wüstenei
mit dem verständlichen Gespinnst
das sanft seinen Wahnsinn einpuppt
bis er das gläserne Hotel malt,

(as notas em Ich weiß keine bessere Welt apontam que o manuscrito foi encontrado inacabado e muito rabiscado, com versos reescritos sobre outros, sem que os primeiros tenham sido apagados; dificultando a leitura e digitalização exatas. Um dos exemplos citados pelos editores é Weiten (salas, quartos), que eles não tinham certeza mas que podia ser também Worte (palavras) o que mudaria completamente o sentido do poema).

Eu perdi a poesia
não apenas ela, mas ela eu perdi primeiro

A poesia se perdeu
não apenas ela, primeiro o poema
e depois o sono, depois a poesia

Eu perdi tudo, a poesia primeiro
depois o sono, depois o dia
depois tudo que tinha acontecido de dia
e o que tinha acontecido de noite, depois quando nada
mais havia, perdi mais, segui perdendo
até que menos que nada eu tinha e eu não mais
e já nada mais era,

O sertão interior tem que ser perdido
junto com os anos vividos e os lugares visitados
ainda na lembrança, já que a Terra
não mais é e não tem pudor, então
lá atrás ainda essas
salas para os surdos, para os mudos, cercadas de rastejantes
salas claras com eco para
que chegue o Exilado,

Para o Exilado, o sertão
vem com um coerente tatu-bola
que tranquilo molda seus delírios em forma de boneca de vudu,
até que consiga pintar o vítreo hotel,

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tradução

Valediction de John Donne, por Pedro Mohallem e Matheus Mavericco

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Esse aqui é o famoso poema do compasso. Coleridge uma vez escreveu, salvo engano num diário ou uma coisa assim, que ninguém além de Donne poderia ter escrito este poema. De fato: posto pela primeira vez numa folha de papel chamex reciclado (pode acreditar, foi assim mesmo) em 1611 ou 1612, antes de Donne fazer uma viagem para o continente europeu, “A Valediction: Forbidding Mourning” foi dedicado à esposa do poeta, Anne. Só em 1633, todavia, é que o poema sairia na coletânea Songs and Sonnets, três anos antes de sua morte.

Quem quiser tentar entender o que é a tal da poesia metafísica pode ler um poema desses e pronto. Missão cumprida. Helen Gardner, respeitável especialista em poesia barroca inglesa, disse que a poesia desses caras se assemelha a um epigrama expandido. É difícil chegar a outra conclusão quando se lê, por exemplo, as três últimas estrofes de “Forbidding Mourning”. Depois desse período, diz Eliot em sua arquifamosa resenha para a antologia de poesia metafísica feita por um camarada chamado Herbert Grierson, ocorreria uma dissociação da sensibilidade, no sentido de que “A tought in Donne was an experience; it modified his sensibility” – sensibilidade, aqui, entendida em contraponto com o que Browning ou Tennyson séculos depois sentiriam, isto é, “they are poets, and they think; but they do not feel their thought as immediately as the odour of a rose.” A comparação com Eliot poderia seguir em frente, é claro, se nos lembrarmos que uma imagem como a do compasso é bem o que Eliot tinha em mente ao cunhar o conceito do “correlato objetivo”: objetos, imagens, descrições que consigam dar concreção àquilo que é vago, abstrato. A poesia metafísica fez isso como ninguém, e não espanta que Augusto de Campos peça para que comparemos o “Forbidding Mourning” a textos como “Mulher vestida de gaiola” de João Cabral: em Donne “os conceitos são coisificados por uma sensibilidade simultaneamente sintética e analítica, que lhes dá um corpo para, à força de dissecá-lo, nomear o impalpável.”

O argumento do poema é simples: o amor que o poeta tem para com sua amada é um amor diferente. Allen Tate fala até de um lugar-comum cristão: por meio de um amor maior e mais elevado, o amor físico dos amantes se expande e se apura. Não é o “Dull sublunary lover’s love”, isto é, aquele amor comum que existe no plano terrestre, todo sujo de dedos humanos, e que fica por aí mesmo (“Whose soul is sense”). O poeta começa comparando a despedida com a morte de um homem virtuoso: ora, uma pessoa virtuosa é alguém que consegue projetar sua alma para além de seu corpo, fazendo com que sua fama chegue muito mais longe do que ele, em vida, conseguiu chegar. A brandura com que esse homem virtuoso morre é um modo de apaziguar a esposa a quem o poema é dedicado, mesmo porque não adiantaria que ele começasse falando de uma despedida violenta (algo como uma peixeirada no estômago). Que sentido faria, se o poema surgiu como “se acalme, voltarei logo, tamo junto”? A segunda estrofe consegue mostrá-lo muito bem. Não adianta fazer todo um escarcéu. O mesmo com a terceira: por mais que no plano terrestre as coisas se deem de maneira abrupta, no plano das esferas a trepidação, “Though greater far, is innocent.”

