poesia

Um poema inédito de Ricardo Escudeiro

Foto_ricardo escudeiro

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Atua como assistente editorial na Patuá. Organizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, as exposições “A mecânica do livro no espaço – piloto”, na Casa da Palavra, em Santo André (2016) e “A mecânica do livro no espaço – segundo movimento”, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em São Paulo (2017). Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, LiteraturaBr, Revista 7faces, Flanzine (Portugal), Revista Gueto, Enfermaria 6 (Portugal), Poesia avulsa, Poesia Primata, Mallarmargens, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique e já apareceu aqui no escamandro com um poema.

***

Á no apequenópolis

 “Somebody save me
Let your warm hands break right through
Somebody save me
I don’t care how you do it
Just stay”

(Remy Zero)

 

você pode até ser um deus ou um narrador construtor
desses de fazer as coisas todas de mundos
em tais dias e tais noites
pra nem falar em números
você pode até ser um deus ou um narrador desses
mono
desses das onisciências e das onipotências e das onibenevolências
pra nem falar em presenças

e é bom não é

eh

mas você já sentiu a sensação assim em pleonasmo mesmo
de colar na favela depois da tempestade de vento
ou qualquer outro evento menos ou mais supersticioso
menos ou mais dos cunhos dos cataclismos
enfim depois
que qualquer coisa menos ou mais deífica
terminou com os barracos os negócios todos destroçados
será que você já sentiu a sensação
de olhar na cara das parça e dos parça da mãe e do pai
depois de despejarem
a última das latas de concreto na armação da laje
a sensação de reerguer uma casa
que é em outras línguas talvez não do ramo
da árvore das mais cultas ou mais hebraicas
re construir e ou criar pela segunda vez
a sensação de se sentir não um deus um
sei lá o quê acima de tudo

aqui só a sensação de sentir as mãos por igual cravejadas
na brita e pela brita
sentir pesados todos os seus antebraços num movimento

as caras entre as mãos como um dos nomes coletivos de cansaço

que aqui se atende o que pedem com presença
às vezes local às vezes periférica
aqui esquece essa de réstias de céus fisgando o solo
aqui nos damos aqui o que se oferece é isso
um dos nomes coletivos de força
pendurar-se na espessura dos alicerces

*

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poesia

Taís Bravo

tb

Taís Bravo é escritora e tradutora em formação. Autora do livro digital Todos os meus (ex) heróis são machistas. É uma das criadoras e editoras de conteúdo da Mulheres que Escrevem.

***

Uma aprendizagem

O que você não sabe
é uma arma
disponível
O objeto vazio tem o privilégio
de transportar questões
até o risco de uma primeira palavra
desordenar o paraíso
A didática é um meio
que você adora desfrutar
inteiramente
você goza quando acredita
que me possui
e eu no ponto em que não sei
onde termino

§

Invenção

eu amo coisas
brutais
você me diz
a verdade
com violência
inequívoca
a linguagem se faz
diariamente
em reparo
e aposta
ainda me delicio
entre os papéis
decoro
eu também
te amo

§

por tão pouco
você não chegou
na hora certa
eu fiquei
por tão pouco
eu fico
tentando medir
a flexibilidade dos contornos
reduzir
as proporções
caçar
esse fio aflito
o que antecede o acontecimento
quando as coisas deixam de ser
por tão pouco
aquela pilha de fliperama
eu fui uma filha amada
sempre consegui meus bichos
sem precisar do horror dos jogos
agora calculo o peso dos dedos
forço a vista para acertar em cheio
o timming das presas
eu treino
diariamente
mas a orelhinha é fraca pra segurar um corpo inteiro
bem na hora de me aproximar escapa
por tão pouco
o jogo acaba
deixando tão mais do que a perda

