poesia, tradução

jacobo fijman, por nina rizzi

fijman

 

James/Jacobo Fijman (Orhei, Bessarábia, atual Moldova, 25 de janeiro de 1898 – Buenos Aires, 1970). De família judia-russa, mudou para Argentina aos seis anos. Fez parte da avant-garde literária de Martín Fierro, que também estava ligada a Jorge Luis Borges e Oliver Girondo. Além de poeta, foi ensaísta, tradutor, violinista e pintor; desenvolveu vários trabalhos irregulares, e a partir de 1921 começou a sofrer ‘colapsos mentais’, adepto do misticismo, se converteu ao catolicismo em 1930, e colaborou em diversas revistas religiosas antes de ser internado definitivamente com atestado de psicose delirante em 1942, até morrer em 1970 praticamente abandonado. Publicou: Molino Rojo (1926), Hecho de estampas (1930), Estrella de la mañana (1931) e San Julián el pobre (relatos, publicado postumamente em 1985).

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente. A tradução é de Nina Rizzi.

Nina Rizzi (SP, 1983), escritora historiadora e tradutora. Tem textos, traduções e poemas em diversas antologias, revistas e suplementos; publicou tambores pra n’zinga (poesia; Multifoco/ Orpheu, 2012), caderno-goiabada (prosa-ensaística; Edições Ellenismos); Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução; Edições Ellenismos, 2013) e A Duração do Deserto (poesia; Patuá, 2014).

PS: a Nina já apareceu aqui no blogue anteriormente, com poemas próprios e tradução.

escamandro

 

POEMA VI

Minha voz caiu, minha última voz, que ainda guarda meu nome.
Minha voz:
Pequena linha, pequena canção que nos separa das coisas.

Estamos distantes de minha voz e do mundo, vestidos de umidades brancas.
Estamos no mundo com os olhos na noite.
Minha voz fria e suja como a pele dos mortos.

 

POEMA VI

Ha caído mi voz, mi última voz, que aún guarda mi nombre.
Mi voz:
pequeña líneas, pequeña canción que nos separa de las cosas.

Estamos lejos de mi voz y el mundo, vestidos de humedades blancas.
Estamos en el mundo y con los ojos en la noche.
Mi voz fría y sucia como la piel de los muertos.

(poema de Jacobo Fijman, tradução de Nina Rizzi)

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Maria Luise Weissmann, por Gabriel Rübinger-Betti

Maria_Luise_WeissmannMaria Luise Weissmann nasceu em Schweinfurt no ano de 1899. Ainda criança, mudou-se para Hof e, em seguida, Nuremberg, onde viveu durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Publicou suas primeiras obras em 1918 no jornal Fränkischer Kurier sob o pseudônimo de M. Wels. A partir de então, Weissmann passou a tecer amizades com várias figuras da literatura de seu tempo, como Georg Britting, que publicou alguns de seus poemas no seu jornal expressionista Die Sichel. Nesse mesmo ano também conheceu seu futuro cônjuge, o editor Heinrich F. S. Bachmair.

Em 1919 mudou-se para Munique e passou a trabalhar na livraria recém-fundada Die Bücherkiste. Nessa época, além de se aproximar do budismo, participou da associação literária revolucionária Das Junge Franken. Em 1920 mudou-se para Pasing, logo após a libertação de Bachmair, que estivera preso por um ano e meio por motivos políticos. Os dois casaram-se em 1922, passando a viver nos anos seguintes em Pasing, Dresden e Munique. Naquele ano publicou, na editora de Bachmair, seu primeiro livro: Das frühe Fest. Publicou, em seguida, o ciclo de poemas Robinson (1924), uma série de sonetos sob o título Mit einer kleinen Sammlung von Kakteen (1926), além de traduções de Paul Verlaine (1927) e Pierre Louÿs (1931).

Faleceu repentinamente aos 30 anos, em Munique, em decorrência de uma angina. Vários textos e ensaios foram publicados de maneira póstuma por Bachmair no livro Gesammelte Dichtungen (1932).