Como a alma dos amantes se desprendeu de planícies mundanas e se enlaçou num âmbito maior, tornando-se apenas uma, então, por conseguinte, se os dois se encontram separados, isto não quer dizer que tenham deixado de estar juntos. Na verdade, a separação momentânea dos dois é um modo de expandir o alcance daquele amor: “but an expansion”, dirá o poeta estrofes depois. A mesma lógica da alma do homem virtuoso, só que, aqui, comparada à ideia do compasso. Quer dizer: sabemos que a poesia barroca se viu numa dualidade essencial entre a vida do espírito, a investigação metafísica e a investigação científica do mundo ao redor. Que Donne tenha incorporado uma invenção relativamente recente, o compasso (que alguns chegam a atribuir a Galileu, contemporâneo do poeta), a um poema que retrata a persistência do amor especialmente numa zona “so much refined”, é surpreendente (se bem que Aíla de Oliveira Gomes diz que o par de compassos é o “mais discutido conceit da poesia metafísica daquela época”).

O círculo é um símbolo clássico da perfeição, e o círculo com um ponto no meio é um símbolo alquímico do ouro. A esse respeito, lembre-se do verso “Like gold to airy thinnes beat”, mas lembre-se também (e quem faz este comentário de grande perspicácia é o Pedro) que o poema todo possui 36 versos, um número que é correspondente direto do 360 (o número de graus de uma circunferência) e que é divisível por 9, número que representa a quase perfeição. É a firmeza da amada servindo de esteio, de baliza, de alicerce para a peregrinação prestes a ser feita, que permitirá ao eu lírico terminar onde começou, ou seja, fechando o círculo.

A tradução que vocês lerão abaixo é do meu amigo Pedro Mohallem, já apresentado aqui no escamandro. Tradução eu considero excelente e muito criativa, com soluções que demonstram que o Pedro entendeu direitinho o que Donne estava fazendo: basta que se observe o caso de “elementares / Princípios” ou “se move consoante o traço”, ou mesmo uma rima com a palavra “imos”. A maneira com que ele consegue criar uma tradução fluida é também admirável, se lembrarmos o comentário do Herbert Grierson de que a poesia do Donne tinha um desejo de se aproximar de uma linguagem prosaica (no que ele fecha com uma frase lapidar: “Poetry is always a balance, sometimes a compromise, between what has to be said and the prescribed pattern to which the saying of it is adjusted”).

De um modo geral quando o assunto é João Donne nós nos lembramos muito das versões que Augusto de Campos fez em meados da década de 50, muitas publicadas no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, sob a batuta de Mário Faustino. Claro que elas depois seriam ampliadas em Verso, reverso e controverso e depois em O anticrítico, mas começou foi aí. Tudo, aliás, começou aí: algumas das primeiras traduções da carreira do Augusto foram traduções de Donne. Se você quiser sentir um pouco o que representou para alguém em 1957 abrir o jornal e se deparar com uma bela tradução de um poema barroco, feita por um jovem desconhecido, você pode clicar nesse link aqui.

Todavia, apesar disto, é preciso ter em mente que pelo menos outros dois tradutores ilustres forneceram versões para este poema: Paulo Vizioli e Aíla de Oliveira Gomes. Do primeiro, faço notar que a versão a que tive acesso foi a inclusa no seu Poetas de Inglaterra, grande antologia que Péricles Eugênio da Silva Ramos havia organizado na década de 60 e que contava com algumas participações de Vizioli. Sabemos que na década de 80 Vizioli publicaria um livro com traduções de Donne (John Donne: o poeta do amor e da morte), livro este que inclusive deu ensejo a uma polêmica danada. Pois bem: esta segunda versão apresenta aqui e ali algumas diferenças, coisas bem pontuais ao que me consta, para com a versão primitiva da tradução. Como não tive acesso a esta segunda tradução de maneira completa, opto por reproduzir apenas a primeira, que é a que eu tenho aqui do meu lado.

