poesia, tradução

Juan Laurentino Ortiz, por Sandra Sandos

Juan L. Ortiz

Juan Laurentino Ortiz (Puerto Ruiz, 1896 – Paraná, 1978) foi um poeta argentino, mais conhecido por Juan L. Ortiz. A sua infância foi passada num meio rural da Mesopotâmia argentina e a sua juventude em Buenos Aires, onde se envolveu ativamente a nível político e intelectual nos valores do anarquismo. Regressou à sua cidade natal, Entre Ríos, trabalhando como empregado público. Inicialmente, a sua poesia revelava algum intimismo pós-modernista, contudo evoluiu para temáticas relacionadas com o sentimento cósmico da paisagem e um humanitarismo solidário. Traduziu a poesia de Paul Éluard, Guisseppe Ungaretti, Ezra Pound e alguns poetas chineses. Retirado dos círculos literários, a sua obra obteve uma difusão escassa e publicada de forma dispersa em vários poemários: “El agua y la noche”; “El alba sube”; “El ángel inclinado”; “La rama hacia el Este”; “El álamo y el viento”; “El aire conmovido”; “La mano infinita” e “La brisa profunda”. Em 1971, estas obras reuniram-se em três volumes com o título “En el aura del sauce”. Juan L Ortiz falece com 82 anos, legando uma escrita profundamente comungante com a natureza e os conflitos sociais.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

PARA QUE LOS HOMBRES

Para que los hombres no tengan vergüenza
de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles
o profundas de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos hasta nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

PARA QUE OS HOMENS

Para que os homens não tenham vergonha
da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis
ou profundas da unidade ou espelhos do nosso esforço
em penetrar o mundo,
com o semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia da nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores
e sejamos iguais a nós mesmos na irmandade delicada,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos até o nosso limite extremo,
perder-nos-emos na hora do dom com o sorriso
anónimo e seguro de uma semente na noite da terra.

§

HAY EN EL CORAZÓN DE LA NOCHE

Hay en el corazón de la noche
un roce,

anterior al ángel que deshace
el éxtasis de las hojas,
anterior a los gallos,
al desmayo primero, tenue,
tenuísimo

del cielo,
a esas alas sobresaltadas
¿qué sueño, pesadilla de pájaro?

Hay en el corazón de la noche
un roce.

Cómo es de sensible la noche!

HÁ NO CORAÇÃO DA NOITE

Há no coração da noite
um roçagar,
anterior ao anjo que desfaz
o êxtase das folhas,
anterior aos galos,
ao desmaio primeiro, ténue,
tenuíssimo
do céu,
a essas asas sobressaltadas
que sonho, pesadelo de pássaro?

Há no coração da noite
um roçagar.
Como é sensível a noite!

§

CÓMO ES DE SENSIBLE

¡Cómo es de sensible la emoción del crepúsculo!
El silencio es tan hondo que hace daño casi,
a pesar de que arde, todo floral, arriba,

en la emocionada palidez del cielo,
con eucaliptus negros, de improviso, subidos.

¡Y cómo se prolonga la emoción! ¿Cuándo
una dulzura suave, flotante, alargó tenues
sombras entre las plantas? ¿Cuándo salió la luna?

Soledad de los campos con luna. Soledad.
Campo y luna, dos notas sólo que sostienen
esta música eterna. Campo y luna.
¿Para qué más? Tengamos el oído sutil.

COMO É SENSÍVEL

Como é sensível a emoção do crepúsculo!
O silêncio é tão profundo que quase magoa,
pese embora arda, todo floral, acima,
na emocionada palidez do céu,
com eucaliptos negros, de improviso, elevados.

E como se prolonga a emoção! Quando
uma doçura suave, flutuante, distendeu ténues
sombras entre as plantas? Quando apareceu a lua?

Solidão dos campos com lua. Solidão.
Campo e lua, duas notas só que sustêm
esta música eterna. Campo e lua.
Para quê mais? Tenhamos o ouvido subtil.

§

ES OTOÑO MUCHACHOS…

Es Otoño, muchachos. Salid a caminar.
Otoño en su momento inicial, más hermoso.
No os engañará este azul casi alegre?
¿Alegre?
¿La profundidad tiene alguna vez alegría?

¿No os engañará este verde joyante por momentos?
¿O esta invitación alada de la tarde?
No, una honda presencia deshace las azules sombras
y apaga la alegría del campo
—un luminoso, puro sueño que tiembla.

¿Cómo, y la tarde no se corona de flores
como de un fuego quieto de ángeles guardianes?

Ya está el viento, muchachos, el viento del otoño, del otoño,
violento o suave casi como un suspiro,
una enfermiza alma
de qué oscuros reinos?
que revela en las cosas
un herido pensamiento
de sorprendidas criaturas.

El viento,
niño fúnebre que juega con las últimas ilusiones del cielo
hasta darle una aguda limpieza de extraña agua final.

El viento, muchachos, el viento infinito.

É OUTONO, RAPAZES…

É Outono, rapazes. Ide caminhar.
Outono no seu momento inicial, mais formoso.
Não vos enganará este azul quase alegre?
Alegre?
A profundidade tem alguma vez alegria?

Não vos enganará por momentos este verde jubilante?

Ou este convite alado da tarde?
Não, uma profunda presença desfaz as sombras azuis
e apaga a alegria do campo
– um luminoso, puro sonho que treme -.

Como, e a tarde não se coroa de flores
como de um fogo quieto de anjos guardiões?

Está já o vento, rapazes, o vento do outono, do outono,
violento ou suave quase como um suspiro,
uma enferma alma
de que escuros reinos?
que revela nas coisas
um ferido pensamento
de surpreendidas criaturas.

O vento,
menino fúnebre que joga com as últimas ilusões do céu
até dar-lhe uma aguda limpeza de rara água final.

O vento, rapazes, o vento infinito.

