poesia

Louise Furtado (1997-)

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Louise Furtado (1997) é poeta e mestranda em teoria literária pela UFF, em Niterói, RJ. Nasceu em Guarapuava no interior do Paraná, morou em Curitiba, morou no Rio de Janeiro, atualmente mora em Niterói e amanhã não se sabe. Estes 4 poemas fazem parte de um projeto em andamento intitulado “taxidermias”. Gosta quando a ponte Rio-Niterói fica interditada porque um cachorro resolveu atravessar e de escrever quando está com sono.

* * *

memória

se um dia Maria abrisse
alguma fresta na porta do quarto
e a visão não tropeçasse
em animais vinte e seis
espalhados e empalhados
talvez não pensasse todo dia
enquanto almoça em ser
empalada e empalhada
para servir de crucifixo
na cabeceira de alguma cama

§

 

labareda

o ano é
não se sabe mais
o tempo é
não se sabe mais
a vida é
nunca soube
soube pela camisa
de papai da Maria Luiza
que ateou fogo nas mãozinhas dela
dentro da própria casa
agarrada às irmãs
da mesma terra
de cabeça dura e mal criada
com garras desgarradas
e talvez Maria Luiza agora…
a primeira filha
não se sabe mais
um flâneur de escombros
viu tudo
só não viu
papai fechar a porta
e andar na rua
com as mãozinhas dela estampadas
de cinzas

§

 

há sombras sem luz
no canto de prédios
guardados pelo tempo
numa caixa de brinquedos

há tantos joelhos com pus
sem mãos pra falar: venha cá
quando foi a última vez que você viu
um Vaga-lume piscando

vi um Cão morto latindo
tendo talvez convulsões
do outro lado da rua
que não é minha

eu dei meia volta
I’m back
eu não sei mais falar inglês
será que alguém precisa disso
falar inglês
um Cão morto latindo precisa
vai ver ele podia falar
help

será que pode carregar na cauda
esse mundo inchado
de água São Lourenço
que tem gosto de gás
que vêm de São Paulo
às sete da tarde

será que pode responder e-mail
falando sobre o tempo
ou sempre tem que
lamber as botas de alguém
falar sobre o tempo em inglês
um e-mail do tempo:
help
abraços,
Tempo.

alguém diz dias depois
as sombras do prédio
fazem sombras no outro prédio ali

mas se acabar a luz na cidade
talvez botafogo grite
PORRA
mas quando voltar todos gritam

uníssono
que não vai chegar em jacarepaguá

mas alguém pode estar lá
gritando socorro
como o Cão morto latindo em inglês
ou o tempo

mas se uma criança abre
a caixa de brinquedos do mundo
e vê o Cão vivo
talvez nasça um pedacinho
de luz no prédio
de alguém indo ao banheiro
quatro horas da manhã
o vaga-lume
que já não via há tanto tempo.

§

 

boceta antropofágica

Maria tem a boceta repleta
das Onças do Rosa
e mata alguns homens assim
lentamente
seus corpos apodrecem
naquele mesmo quarto
e deixa morar Baratas pelos seus membros
é uma pena que eles nunca descubram
o poder disso

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poesia, tradução

Maya Angelou, por Lubi Prates

Recentemente, escutei algo como “os aniversários são para sempre”. Não sei quem me disse isso, se li ou ouvi, e nem o contexto. Mas quando penso sobre hoje, aniversário de Maya Angelou, só consigo concluir que, sim, é uma data para ser sempre celebrada.

Maya (Marguerite Annie Johnson) foi uma poeta, escritora, condutora de bondes (a primeira negra contratada para a função), atriz, cantora, dançarina, diretora de cinema, ativista pelos direitos dos negros, ou seja, teve uma vida recheada de histórias – que ela gostava de contar e repetir, e que lhe renderam 7 autobiografias, sucessos mundiais.

Com a poesia, Maya conquistou o Pulitzer (com o livro “Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa) e 3 Grammy com álbuns de poesia falada,  e essa era uma relação especial porque foi através da poesia que Maya conseguiu romper com um trauma vivido na infância. Quando tinha 7 anos, Maya foi estuprada pelo namorado de sua mãe. Ela compartilhou o acontecido com seu irmão, Bailey, que contou para o resto da família – dias depois, o estuprador foi encontrado morto. Com isso, Maya acreditou que sua voz tinha matado aquele homem e que, portanto, poderia matar qualquer um, por isso, parou de falar e esse mutismo durou anos, sendo quebrado pela provocação feita por uma amiga da família, a senhora Flowers, com quem Maya passava algumas tardes. A senhora Flowers lia para Maya uma infinidade de poetas (Shakespeare, Dickens, Poe) que, depois, se tornaram referências para ela. “Maya, você não gosta de poesia… Você nunca vai gostar até que a recite, até sentí-la rolar pela sua língua, sobre os dentes, através de seus lábios. Você nunca vai gostar”. Diante disso, 5 anos depois que decidiu parar de falar, Maya tentou recitar um poema. Essa relação que criou com a poesia, Maya explicava como “a prova de que algo bom pode nascer de uma situação ruim”.

Desse momento em diante, mesmo com diversas atividades, Maya sempre enxergou a poesia como seu trabalho e algo de extrema importância.

Publicou 5 livros de poesia: Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa; Oh, reze para que minhas asas me caiam bem; E ainda assim eu me levanto; Shaker, por que você não canta? e Eu não serei levada, além de diversos poemas avulsos, que foram traduzidos e publicados no Brasil, em março.  Seus poemas falam sobre a condição da mulher negra estadunidense, que ama, que viaja, que trabalha, que tem fé, que resiste e luta – como dizia: “afiando a ponta da caneta nas cicatrizes que existiam no seu próprio corpo”. Com a chegada desta publicação ao país, é possível, ainda, se tratando de uma existência particular, encontrar diversas relações entre a vida da Maya e as vidas de tantas mulheres negro-brasileiras.

Abaixo, poemas de Maya e suas traduções, um bocado de cada livro. Que com eles, que com a vida que existe neles, possamos celebrar a existência dessa mulher fenomenal – como ela mesma se enxergava.

Lubi Prates

* * *

Quando penso sobre mim mesma

Quando penso sobre mim mesma,
Gargalho até quase morrer,
Minha vida tem sido uma grande piada,
Uma dança que se anda,
Uma canção que se fala,
Gargalho tanto que quase perco o ar,
Quando penso sobre mim mesma.

Sessenta anos no mundo dessa gente,
A criança para quem trabalho me chama de garota,
Eu respondo “Sim, senhora” por causa do emprego.
Muito orgulhosa para me curvar,
Muito pobre para me quebrar,
Gargalho até meu estômago doer,
Quando penso sobre mim mesma.

Meus pais podem me fazer cair na gargalhada,
Rir tanto até quase morrer,
As histórias que eles contam soam como mentiras,
Eles cultivam a fruta,
Mas só comem a casca,
Gargalho até começar a chorar,
Quando penso sobre meus pais.

When I think about myself

When I think about myself,
I almost laugh myself to death,
My life has been one great big joke,
A dance that’s walked,
A song that’s spoke,
I laugh so hard I almost choke,
When I think about myself.


Sixty years in these folks’ world,
The child I works for calls me girl,
I say “Yes ma’am” for working’s sake.
Too proud to bend,
Too poor to break,
I laugh until my stomach ache,
When I think about myself.


My folks can make me split my side,
I laughed so hard I nearly died,
The tales they tell sound just like lying,
They grow the fruit,
But eat the rind,
I laugh until I start to crying,
When I think about my folks.


Para assistir a Maya declamando esse poema: https://youtu.be/k9ywTJvBwTc

§

Minha culpa

Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.

My guilt

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.


My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.


My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.


*Nota: Vesey, Turner e Gabriel, assim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm X, Marcus Garvey e Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros.

§

Um brinde à recomposição

Eu fui numa festa
lá em Hollywood.
A atmosfera era péssima
mas as bebidas estavam boas
e foi onde ouvi você rir.

