poesia

Lubi Prates (1986-)

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Lubi Prates nasceu em 86, em São Paulo. Graduanda em Psicologia e especializando-se em Psicoterapia Reichiana. Tem publicado o livro coração na boca (Editora Multifoco, 2012) e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Edita a revista literária Parênteses e atua como revisora e tradutora. Vive em Curitiba, onde media o clube de leitura Leia Mulheres.

sergio maciel

* * *

até só restar o depois
(sobre o dia 29 de abril de 2015, em Curitiba)

pudesse,
recordaria se havia sol
antes daquela tarde
quando tudo se resumiu a
cinza:

fumaça, um
quase

aquele estado de consciência frágil
entre estar acordado &
desmaiar.
pudesse,
recordaria o cheiro
antes daquela tarde
quando tudo se confundiu a

gás
pólvora
sangue.
recordaria quais eram
minhas atividades inúteis
antes de acessar a internet&
navegar entre as notícias

para descobrir o alvo
dos helicópteros que
sobrevoavam a cidade

destruindo
destruindo
destruindo

qualquer segundo
de silêncio

inibindo os gritos
pudesse,
eu recordaria o antes:

quando não havia escombros.

§

esse esforço em manter distâncias
você pratica

você conta os centímetros até
ser o longe, outra cidade

você consegue desfazer

o silêncio das suas chaves
dos seus passos pelo corredor
da sua voz

no meu ouvido.

tudo que eu desgosto
você esforça

até confundir:
lembrança ou ilusão

comecei a duvidar de mim.

§

Poesia ainda é
persiste
um risco
à minha vida.

uma rima que sufoca
um eterno engasgo
que haja ar,
que haja água.

e
ainda assim,
seu contrário:
Poesia ainda é
persiste
boia, salva-vidas

§

rotações por minuto

é como encontrar
o caminho de casa

sem mapas bússolas gps

conhecer os seus discos
decorar as canções

as rotas vão ficando maiores

o esquema se torna
automático

tão rapidamente.
conhecer os seus discos
decorar as canções

é como encontrar
o caminho de casa

entre as rotações na velha
vitrola, as marcações mentais que fazemos

percebo que tua alma
                                     flui
                                     até mim

entre as pausas
aquele silêncio.

talvez pareça simples
estar à vontade

tocar um instrumento
sem olhar               fixamente                para os próprios dedos

mas calculei o preço

conhecer os seus discos
decorar as canções

é encontrar
o caminho de uma casa

construída sobre um terreno emprestado
mas tão meu:

rotações na velha
vitrola, marcações mentais que fazemos

when you come back home
i’mgonna dance with you

entre as pausas
morar neste silêncio.

§

é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

a tevê insiste em retrospectivas.
é 2015
os últimos dias do ano:
eu acabei de desembrulhar os presentes de
aniversário: eu tenho 29 anos.

frequentemente,
repito para
mim mesma:

não imaginei que chegaria tão longe.
não imaginei que chegaria tão longe.
não imaginei que chegaria tão longe.
é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

a tevê insiste em retrospectivas

mas sobre

a mulher                                                            poderia ser eu
assassinada por seu companheiro

a mulher                                                             poderia ser eu
que cometeu suicídio depois de humilhações constantes no seu emprego

a mulher                                                              poderia ser eu
que morreu numa clínica de aborto clandestina

a mulher                                                              poderia ser eu
estuprada no transporte público

a mulher                                    que sou eu

nenhuma lembrança.
é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

não imaginei que chegaria tão longe.

§

há uma arquitetura
no corpo

o encaixe de um tijolo
que facilita
e ou
dificulta.
há uma arquitetura
no corpo

que edifica mas
me desaba

uma
arquitetura
no
corpo

dizem: sábia

embora não explique
esse peso nos meus pés
que prevejo desabamentos

embora não explique
esse vazio no meu tórax:
impreenchível
qual ciência determinou que
minhas mãos não
demorariam ao segurar?

há uma arquitetura
no corpo

dizem: sábia

em mim:
inexata.

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Thiago Ponce de Moraes (1986-)

Foto perfil - Thiago Ponce

Thiago Ponce de Moraes (Rio de Janeiro, 1986) é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além dos livros de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012) e Agora sim… talvez seja eu e mais alguém: específica experiência da leitura de Paul Celan e Ricardo Reis (NEA, 2014). Atualmente, termina tese de doutorado em Literatura Comparada sobre a obra de Paul Celan. As peças aqui publicadas fazem parte de seções distintas de sua terceira compilação de poemas: dobres sobre a luz (no prelo, 2016).

* * *

TU –
sempre tu no princípio de tudo,
tu
__________ de amplitude,
tu
multitudinoso, infindo,
tempestuoso mar,
avulso, vivo,
tu:
teus olhos sombras
cheios de estrelas
cobrem as areias, ondas
sussurram conchas,
cascos, corais
incendeiam
o fundo.

§

SAUDADE
disso –
aço
movediço
ora
cor-
roído
em
areia
e
lágrima –
faço
o
que
possas
lembrar
de
cor

§

Léxico do exílio

a Mohsen Emadi

Para tua bicicleta escrevo o movimento,
Inscrevo-a no meu vocabulário.
Para cada volta entre as ruínas do mundo, 
Entre os silêncios do mundo – nossas falas, esses nadas.
Sinto tua dor se abrir como voragem. Toco as feridas, toco as chagas.
Leio da tua pele estas linhas sem linguagem, estes sulcos
Fingem rostos de um idioma inavegável – inacessível, miragem.
Adentro tua morada à deriva. E na deriva da saudade te encontro.

Abraço-te, amigo, abraçamo-nos –                                       دلتنگی

Deslocamo-nos, os destinos sem pedais. Os sentidos,
Sentimo-los: estamos inteiros em cada, ouço tua chamada.
Não há territórios nem fronteiras.
Alheios: selvagens, selvagens.
Traduzimo-nos ao indizível, ao sem sentido de partir.
Entre nossas vozes o espaço necessário,
Margens que se buscam e se afastam –
Dois pulmões, duas raias de palavras: apátridas.

 

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poesia

Mirian Paglia Costa (1947-)

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mirian paglia costa (londrina, 1947) é poeta, jornalista e editora da revista defesa latina. trabalhou em revistas como visão e veja. em 1969, venceu o prêmio de poesia festival universitário de londrina. de sua obra, pode-se destacar a plaquete sete eus, lançada em 1981, mesmo ano de colar de maravilhas, publicado por massao ohno, com ilustrações de darcy penteado, além do livro de poemas notícias do lugar comum, de 1997, publicado pela editora 34 e de participações em antologias como carne viva (1984) e antologia da nova poesia brasileira (1992), ambas organizadas por olga savary, e 101 poetas paranaenses v.1 (1844-1959) – antologia de escritas poéticas do século XIX ao XXI, organizada por ademir demarchi. todos os poemas deste post foram retirados desta última antologia.

sergio maciel

* * *

DE COLAR DE MARAVILHAS

| VI |

a procissão caminha
passos, meninas do colégio
à frente, minha prima
bela e lampeira
em sua caixa de boneca
já não chora, já não diz — “Mamãe”
muda
desfila o dia de gala
seu medo passou completamente

vão todos sombrios
em uniforme de luto
só ela está de cor-de-rosa
fantasiada
anjo até os pés

minha prima vai à tumba
ela que não entrava em canto escuro
nós a seguimos entre flor e choro
porque dói
o pé no sapato de verniz
a festa interminável

é grande o cemitério nos confins
tristes seus pássaros de bronze
empoleirados sobre túmulos
há retratos, letras, saudades
mas a procissão avança
rápida para olhos que soletram

a freira manda cantar
sai trôpego o hino
tudo é lento, engasga
ninguém quer enterrar a caixa
fechada com boneca

pela primeira vez tocamos terra
com mãozinhas enluvadas
lançando punhados no buraco
é roxo o pó que cai
empedra o som, batendo na madeira

sujo inteiramente
como as luvas
um homem feio vem
chapéu de feltro velho, abas ensebadas
e com pá completa seu serviço

a procissão desaba nas aleias

dia seguinte
embaixo da limeira
uma voz de prima não brinca de carniça
não canta introito de pega-pega
— balança caixão
—balança você
— dá um tapinha na bunda e vai esconder

§

|XI|

ô meu deus, quero de volta
minhas colegas de escola
blusa engomada picando nó sovaco
o castigo de gala
freiras chatas, revistando tudo
e reza antes da aula
dia de ser anjo prolongado

ô meu deus, quero de volta
O fogo daquele inferno
com diabo de tridente
e vermelho

§

| XX |

a noite é quente e ruinosa
onde plantou meu avô sua barba
e sua honra
das paredes da casa
restam madeiras
eretas e modificadas
dos filhos espalham-se os destinos

a vizinhança já foi chácara
campo de pelada e batalhas
zona do meretrício
caminho de tropa e lama
rua asfaltada e buracos

já houve horta, bichos esquisitos
mortes, desespero e festas no local
não há mais espírito pioneiro
tudo se disciplina e urbaniza

hoje meu avô está plantado
no chão que ele desbravou
e sua semente de pobre
macaroni e aventureiro
vingou nessa terra roxa
lado de cá do Tibagi
onde continuará havendo
trabalho, desespero e festa

§

BAR SELETO

vagas mensalistas aqui estacionam
pernas rodadas, caras batidas
buscam, quem sabe?
a vitamina que devolve a juventude

do vento do pastel aspiram sonhos?

sentam moles bundas nos banquinhos
olhos soltos sobre incertos objetos
e bebem
engolem o suco de tantas frutas
como se fosse lava
engolem tudo

diz-que vagabundas nunca morrem
pelo menos, só vivas aparecem no jornal
diz-que também não fazem falta
trocam de peruca
engordam, emagrecem
estão sempre no lugar sabido

mas
na hora vaga que precede o dia
bebem vitamina e comem
como crianças
o pastel que despenca seu recheio

— pendura a conta, ainda gritam
os saltos gastos já batendo na calçada
baiana, luzia, inalda, roseni, palmira
elas têm pressa

quando amanhece
todas as putas viram fadas

§

AD PERPETUAM REI MEMORIAM

maus
versos e bons planos
faço isso há anos
é chumbo o alfabeto que aprendi
escrevo

tenho todos os dentes
peso até excessivo
adoeço raramente
nasci no brasil
logo, não existo

cólicas líricas seguidas de vómito
meu diagnóstico

proletária do espírito
salário não paga minha fome

pedem pão, dou verbo
vergonha não rima nem resolve

às vezes desejo o terror
ilusão do justo restaurado
mas quem garante?

se o tapa é a lei da mão
instaura a selva

eu queria ser inocente

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poesia, tradução

Henri Michaux por Ricardo Corona

Retratos dos Meidosems: Henri Michaux

O poeta belga (naturalizado francês) Henri Michaux empenhou-se a criar realidades e a inventar seres em uma busca por um tanto do “outro lado”. Para isso, parte significativa da sua vida foi dedicada a experiências externas, anotações de um “bárbaro”, em viagens a Ásia, Europa, América, e experiências internas, com uso de haxixe e mescalina. Daí a sua radicalidade ao inventar países e povos como o País da Magia, Poddema, etc. Para Michaux, inventar seres e realidades era também um modo de elaborar distâncias e alargamentos, ética encontrada nos povos visionários, da qual o poeta aproximou sua escrita. 

Desta poética da viagem é que se potencializa o estranhamento provocado pelos Meidosems. Seres descolados da realidade, que se movem entre o sólido e o fluido, que estalam e se alargam, seres esquisitos que desestabilizam o referente e rebaixam a metáfora, que são muitos, uma população, num país Meidosem. Seres desconfigurados, elásticos, com rostos abrasados e esgotados. Seres que ferem e estão feridos. Um Meidosem jamais possui imagem definida e talvez nem pertença à imaginação.