NADA MÁS QUE ESTA LUZ

El éxtasis, el éxtasis,
entre el cielo y la tierra, suspendido,
mejor: que se abre y se dilata como un alma
profunda, pero de una
claridad delicada de serenos
pensamientos sensibles.
Nada más que esta luz, otoño,

otoño, nada más que esta luz
que penetra sutil
las cosas
pero queda
al rededor de ellas, como temblando,
sensitiva
y casi pudorosa.
Nada más que esta luz, otoño.
¿ Es de todos esta luz ?
La calle humilde está
traspasada, y como elevada,
ligera,
en esta dicha etérea.
Pero a todos llegas, otoño,
a todos llegas en esta tarde
en que hay manos translúcidas y eternas
que hacen signos tiernos en el aire

NADA MAIS QUE ESTA LUZ

O êxtase, o êxtase,
entre o céu e a terra, suspenso,
melhor: que se abre e se dilata como uma alma
profunda, mas de uma
claridade delicada de serenos
pensamentos sensíveis.
Nada mais que esta luz, outono,
outono, nada mais que esta luz
que penetra subtil
as coisas
mas permanece
ao redor delas, tremendo,
sensitiva
e quase pudorosa.
Nada mais que esta luz, outono.
É de todos esta luz?
A rua humilde está
trespassada, e como que elevada, ligeira,
na ventura etérea.
Mas a todos chegas, outono,
a todos chegas nesta tarde
en que há mãos translúcidas e eternas
que fazem sinais ternos no ar.

Padrão
poesia, tradução

I am vertical, de Sylvia Plath, em multitradução de Rafael Zacca

sylviaplathsp2

Apresentação de “9 traduções de I am vertical, de Sylvia Plath”

A tradução coloca, no limite que ela é, em questão a questão do outro. O autor do texto traduzido é também outro autor, o tradutor, mesmo que, antes de o texto ser traduzido, o autor dele já fosse outro de si mesmo, ao menos durante o texto. Se não há, para os textos, o que não seja tradução, o que Rafael Zacca realiza na série de traduções para um mesmo poema de Sylvia Plath, “I am vertical”, é escrever versos como quem desenha linhas de fronteira num território conflagrado, fazendo da tradução, enquanto ela houver, o luto do original, enquanto ele houver. Uma poética da tradução, como essa, risca o texto, o território de autoria, enquanto ele resistir, até o fim, é um fim para o poema.

Assim é que na tradução as autorias e as línguas distintas não são experimentadas e formalizadas nos poemas como diferenças uma em relação à outra (o inglês e o português, Sylvia Plath e Rafael Zacca), mas cada uma como diferenças em si. Por isso a tradução para o português se coloca ao lado da tradução para o português-inglês, ou seja, para uma língua menor, de vocabulário e estrutura em português que, no entanto, mimetizam irônica e ludicamente o inglês: “Then the sky and I are in open conversation” transforma-se, em português, em “Assim, o céu e eu conversamos sem segredos” que se transforma, em português-inglês, em “Então o céu e eu estamos em aberta conversação”. E por isso se traduz o poema de Plath para, entre outras línguas menores ou mínimas, línguas como: a lei antiterrorismo brasileira, a carta de suicídio de Torquato Neto, o português-vogais, ou mesmo novamente o inglês, devolvendo à língua de origem um poema retraduzido.

E não é à toa que o poema traduzido em série seja um para o qual estar na posição horizontal – a do verso ou a do morto – se torna um modo de conversar sem segredos ou de estar em aberta conversação com o céu. Para traduzir o céu, suas constelações e galáxias, seria preciso deitar-se, e se, ao se deitar, não se compreende mais a diferença, no poema de Sylvia Plath, entre a horizontalidade do verso ou a horizontalidade do corpo morto que cai, então traduzir (o céu ou o poema) são um modo de demorar na língua. O texto se torna a dúvida entre morrer em versos ou matar o poema. Para o tradutor, morrer nos versos traduzidos ou matar o poema original. Como demorar nessa dúvida?

Quem, entre outros, pensou a questão foi Haroldo de Campos. No ensaio que como que inaugura a sua teoria, “Da tradução como criação e como crítica” (1962), Haroldo propõe, à guisa de conclusão e utopia, e naqueles tempos brasileiros de mobilização social pela cultura, o projeto de um Laboratório de Textos no qual alunos e professores de línguas e literaturas se reunissem para, através da confrontação tradutória coletiva com os textos literários, assim realizassem um projeto de crítica literária e de ensino da literatura que fizesse justiça ao texto. A lida com a materialidade do texto, e com essa materialidade experimentada como diferença (de uma língua a outra) e não como um monumento autorreferente, sugere à proposta de Haroldo as suas dimensões ética (a do texto como “concreção”) e política (a dos materialismos do texto, do laboratório, do ensino). Nem preciso lembrar que Rafael Zacca promove, como poeta, oficinas de poesia, a partir do seu trabalho no coletivo Oficina Experimental de Poesia, e estuda a obra de Walter Benjamin, para quem “a tradução é uma forma”. Ou seja.

Para mim, há alguma implicação entre essas traduções que agora se publicam –  a poética da tradução desenhada nelas –, o jogo entre o verso e a morte no poema de Sylvia Plath, e a lida coletiva nas oficinas de poesia. Traduzir, morrer, reunir sejam, talvez, verbos para que o poema seja, hoje, conjugado sob a força da invenção de ritos sacrificiais da cultura, sob a força daquilo que, tamanha a urgência por convivermos, só podíamos ter feito até ontem, antes de morrer.

Luiz Guilherme Barbosa

* * *

9 TRADUÇÕES DE I AM VERTICAL, DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

Uma coisa que me pega de jeito no Hölderlin tradutor,
no Francis Bacon pintor, e, da mesma forma,
na Joana D’Arc soldada de Deus
é o alto nível de consciência-de-si
presente em suas respectivas manipulações
da catástrofe.
Anne Carson, Nay Rather

A tradução não se vê como a obra literária, mergulhada, por assim dizer, no interior da mata da linguagem, mas vê-se fora dela, diante dela e, sem penetrá-la, chama o original para que adentre aquele único lugar, no qual, a cada vez, o eco é capaz de reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra da língua estrangeira. (…) Pois é o grande tema da integração das várias línguas.
Walter Benjamin, A tarefa do tradutor (trad. Susana Kampff Lages)

* * *

I am vertical traduzido para o inglês por Sylvia Plath

1.
I am vertical

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one’s longevity and the other’s daring.

