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Lucas Rolim (1995-)

Lucas Rolim é poeta, editor independente e fez algumas traduções. Como poeta, lançou os livrinhos artesanais No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2015), Os Cantos de Eleanor (Selo Kizumba, 2017) e Terrário (Selo Kizumba, 2017). É colaborador do projeto Roda de Poesia Tensão, Tesão & Criação, participando ativamente do circuito artístico da cidade. Teve poemas e traduções publicados em revistas, jornais, sites e antologias. Nasceu em Teresina, onde habita e é habitado.. Os poemas “dois amantes & a metamorfose” e “pelas cercanias” pertencem ao livro O Mirábolo (ed. Moinhos, 2017). O poema “vejo melhor de olhos fechados” é inédito.

* * *

dois amantes
& a metamorfose

I
dois amantes marcham de muito longe
dentro da madrugada que os desafia

deixam suas terras danças e músicas
para se encontrarem no silêncio do deserto

um vem do ocidente que lhe diz
morrerás antes que o sol te acolha

outro desponta do oriente que o alerta
do deserto vieste e teu espírito é areia

a trilha que seguiram madrugada a fio
pertence agora ao Vento Leste – suas pegadas
foram extintas com a visita da noite que sopra.

II
frente a frente no seio das dunas
os amantes sabem que não há miragem
— que de carne e toque é feito o momento

para que a palavra do primeiro acenda
como fogo vivo nas orelhas do segundo

é preciso que se ergam defronte de si

mirando a esfinge que no outro habita
& volvendo ao que o sonho tornou real

desnudando o enigma & virando peixe
no mar que engole o deserto em sua
vertigem & mudez.

§

pelas cercanias

desiludidos,

cruzavam a espera
levando um mapa de ausências,
uma distância inquieta.

ruínas
e compulsões revisitadas.
desertos povoados novamente.

(as trilhas guiavam
a antigos hedonismos)

eles herdavam o sigilo
de seus quartos e recordavam
conversas aflitas.

em seus corpos
ardia a inscrição da noite:
os piores dos cegos. os piores dos cegos.

era tempo de saber
o paradeiro da angústia
e abrigar-se no conforto das conchas.

tempo de habitar
silêncios.

§

vejo melhor
de olhos fechados

quando o labirinto amansa
o caminho se revela com passos de água.

há uma nudez própria
a todas as coisas

e um nome ao qual tudo atende:

a ternura das árvores,
o ritual das rochas,
o calor do tempo batendo nos dias.

um nome rápido, que tudo diga:

a face iluminada das abelhas,
a lição de força dos pequenos insetos,
os seres em sua mais tenra forma.

quando o labirinto amansa
finalmente entendo:

não há dor na trajetória do sol.
a noite que aporta é violenta, mas gentil,
e abriga as coisas que também
se encontram na claridade cega.

o olho atento é seu hóspede inquieto.

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poesia, tradução

Olga Sánchez Guevara

Olga Sánchez Guevara é escritora e tradutora. Licenciada em Língua Alemã pela Universidade da Havana, estudou português na União Latina de Cuba. É autora dos livros Conversación con ángeles (Editorial Ácana, Camagüey, 2005); Ítaca (Fundación Sinsonte, Zamora, España, 2007); Óleo de mujer junto al mar (Ediciones Unión, La Habana, 2007), entre outros. Tem vários ensaios e artigos em publicações periódicas e sítios web de Cuba. “Cartas de la nostalgia”; outros  textos traduzidos ao alemão foram incluídos na antologia Mosaik aus dem Innersten, em Salzburgo, Áustria. Traduziu, entre outros, Else Lasker-Schüler, Friederike Mayröcker, Marie-Thérèse Kerschbaumer, Cecília Meireles y Eugénio de Andrade. Como tradutora recebeu prêmios em Cuba e na Áustria. Foi editora e fez a tradução e o prólogo de Frau in der Landschaft/Mujer ante el paisaje, antologia poética bilingüe (Edition Art Science, St. Wolfgang, Austria, 2014).

Os poemas abaixo são do livro Ítaca, de 2007.

guilherme gontijo flores

* * *

Da série VISIONES/VISÕES

1

no hay tiempo de dormir en camagüey

desperté muy temprano; me he levantado a oscuras

es grato amanecer en esta casa donde todo está siempre como siempre

no temo a sus fantasmas; ellos, que aquí se amaron, velan, son eternos

el perro de pelaje negro está a mis pies: me reconoce cuando vuelvo al cabo de un año

los papeles se cambian, soy penélope y viajo; camagüey es también mi ítaca, y en ítaca no hay tiempo de dormir

me desperté soñando con mi madre y sentí miedo de morirme, y ahora debo enfrentarlo de una vez: me aterra convertirme en una ausencia

quiero tiempo, Dios mío: la eternidad la tengo ya

el sueño con las aguas, dice freud, revela el temor a la muerte; soñaba con mi madre y nos bañábamos en una playa tibia

me he levantado a oscuras, y en esta casa no hay fantasmas: velan, los eternos amantes          

pronto amanecerá

para vivian

1

não há tempo pra dormir em camagüey

acordei muito cedo; levantei no escuro

que bom amanhecer nesta casa onde tudo está sempre como sempre

não temo seus fantasmas; eles, que aqui se amaram, velam, são eternos

o cão de pelo negro está junto a meus pés: me reconhece quando volto ao fim de um ano

