poesia, tradução

Ao Kurnúgu, à terra sem retorno (Descida de Ishtar ao Mundo dos Mortos) – tradução de Jacyntho Lins Brandão

Ao Kurnúgu, à terra sem retorno

(Descida de Ishtar ao Mundo dos Mortos)

Tradução de Jacyntho Lins Brandão

 

[1] Ao Kurnúgu, à terra sem retorno,

Ishtar, filha de Sin, seus ouvidos voltou,

E voltou, a filha de Sin, seus ouvidos

 

[4] À casa trevosa, sede do Irkalla,

À casa onde quem entra não sai,

À jornada da rota sem volta,

 

[7] À casa dos moradores privados de luz,

Em que pó é seu sustento, barro seu manjar,

Luz não podem ver, na escuridão habitam,

 

[10] Seus trajes, como de pássaros, vestimentas de penas,

Sobre as portas e ferrolhos camadas de pó.

 

[12] Ishtar à entrada do Kurnúgu quando chegou,

Ao guardião da entrada estas palavras disse:

Guardião, eia!, abre tua entrada,

Abre tua entrada e entre eu!

 

[16] Se não abres a entrada, não entro eu,

Golpearei a porta, os ferrolhos quebrarei,

Golpearei o batente e removerei as portas,

 

[19] Quebrarei o umbral e arrancarei a tranca

E subirei os mortos para comer os vivos:

Aos vivos superar farei os mortos!

 

[21] O guardião abriu a boca para falar,

Disse à majestosa Ishtar:

Estejas aqui, senhora minha, não derrubes!

Vá eu, teus ditos repita à rainha Eréshkigal.

 

[25] E entrou o guardião, disse a Eréshkigal:

Eis aqui: tua irmã Ishtar está à porta,

A que detém a grande corda, turba as águas defronte de Ea, o rei.

 

[28] Eréshkigal isso quando ouviu,

Como tamarisco colhido empalideceu-lhe a face,

Como a orla de um kúninu escureceram-lhe os lábios:

 

[31] O que traz seu coração a mim? O que moveu sua decisão pra mim?

Eis aqui: com os Anunnákki bebo água?

Em vez de comida, manjar de barro, em vez de cerveja, água turvada?

 

[34] Chore eu os moços que deixaram suas esposas!

Chore eu as moças que do regaço de seus maridos foram arrancadas!

O débil bebê chore eu, que não em seu dia foi despachado!

 

[37] Vai, guardião, abre-lhe tua porta!

E faz-lhe como nos ritos antigos.

 

[39] Foi o guardião, abriu-lhe sua porta:

Entra, senhora minha, Kutha te alegre!

O palácio do Kurnúgu regozije em face de ti!

 

[42] Uma porta fê-la entrar e, levando-a, ele tirou a grande coroa de sua cabeça:

Por que, guardião, tiraste a grande coroa de minha cabeça?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[45] À segunda porta fê-la entrar e, levando-os, tirou os brincos de suas orelhas:

Por que, guardião, tiraste os brincos de minhas orelhas?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[48] À terceira porta fê-la entrar e, levando-as, tirou as pedras preciosas de seu pescoço:

Por que, guardião, tiraste as pedras preciosas de meu pescoço?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[51] À quarta porta fê-la entrar e, levando-os, tirou os broches de seu peito:

Por que, guardião, tiraste os broches de meu peito?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[54] À quinta porta fê-la entrar e, levando-o, tirou o cinto de pedras-de-nascença de sua cintura:

Por que, guardião, tiraste o cinto de pedras-de-nascença de minha cintura?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[57] À sexta porta fê-la entrar e, levando-as, tirou as pulseiras de seus braços e pernas:

Por que, guardião, tiraste as pulseiras de meus braços e pernas?

Entra, senhora minha, da senhora da Ersetu assim são os ritos.

 

[60] À sétima porta fê-la entrar e, levando-a, tirou a venerável veste de seu corpo:

Por que, guardião, tiraste a venerável veste de meu corpo?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[63] E tão logo Ishtar ao Kurnúgu desceu,

Eréshkigal viu-a e em face dela tremeu.

Ishtar sem perceber ao lado dela sentou.

 

[66] Eréshkigal a boca abriu para falar,

A Namtar, seu administrador, estas palavras disse:

Vai, Namtar —-

 

[69] Solta sessenta doenças na majestosa Ishtar,

Doença dos olhos em seus olhos,

Doença de braços em seus braços,

 

[72] Doença de pés em seus pés,

Doença do coração em seu coração,

Doença de cabeça em sua cabeça,

Na totalidade dela solta doenças!

 

[76] Após Ishtar, senhora minha, ao Kurnúgu descer,

À vaca o boi não cobria, o asno à asna não emprenhava,

À moça, na rua, não emprenhava o moço:

 

[79] Dorme o moço em sua alcova,

Dorme a moça só consigo.

 

[81] Papsúkkal, administrador dos grandes deuses, curvou a cabeça, a face sombreou,

De luto vestiu-se, emaranhados os cabelos.

Partiu cansado, à face de Sin, seu pai, gritou,

À face de Ea, o rei, corriam-lhe as lágrimas:

 

[85] Ishtar à Érsetu desceu, não voltou,

E tão logo Ishtar ao Kurnúgu desceu,

À vaca o boi não cobre, o asno à asna não emprenha,

À moça, na rua, não emprenha o moço:

 

[89] Dorme o moço em sua alcova,

Dorme a moça só consigo.

 

[91] Ea, em seu sábio coração, concebeu um plano

E criou Asúshu-Námir, um prostituto:

 

[93] Vai, Asúshu-Námir, para a entrada do Kurnúgu volta a tua face,

As sete portas do Kurnúgu se abram à tua face!

Eréshkigal te veja e à tua face regozije:

 

[96] Quando o coração dela se acalma, suas entranhas abrandam,

Empenha-a pela vida dos grandes deuses,

Levanta a cabeça, para o odre os ouvidos volta:

 

[99] Ó senhora minha, o odre me deem, água de seu coração eu beba!

 

[100] Eréshkigal, quando isso ouviu,

Bateu na coxa e mordeu o dedo:

Fizeste-me um pedido que não devias,

Vem, Asúshu-Námir, amaldiçoar-te-ei com grande maldição:

 

[104] Pão das valas da cidade seja tua comida,

O esgoto da cidade, teu vaso de bebida,

A sombra da muralha seja o teu posto,

 

[107] A soleira da porta, o teu domicílio,

O bêbado e o sedento batam-lhe a face!

 

[109] Eréshkigal abriu a boca para falar,

A Namtar, seu administrador, estas palavras disse:

Vai, Namtar, bate em Egalgina,

 

[112] As soleiras decora com corais,

Os Anunnákki traze, em tronos de ouro senta-os,

Ishtar com água da vida asperge e põe-na a mim defronte.

 

[115] Foi Namtar, bateu em Egalgina,

As soleiras decorou com corais,

Os Anunnákki trouxe, em tronos de ouro sentou-os,

Ishtar com água da vida aspergiu e pô-la a ela defronte.

 

[119] À primeira porta fê-la passar e devolveu-lhe a venerável veste de seu corpo;

À segunda porta fê-la passar e devolveu-lhe as pulseiras de seus braços e pernas;

À terceira porta fê-la passar e devolveu-lhe o cinto de pedras-de-nascença de sua cintura;

 

[122] À quarta porta fê-la passar e devolveu-lhe os broches de seu peito;

À quinta porta fê-la passar e devolveu-lhe as pedras preciosas de seu pescoço;

À sexta porta fê-la passar e devolveu-lhe os brincos de suas orelhas;

À sétima porta fê-la passar e devolveu-lhe a grande coroa de sua cabeça.

 

[126] Se ela não te pagar o resgate, traze-a de volta aqui!

A Dúmuzi, esposa dela moça

Lava com água pura, unge com precioso óleo,

 

[129] Veste-o com vestimenta vermelha e que por ele toque a flauta de lápis-lazúli,

As meretrizes ergam sonoro lamento!

 

[131] Então Belíli arrancou suas joias,

Seu pescoço estava coberto de pedras preciosas.