Então, eu fiz um cruzeiro
num velho navio grego.
A tripulação era divertida
mas os convidados não eram descolados,
foi aí que encontrei suas mãos.

Numa caravana
para o Saara,
O sol acertava como uma flecha
mas as noites eram grandiosas,
e foi assim que eu encontrei seu peito.

Numa tarde no Congo
onde o Congo termina,
Eu me encontrei sozinha, ah
mas eu fiz alguns amigos,
e foi onde eu vi seu rosto.

Eu tenho dedicado
todo meu tempo para reunir
partes suas que flutuam
ainda descoladas.

E você não vai se recompor
Para
Mim
N E N H U M A V E Z?

Here’s to Adhering

I went to a party
out in Hollywood,
The atmosphere was shoddy
but the drinks were good,
and that’s where I heard you laugh.


I then went cruising
on an old Greek ship,
The crew was amusing
but the guests weren’t hip,
that’s where I found your hands.

On to the Sahara
in a caravan,
The sun struck like an arrow
but the nights were grand,
and that’s how I found your chest.

An evening in the Congo
where the Congo ends,
I found myself alone, oh
but I made some friends,
that’s where I saw your face.

I have been devoting
all my time to get
Parts of you out floating
still unglued as yet.
Won’t you pull yourself together
For
Me
O N C E.

§

Trabalho de mulher

Eu tenho crianças para cuidar
As roupas para remendar
O chão para esfregar
A comida para comprar
Depois, o frango para fritar
O bebê para secar
Eu tenho as visitas para alimentar
O jardim para aparar
Eu tenho camisetas para passar
O bebê para vestir
A cana para cortar
Eu tenho que limpar essa cabana
Depois, cuidar dos doentes
E colher o algodão.

Brilhe sobre mim, luz do sol
Chova sobre mim, chuva
Caiam suavemente, gotas de orvalho
E refresquem minha testa novamente.

Tempestade, me sopre daqui
Com seus ventos violentos
Me deixe flutuar através do céu
Até que eu possa descansar novamente.

Caiam gentilmente, flocos de neve
Me cubram de beijos
Brancos e gelados e
Me deixem descansar esta noite.

Sol, chuva, céu turvo
Montanha, oceanos, folhas e pedras
Luz das estrelas, brilho da lua
Vocês são tudo que posso chamar de meu.

Woman Work
I’ve got the children to tend
The clothes to mend
The floor to mop
The food to shop
Then the chicken to fry
The baby to dry
I got company to feed
The garden to weed
I’ve got the shirts to press
The tots to dress
The cane to be cut
I gotta clean up this hut
Then see about the sick
And the cotton to pick.

Shine on me, sunshine
Rain on me, rain
Fall softly, dewdrops
And cool my brow again.

Storm, blow me from here
With your fiercest wind
Let me float across the sky
Till I can rest again.

Fall gently, snowflakes
Cover me with white
Cold icy kisses and
Let me rest tonight.

Sun, rain, curving sky
Mountain, oceans, leaf and stone
Star shine, moon glow
You’re all that I can call my own.

§

Mais uma rodada

Não há pagamento mais doce sob o sol
Do que o descanso depois de um trabalho bem feito.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas eu não nasci
Para ser escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Papai molda o aço e Mamãe mantinha a guarda,
Nunca os ouvi reclamando porque o trabalho era pesado.
Nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Irmãos e irmãs sabem as tarefas diárias,
O trabalho não fez com que perdessem a cabeça.
Eles nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

E agora vou contar qual é minha Regra de Ouro,
Eu nasci para trabalhar, mas não sou nenhuma mula.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas não nasci
Para morrer escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

One more round

There ain’t no pay beneath the sun
As sweet as rest when a job’s well done.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Papa drove steel and Momma stood guard,
I never heard them holler ’cause the work was hard.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Brothers and sisters know the daily grind,
It was not labor made them lose their minds.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

And now I’ll tell you my Golden Rule,
I was born to work but I ain’t no mule.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

§

Despertando em Nova York

Cortinas se forçam
contra o vento,
as crianças dormem,
trocando sonhos com
os anjos. A cidade
se força a acordar nas
vias do metrô; e
eu, alarmada, acordo como
um rumor de guerra,
me espreguiçando pelo amanhecer,
indesejado e ignorado.

Awaking in New York

Curtains forcing their will
against the wind,
children sleep,
exchanging dreams with
seraphim. The city
drags itself awake on
subway straps; and
I, an alarm, awake as
a rumor of war,
lie stretching into dawn,
unasked and unheeded.

§

Por que eles estão felizes?

Arreganhe seus dentes, maldito seja,
agite seus ouvidos,
sorria enquanto os anos
correm
do seu rosto.

Levante as bochechas, garoto negro,
enrugue seu nariz,
sorria enquanto os seus dedos
cavam
o seu túmulo.

Revire esses olhos grandes, garota negra,
emborrache seus joelhos,
sorria quando as árvores
se curvarem
com seus parentes.

Why are they happy people?

Skin back your teeth, damn you,
wiggle your ears,
laugh while the years
race
down your face.

Pull up your cheeks, black boy,
wrinkle your nose,
grin as your toes
spade
up your grave.

Roll those big eyes, black gal,
rubber your knees,
smile when the trees
bend
with your kin.

* * *

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação, em 2020, na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ser finalista do Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

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poesia, tradução

Natasha Felix: Considerações sobre a higiene íntima – performance e tradução

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Considerações sobre a Higiene Íntima
é a mistura entre poemas do livro Use o Alicate Agora (ed. Macondo, 2018), de Natasha Felix, e o beat instrumental Black Skinhead, de Kanye West.
      Apresentada pela primeira vez no Macrofonia (São Paulo), a performance já passou por saraus e festas, como a Joga a PPK na Mesa e o Festival ELA (Santos).
      Agora, em parceria com o músico Barulhista e a agenciachaos, ela existe também em vídeo-poema, trazendo a interssecção entre a literatura, a dança, o audiovisual e o hip hop.
Apresentamos na escamandro além do vídeo-poema, duas traduções para o poema que deu origem à performance, uma inglês de Adi Gold, e uma espanhol de Sergio Ernesto Ríos.
*
Considerações sobre a Higiene Íntima

nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
aliás os poucos que conheci
e talvez tivessem cabeça limpa
prestavam menos do que suspeitavam

sempre preferi aqueles cheios de bichos
escândalos baldeando de orelha a orelha

quem quebra copos
quem sabe o erro
toma para si o erro
segura escova gargareja
não cospe

testemunha perfeita do crime perfeito
quem sabe o erro assim
me inspira muita confiança mesmo

(reconhecer quem não tem cabeça limpa
alimentá-los, ser boa para eles)

olhei o tapete do banheiro sem medo dessa vez
todo um ecossistema lá
quem acreditaria?

ácaros mofo manchas de vinho
os meus joelhos nele
lembra?

os cotovelos no vaso sanitário a sua
língua entre as bandas da minha bunda
a gente ria feito duas cabras
era feriado ou algo assim
você atrasado pra uma festa ou algo assim
o azulejo português ou algo assim
quem acreditaria?
o fim do mundo ali vivendo entre
animaizinhos minúsculos lembretes
manchas impossíveis
lá bem ali

ácaro, mofo, manchas de vinho
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa (x2)

eu saio do banheiro cada vez mais suja
cada vez mais suja (x4)

penso que esquecer é fácil, então eu esqueço.

ácaro, mofo, manchas de vinho
os meus joelhos nele
azulejos, o vazo sanitário, a sua língua
ácaro, mofo, eu nunca conheci
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
ácaro, mofo, manchas de vinho

olha, você pode até ser um homem piedoso
só eu não sou piedosa.