o papéis se trocam, sou penélope e viajo; camagüey é também minha ítaca, e em ítaca não há tempo para dormir

eu acordei sonhando com minha mãe e senti medo de morrer, e agora tenho de enfrentá-lo pra valer: tenho pavor de converter-me numa ausência

quero tempo, meu Deus: a eternidade eu já tenho

o sonho com as águas, disse freud, revela o temor da morte; eu sonhava com minha mãe nos nos banhávamos numa praia morna

levantei no escuro, e nesta casa não há fantasmas: velam, os eternos amantes

logo amanhecerá

para vivian

§

8

cada regreso, un renascer; cada partida, un nuevo desarraigo

aquí es la infancia, el infinito parque de juego y maravilla, sueños de adolescencia

una inflexión distinta en el hablar, una cadencia inconfundible

lejos, es la palabra

siempre lejos de algo: ítaca fragmentada en los adioses

para aquellos que parten una y otra vez

8

cada regresso, um renascer; cada partida, um novo desraizamento

aqui é a infância, o infinito parque de diversões e maravilha, sonhos de adolescência

uma entonação diferente na fala, uma cadência inconfundível

longe, eis a palavra

sempre longe de algo: ítaca fragmentada nos adeuses

para aqueles que partem vez por outra

§

Da série SALZBURGO/SALZBURGO

2

La sala iluminada; afuera hay frío, y en el jardín la escarcha marchitó las rosas

Por la ventana, el monte coronado de nieve: al otro lado es Alemania, dicen mis amigos

Yo, criatura de isla, trato de comprender la lógica de las fronteras

2

A sala iluminada; lá fora, o frio; e no jardim a geada ressecou as rosas

Pela janela, o monte coroado de neve: do outro lado é a Alemanha, dizem meus amigos

Eu, criatura de ilha, trato de compreender a lógica das fronteiras

§

Da série ÍTACA/ÍTACA

7

en el planisferio una franja apenas visible cuya exigüidad misma suscita la duda: algunas veces me pregunto si nos hemos pasado siglos, toda la vida, inventando un país inexistente, fabricando esta isla de nostalgias que se fundó desde el exilio y del exilio sigue recibiendo parte de su sustento

pero, ¿y nosotros, los que nos quedamos? ¿somos sombras acaso, o también somos el sostén de un edificio espiritual cuyo alcance está fuera de nuestras medidas?

7

no planisfério, uma parte quase visível, cuja própria existência provoca dúvidas: às vezes me pergunto se passamos séculos, toda a vida, inventando um país inexistente, fabricando esta ilha de nostalgias que se fundou pelo exílio e do exílio continua recebendo parte do seu sustento

mas, e quanto a nós, que ficamos? somos sombras por acaso, ou também somos a base de um edifício espiritual cujo alcance está além de nossas medidas?

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poesia

Fernanda Marra (1981-)

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fernanda marra é mestre em letras e linguística pela ufg e doutoranda em teoria literária pela unb. manteve o blog marés e ressacas, dedicado à publicação de seus poemas, de 2009 a 2015. o livro que reunirá os poemas do blog e a produção mais recente da autora tem previsão para 2018, pela martelo casa editoral.

 

* * *

escápulas

no bolso posterior embutido
repousam despojos
dunas encruadas
e rangentes em inadiáveis
deslizamentos anunciam
o parto superior inexequível
placas calcificadas de dejetos anorgânicos impalpáveis imprecisos
abrem-se para a passagem
de uma gestação tectônica inter-
rompida

§

 

maulla

ter um método
e me ater a ele
mesmo sabendo que se intro-
mete
na vida diária
tem isso de ver crescer os pelos
arrancá-los
fazer comida lavar os pés
abastecer as tripas
esperar um raio
isso de ver o pelo cair
de depilar o ralo
de descascar os livros
contornar a cama toda santa madrugada
(as insantas também)
transigir
com as aderidas roupas do alho
ter método
– um sonho antigo
de me ter sem barulho
abafados rangidos
no marulho de crânios dentro do aquário
eu sei o mar
tem gemido exclusivo
que aprendi a ouvir sem noite
mesmo morando no seco
mergulhando os sentidos
na água suja do vaso

§

 

sigilo

entrando sem bater
especulando a maçaneta
esbarrando na culpa

de portas trancadas
as letras truncadas
nem sempre retrucam

à mesa, só o silêncio revém
do rosto cerrado em copas
o segredo das portas sem zíper

a mesma lei de madeira das tumbas

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poesia, tradução

Robert Walser (1878-1956)

durante esta estadia na suíça, numa gentilíssima bolsa de tradução oferecida pela übersetzerhaus looren, tenho me debruçado sobre uma parte da obra de robert walser menos conhecida, a poesia. não vou repetir o que já escrevi sobre sua prosa, que vocês podem ler aqui. só gostaria de marcar que a poesia de walser, pelo que pude conversar com suíços mesmo, também não é muito conhecida nem no próprio país. uma pena, porque perdem o ritmo desses versos encantatórios, de melodia fina. uma pena, porque perdem a força absurda dos absurdos que aí aparecem. uma pena, porque perdem o impulso que essa obra gera. uma pena terrível, ainda pior fora da língua alemã, mas que a gente remedia como pode.

faço aqui a minha parte, com quatro poemas.

quem sabe, abertura para mais.

canteiro de obras.

guilherme gontijo flores

* * *

Além

Eu quis ficar parado,
o impulso leva além,
por entre negros ramos,
por sob os negros ramos,
eu quis fincar parado,
o impulso leva além,
por entre verdes campos,
adentro os verdes campos,
só quis ficar parado,
o impulso leva além,
em frente a pobres casas,
nalgumas pobres casas,
quem dera estar parado,
e ver a tal pobreza,
e ver vagar fumaça
acima ao céu, quem dera
um longo estar parado.
Assim falei e ria,
e riu campestre verde,
riu fumo da fumaça,
o impulso leva além.