Belíli ouviu o lamento por seu irmão, bateu no peito e soltou suas joias,

As pedras preciosas com que a face da vaca selvagem estava coberta:

 

[135] Não podes privar-me de meu único irmão!

O dia em que Dúmuzi suba e a flauta de lápis-lazúli e o anel de cornalina venham com ele,

Em que carpideiros e carpideiras subam com ele,

O morto suba e aspire o incenso!

 

Palácio de Assurbanípal, rei do mundo, rei da Assíria,

A quem Nabu e Tashmétum deram amplo entendimento.

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João Gabriel Madeira Pontes (1992-)

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João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Seu livro de estreia, Indiscrição, será publicado em breve pela Editora Kazuá.

* * *

entre certos instantes de brahms e uma cloaca, V

– (…) Hath she any discoverable principle of being?
– None, save the freedom of a broken law (…).

Nathaniel Hawthorne, The Scarlet Letter

Tua sombra transborda das paredes rasgadas
E do chão raso de pedras portuguesas para
Salvar minha juventude do cansaço

Dos velhos amores. Foi estranho conhecer-te,
Naquele botequim, teu batom a macular
O copo americano, tua boca a clamar

Por mais cerveja barata. Nem sequer me disseste
Teu nome. Em vez disso, perguntaste se eu
Já havia chorado a morte de alguém.

E eu disse: de meu pai; e tu te riste inteira.

Quebraste o violão do rapaz tristonho que
Tocava boleros vis e, sem antes prestar
Reverência ao público, cantaste três

Músicas da Cesária Évora em sequência. Não
Pude deixar de reparar: pediste um lenço
Para secar o suor agridoce que escorria

De tua testa. Entoavas a morna com o mesmo
Entusiasmo dos apóstolos em Pentecostes,
Com o mesmo cuidado de quem retira

Um cisco preso no canto do olho da criança,

Da criança que agora floresce em tua barriga e
Que eu já cismo em chamar de minha, sim,
De minha. Passei os últimos três dias

Catando gafanhotos nos quintais baldios das casas
Contíguas à nossa e pensando nos discursos
Que proferirá a garganta delgada

Do bendito fruto de teu ventre. Quando eu vivia
Sob o teto de minha mãe, falava do mundo
E do ser político. Hoje, leio obituários.

Mais tarde, quero te ouvir cantando outra vez.

§

Livre interpretação de uma gravura de Hans Staden

Vejo a carcaça de um fauno

no regaço agreste.

Ao saírem,
calados,
em fila indiana,
os investidores arrastam

as canetas, as pastas de couro,
os parafusos das cadeiras,
a lista de ramais.

Espero até ficar sozinho
e cravo meus dentes na saborosa
ata da reunião.

Mastigo planilhas
com voracidade,
………………..penso
na recepcionista do prédio.

Será que ela tem
……..mau hálito?
Será que ela tem
……..gengivas bonitas?
Será que ela tem
……..amígdalas bonitas?

Deixo a sala.
Engulo os metros
de carpete do corredor
& a simpática
funcionária da limpeza,
que manejava um delicioso
aspirador de pó.

Já no térreo,
à falta da recepcionista,
provo um pouco
do segurança de plantão.

Os caninos de Lévi-Strauss
fascinam os tupinambás e
brotam, como navalhas,
na ladeira da Sacopã,
uma fímbria de sangue,
tijuco da evangelização.

Consulto minha agenda
para saber o endereço
de cada um dos executivos
com quem tratei mais cedo,
na rápida conferência
que me abriu
………….o apetite.

Faço todos de petisco;
………………suas famílias também.

Volto à rua, disparo.

Boto para dentro

os semáforos,
as tampas dos bueiros,
os postes de iluminação,
os bancos da Praça Floriano.

Fito o asfalto faminto.
Fito o asfalto, faminto.

Os recifes rubros e ruidosos
contra o piche
são sirenes.
Consigo reconhecê-las
a quilômetros de distância.

Quando eu era pequeno,
canelas à mostra,
costumava correr
atrás de ambulâncias,
a viração do óleo queimado
atiçando a tarde.

Paro em um bar e assisto
ao telejornal em closed caption.
Enquanto aguardo a digestão,
gargalho da estupidez
do comentarista político.

E pondero: antes da conta,
uma xícara de café
sempre cai bem.

O deserto de Gobi
cabe em uma ampulheta,

mas eu, arrependido
como um vampiro cristão,
tonto de remorso,

resolvo embarcar em um trem coxo
da Central do Brasil em direção
……………………..a Saracuruna.

Ladeio recôncavos & borracharias,
espicho o estômago assombrado
para me intrometer em conversas
que não me dizem respeito.

A fogueira na multidão triunfa
………….sobre os plutocratas.

Rangem as mandíbulas de nanquim.

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Lubi Prates (1986-)

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Lubi Prates nasceu em 86, em São Paulo. Graduanda em Psicologia e especializando-se em Psicoterapia Reichiana. Tem publicado o livro coração na boca (Editora Multifoco, 2012) e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Edita a revista literária Parênteses e atua como revisora e tradutora. Vive em Curitiba, onde media o clube de leitura Leia Mulheres.

sergio maciel

* * *

até só restar o depois
(sobre o dia 29 de abril de 2015, em Curitiba)

pudesse,
recordaria se havia sol
antes daquela tarde
quando tudo se resumiu a
cinza:

fumaça, um
quase

aquele estado de consciência frágil
entre estar acordado &
desmaiar.
pudesse,
recordaria o cheiro
antes daquela tarde
quando tudo se confundiu a

gás
pólvora
sangue.
recordaria quais eram
minhas atividades inúteis
antes de acessar a internet&
navegar entre as notícias

para descobrir o alvo
dos helicópteros que
sobrevoavam a cidade

destruindo
destruindo
destruindo

qualquer segundo
de silêncio

inibindo os gritos
pudesse,
eu recordaria o antes:

quando não havia escombros.

§

esse esforço em manter distâncias
você pratica

você conta os centímetros até
ser o longe, outra cidade

você consegue desfazer

o silêncio das suas chaves
dos seus passos pelo corredor
da sua voz

no meu ouvido.

tudo que eu desgosto
você esforça

até confundir:
lembrança ou ilusão

comecei a duvidar de mim.

§

Poesia ainda é
persiste
um risco
à minha vida.

uma rima que sufoca
um eterno engasgo
que haja ar,
que haja água.

e
ainda assim,
seu contrário:
Poesia ainda é
persiste
boia, salva-vidas

§

rotações por minuto

é como encontrar
o caminho de casa

sem mapas bússolas gps

conhecer os seus discos
decorar as canções

as rotas vão ficando maiores

o esquema se torna
automático

tão rapidamente.
conhecer os seus discos
decorar as canções

é como encontrar
o caminho de casa

entre as rotações na velha
vitrola, as marcações mentais que fazemos

percebo que tua alma
                                     flui
                                     até mim

entre as pausas
aquele silêncio.

talvez pareça simples
estar à vontade

tocar um instrumento
sem olhar               fixamente                para os próprios dedos

mas calculei o preço

conhecer os seus discos
decorar as canções

é encontrar
o caminho de uma casa

construída sobre um terreno emprestado
mas tão meu:

rotações na velha
vitrola, marcações mentais que fazemos

when you come back home
i’mgonna dance with you

entre as pausas
morar neste silêncio.

§

é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

a tevê insiste em retrospectivas.
é 2015
os últimos dias do ano:
eu acabei de desembrulhar os presentes de
aniversário: eu tenho 29 anos.

frequentemente,
repito para
mim mesma:

não imaginei que chegaria tão longe.
não imaginei que chegaria tão longe.
não imaginei que chegaria tão longe.
é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

a tevê insiste em retrospectivas

mas sobre

a mulher                                                            poderia ser eu
assassinada por seu companheiro

a mulher                                                             poderia ser eu
que cometeu suicídio depois de humilhações constantes no seu emprego

a mulher                                                              poderia ser eu
que morreu numa clínica de aborto clandestina

a mulher                                                              poderia ser eu
estuprada no transporte público

a mulher                                    que sou eu

nenhuma lembrança.
é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

não imaginei que chegaria tão longe.