§

Um conceito de entrega

em inglês
crush
é um verbo e um objeto
você pode possuir e quebrar algo
mas dizer que ele é seu
crush
só é possível na minha língua
onde as mutações são mais intensas
diante do tormento
que se inicia na queda
encaramos a suspensão
dos nomes que não evocamos
por um lugar aberto
na minha língua
crush se personifica
é uma multidão
impõe disputas
entre gestos efêmeros
pegar ou ficar
torna-se dominante
pelo ranger dos dentes
este ponto preciso
quase nada extenso
sussurrando
a irresistível forma
de um abandono

§

esse coração é meu ou seu?
no dia em que soube ir embora
atravessou o solo
alinhada aos mapas
de cada uma das estações
não soube contar quantas
nunca saltou
a proximidade parecia tão ilusória
quanto o movimento
constantemente atrelado a um ponto
o sangue corre mas retoma
tão perto jamais sendo o mesmo
ali às 06 da manhã
era um luxo qualquer centímetro
livre como não seria
naquele instante
atenta a um vão irrevogável
a solidificação da perda
a possibilidade de nunca mais
ter acesso a uma outra pele
ficam então os acenos estranhos
às geometrias já não íntimas
reconhecimento de um rosto que foi mas não é
um borrão colado a toda forma de vontade
as tardes em que desfiar o limite
era um excesso avesso à invasão
diária do que queremos mas não podemos
ocupar era um trecho em que ser tinha outra função
não queria dizer o que sabia
mas sentia muito mais forte os batimentos
e a certeza de que sim
aquela insistência era só sua

*

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tradução

Haicai da rã, de Bashô, por Matheus Mavericco

basho_sapo

A internet funciona assim: você está lendo um texto, por exemplo este, clica em dois links, por exemplo esse aqui e esse aqui, e então sua cabeça estoura. Dezenas de traduções, paródias e paráfrases para um poema composto de dez caracteres nipônicos, desses que um tatuador entediado gravaria no seu cóccix em quinze minutos no máximo.

O nome disso, caso alguém repare e resolva perguntar, é haicai, poeminha de três versos na medida certa pra que a gente apoie o rosto na palma da mão. Do ponto de vista formal ele deve contar com um total de dezessete sons para que assim seja declamado de uma só vez, o que, na prática, faz com que seu recorte canônico disponha cinco sílabas no primeiro e no terceiro verso e sete sílabas no segundo, ou, caso queiramos variar a indumentária, quatro no primeiro e no terceiro e seis no segundo.

Para Alice Ruiz, a melhor definição de haicai é aquela que o caracteriza como fotografia em palavras, onde o que se capta é a natureza e não os nossos sentimentos: “O fotógrafo não aparece na foto, mas sua sensibilidade sim.” A comparação com a fotografia também é feita por Masuda Goga, quando diz: “O haicaísta atento capta a instantaneidade, qual apertar o botão da câmera.” Curioso, não acha? Onde está o espaço para o “Eu te gosto, você me gosta” a que se referia Drummond? Seria o caso de dizermos que o haicai é um tipo de poesia concisa a ponto de esquelética, um correlato nipônico para sonetos que cabem numa casca-de-noz?

Não. As origens do haicai remetem ao chamado hokku, estrofe inicial de sequências poéticas escritas em conjunto. A grande questão, todavia, é que o haicai é visto na cultura japonesa como um dos caminhos possíveis para que se possa experimentar o zen. Do mesmo modo que o caminho da espada ou o caminho do chá, a visão de mundo implícita no haicai é arredia aos espalhafatos com que tentamos orná-lo assim que tomamos nota de sua existência.

Estou tentando ser o mais sucinto possível ao explicar o haicai pra vocês, mesmo porque o núcleo daquilo que o haicai é acaba não sendo teoricamente complexo, algo que necessite de notas de rodapé remetendo a um ensaio obscuro do Derrida. O haicaísta… Como dizer? Ele parece entender que não passa de um bicho da terra tão pequeno, e neste sentido é que se vê integrado à natureza quase como um Richard Rasmussen conhecendo o ecossistema de uma floresta com base na consistência da bosta.