Weiter

Ich wollte stehen bleiben,
es trieb mich wieder weiter,
vorbei an schwarzen Bäumen
doch unter schwarzen Bäumen
woll’t ich schnell stehen bleiben,
es trieb mich wieder weiter,
vorbei an grünen Wiesen,
doch an den grünen Wiesen
wollt’ ich nur stehen bleiben,
es trieb mich wieder weiter,
vorbei an armen Häuschen,
bei einem dieser Häuschen
möcht’ ich doch stehen bleiben,
betrachtend seine Armut,
und wie sein Rauch gemächlich
zum Himmel steigt, ich möchte
jetzt lange stehen bleiben.
Dies sagte ich und lachte,
das Grün der Wiesen lachte,
der Rauch stieg räuchlich lächelnd,
es trieb mich wieder weiter.

§

E foi

Leve acenou com seu chapéu
e foi, se diz do mercador.
Rasgou as folhas da uma árvore
e foi, se diz do duro outono.
Rindo espalhou suas mercês
e foi, se diz da majestade.
Bateu à noite nesta porta
e foi, se diz da dor no peito.
Mostrou em pranto o coração
e foi, se diz de um homem pobre.

Und ging

Er schwenkte leise seinen Hut
und ging, heisst es vom Wandersmann.
Er riss die Blätter von dem Baum
und ging, heisst es vom rauhen Herbst.
Sie teilte lächelnd Gnaden aus
und ging, heisst es von der Majestät.
Er klopfte nächtlich an die Tür
und ging, heisst es vom Herzeleid.
Er zeigte weinend auf sein Herz
und ging, heisst es vom armen Mann.

§

Ao lado

Eu faço a caminhada;
que passa além do prado
e logo volta; nada
digo; estou ao meu lado.

Beiseit

Ich mache meinen Gang;
der führt ein Stückchen weit
und heim; dann ohne Klang
und Wort bin ich beiseit.

§

Dístico

Assumo que não li nenhuma página de Marcel Proust;
sem conhecer a grande obra, nada sei do que se ajuste.

Vi por acaso as casas Fugger de Augsburg num jornal,
por causa deles na Alemanha sofro da balança comercial.

O banco em que subira a moça, meus queridos, sim, eu vi no viço
brilhando só pelo prazer interno de prestar serviço.

Na igreja vi cantar cantora tão incrivelmente linda: força é que eu confesse
que me senti qual neve pura que de súbito fundida se esvanece.

Mais cedo recebi a carta de um doente triste no abandono.
O forte conteúdo me assolou, até até cair no sono.

O embate deste afã de vida contra a ânsia criadora pouco me molesta;
a natureza, um vinho e um casebre junto ao campo me aliviam cá na testa.

Sem gosto pela vida que ele amara, faleceu Tolstói,
um grande Shakespeare com tragédias claras e comédias secas só lhe dói.

Ah, flórida imortalidade na incompleta vida dada a Heinrich Heine,
Miss Vidagora o censurou pesado e Dama Vidapós deixou-o assim just fine.

Couplet

Ich bin mir schuldig, dass ich nächstdem lese einen Band von Marcel Proust;
bis heut’ ist mir noch nicht das Mindeste von diesem eminenten Mann bewusst.

Vom Fuggerhaus zu Augsburg fand ich kürzlich ein’ge Zeitschfritabbildungen
und bin an Hand derselben in den Handelsblütezustand Deutchlands eingedrungen.

Den Stuhl, von dem ein Fräulein sich erhoben hatte, sah ich euch, o Freunde, glänzen
vor nichts, als vor Vergnügtheit wegen Diensterwiesenheitstendenzen.

In einer Kirche sang ein Sängerinnenexemplar so unbeschreiblich schön, ich will’s gestehn,
dass ich mir erstens rein wie Schnee und andersteils erweicht erschien bis zum Zergehn.

Heut’ früh erhielt ich einen vor Gekränktheit fassungslosen, tiefergriffnen Brief.
Aus Grund des Inhalts, der mich nicht beruhigt lassen sollte, schlief ich tief.

Noch hat der Zwiespalt zwischen Lebenswunsch und Schaffensdrang mich nie gar lang belästigt,
Natur und ein Glas Wein in einem Landgasthaus haben mich jeweils hübsch in mir befestigt.

O, von welch blühender Unsterblichkeit ist wieder dieser doch so unkomplett gewesne Heinrich Heine.
Frau Mitwelt hielt ihm vor, er sei nicht sauber, doch die Dame Nachwelt kam mit ihm ins Reine.

