poesia, tradução

Alguns poemas de Jim Morrison, por Lucas Rolim

morrison

Jim Morrison (1943-1971) foi uma das grandes presenças universais do século passado. A personalidade icônica e o espírito forte e contagiante do vocalista do The Doors marcaram a história do rock para sempre. No entanto, sua poesia – pelo menos no Brasil – ao que me parece, tem sido ofuscada pelo seu trabalho como músico. Assim, pouco ou nada se tem lido ou ouvido falar a respeito.

Em seus textos, Morrison sintetiza o peso da mensagem na leveza do verso e na simpleza das palavras, e abre um grande leque de possíveis interpretações à escolha dos que o leem, exatamente como relata no prólogo de seu livro Wilderness, de onde saíram os poemas aqui traduzidos: “(…) a verdadeira poesia não diz coisa alguma, apenas sinaliza as possibilidades. Abre todas as portas. Você pode caminhar pela que melhor lhe servir”.

Xamanismo, cultura ameríndia, expansão da consciência e transcendência da mente são temas recorrentes na poesia de Morrison, que trava em boa parte dos poemas um diálogo próximo conosco, seus leitores, talvez como parte de sua busca para livrar as pessoas de seus modos limitados de ver e sentir, como declara no final do prólogo de Wilderness.

Is anybody in? Is anybody in?

Lucas Rolim

ps: os poemas abaixo integram o livro Wilderness.

* * *

What are you doing here?
What do you want?
Is it music?
We can play music.
But you want more.
You wnat something & someone new.
Am I right?
Of course I am.
I know you want.
You want ecstasy
Desire & dreams.
Things not exactly what they seem.
I lead you this way, he pulls thay way.
I’m not singing to an imaginary girl.
I’m talking to you, my self.
Let’s recreate the world.
The palace of conception is burning.

Look. See it burn.
Bask in the warm hot coals.

You’re Young to be old
You don’t need to be told
You want to see things as they are.
You know exactly what I do
Everything

O que você faz aqui?
O que deseja?
Música?
Nós podemos tocar música.
Porém você quer mais.
Você quer algo & alguém novo.
Estou certo?
É claro que estou.
Eu sei o que você deseja.
Você quer êxtase.
Desejo & sonhos.
As coisas não exatamente como parecem.
Guio você por este caminho, ele desvia para aquele.
Não canto a uma garota imaginária.
Estou falando com você, meu eu.
Vamos recriar o mundo.
O palácio da concepção queima.

Olhe. Veja-o queimar.
Aqueça-se nas quentes brasas acesas.

Você é muito jovem pra ser velha
Não precisa que a digam
Que você quer ver as coisas como elas são.
Você sabe exatamente o que eu sei
Tudo

§

POWER

I can make the earth stop in
Its tracks. I made the
Blue car go away.

I can make myself invisible or small.
I can become gigantic & reach the
farthest things. I can change
the course of nature.
I can place myself anywhere in
space or time.
I can summon the dead.
I can perceive events on other worlds,
in my deepest inner mind,
& in the minds of others.

I can

I am.

PODER

Posso fazer a terra parar em
suas rotas. Eu fiz os
carros azuis partirem.

Posso me fazer invisível ou pequeno.
Posso tornar-me gigantesco & tocar as
coisas mais distantes. Eu posso mudar
o curso da natureza.
Posso estar em qualquer lugar no
tempo ou espaço.
Posso invocar os mortos.
Eu posso notar eventos em outros mundos,
no mais profundo de minha mente,
& nas mentes de outros.

Eu posso

Eu sou.

§

he enters stage:

Blood boots. Killer storm.
Fool’s gold. God in a heaven.
Where is she?
Have you seen her?
Has anyone seen this girl?
……………….snap shot (projected)
She’s my sister.
Ladies & gentlemen:
……….please attend carefully to these words & events
……….It’s your last chance, our last hope.
……….In this womb or tomb, we’re free of the
………………..swarming streets.
……….The black fever which rages is safely
……….out those doors
……….My friends & I come from
……….Far Arden w/dances, &
………………..new music
……….Everywhere followers accrue
………………..to our procession.
……….Tales of Kings, gods, warriors
………………..and lovers dangled like
………………..jewels for your careless pleasure

…………………………I’m Me!