Daí que a transitoriedade de todas as coisas (o famoso “tudo passa, meu amigo”) ganha relevo especial para o haicaísta. Quando pigmentos coloridos surgem nos ramos de uma árvore, ele sabe que alguma coisa mudou na paisagem e mudou nele também. Só que ele não quer transmitir essa transformação na carapaça de tudo com base na queima de fogos de artifício. Como dito por Paulo Franchetti, o haicai é, com o mínimo, obter o suficiente.

Veja-se o caso do haicai que ficou conhecido como o “haicai da rã”. Ele é muito simples. Não podemos acusá-lo de simplório pois até hoje o red wheelbarrow do poeta americano (clique aqui) está colocado perto das galinhas brancas. Bashô começa falando de um velho açude, contempla o sapo mergulhando na água e então, após o que chamamos de kireji (ou seja, uma pausa para que o leitor suspire, feche os olhos e prepare o coração), o barulho da água: “mizu no oto”. Note que o sapo, o açude e o universo inteiro desaparecem no terceiro verso, dando lugar apenas àquele tipo de paz interior que sentimos depois de um treino exaustivo quando um chuveiro quente amolece primeiro a cartilagem e só depois a epiderme. É um poema revolucionário para a poesia japonesa.

Isso mesmo, revolucionário. O motivo? José Lira nos responde:

Há muito pouco o que ainda se possa dizer sobre esses três versos. É com certeza um dos mais conhecidos e comentados poemas da literatura japonesa e universal, apesar de não ser talvez o melhor haicai de Bashô: é apenas o haicai que deu início à sua escola, denominada Shomon. Sua fama vem de algo simples: até então, só o canto e nunca o salto era mencionado nos milhares de poemas japoneses sobre a rã. Com esse singelo achado, Bashô mostrou um novo caminho para o haicai: não os devaneios poéticos subjetivos fora do tempo e espaço do mundo real, mas a expressão objetiva do que acontece aqui e agora. Um tanque. Uma rã. Um som. Milhares de pessoas já fizeram arranjos de todo tipo para essa sequência de palavras. O poema mais traduzido do mundo na verdade não é o “soneto de Arvers”, mas o “haicai de Bashô”. Uma de minhas muitas versões anteriores era mais formal e explicativa: “Barulho d’água: / Uma rã mergulhando / No velho tanque”. Mas há uma característica neste haicai que se torna evidente em qualquer tentativa de tradução: trata-se de um texto “enfileirado”, como se os versos estivessem justapostos uns sobre os outros, como se pode ver na tradução italiana de Irene Starace: Antico stagno. / Una rana si tuffa. / Suono d’acqua. (“Velha lagoa. / Uma rã mergulha. /Som d’água”) ou na versão em espanhol de Alberto Silva: La vieja charca / Zambullón de una rana / Ruido del agua” (“A velha lagoa / Mergulho de uma rã / Barulho da água”). Os exemplos são muitos. Roland Barthes, numa de suas “definições definitivas”, diz que este haicai é “um desenho silogístico em três tempos”.

Vem de onde a citação? Oh, sim. Surpresa.

É o seguinte. Não seria ótimo se os haicais completos de um autor tão importante e deslumbrante como Matsuo Bashô estivessem disponíveis para nós, leitores brasileiros, ávidos por boa poesia, assolados por um contexto político tão mesquinho? Mas é claro que seria ótimo, você me responde. Os portugueses, graças ao trabalho recente de Joaquim M. Palma, já sabem bem o que é isso…

Pois então. José Lira, conhecido por ter nos empanturrado com Emily Dickinson, atendeu a nosso pedido e publicou este ano uma tradução para todos os 1010 haicais de Bashô. E sabe qual a melhor parte? Você pode adquirir, do conforto de sua casa, sentado aí na poltrona saboreando uma cerveja em lata, esse livro pelo preço promocional (mentira, o preço de capa é esse mesmo) de 50 reais. Eu repito: cinquenta reais! Tudo o que precisa fazer é entrar em contato com o tradutor, que, em decorrência de infelizes impasses mercadológicos, está tendo de comercializar a edição por conta própria:

jlirabr@yahoo.com.br

Mas calma que não acabou. Ainda tem muito cepo de madeira pra gente brincar. Existem inúmeras traduções desse haicai, como você pode ter visto nos links mais acima, e, pelo fato de que aqui na escamandro a gente gosta de esbanjar, então penso que juntos poderíamos aumentar isso daí. Que tal mexermos o esqueleto?