Embora a obra de Weissmann seja pouquíssimo conhecida fora da Alemanha, seus poemas possuem uma qualidade literária indiscutível, dialogando com a literatura de sua época, principalmente Rilke. Os três poemas aqui traduzidos foram retirados de Das frühe Fest (1922).

Gabriel Rübinger-Betti

 

Percursos

Devo seguir, todo o dia, a te procurar,
que o presságio de te circundar me sustenta
com tua segurança, que a luzir me alenta:
um cacto, fulgor de ouro, ave a cantar,

violino e neve, que uma vez te miraram,
bandeiras de brilhantes cidades e o vento.
Acaso morres quando o sol se extingue lento?
É teu o grito dessas crianças que brincaram?

Vagueio nos tufões, pelo cristal do mar,
– um perfume, talvez, traz a tua lembrança –
nas aleias escuras, e a tanto lugar

devo seguir, rindo ou chorando, na esperança,
devo seguir, todo o dia, a te procurar,
nas trilhas da púrpura noite que não cansa.

 

Fährte

Durch allen Tag muß ich Dich suchend gehn
Und ist so viel, was rings Dich mir verheißt,
Mich mit Gewißheit Deiner schimmernd speist:
Ein Vogelrufen, Glanz des Golds, Kakteen,

Schnee, ach, und Geige, die gesehn Dich haben,
Fahnen der blanken Städte, Windeswehn –
Starbst Du in einer Sonne Untergehn?
War dies Dein Schrei in wehem Spiel der Knaben?

Ich wandre durch Taifun, kristallnen Strahl der Seen,
– Vielleicht, daß Dich ein Duft gefunden macht? –
Durch schwarze und die silbernen Alleen,

Durch Jenen, der geweint, und Den, der lacht, –
Durch allen Tag muß ich Dich suchend gehn,
Zu Dir noch wandert purpurn Pfad der Nacht.

 

Meus olhos

Quando tu vens,
meus olhos voltam-se
à escuridão
como à morte.

Desde que deixaram-te
entrar, (traidores!),
agora vivem sempre
sob a guilhotina.

 

Meine Augen

Wenn Du kommst
Müssen meine Augen
Ins Dunkel kehren
Wie in den Tod.

Seit sie Dich einließen:
Verräterinnen –
Nun leben sie immer
Unterm Beil.

 

Estou muito cansada

Na noite, ao longe, minha janela se inclina.
Sobre os telhados, as nuvens, ramos de flor fina;
a brisa me afaga, bondosa e delicada.
Eu, porém, mantenho as mãos fechadas, pois estou cansada
e escuto, admirada, alados sons de passos,
das pessoas, na rua, a passar. Seus braços
e pés, parecem-lhe tão leves. Somente eu
me deito, em meu grande cansaço acamada.
Às vezes ouço o som de um passo como o teu,
e então, amado, como a música dos passos, leve fico eu,
como as nuvens sobre os telhados – ramo de flor prateada.

 

Ich bin sehr müde

Mein Fenster lehnt sich weit in den Abend hinaus,
Die Wolken stehen über den Dächern, ein Blumenstrauß,
Die Luft streichelt mich und ist sanft und voll großer Güte.
Ich aber halte die Hände gefaltet, denn ich bin müde,
Und höre verwundert auf das beschwingte Schreiten
Der Menschen, die auf der Straße vorübergleiten,
So sehr sind ihnen heute die Glieder leicht.
Nur ich liege, schwergebettet in meine Müde.
Manchmal höre ich einen Schritt, der Deinem gleicht,
Dann bin ich, Geliebter, wie die Musik der Schritte leicht
Und wie die Wolken über den Dächern silberne Blüte.