 

 

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tradução

‘Dom Baal’, de Edith Sitwell, por Alessandro Funari

edith-sitwell

Somente uma breve nota introdutória, um tanto para ‘legitimar’ as alterações da tradução, mas mais para apontar que o poema – e, em geral, a poeta – se baseia na construção constante de relações sonoras, humor meio non-sense e na métrica (nesse caso, a discrepância entre o assunto e a métrica clássica). E foi com esse enfoque que tentei traduzir: dentro do escopo semântico (a apetência do tinhoso), tentando manter as relações de sons, o ar jocoso e imitando o cantar dátilo que move os versos.

Alessandro Palermo Funari nasceu em Campinas (SP), mas reside na capital do estado. É formado em História (porém não historiador) e não é poeta (mas traduz poesia).

* * *

 

When
Sir
Beelzebub called for his syllabub in the hotel in Hell
…….Where Proserpine first fell,
Blue as the gendarmerie were the waves of the sea,
…….(Rocking and shocking the barmaid).

Nobody comes to give him his rum but the
Rim of the sky hippopotamus-glum
Enhances the chances to bless with a benison
Alfred Lord Tennyson crossing the bar laid
With cold vegetation from pale deputations
Of temperance workers (all signed In Memoriam)
Hoping with glory to trip up the Laureate’s feet,
…….(Moving in classical metres) …

Like Balaclava, the lava came down from the
Roof, and the sea’s blue wooden gendarmerie
Took them in charge while Beelzebub roared for his rum.
…….… None of them come!

Quan
do
Baal foi pedir seu mingau no quintal do hotel
…………No Fel, da queda primal de
Prosérpina, azuis qual gendarmes as ondas do mar,
…………(Zoando e chocando a barista).

Não vem nenhum pra servir o seu rum mas as
Raias do céu têm negrume do anum
Acirra-se a sina a benzer com sua bênção a
Alfred Lord Tennyson, como um barrista,
Com frias carquejas de claros cortejos
De obreiros serenos (firmando In Memoriam)
Crendo com glória que topem nos Láureos pés,
…………(Canto com clássicos metros)…

Qual Balaclava, a lava desceu lá do
Céu, e os cerúleos gendarmes marítimos
Os acolheram ouvindo Baal, que berrou por seu rum.
…………… Não vem nenhum!

 

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poesia, tradução

Poesia nórdica| Cinco poemas de amor e desamor de Geir Gulliksen, por Luciano Dutra

Geir Gulliksen (n. 31 de outubro de 1963 em Kongsberg, Noruega) é escritor e editor. Desde sua estreia em 1986, publicou livros de poemas, ensaios, peças, romances e literatura infantil. Foi indicado ao prêmio Ibsen de 2013 por sua peça En kropp (Um corpo) e ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico de 2016 pelo romance Historie om et ekteskap (História de um casamento), sua obra mais conhecida, publicada em 2015. Foi o editor na Forlaget Oktober de Min kamp (Minha luta), romance autoficcional em seis volumes de Karl-Ove Knausgård publicado entre 2009 e 2011, sucesso de crítica e público traduzido em mais de trinta idiomas e que só na Noruega vendeu mais de meio milhão de exemplares. O poema ”Alt dette skal begynne en gang til” (”Tudo isso há de começar mais uma vez”), traduzido ao final dessa remessa, foi escolhido pelos ouvintes da estação de rádio pública NRK P2 e por um juri especializado como o melhor poema da Noruega em 2005.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

UM POEMA SOBRE AQUELA QUE ELE JAMAIS ENCONTROU

tens a possibilidade de fazer algo
mas então não o fazes
não sabes por que
não o fazes
apenas deixas de fazer
e bem o sabes
que assim vai ser a tua vida
tua apenas em parte
por tudo que deixou de acontecer
e isso é tão triste
e não apenas para ti
pensas nos bons momentos
e ficas ainda mais triste

ET DIKT OM HENNE HAN ANDRI MØTTE

du kan gjøre noe
og så gjør du det ikke
du vet ikke hvorfor
du ikke gjør det
du gjør det bare ikke
og du vet det selv
slik blir livet ditt
bare delvis ditt
så mye som ikke skjer
og det er trist
og ikke bare for deg
tenker du i lyse stunder
og blir enda tristere

§

O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres

vivos como tu e eu
para se deixar enxergar

ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir

Kjærlighet finnes ikke
eller er usynlig og trenger levende

vesener som deg og meg
for å komme til syne

eller: kjærlighet er en praksis
en sky musikk den kan ikke alltid høres

§

eu só queria te dizer

que ele chega, que ele existe
que ele chega pra todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos

ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante úmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever

jeg ville bare si deg

at det kommer, at det finnes
at det kommer til alle, i de minste én enkelt gang
at det var her i rommet
mens gardinene blafret i det åpne vinduet
og mens jeg lette etter blyanten
og at det forsvant like glatt
som den ene store kjærlighet vi har hatt

det var her, og som en bestemt lukt
av et bestemt hår og en bestemt kjole
som hadde hengt ute i et helt bestemt fuktig vær
var det ikke lenger her
da jag satt meg ned for å skrive

§

Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos

todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.

A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.

Her er vi. Det er natt.
Vi kommer hit og forsvinner igjen,
og slik de elskende forlater hverandre

skal vi forlate hverandre alle sammen,
slik verden sikkert også forlater oss til slutt.
Eller hvordan det nå var igjen.