On personal hygiene
tradução Adi Gold 

nobody I ever knew had a clean head
and the few I knew 
who maybe did 
were not as great as they thought

I’ve always preferred heads crawling with creatures
(scandals stretching from ear to ear) 
those who break cups 
who can tell a mistake
take the mistake for themselves 
grasp the toothbrush gargle
don’t spit 

a perfect witness to the perfect crime
those who know the mistake 
make me trust them

(recognize those without a clean 
head feed them, be kind to them)

I looked at the bath mat now fearless
a whole ecocystem there. 
who would believe it? 

mites mold wine stains 
my knees on it 
remember?

elbows on the toilet your
tongue in my ass 
we laughed like two goats
it was a holiday or something
you were late to a party or something 
the portuguese tiles or something 
who would believe it? 

the end of the world there among
miniscule creatures reminders
impossible stains
there, right there 

mites mold wine stains 
nobody I ever knew had a clean head (x2)

I get out of the shower dirtier and dirtier 
dirtier and dirtier (x4)

I think forgetting is easy and so I forget

mites mold wine stains 
my knees on it
tiles, toilet, your tongue
mites mold nobody I ever knew
nobody I ever knew had a clean head
mites mold wine stains 

look, you might even be a rightous man
I’m the one who isn’t rightous 

Consideraciones sobre la higiene íntima
tradução Sergio Ernesto Ríos

Nunca conocí a alguien que tuviera la cabeza limpia
además a los pocos que conocí
y tal vez tuvieran la cabeza limpia
ofrecían menos de lo que sospechaban

siempre preferí a aquellos repletos de alimañas
escándalos pasando de oreja a oreja

quien rompe vasos
quien sabe el error
toma para sí el error
toma el cepillo cepilla hace gárgaras
no escupe

testimonio perfecto del crimen perfecto
quien sabe el error entonces
me inspira mucha confianza realmente

(reconocer a quien no tiene la cabeza limpia
alimentarlos, ser buena con ellos)

miré el tapete del baño sin miedo por esta vez t
odo un ecosistema allí
¿quién lo creería?
ácaros moho manchas de vino
mis rodillas sobre él
¿recuerdas?

los codos sobre la taza del baño y tu
lengua entre los costados de mi culo
la gente reía vuelta loca
era feriado o algo así
tu atrasado para una fiesta o algo así
el azulejo portugués o algo así
¿quién lo creería?
el fin del mundo ahí viviendo entre
animalitos minúsculos recordatorios
manchas imposibles
allí, justo ahí

ácaro, moho, manchas de vino
nunca conocí a alguien que tuviera la cabeza limpia
salgo del baño cada vez más sucia
cada vez más sucia

pienso que olvidar es fácil, entonces olvido.

ácaro, moho, manchas de vino
mis rodillas sobre él
azulejos, la taza del baño, tu lengua
ácaro, moho, nunca conocí nunca conocí
a alguien que tuviera la cabeza limpia
ácaro, moho, manchas de vino
mira, hasta puedes ser un hombre piadoso
sólo yo no soy piadosa

*

FICHA TÉCNICA
 
direção: chaos prod. musical: barulhista poema: natasha felix performance: gabriel antonio mariano estilo: pedro bala e zé mariano
A música-poema também pode ouvir o poema no Spotify.
*
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poesia, tradução

“Canções para Joannes”, de Mina Loy, por Alvaro A. Antunes

Mina Loy nasceu Mina Gertrude Löwy em 27/12/1882, em Londres, e morreu Mina Loy em 25/09/1966, em Aspen, Colorado, EUA. Sua obra poética está coligida em duas edições complementares [1,2]. Há uma biografia sólida [3], monografias [p.e., 4,5], e uma rica coletânea de ensaios [6], além de, claro, vários artigos dispersos. Escreveu prosa também [7,8]. Confesso que, apesar de lê-la há décadas, seu mistério permanece, para mim, do tamanho de toda a poesia. Os rótulos com que a exibem ao nosso olhar faminto são, principalmente: feminista, futurista e modernista. Não que ela não os tenha originado, mas são como todos tais rótulos, redutores, e, no caso dela, me parecem desfigurá-la com requintes de simplicidade.  O que a faz única, penso, é a sua inteligência fina, elusiva, brava, afiada e felina, oblíqua, prenhe de lacunas esquivas. Não a lemos, principalmente, pela música ou pela imagística, embora, quando quer, ela as saiba. Pound nos saiu com a ideia de logopeia para, em parte, parece, alfinetá-la farfalla. E é nela que esse Cheshire Cat terminológico revela mais que somente seu sorriso. Ler Canções para Joannes, essa sequência de 34 poemas, descortina com suficiente clareza certos (se, por certo, não todos os) aspectos do que Pound queria dizer, e que definiu como ‘a dança da inteligência entre palavras e ideias e modificações de palavras e ideias’, citando Marianne Moore como outra a praticá-la e Laforgue como precursor.  Sua poesia foi, desde cedo, vista como intensamente cerebral, mas é ao mesmo tempo visceral, em Canções para Joannes por certo. E experimental, num sentido que me parece melhor entender como exploratório, estritamente: poemas nunca dantes. Mina Loy foi ultra entre ultras, radical entre radicais, adiante da adiante-guarda e, em máxima velocidade de fuga, deixou esse circo-círculo, e a poesia, em seu rastro com seu lendário amour fou e fuga com o mítico Arthur Cravan, que, ao desaparecer em Salina Cruz, México, em 1918, sem quê nem porquê, por fim, pôs fim às sementes que restassem dentro dela. Continuou a escrever, sim, mas brasas, não achas em chamas. Cancões para Joannes se passa num período anterior à sua chegada a Nova Iorque e à sua imersão nos círculos artísticos de ponta da época (no seu caso, os que tinham como bases as pequenas-revistas modernistas, Others, Dial e Little Review). Mina Loy, moça, viveu em Munique, estudando. Mudou-se pra Paris, casou com um primeiro homem errado, teve uma filha (que morreu infante). Mudou-se pra Florença, onde viveu entre 1907 e 1916, teve um filho (que morreu menino) e uma filha (que finalmente foi longeva). Em Florença, topou com o futurismo e os futuristas: Carlo Carrà e, adversários e ambos amantes seus, ambos homens errados, Giovanni Papini e Filippo Tommaso Marinetti. Pensa-se que ‘Joannes’ é um amálgama de Papini e Marinetti.  Atribuiu a Marinetti a descoberta do que ela, seguindo-o, chama de ‘vitalidade’, mas, como sugeri acima, penso, há pouco dele (e menos de Papini) em Mina Loy: onde a audácia daquele tende ao fátuo, a dela faz-se faca anti-hipocrisia (se bem que ela jamais sucumba a posturas parvas ou automatismos didáticos). Seu poema ‘Apologia do Gênio’ (traduzido aqui na escamandro por Guilherme Gontijo Flores em 05/02/2014), me parece separar aquele joio deste trigo. Que mais? Sempreviva, sempre esquiva.

[1] Loy, Mina. The Last Lunar Baedeker. ed. Roger L. Conover. Highlands: The Jargon Society, 1982.
[2] Loy, Mina. The Lost Lunar Baedeker. ed. Roger L. Conover. Farrar, Strauss & Giroux: New York, 1996.
[3] Burke, Carolyn. Becoming Modern: The Life of Mina Loy. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1996
[4] Kouidis, Virginia M.. Mina Loy: American Modernist Poet. Baton Rouge: Louisiana State UP, 1980.
[5] Scuriatti, Laura. Mina Loy’s Critical Modernism. Gainesville:University of Florida Press,2019
[6] Shreiber, Maeera & Tuma, Keith (eds.) Mina Loy: Woman and Poet. Orono: The National Poetry Foundation, 1998
[7] Loy, Mina. Insel. ed. Arnold, Elizabeth. Melville House Publishing: New York, 2014.