 

(poemas de Maria Luise Weissmann, tradução de Gabriel Rübinger-Betti)

Gabriel Rübinger-Betti é poeta e tradutor, nascido em Juiz de Fora – MG. De produção diversificada, participou de antologias literárias (entre elas, Lira da Morte, 2012), escreveu peças de caráter teatral (Auto da Fé e Ciência, 2011; A Princesa, 2015) e participou de exposições literárias em São Paulo e Brasília (2010, 2011). Atualmente, se dedica a traduzir escritoras germanófonas.

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“Tradução total” de Jerome Rothenberg

rothenberg

Aqui no escamandro tenho feito alguns posts sobre as questão da tradução quando envolvem o corpo, mas quase sempre tratei de tradições ocidentais próximas. Por isso, deixo aqui trechos de uma fala de Jerome Rothenberg (Nova Iorque, 1931 — quem não conhece, sugiro que o faça logo) sobre sua própria experiência na tradução da poesia cantada dos índios Navajo, numa tradução de Luci Collin. No caso, tratava-se de canções de Frank Mitchell, que Jerome verteu-performou como Horse Songs. É fundamental ver como, no relato da sua experiência, Rothenberg revela que a teoria vem mesmo junto com a prática, como propõe Henri Meschonnic: nada de modelos pré-fabricados de tradução.

guilherme gontijo flores

PS: Depois do excerto, há links para 9 canções.

* * *

A tradução total: uma experiência na apresentação de poesia ameríndia (1969)

[…]

Agora o que me atraiu (além de uma qualidade na voz de Micthell que eu achei irresistível), foi a possibilidade de trabalhar com todo esse som e encontrar minha própria via para isto em inglês. Acredito que foi porque a música estava tão claramente dentro da gama do idioma: era canção & era poesia & parecia possível, pelo menos, que a canção resultante da poesia fosse uma extensão disto ou que tenha surgido inevitavelmente da junção de palavras e de outros sons vocais. Tantos de nós já tínhamos tido interesse por esse tipo de coisa como poetas, que me parecia natural estar numa situação em que a poesia estaria me conduzindo a uma (nova) música que ela  estava gerando.

Comecei com a 10a. Canção-Cavalo, que tinha sido a primeira a ser cantada por Mitchell quando McAllester o estava gravando. Naquele momento eu não sabia se faria mais do que citar ou aludir aos vocábulos: possivelmente atraí-los, ou algo parecido com eles, para o inglês. A princípio eu estava escrevendo, trabalhando nas palavras através de esboços de frases que pareciam naturais de acordo com meu próprio senso do idioma. Na 10a. Canção há uma divisão de oradores: a voz principal é a do Inimigo Matador ou Menino do Amanhecer, que pela primeira vez trouxe cavalos às Pessoas, mas o coro é cantado pelo pai dele, o Sol, que o manda levar cavalos dos espíritos & outros animais & bens preciosos para a casa de sua mãe, a Mulher Mutável. A tradução literal do refrão — (para) a mulher, meu filho — parecia estar um pouco distante de como a pronunciaríamos, embora fosse bastante normal em navajo. Foi com essa impressão de que, independente das distorções no som apresentadas pelo navajo, a sintaxe era natural, que mudei a interpretação sugerida por McAllester para vá até ela meu filho & a linha de abertura dele,

Menino educado no amanhecer. Sou eu, eu é que sou esse aí

(literalmente, sendo esse, sugerindo causa), para

Porque fui eu o menino criado no amanhecer.

Ao mesmo tempo achei que estava tratando a questão mais ou menos pela economia da redação do original.

Eu passei pelas primeiras sete ou oito linhas assim, mas ainda não tinha alcançado os vocábulos. A abordagem mais “efetiva” de McAllester — reproduzindo os vocábulos exatamente — me parecia errada pela seguinte consideração: no navajo os vocábulos dão um claro sentido de continuidade que vem do material verbal; i.e. as vogais, em particular, mostram uma relação de rima ou de assonância entre os segmentos “sem sentido” & os segmentos significantes.