Os vizinhos são os cronópios e famas de Cortázar, os marcianos de Ray Bradbury e o uapiti de Boris Vian. Mas vivem em realidades diferentes. Certamente os Meidosems têm algum grau de parentesco com o homem reduzido a fio de Ponge, as finas figuras de Giacometti e, claro, o Odradek de Kafka (que Michaux leu).

Já se disse que os Meidosems são “seres surreais”. Melhor não repetir isso. Apenas coincidem com a chegada do surrealismo. Michaux sempre relativizou essa associação, chegando a dizer que em seus textos (entenda-se toda sua obra) não havia sequer duas linhas de escrita automática. Por isso, quem sabe, tenha se negado a participar de importante antologia surrealista. Porém, Michaux manteve ligações com os surrealistas e isso Blanchot o disse muito bem. Mas é uma ligeireza cômoda assimilar essa poesia somente via surrealismo.

Há a relação destes fragmentos Meidosems com Marie-Louise, esposa do poeta. Chantal Maillard propôs recentemente essa leitura – sem reduzi-la a isso. O fato é que os fragmentos saíram publicados cinco anos após Marie-Louise sofrer um terrível acidente que marcou a vida do casal. Ao acender a lareira, a roupa de nylon de Marie-Louise pegou fogo e seu corpo sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus, levando-a ao óbito um mês depois, por causa de uma embolia pulmonar. Michaux: “É difícil caminhar assim”. Os Meidosems sofrem, estão feridos…

No entanto, das leituras dos Meidosems, talvez a mais interessante seja aquela que deixa os textos à sombra e no seu falar obscuro. “Um corpóreo-incorpóreo, um corpo-alma”, nas palavras de outro comentador, Raymond Bellour.

O livro Meidosems foi publicado inicialmente por uma pequena editora, Le Point Du Jour, em 1948. Em edição de luxo com 70 fragmentos e 13 litografias do autor, com tiragem de apenas 271 exemplares. Um ano depois, acrescido para 95 fragmentos, foi publicado sob o título definitivo de Retratos dos Meidosems, em edição comercial pela Editora Gallimard.

A seguir, 19 dos 95 fragmentos que compõem Retratos dos Meidosems. A  tradução tem por referência a edição La Vie dans les plis. Œuvres complètes, tomo II. Organização de Raymond Bellour em colaboração de Ysé Tran. Coleção Bibliothèque de la Pléiade (n°. 475), Paris: Gallimard, 2001.

Ricardo Corona

* * *

DesenhoHenriMichaux

C’est aujourd’hui l’après-midi du délassement des Meidosemmes. Elles montent dans les arbres. Pas les branches, mais par la sève.

Le peu de forme fixe qu’elles avaient, fatiguées à mort, elles vont la perdre dans les rameaux, dans les feuilles et les mousses et dans les pédoncules.

Ascension ivre, douce comme savon entrant dans la crasse. Vite dans l’herbette, lentement dans les vieux trembles. Suavement dans les fleurs. Sous l’infime mais forte aspiration des trompes de papillons, elles ne bougent plus.

Ensuite, elles descendent par les racines dans la terre amie, abondante en bien des choses, quand on sait la prendre.

Joie, joie qui envahit comme envahit la panique, joie comme sous une couverture.

Il faut ensuite remener à terre les petits des Meidosems qui, perdus, éperdus dans les arbres, ne peuvent s’en détacher.

Les menacer, ou encore les humilier. Ils s’en reviennent alors, on les détache sans peine et on les ramène, emplis de jus végétal et de ressentiment.

Hoje é a tarde de descanso das Meidosemeas. Elas sobem nas árvores. Não pelos galhos, mas pela seiva.

Mortas de cansaço, perderam nos galhos, nas folhas, os líquens e os pedúnculos da pouca forma estável que possuem.

Subida bêbada, suave como sabão penetrando na sujeira. Rapidamente na ervinha, lentamente nos velhos álamos. Suavemente nas flores. Sob a ínfima, porém, forte inalação das trombas de borboletas, elas deixam de se mover.

Em seguida elas descem pelas raízes para dentro da terra amiga, abundante em tantas coisas, quando se sabe colher. 

Alegria, alegria que invade como invade o pânico, alegria como ficar sob o cobertor.

Em seguida é preciso reconduzir ao chão as crias dos Meidosems que, perdidas, desvairadas nas árvores, não podem soltar-se delas.

Elas ameaçam as crias, ou, ainda, humilham-as. Ao passo que, caem em si, facilmente as soltam, trazendo-as de volta cheias de sumo vegetal e ressentimento.

§

Organes épars, courses rompues, intentions prises dans la pierre. Le solide vous a ainsi. En tessons de vous-même. Le solide tant désiré vous a enfin.

Disloqués, en morceaux, genoux de l’élan. Etrange palissade meidosemme.

Órgãos espalhados, corridas interrompidas, intenções retidas na pedra. Assim o sólido agarra você. Em cacos de você mesma. Ao final, o sólido tão desejado agarra você.

Desmembrados, em fragmentos, joelhos de elã. Estranha paliçada Meidosemea.   

Grand, grand Meidosem, mais pas si grand somme toute, à voir sa tête. Meidosem à la face calcinée.

Et qu’est-ce qui t’a brûlé ainsi, noiraud?

Est-ce hier? Non, c’est aujourd’hui. Chaque aujourd’hui.

Et elle en veut à tous.

Calcinée comme elle est, n’est-ce pas naturel?

Grande, grande Meidosem, mas não tão grande depois de tudo, a começar pela sua cabeça. Meidosem de rosto calcinado.

E o que te queimou assim, moreno?

Foi ontem? Não, hoje. Cada dia de hoje.

E está ressentido com todos.

Calcinada como ele está, não é natural?   

§

La grande lance diagonale qui, du haut en bas du Meidosem faiblissant, s’est implantée pour le retenir. Est-ce qu’elle va pour finir le retenir?

Du front au genou, grande béquille sans moelle. Traverse impérieuse, à la dureté militaire.

Tuteur féroce, tu veux tuer ou tu soutiens?

A principal lança diagonal, atravessada da cabeça aos pés do Meidosem debilitado, está ali para sustentá-lo. Será que o sustentará até o fim? 

Frente ao joelho, grande muleta sem medula. Atravessa imperioso, de rigidez militar.

Feroz tutor, você se sustenta ou quer se matar?

§

Pas seulement le Christ a été crucifié. Celui-ci aussi l’a été, Meidosem inscrit dans le polygone barbelé du Présent sans issue.

Bien au-delà d’une sentence de juge, bien au-delà d’un écroulement de villes.

La plénitude de sa plaie l’isole de l’accident.

Il pâtit comme on règne.

Cristo não foi o único crucificado. Esse Meidosem foi também, inscrito no polígono farpado do Presente sem saída.

Mais que a sentença de um juiz, que o aniquilamento de cidades.

A plenitude da sua chaga o isola de qualquer acidente.

Ele padece como se reina.

§

Très peu soutenus, toujours très peu soutenus, les voilà encore, leur colonne de vertèbres (sont-ce même des vertèbres?) transparaissant sous l’ectoplasme de leur être.

Ils ne devraient pas aller loin.

Si, ils iront loin, vissés à leur faible, en quelque sorte forts par là et même presque invincibles…

Muito pouco sustentada, sempre muito pouco sustentada, eis mais uma vez, sua coluna de vértebras (são mesmo vértebras?) transparecendo sob o ectoplasma do seu ser.

Elas não devem ir muito longe.

Sim, elas irão longe, parafusadas à sua debilidade, com alguma sorte grande e apesar de tudo, quase invencíveis.

§

DesenhoHenriMichaux2

Sur un corps mou, une tête de proie et de prise, de domination passée, comme un tracteur arrêté un après-midi sur les sillons d’un champ pas fini d’être labouré.

Macle de tessons, de cristaux, de blocs.

La lumière y arrive droite, en repart droite, n’est entrée nulle part.

La farouche noyau pétré attend, sur un corps vague, étranger, hétérogène, le clivage salutaire qui l’ouvre et le soulage enfin.

Sobre um corpo mole, uma cabeça de presa e de tomada, de dominação passada, como um trator parado uma tarde nos sulcos de um campo que não terminou de arar.

Macla de cacos, de cristais, de blocos.

A luz aí chegou reta, voltou reta, não entrou em nenhuma parte.

O esquivo caroço pétreo espera, sobre um corpo vago, estranho, heterogêneo, a clivagem salutar que o abra e por fim o alivie.

§

Bovin Bouddha de sa bête…

Le monde inférieur se médite en lui sans défaire ses courbes, et paît le Meidosem, l’herbe invisible des douleurs remises en place.

Il domine? Non; seulement il n’est pas égalé.

Bovino Buddha de seu bicho…

O mundo inferior nele medita sem desfazer suas curvas, e o Meidosem pasta-lhe a grama invisível das dores entregues no lugar.

Ele domina? Não; mas niguém é igual a ele.

§

Un nuage ici fait un nez, un large nez tout répandu, comme l’odeur autour de lui, fait un oeil aussi, qui est comme un paysage, son paysage devant lui, et maintenant en lui, dans la géante tête, qui grandit, grandit démesurément.

Uma nuvem aqui feito um nariz, um largo nariz todo alongado, como o odor em redor dele, feito um olho também, que é como uma paisagem, a paisagem em sua frente, e agora nele, dentro da cabeça gigante, que cresce, cresce desmedidamente.

§

Profils en forme de reproches, profils en forme d’espoirs déçus de jeunes filles, voilà ces profils meidosems.

Concaves par-dessus tout, concaves attristés, mais pas larmoyants.

Pas d’accord pour le dur, pas d’accord pour les larmes. Pas d’accord.

On ne les a jamais qu’entr’aperçus, les Meidosems.

Perfis em forma de censuras, perfis em forma de ilusões frustradas de jovens filhas, eis os perfis Meidosems.

Côncavos, acima de tudo, côncavos entristecidos, mas não lacrimosos.

Não aceitam birras nem lágrimas. Não concordam.

Nunca são vistos mais do que fugazmente, os Meidosems.

§

Meidosem qui s’envole par un rideau, revient par une citerne.

Meidosem qui se jette dans un ruisseau, se retrouve dans un étang. Oh étrange, étrange naturel des Meidosems.

Meidosem que levanta voo por uma cortina, voltando por uma cisterna.

Meidosem que se joga num córrego e se retorna num tanque. Oh, estranha, estranha natureza dos Meidosems. 

§

DesenhoHenriMichaux3

Et voici quelques-uns des lieux où vivent les Meidosems, étranges en vérité; étrange qu’ils acceptent d’y vivre…

E aqui alguns dos lugares onde vivem os Meidosems, realmente estranhos; estranho é que aceitem viver neles…

§

Il faut le dire, ils vivent surtout dans des camps de concentration.

Les camps de concentration où vivent ces Meidosems, ils pourraient n’y pas vivre. Mais ils sont inquiets comment ils vivraient s’ils n’y étaient plus. Ils ont peur de s’ennuyer dehors. On les bat, on les brutalise, on les supplicie. Mais ils ont peur de s’ennuyer dehors.

É preciso dizer, eles vivem, sobretudo, em campos de concentração.

Os Meidosems que vivem nos campos de concentração poderiam escolher em não viver ali. Mas se inquietam sobre como seria viver em outra situação. Eles têm medo de entediar-se fora dali. Ali são espancados, maltratados, torturados. Fora dali eles têm medo de se entediar.

§

Ici une plaine mamelonne éperdue vers le Meidosem qui s’arrête stupéfait, lâchant son travail, auquel il était pourtant fort oecupé, lâchant tout pour obéir à la fatale fascination.