Tonight, in the infinitesimal light of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them —
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

§

I am vertical traduzido para o português

2.
Eu estou de pé

Mas preferia estar deitada.
Não sou uma árvore de raízes fincadas
Sugando minerais e amor maternal
Para que a cada março eu resplandeça em folhas,
Nem sou a flor mais bela dos canteiros
Delicados, atraindo meu quinhão de “Ais”
Antes do iminente despetalar.
Comparadas a mim, uma árvore é imortal
E uma flor, conquanto pequena, é mais espantosa –
Invejo a longevidade de uma e a ousadia da outra.

Hoje, à luz infinitesimal das estrelas,
As árvores e as flores espalharam seus odores na noite fresca.
Caminho entre elas, mas não me notam.
Às vezes imagino que, dormindo,
Sou sua semelhante –
Penso obscura.
É mais natural se estou deitada;
Assim, o céu e eu conversamos sem segredos.
Serei útil quando estiver enfim deitada:
Aí as árvores serão mãos para mim, e, as flores, demora.

§

I am vertical traduzido para o português-inglês

3.
Eu estossou vertical

Mas eu preferia muito estassar horizontal.
Eu não sou uma árvore com minhas raízes em o solo
Chupando cima minerais e maternal amor
Então que cada Março eu talvez brilhe dentro folha,
Nem sou eu a belezura de um jardim cama
Atraindo minha divisa de “Ais” e espetacularmente pintado,
Dessabido eu devo logo despetalar.
Comparadas com mim, uma árvore é imortal
E a flor-cabeça não maior, mas mais surpreendente,
E eu quero o da uma longevidade e o da outra ousadia.

Nhoitje, em a infinitesimal luz de as estrelas,
As árvores e as flores tem estado espalhando seus frescos odores
Eu ando entre elas, mas nenhuma de elas estão notando.
Algezes eu penso que quando eu estou dormindo
Eu devo mais perfeitamente assemelhá-las
Pensamentos vão turvos.
Isso é mais natural pra mim, deitada baixo.
Então o céu e eu estamos em aberta conversação,
E eu devo ser útil quando eu fimenticar finalmente:
Então as árvores talvez toquem-me depra vez, e as flores terão tempo pra mim.

§

estoudepevertical-page-001 (1)estoudepevertical-page-002

§

Eu estou de pé traduzido para a
Lei Nº 13.620, de 16 de março de 2016, a lei antiterrorismo brasileira

5.
Eu é um ou mais prejuízo da tipificação penal

Consiste em hipótese em eu investigar ameaçar usar gases tóxicos.
Eu não é agente de reclusão cinco a oito anos
A receber ou fornecer treinamento contra a vida ou a integridade física de pessoa,
Para que cada eventual crime seja previsto fora ou dentro de instalações militares,
Não é também o mais único dos parágrafos
Com a finalidade de provocar terror social
Antes das instituições bancárias.
Distinto de eu, um agente de reclusão de cinco a oito anos é total
E o parágrafo, ainda que vetado, promove mais destruição em massa.
Hipótese de paz armada em um, de razões de discriminação no outro.

16 de março de 2016, contra qualquer constituição da liberdade
Os agentes de reclusão cinco a oito anos e os parágrafos são conceito de organização
[terrorista.
Eu ameaça municiar indivíduos, não investigam.
De modo temporário eu decreta explosivos nucleares
Eu é Estado.
Eu é Subchefia para Assuntos Jurídicos.
É mais natureza se eu ameaça usar gases tóxicos;
Regulamenta sem investigações
Será mecanismo quando ameaçar usar gases tóxicos.
Então os agentes de reclusão de cinco a oito anos serão levados ao conhecimento do
[Ministério Público, e os parágrafos, à Polícia Federal.

§

Eu estou de pé traduzido para a carta de suicídio de Torquato Neto

6.
De modo Q FICO

Ou não consigo acompanhar a marcha do progresso
Não sou uma múmia de saudades
Louca disparada com véu e grinalda
Para acordar e me contorcer em dores
Não peço amor de palhaços mesmo
Vivos, com o cacho de banana
Os cariocas do tempo de começar a ver
A múmia é SANTA
E os palhaços o favor de acordar
Chega de contorcer, chega de banana

FICO, ao sacudirem demais o Thiago,
As múmias e os palhaços feito a minha mulher
Guia de cegos
Vou ficando sossegado
O amor pode acordar
Pra mim chega!
De modo Q FICO
Não acredito em guia de palhaços
Empacotado enquanto dure
Ana e Thiago começaram a ver as dores do progresso.

§

Eu estou de pé traduzido para os itens “Cuidados gerais” e “Instruções de Uso”
do Guia do Usuário do fogão Esmaltec elétrico, 4 bocas, branco

7.
A criança dentro do fogão quebra por choque térmico

Mas deveria queimar a casa.
Não é metal pesado de cabos tensionados
Alimentando-se de mundo e solvente
Para a cada queimadura chamuscar a tampa de vidro
E também não é gás incolor
Fósforo branco, detalhando a espuma sobre a mangueira
A poucos passos da explosão.
Atrás da criança, o metal é todo acidente
E o gás, ainda que vazado, é mais manipulado –
A criança precisa ser uma mangueira metálica.

Cuidados gerais, instruções de uso,
O metal e o gás se instalaram à mesa.
A criança segue sem advertências.
Se a criança enfia a boca no alumínio, autorizada,
Encontrará a abertura –
A criança é um pano úmido.
É mais seguro se ela tem perigo
E os interruptores e os fósforos se comprometem.
A criança pressiona o botão do acendimento automático:
O metal prepara um choque, e o gás, a chama.

§

Eu estou de pé traduzido para verbete “Joanad’Arc”
de Homens e Mulheres da Idade Média
organizado por Jacques Le Goff, (trad. Nícia Adan Bonatti)

8.
Iletrada linguagem é tristeza

Mas ilumina estar sobressalto.
Não é um vilarejo inocente bom cristão
Mergulhado em Deus e armas sobrenaturais
Para que a cada guerra iletrada linguagem vença em Chinon
Não é o mais aflorado profeta
Desencorajado, aconselhado por maus espíritos
Antes da cura mitômana.
Contraste com iletrada linguagem, o vilarejo são vozes
E um profeta, mesmo desesperado, é mais cético,
Iletrada linguagem quer conselhos de um e desespero de outro.