Kjøleskapet dirrer engstelig på kjøkkenet.
Ungene sover i varme senger. Hjernene gløder
som millionbyer under hver sin mørke hvelving.

§

TUDO ISSO HÁ DE COMEÇAR MAIS UMA VEZ

Tudo isso há de começar mais uma vez
o livro que eu levava pra todo lado e lia
vai ser lido por outro alguém. Alguém há de aprender
a contar até dez pela primeira vez, depois até cem
e alguém há de aprender os dias da semana e assim há de saber
que a sexta-feira é o melhor e que o domingo é o pior dia da semana
porque domingo é o dia em que só fazemos esperar pela segunda-feira
e com a segunda-feira até a quinta-feira é impossível contar
se a gente trabalha o dia inteiro e fica sentado numa cadeira de noite
Porém, mesmo assim tudo isso há de começar mais um vez:
alguém há de sentar na escadaria sob essa luz sarapintada
tentando escrever um poeminha num pedaço de papel
e alguém há de aprender a pedalar,
e alguém há de ler que o universo encontra-se em expansão
e sobre sóis que só sabem seguir explodindo
e alguém há de estudar hebraico antigo e ornitologia
e passear à noitinha com as mãos no bolso do casaco
sabendo que há de morrer, mas não já já
antes outro alguém hão de se apaixonar por ele, tomara,
e depois alguém há de deixá-lo, mas não já já
pois tudo isso há de começar mais uma vez: alguém há de ler
Pablo Neruda pela primeira vez, e Osip Mandelstam
e Bertholt Brecht, alguém há de ler Wisława Szymborska
e alguém há de descobrir quantos somos nós todos que vivemos nesse mundo
e de repente há de entender que cada um de nós é um indivíduo
mesmo que não haja individualismo suficiente para todos
e mesmo que não seja verdade que todas as pessoas
têm o mesmo valor, alguém há de aprender isso e crer nisso
até que não seja mais possível seguir crendo nisso
pois isso não parece ser verdade
pois isso não parece possível de se realizar
mesmo que não seja possível crer em mais nada além do fato
de a escuridão escalar os vários andares
e de a escuridão um dia chegar aos teus pés
e de tu um dia vadear nela e de ela chegar até as tuas mãos
e gritar na escuridão e beber a escuridão, não por que tens sede
mas porque não há mais nada senão ela, e porque aquela velha
luz sarapintada que não havia era suficiente para todos
não é mesmo? mas tudo isso há de ser repetido por outro alguém
e a luz dispara sem parar cruzando a escuridão
de 300.000 quilômetros e leva menos tempo para te achar do que um gato esquelético
enquanto estás ali parado tentando achar as chaves no bolso do casaco
e tudo o que te acontece acontece creias ou não creias que seja verdade

ALLT DETTE SKAL BEGYNNE EN GANG TIL

Alt dette skal begynne en gang til
den boken jeg gikk rundt med og leste i
skal bli lest av en annen. For første gang
skal noen lære å telle til ti, og så til hundre
og noen skal lære seg dagene og dermed lære seg at
fredag er den beste dagen og søndag den verste
fordi søndagen er den dagen du bare venter på mandag
og mandag til torsdag kan ingen regne ordentlig med
som jobber hele dagen og sitter i en stol om kvelden
Men alt dette skal likevel begynne på nytt:
noen skal sitte på trappa i det skvetne lyset
og prøve å skrive et lite dikt på en lapp
og noen skal lære seg å sykle,
og noen skal lese at universet utvider seg
og om soler som bare fortsetter å eksplodere
og noen skal lese gammelhebraisk og ornitologi
og gå ute om kveldene med hendene i jakkelomma
og vite at de skal dø, men ikke ennå
først skal en annen bli forelsket i dem, forhåpentligvis,
og så skal noen gå fra dem, men ikke ennå
fordi alt dette skal begynne en gang til: noen skal lese
Pablo Neruda for første gang, og Osip Mandelstam
og Bertholt Brecht, noen skal lese Wisława Szymborska
og noen skal oppdage hvor mange vi er som lever i verden
og plutselig vite at hver eneste av oss er et individ
selv om det ikke er individualisme nok til alle
og selv om det ikke er sant at alle mennesker
er like mye verdt skal noen lære det og tro på det
helt til det ikke er mulig å tro på det lenger
fordi det ikke ser ut til å være sant
fordi det ikke ser ut til å la seg gjøre
selv om ingenting annet er mulig å tro uten at mørket
strømmer oppover i etasjene
og at mørket en dag når opp til føttene dine
og at du en dag vasser i det og får det på hendene
og brøler i mørke og drikker mørke, ikke fordi du er tørst
men fordi det ikke finnes noe annet, og fordi det gamle
flekkete lyset som fantes ikke var tilstrekkelig til alle
var det ikke sånn? men alt dette skal bli gjentatt av en annen
og lyset skyter uopphørlig gjennom 300.000 kilometers
mørke og bruker kortere tid enn en mager katt på å finne deg
der du står og prøver å finne nøklene i lommene på jakka
og alt som skjer deg skjer enten du tror det er sant eller ikke

Padrão
tradução

As Metamorfoses de Ovídio (I, vv.452-566), por José Vicentini.

asdasiodjaosd

Apolo e Dafne, de Gian Lorenzo Bernini (1622-1625).