§

há uma arquitetura
no corpo

o encaixe de um tijolo
que facilita
e ou
dificulta.
há uma arquitetura
no corpo

que edifica mas
me desaba

uma
arquitetura
no
corpo

dizem: sábia

embora não explique
esse peso nos meus pés
que prevejo desabamentos

embora não explique
esse vazio no meu tórax:
impreenchível
qual ciência determinou que
minhas mãos não
demorariam ao segurar?

há uma arquitetura
no corpo

dizem: sábia

em mim:
inexata.

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Thiago Ponce de Moraes (1986-)

Foto perfil - Thiago Ponce

Thiago Ponce de Moraes (Rio de Janeiro, 1986) é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além dos livros de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012) e Agora sim… talvez seja eu e mais alguém: específica experiência da leitura de Paul Celan e Ricardo Reis (NEA, 2014). Atualmente, termina tese de doutorado em Literatura Comparada sobre a obra de Paul Celan. As peças aqui publicadas fazem parte de seções distintas de sua terceira compilação de poemas: dobres sobre a luz (no prelo, 2016).

* * *

TU –
sempre tu no princípio de tudo,
tu
__________ de amplitude,
tu
multitudinoso, infindo,
tempestuoso mar,
avulso, vivo,
tu:
teus olhos sombras
cheios de estrelas
cobrem as areias, ondas
sussurram conchas,
cascos, corais
incendeiam
o fundo.

§

SAUDADE
disso –
aço
movediço
ora
cor-
roído
em
areia
e
lágrima –
faço
o
que
possas
lembrar
de
cor

§

Léxico do exílio

a Mohsen Emadi

Para tua bicicleta escrevo o movimento,
Inscrevo-a no meu vocabulário.
Para cada volta entre as ruínas do mundo, 
Entre os silêncios do mundo – nossas falas, esses nadas.
Sinto tua dor se abrir como voragem. Toco as feridas, toco as chagas.
Leio da tua pele estas linhas sem linguagem, estes sulcos
Fingem rostos de um idioma inavegável – inacessível, miragem.
Adentro tua morada à deriva. E na deriva da saudade te encontro.

Abraço-te, amigo, abraçamo-nos –                                       دلتنگی

Deslocamo-nos, os destinos sem pedais. Os sentidos,
Sentimo-los: estamos inteiros em cada, ouço tua chamada.
Não há territórios nem fronteiras.
Alheios: selvagens, selvagens.
Traduzimo-nos ao indizível, ao sem sentido de partir.
Entre nossas vozes o espaço necessário,
Margens que se buscam e se afastam –
Dois pulmões, duas raias de palavras: apátridas.

 

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Mirian Paglia Costa (1947-)

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mirian paglia costa (londrina, 1947) é poeta, jornalista e editora da revista defesa latina. trabalhou em revistas como visão e veja. em 1969, venceu o prêmio de poesia festival universitário de londrina. de sua obra, pode-se destacar a plaquete sete eus, lançada em 1981, mesmo ano de colar de maravilhas, publicado por massao ohno, com ilustrações de darcy penteado, além do livro de poemas notícias do lugar comum, de 1997, publicado pela editora 34 e de participações em antologias como carne viva (1984) e antologia da nova poesia brasileira (1992), ambas organizadas por olga savary, e 101 poetas paranaenses v.1 (1844-1959) – antologia de escritas poéticas do século XIX ao XXI, organizada por ademir demarchi. todos os poemas deste post foram retirados desta última antologia.

sergio maciel

* * *

DE COLAR DE MARAVILHAS

| VI |

a procissão caminha
passos, meninas do colégio
à frente, minha prima
bela e lampeira
em sua caixa de boneca
já não chora, já não diz — “Mamãe”
muda
desfila o dia de gala
seu medo passou completamente

vão todos sombrios
em uniforme de luto
só ela está de cor-de-rosa
fantasiada
anjo até os pés

minha prima vai à tumba
ela que não entrava em canto escuro
nós a seguimos entre flor e choro
porque dói
o pé no sapato de verniz
a festa interminável

é grande o cemitério nos confins
tristes seus pássaros de bronze
empoleirados sobre túmulos
há retratos, letras, saudades
mas a procissão avança
rápida para olhos que soletram

a freira manda cantar
sai trôpego o hino
tudo é lento, engasga
ninguém quer enterrar a caixa
fechada com boneca

pela primeira vez tocamos terra
com mãozinhas enluvadas
lançando punhados no buraco
é roxo o pó que cai
empedra o som, batendo na madeira

sujo inteiramente
como as luvas
um homem feio vem
chapéu de feltro velho, abas ensebadas
e com pá completa seu serviço

a procissão desaba nas aleias

dia seguinte
embaixo da limeira
uma voz de prima não brinca de carniça
não canta introito de pega-pega
— balança caixão
—balança você
— dá um tapinha na bunda e vai esconder

§

|XI|

ô meu deus, quero de volta
minhas colegas de escola
blusa engomada picando nó sovaco
o castigo de gala
freiras chatas, revistando tudo
e reza antes da aula
dia de ser anjo prolongado

ô meu deus, quero de volta
O fogo daquele inferno
com diabo de tridente
e vermelho

§

| XX |

a noite é quente e ruinosa
onde plantou meu avô sua barba
e sua honra
das paredes da casa
restam madeiras
eretas e modificadas
dos filhos espalham-se os destinos

a vizinhança já foi chácara
campo de pelada e batalhas
zona do meretrício
caminho de tropa e lama
rua asfaltada e buracos

já houve horta, bichos esquisitos
mortes, desespero e festas no local
não há mais espírito pioneiro
tudo se disciplina e urbaniza

hoje meu avô está plantado
no chão que ele desbravou
e sua semente de pobre
macaroni e aventureiro
vingou nessa terra roxa
lado de cá do Tibagi
onde continuará havendo
trabalho, desespero e festa

§

BAR SELETO

vagas mensalistas aqui estacionam
pernas rodadas, caras batidas
buscam, quem sabe?
a vitamina que devolve a juventude

do vento do pastel aspiram sonhos?

sentam moles bundas nos banquinhos
olhos soltos sobre incertos objetos
e bebem
engolem o suco de tantas frutas
como se fosse lava
engolem tudo

diz-que vagabundas nunca morrem
pelo menos, só vivas aparecem no jornal
diz-que também não fazem falta
trocam de peruca
engordam, emagrecem
estão sempre no lugar sabido

mas
na hora vaga que precede o dia
bebem vitamina e comem
como crianças
o pastel que despenca seu recheio

— pendura a conta, ainda gritam
os saltos gastos já batendo na calçada
baiana, luzia, inalda, roseni, palmira
elas têm pressa

quando amanhece
todas as putas viram fadas

§

AD PERPETUAM REI MEMORIAM

maus
versos e bons planos
faço isso há anos
é chumbo o alfabeto que aprendi
escrevo

tenho todos os dentes
peso até excessivo
adoeço raramente
nasci no brasil
logo, não existo

cólicas líricas seguidas de vómito
meu diagnóstico

proletária do espírito
salário não paga minha fome

pedem pão, dou verbo
vergonha não rima nem resolve

às vezes desejo o terror
ilusão do justo restaurado
mas quem garante?

se o tapa é a lei da mão
instaura a selva

eu queria ser inocente

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poesia, tradução

Henri Michaux por Ricardo Corona

Retratos dos Meidosems: Henri Michaux

O poeta belga (naturalizado francês) Henri Michaux empenhou-se a criar realidades e a inventar seres em uma busca por um tanto do “outro lado”. Para isso, parte significativa da sua vida foi dedicada a experiências externas, anotações de um “bárbaro”, em viagens a Ásia, Europa, América, e experiências internas, com uso de haxixe e mescalina. Daí a sua radicalidade ao inventar países e povos como o País da Magia, Poddema, etc. Para Michaux, inventar seres e realidades era também um modo de elaborar distâncias e alargamentos, ética encontrada nos povos visionários, da qual o poeta aproximou sua escrita. 

Desta poética da viagem é que se potencializa o estranhamento provocado pelos Meidosems. Seres descolados da realidade, que se movem entre o sólido e o fluido, que estalam e se alargam, seres esquisitos que desestabilizam o referente e rebaixam a metáfora, que são muitos, uma população, num país Meidosem. Seres desconfigurados, elásticos, com rostos abrasados e esgotados. Seres que ferem e estão feridos. Um Meidosem jamais possui imagem definida e talvez nem pertença à imaginação.