1431, no cerco das nações,
Vilarejo e profetas espalharam seus arcanjos por todo o tribunal.
Não notam que julgam iletrada linguagem que fala.
Distúrbio papel mental natura a inação:
um naufrágio do desigual –
marionete do demônio.
É mais natural se iletrada linguagem está sobressalto;
Assim a iletrada e a miraculosa linguagem encontram mensageiro.
Iletrada linguagem será urgência se estiver sobressalto:
O vilarejo será arcanjo Miguel e o profeta catedral de Reims.

§

I am vertical traduzido para português-vogais

9.
Ae__eiau

â…aiuou…a.e…i…oiõau
ai.eóaee…ui.ai.uu.ieoiu
âiu…aieaue…óeiâ
oéiea.ai.eiiea…iuiea
pieai.eieâi.óaaeé
aáiaiée…óaeéauai.eie
ã…oui.ai.â.uãéau
oeeuií…aíiioau
ea.aueéa.oau.â.o…ai
eaiuaeuõ…oeií.â.e.óe.ai

uai.i.e.iiieiau.ai.o.e.a
eíieeaue.éeii.eui.ei.uuoo
aiuauaoe…âoeoéaôii
oeaie.aií.éueaié.íii
ai.â.ô.eéi.iéeé
óu.ôí
iió.auau.u.i.aiiau
éeaiêai.a.i.oe.oeaio
eaiauí.iueuuueai.ai.au.ai.aí
éeiieiou.i.ó.oe.éeaue.ée.aie.ó.i

Padrão
poesia, tradução

Uma canção de Cage, por Reuben da Rocha

cage

Hoje completamos 24 anos sem John Cage (1912-92). Sem mais apresentações do mestre, segue abaixo uma tradução inédita de Reuben da Rocha, pra vivermos um pouco do Cage poeta.

guilherme gontijo flores

* * *

CANÇÃO

Vespas constroem
abobrinhas
olho a águia pescadora
ao ouvir isso.

Das árvores e arbustos sobrou pouco
pouca coisa nasce nos aterros arenosos
evanesce no ar
igual truques de um aprazível daimon para me entreter
e pássaros se ouvem vir de dentro da neblina.

Rebenta igual um rio
fazedor de mundos
será que é muito largo, muito fundo? Para minha surpresa alguém responde três varas.

Começa a mudar
na mata, damos de cara com a perdiz
estou coberto de piolhos verdes alados.

Quando olho mais longe encontro
as ruas mais baixas das cidades.

Em poucas semanas vão estar
como deveriam ser.

Governo
cobra e sapo
vento de agosto
subida das águias
cachorro do mato.

Abra o ninho colorido da tartaruga
Thoreau.

Agora debaixo da neve
macieiras
lascas de madeira morta
trançadas aos montes
bastantes para encher a fronha do chapéu.

Na floresta
na colina
botões arbustos
cotovias revoadas da encosta
cidade persa
a primavera cresce.

Todas as partes da natureza pertencem a uma cabeça, as espirais
a terra
a água.

Olha e ouve as novas andorinhas em volta dos
grandes botões do bordo tamanho primavera
degelo d’água, inverno do ar
alçado ali por sua mãe
noite da mata virgem.

Ouço o bramido me lembrando março, março.

Frente a frente com ele, eles estão prestes a enforcá-lo
ele deixa eles no bolso.

Ouço gralharem corvos roucos rumo à pinha branca
grilos rangem pela praia
o mesmo frio que faz a chuva; não cortante.

Suas partes centrais entortaram para cima.

Olha, trinta ou quarenta pintassilgos em bando, ar frio
um vasto número de peixes debandou.

Já que floresce uma segunda vez
era perfeito pra deitar em cima
concertos matinais do melro, acônito de inverno
montes de borboletas
asas em preto e branco
novo país onde as pedras não pegaram fogo.

Que eu seja tão vivaz quanto o salgueiro.
E a voz humana não vai expressar tanto teor quanto a nota do pássaro?

Junto a isso, pegadas do coelho
que também esbarrou no pequeno carvalho
gritos da locomotiva, carros retumbantes, sussurro
submerso o dia inteiro.

O musgo abocanha a fruta verde.

A cobra na verga, veloz, embora à vontade na árvore
calou-se a grama do olho azul. Quando ela vai se abrir?

Flâmulas
surpresas, ramos de alho-poró na pedra.

Este é meu areal.

Ponte para a liberdade e nenúfares
nenúfares

nas nossas matas
divinas em parte
e aceleram o coração dela
calmo e selvagem é um só. Que som mais gostoso!

[Tradução de Reuben da Rocha. Poema originalmente publicado no livro M (1972).]

SONG

Wasps are building
summer squashes
saw a fish hawk
when I hear this.

Both bushes and trees are thinly leaved
few ripe ones on sandy banks
rose right up high into the air
like trick of some pleasant daemon to entertain me
and birds are heard singing from fog.

Burst like a stream
making a world
how large do you think it is, and how far? To my surprise, one answered three rods.

Begin to change
in the woods, we came upon a partridge
I find myself covered with green and winged lice.

When I look further, I find
the lower streets of the towns.

In a few weeks they will be
as it should be.

Government
snake and toad
an August wind
soaring hawks
dog of the woods.

Open the painted tortoise nest
Thoreau.

Now under the snows of winter
apple tree
chips of dead wood
then torn up and matted together
‘nough to fill a bed out of a hat.

In the forest
on the meadow
button bushes
flock of shore larks
Persian city
spring advances.

All parts of nature belong to one head, the curls
the earth
the water.

See and hear young swallows about
maple buds large as in spring
ice water, winter in the air
carried there by its mother
wildwoods night.

I hear it roaring, reminding me of March, March.

Stood face to face to him and are about to hang him
puts them in his pockets.

I hear the crows cawing hoarsely flying toward the white pine
cricket creaks along the shore
such coolness as rain makes; not sharp.