Les élastiques de son être se tendent, se gonflent.

Ce n’est peut-être pas si dangereux qu’on pourrait croire.

Aqui uma planície mamilosa desvaira em direção ao Meidosem que se deteve, estupefato, largando seu trabalho, no qual estava bastante empenhado, deixando tudo para obedecer à fatal fascinação.

Os elásticos do seu ser se tensionam, se dilatam.

Talvez não seja tão perigoso quanto se poderia imaginar. 

§

Une corde dans une tour, il s’enroule dans la corde. Fait! Il se rend compte qu’il y a erreur. Il s’enroule dans la tour. Il se rend compte qu’il y a erreur. Elle fléchit, elle se tord. Il faut la redresser. Il reçoit trois singes et elur fait les honneurs de la tour. Les singes s’agitent et la réception n’est pas parfaite. Cependant la tour est là, il faut monter, il faut descendre, il faut remonter avec deux singes sur les bras et un troisième qui en veut à ses cheveux. Mais le Meidosem est bien plus distrait que le singe. Le Meidosem songe toujours à autre chose.

Ce frêle songe à plus frêle encore, quand, arrivé au bout de l’agitation de ses quelques fils, après un temps pas tellement long, il sera comme s’il n’avait jamais été.

En attendant, il faut d’autres tours. Pour voir plus loin. Pour pouvoir s’inquiéter de plus loin.

Uma corda dentro de uma torre se enrola em corda. Feito! Ela se dá conta de que há erro. Enrola-se na torre. Cai na real de que há erro. A torre dobra, inclina-se. Tem que reerguer-se. Acolhe três macacos e lhes faz as honras da torre. Os macacos estão agitados e o acolhimento não está perfeito. Entretanto a torre está lá, ele tem que subir, tem que descer, tem que voltar a subir com dois macacos nos braços e um terceiro que se apega ao seu cabelo. Mas o Meidosem é bem mais distraído que o macaco. O Meidosem sempre sonha com outra coisa.

Esse débil sonha em ser mais débil ainda, quando, por fim, domada a agitação de seus poucos fios, após um tempo não muito longo, ele será como se nunca tivesse sido.

Enquanto isso, outras torres fazem falta. Para ver mais longe. Para poder se agitar de mais longe.   

§

Ici est le vieux palais aux longs couloirs où picorent les poules, où l’âne vient passer la tête. Tel est le vieux palais. C’est à plus de mille que les Meidosems s’y tiennent, à bien plus de mille.

Tout est à l’abandon. Personne n’est servi. Personne n’a ce qu’il lui faudrait. Le toit est mauvais. Ils ont seulement, qu’ils tiennent en commum, qu’ils ne lâchent jamais, quatre mauvaises cordes.

Sans elles, même dans le palais, ils ne seraient pas à l’aise. Quant à sortir sans, pas question. Ils seraient épouvantés. Et déjà ils sont épouvantés quand ils les ont dans la main, épouvantés qu’on ne les leur coupe. Et on les leur coupe. Aussitôt tous ensemble se jettent à renouer les morceaux coupés, s’embrouillent, tombent, se font menaçants.

Il y a bien d’autres cordes. Mais avec d’autres, ils auraient peur de s’étrangler par mégarde.

Aqui está o velho palácio com longos corredores onde ciscam as galinhas, onde o asno vem mostrar a cabeça. Tal é o velho palácio. São mais de mil os Meidosems que nele estão, bem mais de mil.

Está tudo degradado. Ninguém é cuidadoso. Ninguém tem o que lhe é necessário. O telhado está péssimo. Ao menos eles têm em comum quatro cordas ruins que não afrouxam nunca.

Sem elas, mesmo dentro do palácio, não estariam à vontade. Quanto à sair sem elas, está fora de questão. Eles ficariam horrorizados. E já estão horrorizados com elas nas mãos, horrorizados com a ideia de que se partam. E se as cortam. Logo, todos juntos se jogam para reatar os pedaços cortados, embrulhando-se, caindo, fazendo-se ameaçadores.

Existem muitas outras cordas. Mas com outras, eles teriam receio de se estrangularem por descuido.      

§

DesenhoHenriMichaux4

Quel paysage meidosem est sans échelles? De toutes parts, jusqu’au bout de l’horizon, échelles, échelles… et de toutes parts têtes de Meidosems qui y sont montés.

Satisfaites, vexées, ardentes, inquiètes, avides, braves, graves, mécontentes.

Le Meidosems d’en bas qui circulent entre les échelles travaillent, entretiennent famille, paient, paient à des encaisseurs de toute tenue qui arrivent constamment. On dit d’eux qu’ils ne subissent pas l’appel de l’échelle.

Qual paisagem Meidosem está sem escadas? Por todos os lados, até a linha do horizonte, escadas, escadas… e em todo lugar, cabeças de Meidosems trepados nelas.

Satisfeitas, vexadas, ardentes, inquietas, ávidas, bravas, sérias, descontentes.

Os Meidosems embaixo, que circulam entre as escadas, trabalham, sustentam família, pagam, pagam para uns cobradores de toda ordem que chegam sem parar. Destes se ouve dizer que não suportam ao apelo da escada.

§

Il étend la surface de son corps pour se retrouver.

Il renie la présence de lui-même pour se retrouver.

Il vêt d’une chemise quelques vides pour, avant l’autre Vide, un petit semblant de plein.

Ele expande a superfície do seu corpo para se reencontrar.

Ele renega sua própria presença para se reencontrar.

Ele cobre com a camisa alguns vazios para, antes de outro Vazio, obter uma breve aparência de plenitude. 

§

Sur un toit, il y a toujours un Meidosem. Sur un promontoire, il y a toujours des Meidosems.

Ils ne peuvent rester à terre. Ils ne peuvent s’y plaire.

Dès que nourris, ils repartent vers la hauteur, vers la vaine hauteur.

Em cima de um telhado, sempre há um Meidosem. Sobre um promontório, sempre há Meidosems.

Eles não podem ficar no chão. Não se sentem à vontade.

Desde que alimentados, voltam às alturas, às vãs alturas.

* * *

Ricardo Corona é autor de vários livros e publicações de artista, dos quais, destaca-se: Mandrágora (Brasil-Paraguai, YiYi Jambo Cartonera, 2016), Cuerpo sutil (México, Calygrama, 2014), ¿Ahn? (Madri, Poetas de Cabra, 2012), Curare (SP, Iluminuras, 2011 – Prêmio Petrobras e finalista do Jabuti/2012), Amphibia (Portugal, Cosmorama, 2009). Traduziu, entre outros, Livro deserto (2013), de Ceciia Vicuña e, com Joca Wolff, Momento de simetria (2005) e Máscara âmbar (2008), de Arturo Carrera.

Padrão
poesia, tradução

Derek Walcott, por Alberto Pucheu

derek-walcott

            Era 1990. Em um dos dias de tal ano, eu havia comprado a Norton Anthology of Modern Poetry, com suas quase 2.000 páginas de poesia de língua inglesa, e deixado-a em cima do colchão, que ficava direto por sobre os tacos de madeira.

            Enquanto eu fazia algo na sala, minha mulher de então me chamava do quarto, dizendo-me que tinha aberto a antologia ao acaso e lido um poema que eu iria adorar. Foi assim, com o poema entregue para mim pela sorte e pelo amor, que li pela primeira vez Derek Walcott. “Winding up” me tocou intimamente como poucos outros, retornando em diversos momentos de minha vida como um horizonte, como um desses poemas que a cada vez e sempre me concernem com muita força, como se nele houvesse um modo de maturidade que me lança em direção a ele, uma vida de fato dita em poema (como não poderia se dar em nenhuma outra instância) em um grau muito extremo.

            Nunca me senti confortável em nenhuma língua para ser de fato tradutor, nunca tive o desejo de ser tradutor, mas, talvez exatamente por isso, aquele poema, que amei imediatamente, me trouxe a necessidade de, no mesmo momento em que o li pela primeira vez, ouvi-lo em português, de refazê-lo para que ele soasse em minha língua, de modo ainda mais íntimo de mim. Nos 24 anos que então tinha, traduzi-lo era como poder, de alguma maneira, ter a sensação de ter escrito o poema que tinha amado.

            Traduzi alguns outros de seus poemas da antologia, como, para dar apenas um exemplo, “Codicil”, que eu também achara maravilhoso. Nos dias seguintes, encomendei o Collected poems e, depois, Omeros. Quando o primeiro chegou, traduzi mais alguns poemas. Foi a única vez na vida em que traduzi poemas voluntariamente, todos eles escolhidos por amor, sendo escolhido pelo amor daqueles poemas.

            Dois anos depois, em 1992, Derek Walcott ganhou o Prêmio Nobel. Quase ninguém o conhecia por aqui. Silviano Santiago, que sabia que eu havia traduzido alguns poemas do caribenho, generosamente me indicou para fazer um texto com uma tradução ou outra para a revista Ciência Hoje, que lhe havia pedido um pequeno ensaio sobre o ganhador do respectivo prêmio. Um dos poemas que traduzi foi publicado no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. Eu enviara acho que três poemas, entre os que eu escolhera simplesmente por amor a eles, tanto em inglês quanto as traduções, para a Folha de São Paulo, mas nesse jornal tive menos sorte: um de seus editores culturais, que era poeta, recebendo os originais por mim enviados junto com minhas traduções, realizou, ele mesmo, traduções dos poemas que eu mandara e as publicou imediatamente no jornal (e em sequência em livro), sem qualquer menção a mim.

            Hoje, duas décadas e meia depois desses acontecimentos, a poeta, tradutora e amiga Nina Rizzi me convida para publicar algumas dessas traduções na escamandro. Envio o arquivo para ela, de modo que ela escolha o que quer publicar, dizendo-lhe que não vou nem posso retornar às traduções, que não quero nem relê-las com o compromisso de ver a pertinência delas; peço igualmente a Nina para só publicar se ela achar que as traduções são minimamente aprováveis, pedindo-lhe apenas para não me deixar passar vergonha. Como disse repetidamente, elas foram feitas simplesmente por amor, pelo desejo de aprender com aqueles poemas, pelo desejo de lê-los em minha língua – talvez, lidas dessa maneira, elas possam tocar algumas outras pessoas que não conhecem Derek Walcott e que não podem ler em inglês.

             Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta, nasceu em 1930, em Castries, na ilha de Santa Lucia. Formou-se na Universidade das Índias Ocidentais, na Jamaica, e em 1957 obteve uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos. Em 1992, tornou-se o primeiro escritor caribenho a receber o prêmio Nobel de literatura. Viveu em Londres e em Trinidad, e durante muitos anos dividiu seu tempo entre a ilha de Santa Lucia e os Estados Unidos, onde lecionou na Universidade de Boston até se aposentar, em 2007.

            Alberto Pucheu (Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 1966) é poeta e ensaísta brasileiro, Professor de Teoria Literária do Departamento e do Programa de Pós-Graduação de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu livro de poemas A fronteira desguarnecida foi vencedor do Programa de Bolsas para Escritores Brasileiros, da Fundação Biblioteca Nacional, e o de ensaios Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos recebeu o Prêmio Mário de Andrade de Ensaio Literário, da Fundação Biblioteca Nacional. Tem publicado ensaios em diversos livros, nos principais periódicos acadêmicos brasileiros e em portais nacionais e internacionais de literatura, bem como resenhas e poemas. Em 2011, teve 20 das fotografias que vem tirando de frases grafitadas em ruas de diferentes cidades do mundo expostas, sob o título de Paisagens urbanas quase sem paisagens, no evento internacional ArteFórum, sob a curadoria de Beatriz Rezende, e realizou, em julho de 2011, a instalação Palavras, na OI Futuro de Ipanema, no projeto Poesia Visual, sob a curadoria de Alberto Saraiva (essa série de exposições e instalações contou também com mostras de Ferreira Gullar, Antonio Cicero, Wladimir Dias Pino, Tadeu Jungle, Helena Trindade, Roberto Corrêa dos Santos e Lúcio Agra). Página pessoal: http://www.albertopucheu.com.br/

***

Winding Up

 I live on the water,
alone. Without wife and children,
I have circled every possibility
to come to this:

a low house by grey water,
with windows always open
to the stale sea. We do not choose such things,

but we are what we have made.
We suffer, the years pass,
we shed freight but not our need

 for encumbrances. Love is a stone
that settled on the sea-bed
under grey water.  Now, I require nothing

 from poetry but true feeling,
no pity, no fame, no healing. Silent wife,
we can sit watching grey water,

 and in a life awash
with mediocrity and trash
live rock-like.