Can you dig it.
My meat is real.
My hands—how they move
balanced like lithe demons
My hair—so twined & writhing
The skin of my face—pinch the cheeks
My flaming sword tongue
spraying verbal fire-flys
I’m real.
I’m human
But I’m not na ordinary man
No No No

ele sobe ao palco:

Botas de sangue. Tempestade assassina.
Ouro de tolo. Deus num paraíso.
Onde ela está?
Você a viu?
Alguém viu esta moça?
……….……….Ela é minha irmã.
Senhoras e senhores:
……….peço que prestem muita atenção a estas palavras & eventos
……….É sua última chance, nossa última esperança.
……….Neste útero ou tumba, estamos livres do
……….……….enxame das ruas.
……….A febre negra que assola está a uma distância segura
……….……….para fora daquelas portas
……….Meus amigos & eu viemos do
……….Arden distante c/danças, &
……….……….Nova música´
……….Em toda parte seguidores se ajuntam
……….……….à nossa procissão.
……….Estórias de Reis, deuses, guerreiro
………………..e amantes balançando como
………………..joias para o seu desatento prazer

……….………………..Eu Me sou!

Pode você cavar.
Minha carne é real.
Minhas mãos—como se movem
balançando como demônios ágeis
Meu cabelo—tão embaraçado & contorcendo
A pele do meu rosto—aperte as bochechas
Minha língua de espada flamejante
Espalhando vagalumes verbais
Eu sou real.
Eu sou humano
Mas não sou um homem comum
Não Não Não

§

The grand highway
is
crowded
w/
lovers
&
searchers
&
leavers
so
eager
to
please
&
forget.

Wilderness.

A grande rodovia
está
lotada
c/
os que amam
&
os que buscam
&
os que deixam
tão
preocupados
em
agradar
&
esquecer.

Selva.

§

THE OPENING OF THE TRUNK

—Moment of inner freedom
when the mind is opened & the
infinite universe revealed
& the soul is left to Wander
dazed & confus’d searching
here and there for teachers & friends.

ABERTURA DO DORSO

—Momento de liberdade interior
quando a mente está aberta & o
universo infinito revelado
& a alma livre para vagar
atordoada e confusa procurando
aqui & ali por mestres & amigos.

§

Moment of Freedom
as the prisioner
blinks in the sun
like a mole
from his hole

a child’s 1st trip
away from home

That moment of Freedom

Momento de Liberdade
quando o prisioneiro
pisca no sol
como a toupeira
de seu buraco

uma criança na 1ª viagem
longe de casa

Aquele momento de Liberdade

§

LAmerica
Cold treatment of our empress
LAmerica
The Transient Universe
LAmerica
Instant communion and
communication
lamerica
emeralds in glass
lamerica
searchlights at twi-light
lamerica
stoned streets in the pale dawn
lamerica
robed in exile
lamerica
swift beat of a proud heart
lamerica
eyes like twenty
lamerica
swift dream
lamerica
frozen heart
lamerica
soldiers doom
lamerica
clouds & struggles
lamerica
Nighthawk
doomed from the start
lamerica
“That’s how I met her,
lamerica
lonely & fozen
lamerica
& sullen, yes
lamerica
right from the start”

Then stop.
Go.
The wilderness between.
Go round the march.

LAmérica
Tratamento frio de nossa imperatriz
LAmérica
Universo Temporário
LAmérica
Imediata comunhão e
comunicação
lamérica
esmeraldas no vidro
lamérica
holofotes ao crepúsculo
lamérica
ruas chapadas no pálido amanhecer
lamérica
roubada no exílio
lamérica
batimento acelerado de um coração orgulhoso
lamérica
olhos como vinte
lamérica
ligeiro sonho
lamérica
coração congelado
lamérica
perdição dos soldados
lamérica
nuvens & batalhas
lamérica
Águia da Noite
condenada desde o início
lamérica
“Assim a conheci,
lamérica
solitária & no frio
lamérica
& mal-humorada, sim
lamérica
bem desde o início”

Então pare.
Vá.
A selva no meio.
Vá em torno da marcha.

(trad. Lucas Rolim)

* * *

Lucas Rolim nasceu e vive em Teresina (PI), onde produz junto aos outros poetas do coletivo “Tensão, Tesão & Criação”, eventos cujo núcleo centraliza-se na poesia e em seus desdobramentos. Veicula seus textos através de impressos e publicações artesanais independentes. É autor dos fanzines poéticos Tetrapoemas (três volumes, 2015), Esquizofrenia (2015), No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2016) e Besouro (org. em parceria com Demetrios Galvão, vol. 1, 2016). Também apareceu em jornais, blogues e revistas eletrônicas.

e-mail: olucasrolim@outlook.com
facebook: fb.com/olucasrolim

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poesia

3 poemas inéditos de Matheus José Mineiro (1988-)

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Matheus José Mineiro (1988, Zona da Mata de Minas Gerais) integra a Oficina de Experimentação do Poema/MG. Em 2013 lança seu primeiro livro A Cachoeira do Poema na Fazenda do Seu Astral/Selo Tomate Seco. Confecciona artesanalmente a Apologia Poética. Produz o fanzine Estrondo na Bolsa Fetal. Já participou da Off Flip/Paraty, Mostra Poesia Agora/MLP/SP, Poesia F.C/Sesc Campinas, Amostra Grátis/Geringonça/Norte Comum, Interferência Poética/Sesc Tijuca. Publica em jornais e revistas online e impressas do Brasil e Portugal. Estes poemas estão em seu livro editado pela Editora Urutau com titulo Galáxia Pupila.

