poesia, tradução

Bernadette Mayer (1945 – ), por Stefano Calgaro

bernadette_crop

Bernadette Mayer é uma poeta, ensaísta e artista visual Nascida em Brooklyn, Nova Iorque. Tanto associada à escola de nova Iorque quanto ao L=A=N=G=U=A=G=E=P=O=E=T=R=Y, ficou conhecida por uma exposição que mesclava fotografia e narração chamada memory, organizada em 1971. Ela foi professora, editou a 0 to 9 magazine com o artista Vito Acconci e estabeleceu a editora United Artists Book com Lewis Warsh, publicando poetas como Robert Creeley, Anne Waldman e Alice Notley. Publicou diversos livros de poesia, estreando com ceremony latin (1964). Os poemas a seguir foram extraídos do livro A Bernadette Mayer Reader, que contém poemas e excertos dos livros Ceremony Latin, Story (1968), moving (1971), memory (1976), studying hunger (1976), the Golden book of words (1978), midwinter day (1982), utopia (1984), mutual aid (1985), sonnets (1989), the formal field of kissing (1990), the desires of mothers to please others in letters (1994). Bernadette possui uma grande diversidade e mobilidade ao longo de sua obra, que ora vai para o soneto, a sextina, ora o verso livre; ora textos em prosa, com uma presença muito forte de fluxos de consciência, fluidez e uma experimentação textual que se estende tanto à textos mais narrativos quanto poemas que exploram mais a espacialização das palavras no branco da página (embora menos recorrentes). Fez traduções livres e poemas que dialogam com Dante, Horácio e Catulo, mas outros mais próximos de Wallace Stevens, Allen Ginsberg, Charles Bernstein, ou até mesmo John Cage. Bernadette vive em Nova Iorque.

Obs: Priorizei os poemas de Bernadette que tivessem mais essa fluidez e livres associações àqueles mais experimentais, que o são através de formas muito diversas, ora explorando a mobilidade sintática, ora explorando o uso de parônimos, ora explorando a capacidade plurissignificante e móvel das palavras (The Red Rose Doesn’t, the Rose is red does), ora mais sintéticos (Laira Cashdollars), ou mesmo aqueles que, como ditos, exploram mais a sonoridade, a visualidade e a espacialização na página (the sun’s in my eyes).

As únicas traduções que consegui achar em português foram as que estão disponíveis na Modo de usar & Co. (que usei como referencia para a tradução de Eve of easter http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2011/04/bernadette-mayer.html) feita pelo Ricardo Domeneck, a do Rubens Akira Kuana (também usada como referencia para traduzir The way to keep going in antartica https://akirakuana.wordpress.com/2014/02/28/o-caminho-para-continuar-na-antartica-por-bernadette-mayer), e as de Marília Garcia, tanto em seu blog (http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/search/label/bernadette%20mayer) como um texto que saiu na revista Grupo Canoa (Luna Parque).

Stefano Calgaro

* * *

O caminho para continuar na antártica

Seja forte bernadette
Ninguém jamais saberá
Eu vim aqui por uma razão
Talvez haja uma vida aqui
De não ter medo de seu próprio coração batendo
Não tenha medo do seu próprio coração batendo
Olhe as coisas minúsculas com seus olhos
& mantenha-se aquecida
Nada lá fora pode te curar mas tudo está fora
Há uma grande vergonha para o mundo em saber
Que você pôde ter ido tão longe
Talvez seja por isso que você ame tanto a presença de outras pessoas
Talvez seja por isso que você aguarda tão impacientemente
Você não tem mais nada a ensinar
Até que não haja mais pânico em saber de sua própria real existência
& então apenas o especial riso infantil a ser mostrado
& sem mais mentiras sem mais
Não a te encontrar não
Mais voltar & mais retornos
Viagens austrais
Pequenas coisas & não meus próprios escombros
Algo a se lutar contra
& somos todos fluentes sobre nós mesmos
Nossas próprias ideias sobre comida, um molho selvagem
Não há muita razão em terem acabado: mas não falamos deles:
Eu escrevera: “o homem que costurou suas solas de volta aos seus pés”
Então entrei em pânico pelo som do que o vento poderia fazer
Comigo
Se eu rastejasse de volta à casa, dois pés não dão posição, se
Os galhos estalados sobre minha cabeça & a sua ameaça sobre mim, se eu
Cobrisse meu rosto com cerveja & suasse até sua volta
Se eu sofresse que mais poderia fazer