 

Matheus Mavericco

* * *

DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO
trad. Pedro Mohallem [2017]

Como os virtuosos que, a expirar, divisem,
Sussurrando-lhe adeus, o corpo da alma,
Enquanto alguns de seus amigos dizem
“Já não respira”, e outros dizem “Calma”,

Assim nos dissipemos, sem alarde,
Sem escarcéus de dor ou rios de pranto;
Fora nossa alegria profanar
Dizer aos leigos deste nosso encanto.

O abalo da terra aflige e apavora,
E o que ele traz em si todo homem sente;
O trepidar do firmamento, embora
Bem mais vasto se mostre, é inocente.

Maçante amor de amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não tolera
A ausência, que remove elementares
Princípios sob os quais se compusera.

Mas nós, por um amor tão refinado
Que sequer conhecemos os seus imos,
O pensamento mútuo-assegurado,
De olhos, lábios e toque prescindimos.

Assim, mesmo que eu parta, não serão
Partidas duas almas feitas uma:
Em vez de um rompimento, uma expansão,
O ouro batido à aérica espessura.

Sejam duas, o são à semelhança
Das duas rijas pernas do compasso:
Tua alma, a ponta fixa, não avança,
Porém se move consoante o traço;

E embora bem ao centro ela se assente
Ainda que a outra no horizonte suma,
Inclinando-se, busca-a atentamente,
E vendo-a regressar, logo se apruma.

Tal serás para mim, que ora preciso,
Como a outra perna, obliquamente andar;
Tua firmeza torna-me preciso
E faz-me onde começo terminar.

§

EM DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO
trad. Augusto de Campos
em: Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, 28/10/56.
Verso, reverso, controverso, Perspectiva, 1978, p. 140-143.
O anticrítico, Cia das Letras, 1986, p. 50-53.

Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
Encontrar meu final em meu começo.

 

§

DESPEDIDA PARA EVITAR O PRANTO
trad. Paulo Vizioli [1970]
em: Poetas de Inglaterra, Secretaria da Cultura, Esportes e Turismo de SP, 1970, p. 74-75.

Como o doce passar dos virtuosos,
Que às suas almas sussurram que se vão,
Enquanto alguns amigos dizem tristes:
O sôpro vai-se agora, ou, ainda não;

Assim nos confundamos, sem ruídos,
Cheias de pranto, ou ventos de clamor;
Seria profanação de nosso júbilos
Aos leigos anunciar o nosso amor.

Mêdos e danos traz o terremoto,
Calcula-se o que fêz, ou tinha em mente;
O trepidar, no entanto, das esferas,
Ainda que bem maior, é inocente.

O obtuso amor de amantes sublunares
(No qual o tato é essência) não tolera
A ausência, uma vez que esta remova
O que seus próprios fundamentos era.

Nós, porém, com amor tão refinado
Que nem sabemos o que venha a ser,
Firmes no espírito, cuidamos menos
De olhos, de lábios e de mãos perder.

Então nossas duas almas, que são uma,
Mesmo com meu partir, ruptura séria
Não poderão sofrer, mas a expansão
Do ouro maleado a uma espessura etérea.

Se fôrem duas, serão duas como
As duas pernas gêmeas de um compasso:
Tua alma, a perna fixa, não se altera,
Mas se move, se eu, – a outra perna –, o faço.

E embora ela no centro permaneça,
Se a outra se distancia a viajar,
Inclina-se por esta e a segue atenta,
E se ergue enfim, quando ela volta ao lar.

Tal serás para mim, cuja viagem
À da outra perna, a oblíqua, se compara;
Tua firmeza justo faz meu círculo,
E faz-me terminar onde iniciara.

§

UMA DESPEDIDA: PROIBIDO CHORAR
trad. Aíla de Oliveira Gomes
em: Poesia metafísica, Cia das Letras, 1991, p. 48-49.

Como homens de virtude passam sem alarde,
Meio a sussurros em que entregam a sua alma,
Enquanto alguns amigos tristes dizem, é tarde,
Já não respira; e outros, inda não, tem calma:

Assim choremos nós, quietos, sem alarido,
Sem dilúvios causar ou mover tempestade,
Que nossa emoção se profana em alheio ouvido –
Falar de nosso amor, só muito à puridade.

Os movimentos da terra causam tremores,
E o homem calcula seus efeitos consequentes;
Mas trepidações nas esferas, tão maiores
Que abalos sísmicos, estas são inocentes.