Alvaro A. Antunes foi professor de ciência da computação no Reino Unido, onde vive há muito, e onde há pouco se aposentou. Nos anos 80, traduziu para a extinta Interior Edições: The Aspern Papers/Os Papéis de Aspern (Henry James); The Hunting of the Snark/A Caça ao Turpente (Lewis Carroll); Canti/Cantos (Giacomo Leopardi) e uma recriação indireta dos fragmentos de Safo. Traduziu a versão de Ezra Pound de The Seafarer para o SLMG e esparsos de Novalis, Pushkin, Pound e Catulo para Musa Rara.

* * *

Aqui o PDF com a primeira aparição de Songs to Joannes, na revista Others, vol 3, no 6 em abril de 1917.

Canções para Joannes
(tradução de Alvaro A. Antunes, março de 2020, para pagar promessa, feita anos faz, a Carlito Azevedo e a Daniel Chomski)

I

Desova de Fantasias
Assoreando o louvável
Porco Cupido seu focinho rosado
Fuçando lixo erótico
“Era uma vez”
Arranca uma erva[1] branca e ponta-estrela[2]
Entre aveias bravas[3] bordadas[4] na membrana-mucosa

Queria o eu que iria[5] num fogo de bengala
Eternidade num rojão celeste
Constelações num oceano
Cujos rios mais doces não correm
Que um fio de saliva

Estes são lugares suspeitos

Tenho que viver no meu lampião[6]
Aparando[7] o tremeluz[8] subliminar
Virginal aos foles
Da Experiência
Vidro colorido

II

A bolsa-baga[9]
Onde uma dualidade devassa
Empacotava
Todas as completações[10] de meus impulsos infrutuosos
Algo com a forma de um homem
À vulgaridade fortuita do que meramente observador
Mais assim de se dar corda um mecanismo
Se exaurindo contra o tempo
Perante o qual não me compasso[11]
As pontas dos meus dedos dormentes cafunando[12] teus cabelos
Capacho de um Deus
No umbral da tua mente

III

Poderíamos ter nos acoplado[13]
No monopólio de um momento acamado
Ou rachado carne uma com o outro
Na mesa da comunhão profana
Onde o vinho s’entorna[14] em lábios promíscuos

Poderíamos ter dado à luz uma borboleta
Com as últimas do dia
Impressas em sangue nas asas dela

IV

Uma vez num mezzanino
O céu estrelado
Abarcava[15] uma família inimaginável
Abortos que se pássaros
Com gargantas humanas
E olhos de Siso[16]
Que vinham com vestidos17 cor rubi-abajur[18]
E cabelos de lã

Uma nina[19] um neném
Num porte-enfant forrado
Com fita de seda amarrado
Às suas asas de gansa

Não fossem as sombras abomináveis
Eu teria vivido
Entre a mobília macabra[20] deles
Pra lhes ensinar a me contar seus segredos
Antes que eu os adivinhasse
—Dando cabo da ninhada inteira

V

A meia-noite esvazia a rua
De todos menos nós
Três
Não sei decidir qual o caminho de volta
À esquerda um menino
—Uma asa foi lavada pela chuva
A outra nunca mais será limpa —
Tocando campainhas pra lembrar
Os que estão aconchegados
À direita um asceta aureolado
Fiando casas
Sonda feridas à procura de almas
—Os pobres não podem se lavar em água quente—
E nao[21] sei que direção tomar
Já que você[22] se mandou pra casa pra si[23]—primeiro

VI

Conheço o Manipulador[24] intimamente
E não fosse pelas pessoas
Com quem você se preocupa[25]
Você poderia me olhar no olho
E o Tempo voltaria aonde antes[26]

VII

Meu par de pés
Têm um ar de lajotas
Que são algo que sobrou do teu caminhar
O vento entulha a escória da rua branca
Nos meus pulmões e minhas narinas
Pássaros entusiasmados[27]
Prolongando o voar noite adentram
Sem jamais alcançar — — — — — —

VIII

Eu sou o armazém ciumento dos tocos de vela
Que iluminaram teu aprender adolescente
— — — — — — — — — —
Nas costas dos olhos de Deus
Poderiam
Existir outras luzes

IX

Quando abrimos
Nossas pálpebras ao Amor
Um cosmos
De vozes coloridas
E mel gargalhada[28]

E espermatazoides
No cerne de Nada[29]
No leite da Lua

X

Pereca e rã-quente[30]
Um pequeno rosamor[31]
E penas voam

XI

Caro mio[32] à tua mercê
Nosso Universo
Não passa de
Um cebola sem cor
Você se despe
Bainha[33] por bainha
Permanecendo
Um cheiro que desalento
Nas[34] tuas mãos nervosas

XII

Vozes arrebentam no perímetro da paixão
Desejo Suspeita Homem Mulher
Solvem na úmida carnificina

Carne de[35] carne
Extrai a delícia inseparável
Beijando os ofegos para pegá-la

Seria[36] verdade
Que te isolei e ungi[37]
Inviolado numa cristalização absoluta
De tudo o sacudir a multidão
Me ensinou a por querer viver pra repartir

Ou seria você
Somente a outra metade
Da necessidade de um ego
Flagelando orgulho com compaixão
Ao raso som de dissonância
E bumbo d’ar[38] fugindo do pulmão

XIII

Vem cá perto de mim Tenho uma coisa
Que te contar e não posso contar
Uma coisa que está tomando forma
Uma nova dimensão
Um novo uso
Uma nova ilusão

Nos abrange E está nos teus olhos
Uma coisa brilhante Uma coisa só pra você
Uma coisa que não devo ver
Está nos meus ouvidos Uma coisa muito ressoante
Uma coisa que você não deve ouvir
Uma coisa só pra mim
Sejamos muito ciumentos
Muito desconfiados
Muito conservadores
Muito cruéis
Ou pode ser que ponhamos fim às aspirações se acotovelando
Destronemos egos inviolados

Onde dois ou três se soldaram
Se tornarão deus
— — — — — — —
Ah é isso mesmo
Fique longe de mim Por favor me dê um empurrão
Não me deixe eu te entender Não me venha com saquei[39]

Ou pode ser que caiamos juntos
Despersonalizados
Idênticos
No terrífico Nirvana
Eu você — você — eu

XIV

Hoje
Perpétua perecível visível imperceptível
A ti
Eu trago a virgindade nascente de
—Mim mesma para o momento

Amor não ou a outra coisa
Só o impacto de corpos acesos
Soltando faíscas um no outro
Em caos

XV

Raramente Aspirando ao Amor
Fantasia desferiu-os[40] como deuses
Dois ou três homens pareceram apenas humanos

Mas só você
Sobre-humano ao que parece
Eu tinha que ser pega no débil remoinho
Da tua humanidade disparatada[41]
Pra te amar o mais[42]

XVI

Poderíamos ter vivido juntos
Nas luzes do Arno
Ou ido roubar maçãs debaixo[43] do mar
Ou brincado
De esconde-esconde enamorados e teias de aranha
E uma canção de ninar numa lata de latão

E conversado até não termos mais línguas
Com que conversar
E não termos nunca visto tão bem bom[44]

XVII

Não dou a mínima para
Onde as pernas das pernas dos móveis estão andando
Ou o que se esconde nas sombras que seus passos[45]
Ou o que me olharia
Se as fechaduras não os fechassem[46]

Vermelho uma cor quente no campo de batalha
Pesada nos meus joelhos como uma manta
Conta contra[47]
Contei a franja da toalha
Até que duas borlas uma emaranhada à outra
Que o quarto quadrado caia
De um vácuo redondo
Dilatando minha respiração

XVIII

Da cisão
De colina de[48] colina
O ínterim
De estrela de estrela
A nascente
Estática
Da noite

XIX

Nada conserva tanto
Quanto um cutelo bem gelo
Nota do O D V C[49]
Trinchá-la clara
O ar que dá-la
Pólen perfumado
Espaço

Branco contar
De saciar
Bebível
Pelos dedos
Água corrente
Caules de grama
Crescem com[50]

Desgovernar
de pirilampos
Quadrilha no ar
Trombando
Uma no outro
De novo conglutinando-se
Em recapturados pulsos
De luz