The way to keep going in Antartica

Be strong Bernadette
Nobody will ever know
I came here for a reason
Perhaps there is a life here
Of not being afraid of your own heart beating
Do not be afraid of your own heart beating
Look at very small things with your eyes
& stay warm
Nothing outside can cure you but everything’s outside
There is great shame for the world in knowing
You may have gone this far
Perhaps this is why you love the presence of other people so much
Perhaps this is why you wait so impatiently
You have nothing more to teach
Until there is no more panic at the knowledge of your own real existence
& then only special childish laughter to be shown
& no more lies no more
Not to find you no
More coming back & more returning
Southern journey
Small things & not my own debris
Something to fight against
& we are all very fluent about ourselves
Our own ideas of food, a Wild sauce
There’s not much point in its being over: but we do not speak them:
I had written: “the man who sewed his soles back on his feet”
And then I panicked most at the sound of what the wind could do
to me
if I crawled back to the house, two feet give no position, if
the branches cracked over my head & their threatening me, if I
covered my face with beer & sweated till you returned
If I suffered what else could I do

§

Parecendo partes do Kansas

“we had our first cucumber
Yesterday”
-Nathaniel Hawthorne

New England é péssimo
Inverno de cinco meses
O sol talvez apareça hoje mas isso não significa nada
Há yankees
Homens & mulheres que não podem falar
Usam cores escuras & se arrastam por aí, todos em marrons & cinzas,
Olhando para o céu e fingindo prever todas as
grandes tempestades
Ou então acenam sabiamente
Eh, um vento nordeste
O céu amarelece o tempo todo
O rio é cinza
Tudo é preto ou branco
Todos comem feijões
Tudo congela
Todos vivem em uma casa velha de papel
Pessoas cortam madeira o tempo todo
Deslizam por aí nessas estradas de gelo escorregadias
Todas árvores parecem mortas
Fazem longas sombras na neve
Há apenas luz do dia por cerca de quatro horas
Pessoas sentadas em casa & tomando uns tragos
À noite todos os telefones apagam & fios elétricos vêm abaixo
Todo fim de semana tem uma tempestade então ninguém pode vir te ver
As lareiras são muito arejadas
As montanhas parecem negras
Não há livros nas lojas
A religião é algo importante
Todo mundo tem uma história
O sexo é laborioso para as pessoas de New England
Está -11° & usam olla’s e jontex’s
Algumas pessoas têm um gerador
As Janelas são muito pequenas
Você tem que sair & sentir frio
De repente o céu azul surpreende
Tudo está enterrado sobre cinco pés de neve
Não vai embora até Abril ou Maio
Tudo até maçãs ou algum tipo de abóbora
As casas são caixas vazadas & você não pode abrir as janelas
Pessoas contam histórias umas das outras
Pessoas têm que vir & lavrar a neve para o seu lado
Da rua
Então talham caminhos para carros diferentes
Há reuniões da cidade sobre o novo sistema de esgoto
As ideias das pessoas em geral não são mais elevadas do que
Os telhados de suas casas
Até mesmo a água congela na torneira

Looking like Areas of Kansas

“we had our first cucumber
Yesterday”
-Nathaniel Hawthorne

New england is awful
The winter’s five months long
The sun may come out today but that doesnt mean anything
There are yankees
Men & women who cant talk
They wear dark colors & trudge around, all in browns & greys,
Looking up at the sky & pretending to predict all the
Big storms
Or else they nod wisely
Yup, a northeaster
The sky turns yellow all the time
The river’s grey
Everything’s black or White
Everybody eats beans
Everything freezes
Everybody lives in na old paper house
People chop wood all the time
They slide around on these slippery icy roads
All the trees look dead
They make long shadows on the snow
There’s only daylight for about four hours
People sit home & drink boilermakers
At night all the telefones go out & the power lines blow down
Every weekend there’s a storm so nodoby can come to see you
The fireplaces are very drafty
The mountains look black
There are no books at the store
Religion’s a big thing
Everybody has a story
Sex is drudgery for people in New England
It’s 12° & they use trojans or tahitis
Some people have a generator
The Windows are very small
You have to go out & get cold
All of a sudden the blue sky blows away
Everything’s buried under five feet of snow
It doesn’t go away until April or May
Everything’s either apples or some kind of squash
The houses are all drafty boxes & you cant open the Windows
People tell stories about each other
People have to come & plow the snow off to the side of
Your road
Then people shovel pathways to different cars
They have town meetings about the new sewer systems
The ideas of people in general are not raised higher than the
Roofs of their houses
Even the water freezes in the tap