Faço aqui uma singela compilação de traduções para o haicai a partir da listagem feita pelo Grêmio Caqui, dando entretanto preferência àquelas assinadas por grandes nomes, muito para que o leitor se sinta em boa companhia e quem sabe empolgue um pouco. A tradução literal dos três versos, também conforme o Grêmio, é:

O velho tanque
Uma rã salta
Barulho de água

Minha única contribuição é a de trazer para os amigos uma versãozinha de minha lavra, onde me valho da estrutura rímica do chamado “haicai guilhermino”, ou seja, um modelo de haicai que veste a roupagem carnavalesca (basta notar a rima interna no segundo verso) dada pelo poeta paulista Guilherme de Almeida. Além dela, trago a adaptação feita por meu camarada Pedro Mohallem, que, a meu ver, é sem dúvidas uma das melhores já feitas para o poema.

E sabe por quê? É simples: lembra que, conforme nosso amigo José Lira, o original de Bashô se notabilizou pelo fato de que falou não do canto do sapo mas sim de seu salto? Pois então. Agora pense num sabiá. Todo mundo já deve ter ouvido o poeta romântico buzinar no ouvido que é nas palmeiras que ele canta. Pois então. O Pedro, aqui, segue o mesmo espírito: ao invés de falar do canto da ave, ele fala do salto em folhas secas. E sim, sim, veja só o quão cuidadoso ele foi: até mesmo a sugestão de uma época do ano, o chamado kigô, foi mantido pelo Pedro, agora, todavia, mudando a época do ano do original nipônico de primavera para outono. É também um detalhe importante, pois, como dito, se o haicaísta abraça a transitoriedade do mundo, se ele se integra à natureza, então quase que por definição ele não tem como não notar o impacto que a mudança das estações causa na paisagem. Elas são, ora essa, a mudança mais profunda que a natureza carrega em seu íntimo!…

Pois bem. É isso. Conto com sua participação. Sei que você sempre quis traduzir esse haicai. É a sua chance. Já tem a tradução literal prontinha pra te guiar. A única coisa que aponto, à guisa de conclusão, é para “oto” aí no final. A palavra guarda consigo uma sementinha onomatopaica, não à maneira de um estrepitoso tibum! mas algo mais singelo, uma pedrinha jogada por uma criança desocupada, a língua em formato de concha de um cão tamborilando na água ou um sapo que mergulha na eternidade.

 

matheus mavericco

* * *

 

Furu ike ya / kawazu tobikomu / mizu no oto
古池 蛙飛び込む 水の音

§

Uma rã pula,
Vai ter na velha cisterna –
A água ondula.

(trad. eu)

§

Ipê desflorido
Sabiá desce do galho
Som de folhas secas.

(adaptação de Pedro Mohallem)

§

O velho tanque:
O mergulho da rã
Barulho d´água

(trad. José Lira)

§

salta a rã
para dentro do velho tanque–
plof!

(trad. Joaquim M. Palma)

§

VELHO LAGO
MERGULHA A RÃ
FRAGOR D’ÁGUA

(trad. Alberto Marsicano)

§

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.

(trad. Cecília Meireles)

§

chuá, chuá
coach, coach
tchibum!

(trad. Estrela Leminski)

§

Ah! o antigo açude!
E quando uma rã mergulha,
o marulho da água.

(trad. Guilherme de Almeida)

§

Quebrando o silêncio
de charco antigo, a rã salta
na água, ressoar fundo.

(trad. Jorge de Sena)

§

Sem título

§

 

Sem título

§

haikai basho - haroldeiras

(trad. Haroldo de Campos)

§

velha lagoa
o sapo salta
o som da água

(trad. Paulo Leminski)

§

MALLARMÉ BASHÔ

um salto de sapo
jamais abolirá
o velho poço

(Paulo Leminski)

§

haikai basho - josely

(trad. Josely Vianna Baptista)

§

Nem grilo, grito, ou galope;
No silêncio imenso
Só uma rã mergulha – plóóp!