I shall unlearn feeling,
unlearn my gift.  That is greater
and harder than what passes there for life.

 

Desfecho

Vivo nas águas,
solitário. Sem mulher nem filhos.
Atravessei todas as possibilidades
para chegar até aqui:

pequena casa em água cinza,
janelas sempre abertas
para o velho mar.  Não escolhemos o destino,

mas somos o que fizemos.
Sofremos, os anos passam,
lançamos a carga fora, mas não a necessidade

de obstáculos. O amor é uma pedra
no leito do mar
debaixo da água cinza.  Agora, nada mais quero

da poesia senão o coração.
Não quero a piedade nem a fama nem a cura.  Silenciosa
esposa, contemplamos a água cinza,

e numa vida repleta
de mediocridade e lixo
vivemos como rocha.

Devo desaprender sentimentos,
esquecer meu dote.  Isto é maior
e mais difícil do que o que se entende por vida.

§

 

MAP OF THE NEW WORLD

I Archipelagos

At the end of this sentence, rain will begin.
At the rain’s edge, a sail.

Slowly the sail will lose sight of islands;
into a mist will go the belief in harbours
of an entire race.

The ten-years war is finished.
Helen’s hair, a grey cloud.
Troy, a white ashpit
by the drizzling sea.

The drizzle tightens like the strings of a harp.
A man with clouded eyes picks up the rain
and plucks the first line of the Odyssey.


MAPA DO NOVO MUNDO

Arquipélagos, I

Ao fim desta frase, começará a chover.
Pela margem da chuva, um barco.

Veleiro longeando a visão das ilhas;
a crença nos portos de toda uma raça
adentra a neblina.

A guerra de dez anos finda.
O cabelo de Helena, uma nuvem cinza.
Tróia, fosso branco
no mar garoante.

Os pingos se esticam como cordas de harpa.
Um homem de olhos brumosos colhe a chuva
e brota a primeira linha da Odisséia.

§

 

Midsummer, Tobago

 Broad sun-stoned beaches.

White heat.
A green river.

A bridge,
scorched yellow palms

from the summer-sleeping house
drowsing through August.

Days I have held,
days I have lost,

days that outgrow, like daughters,
my harbouring arms.


Verão, Tobago

Praias de claro sol mineral.

Calor branco.
Um rio verde.

Uma ponte,
palmeiras amarelas ressecadas

da casa-de-verão
dormindo através de Agosto.

Dias que guardei,
dias que perdi,

dias que cresceram, como filhas,
para além do abrigo de meus braços.

 §

 

Names

(for Edward Brathwait)

              I

My race began as the sea began,
with no nouns, and with no horizon,
with pebbles under my tongue,
with a different fix on the stars.

But now my race is here,
in the sad oil of Levantine eyes,
in the flags of the Indian fields.

I began with no memory,
I began with no future,
but I looked for that moment
when the mind was halved by a horizon.

I have never found that moment
when the mind was halved by a horizon –
for the goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
as a fishline sinks, the horizon
sinks in the memory.

Have we melted into a mirror,
leaving our souls behind?
The goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
the bronzesmith from Benin.

A sea-eagle screams from the rock,
and my race began like the osprey
with that cry,
that terrible vowel,
that I!

Behind us all the sky folded,
as history folds over a fishline,
and the foam foreclosed
with nothing in our hands

but this stick
to trace our names on the sand
which the sea erased again, to our indifference.

              II

And when they named these bays
bays,
was it nostalgia or irony?

In the uncombed forest,
in uncultivated grass
where was there elegance
except in their mockery?

Where were the courts of Castille?
Versailles’ colonnades
supplanted by cabbage palms
with Corinthian crests,
belittling diminutives,
then, little Versailles
meant plans for a pigstry,
names for the sour apples
and green grapes
of their exile.

Their memory turned acid
but the names held;
Valencia glows
with the lanterns of oranges,
Mayaro’s
charred candelabra of cocoa.
Being men, they could not live
except they first presumed
the right of every thing to be a noun.
The African acquiesced,
repeated, and changed them.

Listen, my children, say:
moubain: the hogplum,
cerise: the wild cherry,
baie-la: the bay,
with the fresh green voices
they were once themselves
in the way the wind bends
our natural inflections.

These palms are greater than Versailles,
for no man made them,
their fallen columns greater than Castille,
no man unmade them
except the worm, who has no helmet,
but was always the emperor,

and children, look at these stars
over Valencia’s forest!

Not Orion,
not Betelgeuse,
tell me, what do they look like?
Answer, you damned little Arabs!
Sir, fireflies caught in molasses.

 

NOMES

(para Edward Brathwait)

              I

Minha estirpe começou como o mar,
sem nomes, sem horizonte,
com seixos debaixo de minha língua
e uma outra leitura das estrelas.

Agora, eis minha estirpe
nos olhos tristes do Levantino,
nas bandeiras dos campos indianos.

Comecei sem memória,
comecei sem futuro,
procurei pelo momento
em que a mente se perdesse no horizonte.

Nunca encontrei o momento
em que a mente se perdesse no horizonte –
para o ourives de Benares,
para o lapidador de Cantão,
o horizonte mergulha, como linha
de pesca, na memória.

Teremos nos dissolvido num espelho
largando nossas almas para trás?
O ourives de Benares,
o lapidador de Cantão,
o ferreiro de Benin.

Uma águia-marinha grita da rocha,
minha estirpe começou como a águia
e seu grito,
as terríveis vogais
E – U!

O céu se dobrou atrás de nós
como a história se dobra sobre a linha de pesca,
e a espuma, dobrando-se, executou a penhora:
sem nada em nossas mãos

senão este graveto
a traçar nossos nomes na areia
que o mar torna a apagar, para nossa indiferença.

II

E quando nomearam estas baías
baías,
foi nostalgia ou ironia?

Na floresta despenteada,
na relva inculta,
onde haveria graça
senão no cômico?

Onde estariam as cortes de Castela?
As colunatas de Versalhes
trocadas por folhas de repolho
com elmos coríntios,
diminutivos degradados,
pequena Versalhes, então,
significava projetos para chiqueiros,
nomes para maçãs azedas
e uvas verdes
do exílio.

A memória fez-se ácido
mas os nomes ficaram;
Valência brilha
com lanternas de laranjas,
o candelabro de Mayaro
carbonizado de cacau.
Sendo homens, só poderiam viver
presumindo o direito
de todas as coisas terem nome.
Os Africanos os aceitaram,
os repetiram e os transformaram.

Escutem, crianças, digam:
moubain: o cajá,
cerise: a cereja silvestre,
baie-la: a baía;
um dia, com verdes vozes frescas,
foram eles mesmos –
como o vento que curva
nossos tons naturais.

Estas palmeiras são maiores que Versalhes,
nenhum homem as construiu,
suas colunas suspensas maiores que Castela,
nenhum homem as destruiu,
mas apenas o verme, que, sem capacete,
foi sempre o imperador.

Crianças, olhem as estrelas
sobre a floresta de Valência!

Não é Órion,
não é Betelgeuse,
digam-me, o que parecem?
Respondam, pequenos árabes malditos!
Senhor, vaga-lumes no melaço.

§

 

Endings

Things do not explode,
they fail, they fade,

as sunlight fades from the flesh,
as the foam drains quick in the sand,

even love’s lightning flash
has no thunderous end,

it dies with the sound
of flowers fading like the flesh

from sweating pumice stone,
everything shapes this

till we are left
with the silence that surrounds Beethoven’s head.


Fins

Coisas não explodem,
definham, fenecem,

como a luz do sol some da carne,
como a espuma seca na areia,

mesmo o relâmpago do amor
não finda em trovões,

morre com o som
das flores fenecendo como a carne

da sudorífera pedra-pomes,
é esta a forma de tudo

até que nos sobra apenas
o silêncio que transborda da cabeça de Beethoven.

§

 

Preparing for Exile

Why do I imagine the death of Mandelstam
among the yellowing coconuts,
why does my gift already look over its shoulder
for a shadow to fill the door
and pass this very page into eclipse?
Why does the moon increase into an arc-lamp
and the inkstain on my hand prepare to press thumb-downward
before a shrugging sergeant?
What is this new odour in the air
that was once salt, that smelt like lime at daybreak,
and my cat, I know I imagine it, leap from my path,
and my children’s eyes already seem like horizons,
and all my poems, even this one, wish to hide?


Preparando para o Exílio

Por que invento a morte de Mandelstam
entre coqueiros amarelos,
por que meu dom procura sobre os ombros
uma sombra que ocupe a porta
e faça na página eclipse?
Por que a lua cresce no arco da lâmpada
e o borrão no meu dedo grava a digital
diante de um sargento indiferente?
Que novo odor no ar é este
que já foi sal, que cheirou a lima na aurora,
e meu gato, sei que invento, pula do meu caminho,
e os olhos de meus filhos parecem horizontes,
e o que querem meus poemas, mesmo este, esconder?

§

 

Iona: Valle Mabouya

 IV

[for Eric Brandford]

Ma Kilman, God will punish you,
for the reason that you’ve got too much religion.
On the other hand, God will bless you,
God will bless you because of your charity.

Corbeau went to Curaçao,
he sent you money back,
you took the same money
and put it in a rumshop.
You can’t read, you can’t write, you can’t speak English,
you should know that rumshops make no profit.
When Corbeau came back,
he had, yes he had money,
when he arrived back here.
Yes, Mama, Corbeau’ll go crazy!

Iona told Corbeau, while you were in Curaçao,
I made two little children, come and see if they’re yours.
Corbeau cried out, “Mama! Good night, ladies and gentlemen,
light the lamp there for me,
for me to look at these kids!”
Corbeau came back and said, “I know niggers resemble,
they may or may not be mine,
I’ll mind them all the same!”

Ah yes, Corbeau then left, he went down to Roseau,
he went to look fo work, to mind the two litte ones.
Iona told Corbeau, don’t go down to roseau.

But he went to Roseau, and Roseau’s whores fell on him.
Philippe Mago brought Corbeau a saxophone,
he had no time to play the sax,
a saxman just like him took away his living.

Saturday morning early, Corbeau goes into town.
Saturday afternoon we hear Corbeau is dead.
That really made me sad, that really burnt my heart;
that really went through me when I heard Corbeau was dead.

Iona said like this: it made her sorry too,
it really burnt her heart, that the saxophone will never play.

I heard a horn blowing
by the river reeds down there.
“Sweetheart”, I said, “I’ll go looking
for flying fish for you.”
When I got there, I came across Corbeau.
He said: “That horn you heard
was Iona horning me.”

The guitar man’s saying:
“We both are guitar men,
don’t take it for anything,
we both holding the same beat.”

Iona got married, Sunday at four o’clock.
Tuesday, by eight o’clock, she’s in the hospital.
She made a fare, her husband broke her arm.
When I meet your mother,
I’ll tell what you did me.
Iona!
(I’ll tell your mama!)
Iona!
(You don’t listen to me!)