* * *

é para aproximar o ouvido
no tórax de algum poema
e escutar a manta terrestre
com seus ovários
e toda a formação de rochas,
…………….metais e minerais.
escutar o século,
este velho ferreiro de siderúrgica
fundindo ferro e aço
reaproveitando as altas temperaturas
………………..das nossas cabeças.
cabeça invadida por bisturi cesariano,
esta caixa craniana,
morro sem calçamento,
ladeira para a procissão do rosário,
parede para projeção de curtas-metragens,
quintal para algum ritual místico,
muro para estêncil, cartaz e marretadas.

a cabeça da gente,
a rodovia onde duas carretas se colidem,
o colchão onde um anjo e um demônio
se amaram na primeira madrugada do mundo.

§

olhos que exibem dois curtas-metragens
……………..castanhos cor de amêndoas.
visão caleidoscópica multicolorida de cores
…………………………………………………………..tranquilas.
enthousiásmos e poiésis versus tripalium.
cinema vertebrado projetado nas paredes
………………………..das minhas retinas
ao som do chuvisco e do granizo
rapelando as telhas de amianto
 ………………………..da minha cabeça.
ouço coríntios 13 entre a eucaristia
……………………………………..e a metalurgia
e é como se instalasse no meu corpo
a musculatura dos braços de um babuíno.

permanecemos em busca de átomos de oxigênio
………………………..diante desse sufocamento,
suco de melão morfina para um mofo morfeu,
bulbo de papoula e chá de erva-doce,
pois anseiam arremessar-nos no estômago
da fornalha de algum nabucodonosor,
na colônia penal ou
chumbar-nos na la nef des fous do bosch.

mas estesia, êxtase, transe, delírio,
………….pasmo, catarse, purgação
são princípios ativos, são acessórios bélicos afetivos
que o poema possibilita na subsistência.

§

quando aquela cabra terminar de mastigar
.o calcanhar daquele horizonte,
de mastigar a costela daquele pasto,
descerá do barranco; deixará de ruminar
o capim-gordura e a aridez do azul
……………………….por um minuto
para ruminar todas as nossas expectativas,
…………………………….neurônio por neurônio.
enquanto prossegue a cidade,
esta ferida aberta com martelete demolidor;
a cidade,
estes 6 gansos gritando no quintal do seu crânio.

este sono sem pálpebra.
este choro sem retina.
este grito sem amígdalas.

e a joaninha atravessa sossegadamente
………………………………………..o engarrafamento
mastigando a folhagem esverdeada das palavras,
cruza o mapa e a perturbação metálica
……………………………………………da metrópole;
esta pressa que foi embutida na nuca
como armário de cozinha
com o aço corroído.

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4 poemas inéditos de Tarso de Melo

tarso-2016

Tarso de Melo (1976) é poeta, autor de diversos livros reunidos em Poemas 1999-2014 (Dobra/E-galáxia, 2015). Os poemas acima, inéditos, fazem parte de um novo livro, ainda sem nome, que pretende lançar em 2017. Amanhã ele completa seus 40 anos, e hoje aqui temos hoje 4 poemas inéditos, presente dele para nós.

guilherme gontijo flores

* * *

Quatro poemas

I [canto]

com os pés descalços sobre o país em que nasci
arrasto ideias como correntes de um canto a outro do território
que cabe em minha mente e caio caio caio
arrasto o peito nas inscrições que o passado deixou em cada pedra
espalho o sangue dos ancestrais que desconheço
escrevo inscrevo gravo guardo os segundos nas mangas de mágico
da camisa intocável que resiste ao arrasto
pela geografia desses solavancos em que meu canto quieto pasto

II [vizinho]

Dizem que ele mora aí. Atrás das placas antigas, das folhas metálicas, dos vidros que se foram. Dizem que ele faz a barba, mima o cachorro, continua a polir loucamente o ferro que resta. Ninguém sabe quando decidiu trazer sua casa para cá – ou fazer dessa kombi sua morada. Ao que consta, é apenas o cachorro que o impede de viver só, como a velha perua o impede de viver ao relento. Não escolheu praia, mata, duna. Apenas a sombra de prédios imensos e de algumas árvores que sobraram no bairro. Não sei de onde tira vontade para pentear o cabelo, não entendo o rosto polido. O asseio com que espalha e emenda os cobertores de alumínio camuflando o carro contra os olhos sabe lá de quem. Passo uma, duas, três vezes por ele – acampo a atenção à volta de sua vida. Por um momento penso em dizer bom-dia, mas fico imaginando se não foi um bom-dia que o fez querer viver aqui.