[…]

Decidi traduzir os vocábulos &, a partir disso, já estava jogando com a possibilidade de traduzir outros elementos das canções que normalmente não são contemplados pela tradução. Também pareceu importante ficar tão longe quanto possível da escrita. Então comecei a falar, e depois a cantar minhas próprias palavras em cima da gravação de Mitchell, substituindo os vocábulos dele com sons que me pareceram relevantes, gravando a seguir minha versão numa nova fita cassete, tendo que daí explorá-la em suas próprias condições. Também não foi fácil para mim romper o silêncio ou ir além dos níveis de entonação superficiais de minha fala & eu ainda achava mais natural naquela versão anterior substituir os vocábulos por palavras inglesas curtas como “one”, “none” e “gone” (é difícil para um poeta-da-palavra abandonar por completo as palavras), esperando que algo de sua força semântica diminuísse com a reiteração.

[…]

Ao cantar a 10a. Canção pude avançar ainda mais com as palavras curtas (substituições de vocábulo) até a área de puro som vocal (a diferença, se fica clara a partir da ortografia, entre one, none & gone e wnn, nnnn & gahn): sonorizações que continuariam nas outras canções a uma distância ainda maior dos significados excluídos.

[…]

Finalmente, a escolha de sons influenciou o estilo do meu canto, apresentando uma grande ressonância que eu achei que poderia controlar para servir como um tipo de zumbido de apoio à minha voz. Por meios como este a tradução estava assumindo vida própria.

Oução 9 Canções-Cavalo, por Jerome Rothenberg, no Poetry Foundation

Horse Song I

Horse Song II

Horse Song III

Horse Song IV

Horse Song V

Horse Song VI

Horse Song VII

Horse Song VIII

Horse Song IX

* * *

(Jerome Rothenberg. “A tradução total: uma experiência na apresentação de poesia ameríndia (1969)”. In: Etnopoesia do milênio. Org. Sergio Cohn. Trad. Luci Collin. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2006. Trata-se de um recorte das pp. 52-3, 54, 55 e 56.)

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poesia

“quarentaequatro”, de mauricio cardozo

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Maurício Cardozo (1971, Curitiba) é professor e tradutor de literatura na UFPR. Traduziu autores como Goethe, Heine, Rilke, Lasker-Schüler e Celan, e fez o impressionante trabalho de bitradução de Der Schimmelreiter (1888), de Theodor Storm, em dois livros: A assombrosa história do homem do cavalo brancoO centauro bronco (Editora UFPR, 2006), trabalho que considero um ponto fundamental nas práticas poéticas da prosa em tradução, ao lado do Satyricon  de Leminski. Em co-autoria com Adalberto Müller e Mário Domingues, publicou em 2007 a antologia de poemas O tigre de veludo, de e.e.cummings, que foi  finalista do Prêmio Jabuti. Além disso, nós já publicamos alguns poemas dele no blog e no primeiro número impresso do escamandro, além de um vídeo com sua tradução de “Todesfuge”, de Celan.

quarentaequatro é o seu primeiro livro de poemas, que vai ser lançado amanhã, dia 06 de abril, no WNK, aqui em Curitiba. Seguem abaixo quatro poemas do livro, inversos em sua ordem de livro, resplendem numa flor inversa.

guilherme gontijo flores

* * *

envoi (da série “toda nossa tua”)

você diz
isto não é um poema

isso
não é um poema

habito algo aí
que me habita

não há morada
nisso

o que há são avencas
no avarandado disto:

dizer é preciso

§

xiii (da série “toda nossa tua”)

calou os sete intentos
feito palavra

fez-se a hora
fez-se a boca da palavra
noutra boca fez-se a pele
da palavra em pelo
pela tarde afora

falou
feito palavra

fez o dito
por não dito
fez-se corpo
ali caído

feito anjo
dessentido

§

ix (da série “destempo”)

viver o que resiste
à beça e ainda assim
viver em riste a furta
cor daquele jeito penso
em cada gesto ou
no acidente de viver
a contratempo a hora
o dia o mês dum só
momento em
que corpo todo cede
e a gente cessa

§

(da série “(no)me”)

ajeitado na intimidade
o nome sonha um nome

soçobro de mundo
repeso fundo no bolso

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Duas elegias sobre aborto, em Ovídio, por Guilherme Duque

Relevo romano, com a imagem de um parto assistido por parteira.