Thre days and three nights
Iona boiled, she’s still not cooked.
(I’ll tell her mother that).
They say Iona’s changed,
it isn’t changed Iona’s changed,
she’s wicked, wicked, that’s all,
Iona!

 

Iona: Vale Mabouya

 IV

 [para Eric Brandford]

Ma kilman, Bom Deus a punirá
por você ser tão religiosa.
Mas também, Bom Deus a abençoará,
Bom Deus a abençoará por sua caridade.

Corbeau foi a Curaçao,
lhe mandou dinheiro,
você pegou o dinheiro
e abriu um cabaré.
Você não sabe ler nem escrever nem falar Inglês,
você devia de saber, cabaré não dá lucro.
Quando Corbeau voltou,
tinha muito, muito dinheiro,
quando voltou pra cá.
Minha Nossa! Corbeau vai pirar!

Quando você estava em Curaçao, Iona disse a Corbeau,
tive dois filhos, venha ver se são seus.
Courbeau gritou, “Boa noite, senhoras e senhores,
acendam a luz para mim,
para eu ver estas crianças!”
Corbeau virou-se e disse, “Crioulo é tudo igual,
não sei se são meus,
mesmo assim, vou cuidar deles!”

Corbeau saiu, desceu para o Roseau,
foi procurar trabalho, para cuidar dos pequeninos.
Não vai para o Roseau, Iona disse a Corbeau.

Mas ele foi para o Roseau, as putas gostaram.
Philippe Mago lhe trouxe um saxofone,
Corbeau não teve tempo para tocá-lo,
outro saxofonista tirou-lhe a vida.

Manhã de sábado, Corbeau desce para a cidade.
Tarde de sábado, Corbeau está morto.
Fiquei triste, com o coração apertado;
Foi dentro do estômago que senti a morte de Corbeau.

Iona disse que também ficou triste,
seu coração apertou, o saxofone não tocará mais.

Escutei um sopro no som
vindo da tromba do rio.
“Querida”, eu disse, “Vou pegar
um peixe-voador para você”.
Quando cheguei lá, encontrei Corbeau.
Ele disse: “O sopro que você escutou
eram sussurros de Iona”.

O guitarrista dizia:
“Somos ambos da guitarra,
entenda,
tocamos o mesmo ritmo”.

Domingo às quatro, Iona se casou.
Terça, às oito, ela está no hospital.
Ela preparou a comida, seu marido lhe quebrou o braço.
Quando encontrar sua mãe,
direi o que você me fez.
Iona!
(Direi para sua mãe!)
Iona!
(Você não me escuta!)

Iona ferveu por três dias
e três noites, e ainda não está cozida.
(Contarei isto para sua mãe.)
Disseram que Iona mudou,
não é mudança a mudança de Iona,
ficou malvada, malvada, só isso,
Iona!

§

 

A Far Cry from Africa

A wind is ruffling the tawny pelt
Of Africa. Kikuyu, quick as flies,
Batten upon the bloodstreams of the veldt.
Corpses are scattered through a paradise.
Only the worm, colonel of carrion, cries:
“Waste no compassion on these separate dead!”
Statistics justify and scholars seize
The salients of colonial policy.
What is that to the white child hacked in bed?
To savages, expendable as Jews?

Threshed out by beaters, the long rushes break
In a white dust of ibises whose cries
Have wheeled since civilization’s dawn
From the parched river or beast-teeming plain.
The violence of beast on beast is read
As natural law, but upright man
Seeks his divinity by inflicting pain.
Delirious as these worried beasts, his wars
Dance to the tightened carcass of a drum,
While he calls courage still that native dread
Of the white peace contracted by the dead.

Again brutish necessity wipes its hands
Upon the napkin of a dirty cause, again
A waste of our compassion, as with Spain,
The gorilla wrestles with the superman.
I who am poisoned with the blood of both,
Where shal I turn, divided to the vein?
I who have cursed
The drunken officer of British rule, how choose
Beteween this Africa and the English tongue I love?
Betray them both, or give back what thy give?
How can I face such slaughter and be cool?
How can I turn from Africa and live?


Um Grito Distante da África

O vento rufa o couro curtido
Da África. Kikuyu, tal mosca célere,
Devora o fluxo sanguíneo da estepe.
Defuntos se espalham num paraíso.
Senhor da carniça, só o verme grita:
“Não tenham compaixão por estes mortos!”
Técnicos e acadêmicos comprovam
As marcas da política colonial.
O que pensam, com medo, as crianças brancas?
E os selvagens, fartos como os judeus?

Batidos no pilão, os longos juncos
Mostram um pó branco de íbis que grasnam,
Desde a aurora da civilização,
No rio seco ou na planície fértil
De bestas. A violência da besta
Sobre a besta é a lei natural, mas,
em pé, o homem procura a divindade
pela dor. Delirantes como as bestas,
suas guerras dançam para o tambor,
E para ele é força o medo nativo
da paz branca às custas dos próprios vivos.

Outra vez, a necessidade bruta
Passa as mãos no lenço da causa suja,
Outra vez, nossa compaixão desgasta-se,
Como com a Espanha, o gorila contra o super-homem.
Eu, envenenado com sangue de ambas,
Dividido até as veias, pra onde vou?
Eu que xinguei
O bêbado oficial inglês, como escolher
Entre esta África e a língua inglesa que amo?
Traí-las, ou devolver o que dão?
Como encarar tal chacina e sorrir?
Como dar as costas a África e viver?

§§§

Padrão
poesia, tradução

Quatro poemas de Tristan Tzara, por Sergio Maciel e Google Tradutor

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tristan tzara, nascido samuel ou samy rosenstock (romênia 1896 – frança 1963), foi um poeta romeno, judeu, francês e dadaísta. foi, aliás, um dos membros fundadores do movimento dadaísta. algum tempo depois, após um certo declínio do movimento, junta-se ao surrealismo. junta-se, também, posteriormente, ao partido comunista e à resistência francesa. mas apesar de ser uma figura um tanto conhecida, em muito pela sua participação no movimento surrealista, tzara não goza de muita divulgação literária; ao menos não tanto quanto apollinaire, reverdy e soupault, por exemplo, pra citar alguns dos poetas franceses mais inovadores do séc. xx.

tzara, assim como seus contemporâneos supracitados, apareceram na importante revista SIC, que existiu entre 1916-19. num período problemático que foi o contexto da primeira guerra mundial, tzara, junto com outros emigrées, como hans arp e hugo ball, produziram o fino das vanguardas. para qualquer vanguardista que se prezasse, era mister que sua obra não ficasse restrita somente a uma linguagem. ou seja, disso resulta que boa parte da vanguarda européia legou uma série de poetas-pintores-escultores-músicos-performers no mesmo corpo. é disso que vem a impossibilidade de lermos nas vanguardas, sobretudo naquilo que toca a poesia, as mesmas expectativas que se leu até então, com especial enfoque no virtuosismo parnasiano e simbolista. hugo ball, para tomar alguém como exemplo, criou aquilo que veio a se chamar “poema fonético”. how in the hell alguém pode esperar de um poema como “karawane” (clique aqui) ou até mesmo “fisches nachtgesang” (clique aqui e aqui), de christian morgenstern, a mesma realização, no que se refere à questão da linguagem, de qualquer outra coisa que havia antes das vanguardas?

é a partir disso, portanto, e da ideia de um automatismo (que tanto chateava a cultura blasé da época) que era veiculada pelo dadaísmo, e depois pelo surrealismo, que resolvi escolher, meio ao acaso, e traduzi quatro poemas de tzara. os três primeiros, do livro vingt-cinq poèmes (1918); o último de juste présent (1961), um pouco menos radical e pós vanguarda.

para os três primeiros, escritos no calor da vanguarda e da porralouquice, resolvi adotar o seguinte procedimento: quando se adota um regime de escrita automática que busca romper com a lógica poética mesma da linguagem, talvez uma solução seja utilizar um processo tradutório semelhante: ou seja, para os três primeiros poemas, eu resolvi criar o embate entre a automaticidade da vanguarda com aquela de uma ferramenta de tradução automática, nosso querido google tradutor. realizei, obviamente, uma terceira tradução, minha, buscando um meio termo entre as duas. para a terceira, pós-vanguarda e menos caótica, dispensei a ajuda do nosso amigo virtual.

pra finalizar, recomendo muito a leitura do texto “DADA: implicações e inseminações” (clique aqui), do domeneck.

sergio maciel

* * *

LE GÉANT BLANC LÉPREUX DU PAYSAGE

le sel se groupe en constellation d’oiseaux sur la tumeur de ouate

dans ses poumons les astéries et les punaises se balancent
les microbes se cristallisent en palmiers de muscles balançoires bonjour sans cigarette tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera embrasser les bateaux chirurgien des bateaux cicatrice humide propre
paresse des lumières éclatantes
les bateaux nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
je lui enfonce les cierges dans les oreilles gangànfah hélicon et boxeur sur le balcon le voilon de l’hôtel en baobabs de flammes les flammes se développent en formation d’éponges

les flammes sont des éponges ngànga et frappez
les échelles montent comme le sang gangà
les fougères vers les steppes de laine mon hazard vers les cascades
les flammes éponges de verre les paillasses blessures paillasses
les paillasses tombent wancanca aha bzdouc les papillons
les ciseaux les ciseaux les ciseaux et les ombres
les ciseaux et les nuages les ciseaux les navires
le thermomètre regarde l’ultra-rouge gmbabàba
berthe mon éducation ma queue est froide et monochromatique mfoua loua la
les champignons oranges et la famille des sons au delà du tribord à l’origine à l’origine le triangle et l’arbre des voyageurs à l’origine

mes cerveaux s’en vont vers l’hyperbole
le caolin fourmille dans sa boîte crânienne
dalibouli obok et tombo et tombo son ventre set une grosse caisse ici intervient le tambour major et la cliquette
car il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrrrrrrrrr ici le lecteur commence à crier il commence à crier commence à crier puis dans ce cri il y a des flûtes qui se multiplient — des corails
le lecteur veut mourir peut-être ou danser et commence à crier
il est mince idiot sale il ne comprend pas mes vers il crie
il est borgne
il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrr
nbaze baze baze regardez la tiare sousmarine qui se dénoue en algues d’or
hozondrac trac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

O GIGANTE PAISAGEM LEPROSO BRANCO

o grupo de sal de aves sobre o tumor constelação de rebatidas

em seus pulmões estrelas do mar e erros balanço
micróbios cristalizar balanços músculos palma Olá sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc Zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera beijo barco cirurgião barcos cicatriz limpo e úmido
preguiça de luzes brilhantes
barcos nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
I empurra as velas no boxer orelhas e gangànfah Helicon na varanda do hotel voilon chamas baobá chamas desenvolver na formação esponjas

as chamas são esponjas Nganga, e fira
subir escadas como Ganga sangue
lã Ferns estepes ao meu perigo para as cachoeiras
vidro bancada esponjas chamas bancos lesão
os colchões cair wancanca aha bzdouc borboletas
A tesoura tesoura tesoura e sombras
tesouras e nuvens tesoura navios
o termômetro parece ultra-vermelho gmbabàba
bertha minha educação minha cauda é frio e mfoua monocromática elogiou o
laranjas e cogumelos família soa além do estibordo originalmente atrás do triângulo e da árvore originalmente viajantes

meu cérebro está indo para hipérbole
o caulim cheias em seu crânio
dalibouli obok e tombo tombo e definir seu estômago um bumbo aqui vem o tambor grande e chocalhos
porque não ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar que ele começa a começa a gritar gritando e depois chorar lá em flautas que se multiplicam – Corais
o leitor quer morrer ou talvez dançando e começa a gritar
é idiota sujo fina não entende meus versos ele grita
ele é cego
Há ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrr
nbaze Baze Baze assistindo tiara subaquática que ventos em algas douradas
nervosismo hozondrac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(google tradutor)