III [para uma foto de Anibal e Marina]

o sorriso que vai entre os dentes que faltam
não é por menos: há amor, ali, pelas frestas
e ele sai pelos olhos, ora sépia, ora magenta,

e é estranho encarar tanto sol na tela fria

IV [feitio de oração]

acordo todos os dias e procuro o sol
faz tempo que não nasce aqui um poema
uns me pedem, eu me peço, cobras me cobram
um poema, sabe, que pegue assim a palavra ouvida de passagem
e quem sabe a passagem entreouvida
e parta daí para o lugar em que consiga dizer algo
encaixar um som, uma trama, desarmar, desatar-se

desaparecer

 

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tradução

“Belos perdedores” de Leonard Cohen (1934-2016), por Luciano R. Mendes

leonard-cohen

Todos sabem quem é Leonard Cohen, não preciso apresentá-lo, & todos sabem que os imensos também se vão, como ele se foi este ano. Então vai aqui, ainda que tardia, uma homenagem via escamandro: a tradução de um trecho de Beatiful losers, segundo e último romance de Cohen, publicado em 1966, que serve como uma mostra (para os que acham que compositores não são escritores) da escrita stricto sensu de um poeta oral. A versão foi feita por Luciano R. Mendes, que tem participado de tempos em tempos deste espaço.

guilherme gontijo flores

* * *

Belos perdedores

Livro um: a história deles todos

1

Catherine Tekakwitha, quem é você? Você é (1656-1680)? Isso basta? Você é a Virgem dos Iroqueses? Você é o Lírio das Margens do Rio Moicano? Será que eu posso te amar à minha própria maneira? Eu sou um velho estudioso, mais bonito agora do que quando era jovem. É isso o que sentar sobre a própria bunda faz à sua cara. Eu vim atrás de você, Catherine Takakwitha. Eu quero saber o que acontece debaixo desse lençol rosado. Eu tenho algum direito? Eu me apaixonei por uma imagem religiosa de você. Você parada entre bétulas, minha árvore favorita. Sabe Deus até que altura seus mocassins estavam amarrados. Tinha um rio detrás de você, sem dúvida o Moicano. Dois pássaros no canto esquerdo que iam ficar muito felizes se você fizesse carinho em suas gargantas brancas ou mesmo se você os usasse como um exemplo de uma coisa ou outra numa parábola. Eu tenho algum direito de vir atrás de você com a minha mente poeirenta, cheia da porcaria de uns cinco mil livros? Eu sequer vou pro interior com alguma frequência. Você pode me ensinar sobre folhas? Você sabe alguma coisa sobre cogumelos narcóticos? Lady Marilyn morreu faz uns poucos anos. Será que posso dizer que algum velho estudioso, daqui a quatrocentos anos, talvez de meu próprio sangue, vai vir atrás dela como eu vim atrás de você? Mas agora você deve saber mais sobre o paraíso. Ele se parece com um daqueles altarzinhos de plástico que brilham no escuro? Eu juro que não ligo se for. E as estrelas, são pequeninas no fim das contas? Será que um velho estudioso pode finalmente encontrar o amor e parar de ter que bater uma toda noite pra conseguir dormir? Eu até deixei de odiar os livros. Eu esqueci a maior parte das coisas que eu li e, francamente, jamais pareceu algo muito importante pra mim ou pro mundo. Meu amigo F. costumava dizer com seu jeito animado: Temos que aprender a parar corajosamente na superfície. Temos de aprender a amar as aparências. F. morreu em uma cela acolchoada, o cérebro apodrecido de tanto sexo sujo. O rosto dele ficou preto, eu vi isso com meus próprios olhos, e dizem que não sobrava muita coisa do pau dele. Uma enfermeira me contou que parecia a parte de dentro de um verme. Salut, F., velho e barulhento amigo! Eu me pergunto se a sua memória vai durar. E você, Catherine Tekakwitha, se você precisa saber, eu sou humano o suficiente pra sofrer de constipação, recompensas de uma vida sedentária. É de se espantar que eu tenha mandado o meu coração pras bétulas? É de se espantar que um velho estudioso que nunca ganhou muito dinheiro queira se enfiar no seu cartão postal em Technicolor?

2

Eu sou um folclorista conhecido, uma autoridade nos A______s, uma tribo que não tenho nenhuma intenção de desgraçar com meu interesse. Existem, talvez, uns dez A_______s puro sangue sobrando, quatro deles meninas adolescentes. F. se aproveitou de meu status antropológico para foder todas as quatro. Meu velho amigo, você fez por merecer. Os A______s parecem ter surgido no século quinze, ou, pelo menos, um bom tanto da tribo. Sua breve história é marcada pela derrota incessante. O próprio nome da tribo, A______s, é a palavra para cadáver nas línguas de todas as tribos ao redor. Não há registros de essa tribo desafortunada jamais ter ganho uma única batalha, enquanto que as canções e os mitos de seus inimigos não são senão um sustentado uivo de triunfo. Meu interesse por esse acúmulo de falhas entrega meu caráter. Quando emprestava dinheiro de mim, F. costumava dizer: Obrigado, seu velho A______! Catherine Tekakwitha, você escuta?