Relevo romano, com a imagem de um parto assistido por parteira.

No par de elegias a seguir, contidas no segundo livro dos Amores de Ovídio, o poeta trata de um tema geralmente pouco associado à Antiguidade Clássica: o aborto. Conforme diz Paul Veyne no primeiro volume da História da vida privada ([1985] 2009, p. 21-25), sendo uma prática relativamente comum na época Imperial, o aborto não era visto pelos romanos como algo mais do que um método contraceptivo, como se não importasse o momento em que a mulher decidisse interromper a gravidez. Os métodos variavam desde intervenções que poderíamos chamar de cirúrgicas até o consumo de substâncias abortivas.

Referências a esta prática remontam às comédias plautinas (séc. II a.C.), mas na elegia erótica romana essas parecem ser sua única menção. Na primeira elegia, Am. II, 13, lemos que Corina encontra-se em um estado de saúde frágil após ter realizado um aborto. O poema então se segue com um apelo aos deuses pela vida da jovem, em que chama atenção a presença da religiosidade oriental no mundo romano, de que é testemunha a invocação da deusa Ísis (v. 7-17). Nos versos finais, o poeta volta as preces à deusa grega Ilitia, deusa da gestação. A postura súplice do poeta é contrastada pela elegia seguinte, Am. II, 14, em que o seu discurso toma a forma de uma crítica em alguns momentos até agressiva contra a prática do aborto. Embora existissem muitos motivos sociais, econômicos, religiosos e até mesmo políticos para se enjeitar um filho ou terminar uma gravidez (VEYNE, 2009, p. 22-23), Ovídio acusa as mulheres de o fazerem por vaidade: para não ter o corpo marcado por estrias (v. 7). Ele lembra os heróis da mitologia para afirmar que os seus grandes feitos não teriam acontecido se suas mães tivessem abortado (v. 9-17). É muito interessante notar, entretanto, que para o poeta parece existir ao menos uma justificativa legítima para realizar o aborto: a vingança contra o marido. Ele cita Medeia e Procne (v. 29-30) que se vingaram dos respectivos maridos, Jasão e Tereu, assassinando os próprios filhos – acrescente-se: já nascidos. No final fervoroso, Ovídio afirma que a prática não sai impune, mas que muitas mulheres morrem no processo (v. 37-38). Ele transmite então uma suporta opinião geral moralista de que seria merecida uma tal morte (v. 39-40), no entanto não é seguro afirmar que isto procede de fato sem o suporte de uma pesquisa mais apurada. O poema termina, enfim, com uma nova prece aos deuses, um pedido para que poupem a vida daquela que cometeu este delito (Corina?), mas sem deixar de desejar que uma eventual segunda vez seja devidamente punida (com a morte?).

Por fim, resta notar como é curioso comparar o final dos dois poemas, porque também o primeiro, apesar do formato de prece, acaba com um tom um tanto cínico: o pedido do poeta e a promessa dos votos parecem ser enfraquecidos por certa resignação quando ele diz à deusa “te baste ter lutado esta batalha” (Am. II, 13, 28). O segundo é carregado de um forte teor de censura até chegar a intercessão pela vida da jovem padecente, que também não deixa de vir acompanhada por um segundo pedido mordaz: se ela não aprender a lição agora, que venha o castigo na segunda vez (Am. II, 14, 44). Aos poemas.