O GIGANTE BRANCO LEPROSO DA PAISAGEM

o sal se agrupa em constelação de pássaros sobre o tumor de zuarte

em seus pulmões as asterídeas e os percevejos se balançam
os micróbios se cristalizam em palmeiras de músculos balanços bomdia sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc ñfunfa mbaah mbaah ñfunfa
macrocystis pyrifera abraçar os barcos cirurgião dos barcos cicatriz úmida própria
preguiça das luzes brilhantes
os barcos ñfunfa ñfunfa ñfunfa
eu ele forço as velas nas orelhas trupànfah helicon e boxeador na varanda o violino do hotel em baobás de chamas e chamas se desenvolvem em formação de esponjas

as chamas são esponjas b^bob^bo e bateis
as escalas sobem como o sangue bbôbê
as samambaias nas estepes de lã meu acaso nas cascatas
as chamas esponjas de vidro os palhaços feridos palhaços
os palhaços tombam wancanca rá bzdouc as brabuleta
as tesoura as tesoura as tesoura e as sombras
as tesoura e as nuvens as tesoura os navios
o termômetro contempla o ultra-rubro gmbabàba
berta minha educação meu rabo é frio e monocromático mfuá luá là
os cogumelos laranja e a família de sons d’além do estibordo à origem à origem o triângulo e a árvore dos viajantes à origem

meus miolos se vão verso a hipérbole
o caulim formiga em sua caixa craniana
dalibouli obok e tombo e tombo seu ventre è um grosso caixa aqui intervém o tambor maior e o chocalho
pois há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar ele começa a gritar começa a gritar pois em seu grito tem as flautas que se multiplicam – os corais
o leitor quer morrer talvez ou dançar e começar a gritar
ele é um refino idiota porco ele não compreende meus versos e grita
ele é caolho
há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr
nbaze baze baze olhai a coroa submarinha que se desata em algas d’ouro
hozondrac temor
nfunda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(sergio maciel)

§

PÉLAMIDE

a e ou o youyouyou i e ou o youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
morceaux de durée verte voltigent dans ma chambre
a e o i ii i e a ou ii ii ventre montre le centre je veux le prendre ambran bran bran et rendre centre des quatre
beng bong beng bang où vas-tu iiiiiiiiupft
machiniste l’océan a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
les vers luisants parmi nous
parmi nos entrailles et nos directions
mais le capitaine étudie les indications de la boussole
et la concentration des couleurs devient folle
cigogne litophanie il y a ma mémoire et l’ocarina dans la pharmacie
sériciculture horizontale des bâtiments pélagoscopiques
la folle du village couve des bouffons pour la cour royale
l’hôpitale devient canal
et le canal devient violon
sur le violon il y a un navire
et sur le bâbord la reine est parmi les émigrants pour mexico

PÉLAMIDE

um E ou O ou o youyouyou om youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
pedaços de tempo de verde voam no meu quarto
um e o e i i ii ii ii ou uma barriga mostra o centro Eu quero levar farelo de farelo de ambran e tornar o centro dos quatro
beng beng bong estrondo onde está você iiiiiiiiupft
Machinist o oceano om o u
om u a o o i u o u ath tem om o u om um
os vaga-lumes entre nós
entre o nosso interior e os nossos sentidos
mas o capitão examina as direções da bússola
e concentração de cor fica louco
Stork litophanie atrás, minha memória ea ocarina na farmácia
pélagoscopiques sericicultura horizontais de edifícios
Mad fumegantes bobos da aldeia para a corte real
o canal se torna Hopital
e o canal se torna violino
no violino há um vaso
e na porta é a rainha entre os emigrantes para o México

(google tradutor)

SARRAJÃO

a e ou tututu eu e ou o tututu
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
peças de dura verde voam em meu quarto
a e o i ii i e a ou ii ii ventre mostra o centro eu quero o tomar ambran bran bran e tornar centro dos quatro
b e n g b o n g b e n g b a n g onde cê-vai iiiiiiiiiipieft
maquinista o oceano a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
os versos luzentes entre nós
entre nossas entranhas e direções
mas o capitão estuda os apontamentos da bússola
e a concentração das cores torna-se louca
cegonha litofania há minha memória e a ocarina na farmácia
sericicultura horizontal dos batimentos pélagoscópicos
a louca da vila cobre o bobo para a corte real
o hospital torna-se canal
e o canal torna-se violino
sobre o violino há um navio
e sobre o bombordo a rainha está entre os emigrantes para o méxico.

(sergio maciel)

§

LA GRAND COMPLAINTE DE MON OBSCURITÉ TROIS

chez nous les fleurs des pendules s’allument et les plumes encerclent la clarté
le matin de soufre lointain les vaches l’èchent les lys de sel
mon fils
mon fils
traînons toujours par la couleur du monde
qu’on dirait plus bleue que le métro et que l’astronomie
nous sommes trop maigres
nous n’avons pas de bouche
nos jambes sont raides et s’entrechoquent
nos visages n’ont pas de forme comme les étoiles
cristaux points sans force feu brulée la basilique
folle : les zigzags craquent
téléphone
mordre les cordages se liquéfier l’arc
grimper
astrale
la mémoire
vers le nord par son fruit double comme la chair crue
faim feu sang

O GRANDE LAMENTO DE MEUS TRÊS ESCURO

flores home relógios e penas leves cercar clareza
na manhã de enxofre distante as vacas èchent lírios sal
meu filho
meu filho
sempre sair pela cor do mundo
parece mais azul do que o metrô e astronomia
estamos muito magra
nós não temos nenhuma boca
nossas pernas são duras e colidem
nossos rostos não são em forma de estrelas
pontos de cristal sem força, fogo queimou a basílica
louco: os ziguezagues rachar
telefone
cordas mordida liquefazer o arco
subida
astral
memória
a norte pela sua dupla fruta como carne crua
fome de sangue fogo

(google tradutor)

A GRANDE QUEIXA SOBRE MINHA OBSCURIDADE TRÊS

em nós as flores dos pêndulos se alumiam e as plumas contornam a claridade
a manhã de enxofre longínqua as vacas l’ambem os lírios de sal
meu filho
meu filho
arrastamos sempre pela cor do mundo
quem dirá mais tristonho que o metro e que a astronomia
nós estamos muito magros
nós não temos boca
nossas pernas estão esticadas e se entrechocam
nossas caras não tem forma como as estrelas
cristais pontos sem força fogo queimada a basílica
louca: os ziguezagues racham
telefone
morder as cordas liquefazer o arco
galgar
astral
a memória
verso ao norte por seu duplo fruto como a carne crua
fome fogo sangue

(sergio maciel)

§

À UNE MORTE

tu avances toujours aux confins de la nuit
le feu s’est éteint où finit la patience
même les pas sur des chemins imprévus
n’éveillent plus la magie des buts

braises braises
l’amour s’en souvient

rien ne nous distrait de l’attente assise
sur les genoux enfants aux plénitudes chaudes
pourrais-je oublier le son de cette voix
qui contribue à répandre la lumière
au-delà de toute présence

fraises fraises
à l’appel des lèvres

comme la mer contenue
toute une vie enlacée
et sur les innombrables poitrines des vagues
l’incessant froissement des ours effleurés

rêves rêves
au silence de braise

pourrais-je oublier l’attente comblée
le temps ramassé sur lui-même
le jour jaillissant de chaque parole dite
le long embrasement de la durée conquise

sèves sèves
ma soif s’en souvient

A UM MORTO

tu avanças sempre aos confins da noite
o fogo se extinguiu onde findou a paciência
mesmo os passos sobre as chamas imprevistas
não despertam mais a magia das metas

brasas brasas
o amor se lembra

nada nos distrai da espera assentada
sobre os joelhos infantis às plenitudes quentes
poderia esquecer o som desta voz
que contribui para derramar a luz
além de toda presença

morangos morangos
ao apelo dos lábios

como o mar constante
toda uma vida enlaçada
e sobre os incontáveis peitos das ondas
o incessante franzimento dos ursos tocados

sonhos sonhos
em silêncio de cinzas

poderia esquecer a espera plena
o tempo recolhido em si mesmo
o dia jorrando cada palavra dita
o longo alastramento da duração conquistada

seivas seivas
minha sede se lembra

Padrão
tradução

Discurso de Raúl Zurita ao receber o Prêmio Pablo Neruda 2016, por Enrique Carretero

raul-zurita

Raul Zurita é poeta chileno, nascido em 10 de janeiro de 1950. Ficou órfão de pai quando tinha dois anos de idade, ficando sob o cuidado da mãe e avó materna, ambas imigrantes italianas. Formou-se em engenharia e na época de estudante universitário filiou-se ao partido comunista. É por isto que foi preso e torturado durante a ditadura militar chilena. Já solto, mas ainda durante os anos da ditadura militar, ficou conhecido por realizar performances poéticas em espaços públicos, utilizando seu próprio corpo como meio de expressão, inclusive em situações arriscadas de autoflagelação. É autor de uma extensa e reconhecida obra. Entre os principais títulos estão “Purgatório” (1979), , “Ante-Paraíso” (1982), “O amor do Chile” (1987) “Canto a seu amor desaparecido” (1985), “Canto dos rios que se amam” (1997), “Os poemas mortos” (2006), “As cidades da água” (2007), “Zurita” (2011), “Tua vida se rompendo” (2015). Recebeu vários prêmios literários no Chile e fora do seu país, como a Bolsa Guggenheim (1984), Prêmio Pablo Neruda (1988), Premio Pericles de Oro (1994) – Italia, Prêmio Nacional de Literatura do Chile (2000), Doutro Honoris Causa da Universidade de Alicante, Espanha, 2015 e o mais recente, o Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, 2016.

Enrique Carretero, nascido em Santiago do Chile, é poeta e tradutor. Bacharel em letras pela USP, publicou seu primeiro livro de poemas, Travessias, pela editora Patuá em 2014. Atualmente faz mestrado em Letras Clássicas na mesma universidade.

* * *

Discurso de Raúl Zurita ao receber o Prêmio Pablo Neruda 2016

O Chile, muito antes de ser um país foi um poema.  É o “Chile fértil província assinalada/ na região antártica famosa/ de remotas nações respeitada/ por forte, principal e poderosa”, do poema La Araucana de Alonso de Ercilla, esse soldado espanhol que participou na conquista e que depois de declarar que não vinha para cantar o amor, senão a espada, viu num território absolutamente desconhecido, no lugar mais remoto do mundo, as fronteiras ainda imaginárias de um país, unindo para sempre nosso destino com o destino da poesia, dos grandes sonhos e das suas encarnações concretas, mas também com os rastros de uma violência extrema incrustada no centro da nossa história.

Sou um poeta chileno, sou filho dessa violência e dessa delicadeza.

Agradeço este prêmio que leva o nome do maior poeta da história da língua castelhana, Pablo Neruda. Frente a sua obra a sensação frequentemente não é diferente da que podemos experimentar olhando para os cumes dos Andes ou para a imensidão do mar. Poemas como Galope morto, Walking Around ou Alturas do Macchu Picchu nos fazem pensar nessas dimensões. Nos seus momentos mais altos sua poesia, mais que a criação de um autor, parece um destino em cuja inexorabilidade estão expressadas todas as mortes, esperanças, tragédias, sonhos e despertares, de milhões e milhões de homens e mulheres que precisaram de poemas para completar suas existências. Pablo Neruda ao escrever seu Canto Geral não sabia que esse livro seria a prova de que os povos, que através dele o escreveram e que ali são mencionados, iriam atravessar ainda outra “morte geral” – as novas ditaduras e sua interminável sequela de assassinados e desaparecidos – dando a todas essas vítimas, aos oprimidos e marginados da nossa história, a condenação póstuma de encontrar na poesia a vida nova que devia esperar por eles e que por eles não esperava.