Você também
Tinha alguma coisa
Naquela época
De um verdor de vaga-lume
— — — — — — —
Mas lentamente encharcado
À defluorescência[51]
De chuva

XX

Deixe a Alegria ir consolo-alada[52]
Alvoroçar a quem interessar possa ela[53]

XXI

Acumulo noites contra você
Pesadas de pesadelos floroclusos[54]
— — — — — — — — — —
Empilhar tardes
Encaracolada contra o solitário
Nu que é o[55] do
Sol

XXII

Coisas verdes crescem em
Saladas
Para o renascer
Do forrageador[56] cerebral

Sobre submissas barrigas
De montanhas
Rolando no sol
E flã[57] florináceo[58]
Pausas[59]
Pros meus tamancos tolos[60]
Por certas vias sem você
Eu vou
Desajeitadamente
Como andam as coisas

XXIII

Gargalhada em solução
Constelações estateladas
Promessas irredimíveis
De consumações púberes
Apodrecem
Ao recorrente alvejar da
Lua
Na pura branca
Maldade da dor

XXIV

A procriadora verdade de Mim
Se exauriu
Em pestilentas
Gotas de lágrima
Leves luxúrias e lucidezes
E mentiras prenhes de prece
Desnorteadas pela aspereza abominável
Do teu sorriso de canto-de-rua[61]

XXV

Lambendo o Arno
A rosada mindinha[62]
Língua da Aurora
Interfere com nossos cílios
— — — — — — —
Nossos polegares
Rodam e rodam[63]
Mais velozes
E viram máquinas

Até que o sol
Acalma-se o brilhar
Derrete alguns de nós
Em cubículos aterradores
Que a Paixão perfurou
Em mornidão

Alguns poucos entre nós
Crescem ao nível de frescas planícies
Cortando nosso ponto de apoio
Com olhos de aço

XXVI

Descartando nossos melindres menores
De olhos rasgados

Sorrateiros encostamos
Na Natureza
— — — aquela colérica pornógrafa

XXVII

Núcleo Nada
Inconcebível conceito
Insensitivo repouso
As mãos de raças
Descolam-se e caem
Imodificável plástico

O conteúdo
Da nossa efêmera conjunção
Em alheamento de Muito
Fluiu para avizinhamento de — — — —
NADA[64]
Tinha um homem e uma mulher
Impedindo passagem
Enquanto o Insolúvel
Esfregava com nossas mortes diárias
Olhos impossíveis

XXVIII

Os degraus vão subindo uma eternidade
E são brancos
E o primeiro degrau é a última branca
Eterna idade[65]

Conclusões coloridas
Cheirava a brancura
Sintética
De minha
Emersão
E estou queimada bem branca
No retraimento
Climatérico do teu sol
E promessas e palavras todas brancas
Difundem
Ilimitável monótono

Branco onde não tem nada pra ver
Mas uma toalha branca
Seca o suor opalescente[66]
—Névoa nascer[67] de viver—
Do teu
Corpo estiolado
E a branca aurora
Do teu Novo Dia
Se fecha pra mim

Impensável aquele branco lá longe
— — — É fumaça da tua casa

XXIX

Evolução choca-se com
Igualdade sexual
Brejeiramente[68] erra o cálculo de
Similitude
Seleção desnatural
Parindo tais filhos e filhas
Que destramelam uns às outras
Criptônimos inescrutáveis
Sob a lua

Dê-lhes uma brecha e berram brônzeos
Como chamamento chamegante[69]
Ou aos homófonos afanados[70]
Transpor a gargalhada
Deixa eles suporem que lágrimas
São galantos[71] ou melado
Ou qualquer coisa
Senão insuficiências humanas
Implorando vértebras dorsais

Deixa encontro ser retorno
Ao antípoda
E Forma um borrrão[72]
Qualquer coisa
Senão seduzi-los
Àquele um[73]
Como simples satisfação
Ao outro

Deixa-os trombarem
Do que lhes são incógnitos
Em orgasmo sísmico
Pra muito maior
Diferenciação
Em vez de ver
Distorção de seu-próprio[74]
Retrair-se ao estrangeiro ego

XXX

Em algum
Plágio prenatal
Bufões fetais
Aprenderam truques
— — — — —

De pantomima arquitípica
Enfilando emoções
Laçadas no alto ar
— — — —

Para os olhos cegos
Com que a Natureza nos conhece
E a maioria da Natureza é verde
— — — — — — — — — —

Que garantia
Para a proto-forma
A gente tenteia
Nossa ética souvenir para
— — — — — —

XXXI

Crucifixão
De um intrometido
Querer interferir assim
Nas intimidades
Do teu isolamento insolente

Crucifixão
Da eclosão de um ego
Ilegal
No teu equilíbrio
Cariátide de uma ideia

Crucifixão
Braços destruídos
Extremidades indiciais
Em vácuo
Para a queda incontida

XXXII

A lua é[76] fria
Joannes
Onde o Mediterrâneo — — — — —

XXXIII

O pedante de paixão — — — —
À tua penúria professorial

Proto-plasma ia louco varrido
Nos evoluindo — — —

XXXIV

Amor — — — o preeminente literateur[78]

§§§

Notas a ‘Canções para Joannes’