Os vizinhos são os cronópios e famas de Cortázar, os marcianos de Ray Bradbury e o uapiti de Boris Vian. Mas vivem em realidades diferentes. Certamente os Meidosems têm algum grau de parentesco com o homem reduzido a fio de Ponge, as finas figuras de Giacometti e, claro, o Odradek de Kafka (que Michaux leu).

Já se disse que os Meidosems são “seres surreais”. Melhor não repetir isso. Apenas coincidem com a chegada do surrealismo. Michaux sempre relativizou essa associação, chegando a dizer que em seus textos (entenda-se toda sua obra) não havia sequer duas linhas de escrita automática. Por isso, quem sabe, tenha se negado a participar de importante antologia surrealista. Porém, Michaux manteve ligações com os surrealistas e isso Blanchot o disse muito bem. Mas é uma ligeireza cômoda assimilar essa poesia somente via surrealismo.

Há a relação destes fragmentos Meidosems com Marie-Louise, esposa do poeta. Chantal Maillard propôs recentemente essa leitura – sem reduzi-la a isso. O fato é que os fragmentos saíram publicados cinco anos após Marie-Louise sofrer um terrível acidente que marcou a vida do casal. Ao acender a lareira, a roupa de nylon de Marie-Louise pegou fogo e seu corpo sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus, levando-a ao óbito um mês depois, por causa de uma embolia pulmonar. Michaux: “É difícil caminhar assim”. Os Meidosems sofrem, estão feridos…

No entanto, das leituras dos Meidosems, talvez a mais interessante seja aquela que deixa os textos à sombra e no seu falar obscuro. “Um corpóreo-incorpóreo, um corpo-alma”, nas palavras de outro comentador, Raymond Bellour.

O livro Meidosems foi publicado inicialmente por uma pequena editora, Le Point Du Jour, em 1948. Em edição de luxo com 70 fragmentos e 13 litografias do autor, com tiragem de apenas 271 exemplares. Um ano depois, acrescido para 95 fragmentos, foi publicado sob o título definitivo de Retratos dos Meidosems, em edição comercial pela Editora Gallimard.

A seguir, 19 dos 95 fragmentos que compõem Retratos dos Meidosems. A  tradução tem por referência a edição La Vie dans les plis. Œuvres complètes, tomo II. Organização de Raymond Bellour em colaboração de Ysé Tran. Coleção Bibliothèque de la Pléiade (n°. 475), Paris: Gallimard, 2001.

Ricardo Corona

* * *

DesenhoHenriMichaux

C’est aujourd’hui l’après-midi du délassement des Meidosemmes. Elles montent dans les arbres. Pas les branches, mais par la sève.

Le peu de forme fixe qu’elles avaient, fatiguées à mort, elles vont la perdre dans les rameaux, dans les feuilles et les mousses et dans les pédoncules.

Ascension ivre, douce comme savon entrant dans la crasse. Vite dans l’herbette, lentement dans les vieux trembles. Suavement dans les fleurs. Sous l’infime mais forte aspiration des trompes de papillons, elles ne bougent plus.

Ensuite, elles descendent par les racines dans la terre amie, abondante en bien des choses, quand on sait la prendre.

Joie, joie qui envahit comme envahit la panique, joie comme sous une couverture.

Il faut ensuite remener à terre les petits des Meidosems qui, perdus, éperdus dans les arbres, ne peuvent s’en détacher.

Les menacer, ou encore les humilier. Ils s’en reviennent alors, on les détache sans peine et on les ramène, emplis de jus végétal et de ressentiment.

Hoje é a tarde de descanso das Meidosemeas. Elas sobem nas árvores. Não pelos galhos, mas pela seiva.

Mortas de cansaço, perderam nos galhos, nas folhas, os líquens e os pedúnculos da pouca forma estável que possuem.

Subida bêbada, suave como sabão penetrando na sujeira. Rapidamente na ervinha, lentamente nos velhos álamos. Suavemente nas flores. Sob a ínfima, porém, forte inalação das trombas de borboletas, elas deixam de se mover.

Em seguida elas descem pelas raízes para dentro da terra amiga, abundante em tantas coisas, quando se sabe colher. 

Alegria, alegria que invade como invade o pânico, alegria como ficar sob o cobertor.

Em seguida é preciso reconduzir ao chão as crias dos Meidosems que, perdidas, desvairadas nas árvores, não podem soltar-se delas.

Elas ameaçam as crias, ou, ainda, humilham-as. Ao passo que, caem em si, facilmente as soltam, trazendo-as de volta cheias de sumo vegetal e ressentimento.

§

Organes épars, courses rompues, intentions prises dans la pierre. Le solide vous a ainsi. En tessons de vous-même. Le solide tant désiré vous a enfin.

Disloqués, en morceaux, genoux de l’élan. Etrange palissade meidosemme.

Órgãos espalhados, corridas interrompidas, intenções retidas na pedra. Assim o sólido agarra você. Em cacos de você mesma. Ao final, o sólido tão desejado agarra você.

Desmembrados, em fragmentos, joelhos de elã. Estranha paliçada Meidosemea.   

Grand, grand Meidosem, mais pas si grand somme toute, à voir sa tête. Meidosem à la face calcinée.

Et qu’est-ce qui t’a brûlé ainsi, noiraud?

Est-ce hier? Non, c’est aujourd’hui. Chaque aujourd’hui.

Et elle en veut à tous.

Calcinée comme elle est, n’est-ce pas naturel?

Grande, grande Meidosem, mas não tão grande depois de tudo, a começar pela sua cabeça. Meidosem de rosto calcinado.

E o que te queimou assim, moreno?

Foi ontem? Não, hoje. Cada dia de hoje.

E está ressentido com todos.

Calcinada como ele está, não é natural?   

§

La grande lance diagonale qui, du haut en bas du Meidosem faiblissant, s’est implantée pour le retenir. Est-ce qu’elle va pour finir le retenir?

Du front au genou, grande béquille sans moelle. Traverse impérieuse, à la dureté militaire.

Tuteur féroce, tu veux tuer ou tu soutiens?

A principal lança diagonal, atravessada da cabeça aos pés do Meidosem debilitado, está ali para sustentá-lo. Será que o sustentará até o fim? 

Frente ao joelho, grande muleta sem medula. Atravessa imperioso, de rigidez militar.

Feroz tutor, você se sustenta ou quer se matar?

§

Pas seulement le Christ a été crucifié. Celui-ci aussi l’a été, Meidosem inscrit dans le polygone barbelé du Présent sans issue.

Bien au-delà d’une sentence de juge, bien au-delà d’un écroulement de villes.

La plénitude de sa plaie l’isole de l’accident.

Il pâtit comme on règne.

Cristo não foi o único crucificado. Esse Meidosem foi também, inscrito no polígono farpado do Presente sem saída.

Mais que a sentença de um juiz, que o aniquilamento de cidades.

A plenitude da sua chaga o isola de qualquer acidente.

Ele padece como se reina.

§

Très peu soutenus, toujours très peu soutenus, les voilà encore, leur colonne de vertèbres (sont-ce même des vertèbres?) transparaissant sous l’ectoplasme de leur être.

Ils ne devraient pas aller loin.

Si, ils iront loin, vissés à leur faible, en quelque sorte forts par là et même presque invincibles…

Muito pouco sustentada, sempre muito pouco sustentada, eis mais uma vez, sua coluna de vértebras (são mesmo vértebras?) transparecendo sob o ectoplasma do seu ser.

Elas não devem ir muito longe.

Sim, elas irão longe, parafusadas à sua debilidade, com alguma sorte grande e apesar de tudo, quase invencíveis.

§

DesenhoHenriMichaux2

Sur un corps mou, une tête de proie et de prise, de domination passée, comme un tracteur arrêté un après-midi sur les sillons d’un champ pas fini d’être labouré.

Macle de tessons, de cristaux, de blocs.

La lumière y arrive droite, en repart droite, n’est entrée nulle part.

La farouche noyau pétré attend, sur un corps vague, étranger, hétérogène, le clivage salutaire qui l’ouvre et le soulage enfin.