Their central parts have curved upward.

See thirty or forty goldfinches in a flock, cold air
great numbers of fishes fled.

Since it blossoms a second time
it was fit to rest on
morning concerts of sparrows, hyemalis and grackles
many butterflies
black with white on wings
new country where the rocks have not been burned.

May I be as vivacious as willow.

Shall not voice of man express as much content as the note of a bird?

In the midst of them, I see track of rabbit
it also struck a small oak
screeching of the locomotive, rumbling cars, a whisper
far down all day.

Mosses bear now a green fruit.

This snake on twigs, quick as thought and at home in the trees
the blue-eyed grass is shut up. When does it open?

Flitting about
surprising, this cluster of leek buds on rock.

These are my sands.

Hubbard’s bridge and waterlilies
waterlilies.

In our forests
part divine
and makes her heart palpitate
wild and tame are one. What a delicious sound!

Padrão
poesia

6 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985-)

bartleby

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro; vive atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopioRamerrão, Alguns Dias Violentos Os Ilhados.

Março, 2016

Tampouco ele pode pôr-se de pé
Tampouco consegue despegar da infirme terra a testa da grave superfície da pilastra
Tampouco ele encontra a brochura
Tampouco ele capaz de dar nó
Tampouco lhe ocorre
Tampouco consegue carrear os embrulhos avenida abaixo
Tampouco ele com os caixotes de papelão
Tampouco ele na tarde tamisada
Tampouco cães, carroceiros
Tampouco nesta carnadura
Ele contorna
Tampouco consegue exculpar-se
Tampouco bordar, bordear
Tampouco falta

§

Pequena Galeria

Os rapazes daqui
o muito que emudecem
de seus “senhores”

estão pelas esquinas chupando
smoothies de carvão
nos olhos um fosco sem dor

(cinza venoso)

pernas espapaçadas
sobre os frades da calçada
dedos de papel-carbono e

o asfalto a trepar-lhes pelos jeans
sapatos sujos compondo
nas caras uma fixidez diabólica

§

Dois Postais Catastróficos

I.

Cores trompeteando
montanhas
tomadas em gesto
de atirar qualquer coisa de volta ao mar
(doze picos, doze apóstolos)

indefensibilidade de um céu
rosa ritz

ante as rochas as ondas
mantêm as espinhas eretas
alunos bem-comportados

II.

Este o seu rosto comprido quando o outono entrava
colhia-se um cheiro a peixe
este o seu rosto a oscilar com os números oficiais
às toneladas toneladas?
levados em caminhões de noite
aos outeiros da periferia

esta a sua carranca estampando-se asfáltica
água, montanhas treliçadas
aquilo que não ejaculava transparente?

§

“World Music”

Sou tão interessante quanto qualquer outro sujeito do meu tempo
Um pouco mais, talvez, porque raramente prestava atenção
Nos pequenos cinemas do centro da cidade
Aquele que empalideceu por anos
As costas supliciadas, clarão cambaleante, concluía
O sol lá fora
Tira um avermelhado de folhas verdes, atina-se
Com alguma coisa que as luzes logo vêm
pôr sob luz diversa,
enfim, uma lata de particularidades que ignoro
(No centro de particularidades que ignoro)
Porém, se a certos fenômenos tornei-me praticamente insuscetível
Outros tantos parecem interessar-me cada vez mais
No rebordo, braços cruzados, é terrivelmente pitoresco
Dar cobro de si num parque gramado
Fazendo planos, catando uma estação de world music

§

Passeio um Pouco Grave

Caminho caminho só
a contextura deste museu
acontece-me vez por outra
pisar numa coruja
a maravilha
ante todo o insepulto caminho
caminho só
a qualidade de minha própria atenção
poucas palavras a luz
repastada no mundo
caminho caminho só
talvez meus braços percam
um dia algo
desta terrível formalidade

§

 

Possível Siroco

Começa a continuar
todas as tardes, estendido o agasalho sobre um barranco
o parque a sentar-se os rangidos
pesavam-lhe
quem sabe?
cortinadas de neve este ano ainda
quem sabe?
paciência
todas as tardes
o agasalho, o parque todo fosco
começa a projeção
começa poucos espectadores continua
recolhendo palavras do emprego todo fosco
torrista escreve muita vez no verso de uma circular
todas as noites a mesma coletânea intitulada
The Blitz Years
numa noite de vento quente recosto-me à janela
penso em você sobretudo na solidez do clima

Padrão
poesia, tradução

Enrique Molina (1910-97), por Sandra Santos

enrique molina

Enrique Molina foi um poeta e pintor argentino, nascido em Buenos Aires em 1910. Tripulou barcos mercantes nas Caraíbas e na Europa e viveu em vários países da América Latina. A sua poesia e pintura imbuíram-se dos ideais do movimento surrealista, sendo que, junto com Aldo Pellegrini, em 1952, fundou a revista “A partir de cero”. Entre os prémios mais importantes que ganhou, destacam-se o Gran Premio Fondo Nacional de las Artes (1992) e o Premio Konex de Platino (1994). Alguns dos seus títulos publicados: “Las cosas y el delirio” (1941); “Pasiones terrestres” (1946); “Fuego libre” (1962); “Monzón Napalm” (1968); “Los últimos soles” (1980); “El ala de la gaviota” (1985). Faleceu em Buenos Aires aos 87 anos.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

ALTA MAREA

Cuando un hombre y una mujer que se han amado se separan
se yergue como una cobra de oro el canto ardiente del orgullo
la errónea maravilla de sus noches de amor

las constelaciones pasionales
los arrebatos de su indómito viaje sus risas a través de las piedras sus plegarias y cóleras
sus dramas de secretas injurias enterradas

sus maquinaciones perversas las cacerías y disputas
el oscuro relámpago humano que aprisionó un instante el furor de sus cuerpos con el lazo
fulmíneo de las antípodas
los lechos a la deriva en el oleaje de gasa de los sueños
la mirada de pulpo de la memoria
los estremecimientos de una vieja leyenda cubierta de pronto con la palidez de la tristeza y
todos los gestos del abandono

dos o tres libros y una camisa en una maleta
llueve y el tren desliza un espejo frenético por los rieles de la tormenta
el hotel da al mar
tanto sitio ilusorio tanto lugar de no llegar nunca
tanto trajín de gentes circulando con objetos inútiles o
enfundadas en ropas polvorientas
pasan cementerios de pájaros
cabezas actitudes montañas alcoholes y contrabandos informes
cada noche cuando te desvestías
la sombra de tu cuerpo desnudo crecía sobre los muros hasta el techo
los enormes roperos crujían en las habitaciones inundadas
puertas desconocidas rostros vírgenes
los desastres imprecisos los deslumbramientos de la aventura
siempre a punto de partir
siempre esperando el desenlace
la cabeza sobre el tajo
el corazón hechizado por la amenaza tantálica del mundo