[1] ‘weed’: estritamente, ‘erva daninha’, mas, mais contemporaneamente, ‘erva’ (diamba), assim deixada ambígua
[2] ‘star-topped’: ‘com estrelas na ponta’, mas distenderia a música
[3] ‘wild’: ‘silvestre’, ‘selvagem’, mas a música de ‘bravas’
[4] ‘sewn’: ‘costuradas’, mas ‘bordadas’ tem a música duma sílaba a menos
[5] ‘queria’/’que iria’: pela rima interna (‘I’/’eye’),
[6] ‘lantern’: difícil decodificar, ‘lampião’ (de rua, talvez) talvez
[7] ‘aparando’: o ambíguo de cortar o excesso e evitar que caia
[8] ‘flicker’: ‘tremeluzir’, mas, de novo, dichten=condensare
[9] ‘skin-sack’: ‘saco de pele’, mas a aliteração se perde, ‘bolsa-baga’, por bagos e bagagem, mas, mais explícito, o que Loy, possivelmente, condenaria
[10] ‘completações’: forma não unanimemente aceita, mas Loy confronta os lexicógrafos do inglês logo a seguir com ‘infructuous’
[11] ‘More … paced’: Loy (em quem pensando, Pound cunhou o termo d’arte ‘logopéia’, a tal dança do intelecto entre as palavras, i.e., o uso conceitual da língua talvez forçando os eixos léxicos, morfológicos e sintáticos à beira do cataclisma) dança com as preposições aqui, e eu trôpego tropeço e peço perdão e passagem
[12] ‘fretting’: ambíguo entre passar a mão nos cabelos se mescla com estar ansiosa com algo, ‘cafunando’ é uma perturbação lexical, talvez meiga demais para Loy?
[13] ‘coupled’: novamente, entre casar e acasalar, mas se ‘acoplado’ pende pro bruto, o original também, talvez, consistentemente com o Porco Cupido
[14] ‘s’entorna’: aqui e em toda parte, tento replicar as micro-turbulências de aparência na versão original em ‘Others’ (q.v., e.g., nao, espermatazóides) mas não todas (e.g., ‘woolen’ por ‘woollen’ permanece ‘lã’); o posterior estabelecimento do texto é inconsistente quanto ao que supõe ser erro de composição ou não, assim decidi aderir ao texto em ‘Others’.
[15] ‘abarcava’: parco pra ‘vaulted’, mas ‘abobadava’, ouço, “abobòra”
[16] ‘Sisos’: por pura molecagem, rimando semanticamente com ‘wisdom tooth’, ‘dente de siso’
[17] ‘vinham com vestidos’: uma inflação lamentável, mas, ouço, menos que ‘vestiam vestidos’
[18] ‘lamp-shade’: Loy, por muito tempo, criou e vendeu abajurs
[19] ‘bore a baby’: ‘carrega um bebê’, mas a aliteração
[20] ‘macabro’: um tanto tosco pra ‘fearful’?
[21] ‘nao’: para a micro-turbulência de ‘dont’
[22] ‘you’: uso ‘você’ e ‘si’, mas ‘teu’/’tua’ e ‘te’, que é este meu português vira-latas
[23] ‘Since you got home to yourself’: logopéia fina, tão difícil de desempacotar quanto indesejável, a versão aqui pende ao pífio ao tentar sem tentá-lo
[24] ‘Wire-Puller’: o marionetista, o que controla o desenrolar das coisas, o que manipula à distância, ‘Manipulador’ fica aquém
[25] keep an eye on: preocupar-se com é intenso demais?
[26] ‘set back’: como ‘keep an eye on’, ah, a plasticidade elétrica dos verbos frasais do inglês
[27] ‘entusiasmados’: parco pra ‘exhilarated’, mas ‘excitados’, e.g., conotaria demais
[28] ‘laughing’: ‘gargalhada’ é excêntrico, como é o léxico de Loy, pela assonância
[29] ‘de Nada’: por ‘do Nada’, porque é parte da hipersensibilidade logopaica que Loy nos impõe que os artigos, definidos e não, se tornem pequenas bombas semânticas apenas dormindo
[30] ‘Shuttle-cock and battle-door’ é um trocadilho (com um jogo chamado ‘battledore and shuttlecock’, ‘raquete e peteca’, um precursor do moderno badmínton) com, penso, conotações sexuais quais permeiam o poema: a intrusão de um hífen em ‘shuttle-cock’, acentua isso (‘shuttle’ é mover-se para lá e para cá, ‘cock’ é pênis) e ‘battle-door’ também (‘battle’ é ‘dar combate’, ‘door’, pelo contexto, hímen talvez); disso tudo ‘pereca’ (sugerindo ‘perereca’) em vez de ‘peteca’ e ‘rã-quente’ (idem) em vez de ‘raquete’.
[31] ‘pink-love’: se ‘pink’ o tradicional metônimo de ‘mulher’, ‘pink-love’, amor por mulheres; contemporaneamente, ‘pink’ é gíria de ‘vagina’, mas não, que se registre, quando Loy escrevia; assim ‘rosamor’ pra adensar a névoa semântica
[32] ‘Dear one’: ‘querido’, mas Joannes, supomos todos, é um compósito de Giovanni Papini e Filippo Tommaso Marinetti
[33] ‘bainha’ mais para espada (mas veja abaixo), não tanto de vestimentos, mas vestimentos usados como proteção, couraça, i.e., ‘sheath’, não ‘hem’, ou ‘cuff’, e ‘sheath’, antes da popularização de ‘condom’, era ‘camisa de vênus’
[34] ‘about’: aqui, ‘em torno de’, ou ‘a respeito de’, mas a música?
[35] ‘from’: ‘de’, dança de preposições em que tropeço
[36] ‘Is it’: Loy, percebeste já, não pontua; aqui, a forma indica interrogagação que tento indicar com o especulativo em ‘Seria’
[37] ‘I have set you apart’: difícil, ‘te distingui’?, ‘te priviligiei’?, preferi (contra meu instinto) expandir aqui, para a música, ainda que intrusiva
[38] ‘boom’: é ‘boom’ mesmo, mas (q.v. 37) expandi, para a música; e marcar a elisão não é estranho a Loy (q.v. ‘spill’t’)
[39] ‘Don’t realise me’: difícil, possivelmente ‘não me venha com essa que entende’
[40] ‘dealt’: um amplo campo semântico: dispensou, deu como se dá cartas, desferiu
[41] ‘drivelling’: ‘dizendo tolices, disparates’, mas um adjetivo em português?
[42] ‘amar o mais’: dança do intelecto
[43] ‘debaixo do mar’: não ‘no’
[44] ‘bem bom’: expando, perdão
[45] ‘the shadows they stride’: aqui, é a lacuna onde a preposição (e.g., where, in/over/under/at which) que eletriza a linguagem e faz o intelecto dançar
[46] ‘fechaduras’ pra preservar a aliteração, mas ‘shutter’ é, aqui, aba de janela, por isso há na traducão, especial traição
[47] ‘Count counter’: ambíguo, pode ser imperativo, ‘Conte contador’, mas ‘contador’ em português conota déb/crédito, que aqui não cabe
[48]: outra preposição de hidrogênio, e de novo, dois versos adiante
[49] ‘Q H U’: que Mina é só mistério pra guardar-se assim tão firme? Esse nó Alexandre algum até agora. Roger Conover pensou que pudesse ser um duchampismo (descendente do L.H.O.O.Q. = “Elle a chaud au cul” = “Ela tem o rabo quente”) mas não se sugeriu decodificação convincente. Pensei em ‘Cue! Hate you!’ e traduzi ‘O D V C’, por ‘Odeio você’, ou ‘Odeio! Vê se!”. Un jeu, bien entendu.
[50] ‘to’: ‘com’, outra preposibomba
[51] ‘raylessness’: léxico generativo, assim ‘defluorescência’, mas há perda aqui
[52] ‘consolo’: pra conotar um fascinus dos romanos, o falo, amiúde alado
[53] ‘a quem interessar possa ela’: outra turbulência, aplicada aqui a um clichê do burocratês
[54] ‘shut-flower’: ao justaposto, a valise ‘florocluso’
[55] ‘core’: ‘cerne’, ‘núcleo’, mas algo me parece merecer ênfase aqui, assim, me intrometo um calembour
[56] ‘forrageador’: palavra que ouco canhestra, mas que se?, e aqui (e em toda parte) note como o desvendamento em inglês e em português diferem por força da ordem adjetivo-substantivo no inglês, vice-versa no português
[57] ‘flummery’ é um mingau, papa, manjar branco, donde ‘flã’
[58] ‘flowered’ é florido, mas conota ‘flour’, farinha, donde a valise, talvez bruta demais
[59] ambíguo se substantivo ou verbo
[60] ‘tamancos tolos’, pela aliteração
[61] ‘street-corner smile’: penso que uma turbulência de ‘corner-mouth smile’, ‘sorriso de canto de boca’
[62] ‘little’, aqui, é pequena, mas ‘mindinha’ sugere, penso, o quê de sentimento que suspeito
[63] ‘twiddle’ é, mais precisamente, aquele rodar binário dos polegares um contra o outro quando impaciente
[64] ‘O conteúdo … NADA’: esta passagem um campo minado de micro-dispositivos gramaticais, Loy mais uma vez usa artigos e preposições (e as ausências daqueles e destas) como bisturis, dissecando, expondo
[65] ‘for ever’/’Forever’: invertido em ‘eternidade’/’Eterna idade’
[66] ‘cymophonous’: frequentemente corrigido pra ‘cymophanous’, i.e., de som pra imagem, que o Webster de 1864 define como ‘tendo uma luz ondulada, flutuante; opalino, opalescente’
[67] ‘Mist rise’: difícil, tomei por analogia com ‘sunrise’, ‘sol nascer’
[68] ‘Prettily’: se idiomático, grosseiramente; se irônico, brejeiramente, digamos
[69] ‘Carressive’: não dicionarizada, com um quê de ‘aggressive’, donde a valise ‘chamegante’ de ‘carícia’=’chamego’ e ‘agressiva’=’fumegante’.
[70] ‘hiccoughs’: ‘soluços’ mas para o OED um erro de ortografia comum pra ‘hiccup’, usei ‘afanados’ pela aliteração com ‘homófonos’
[71] i.e., Galanthus nivalis
[72] três erres em ‘borrrão’ para os dois erres de ‘blurr’
[73] ‘To the one’: aqui também, a minúcia de preposições, artigos, pronomes
[74] ‘Own-self’: uma construção um pouco espinhenta em inglês, donde o espinhento português
[75] ‘Stringing emotions \ Looped aloft’: difícil, com uma aliteração cheia de graça
[76] ‘é’: talvez ‘está’
[77] o hífen no original também é peculiar
[78] a ortografia em textos em inglês é instável

Padrão
poesia, tradução

Yusef Komunyakaa, por Viviane Nogueira

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Yusef Komunyakaa é um poeta e professor estadunidense nascido em Bogalusa, Louisiana, em 1947. Durante os anos de 1969 e 1970 Komunyakaa serviu na Guerra do Vietnã como correspondente, e posteriormente como editor, do jornal militar The Southern Cross.  Após o serviço militar estudou na Universidade do Colorado, Colorado Springs. Komunyakaa obteve seu Master in Arts em Escrita pela Colorado State University (1978) e um Master in Fine Arts em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia (1980). Ensinou poesia no sistema escolar público de Nova Orleans e escrita criativa na Universidade de Nova Orleans, na Universidade de Indiana. Em 1997 se tornou professor de inglês na Universidade de Princeton. Yusef Komunyakaa é professor do Programa de Escrita Criativa da Universidade de Nova York.