(trad. Millôr Fernandes)

§

águas paradas
mal pula a rã se inundam
de ondas sonoras

(trad. Nelson Ascher)

§

Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.

(trad. Olga Savary)

§

Ah, o velho lago.
De repente a rã no ar
e o baque na água.

(trad. Olga Savary)

§

O velho tanque –
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

(trad. Paulo Franchetti e Elza Doi)

§

Um velho tanque:
salta uma rã zás!
esquichadelas.

(trad. Sebastião Uchoa Leite, via Octavio Paz)

§

Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada…

(trad. Wenceslau de Moraes)

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Adriana Godoy

adrigodoy

Adriana Godoy, por ela mesma: Nasci em Beagá, Minas Gerais, numa madrugada de fevereiro. Sou cercada de montanhas e incertezas. Professora de Português, revisora, amante das noites, das luas, das madrugadas. Escrevo como quem sonha ou tem pesadelos. Tenho um livro publicado: Mil noites e um abismo, pela CrivoEditorial e alguns poemas meus em uma coletânea Maria Clara: Universos Femininos. Meus poemas estão publicados em algumas algumas revistas literárias e blogs de poesia.

***

amanheceram estrelas

essa noite não aconteceu
nem a seguinte

amanheceram estrelas
a cama azul
seu cheiro perdido nas fronhas

sua insensatez na pasta de dente sem tampa

ainda vejo sua sombra na porta
e os demônios que sempre te perseguiram

mas o dia está claro
e acho que posso pensar em outras coisas
que não sejam seus olhos me implorando
pra ficar

e juro que queria
mas o seu inferno não me cabe mais

§

mil noites e um abismo

você precisaria de mil noites pra começar a me entender
pra sentir a lua e o gosto da cerveja descendo como um rio doce na garganta

você precisaria de mil dedos pra me tocar
e talvez nem alcançasse o ponto mais primitivo do prazer

você precisaria de atravessar estradas curvas e escuras
pra saber a cor do vento e a intensidade dos pássaros noturnos

você precisaria ficar à beira de mil abismos
pra entender que nossos abismos são os mais profundos e quase inatingíveis

você precisaria ouvir  as canções mais viscerais
e saber que um poema pode mudar sua cabeça previsível

você precisaria saber que quando estamos com  amigos de verdade
podem aparecer estrelas cadentes nos olhos

cara, mas você não sabe nada
não sabe nada

§

talvez o último poema ou o velho buk tinha razão
para nina rizzi 

não eu não respiro poesia nem vivo por ela
não me sinto poeta nem outra coisa que o valha
vivo na rotina dos dias incansáveis
e às vezes fecho a janela para não ver a manhã
sou como tantas
talvez um pouco mais triste
e quando menos espero
sinto que as palavras vêm
e tenho que escrevê-las

mas isso não é poesia nem ser poeta
é tirar do café que tomo um gosto diferente
é olhar os carros na rua e pensar em poentes

e quando li nina hoje
me deu a sensação de que as palavras não viriam nunca mais
e olhar uma aranha na parede vai ser olhar uma aranha na parede
e nada mais

talvez esse não seja meu último poema
mas o velho buk sabia:

“se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída- portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

(escrito a partir da leitura de nina rizzi in: ellenismos)

§


estranho silêncio

estranho silêncio que me acompanha
quando não quero ouvir as vozes do mundo
nem saber o que nele acontece

estranho silêncio que me atormenta na noite
e me deixa navegar desgovernada desvalida
sem âncoras ou vendavais

enquanto percorro esses caminhos tristes e equivocados
alguns homens tomam cerveja no bar da esquina
e eu queria estar lá

*

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Thiago Scarlata

Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor. Teve um poema publicado na antologia Âmago, pela Editora Regência/SP, em 2011 e outro que ainda será editado e lançado neste ano (2017), na Antologia do Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2016.  Após esse hiato de 5 anos, retoma a escrita e agora publica seu primeiro livro de poesia, de título Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo, pela Editora Multifoco.