3

Catherine Tekakwitha, eu vim te salvar dos jesuítas. Sim, um velho estudioso ousa pensar grande. Eu não sei o que eles estão dizendo sobre você nesses dias porque meu latim já não presta. “Que le succès couronne nos espérances, et nous verrons sur les autels, auprès des Martyrs canadiens, une Vierge iroquoise – près des roses du martyre le lis de la virginité.” Uma nota de um tal Ed. L., S.J., escrita em agosto de 1926. Mas de que importa? Eu não quero carregar minha velha vida beligerante em minha jornada rio Moicano acima. Marchando, Companhia de Jesus! F. disse: um homem forte não pode outra coisa que não amar a Igreja. Catherine Tekakwitha, de que importa se fizemos um afresco de você? Atualmente eu estou estudando as instruções de uma canoa de casca de bétula. Seus parentes esqueceram como fazê-las. E daí se tiver uma reprodução em plástico do seu corpinho no painel de cada taxi de Montreal? Não pode ser algo ruim. O amor não pode ser encaixotado. Há um pedaço de Jesus em cada crucifixo feito? Eu acho que sim. O desejo muda o mundo! O que é que faz com que o lado da montanha do Bordo fique vermelho? Paz, fabricantes de tranqueiras religiosas! Você manuseiam material sagrado! Catherine Tekakwitha, você vê como me deixo levar? Como quero que o mundo seja místico e bom? E as estrelas, são pequeninas no fim das contas? Quem vai nos colocar pra dormir? Eu deveria economizar minhas unhas? A matéria é sagrada? Eu quero que o barbeiro enterre meu cabelo. Catherine Tekakwitha, você já está trabalhando em mim?

(trad. Luciano R. Mendes)

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poesia, tradução

Barbara Guest (1920-2006), por Guilherme Gonçalves

barbara-guest

Barbara Guest foi uma poeta, ensaísta e romancista norte-americana, cuja obra corta as últimas quatro décadas do século XX. No final dos anos 1950, participou da cena-movimento da New York School, sendo a única poeta, mulher, associada às publicações do grupo. Colaborou com diversas revistas, como a Art News, através de artigos sobre pintura e poesia moderna, nos quais discute a influência do expressionismo abstrato e propõe uma poesia ligada ao imagismo e à reflexividade da linguagem, com ênfase sobre a noção de superfície, tomada das artes plásticas.

Nieves Alberola Crespo, professora de estudos ingleses da Universitat Jaume I, sugere que os versos de Guest implicam uma “respiração rápida”, devido à intensidade do ritmo e à captura da expectativa por meio da tensão entre narrativa e abertura imagética. A poeta Juliana Spahr observa o equilíbrio entre a força expressiva e a dilatação da linguagem, que fazem de Guest uma poeta lírica e uma esteta minuciosa. Este equilíbrio situaria sua escrita em um gesto de renovação tanto do subjetivismo da vertente confessional como da compressão simbolista dos discípulos do new criticism

Atravessando gêneros como poesia, narrativa, teatro, ensaio e biografia, sua obra se caracteriza pelo borramento das fronteiras entre os campos em direção a uma escrita integral. São alguns dos títulos: I Ching: Poems and Lithographs, The Tuerler Losses, Fair Realism, Defensive Rapture, Stripped Tales, Rocks on a Platter: Notes on Literature, Seeking Air (romance) e Herself Defined: The Poet H. D. and Her Word (biografia).     

Alguns de seus poemas, como é o caso de Parachutes my love could carry us higher, tornaram-se populares entre jovens leitores de língua inglesa e frequentam o repertório de riffs dos encontros de leitura, bem como as cartas e diários daqueles que, em sua expressão, caem em amor.

Parachutes my love could carry us higher e Safe flights pertencem a seu primeiro livro, The Location of Things (1960). Invisible Architecture compõe os escritos desbordados de Forces of Imagination: Writing on Writing (2003).

Referências:

American women poets of the 21st Century: where lyric meets language / edit. por Claudia Rankine e Juliana Spahr. Middletown: Wesleyan University Press, 2002.          