Em seus poemas trabalha através de uma narrativa autobiográfica temas como raça, guerra e jazz. Recebeu em 1994 o Pullitzer pelo livro Neon Vernacular: New and Selected Poems (1994), e entre outros prêmios, o Ruth Lilly Poetry Prize (2001), o Shelley Memorial Award da Poetry Society of America (2004), e o Wallace Stevens Award da Academy of American Poets (2011). Entre suas obras estão os livros: Dedications & Other Darkhorses (1977); Lost in the Bonewheel Factory (1979);  I Apologize for the Eyes in My Head (1986); Dien Cai Dau (1988), Warhorses (2008); Taboo: The Wishbone Trilogy, Part 1 (2006); Pleasure Dome: New & Collected Poems, 1975-1999(2001); Talking Dirty to the Gods (2000); and Thieves of Paradise (1998). Suas coletâneas de poesia mais recentes incluem The Chameleon Couch (2011);  Testimony: A Tribute to Charlie Parker (2013) e Emperor of Water Clocks (2015).

Agradeço a Ana Rusche, Francesca Cricellli e Maíra Mendes Galvão pelas revisões e pelo incentivo.

Viviane Nogueira

*

We Never Know

He danced with tall grass
for a moment, like he was swaying
with a woman. Our gun barrels
glowed white-hot.
When I got to him,
a blue halo
of flies had already claimed him.
I pulled the crumbed photograph
from his fingers.
There’s no other way
to say this: I fell in love.
The morning cleared again,
except for a distant mortar
& somewhere choppers taking off.
I slid the wallet into his pocket
& turned him over, so he wouldn’t be
kissing the ground

Nunca sabemos

Ele dançou com o capim alto
por um momento, como se bailasse
com uma mulher. O cano de nossas armas
brilhou incandescente.
Quando o encontrei,
uma auréola azul
de moscas já lhe reivindicava.
Puxei a fotografia amarrotada
de seus dedos.
Não há outro jeito
de dizer isso: me apaixonei.
A manhã clareou novamente,
exceto por um morteiro distante
& helicópteros alçando voo em algum lugar.
Deslizei a carteira para dentro de seu bolso
& o virei para cima, para que não
beijasse mais o chão.

§

 

You And I Are Disappearing–Bjorn Hakansson

The cry I bring down from the hills
belongs to a girl still burning
inside my head. At daybreak

she burns like a piece of paper.

She burns like foxfire
in a thigh-shaped valley.
A skirt of flames
dances around her
at dusk.

We stand with our hands

hanging at our sides,
while she burns
like a sack of dry ice.

She burns like oil on water.
She burns like a cattail torch
dipped in gasoline.
She glows like the fat tip
of a banker’s cigar,

silent as quicksilver.

A tiger under a rainbow
    at nightfall.
She burns like a shot glass of vodka.
She burns like a field of poppies
at the edge of a rain forest.
She rises like dragonsmoke
    to my nostrils.
She burns like a burning bush
driven by a godawful wind.

Você e eu estamos desaparecendo

O lamento que eu trago das colinas
pertence a uma garota que ainda queima
em minha cabeça. No romper do dia

ela queima como um pedaço de papel

queima fogo-fátuo
num vale em forma de coxa
Uma saia de chamas
dança ao seu redor
no cair da noite.

Ficamos com as mãos

soltas ao lado do corpo
enquanto ela queima
como um saco de gelo seco.

Queima como óleo na água.
Queima como uma tocha de taboa
mergulhada em gasolina.
Ela brilha como a ponta grossa
do charuto de um banqueiro,

silenciosa como mercúrio.
Um tigre sob o arco-íris
no anoitecer.
Ela queima como um shot de vodka.
Queima como um campo de papoulas
na borda de uma floresta tropical.
Se ergue como fumaça de dragão
até minhas narinas.
Ela queima como sarça ardente
movida por um vento de merda

§

Believing In Iron

The hills my brothers & I created
never balanced, & it took years
To discover how the world worked.
We could look at a tree of blackbirds
& tell you how many were there,
But with the scrap dealer
Our math was always off.
Weeks of lifting & grunting
Never added up to much,
But we couldn’t stop
Believing in iron.
Abandoned trucks & cars
Were held to the ground
By thick, nostalgic fingers of vines
Strong as a dozen sharecroppers.
We’d return with our wheelbarrow
Groaning under a new load,
Yet tiger lilies lived better
In their languid, August domain.
Among paper & Coke bottles
Foundry smoke erased sunsets,
& we couldn’t believe iron
Left men bent so close to the earth

As if the ore under their breath
Weighed down the gray sky.
Sometimes I dreamt how our hills
Washed into a sea of metal,
How it all became an anchor
For a warship or bomber
Out over trees with blooms
Too red to look at.

Acreditar no Ferro

Os montes que meus irmãos & eu criamos
Nunca fecharam as contas & foram anos
para descobrir como o mundo funciona.
Podíamos olhar para uma árvore de melros-pretos
& lhe dizer quantos estavam lá,
Mas com o homem do ferro velho
Nossas contas estavam sempre erradas.
Semanas levantando & grunhindo
Nunca rendiam muito,
Mas não podíamos parar de
Acreditar no ferro.
Caminhões & carros abandonados
Depostos no chão
Por dedos grossos e nostálgicos de trepadeiras
Fortes como uma dúzia de meeiros.
Voltávamos com nosso carrinho de mão
Gemendo debaixo de uma nova carga,
Ainda que os lírios vivessem melhor
Em seu lânguido domínio de agosto.
Entre papel & garrafas de Coca-cola
A névoa das chaminés apagava poentes,
& não podíamos crer que o ferro
deixava os homens tão perto do chão
Como se o minério em seu fôlego
Rebaixasse o céu cinzento.
Às vezes sonhava com nossos montes
Desaguando um mar de metal,
Como tudo isso se fez âncora
Para um navio de guerra ou bombardeiro
Por cima de árvores em flor
Rubras demais para serem olhadas.

§

Instructions for Building Straw Huts         

First you must have
unbelievable faith in water,
in women dancing like hands playing harps
for straw to grow stalks of fire.
You must understand the year
that begins with your hands tied
behind your back,
worship of dark totems
weighed down with night birds that shift their weight
& leave holes in the sky. You must know
what’s behind the shadow of a treadmill—
its window the moon’s reflection
& silent season reaching
into red sunlight hills.
You must know the hard science
of building walls that sway with summer storms.
Locking arms to a frame of air, frame of oak
rooted to ancient ground
where the door’s constructed last,
just wide enough for two lovers
to enter on hands & knees.
You must dance
the weaverbird’s song
for mending water & light
with straw, earth, mind, bright loom of grain
untortured by bushels of thorns.