§

Véspera de páscoa

Milton, que fez suas filhas iletradas
Lerem para ele em cinco idiomas
Até ouvirem as novidades de que ele se casaria de novo
E disseram que preferiam ouvir que estava morto
Milton que transforma até O Paraíso Perdido
Numa autobiografia, eu tenho três
Bebês esta noite, todas três dormindo:
Rachel a ta ta taraneta
De Herman Melville está adormecida na cama
Sophia e Marie estão dormindo
Sophia homônimo das esposas
De Lewis Freedson o acadêmico e Nathaniel Hawthorne
Marie o nome mais antigo da minha mãe, essas três meninas
Descansam no escuro, eu fiz o escuro luzente
Roubei imagens de Milton para curar o negrume opaco
tornar o quarto um globo debaixo dessa rouca
lua de março, eclipsada apenas à luz diurna
corpos de bebês respirando pesado
Filhas e descendentes na presença
Dos grandes, Milton e Melville e Hawthorne,
Todos estão falando
Ao mesmo tempo, apenas as olhei todas mescladas
Cada uma metade semita, de uma raça sempre em guerra
O resto de sua graça herdada
dos nórdicos, germanos e ingleses,
Escritores em paz
apressando judeus em guerra para a democracia quando na verdade
A paz está à janela implorando entrada
Com as hordas no meio do ar
Frio demais para essa época do ano,
Véspera de páscoa e a ideia chocante de ressurreição
Agora a bebê de alguém se agita, faminta por um ovo,
É a bebê Melville, indo à gritaria
A de Melville chupando seus dedos por consolo
Ela faz um barulho de grunhido
Bebê Hawthorne ainda profundamente adormecida
A que parece minha mãe apagada como luz
A de Melville mesmo sendo a menor é a que mais quer
Porque na verdade não mora aqui
Hawthorne vai querer ser amamentada quando acordar
Melville mamou um pouco e voltou pro cochilo
Agora Hawthorne está se mexendo, é a mais faminta
Mas talvez a mais encantada pela escuridão no quarto
Posso ouvir Hawthorne, sei que está acordada agora
Mas será que vai se agitar, perturbando o plácido sono
De Melville e insistindo em acordar todos nós
Enquanto isso o resto das pessoas de Lenox
Dirigem rua a cima e abaixo
Agora Hawthorne quer comer
Todas veem a luz à qual escrevo, Hawthorne suspira
A casa está quieta, escuto o brinquedo de Melville
Nunca troquei as fraldas de um menino
Acho que vou pegar Hawthorne e amamentá-la pelo prazer
De cortar através da escuridão antes que seu barulho comedido
Estimule meninos, vou cozinhar um peixe
Reter aprumo na presença
Dos descendentes intrépidos, obstinados seus pais
Olham pra mim e bebem tinta
Eu devolvo um olhar para todas as filhas e pisco
Véspera de páscoa, eu herdei este
Sono tranquilo dos filhos de homens
Rachel, Sophia, Marie e eu de novo
Bernadette, toda coração eu vivo, toda cabeça, toda olhos, toda ouvidos,
Eu perdi o preconceito do paraíso
E acabei cuidando dos bebês desses caras