O poema máximo de Ovídio dispensa apresentações. Como uma enorme coleção de fábulas pagãs permanece sem par até hoje na literatura ocidental, e as revoluções que promoveu à sua época nos foram (e ainda nos são) fundamentais para a compreensão do gênero épico. Como Homero, Ovídio é inesgotável: todos os grandes que o leram lhe tiraram algo de proveitoso à sua própria arte (de Dante a Ezra Pound) e não somente na literatura, como convém lembrar.

Assim como todas as obras que dispensam apresentações, há muito o que falar sobre Ovídio e sua poesia. Senão nessa inesgotabilidade está o fator monumentum aere perennius (ou novidade que permanece novidade) dessas obras, que nunca envelhecem nem perdem a potência sob qualquer luz que lhes lancemos – e nos é sempre possível lhes lançar uma nova luz.

É preciso dizer, contudo, que somente agora se vem formando em língua portuguesa uma tradição de traduzir Ovídio. Contávamos antes com as traduções de Bocage e Haroldo de Campos (incompletas, ainda que até hoje insuperáveis). Trouxe assim à luz esta pequena tradução, correspondente ao verso 452 até o 566, que conta a história de Dafne e Apolo, uma das mais belas e icônicas, na minha opinião. Norteado pelas traduções de Bocage e Arthur Golding, me utilizei do verso decassílabo camoniano para verter o hexâmetro latino, dando importância não tanto a corresponder verso a verso quanto a tentar conferir ao português o ritmo, a sonoridade e a fluidez do original – características apontadas no texto de Ovídio de forma unânime por quem quer que lhe tenha contato.

José Vicentini

* * *

[Argumento: Cupido, iroso por ter sido desdenhado pelo deus Apolo, tira de sua aljava duas flechas de efeitos diferentes e com uma, de ouro, fere o deus pela medula, que prontamente se apaixona por Dafne, ninfa filha de Peneu; a outra, de chumbo, fixa no peito da ninfa, que prontamente repele o amor e todos os pretendentes que a cortejam. Assim, enlouquecido pela paixão, Apolo espera tê-la, e ao passo que a ninfa foge de todos os homens e odeia a ideia do matrimônio, o deus a persegue por entre as ramagens e as feras da floresta.]

 

Dafne foi o primeiro amor de Apolo,
A ninfa filha de Peneu, a quem
O dirigiu não a Fortuna incerta,
Mas sim a cruel ira de Cupido.

Febo, soberbo da recém vencida
Píton, viu o menino com seu arco,
Fletindo as pontas pelo fio teso,
E lhe falou: “A que te irão servir,
Menino lépido, tais graves armas?
Essas convêm somente aos nossos ombros,
Nós que podemos dar à fera hostil
Certeiro ferimento, que pudemos
Estatelar por espaçosos acres
O ventre pestilento da atroz Píton,
Vencida ao voo de incontáveis flechas.
Contém-te ao facho teu que faz arder
Esses amores e contém-te desse
Desejo de carpir as nossas glórias.”

Cupido então: “A tudo ferem, Febo,
Tuas flechas, e a ti ferem as minhas,
E quanto o deus excede os animais,
Tanto menor é tua à nossa glória.”

Disse e, fendendo o ar co’ agudas penas,
Pousou alígero ao frondoso alcácer
De Parnaso, tirou de sua aljava
Duas flechas de efeitos diferentes:
Aquela faz, esta repele amor:
Áurea a que faz luzindo à ponta fina
E rude a que repele tendo chumbo
Ao junco seu, esta Cupido então
Fixou ao seio da peneia ninfa
E com aquela aurífera fendeu
Pela medula os ossos do deus Febo:
Este súbito a ama, aquela foge:
Leda, através da escuridão das selvas,
Por entre as presas das cativas feras,
Tal qual Diana, virgem caçadora,
Co’ a fita atada à desprendida coma.
Muitos a pedem; ela, hostil a todos,
No desdém seu pelo que quer que seja
De amores, de noivado, de Himeneu,
Busca por ermos bosques livres de homens.
Frequentemente lhe dizia o pai:
“Tu deves, filha, netos a teu pai”,
Deves, filha,”, dizia, “um genro a mim”.
Ela, odiosa aos fachos de conúbio,
Como se fossem qualquer coisa horrível,
Verte candor à linda fronte rubra,
E, ao envolver com delicados braços
A nuca de seu pai, assim lhe diz:
“Ó pai querido, rogo que permitas
A mim fruir perpétua virgindade!
Qual Jove outrora permitiu à Délia.”
Assim assente o pai, mas o que queres,
Dafne, tua beleza veda a ti,
E tua forma nega o que suplicas:
Apolo a ama e à vista dela anseia
Pela união conubial, e espera
Por aquilo que tanto anseia, assim
O iludem suas próprias predições.