Y ese reguero de sangre
un continente sumergido en cuya boca aún hierve la espuma de los días indefensos bajo el soplo del sol
el nudo de los cuerpos constelados por un fulgor de lentejuelas insaciables
esos labios besados en otro país en otra raza en otro planeta en otro cielo en otro infierno
regresaba en un barco

una ciudad se aproximaba a la borda con su peso de sal como un enorme galápago
todavía las alucinaciones del puente y el sufrimiento del trabajo marítimo con el desplomado
trono de las olas y el árbol de la hélice que pasaba justamente bajo mi cucheta

éste es el mundo desmedido el mundo sin reemplazo el mundo desesperado como una fiesta
en su huracán de estrellas

pero no hay piedad para mí
ni el sol ni el mar ni la loca pocilga de los puertos
ni la sabiduría de la noche a la que oigo cantar por la boca de las aguas y de los campos con las
violencias de este planeta que nos pertenece y se nos escapa
entonces tú estabas al final
esperando en el muelle mientras el viento me devolvía a tus brazos como un pájaro
en la proa lanzaron el cordel con la bola de plomo en la punta y el cabo de Manila fue recogido
todo termina
los viajes y el amor
nada termina
ni viajes ni amor ni olvido ni avidez
todo despierta nuevamente con la tensión mortal de la bestia que acecha en el sol de su instinto
todo vuelve a su crimen como un alma encadenada a su dicha y a sus muertos
todo fulgura como un guijarro de Dios sobre la playa
unos labios lavados por el diluvio y queda atrás
el halo de la lámpara el dormitorio arrasado por la vehemencia del verano y el remolino de las
hojas sobre las sábanas vacías

y una vez más una zarpa de fuego se apoya en el corazón de su presa
en este Nuevo Mundo confuso abierto en todas direcciones
donde la furia y la pasión se mezclan al polen del Paraíso
y otra vez la tierra despliega sus alas y arde de sed intacta y sin raíces
cuando un hombre y una mujer que se han amado se separan.

*

MARÉ ALTA

Quando um homem e uma mulher que se amaram se separam
ergue-se como que uma cobra de ouro o canto ardente da vanglória
a errónea maravilha das suas noites de amor
as constelações passionais
os arrebatos da sua indómita viagem os seus risos através das pedras as suas preces e cóleras
os seus dramas de secretas injúrias sepultadas
as suas maquinações perversas as buscas e disputas
o escuro relâmpago humano que aprisionou num instante o furor de seus corpos com o laço
fulmíneo dos antípodas
os leitos à deriva na ondulação de gaza dos sonhos
o olhar de polvo da memória
os estremecimentos de uma velha lenda coberta de repente com a palidez da tristeza e todos
os gestos do abandono
dois ou três livros e uma camisa numa mala
chove e o comboio arrasta um espelho frenético pelos carris da tormenta
o hotel dá para o mar
tanto sítio ilusório tanto lugar que nunca chega
tanto trânsito de gente circulando com objectos inúteis ou
envoltas em roupas empoeiradas
passam cemitérios de pássaros
cabeças atitudes montanhas bebidas e contrabandos
cada noite quando te despias
a sombra do teu corpo desnudo sobre os muros até ao tecto crescia
os enormes roupeiros chiavam nos alagados quartos
rostos virgens portas desconhecidas
os desastres imprecisos os deslumbramentos da aventura
sempre a ponto de partir
sempre à espera do desenlace
a cabeça sobre o talhe
o coração maravilhado pela ameaça tantálica do mundo.

E essa corrente de sangue
um continente submerso em cuja boca ferve ainda a espuma dos dias indefesos sob o sopro do sol
o nó dos corpos revestidos por um fulgor de lantejoulas insaciáveis
esses lábios beijados em outro país em outra raça em outro planeta em outro céu em outro inferno
regressava de barco
uma cidade se acercava à margem com o seu peso de sal como um enorme galápago
no entanto as alucinações da ponte e o sofrimento do trabalho marítimo com o desmoronado
trono das ondas e a árvore da hélice que passava precisamente sob o meu camarote
este é o mundo desmedido o mundo sem substituição o mundo desesperado como uma festa
no seu furacão de estrelas
mas não há piedade de mim
nem o sol nem o mar nem a louca pocilga dos portos
nem a sabedoria da noite em que ouço cantar pela boca das águas e dos campos com as
barbaridades deste planeta que nos pertence e nos escapa
então estavas tu enfim
à espera no molhe enquanto o vento me entregava em teus braços como um pássaro
na proa lançaram o cordel com a bola de pólvora na ponta e o cabo de Manila recolhido
tudo termina
as viagens e o amor
nada termina
nem viagens nem amor nem avidez nem olvido
desperta tudo novamente com a tensão mortal da besta que espia no sol o seu instinto
volta tudo ao seu crime como uma alma cativa aos seus mortos e à sua sina
fulgura tudo sobre a praia como um gode de Deus
uns lábios lavados pelo dilúvio e fica atrás
o clarão da lâmpada o aposento arrasado pela veemência do verão e o remoinho das folhas
sobre os lençóis vazios
e uma vez mais uma pata de fogo se apoia no coração da sua presa
neste Novo Mundo confuso aberto em todas as direcções
onde a fúria e a paixão se misturam no pólen do Paraíso
e novamente a terra expande as suas asas e arde de sede intacta e sem raízes
quando um homem e uma mulher que se amaram se separam.