Guilherme Duque

* * *

Amores II, 13

Tendo ferido temerária o ventre grávido,
fraca Corina jaz: a vida em risco.
Porque em segredo o feito executou, é digna
da minha ira, mas esta cede ao medo.
Porém de mim engravidou, ou o penso eu:            5
tomo às vezes por certo o que é possível.
Ísis, que o Paretônio e os campos do Canopo,
Mênfis e a rica em palmas Faro habitas,
onde o célere Nilo por amplos canais
desce e por sete portas chega ao mar,                      10
por teus sistros suplico e pelo horrendo Anúbis,
(assim teus ritos ame o pio Osíris,
deslize entre as ofertas a serpente lenta,
se ajunte à procissão cornudo Ápis):
volta a mim a tua face e poupa, em uma, duas,      15
pois dás a ela vida, e ela a mim.
Com frequência ela esteve devota nos dias
certos, onde os gauleses tingem louros.
E tu, compadecida por meninas grávidas,
cujos corpos latente fardo estica, 20
sê benigna e atende a minha prece, Ilitia,
ela é digna de que lhe ordenes graças.
Darei eu mesmo incenso aos fumosos altares
e levarei ofertas aos teus pés,
“Nasão” inscrito “pela cura de Corina”.                  25
Dá hoje ocasião para estes votos,
mas se entre tantos medos posso aconselhar-te,
te baste ter lutado essa batalha.

Amores II, 13

Dum labefactat onus grauidi temeraria uentris,
In dubio uitae lassa Corinna iacet.
Illa quidem clam me tantum molita pericli
Ira digna mea, sed cadit ira metu.
Sed tamen aut ex me conceperat, aut ego credo;  5
Est mihi pro facto saepe quod esse potest.
Isi, Paraetonium genialiaque arua Canopi
Quae colis et Memphin palmiferamque Pharon,
Quaque celer Nilus lato delapsus in alueo
Per septem portus in maris exit aquas,                 10
Per tua sistra precor, per Anubidis ora uerendi
(Sic tua sacra pius semper Osiris amet
Pigraque labatur circa donaria serpens
Et comes in pompa corniger Apis eat!)
Huc adhibe uultus, et in una parce duobus.        15
Nam uitam dominae tu dabis, illa mihi.
Saepe tibi sedit certis operata diebus,
Qua tingit laurus Gallica turma tuas.
Tuque, laborantes utero miserata puellas
Quarum tarda latens corpora tendit onus,          20
Lenis ades precibusque meis faue, Ilithyia!
Digna est quam iubeas muneris esse tui.
Ipse ego tura dabo fumosis candidus aris;
Ipse feram ante tuos munera uota pedes;
Adiciam titulum “seruata Naso Corinna”.          25
Tu modo fac titulo muneribusque locum.
Si tamen in tanto fas est monuisse timore,
Hac tibi sit pugna dimicuisse satis.

§

Amores II, 14

De que serve às meninas serem à guerra ilesas,
nem com escudo seguirem duras tropas,
se, sem Marte, feridas são por suas setas,
e armam mãos cegas contra o próprio fado?
Quem primeiro arrancou de si o tenro feto         5
foi digna de morrer na sua milícia.
Pois, para ao ventre a injúria das rugas faltar,
à tua luta se espalha a triste areia?
Se tal costume às mães antigas aprouvesse,
teria sido extinta a espécie humana,                    10
e ao que lançara ao vácuo pedras – nossa origem –
precisaríamos buscar de novo.
Quem teria esmagado Príamo, se a ninfa
Tétis o justo fardo rejeitasse?
Se Ília no ventre túmido os gêmeos negasse,    15
seria morto o autor da Urbe excelsa.
Se Vênus, ‘inda grávida, Eneias violasse,
privaria de Césares a Terra,
e tu, podendo bela nascer, eras morta
se tua mãe, como tu, isto tentasse;                     20
e eu mesmo, que prefiro perecer amando,
por mãe negado, o dia não veria.
Por que defraudas vides com uvas crescendo,
e frutos verdes colhe a fria mão?
Que caiam a seu tempo; deixa que eles cresçam, 25
vida não é mau preço à breve espera.
Por que abris as vísceras por meio d’armas
e ao não nascido dai venenos ímpios?
Pelo sangue dos filhos censuram a da Cólquida;
lamentam Ítis, morto pela mãe;                             30
ambas, por tristes causas, – cruéis genitoras –
do esposo se vingaram na progênie.
Dizei, pois, que Tereu, que Jasão vos incita
a ferir vosso corpo com mão presta?
Nem as tigresas nos recônditos da Armênia,     35
nem leoas ousaram perder crias,
porém o fazem tenras moças – não impunes:
quem no ventre os seus mata, amiúde morre.
Morre e à pira, de coma esparsa, é conduzida
e bradam “mereceu-o!” os que a veem.                40
Mas dissipam-se as minhas palavras na brisa
e nenhum peso tenham os meus augúrios.
Bons deuses, dai socorro à que uma vez errou;
seja a segunda falta castigada.