Como haste fina a arder na espiga finda,
Como sebe a queimar-se com os fachos,
A qual ou tenha alguém aproximado
Demais ou tenha então deixado ao sol,
Assim se faz inteiro o deus em flamas,
Assim ao peito todo abrasa e, crendo,
Nutre a esperança d’um amor estéril.
Vê seus cabelos soltos ao pescoço,
Diz: e se os penteasse? Vê seus olhos
Vibrarem flamejantes como os astros,
Observa os lábios, cuja vista apenas
Não lhe é bastante; louva os dedos, mãos,
Os braços que se estendem nus aos ombros,
“Talvez melhores se cobertos?”, pensa…
E ela foge, mais célere que o ar,
Nem se detém às súplicas de Apolo:
“Ó ninfa, para! rogo-te, não sigo
Como inimigo! ninfa, para! Assim
A ovelha foge ao lobo, assim o cervo
Foge ao leão, assim as pombas à águia,
Assim qualquer um foge ao inimigo:
Amor é a causa que me faz seguir!
Ai de mim se caíres inclinada,
Indigna de feridas, se teus pés
Encontrarem espinhos ao caminho
E eu te causar imerecidas dores!
Tão áspero o local a que te apressas…
Diminui a corrida e cessa a fuga,
Que também eu diminuirei o encalço.
Pergunta a quem aprazes: não habito
O monte agreste nem protejo gados
Ou rebanhos. Não sabes, insensata,
Não sabes de quem foges, logo foges:
Tênedos, Claros, a Patara régia
E a terra délfica me são devotos.
Nato de Júpiter, por mim se mostra
Aquilo que é, que foi e que há de ser,
Por mim concerta-se o cantar à lira.
Certeira é nossa flecha; uma, contudo,
Mais certeira que a nossa me acertou,
Fedendo ao peito indene uma ferida.
A medicina é meu invento, chamam-me
Opífero pelo orbe, co poder
Das ervas curativas ao meu jugo;
E agora, que nenhuma cura podem
As ervas dar a um tal amor, as artes,
Que a tudo servem, frustram seu senhor.”

Querendo dizer mais o deus Apolo,
Lhe foge a ninfa em passo trepidante,
Deixando ao curso esclusa a sua fala.
O corpo dela se desnuda ao vento,
Vibram-lhe as vestes e a suave brisa
Impele para trás os seus cabelos:
Tão bela Dafne lhe parece em fuga…
Porém o deus não se contém ao zelo,
E enquanto lhe aconselha amor loquaz,
Apressa o passo impetuoso a ela.
Símile ao galgo que depara a lebre
Numa planície aberta e então, co’ as patas,
Um caça a presa; a outra, o seu abrigo:
Um, tão à espreita, em breve espera tê-la,
Abrindo as presas rente aos passos dela;
A outra trepida e teme ser comida,
Escapando às mordidas e ao focinho:
Assim vão Febo e Dafne: àquele move
Sua esperança e a esta o seu temor.
Porém o que a persegue, guarnecido
Pelas asas do amor, é mais veloz,
Não para e, estando na iminência dela,
Chega a soprar-lhe a coma solta atrás.

Findada a força, a ninfa empalidece.
Vencida pelo esforço de escapar,
Dirige o olhar às ondas do riacho:
“Ó pai, se tens mesmo o poder dos rios,
Concede ajuda àquela cuja forma
Por ser tão bela não pode ser vista,
E faz perder-se enfim a transformando!”

Assim mal Dafne finda sua prece
E súbito um torpor lhe invade os membros:
Fina casca lhe cinge o seio ameno,
Se faz em folhas seu cabelo e em ramos
Os seus braços; seus pés, antes velozes,
Se fixam lentamente ao solo em rígidas
Raízes e ao seu rosto todo envolto
Nada resta senão um brilho escuso.

Ainda Apolo a ama e põe a mão
Direita sobre o tronco: lhe é possível
Sentir pulsar o coração de Dafne.
E envolvendo as ramagens com seus braços,
Beija a madeira, que recusa os beijos.

Lhe diz o deus então: “Já que não podes
Ser minha esposa, tu serás minha árvore.
Te portarei, ó louro, para sempre
Na lira, nos cabelos e na aljava.
Estarás entre os líderes do Lácio,
Com leda voz a modular vitórias
E a ver do Capitólio imensos faustos.
Disposta à entrada do palácio augusto,
Serás fiel vigia dos portões
E, ao centro, irás velar pelo carvalho.
Sobre meus cachos tenros não cortados,
Tu portarás da fronde eterna glória.”

Calou-se enfim; e, com aqueles ramos,
Pareceu-lhe o laurel ter assentido,
Meneando no topo as suas folhas.