Sobre um corpo mole, uma cabeça de presa e de tomada, de dominação passada, como um trator parado uma tarde nos sulcos de um campo que não terminou de arar.

Macla de cacos, de cristais, de blocos.

A luz aí chegou reta, voltou reta, não entrou em nenhuma parte.

O esquivo caroço pétreo espera, sobre um corpo vago, estranho, heterogêneo, a clivagem salutar que o abra e por fim o alivie.

§

Bovin Bouddha de sa bête…

Le monde inférieur se médite en lui sans défaire ses courbes, et paît le Meidosem, l’herbe invisible des douleurs remises en place.

Il domine? Non; seulement il n’est pas égalé.

Bovino Buddha de seu bicho…

O mundo inferior nele medita sem desfazer suas curvas, e o Meidosem pasta-lhe a grama invisível das dores entregues no lugar.

Ele domina? Não; mas niguém é igual a ele.

§

Un nuage ici fait un nez, un large nez tout répandu, comme l’odeur autour de lui, fait un oeil aussi, qui est comme un paysage, son paysage devant lui, et maintenant en lui, dans la géante tête, qui grandit, grandit démesurément.

Uma nuvem aqui feito um nariz, um largo nariz todo alongado, como o odor em redor dele, feito um olho também, que é como uma paisagem, a paisagem em sua frente, e agora nele, dentro da cabeça gigante, que cresce, cresce desmedidamente.

§

Profils en forme de reproches, profils en forme d’espoirs déçus de jeunes filles, voilà ces profils meidosems.

Concaves par-dessus tout, concaves attristés, mais pas larmoyants.

Pas d’accord pour le dur, pas d’accord pour les larmes. Pas d’accord.

On ne les a jamais qu’entr’aperçus, les Meidosems.

Perfis em forma de censuras, perfis em forma de ilusões frustradas de jovens filhas, eis os perfis Meidosems.

Côncavos, acima de tudo, côncavos entristecidos, mas não lacrimosos.

Não aceitam birras nem lágrimas. Não concordam.

Nunca são vistos mais do que fugazmente, os Meidosems.

§

Meidosem qui s’envole par un rideau, revient par une citerne.

Meidosem qui se jette dans un ruisseau, se retrouve dans un étang. Oh étrange, étrange naturel des Meidosems.

Meidosem que levanta voo por uma cortina, voltando por uma cisterna.

Meidosem que se joga num córrego e se retorna num tanque. Oh, estranha, estranha natureza dos Meidosems. 

§

DesenhoHenriMichaux3

Et voici quelques-uns des lieux où vivent les Meidosems, étranges en vérité; étrange qu’ils acceptent d’y vivre…

E aqui alguns dos lugares onde vivem os Meidosems, realmente estranhos; estranho é que aceitem viver neles…

§

Il faut le dire, ils vivent surtout dans des camps de concentration.

Les camps de concentration où vivent ces Meidosems, ils pourraient n’y pas vivre. Mais ils sont inquiets comment ils vivraient s’ils n’y étaient plus. Ils ont peur de s’ennuyer dehors. On les bat, on les brutalise, on les supplicie. Mais ils ont peur de s’ennuyer dehors.

É preciso dizer, eles vivem, sobretudo, em campos de concentração.

Os Meidosems que vivem nos campos de concentração poderiam escolher em não viver ali. Mas se inquietam sobre como seria viver em outra situação. Eles têm medo de entediar-se fora dali. Ali são espancados, maltratados, torturados. Fora dali eles têm medo de se entediar.

§

Ici une plaine mamelonne éperdue vers le Meidosem qui s’arrête stupéfait, lâchant son travail, auquel il était pourtant fort oecupé, lâchant tout pour obéir à la fatale fascination.

Les élastiques de son être se tendent, se gonflent.

Ce n’est peut-être pas si dangereux qu’on pourrait croire.

Aqui uma planície mamilosa desvaira em direção ao Meidosem que se deteve, estupefato, largando seu trabalho, no qual estava bastante empenhado, deixando tudo para obedecer à fatal fascinação.

Os elásticos do seu ser se tensionam, se dilatam.

Talvez não seja tão perigoso quanto se poderia imaginar. 

§

Une corde dans une tour, il s’enroule dans la corde. Fait! Il se rend compte qu’il y a erreur. Il s’enroule dans la tour. Il se rend compte qu’il y a erreur. Elle fléchit, elle se tord. Il faut la redresser. Il reçoit trois singes et elur fait les honneurs de la tour. Les singes s’agitent et la réception n’est pas parfaite. Cependant la tour est là, il faut monter, il faut descendre, il faut remonter avec deux singes sur les bras et un troisième qui en veut à ses cheveux. Mais le Meidosem est bien plus distrait que le singe. Le Meidosem songe toujours à autre chose.

Ce frêle songe à plus frêle encore, quand, arrivé au bout de l’agitation de ses quelques fils, après un temps pas tellement long, il sera comme s’il n’avait jamais été.

En attendant, il faut d’autres tours. Pour voir plus loin. Pour pouvoir s’inquiéter de plus loin.

Uma corda dentro de uma torre se enrola em corda. Feito! Ela se dá conta de que há erro. Enrola-se na torre. Cai na real de que há erro. A torre dobra, inclina-se. Tem que reerguer-se. Acolhe três macacos e lhes faz as honras da torre. Os macacos estão agitados e o acolhimento não está perfeito. Entretanto a torre está lá, ele tem que subir, tem que descer, tem que voltar a subir com dois macacos nos braços e um terceiro que se apega ao seu cabelo. Mas o Meidosem é bem mais distraído que o macaco. O Meidosem sempre sonha com outra coisa.

Esse débil sonha em ser mais débil ainda, quando, por fim, domada a agitação de seus poucos fios, após um tempo não muito longo, ele será como se nunca tivesse sido.

Enquanto isso, outras torres fazem falta. Para ver mais longe. Para poder se agitar de mais longe.   

§

Ici est le vieux palais aux longs couloirs où picorent les poules, où l’âne vient passer la tête. Tel est le vieux palais. C’est à plus de mille que les Meidosems s’y tiennent, à bien plus de mille.

Tout est à l’abandon. Personne n’est servi. Personne n’a ce qu’il lui faudrait. Le toit est mauvais. Ils ont seulement, qu’ils tiennent en commum, qu’ils ne lâchent jamais, quatre mauvaises cordes.

Sans elles, même dans le palais, ils ne seraient pas à l’aise. Quant à sortir sans, pas question. Ils seraient épouvantés. Et déjà ils sont épouvantés quand ils les ont dans la main, épouvantés qu’on ne les leur coupe. Et on les leur coupe. Aussitôt tous ensemble se jettent à renouer les morceaux coupés, s’embrouillent, tombent, se font menaçants.

Il y a bien d’autres cordes. Mais avec d’autres, ils auraient peur de s’étrangler par mégarde.

Aqui está o velho palácio com longos corredores onde ciscam as galinhas, onde o asno vem mostrar a cabeça. Tal é o velho palácio. São mais de mil os Meidosems que nele estão, bem mais de mil.

Está tudo degradado. Ninguém é cuidadoso. Ninguém tem o que lhe é necessário. O telhado está péssimo. Ao menos eles têm em comum quatro cordas ruins que não afrouxam nunca.

Sem elas, mesmo dentro do palácio, não estariam à vontade. Quanto à sair sem elas, está fora de questão. Eles ficariam horrorizados. E já estão horrorizados com elas nas mãos, horrorizados com a ideia de que se partam. E se as cortam. Logo, todos juntos se jogam para reatar os pedaços cortados, embrulhando-se, caindo, fazendo-se ameaçadores.

Existem muitas outras cordas. Mas com outras, eles teriam receio de se estrangularem por descuido.      

§

DesenhoHenriMichaux4

Quel paysage meidosem est sans échelles? De toutes parts, jusqu’au bout de l’horizon, échelles, échelles… et de toutes parts têtes de Meidosems qui y sont montés.

Satisfaites, vexées, ardentes, inquiètes, avides, braves, graves, mécontentes.

Le Meidosems d’en bas qui circulent entre les échelles travaillent, entretiennent famille, paient, paient à des encaisseurs de toute tenue qui arrivent constamment. On dit d’eux qu’ils ne subissent pas l’appel de l’échelle.