Alberola Crespo, María Nieves. La Escuela de Nueva York, John Ashbery y la nueva poética americana. Castelló de la Plana: Publicacions de la Universitat Jaume I, 2000.

https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poets/detail/barbara-guest

Guilherme Gonçalves 

Parachutes, My Love, Could Carry Us Higher

I just said I didn’t know
And now you are holding me
In your arms,
How kind.
Parachutes, my love, could carry us higher.
Yet around the net I am floating
Pink and pale blue fish are caught in it,
They are beautiful,
But they are not good for eating.
Parachutes, my love, could carry us higher
Than this mid-air in which we tremble,
Having exercised our arms in swimming,
Now the suspension, you say,
Is exquisite. I do not know.
There is coral below the surface,
There is sand, and berries
Like pomegranates grow.
This wide net, I am treading water
Near it, bubbles are rising and salt
Drying on my lashes, yet I am no nearer
Air than water. I am closer to you
Than land and I am in a stranger ocean
Than I wished.

(em The Location of Things, 1960).

Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto

Eu disse que não sabia
E agora você me segura
Em seus braços,
Que gentil.
Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto.
Mas em volta da rede flutuo,
Peixes rosas e azul-claro caem nela,
Eles são bonitos,
Mas não são bons para comer.
Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto
Que este meio-ar em que trememos,
Tendo exercitado nossos braços nadando,
Agora a suspensão, você diz,
É delicada. Eu não sei.
Tem coral debaixo da superfície,
Tem areia, e bagas
Crescem como romãs.
Esta grande rede, estou pisando água
Perto dela, bolhas sobem e sal
Secando meus cílios, e não estou mais próxima
Do ar que da água. Estou mais perto de você
Que a terra e num oceano mais estranho
Do que eu quis.

§

Safe Flights

To no longer like the taste of whisky
This is saying also no to you who are
A goldfinch in the breeze,
To no longer wish winter to have explanations
To lace your shoes in the snow
With no need to remember,
To no longer pull the two blankets
Over your shoulders, to no longer feel the cold,
To no longer pretend in the flower
There is a secret, or in the earth a tomb,
And no longer water on stone hurting the ear,
Making those five noises of thunder
And you tremble no longer.
To no longer travel over mountains,
Over small farms
No longer the weather changing and the atmosphere
Causing delicate breaks where the nerves confuse,
To no longer have your name shouted
And your birthmark again described,
To no longer fear where the rapids break
A miniature rock under your canoe,
To no longer repeat the mirror is water,
The house is a burden to the weak cyclone,
You are under a tent where promises perform
And the ring you grasp as an aerialist
Glides, no longer.

(In: The Location of Things, 1960).

Voos seguros

Não mais gostar do sabor do uísque
Isto está dizendo não também para você que é
Um pintassilgo na brisa,
Não mais esperar do inverno explicações
Amarrar seus tênis na neve
Sem precisar lembrar,
Não mais puxar os dois cobertores
Sobre seus ombros, não mais sentir o frio,
Não mais fingir na flor
Um segredo, ou na terra um túmulo,
E não mais água em pedra ferindo a orelha,
Fazendo aqueles cinco sons de trovão
E você não mais tremer.
Não mais viajar sobre montanhas,
Sobre pequenas fazendas
Não mais o tempo virando e a atmosfera
Causando quebras delicadas onde os nervos confundem,
Não mais ter seu nome berrado
E sua marca de nascença descrita novamente,
Não mais temer onde as corredeiras quebram
Uma pedra miniatura debaixo da sua canoa,
Não mais repetir o espelho é agua,
A casa é um fardo para o ciclone sem força,
Você está debaixo de uma tenda onde promessas encenam
E o anel que você agarra como trapezista
Desliza, não mais.

(In: The Location of Things, 1960).

§

Invisible Architecture

                 There is an invisible architecture often supporting
   the surface of the poem, interrupting the progress of the poem. It reaches
into the poem
in search for an identity with the poem,

its object is to possess the poem for a brief time, even as an apparition appears. An invisible architecture upholds the poem while allowing a moment of relaxation for the unconscious. A  period of emotional suggestion,     
  of lapse,
of reliance on the conscious substitute words pushed toward the bridge of the architecture.     An architecture in the period before the poem finds an exact form and vocabulary—,

   before the visible appearance of the poem on the page and the invisible approach to its composition. Reaching out to develop the poem there are interruptions, some apparently for no reason—something else is happening   the poet has no control—the poem begins to quiver, to hesitate, to become insubstantial   the desire of poetry   to elevate itself, to become stronger. The poem is fragile. It needs to reach through the armed vehicle of the poem,

                                        to loosen the armed hand.

Losing the arrogance of dominion over the poem to an invisible hand, the poet campaigns for a passage over which the poet has control. Yet the unstableness of the poem is important.
                Also the frequent lapses of control of the poem.
The writer only slowly retains power over the poem, physical power, when the poem breaks away from the authority of the invisible architecture.