Instruções para Construir Cabanas de Palha

Há de se ter
uma fé inabalável na água,
nas mulheres que dançam como mãos tocam harpas
para que da palha cresçam hastes de fogo.
Há de se entender o ano
que começa com tuas mãos presas
às costas,
adoração de entidades sombrias
sobrecarregadas com aves noturnas que mudam de peso
& deixam buracos no céu. Há de se saber
o que está atrás da sombra de uma moenda —
sua janela o reflexo da lua
& a estação silenciosa alcançando
as colinas do sol vermelho.
Há de se saber a ciência exata
de construir paredes que balançam com as tempestades de  verão.
Encerrar os braços numa moldura de ar, de madeira
enraizada em solo antigo
onde a porta é construída por último,
com a largura exata para que dois amantes
entrem de joelhos & mãos.
Há de se dançar
o canto dos tecelões
para remendar água & luz
com palha, terra, mente, tear brilhante de grãos
sem a tormenta de alqueires de espinho.

§

Viviane Nogueira tem 24 anos, é poeta, bacharela em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco e autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

*

 

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poesia

4 poemas inéditos de Dirceu Villa

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 5 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (Hedra, 2003, prêmio Nascente), Icterofagia (Hedra, 2008, ProAC), Transformador (Demônio Negro, antologia, 2014), speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (Corsário-Satã, 2018) e um inédito, couraça (Laranja Original, no prelo). Traduziu Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra, 2009), Lustra, de Ezra Pound (Demônio Negro, 2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (Dobra Editorial, 2015). É professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária).

* * *

a mãe do nosso açougueiro

suas mãos vieram antes. adiante, os dedos graxos
se moviam como se neles prendesse mesmo o ar.
sorrimos, brincamos, porque é uma causa infinita,
essa de compor um anjo. para esta mãe. esta das

horas de não e de ternura, e aparar tudo que esmaga:
migalhas junto dos lábios, dentes que maltratam.
seu sorriso nos mordia, mascava o mundo como
uma goma, de mandíbula feliz, e mãos tão firmes:

ele agarrava duro as contas sibilantes do chocalho,
seus punhos se fechavam no cercado do andador,
ele fatiava os ovos brancos amando o fio da faca.
mas que gosto ao ver a massa mole que a gema

alaranjava no prato pegajosa, aderência doce que
não pouco se parece com a do sangue, enamorado.
as horas de cortar, suas favoritas. nosso anjo, nosso
gabriel, nosso jorge: a espada é a força, o nosso rito.

§

cada flor uma ferida

chapéu de couro ou cocar, auréola de raios do livro
sem autor, mas o deus sol da maligna terra sem mal;
grota de angicos, gruta de cabeças cortadas, onde os
chapéus riem com dentes de fera, e mordem o cano

do fuzil mauser, estrela e costura dos olhos cerrados;
sob a igreja nova, as ruínas do anti-estado e a cabeça
arrancada, de loucura e demência e fanatismo, ordens
diretas de cães que andam em cima e cheiram em círculo

os rabos. mas rever junto à margem a forma caminhante
da natureza aberta aos pedidos cantados, com sopro de
fumo, com som enfeitado: cabeças brotam do chão em
olhos abertos de vida, que cada flor nos custa uma ferida.

§

guerra cultural

na cabeça dos godos [diz cesareia], estátuas de mármore:
o fauno adormecido nem acorda eclodindo projétil nos
chifres do elmo. endormi [diz bouchardon] ao copiá-lo res-
taurado para antes de ser gliptobomba, ou o que sabemos:

um item novo no que asnos chamam [guerra cultural]? o
fauno voador do mausoléu de adriano entraria enfim na
testa dura dos godos da barbárie. entraria após, com seu
pênis, na doce porcelana em nymphenburg, sem ironia,

[nymphenburg]. o corpo antes grego, que copiam romanos
e redescobre barberini, segue após aos alemães, virtude de
mostruário, raça superior, ignorando o fato de que o fauno,
enfim, não é humano, e a estátua tinha mira nos seus cornos.

§

jargão de pia e barril [ii]

fala também a água de fogo, chamam cachaça,
que banha a carne do cachaço de doçura, eis
a chama de sua língua ardente, escuma da cana
fervente como céu de nuvens que se dissipam

por clareza, translúcido líquido dessa prata veloz
do álcool, ou da caixa sonora do carvalho velho,
senhor ouro que tinge sua voz de saibro, sério o
cenho de seu matiz, mas doce fermento de força

muscular escondida na senzala de onde tentam-na,
nova nobre mentida, mas rememorada em insultos
de reduzir pobre e pinguço, cachaceiro e nordestino,
travo de trabalhador: seu indomável elogio, cachaça.

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sessão vagalume, tradução

Sessão Vagalume|Laura Accerboni, por Prisca Agustoni

Laura Accerboni nasceu em Gênova em 1985. Formada em Letras Modernas, viveu em Lugano (Suíça) onde conseguiu o Master em Literatura Italiana (USI). Atualmente vive em Genebra. Tem poemas publicados em inúmeras revistas italianas e internacionais (Nuova Corrente, Italian Poetry Rewiew, Gradiva, Poesia, Lo Specchio, Steve, Capoverso, Loch Raven Rewiew). Em 2010 publicou seu primeiro livro, Attorno a ciò che non è stato (Edizioni del Leone, Prêmio Marazza Opera Prima, 2012). Em 2015 publicou La parte dell’annegato, uma versão e-book pela editora Nottetempo. Está no prelo com a editora Einaudi de Turim sua próxima coletânea de poemas, Acqua acqua fuoco.
Seus poemas foram traduzidos para o alemão, o francês, o inglês, o armênio o e romeno. Accerboni realizou leituras em numerosos festivais literários internacionais.

Prisca Agustoni

* * *

De La parte dell’annegato, Ed. Nottetempo

1.
L’ospedale
è popolato da pesci.
E non si respira.
Pare che l’ossigeno
qualcuno lo paghi
per morire più sereno
e non pensare.
Non pensare
alle enormi vasche
dove ti gettano.
E che non c’è acqua
non lo capisci subito.
Solo quando
le braccia tirano
e la trasformazione in branchie
è già avvenuta.
Rivoglio i miei polmoni
qualcuno urla
altri più tranquilli
smettono di tremare.


1.
O hospital
é povoado por peixes.
E não se respira.
Parece que alguém
paga o oxigênio
para morrer mais sereno
e para não pensar.
Não pensar nas banheiras enormes
onde te jogam.
Você não entende logo
que não tem água.
Somente quando
os braços puxam
e a transformação em guelras
já aconteceu.
Quero meus pulmões de volta
grita alguém
outros mais tranquilos
param de tremer.

§

2.
Ho pensato
non fosse giusto
per i pesci
abitare corpi
per smaltirli
più in fretta
quando l’uomo
li rilascia sul fondo
per non farsi trovare
magari uniti al cemento
i piedi
e corde
e un sacchetto
sulla testa.
Questo a un pesce
non si dovrebbe fare:
costringerlo
a nuotare tra le vene
e obbligarlo a imparare
la geografia polmonare
di altre specie.


2.
Pensei
não está certo
que os peixes
habitem corpos
para escoá-los
mais rápido
quando o homem
os solta no fundo
para não serem descobertos
talvez colados ao concreto
os pés
e cordas
e uma sacola
na cabeça.
Não se deveria fazer
isso com um peixe:
forçá-lo
a nadar entre as veias
e obrigá-lo a aprender
a geografia pulmonar
de outras espécies.

§

3.
Mi sono riempita
una guancia sola
per assomigliare di più
al cadavere che sarò.
E mi farò tirare la pelle
e sarò tossica.
Ingiustamente
guardata come viva
non sanno
che già mi ritiro dentro:
tra gli organi interni
un’intera casa delle bambole
e qualche sigaretta di troppo.


3.
Preenchi
somente uma bochecha
para ser mais semelhante
ao cadáver que serei.
Farei com que puxem minha pele
e serei tóxica.
Injustamente
observada como viva
não sabem
que dentro já estou me encolhendo:
entre os órgãos internos
uma inteira casa de bonecas
e algum cigarro a mais.

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