(Enrique Molina, trad. Sandra Santos)

Padrão
crítica, poesia

Reuben da Rocha entrevista Carlos Augusto Lima

13833580_1095517900485318_1776261119_o

13728387_1095517883818653_1542382541_o

Reuben da Rocha: O que é a 1973 Edições?
Carlos Augusto LimaUma proposição a partir de uma frase-verso-conversa de Eduardo Jorge. Uma ficção, principalmente. 

13730724_1095517873818654_214221361_o

RR: Queria saber da concepção de Motociclista do globo da morte, em que consistiu esse caminho, da escrita ao objeto, a tipografia, o carimbo, o envelope? Já li você falar em extensões editoriais do poema…
CAL – Sim, o poema se estende na confecção-elaboração-pensamento do objeto. Tenho tido a sorte grande de contar com alguns parceiros que são, para mim, editores-poetas, poetas-editores (Tarso de Melo, Dalila Teles, Maninha Teles, Manoel Ricardo de Lima, Carlos Henrique Schroeder, Francisco dos Santos, Álvaro Beleza, Galciani Neves), que me convidaram para publicar algo e eu, por minha vez, os convidei a participar da feitura dos poemas na sua forma livro. Uma conversa que não necessariamente é regida por uma coerência de sentido entre objeto e texto, assim como não o são seus títulos, formas, dobras, costuras, impressos. Não se dá essa ligação no imediato da leitura, do toque, do manusear. Isso se estabelece de uma outra forma que passa pela troca, a invenção, pela invisibilidade. A “soma de todos os afetos” e conversas está lá, no momento em que algum leitor muito específico encontra o livro. A partir daí, não sei mais…

13730569_1095517890485319_419785326_o

RR: E a repetição? E a fragilidade dos meios? Você preza por gestos pequenos, próximos do silêncio, e que têm forte assertividade experimental na minha opinião. São formas de vida do deserto?
CAL – Meu ponto de partida é a precariedade. A primeira de todas, a falta de recursos para publicar livro. Editar livros é muito caro, ainda, no Brasil e, de certa forma (mas não sei até quando e onde vou manter essa ideia) resolvi não publicar meus próprios livros contando com editais ou dinheiro público, mesmo tendo colaborado com coletâneas, revistas e outras publicações que fazem uso desse tipo de recurso. Não vejo problema nenhum na utilização desses recursos, é uma escolha muito particular, que prefiro ver como um “experimento político” e, como todo experimento, é um dado suscetível de falhas e abandonos. Pode ser que eu mude de ideia com o passar do tempo. É sempre bom cultivar nossas contradições, nossos escorregões. No entanto, não gosto de confundir essa precariedade econômica da qual falei com autocomiseração, coitadismo, opção pelo “alternativo” (esse termo surrado), nem qualquer associação com algum tipo de “Arte povera”, etc. Apenas tento lidar com uma limitação e me pergunto como mover o que escrevo, produzo. Mover é: onde colocar o poema? Que outros lugares são possíveis para depositar o verso (porém, não contê-lo)? Esse é o desafio a que me proponho: inventar. E, a fragilidade e simplicidade dos materiais (aqui respondendo alguns pontos da sua pergunta anterior) não excluem uma sofisticação, uma beleza possível naquilo que é inventado. Sofisticação no mínimo, gestos silenciosos, mas essenciais. Não sei até que ponto isso é “experimental”. Não faço nada de novo. Há décadas há pessoas criando de forma muito mais potente do que eu, inclusive agora, aqui, do meu lado (Você, Reuben, é um exemplo magnífico disso). Experimental e radical foi Gutenberg e seus tipos móveis, não? Repito: eu apenas tento atravessar as limitações (do Capital, da linguagem, dos materiais, do corpo), as fronteiras que criamos no grande Deserto que é o mundo todo, cada cidade e morada. Às vezes eu consigo. Mas, como desmonta sempre muito bem Kafka em todas as suas narrativas: “Isso pode ser apenas uma impressão”. 

13730631_1095517803818661_339853501_o

RR: É verdade que existem diferentes tempos acontecendo agora?
CAL – Sim! E para cada situação aonde você se move, uma abstração-tempo diversa. Tento aprender com eles, cada tempo. Sou um aluno aplicado. Mas, de toda forma, mesmo na diversidade de tempos nas quais nos colocamos, caminhamos todos, sempre, para o fim das coisas que é a morte. A morte é o fim do meu tempo e o fim da própria morte, como me lembra Blanchot para quem o problema da morte não é o fim da vida, mas o fim da própria possibilidade de morrer. E ela vai levar o nosso Tempo, no fim.

13835449_1095517833818658_1828556326_o

 RR: O que você fez com a ideia de livro?
CAL – O que poucas pessoas notam nas minhas publicações-brincadeiras-objetos é que a forma do livro como nós conhecemos está lá o tempo todo. Estão lá, quase sempre, o título, a folha de rosto, as páginas com os poemas, a biografia do autor, a ficha técnica, o nome da editora. A diagramação dos poemas, mesmo lidando com os carimbos (no caso do “Motociclista”) é a mais convencional possível. O livro está lá e, ao mesmo tempo, não. É uma ideia expandida de livro e segue um pouco a máxima que guardo de um amigo e grande poeta que é Ricardo Aleixo: “Livro é tecnologia”. Essa frase ficou ecoando na minha cabeça no momento em que conversávamos sobre o tal “fim do livro”, evento catastrófico que a indústria e a imprensa cria de tempos em tempos. Livro é tecnologia das mais sofisticadas e o que se pode fazer ainda com ele é incontável. Nada de novo, nada de novidade. Uma ideia expandida, só isso. E guardo um caderninho com várias dessas ideias. Tenho vários outros planos. É preciso sempre ter um plano, não?

13838089_1095517847151990_165546450_o

 RR: Criar é produzir?
CAL – Sempre um nunca. Nem operação concreta, objetiva, nem manufatura, objeto, escrita, coisa tátil, vendável. Criar é para dentro. Crio dentro do silêncio e da inoperação. Crio dentro da preguiça, da bobagem, do trocadinho. Crio no invisível, na presença das minhas filhas, no olhar da namorada, na risada de Júlia. Crio nos meus interesses cada vez mais difusos, que vão de Blanchot, Davi Kopenawa, I-Ching, Hip Hop e sementes de árvores nativas. Produzo cada vez menos, e esse menos é cada vez mais desimportante. Atualmente, muita coisa tem dado errado. Mas é exatamente aí onde preciso ser grato.