This invisible authority may be the unconscious that dwells on the lower level, in a substratum beneath the surface of the poem and possesses its own reference. A fluidity only enters the poem when it becomes more openly aware of itself.

By whom or by what agency is the behavior of the poem suggested, by what invisible architecture, we ask, is the poem developed. The Surrealists taught us to wander freely on the page, releasing mechanical birds, if we so desire, to nest in the invisible handwriting of composition. There is always something within poetry that desires the invisible.

The desire of the poet to control. This control was earlier destructive to the interior of the poem, to its infrastructure. There is something deliberate about this practice of control by the conscious. It includes the question that is undefined, the behavior of the poem. By whom or by what agency is this decided, by what invisible architecture is the poem developed?

(In: Forçes of Imagination: Writing on Writing, 2002).

Arquitetura Invisível

Existe uma arquitetura invisível frequentemente sustentando
a superfície do poema, interrompendo o progresso do poema. Ela chega
no poema
em busca de uma identidade com o poema,

seu objetivo é possuir o poema por um tempo breve, assim como uma aparição
aparece. Uma arquitetura invisível suspende o poema permitindo um momento de
relaxamento para o inconsciente. Um período de sugestão emocional, de
lapso,
de confiança no substituto consciente que as palavras empurraram pela ponte da arquitetura. Uma arquitetura do período anterior ao poema achar exatos
forma e vocabulários-,

antes da aparência visível do poema na página e da invisível entrada em sua composição. No desenvolvimento do poema há interrupções, algumas sem razão aparente – outra coisa está acontecendo a poeta não tem controle – o poema começa a tremer, a hesitar, a tornar insubstancial o desejo da poesia de elevar-se, de tornar-se mais forte. O poema é frágil. Ele precisa atravessar o veículo armado do poema,

para liberar a mão armada.

Perdendo a arrogância de domínio do poema para uma mão invisível, x poeta faz campanha por uma passagem sobre a qual x poeta tem controle. Mas a instabilidade do poema é importante.
Também os constantes lapsos de controle do poema.
X escritorx apenas retém, lentamente, poder sobre o poema, poder físico, quando o poema rompe com a autoridade da arquitetura invisível.
Esta autoridade invisível pode ser o inconsciente que habita o nível mais baixo, em um substrato sob a superfície do poema e possui sua própria referência. A fluidez entra o poema apenas quando ele se torna mais abertamente consciente de si.

Por quem ou por que agência o comportamento do poema é sugerido, por que arquitetura invisível, perguntamos, o poema é desenvolvido. Os surrealistas nos ensinaram a vagar livremente pela página, libertando pássaros mecânicos, se assim desejarmos, para aninhar na caligrafia invisível da composição. Tem sempre algo dentro da poesia que deseja o invisível.

O desejo dx poeta por controle. Este controle era antes destrutivo para o interior do poema, para sua infraestrutura. Tem algo deliberado sobre essa prática de controle pela consciência. Ela inclui a questão que é indefinida, o comportamento do poema. Por quem ou por que agência isto se decide, por que arquitetura invisível o poema é desenvolvido?

* * *

Guilherme Gonçalves (1983) é professor, pesquisador e músico. Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-Rio, com pesquisa em sociologia da arte. Atua como professor de escrita e ciências humanas em bibliotecas e centros culturais do Rio de Janeiro, junto da Oficina Experimental de Poesia e do projeto Turista Aprendiz.

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poesia

Rita Isadora Pessoa (1984-)

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Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, em 1984, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Seu primeiro livro de poesia a vida nos vulcões foi lançado no final de agosto de 2016, pela Editora Oito e Meio.

 

sergio maciel

* * *

Noir

faço votos
para que o talho
[a ferida melódica
no teu discurso]
trespasse o teu gesto
no escuro
e afugente de vez
o mal.

porque nos fulge
um apelo
ao corpo
cósmico
deste universo de avalanches
que nos cobrem
em gloriosa aventura
de facas de cozinha escondidas
às pressas
e comprimidos,
e chuveiros ligados
e tempestades elétricas
acuadas em apartamentos
de dois cômodos, sem rotas
de fuga.
tenho tido soluços, arrepios
na base da espinha dorsal,
na base               da questão.
tenho esperado, com insistência febril
por uma revolução sonar
de            decibéis                     inaudíveis;
tenho implorado      re-pe-ti-da-men-te
por      um romance      policial           noir
e pela existência de norma desmond
compacta
em minha mão
imbuída
de todas
as más intenções.

não tenho certeza se
caibo
nesta pequena vida
que       diviso por entre
a janela da sala,
por entre nesgas de compromissos
e heteronormatividades de conduta
e filhos gêmeos – ainda não
nascidos.