Recebo, então, esta distinção com um sentimento de gratidão, mas também de dor, de alegria e, ao mesmo tempo, de tristeza, de orgulho e, por sua vez, de vergonha. A tarefa não era escrever poemas nem pintar quadros; a tarefa era fazer da vida uma obra mestra, e os restos triturados dessa tarefa cobrem a terra como se fossem as ruínas de uma batalha terrivelmente perdida. A poesia é a mais alta criação humana, seu fundamento é a celebração da vida, mas inúmeras vezes teve que relatar a desgraça. Nada do que acreditei na minha juventude que seria o mundo foi o mundo, nada do que imaginei que seria o Chile depois do terrível passo da ditadura foi o Chile. O único bem que nos ensinaram esses anos ferozes: esse companheirismo, essa lealdade que fez a tantos de nós atravessarem a noite um pouco mais amparados, mostrando-nos nas situações mais difíceis que a solidariedade era possível, que o amor era possível. Foi o primeiro que foi esquecido e vimos surgir, assim, um país atomizado pelo neoliberalismo, não solidário com os mais fracos, em muitos aspectos déspota com os mais necessitados.

À poesia cabe intimamente esse fracasso, o estado de uma sociedade não pode ser medido por quão bem estão os que estão bem; felizes os felizes, diz Borges na sentença final do seu Fragmentos de um evangelho apócrifo, senão por quão mal estão os que estão mal; e os que estão mal, estão muito mal. A poesia deve baixar a eles, deve descer junto ao mais danificados, ao mais túrgido e ferido para empreender a partir dali, a partir do fosso do humano como queria o jovem Rimbaud, o árduo caminho a uma nova alegria, a uma nova esperança, a um novo sonho, porém não a um sonho qualquer, não a uma esperança fraca, não a uma alegria cautelosa, mas bem para que a partir da fome, dos asilos de anciãos pobres, a partir de cada menino e menina estuprados, a partir dos cárceres, a partir das Febem deste mundo, emerja um sonho tão forte que vire a realidade e nos mostre de novo as infinitas resplandecências desta terra que ainda nos ama.

E ela nos ama, e incrivelmente nos ama, pois teria sido suficiente que a cordilheira dos Andes tivesse se deslocado uns poucos quilômetros mais a oeste ou que o nível do Pacífico tivesse subido uns poucos metros, para que nada disto tivesse existido. No entanto, algo quis que fôssemos, algo quis que houvesse um povo a mais entre os outros povos, que houvesse um sonho a mais entre os outros sonhos, que houvesse uma voz a mais na conversação geral que todas as coisas têm com todas as coisas. Por razões que são misteriosas esse diálogo teve no Chile a forma da poesia.

A pergunta crucial que propõem os grandes poemas é: se os seres humanos são capazes de escrever o Cântico das criaturas de São Francisco, de pintar os afrescos de Fra Angélico ou a mulher com flores de Diego Rivera, se podem executar com zamponhas a música mais profunda e bela do planeta, a música boliviana, como é possível entender que, ao mesmo tempo, assassinem outros seres humanos? Se a comovedora voz de Isabel Aldunate cantou frente ao país dilacerado O jejum, se Violeta Parra, sabendo que ia se matar, compôs esse hino chamado Gracias a la vida, como, com que palavras é possível explicar que outros fizeram os estádios matadouros de homens? Se o poeta Robert Desnos, um dos fundadores do surrealismo, atravessou os campos de extermínio, realizando nas condições mais infernais que possam ser pensadas o ato absolutamente delicado de corrigir um poema de amor, como compreender as gasificações massivas, os fornos crematórios, Auschwitz? Um estudante adicto ao surrealismo, que entrara com os guerrilheiros tchecos, Josef Stuma, reconheceu Desnos entre os moribundos e recolheu o poema. Não continha nenhuma referência aos campos de concentração, nem às circunstâncias em que fora escrito. Era só um poema de amor, mas precisamente porque era só isso, um poema de amor em meio ao inferno, constitui a denúncia mais feroz que alguém já fizera do horror do genocídio. O poema se chama À misteriosa e frente à monstruosidade de Treblinka antepõe a imagem de um sonho. Leio:

“Sonhei tanto contigo que tu perdes tua realidade. Haverá tempo para alcançar esse corpo vivo e beijar sobre essa boca o nascimento da voz que amo? Sonhei tanto contigo que meus braços habituados a se cruzar sobre meu peito abraçam tua sombra, quiçá já não poderiam se adaptar ao contorno do teu corpo. E frente à existência real daquilo que me obceca e me governa há dias e anos seguramente me transformarei em sombra. Análises sentimentais. Sonhei tanto contigo que, por certo, já não conseguirei acordar. Durmo em pé, com meu corpo que se oferece a todas as aparências da vida e do amor, e tu, a única que agora importa para mim, mais difícil será tocar tua testa e teus lábios, que os primeiros lábios e a primeira testa que eu encontre. Sonhei tanto contigo, andei tanto, falei, me estendi ao lado da tua sombra e do teu fantasma que só me resta ser fantasma entre os fantasmas e cem vezes mais sombra que a sombra que sempre passeia alegremente pelo quadrante solar da tua vida.” [tradução feita a partir do discurso de Zurita, não do original de Desnos]

Contrasto, então, a infinita devoção desse poema, sua insubornável pureza, a todas as crueldades da história, porque, se a poesia de Robert Desnos não existisse, se a arte não existisse, provavelmente a violência seria a norma. Porém existe, e só o fato de que alguém em meio ao holocausto pudesse escrever algo tão incrivelmente belo como “Sonhei tanto contigo que tu perdes tua realidade”, faz que o assassinato seja infinitamente mais assassinato e o assassino, infinitamente mais assassino.

É o que sempre tratei de mostrar no que escrevi. Imaginei em meio ao terror da ditadura sagas inacabáveis que se apagavam ao amanhecer, poemas alucinados onde o Pacífico flutua suspenso sobre os cumes dos Andes e onde o deserto do Atacama se eleva como um pássaro sobre o horizonte. Imaginar esses poemas foi minha forma de resistir, de não enlouquecer, de não me resignar. Senti que frente à dor e ao dano era preciso responder com uma arte e uma poesia que fosse mais forte que a dor e o dano que estava sendo imposto em nós. Não se tratava de lançar uma descarga de pequenos poemas de combate, senão de algo muito mais devastado, mais luminoso, mais surdo e violento. Era necessário falar de amor, mas para falar de amor era preciso aprender a falar de novo, começar desde cada letra, porque nenhuma das linguagens que existiam antes bastavam para dar conta do que tinha acontecido. Sinto que os vestígios desses anos estão ali, nessas tentativas, e que ordenados por um desejo que nos transborda, os poemas não são mais do que os sonhos que a terra sonha, os sonhos com os que tenta se lavar do sofrimento humano, e que ninguém pode nada frente a isso, mas apenas gravar umas pequenas impressões, umas marcas mínimas que quiçá sobrevivam ao acordar.

Eu vivi no Chile dos anos da ditadura e sobrevivi a ela e à minha própria autodestruição. No ano de 1975, depois de um episódio humilhante com uns soldados, me lembrei da frase do evangelho de pôr a outra face e então fui e queimei a minha. Não soube bem por que o fazia, mas ali começou algo. Lembrei que quando criança vira um avião que voava em círculos, traçando com fumaça branca o nome de um sabão e imaginei de repente um poema sendo escrito no céu. Entendi, então, que aquilo que tinha começado na máxima solidão e desespero de um homem que queima o próprio rosto trancado num banheiro, devia terminar algum dia com o vislumbre da felicidade. Dois anos mais tarde pensei numa escrita no deserto que apenas pudesse ser vista de cima. Só diria “nem pena, nem medo”, e estaria sulcando um país onde quase o único  que havia era pena e medo. Anos mais tarde vi a frase recortada sobre o deserto e, com efeito, pela sua extensão só podia ser lida completamente do céu. Alguém reparou que o sulco das letras na terra era parecido com o sulco da cicatriz no meu rosto. Tinham se passado dezoito anos e surpreendeu-me ter sobrevivido. Recebo esta distinção em nome dos nossos ausentes.

Eu trabalho com minha vida e tento que isso não seja uma bandeira. Não porque minha vida tenha algo de exemplar, o diabo me livre de ser exemplo de nada, mas porque creio que, se podemos chegar ao fundo de nós mesmos, sem autocompaixão nem falsa solidariedade, olhando para nossa zona de luz, nossa sede de amor, porém também toda nossa reserva de ódio, violência e homicídio, é possível que cheguemos ao fundo da humanidade inteira. Creio que tudo que pude ter feito está ali. Escrevi a partir de um corpo que se dobra sob os efeitos do Parkinson, que fica rígido, que treme, que vai para frente e que cai, e já achei linda minha doença, já senti que meus tremores são belos, que minha dificuldade para segurar estas folhas que agora leio é bela. Já escrevi sobre esse corpo, sobre as dores que causei a outros e as que eu mesmo me impus, gravei com fogo meus poemas sobre minha pele. Só os doentes, os fracos, os feridos, são capazes de criar obras mestras. Sinto que escrevi a partir de um certo irreparável desespero e, ao mesmo tempo, a partir de uma irrefreável alegria. Uma alegria estranha porque é como se nascesse da dificuldade de sermos felizes. Do encontro desses fantasmas nasce minha escrita. A escrita é como as cinzas que restam de um corpo queimado. Para escrever é preciso queimar-se inteiro, consumir-se até que não reste nem um fragmento de músculo nem de ossos nem de carne. É um sacrifício absoluto e ao mesmo tempo é a suspensão da morte. É algo concreto, quando se escreve a vida fica suspensa e, portanto, fica suspensa também a morte. Escrevo porque é meu exercício privado de ressurreição.

Dizia ao início que essa terra ainda nos ama, ainda quer se ver em nós, ainda o mar, o deserto, as montanhas, querem se olhar nos nossos olhares, ainda o som do romper das ondas e do vento quer se reconhecer nos nossos ouvidos, ainda suas estrelas querem se refletir nos nossos olhos. Nos seus momentos mais felizes minha poesia tentou expressar esse amor da terra, não sempre foi assim. Escrevi a partir da ferida e do dano num mundo ferido, doente, sem compaixão. Escrevi a partir da dor, mas nosso dever é a felicidade. Escrevi a partir do ódio, mas nosso dever é o amor.

Termino com o poema com que gostaria de encerrar minha vida:

Então, esmagando a face queimada / contra os ásperos pedregulhos deste solo pedregoso –como um bom sul-americano- erguerei por mais um minuto meu rosto para o céu / chorando / porque eu acreditei na felicidade / terei visto de novo as irrefutáveis estrelas

Te amo Paulina, você é as irrefutáveis estrelas da minha noite.

(trad. Enrique Carretero)

§

Chile, mucho antes de ser un país fue un poema. Es el “Chile fértil provincia señalada/ en la región antártica famosa/ de remotas naciones respetada/ por fuerte, principal y poderosa”, de La Araucana de Alonso de Ercilla, ese soldado español que participó en la conquista y que después de declarar que no venía a cantarle al amor sino a la espada, vio en un territorio absolutamente desconocido, en el lugar más remoto del mundo, los bordes aún imaginarios de un país, uniendo para siempre nuestro destino con el destino de la poesía, de los grandes sueños y de sus encarnaciones concretas, pero también con las trazas de una violencia extrema anidada en el centro de nuestra historia.

Soy un poeta chileno, soy un hijo de esa violencia y de esa delicadeza.