Eve of Easter

Milton, who made his illiterate daughters
Read to him in five languages
Till they heard the news he would marry again
And said they would rather hear he was dead
Milton who turns even Paradise Lost
Into a n autobiography, I have three
Babies tonight, all three are sleeping:
Rachel the great great great granddaughter
Of Herman Melville is asleep on the bed
Sophia and Marie are sleeping
Sophia namesake of the wives
Of Lewis Freedson the scholar and Nathaniel Hawthorne
Marie my mother’s oldest name, these three girls
Resting in the dark, I made the lucent dark
I stole images of Milton to cure opacous gloom
To render the room an orb beneath this raucous
Moon of March, eclipsed only in daylight
Heavy breathing baby bodies
Daughters and descendants in the presence of
The great ones, Milton and Melville and Hawthorne,
Everyone is speaking
At once, I only looked at them all blended
Each half Semitic, of a race always at war
The rest of their inherited grace
From among Nordics, Germans and English,
Writers at peace
Rushing warring Jews into democracy when actually
Peace is at the window begging entrance
With the hordes in the midst of air
Too cold for this time of year,
Eve of Easter and the shocking resurrection idea
Some one baby stirs now, hungry for an egg
It’s the Melville baby, going to make a fuss
The Melville one’s sucking her fingers for solace
She makes a squealing noise
Hawthorne baby’s still deeply asleep
The one like my mother’s out like a light
The Melville one though the smallest wants the most
Because she doesn’t really live here
Hawthorne will want to be nursed when she gets up
Melville sucked a bit and dozed back off
Now Hawthorne is moving around, she’s the most hungry
Yet perhaps the most seduced by darkness in the room
I can hear Hawthorne, I know she’s awake now
But will she stir, disturbing the placid sleep
Of Melville and insisting on waking us all
Meanwhile the rest of the people of Lenox
Drive up and down the street
Now Hawthorne wants to eat
They all see the light by which I write, Hawthorne sighs
The house is quiet, I hear Melville’s toy
I’ve never changed the diaper of a boy
I think I’ll go get Hawthorne and nurse her for the pleasure
Of cutting through darkness before her measured noise
Stimulates the boys, I’ll cook a fish
Retain poise in the presence
Of heady descendants, stone-willed their fathers
Look at me and drink ink
I return a look to all the daughters and I wink
Eve of Easter, I’ve inherited this
Peaceful sleep of the children of men
Rachel, Sophia, Marie and again me
Bernadette, all heart I live, all head, all eye, all ear
I lost the prejudice of paradise
And wound up caring for the babies of these guys

§

Poema

Estou começando a alterar
a locação desse porto
agora encontra com um canal
juntando um lugar ao outro.
Então continua
como se numa cidade
habilidosa de uma mão
cheia de algumas coisas
e não outras.
Olhos descansam
e vemos o que está
diante de tudo o mesmo.
Apesar de implicar um começo
ao qual atribuímos ponto algum
isso tem um fim,
pois nenhum bispo de alguma importância
constrói sua tumba em tempo ruim.

O fim que vem
não é tão importante quanto o movimento
preso no ar
pausando em seu curso.
Para então mudar
reverta o trem
de uma linha em andamento,
e como antes
deve girar e endereçar
a um novo local
a ser visto por baixo.
Essa conversa volante
aloca a cena
a um sino.

Eu contei mais
do que pode ser visto.
O sino faz seu truque
mais que uma ópera.
Se você viu o mundo de um navio
então você não viu
o que o navio deixa cair no mar
para escurecer seu topo e fazer crescer.
Para sair desse porto
você deve ser um cortador de redes.

Poem

I am beginning to alter
the location of this harbor
now meets with a channel
joining one place with one.
Then it continues
as if in a town
artfulness of a hand
full of some things
and not others.
Eye rests
and we see what is
before everything else the same.
Though this implies a beginning
to which we ascribe no point
nevertheless it has an end,
for no bishop of any importance
constructs his tomb in a bad time.

The end which comes
is not as important as the motion
held in the air
pausing in its course.
To switch then
reverses the train
of a running line,
and as before
may wheel and address
to a new location
to be seen beneath.
This flying conversation
sets the scene
to a bell.

I have told more
than can be seen.
The bell makes its trick
more than an opera.
If you have seen the world from a ship
then you have not seen
what the ship lets fall into the sea
to blacken its top and make it grow.
To get out of this seaport
you must be a cutter of networks.

§

O que os bebês realmente fazem

Luz como a vida em que estou
Quem disse isso você disse eu disse
Comer não calha com prosa
Ou poesia, espaguete talvez

Janela afora um dia fresco e cinza de primavera
O chão não está molhado ainda
Algo salta & ata

Mães sempre muito específicas
Onças de libras, prata em prata
Na verdade eu não comeria moluscos com uma colher
É muito borrachoso

quando estou feliz amiúde um medo me assalta-
Não medo que a alegria acabe, mas medo que as circunstâncias
Além de meu controle e inesperadas se erguerão para me prevenir
De jamais sentir alegria de novo

Compraremos vestidos de Boston
Como a exaltação de uma fruta lacrada
Banana pura com a exaltação
Da tarde em sua pele

Rheingold kasha scoth kooler
Deixo pensamentos intermináveis passarem através
Como o arroz que parece um ventre
Não tenho minha própria voz

Então rapidamente termino o prazer
Do primeiro dia cinza que foi deveras
castanho no ar, muitas árvores
estalaram ao meio nesse inverno