Qual paisagem Meidosem está sem escadas? Por todos os lados, até a linha do horizonte, escadas, escadas… e em todo lugar, cabeças de Meidosems trepados nelas.

Satisfeitas, vexadas, ardentes, inquietas, ávidas, bravas, sérias, descontentes.

Os Meidosems embaixo, que circulam entre as escadas, trabalham, sustentam família, pagam, pagam para uns cobradores de toda ordem que chegam sem parar. Destes se ouve dizer que não suportam ao apelo da escada.

§

Il étend la surface de son corps pour se retrouver.

Il renie la présence de lui-même pour se retrouver.

Il vêt d’une chemise quelques vides pour, avant l’autre Vide, un petit semblant de plein.

Ele expande a superfície do seu corpo para se reencontrar.

Ele renega sua própria presença para se reencontrar.

Ele cobre com a camisa alguns vazios para, antes de outro Vazio, obter uma breve aparência de plenitude. 

§

Sur un toit, il y a toujours un Meidosem. Sur un promontoire, il y a toujours des Meidosems.

Ils ne peuvent rester à terre. Ils ne peuvent s’y plaire.

Dès que nourris, ils repartent vers la hauteur, vers la vaine hauteur.

Em cima de um telhado, sempre há um Meidosem. Sobre um promontório, sempre há Meidosems.

Eles não podem ficar no chão. Não se sentem à vontade.

Desde que alimentados, voltam às alturas, às vãs alturas.

* * *

Ricardo Corona é autor de vários livros e publicações de artista, dos quais, destaca-se: Mandrágora (Brasil-Paraguai, YiYi Jambo Cartonera, 2016), Cuerpo sutil (México, Calygrama, 2014), ¿Ahn? (Madri, Poetas de Cabra, 2012), Curare (SP, Iluminuras, 2011 – Prêmio Petrobras e finalista do Jabuti/2012), Amphibia (Portugal, Cosmorama, 2009). Traduziu, entre outros, Livro deserto (2013), de Ceciia Vicuña e, com Joca Wolff, Momento de simetria (2005) e Máscara âmbar (2008), de Arturo Carrera.

Padrão
poesia, tradução

Derek Walcott, por Alberto Pucheu

derek-walcott

            Era 1990. Em um dos dias de tal ano, eu havia comprado a Norton Anthology of Modern Poetry, com suas quase 2.000 páginas de poesia de língua inglesa, e deixado-a em cima do colchão, que ficava direto por sobre os tacos de madeira.

            Enquanto eu fazia algo na sala, minha mulher de então me chamava do quarto, dizendo-me que tinha aberto a antologia ao acaso e lido um poema que eu iria adorar. Foi assim, com o poema entregue para mim pela sorte e pelo amor, que li pela primeira vez Derek Walcott. “Winding up” me tocou intimamente como poucos outros, retornando em diversos momentos de minha vida como um horizonte, como um desses poemas que a cada vez e sempre me concernem com muita força, como se nele houvesse um modo de maturidade que me lança em direção a ele, uma vida de fato dita em poema (como não poderia se dar em nenhuma outra instância) em um grau muito extremo.

            Nunca me senti confortável em nenhuma língua para ser de fato tradutor, nunca tive o desejo de ser tradutor, mas, talvez exatamente por isso, aquele poema, que amei imediatamente, me trouxe a necessidade de, no mesmo momento em que o li pela primeira vez, ouvi-lo em português, de refazê-lo para que ele soasse em minha língua, de modo ainda mais íntimo de mim. Nos 24 anos que então tinha, traduzi-lo era como poder, de alguma maneira, ter a sensação de ter escrito o poema que tinha amado.

            Traduzi alguns outros de seus poemas da antologia, como, para dar apenas um exemplo, “Codicil”, que eu também achara maravilhoso. Nos dias seguintes, encomendei o Collected poems e, depois, Omeros. Quando o primeiro chegou, traduzi mais alguns poemas. Foi a única vez na vida em que traduzi poemas voluntariamente, todos eles escolhidos por amor, sendo escolhido pelo amor daqueles poemas.

            Dois anos depois, em 1992, Derek Walcott ganhou o Prêmio Nobel. Quase ninguém o conhecia por aqui. Silviano Santiago, que sabia que eu havia traduzido alguns poemas do caribenho, generosamente me indicou para fazer um texto com uma tradução ou outra para a revista Ciência Hoje, que lhe havia pedido um pequeno ensaio sobre o ganhador do respectivo prêmio. Um dos poemas que traduzi foi publicado no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. Eu enviara acho que três poemas, entre os que eu escolhera simplesmente por amor a eles, tanto em inglês quanto as traduções, para a Folha de São Paulo, mas nesse jornal tive menos sorte: um de seus editores culturais, que era poeta, recebendo os originais por mim enviados junto com minhas traduções, realizou, ele mesmo, traduções dos poemas que eu mandara e as publicou imediatamente no jornal (e em sequência em livro), sem qualquer menção a mim.

            Hoje, duas décadas e meia depois desses acontecimentos, a poeta, tradutora e amiga Nina Rizzi me convida para publicar algumas dessas traduções na escamandro. Envio o arquivo para ela, de modo que ela escolha o que quer publicar, dizendo-lhe que não vou nem posso retornar às traduções, que não quero nem relê-las com o compromisso de ver a pertinência delas; peço igualmente a Nina para só publicar se ela achar que as traduções são minimamente aprováveis, pedindo-lhe apenas para não me deixar passar vergonha. Como disse repetidamente, elas foram feitas simplesmente por amor, pelo desejo de aprender com aqueles poemas, pelo desejo de lê-los em minha língua – talvez, lidas dessa maneira, elas possam tocar algumas outras pessoas que não conhecem Derek Walcott e que não podem ler em inglês.

             Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta, nasceu em 1930, em Castries, na ilha de Santa Lucia. Formou-se na Universidade das Índias Ocidentais, na Jamaica, e em 1957 obteve uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos. Em 1992, tornou-se o primeiro escritor caribenho a receber o prêmio Nobel de literatura. Viveu em Londres e em Trinidad, e durante muitos anos dividiu seu tempo entre a ilha de Santa Lucia e os Estados Unidos, onde lecionou na Universidade de Boston até se aposentar, em 2007.

            Alberto Pucheu (Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 1966) é poeta e ensaísta brasileiro, Professor de Teoria Literária do Departamento e do Programa de Pós-Graduação de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu livro de poemas A fronteira desguarnecida foi vencedor do Programa de Bolsas para Escritores Brasileiros, da Fundação Biblioteca Nacional, e o de ensaios Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos recebeu o Prêmio Mário de Andrade de Ensaio Literário, da Fundação Biblioteca Nacional. Tem publicado ensaios em diversos livros, nos principais periódicos acadêmicos brasileiros e em portais nacionais e internacionais de literatura, bem como resenhas e poemas. Em 2011, teve 20 das fotografias que vem tirando de frases grafitadas em ruas de diferentes cidades do mundo expostas, sob o título de Paisagens urbanas quase sem paisagens, no evento internacional ArteFórum, sob a curadoria de Beatriz Rezende, e realizou, em julho de 2011, a instalação Palavras, na OI Futuro de Ipanema, no projeto Poesia Visual, sob a curadoria de Alberto Saraiva (essa série de exposições e instalações contou também com mostras de Ferreira Gullar, Antonio Cicero, Wladimir Dias Pino, Tadeu Jungle, Helena Trindade, Roberto Corrêa dos Santos e Lúcio Agra). Página pessoal: http://www.albertopucheu.com.br/

***

Winding Up

 I live on the water,
alone. Without wife and children,
I have circled every possibility
to come to this:

a low house by grey water,
with windows always open
to the stale sea. We do not choose such things,

but we are what we have made.
We suffer, the years pass,
we shed freight but not our need

 for encumbrances. Love is a stone
that settled on the sea-bed
under grey water.  Now, I require nothing

 from poetry but true feeling,
no pity, no fame, no healing. Silent wife,
we can sit watching grey water,

 and in a life awash
with mediocrity and trash
live rock-like.