Primus amor Phoebi Daphne Peneia, quem non
fors ignara dedit, sed saeva Cupidinis ira,
Delius hunc nuper, victa serpente superbus,
viderat adducto flectentem cornua nervo
‘quid’ que ‘tibi, lascive puer, cum fortibus armis?’
dixerat: ‘ista decent umeros gestamina nostros,
qui dare certa ferae, dare vulnera possumus hosti,
qui modo pestifero tot iugera ventre prementem
stravimus innumeris tumidum Pythona sagittis.
tu face nescio quos esto contentus amores
inritare tua, nec laudes adsere nostras!’
filius huic Veneris ‘figat tuus omnia, Phoebe,
te meus arcus’ ait; ‘quantoque animalia cedunt
cuncta deo, tanto minor est tua gloria nostra.’
dixit et eliso percussis aere pennis
inpiger umbrosa Parnasi constitit arce
eque sagittifera prompsit duo tela pharetra
diversorum operum: fugat hoc, facit illud amorem;
quod facit, auratum est et cuspide fulget acuta,
quod fugat, obtusum est et habet sub harundine plumbum.
hoc deus in nympha Peneide fixit, at illo
laesit Apollineas traiecta per ossa medullas;
protinus alter amat, fugit altera nomen amantis
silvarum latebris captivarumque ferarum
exuviis gaudens innuptaeque aemula Phoebes:
vitta coercebat positos sine lege capillos.
multi illam petiere, illa aversata petentes
inpatiens expersque viri nemora avia lustrat
nec, quid Hymen, quid Amor, quid sint conubia curat.
saepe pater dixit: ‘generum mihi, filia, debes,’
saepe pater dixit: ‘debes mihi, nata, nepotes’;
illa velut crimen taedas exosa iugales
pulchra verecundo suffuderat ora rubore
inque patris blandis haerens cervice lacertis
‘da mihi perpetua, genitor carissime,’ dixit
‘virginitate frui! dedit hoc pater ante Dianae.’
ille quidem obsequitur, sed te decor iste quod optas
esse vetat, votoque tuo tua forma repugnat:
Phoebus amat visaeque cupit conubia Daphnes,
quodque cupit, sperat, suaque illum oracula fallunt,
utque leves stipulae demptis adolentur aristis,
ut facibus saepes ardent, quas forte viator
vel nimis admovit vel iam sub luce reliquit,
sic deus in flammas abiit, sic pectore toto
uritur et sterilem sperando nutrit amorem.
spectat inornatos collo pendere capillos
et ‘quid, si comantur?’ ait. videt igne micantes
sideribus similes oculos, videt oscula, quae non
est vidisse satis; laudat digitosque manusque
bracchiaque et nudos media plus parte lacertos;
si qua latent, meliora putat. fugit ocior aura
illa levi neque ad haec revocantis verba resistit:
‘nympha, precor, Penei, mane! non insequor hostis;
nympha, mane! sic agna lupum, sic cerva leonem,
sic aquilam penna fugiunt trepidante columbae,
hostes quaeque suos: amor est mihi causa sequendi!
me miserum! ne prona cadas indignave laedi
crura notent sentes et sim tibi causa doloris!
aspera, qua properas, loca sunt: moderatius, oro,
curre fugamque inhibe, moderatius insequar ipse.
cui placeas, inquire tamen: non incola montis,
non ego sum pastor, non hic armenta gregesque
horridus observo. nescis, temeraria, nescis,
quem fugias, ideoque fugis: mihi Delphica tellus
et Claros et Tenedos Patareaque regia servit;
Iuppiter est genitor; per me, quod eritque fuitque
estque, patet; per me concordant carmina nervis.
certa quidem nostra est, nostra tamen una sagitta
certior, in vacuo quae vulnera pectore fecit!
inventum medicina meum est, opiferque per orbem
dicor, et herbarum subiecta potentia nobis.
ei mihi, quod nullis amor est sanabilis herbis
nec prosunt domino, quae prosunt omnibus, artes!’

Plura locuturum timido Peneia cursu
fugit cumque ipso verba inperfecta reliquit,
tum quoque visa decens; nudabant corpora venti,
obviaque adversas vibrabant flamina vestes,
et levis inpulsos retro dabat aura capillos,
auctaque forma fuga est. sed enim non sustinet ultra
perdere blanditias iuvenis deus, utque monebat
ipse Amor, admisso sequitur vestigia passu.
ut canis in vacuo leporem cum Gallicus arvo
vidit, et hic praedam pedibus petit, ille salutem;
alter inhaesuro similis iam iamque tenere
sperat et extento stringit vestigia rostro,
alter in ambiguo est, an sit conprensus, et ipsis
morsibus eripitur tangentiaque ora relinquit:
sic deus et virgo est hic spe celer, illa timore.
qui tamen insequitur pennis adiutus Amoris,
ocior est requiemque negat tergoque fugacis
inminet et crinem sparsum cervicibus adflat.
viribus absumptis expalluit illa citaeque
victa labore fugae spectans Peneidas undas
‘fer, pater,’ inquit ‘opem! si flumina numen habetis,
qua nimium placui, mutando perde figuram!’
[quae facit ut laedar mutando perde figuram.]
vix prece finita torpor gravis occupat artus,
mollia cinguntur tenui praecordia libro,
in frondem crines, in ramos bracchia crescunt,
pes modo tam velox pigris radicibus haeret,
ora cacumen habet: remanet nitor unus in illa.
Hanc quoque Phoebus amat positaque in stipite dextra
sentit adhuc trepidare novo sub cortice pectus
conplexusque suis ramos ut membra lacertis
oscula dat ligno; refugit tamen oscula lignum.
cui deus ‘at, quoniam coniunx mea non potes esse,
arbor eris certe’ dixit ‘mea! semper habebunt
te coma, te citharae, te nostrae, laure, pharetrae;
tu ducibus Latiis aderis, cum laeta Triumphum
vox canet et visent longas Capitolia pompas;
postibus Augustis eadem fidissima custos
ante fores stabis mediamque tuebere quercum,
utque meum intonsis caput est iuvenale capillis,
tu quoque perpetuos semper gere frondis honores!’

finierat Paean: factis modo laurea ramis
adnuit utque caput visa est agitasse cacumen.

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