No amor, os amantes do mundo sublunar
(Cuja alma está só nos sentidos) não suportam
Ausência – que ela pode desarticular
Os elementos que no seu amor se entrosam.

Mas nós – o nosso amor é tão mais refinado
Que nem podemos sondar seus múltiplos folhos,
Nosso espírito é tão coeso e afinado
Que nem ligamos para mãos, lábios ou olhos.

Embora eu tenha de partir, eu te asseguro
Que em nossas almas não haverá separação.
Elas são uma, e, assim como bloco de ouro
Que é distendido em folha, juntas ficarão.

Ou se elas são duas, serão duas apenas
Como duas, as hastes gémeas de um compasso:
Tu és a haste fixa, mas moves-te em verdade
Todas as vezes que a outra alma avança um passo.

E, enquanto a outra lã bem longe circunvaga,
Essa em seu centro, p’ra ela inclina-se depressa,
Solícita; e só se ergue de novo erecta
Quando a outra haste de sua viagem regressa.

Assim és tu p’ra mim, que, como a haste oblíqua,
Obliquamente vago distante de ti;
Tua permanência faz perfeitos meus circuitos
E ajuda-me a voltar ao ponto de que parti.

 

§

A VALEDICTION: FORBIDDING MOURNING
John Donne

As virtuous men pass mildly away,
And whisper to their souls to go,
Whilst some of their sad friends do say
“The breath goes now,” and some say “No”;

So let us melt, and make no noise,
No tear-floods, nor sigh-tempests move;
‘Twere profanation of our joys
To tell the laity our love.

Moving of th’ earth brings harms and fears;
Men reckon what it did and meant;
But trepidation of the spheres,
Though greater far, is innocent.

Dull sublunary lovers’ love
(Whose soul is sense) cannot admit
Absence, because it doth remove
Those things which elemented it.

But we, by a love so much refined
That ourselves know not what it is,
Inter-assurèd of the mind,
Care less, eyes, lips, and hands to miss.

Our two souls, therefore, which are one,
Though I must go, endure not yet
A breach, but an expansion
Like gold to airy thinness beat.

If they be two, they are two so
As stiff twin compasses are two:
Thy soul, the fixed foot, makes no show
To move, but doth, if th’ other do.

And though it in the center sit,
Yet when the other far doth roam,
It leans, and hearkens after it,
And grows erect, as that comes home.

Such wilt thou be to me, who must
Like the other foot, obliquely run;
Thy firmness makes my circles just,
And makes me end, where I begun.

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Dois poemas inéditos de Leila Lopes de Andrade

leila-andrade

Leila Lopes de Andrade é graduada em Letras Vernáculas e Comunicação Social. Participou da Antologia “Meditações sobre o fim – os últimos poemas” (Editora Hariemuj/ Portugal). Tem poemas publicados na Revista Germina Literatura e outras. Edita mensalmente a Revista Cultural Diversos Afins.

***

Ideia de amor

não é uma festa hoje
talvez compromisso
da memória

da ideia de amor

tenho sempre
uma frase atravessada
na garganta

§

Lado de dentro

No limite de quem foi longe demais
por um fio apenas um vazio
estado de invisibilidade.

Por dentro casas coloridas, lares

tudo caminha perfeitamente
do lado que não se mostra
e não se toca:
mãos sujas de ninguém.

Leila Lopes de Andrade

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Um poema inédito de Ricardo Pozzo

Cueva de las Manos, situada em Río Pinturas, na província de Santa Cruz, 163 km ao sul da cidade de Perito Moreno, Patagônia. Foto de Rocío Lator

Cueva de las Manos, situada em Río Pinturas, na província de Santa Cruz, 163 km ao sul da cidade de Perito Moreno, Patagônia. Foto de Rocío Lator

Ricardo Pozzo é autor do livro Alvéolos de Petit Pavê, Ricardo Pozzo nasceu em Buenos Aires. Poeta, fotógrafo e músico. Organizou por 5 anos o Vox Urbe, projeto literário do WNK Bar. Curador do projeto Pássaros Ruins.

* * *

Altamira

Na variável mais profunda,
tanto caçador quanto caça
estão em fuga.

Naipes numa orquestra de faros,

iluminados nem pelo satélite pálido
seduzido, em seu magnético giro.

Melhor enxerga o que ouve
aguçado

na floresta que assombra quem,
surpreendido,

mira o animal escolhido
e a si reconhece.

Ricardo Pozzo

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