I shall unlearn feeling,
unlearn my gift.  That is greater
and harder than what passes there for life.

 

Desfecho

Vivo nas águas,
solitário. Sem mulher nem filhos.
Atravessei todas as possibilidades
para chegar até aqui:

pequena casa em água cinza,
janelas sempre abertas
para o velho mar.  Não escolhemos o destino,

mas somos o que fizemos.
Sofremos, os anos passam,
lançamos a carga fora, mas não a necessidade

de obstáculos. O amor é uma pedra
no leito do mar
debaixo da água cinza.  Agora, nada mais quero

da poesia senão o coração.
Não quero a piedade nem a fama nem a cura.  Silenciosa
esposa, contemplamos a água cinza,

e numa vida repleta
de mediocridade e lixo
vivemos como rocha.

Devo desaprender sentimentos,
esquecer meu dote.  Isto é maior
e mais difícil do que o que se entende por vida.

§

 

MAP OF THE NEW WORLD

I Archipelagos

At the end of this sentence, rain will begin.
At the rain’s edge, a sail.

Slowly the sail will lose sight of islands;
into a mist will go the belief in harbours
of an entire race.

The ten-years war is finished.
Helen’s hair, a grey cloud.
Troy, a white ashpit
by the drizzling sea.

The drizzle tightens like the strings of a harp.
A man with clouded eyes picks up the rain
and plucks the first line of the Odyssey.


MAPA DO NOVO MUNDO

Arquipélagos, I

Ao fim desta frase, começará a chover.
Pela margem da chuva, um barco.

Veleiro longeando a visão das ilhas;
a crença nos portos de toda uma raça
adentra a neblina.

A guerra de dez anos finda.
O cabelo de Helena, uma nuvem cinza.
Tróia, fosso branco
no mar garoante.

Os pingos se esticam como cordas de harpa.
Um homem de olhos brumosos colhe a chuva
e brota a primeira linha da Odisséia.

§

 

Midsummer, Tobago

 Broad sun-stoned beaches.

White heat.
A green river.

A bridge,
scorched yellow palms

from the summer-sleeping house
drowsing through August.

Days I have held,
days I have lost,

days that outgrow, like daughters,
my harbouring arms.


Verão, Tobago

Praias de claro sol mineral.

Calor branco.
Um rio verde.

Uma ponte,
palmeiras amarelas ressecadas

da casa-de-verão
dormindo através de Agosto.

Dias que guardei,
dias que perdi,

dias que cresceram, como filhas,
para além do abrigo de meus braços.

 §

 

Names

(for Edward Brathwait)

              I

My race began as the sea began,
with no nouns, and with no horizon,
with pebbles under my tongue,
with a different fix on the stars.

But now my race is here,
in the sad oil of Levantine eyes,
in the flags of the Indian fields.

I began with no memory,
I began with no future,
but I looked for that moment
when the mind was halved by a horizon.

I have never found that moment
when the mind was halved by a horizon –
for the goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
as a fishline sinks, the horizon
sinks in the memory.

Have we melted into a mirror,
leaving our souls behind?
The goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
the bronzesmith from Benin.

A sea-eagle screams from the rock,
and my race began like the osprey
with that cry,
that terrible vowel,
that I!

Behind us all the sky folded,
as history folds over a fishline,
and the foam foreclosed
with nothing in our hands

but this stick
to trace our names on the sand
which the sea erased again, to our indifference.

              II

And when they named these bays
bays,
was it nostalgia or irony?

In the uncombed forest,
in uncultivated grass
where was there elegance
except in their mockery?

Where were the courts of Castille?
Versailles’ colonnades
supplanted by cabbage palms
with Corinthian crests,
belittling diminutives,
then, little Versailles
meant plans for a pigstry,
names for the sour apples
and green grapes
of their exile.

Their memory turned acid
but the names held;
Valencia glows
with the lanterns of oranges,
Mayaro’s
charred candelabra of cocoa.
Being men, they could not live
except they first presumed
the right of every thing to be a noun.
The African acquiesced,
repeated, and changed them.

Listen, my children, say:
moubain: the hogplum,
cerise: the wild cherry,
baie-la: the bay,
with the fresh green voices
they were once themselves
in the way the wind bends
our natural inflections.

These palms are greater than Versailles,
for no man made them,
their fallen columns greater than Castille,
no man unmade them
except the worm, who has no helmet,
but was always the emperor,

and children, look at these stars
over Valencia’s forest!

Not Orion,
not Betelgeuse,
tell me, what do they look like?
Answer, you damned little Arabs!
Sir, fireflies caught in molasses.

 

NOMES

(para Edward Brathwait)

              I

Minha estirpe começou como o mar,
sem nomes, sem horizonte,
com seixos debaixo de minha língua
e uma outra leitura das estrelas.

Agora, eis minha estirpe
nos olhos tristes do Levantino,
nas bandeiras dos campos indianos.

Comecei sem memória,
comecei sem futuro,
procurei pelo momento
em que a mente se perdesse no horizonte.

Nunca encontrei o momento
em que a mente se perdesse no horizonte –
para o ourives de Benares,
para o lapidador de Cantão,
o horizonte mergulha, como linha
de pesca, na memória.

Teremos nos dissolvido num espelho
largando nossas almas para trás?
O ourives de Benares,
o lapidador de Cantão,
o ferreiro de Benin.

Uma águia-marinha grita da rocha,
minha estirpe começou como a águia
e seu grito,
as terríveis vogais
E – U!

O céu se dobrou atrás de nós
como a história se dobra sobre a linha de pesca,
e a espuma, dobrando-se, executou a penhora:
sem nada em nossas mãos

senão este graveto
a traçar nossos nomes na areia
que o mar torna a apagar, para nossa indiferença.

II

E quando nomearam estas baías
baías,
foi nostalgia ou ironia?

Na floresta despenteada,
na relva inculta,
onde haveria graça
senão no cômico?

Onde estariam as cortes de Castela?
As colunatas de Versalhes
trocadas por folhas de repolho
com elmos coríntios,
diminutivos degradados,
pequena Versalhes, então,
significava projetos para chiqueiros,
nomes para maçãs azedas
e uvas verdes
do exílio.

A memória fez-se ácido
mas os nomes ficaram;
Valência brilha
com lanternas de laranjas,
o candelabro de Mayaro
carbonizado de cacau.
Sendo homens, só poderiam viver
presumindo o direito
de todas as coisas terem nome.
Os Africanos os aceitaram,
os repetiram e os transformaram.

Escutem, crianças, digam:
moubain: o cajá,
cerise: a cereja silvestre,
baie-la: a baía;
um dia, com verdes vozes frescas,
foram eles mesmos –
como o vento que curva
nossos tons naturais.

Estas palmeiras são maiores que Versalhes,
nenhum homem as construiu,
suas colunas suspensas maiores que Castela,
nenhum homem as destruiu,
mas apenas o verme, que, sem capacete,
foi sempre o imperador.

Crianças, olhem as estrelas
sobre a floresta de Valência!

Não é Órion,
não é Betelgeuse,
digam-me, o que parecem?
Respondam, pequenos árabes malditos!
Senhor, vaga-lumes no melaço.

§

 

Endings

Things do not explode,
they fail, they fade,

as sunlight fades from the flesh,
as the foam drains quick in the sand,

even love’s lightning flash
has no thunderous end,

it dies with the sound
of flowers fading like the flesh

from sweating pumice stone,
everything shapes this

till we are left
with the silence that surrounds Beethoven’s head.


Fins

Coisas não explodem,
definham, fenecem,

como a luz do sol some da carne,
como a espuma seca na areia,

mesmo o relâmpago do amor
não finda em trovões,

morre com o som
das flores fenecendo como a carne

da sudorífera pedra-pomes,
é esta a forma de tudo

até que nos sobra apenas
o silêncio que transborda da cabeça de Beethoven.

§

 

Preparing for Exile

Why do I imagine the death of Mandelstam
among the yellowing coconuts,
why does my gift already look over its shoulder
for a shadow to fill the door
and pass this very page into eclipse?
Why does the moon increase into an arc-lamp
and the inkstain on my hand prepare to press thumb-downward
before a shrugging sergeant?
What is this new odour in the air
that was once salt, that smelt like lime at daybreak,
and my cat, I know I imagine it, leap from my path,
and my children’s eyes already seem like horizons,
and all my poems, even this one, wish to hide?