Padrão
poesia, tradução

Poemas sobre Barcelona, de Roberto Bolaño, por Gustavo Petter

roberto_bolano_alfaguara_06

Roberto Bolaño fixou-se na Espanha no final da década de 70, depois de percorrer México, África e outros países europeus. O estopim das viagens foram os oito dias preso por militar na resistência ao governo Pinochet. Mas foi Barcelona que acolheu Bolaño até o ano de sua morte, em 2003. O início foi difícil: solidão, ilegalidade, falta de dinheiro. Trabalhou como lavador de pratos, camareiro, vigilante noturno, estivador. Até que a literatura proporcionou-lhe alguma renda.

Foi em território espanhol que Bolaño se desenvolveu como narrador, produzindo desenfreadamente contos e romances. Sem abandonar a poesia, aliás, se considerava acima de tudo poeta. O caminho em direção à prosa deu-se por preocupações financeiras, queria deixar esposa e filhos bem amparados, pois convivia com uma doença hepática, que o levaria à lista de transplantes.

A poesia de Roberto Bolaño é muito próxima à vida cotidiana, às ruas, pessoas, aos conflitos do sujeito imerso em seu dia-a-dia. Então, Barcelona tornou-se signo recorrente em seus versos. Neles convivemos com a solidão, o erotismo, o contato com o outro, fragmentos urbanos que o eu-lírico traduz com honestidade, visceralidade, sem carregadas metáforas. Da maneira como a poesia Infrarrealista pregava a relação com o mundo.

Dessa forma, a cidade de Barcelona, como símbolo poético, guiou a escolha dos cinco poemas aqui traduzidos. Através deles temos contato, não só com a poética, mas com a vida de Bolaño, tão próxima da nossa, em suas experiências e imagens.

Gustavo Petter

* * *

Agora passeias pelas docas
de Barcelona.
Fumas um cigarro negro e por
um momento crês que seria bom
que chovesse.
Dinheiro não te concedem os deuses
mas sim caprichos estranhos
Olha para cima:
está chovendo.

Ahora paseas solitario por los muelles
de Barcelona.
Fumas un cigarillo negro por
un momento crees que sería bueno
que lloviese.
Dinero no te conceden los dioses
mas sí caprichos extraños
Mira hacia arriba:
está lloviendo.

§

É noite e estou na zona alta
de Barcelona e já bebi
mais de três cafés com leite
na companhia de gente que não
conheço e sob uma lua que às vezes
me parece tão miserável e outras
tão sozinha e talvez não seja
nem uma coisa nem outra e eu
não haja bebido café mas conhaque e conhaque
e conhaque em um restaurante de vidro
na zona alta e a gente que
cri acompanhar na realidade
não existe ou são rostos entrevistos
na mesa vizinha a minha
onde estou sozinho e bêbado
gastando meu dinheiro em um dos limites
da universidade desconhecida.

Es de noche y estoy en la zona alta
de Barcelona y ya he bebido
más de tres cafés con leche
en compañía de gente que no
conozco y bajo una luna que a veces
me parece tan miserable y otras
tan sola y tal vez no sea
ni una cosa ni la otra y yo
no haya bebido café sino coñac y coñac
y coñac en un restaurante de vidrio
en la zona alta y la gente que
creí acompañar en realidad
no existe o son rostros entrevistos
en la mesa vecina a la mía
en donde estoy solo y borracho
gastando mi dinero en uno de los límites
de la universidad desconocida.

§

MOLLY

Uma garota com libras irlandesas
e uma mochila verde.
143 pesetas por uma libra irlandesa,
é bastante, né?
Nada mal.
E duas cervejas em um terraço
de Barcelona.
E gaivotas.
Nada mal.

MOLLY

Una muchacha con libras irlandesas
y una mochila verde.
143 pesetas por una libra irlandesa,
es bastante, no?
No está mal.
Y dos cervezas en una terraza
de Barcelona.
Y gaviotas.
No está mal.

§

A RUA TALLERS

A garota se despiu um quarto estranho
uma geladeira estranha umas cortinas
de muito mau gosto e música popular espanhola
(meu Deus, pensou) e levava meias
presas por ligas negras e eram 11h30
da noite bom para sorrir ele
não havia abandonado totalmente
a poesia um elo mundano quadros bonitos
porém mal emoldurados e postos por simples
acumulação a garota disse cuidado
me come devagar a cor rubra tirada a boina
vão embora ontem disse aplaudiu a pura
esgrima e tua cinta-liga dois cisnes

LA CALLE TALLERS
La muchacha se desnudó un cuarto extraño
un refrigerador extraño unas cortinas
de muy mal gusto y música popular española
(Diós mio, penso) y llevaba medias
sujetas con ligas negras y eran las 11.30
de la noche bueno para sonreír él
no había abandonado del todo
la poesía un ligue callejero cuadros bonitos
pero mal enmarcados y puestos por simple
acumulación la muchacha dijo cuidado
métemelo despacio el rojo se sacó la boina
se marchan ayer dijo aplaudió la pura
esgrima y tu liguero dos cisnes

§

Na realidade quem tem mais medo sou eu
ainda que não aparente O entardecer
de Barcelona Uma ou duas ou três garrafas
de cerveja preta A linda Edna tão distante
Os faróis varrem três vezes a cidade
Esta cidade imaginária Uma duas três vezes
disse Edna Indicando uma hora misteriosa
para dormir Sem mais retornos
De uma vez por todas

En realidad el que tiene más miedo soy yo
aunque no lo aparente En el atardecer
de Barcelona Una o dos o tres botellas
de cerveza negra La hermosa Edna tan lejos
Los faros barren tres veces la ciudad
Esta ciudad imaginaria Una dos tres veces
dijo Edna Indicando una hora misteriosa
para dormir Sin más reuniones
De una vez por todas

Padrão