* * *

Pressurizado

a cada incêndio
a cada prédio desabado
a cidade exibe seus entulhos
que devem ser considerados

como o tijolo que aceita
o reboco
acostumamos nossa pele
ao sol

e quem, afinal
gere com tamanha imprecisão
(lodo e pressão)
o cronograma dos chafarizes?

toda avenida queria ser beco
e os bares,
essas válvulas úmidas em tempos secos,
ilhas artificiais anti-depressão,
escoam o limbo

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Cesare Rodrigues (1984—)

Cesare Rodrigues nasceu em São João da Boa Vista em 1984. É poeta, editor e livreiro, autor de caso fossem ursos [Empório do Osório, 2016], mantém esporadicamente o blogue Comédia Fajuta.

* * *

Talvez menos de um minuto seja suficiente
pra se afeiçoar a uma planta.
Um cacto poderia sorrir uma eternidade
antes de um humano perceber.
Há uma coisa entre o se afeiçoar e o perceber
que deve estar além do perceber.

Contamos coisas ao vento
como quem secretamente deseja que as ouçam?
Como quem deseja a realização de um sonho
no ecoar do desejo?
Como se sussurrando num furo de árvore
pudéssemos nos livrar do peso dos segredos?

Não se deve dizer a uma planta
o que só se diria a si mesmo.
Nem a relva, a água ou o vento
conhecem todos os segredos de uma pedra.
Sequer a mais confiável das pedras
conhece nenhum dos meus segredos.

§

Sem esforço desaprender
cada grande coisa útil
que a civilização ensine

fazer troça, rir-se
acrobacias, distrair-se

brincar com o contrário
esquecer para que serve
mentir a respeito a uma planta
inventar um poema.

Quem desconhece as grandes coisas
pode assobiá-las
por si mesmo.

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Poesia nórdica| Karin Boye, por Luciano Dutra

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

• • •

Três versões de I rörelse, poema de Karin Boye (1900-1941), por Luciano Dutra 

(1)
De passagem

O melhor dia não é o que satisfaz:
o melhor dos dias é um dia voraz.

Nossa viagem quiçá até tem um fim
mas a estrada é o que vale pra mim.

Bom é descansar num fim de tarde:
o fogo se acende e o pão se reparte.

No lugar onde dormimos apenas um dia
o sono é tranquilo e o sonho, melodia.

Desperta, que o novo dia já te incita!
Tão grande, nossa aventura é infinita.

§

(2)
Em trânsito

O melhor dia é o que não se consome
pois o melhor dia é um dia de fome.

Pode até ser que haja um fim da linha
mas o que de fato importa é o caminho.

Ai, como é bom parar ao entardecer,
o pão repartir, a fogueira acender.

No lugar onde passamos uma noite única,
o sono é suave e os sonhos são música.

Acorda! Que o sol já renasce no levante.
Nossa aventura é sem fim, de tão grande.

§

(3)
Em movimento

O melhor dia não é o de saciedade
mas sim quando a sede ainda arde.

Algum destino terá a nossa jornada
mas a viagem vale mais que nada.

Parada noturna é o melhor destino:
a fogueira acesa e o pão peregrino.

Lá onde a gente dorme uma vez só
é doce o sono e os sonhos sonoros.

Acorda! Que o novo dia amanheça!
Infinita é a nossa aventura imensa.

§

I rörelse

Den mätta dagen, den är aldrig störst.
Den bästa dagen är en dag av törst.

Nog finns det mål och mening i vår färd —
men det är vägen, som är mödan värd.

Det bästa målet är en nattlång rast,
där elden tänds och brödet bryts i hast.

På ställen, där man sover blott en gång,
blir sömnen trygg och drömmen full av sång.

Bryt upp, bryt upp! Den nya dagen gryr.
Oändligt är vårt stora äventyr.

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