Preparando para o Exílio

Por que invento a morte de Mandelstam
entre coqueiros amarelos,
por que meu dom procura sobre os ombros
uma sombra que ocupe a porta
e faça na página eclipse?
Por que a lua cresce no arco da lâmpada
e o borrão no meu dedo grava a digital
diante de um sargento indiferente?
Que novo odor no ar é este
que já foi sal, que cheirou a lima na aurora,
e meu gato, sei que invento, pula do meu caminho,
e os olhos de meus filhos parecem horizontes,
e o que querem meus poemas, mesmo este, esconder?

§

 

Iona: Valle Mabouya

 IV

[for Eric Brandford]

Ma Kilman, God will punish you,
for the reason that you’ve got too much religion.
On the other hand, God will bless you,
God will bless you because of your charity.

Corbeau went to Curaçao,
he sent you money back,
you took the same money
and put it in a rumshop.
You can’t read, you can’t write, you can’t speak English,
you should know that rumshops make no profit.
When Corbeau came back,
he had, yes he had money,
when he arrived back here.
Yes, Mama, Corbeau’ll go crazy!

Iona told Corbeau, while you were in Curaçao,
I made two little children, come and see if they’re yours.
Corbeau cried out, “Mama! Good night, ladies and gentlemen,
light the lamp there for me,
for me to look at these kids!”
Corbeau came back and said, “I know niggers resemble,
they may or may not be mine,
I’ll mind them all the same!”

Ah yes, Corbeau then left, he went down to Roseau,
he went to look fo work, to mind the two litte ones.
Iona told Corbeau, don’t go down to roseau.

But he went to Roseau, and Roseau’s whores fell on him.
Philippe Mago brought Corbeau a saxophone,
he had no time to play the sax,
a saxman just like him took away his living.

Saturday morning early, Corbeau goes into town.
Saturday afternoon we hear Corbeau is dead.
That really made me sad, that really burnt my heart;
that really went through me when I heard Corbeau was dead.

Iona said like this: it made her sorry too,
it really burnt her heart, that the saxophone will never play.

I heard a horn blowing
by the river reeds down there.
“Sweetheart”, I said, “I’ll go looking
for flying fish for you.”
When I got there, I came across Corbeau.
He said: “That horn you heard
was Iona horning me.”

The guitar man’s saying:
“We both are guitar men,
don’t take it for anything,
we both holding the same beat.”

Iona got married, Sunday at four o’clock.
Tuesday, by eight o’clock, she’s in the hospital.
She made a fare, her husband broke her arm.
When I meet your mother,
I’ll tell what you did me.
Iona!
(I’ll tell your mama!)
Iona!
(You don’t listen to me!)

Thre days and three nights
Iona boiled, she’s still not cooked.
(I’ll tell her mother that).
They say Iona’s changed,
it isn’t changed Iona’s changed,
she’s wicked, wicked, that’s all,
Iona!

 

Iona: Vale Mabouya

 IV

 [para Eric Brandford]

Ma kilman, Bom Deus a punirá
por você ser tão religiosa.
Mas também, Bom Deus a abençoará,
Bom Deus a abençoará por sua caridade.

Corbeau foi a Curaçao,
lhe mandou dinheiro,
você pegou o dinheiro
e abriu um cabaré.
Você não sabe ler nem escrever nem falar Inglês,
você devia de saber, cabaré não dá lucro.
Quando Corbeau voltou,
tinha muito, muito dinheiro,
quando voltou pra cá.
Minha Nossa! Corbeau vai pirar!

Quando você estava em Curaçao, Iona disse a Corbeau,
tive dois filhos, venha ver se são seus.
Courbeau gritou, “Boa noite, senhoras e senhores,
acendam a luz para mim,
para eu ver estas crianças!”
Corbeau virou-se e disse, “Crioulo é tudo igual,
não sei se são meus,
mesmo assim, vou cuidar deles!”

Corbeau saiu, desceu para o Roseau,
foi procurar trabalho, para cuidar dos pequeninos.
Não vai para o Roseau, Iona disse a Corbeau.

Mas ele foi para o Roseau, as putas gostaram.
Philippe Mago lhe trouxe um saxofone,
Corbeau não teve tempo para tocá-lo,
outro saxofonista tirou-lhe a vida.

Manhã de sábado, Corbeau desce para a cidade.
Tarde de sábado, Corbeau está morto.
Fiquei triste, com o coração apertado;
Foi dentro do estômago que senti a morte de Corbeau.

Iona disse que também ficou triste,
seu coração apertou, o saxofone não tocará mais.

Escutei um sopro no som
vindo da tromba do rio.
“Querida”, eu disse, “Vou pegar
um peixe-voador para você”.
Quando cheguei lá, encontrei Corbeau.
Ele disse: “O sopro que você escutou
eram sussurros de Iona”.

O guitarrista dizia:
“Somos ambos da guitarra,
entenda,
tocamos o mesmo ritmo”.

Domingo às quatro, Iona se casou.
Terça, às oito, ela está no hospital.
Ela preparou a comida, seu marido lhe quebrou o braço.
Quando encontrar sua mãe,
direi o que você me fez.
Iona!
(Direi para sua mãe!)
Iona!
(Você não me escuta!)

Iona ferveu por três dias
e três noites, e ainda não está cozida.
(Contarei isto para sua mãe.)
Disseram que Iona mudou,
não é mudança a mudança de Iona,
ficou malvada, malvada, só isso,
Iona!

§

 

A Far Cry from Africa

A wind is ruffling the tawny pelt
Of Africa. Kikuyu, quick as flies,
Batten upon the bloodstreams of the veldt.
Corpses are scattered through a paradise.
Only the worm, colonel of carrion, cries:
“Waste no compassion on these separate dead!”
Statistics justify and scholars seize
The salients of colonial policy.
What is that to the white child hacked in bed?
To savages, expendable as Jews?

Threshed out by beaters, the long rushes break
In a white dust of ibises whose cries
Have wheeled since civilization’s dawn
From the parched river or beast-teeming plain.
The violence of beast on beast is read
As natural law, but upright man
Seeks his divinity by inflicting pain.
Delirious as these worried beasts, his wars
Dance to the tightened carcass of a drum,
While he calls courage still that native dread
Of the white peace contracted by the dead.

Again brutish necessity wipes its hands
Upon the napkin of a dirty cause, again
A waste of our compassion, as with Spain,
The gorilla wrestles with the superman.
I who am poisoned with the blood of both,
Where shal I turn, divided to the vein?
I who have cursed
The drunken officer of British rule, how choose
Beteween this Africa and the English tongue I love?
Betray them both, or give back what thy give?
How can I face such slaughter and be cool?
How can I turn from Africa and live?


Um Grito Distante da África

O vento rufa o couro curtido
Da África. Kikuyu, tal mosca célere,
Devora o fluxo sanguíneo da estepe.
Defuntos se espalham num paraíso.
Senhor da carniça, só o verme grita:
“Não tenham compaixão por estes mortos!”
Técnicos e acadêmicos comprovam
As marcas da política colonial.
O que pensam, com medo, as crianças brancas?
E os selvagens, fartos como os judeus?

Batidos no pilão, os longos juncos
Mostram um pó branco de íbis que grasnam,
Desde a aurora da civilização,
No rio seco ou na planície fértil
De bestas. A violência da besta
Sobre a besta é a lei natural, mas,
em pé, o homem procura a divindade
pela dor. Delirantes como as bestas,
suas guerras dançam para o tambor,
E para ele é força o medo nativo
da paz branca às custas dos próprios vivos.

Outra vez, a necessidade bruta
Passa as mãos no lenço da causa suja,
Outra vez, nossa compaixão desgasta-se,
Como com a Espanha, o gorila contra o super-homem.
Eu, envenenado com sangue de ambas,
Dividido até as veias, pra onde vou?
Eu que xinguei
O bêbado oficial inglês, como escolher
Entre esta África e a língua inglesa que amo?
Traí-las, ou devolver o que dão?
Como encarar tal chacina e sorrir?
Como dar as costas a África e viver?

§§§

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