Agradezco este premio que lleva el nombre del más grande poeta de la historia de la lengua castellana, Pablo Neruda. Frente a su obra la sensación a menudo no es distinta a la que podemos experimentar mirando las cumbres de los Andes o la inmensidad del mar. Poemas como Galope muerto, Walking Around o Alturas de macchu Picchu nos hacen pensar en esas dimensiones. En sus momentos más altos su poesía más que la creación de un autor se parece a un destino en cuya inexorabilidad están expresados todas las muertes, esperanzas, tragedias, sueños y despertares, de millones y millones de hombres y mujeres que han requerido de los poemas para completar sus existencias. Pablo Neruda al escribir su Canto General no sabía que ese libro iba a ser la prueba de que los pueblos que a través de él lo escribieron y que allí se mencionan, debían atravesar todavía otra “muerte general” –las nuevas dictaduras y su interminable secuela de asesinados y desaparecidos- dándoles a todas esas víctimas, a los oprimidos y marginados de nuestra historia la sanción póstuma de encontrar en la poesía la vida nueva que debía esperarlos y que no los esperaba.

Recibo entonces esta distinción con un sentimiento de gratitud pero también de dolor, de alegría y al mismo tiempo de tristeza, de orgullo y a la vez de vergüenza. La tarea no era escribir poemas ni pintar cuadros; la tarea era hacer de la vida una obra maestra y los restos triturados de esa tarea cubren la tierra como si fueran los escombros de una batalla atrozmente perdida. La poesía es la más alta creación humana, su fundamento es la celebración de la vida, pero ha tenido demasiadas veces que relatar la desgracia. Nada de lo que creí en mi juventud que sería el mundo ha sido el mundo, nada de lo que imaginé que sería Chile después del terrible paso de la dictadura es lo que ha sido Chile. Lo único bueno que nos enseñaron esos años feroces: ese compañerismo, esa lealtad, que nos hizo a tantos atravesar la noche un poco más guarecidos, mostrándonos en las situaciones más difíciles que la solidaridad era posible, que el amor era posible, fue lo primero que se olvidó y vimos surgir así un país atomizado por el neoliberalismo, insolidario con los más débiles, en muchos aspectos déspota con los más desposeídos.

A la poesía le concierne íntimamente ese fracaso, el estado de una sociedad no puede medirse por lo bien que están los que están bien; felices los felices, dice Borges en la sentencia final de su “Fragmentos de un evangelio apócrifo,” sino por lo mal que están los que están mal, y los que están mal están muy mal. La poesía debe bajar con ellos, debe descender junto a lo más dañado, a lo más tumefacto y herido para emprender desde allí, desde esas fosas de lo humano como quería el pequeño Rimbaud, el arduo camino a una nueva alegría, a una nueva esperanza, a un nuevo sueño, pero no a un sueño cualquiera, no a una esperanza débil, no a una alegría cautelosa, sino para que desde el hambre, desde los asilos de ancianos pobres, desde cada niño y niña violadas, desde las cárceles, desde los Sename de este mundo, emerja un sueño tan fuerte que de vuelta la realidad y nos muestre de nuevo los infinitos resplandores de esta tierra que aún nos ama.

Y nos ama, e increíblemente nos ama, pues habría bastado que la cordillera de los Andes se hubiera desplazado unos pocos kilómetros más al oeste o que el nivel del Pacífico hubiese subido unos metros, para que nada de esto hubiese existido. Sin embargo algo quiso que fuéramos, algo quiso que hubiese un pueblo más entre los otros pueblos, que hubiese un sueño más entre los otros sueños, que hubiese una voz más en la conversación general que todas las cosas mantienen con todas las cosas. Por razones que son misteriosas ese diálogo tomó en Chile la forma de la poesía.

La pregunta crucial que plantean los grandes poemas es: si los seres humanos son capaces de escribir el Cántico de todas las criaturas de San Francisco, de pintar los retablos de Fra Angelico o la mujer con flores de Diego Rivera, si pueden ejecutar con zampoñas la música más profunda y bella del planeta; la música boliviana, ¿cómo puede entenderse que al mismo tiempo asesinen a otros seres humanos? Si la sobrecogedora voz de Isabel Aldunate cantó frente al país destrozado “El ayuno”, si Violeta Parra, sabiendo que se iba a matar, compuso ese himno que se llama “Gracias a la vida”, ¿cómo, con qué palabras puede explicarse que otros hayan hecho de los estadios mataderos de hombres? Si el poeta Robert Desnos, uno de los fundadores del surrealismo, cruzó los campos de exterminio, ejecutando, en las condiciones más infernales que se puedan concebir, el acto absolutamente delicado de corregir un poema de amor, ¿cómo pueden comprenderse las gasificaciones masivas, los hornos crematorios, Auschwitz? Un estudiante adicto al surrealismo, que había entrado con los partisanos checos, Josef Stuma, reconoció a Desnos entre los moribundos y recogió el poema. No contenía ninguna referencia a los campos ni a las circunstancias en que fue escrito. Era solo un poema de amor, pero precisamente porque era solo eso; un poema de amor en medio del infierno, constituye la denuncia más feroz que alguien haya hecho del horror del genocidio. El poema se llama “A la misteriosa”, y pone frente a la monstruosidad de Treblinka la imagen de un sueño. Lo leo:

“Tanto soñé contigo que pierdes tu realidad. ¿Habrá tiempo para alcanzar ese cuerpo vivo y besar sobre esa boca el nacimiento de la voz que quiero? Tanto soñé contigo que mis brazos habituados a cruzarse sobre mi pecho abrazan tu sombra, quizá ya no podrían adaptarse al contorno de tu cuerpo. Y frente a la existencia real de aquello que me obsesiona y me gobierna desde hace días y años seguramente me transformaré en sombra. Oh balances sentimentales. Tanto soñé contigo que seguramente ya no podré despertar. Duermo de pie, con mi cuerpo que se ofrece a todas las apariencias de la vida y del amor y tú, la única que cuenta ahora para mí, más difícil me resultará tocar tu frente y tus labios que los primeros labios y la primera frente que encuentre. Tanto soñé contigo, tanto caminé, hablé, me tendí al lado de tu sombra y de tu fantasma que ya no me resta sino ser fantasma entre los fantasmas, y cien veces más sombra que la sombra que siempre pasea alegremente por el cuadrante solar de tu vida.”

Opongo entonces la infinita devoción de ese poema, su insobornable pureza, a todas las crueldades de la historia, porque si la poesía de Robert Desnos no existiera, si el arte no existiera, probablemente la violencia sería la norma. Pero existe, y el solo hecho de que alguien en medio del holocausto, pudo escribir algo tan increíblemente bello como “Tanto soñe contigo que pierdes tu realidad”, hace que el crimen sea infinitamente más crimen y el asesino infinitamente más asesino.

Es lo que he tratado de mostrar en lo que he escrito. He imaginado en medio del terror de la dictadura sagas inacabables que se me borraban al amanecer, poemas alucinados donde el Pacífico flota suspendido sobre las cumbres de los Andes y donde el desierto de Atacama se eleva como un pájaro sobre el horizonte. Imaginar esos poemas fue mi forma de resistir, de no enloquecer, de no resignarme. Sentí que frente al dolor y al daño había que responder con un arte y una poesía que fuese más fuerte que el dolor y el daño que se nos estaba causando. No se trataba de lanzar andanadas de pequeños poemas de combate, sino de algo mucho más arrasado, más luminoso, más sordo y violento. Había que hablar de amor, pero para hablar de amor había que aprender a hablar de nuevo, comenzar desde cada letra, porque ninguno de los lenguajes que existían antes bastaban para dar cuenta de lo que había sucedido. Siento que los escombros de esos años están allí, en esos intentos, y que dictados por un deseo que nos sobrepasa, los poemas no son sino los sueños que sueña la tierra, los sueños con los que intenta lavarse del sufrimiento humano, y que uno no puede nada frente a eso sino apenas grabar unas pequeñas marcas, unos mínimos retazos que quizás sobrevivan al despertar.

Yo viví en Chile en los años de la dictadura y sobreviví a ella y a mi propia autodestrucción. El año 1975 después de un episodio humillante con unos soldados me acordé de la frase del evangelio de poner la otra mejilla y entonces fui y quemé la mía. No supe bien por qué lo hacía, pero allí comenzó algo. Recordé que de niño había visto un avión que volaba en círculos trazando con humo blanco el nombre de un jabón para lavar ropa e imaginé de golpe un poema escribiéndose en el cielo. Entendí entonces que aquello que se había iniciado en la máxima soledad y desesperación de un hombre que se quema la cara encerrado en un baño, debía concluir algún día con el vislumbre de la felicidad. Dos años más tarde pensé en una escritura sobre el desierto que solo pudiese ser vista desde lo alto. Solo diría “ni pena ni miedo”, y estaría surcando un país donde casi lo único que había era pena y miedo. Años más tarde vi la frase recortada sobre el desierto y, efectivamente, por su extensión solo se podía leer completa desde el cielo. Alguien reparó que el surco de las letras en la tierra se parecía al surco de la cicatriz en mi cara. Habían pasado dieciocho años y me sorprendió haber sobrevivido. Recibo esta distinción en nombre de nuestros ausentes.

Yo trabajo con mi vida y trato de que eso no sea una consigna. No porque mi vida tenga algo ejemplar, el diablo me libre de ser ejemplo de nada, sino porque creo que si podemos llegar al fondo de nosotros mismos, sin autocompasión ni falsa solidaridad, mirando nuestra zona de luz, nuestra sed de amor, pero también toda nuestra reserva de odio, violencia y de crimen, es posible que lleguemos al fondo de la humanidad entera. Creo que todo lo que puedo haber hecho está allí. He escrito desde un cuerpo que se dobla bajo los efectos del Parkinson, que se rigidiza, que tiembla, que se va para adelante y que cae y he encontrado hermosa mi enfermedad, he sentido que mis temblores son bellos, que mi dificultad para sostener estas hojas que ahora leo es bella. He escrito sobre ese cuerpo, sobre los dolores que les he causado a otros y los que yo mismo me he infligido, he grabado con fuego mis poemas sobre mi piel. Solo los enfermos, los débiles, los heridos, son capaces de crear obras maestras. Siento que he escrito desde una cierta irreparable desesperación y, a la vez, desde una incontenible alegría. Una alegría extraña porque es como si naciera de la dificultad de ser felices. Del encuentro de esos fantasmas nace mi escritura. La escritura es como las cenizas que quedan de un cuerpo quemado. Para escribir es preciso quemarse entero, consumirse hasta que no quede una brizna de músculo ni de huesos ni de carne. Es un sacrificio absoluto y al mismo tiempo es la suspensión de la muerte. Es algo concreto, cuando se escribe se suspende la vida y por ende se suspende también la muerte. Escribo porque es mi ejercicio privado de resurrección.

Decía al comienzo que esta tierra aún nos ama, todavía quiere verse en nosotros, todavía el mar, el desierto, las montañas, quieren mirarse en nuestras miradas, todavía el sonido de las rompientes y del viento quiere reconocerse en nuestros oídos, todavía sus estrellas quieren reflejarse en nuestros ojos. En sus momentos más felices mi poesía ha tratado de expresar ese amor de la tierra, no siempre ha sido así. He escrito desde la herida y del daño en un mundo herido, enfermo, sin compasión. He escrito desde el dolor, pero nuestro deber es la felicidad. He escrito desde el odio, pero nuestro deber es el amor.

Termino con el poema con que quisiera cerrar mi vida:

Entonces, aplastando la mejilla quemada / contra los ásperos granos de este suelo pedregoso -como un buen sudamericano- alzaré por un minuto más mi cara hacia el cielo / llorando / porque yo que creí en la felicidad / habré vuelto a ver de nuevo las irrefutables estrellas

Te amo Paulina, tú eres las estrellas irrefutables de mi noche.

Raúl Zurita (texto em espanhol extraído do site www.elclarin.cl )

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