Amores II, 14

Quid iuuat inmunes belli cessare puellas
Nec fera peltatas agmina uelle sequi,
Si sine Marte suis patiuntur uulnera telis
Et caecas armant in sua fata manus?
Quae prima instituit teneros conuellere fetus,    5
Militia fuerat digna perire sua.
Scilicet ut careat rugarum crimine uenter,
Sternetur pugnae tristis harena tuae?
Si mos antiquis placuisset matribus idem,
Gens hominum uitio deperitura fuit,                   10
Quique iterum iaceret generis primordia nostri
In uacuo lapides orbe, parandus erat.
Quis Priami fregisset opes, si numen aquarum
Iusta recusasset pondera ferre Thetis?
Ilia si tumido geminos in uentre necasset,         15
Casurus dominae conditor Vrbis erat;
Si Venus Aenean grauida temerasset in aluo,
Caesaribus tellus orba futura fuit.
Tu quoque, cum posses nasci formonsa, perisses,
Temptasset, quod tu, si tua mater opus.            20
Ipse ego, cum fuerim melius periturus amando,
Vidissem nullos matre negante dies.
Quid plenam fraudas uitem crescentibus uuis
Pomaque crudeli uellis acerba manu?
Sponte fluant matura sua; sine crescere nata;  25
Est pretium paruae non leue uita morae.
Vestra quid effoditis subiectis uiscera telis
Et nondum natis dira uenena datis?
Colchida respersam puerorum sanguine culpant
Aque sua caesum matre queruntur Ityn:           30
Vtraque saeua parens, sed tristibus utraque causis
Iactura socii sanguinis ulta uirum.
Dicite, quis Tereus, quis uos inritet Iason
Figere sollicita corpora uestra manu?
Hoc neque in Armeniis tigres fecere latebris,  35
Perdere nec fetus ausa leaena suos.
At tenerae faciunt, sed non inpune, puellae;
Saepe, suos utero quae necat, ipsa perit.
Ipsa perit ferturque rogo resoluta capillos,
Et clamant “merito” qui modo cumque uident.  40
Ista sed aetherias uanescant dicta per auras,
Et sint ominibus pondera nulla meis.
Di faciles, peccasse semel concedite tuto;
Et satis est: poenam culpa secunda ferat.

(Ovídio, trad. Guilherme Duque)

 

 

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7 ideias sobre um poema ao vivo, de Reuben da Rocha

siga-os-sinais

O que eu gostaria é de caminhar para os últimos meses deste experimento havendo pontuado certas coisas sobre a prática de fazê-lo. Ser um pouco claro. Descrever as etapas do trabalho. Em agosto de 2015 dei início à série Siga os sinais na brasa longa do haxixe, mas uma série? É uma epopeia sci-fi seriada em 6 fascículos. É a saga de Maria Estrela Forte, a astronauta travesti, Peixeira Tenaz, a hacker ka’apor, e Lança Flamejante, a guerreira queniana, um organismo resistor em guerra contra o Conglomerado Financeiro da Fé, ditadura instaurada nove anos atrás, em 2084. Estou escrevendo agora em março de 2016, no dia em que o 4o livro foi para a gráfica, e gostaria de dizer o seguinte:

1. é uma escrita em performance, ou seja, uma que exacerba as qualidades temporais da poesia. A duração do gesto é a maneira de vivê-lo. Tudo começou de uma grande energia acumulada após uma vivência de criação coletiva durante a qual (55 dias) só escrevia na presença do grupo. Propulsão diária metódica do corpo. A concepção de cada fascículo dura cerca de 2 meses, do rascunho à impressão. É uma escrita intensiva (concentrada) com pouca margem de erro. “O texto deve atingir de imediato aquilo que almeja”.