 

 

 

ana c.,
não é bem verdade
que virar do avesso é, de fato,
uma experiência
mortal.

porque eu preciso da dúvida
: dessa incerteza corriqueira,
[essa, sim, letal]
sobre a existência de algo
verdadeiro,
sobre a existência de algo
verdadeiro, sobre a existência
de algo verdadeiro
que resista.
sobre a existência que resista
a algo de verdadeiro, eu-preciso-da dúvida
que resista
a algo de verdadeiro
sobre a existência.

 

§

antimusa

aquela que traz,
nas cartas de baralho,
notícias sobre a vida silenciosa nos vulcões;
a cigana verdadeira das suas repetições seriadas.
com pés de mujique e linhas siamesas
para você, morcego siciliano que gastou sua melhor poesia
com as anteriores: valquírias, rosas, lobas e todas
as meninas prodigiosas, musas indiscutíveis;
sua barba ensopada de sangue, seus sonetos escandinavos,
suas certezas de amor jurado na carne trêmula.

mas eu, eu tenho um passado romeno; um coração eslavo
de proporções gregas, com colunas e templos em ruínas.
partilho minhas agruras conjugais com a moça alta da padaria,
seus dois filhos e casa na baixada, anulada entre tijolos e turnos.

mais ainda, minha alma não é legível,
passível de ser extraída em formato compatível.
paga-se um preço pela serenidade doméstica,
serenamente; um holograma ornamental,
esvaziado e preenchido,
repetido até a exaustão dos nossos membros difusos.

a inconsistência de conteúdo
do amor há que ser forma
e caminho.
uma forquilha aos pés de cabra
onde desdobram barbatanas, justo no lugar que havia
apenas respiração
e um breve entorpecimento noturno
da pele.

§

um casamento romeno

quando penso em você
eu me lembro
do som ininterrupto
de patas e correntes
resvalando sobre
a terra batida
do encantador
de ursos
empoleirado
com seu acordeão
longínquo se afastando
do vilarejo
para retornar no verão
seguinte com o mesmo urso
sempre o mesmo urso
a mesma intenção oculta
a fome do bicho
a dança notável do bicho
impressionante
o mesmo urso

me lembro de quando
anoitecia
e a avó ladrava
para eu sair logo da rua
e voltar
para perto
do        fogo
pois aquela era
a hora
dos morcegos
dos mosquitos
das criaturinhas aladas
que voam suicidas
em direção à luz

eu me lembro claramente
do dia do nosso casamento
os sinos dobrando em dois
eu me dobrando em duas
de dor         de desterro
o som dos pratos quebrados
as moedas voando sobre nós dois
os votos de boa fortuna
dos anciões
em vão

our big fat romanian wedding
um matrimônio italiano à leste
de bucareste

nem a teoria do multiverso
explicaria nossa presença nesta
tragicomédia a lakusturica

mas escrever sobre o amor
é como fundar um país íntimo
deslocado                     à parte
de um domínio continental
operante

 

escrever sobre o amor
é como violentar um poema
no seu cerne
de crisálida
quase sem pele
ainda sem asas

e partir sem nada
mais à leste
do que antes

porque escrever sobre você
me faz lembrar de coisas
que eu não deveria lembrar
escrever sobre você
é sempre esse problema:
o choque de metalinguagens
o urso, as patas,
o roteiro cinematográfico
desandado, o fogo, o sangue
as asas.

§

primavera autocrata politeísta apocalíptica

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

 

aqui nos movemos
na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

§

sobre o incidente de emagrecer 5kge se tornar uma serpente mítica grega por alguns dias

escrevo este poema
neste estado de cetose
química
que nada mais é do que
o termo médico
para quando o corpo
resolve devorar a si próprio
[como a serpente ouroboros
que engole a própria cauda
infinitamente non stop]
depois de um período de privação
de carboidratos
simples
ou complexos
[ou depressão anoréxica]
ou simplesmente
um jejum prolongado

aqui
entre estas doze paredes
e suas incontáveis quinas
arestas ângulos agudos
o b t u s o s
[eu contei todos esses dias]
não há amor
não há sombra
nem carboidratos
é a porra da terra devastada
do eliot

só há esta luz que penetra
tornando tudo nítido demais
as cores primárias demais
essa saturação insuportável
onde estão os fiftyshades de
qualquer maldita cor que seja?
quem diria que a sutileza
se perdia
junto com os carboidratos?
‘um nevoeiro mental’ o médico disse
‘é um dos sintomas
você vai ver’
significa que está funcionando
e em breve
esse peso também irá embora
[mas não]

eu vejo mesmo todos os contornos
não há nada difuso aqui
nem nevoeiro nem sombra
eu vejo todos os contornos
excessivamente
quero rasurá-los

mas        eles se recompõem
quando eu não estou olhando

§

devagar

com o pensamento em Ana C.

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
por outro

a pele
por outra

flor

escrita nas imediações
das catástrofes naturais

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