2. é uma escrita de estrutura (montagem / e música). Odisseia Godard. O gênero épico intersecciona poesia e ficção científica. Ritmo + ação = imagem em movimento. Propósito de comunicar ou afetar o sistema de comunicação e seus efeitos. Opacidade. Corte. Constelar: composição. Pois a fala mais neutra é a mais linear e a mais imunda = ensina qualquer deputado ou similares no dia a dia da sabotagem retórica.

3. o gênero épico primordialmente nasce da voz, e da performance, portanto. Oralidade não é um naturalismo da voz ou fala mas codificações não tipográficas do gesto (corpo do ritmo) e musicalidade (tom e textura). Performance é um registro de oralidade.

4. é um poema-gibi. O formato seriado intersecciona quadrinhos e ficção científica. senso de Universo narrativo. A mídia gibi cria regras para a escrita (2 meses para cada 1 de 6 fascículos totalizando 1 ano) e determina aspectos estéticos (papel, tipografia, embalagem discursiva). Performance gráfica. (regência da oralidade em universo gráfico). Ficção-objeto. Intersecções = polinizações cruzadas. Pop não: popular-charmoso. Aspecto meta-estrutural já que haxixe é pólen concentrado. Citação se necessário: folhetim. Me encanta a reprodutibilidade enquanto aspecto da linguagem impressa.

5. há uma narrativa gráfica simultânea desviante às palavras. Détournement, grafismos, colagem. Pesquisa visual de alguns anos coletando livros sobre a Terra, astronomia, botânica. Pois o que está no alto é igual àquilo que está embaixo. No volume 2 utilizei também uma série de desenhos que chamo “Sismógrafo”, caneta solta sobre papel em movimento nos trens da CPTM linha rubi, realizada um ano antes.

6. as colagens são montadas direto na mesa de luz do scanner, sem cola, ou seja, não existem originais, somente vestígios soltos de xerox, recortes, impressões em transparência. Que vão se sobrepondo ritmicamente na mesa. Recombinação de poucos elementos em sequências de quadros. Efeito sequencial. E incorporo os ruídos da luz.

7. extenso exercício de telepatia com a artista Gê Viana, que faz as capas. Cada capa é um elemento simbólico decisivo, que me atira para o livro seguinte. Exercício de tele transporte com o editor Bruno Azevedo, que diagrama comigo o objeto. Via áudio de celular. Orientação espiritual de Marshall McLuhan, Hélio Newyorkaises Oiticica, Paul Zumthor e Zygmunt Molik. “A invenção é uma extensão da energia humana”.

(Reuben da Rocha)

 

* Reuben da Rocha ou cavalodadá (São Luís/MA, 1984) publicou os livros Miragem no olho aceso, As aventuras de cavaloDada em + realidades q canais de TV (2013), Na curva da cobra nos cornos do touro no couro do tigre na voz do elefante (2015), e o mais recente Siga os sinais na brasa longa do haxixe, com lançamento dia 26 de março, no Estúdio Lâmina (SP).

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lançamento em curitiba – escamandro #2

escamandro-2-capa

depois do sucesso do lançamento em são paulo no começo do mês, é com muita alegria que divulgamos o lançamento da 2ª edição da revista escamandro em curitiba.

o evento será na quinta-feira, dia 24 de março, a partir das 19h, no bar do torto (r. paula gomes, 354 – são francisco). o exemplar estará à venda, em dinheiro, por R$38,00.

clique aqui p/ mais informações sobre a revista (incluindo sobre a primeira edição, nomes dos colaboradores, etc.).

clique aqui p/ o evento no facebook.

 

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