Um grande bordo ameaça a casa
Com seu latido vazante, uma racha
Bem abaixo de um galho
Concordamos que cairá mas em que direção

Missangas de arroz estradas esburacas muitas coisas
Em minhas ideias, eu gosto d’O New Yorker
Onde poemas não tem ideias
Eu gosto dos bordos melosos perdendo galhos sobre mim

A estrada marrom é ok, cheiro de bananas
Pássaros são bons, você vive dentro deles
Achamos seu deslize você deveria ver minha vista
Você se esqueceu de me lembrar de não tomar outra cerveja

É uma tarde interminável, se recusa a chover
Encho minha boca com a fumaça tipo-Dashiell-Hammett
Se recusa em ser consistente
Como há ingredientes por tudo

& mais galhos, pernas de cadeiras
& mais farinha, fico bem com a comida
Atum tempero Kasha Varnishkas
Cento e um filés

Não apenas pão escuro
Mas pão escuro com passas
Você pede mais que cinco libras de laranjas
Carrego um fardo atrás do meu jeep ou guardo

Sementes de girassol para substituir a vista de uma
vida como ela é
Os galhos cinzentos não se moverão
A não ser que o vento os sopre

Ela se movimenta como de costume à melodia
É um luxo ficar dentro
Não terminei de
Cantar bem alto

Escute, grasne grasne
Broo ah ha ha
Pensamentos desfiam
Corra atrás dela

O sol ganhou a borda do vento é frio dois três
Nada além de poesia
Ah ha escuto

What babies really do

Light like the life I’m in
Who said that did you say that did I
Eating doesn’t go with prose
Or poetry, spaghetti maybe

Out a window cool spring gray day
With only tips of trees in buds
The ground’s not wet yet
Something leaps & bounds

Mothers always too specific
Ounces of pounds, silver on silver
I wouldn’t actually wat a clam with a spoon
It’s too rubbery

Often when I’m happy a fear comes over me-
Not fear that the joy will end, but fear that circumstances
Beyond my control and unexpected will arise to prevent me
From ever feeling joy again

We’ll get dresses from Boston
Like the elation of a sealed fruit
Pure banana with the elation
Of the afternoon in its skin

Rheingold kasha scotch kooler
I let endless thoughts go by in between
Like the rice that looks like a belly
I don’t have my own voice

So I quickly end the pleasure
Of the first gray day that was truly
Brown in the air, many trees
Have snapped in half this winter

One big maple threatens the house
With its leaking bark, a crack
Right down the side of an arm of it
We agree it’ll fall but in what direction

Rice beads rutted road too many things
In my ideias, I like The New Yorker
Where the poems have no ideas
I like the gray sappy maples losing their branches over me

The brown road’s ok, smell of bananas
Birds are good, you live inside them
We found your slip you should see my view
You forgot to remind me not to have another beer

It’s an endless afternoon, it refuses to rain
I fill up my mouth with Dashiell-Hammett-type smoke
It refuses to be consistent
As there are ingridients all over

& more branches, chair legs
& more flour, I sit with the food
Tuna temper kasha varnishkas
A hundred and one fillets

Not just brown bread
But brown bread with raisins
You order more that five lbs of oranges
I carry a crate in the back of my jeep or keep

Sunflower kernels to replace the sight of one
Life like it is
The gray branches wont move
Unless wind blows them

She’s in motion as usual to the tune
It’s a luxury to stay inside
I haven’t finished
Singing outloud

Listen, gaggle gaggle
broo ah ha ha
thoughts unravel
run after her

the sun won the edge of the wind is cold two three
nothing much but poetry
ah ha I hear

§

Uma mulher eu misturo homens…

Uma mulher eu misturo homens
Em meus sonhos & outras maneiras, imagino
Se isso é o mesmo que saber
O que é & não é socialismo, um homem tenho certeza

Faz a mesma coisa, misturando
A mãe pela amante ou
Vice versa sem mencionar as misturas
do poderoso homossexual que acontecem
tanto quanto, ó deus quem

deve ser ele ou ela, eu te pergunto
porque é David Lewis ou Lewis Ed?
Porque Anne Catherine ou Catherine Ted?
Porque não tenho ou não quero ter certeza
Levanto essas perguntas aos céus
Onde eu pude, como proposto por uma criança
Sentar em uma nuvem arriscando cair através
Deveria a criança saber a nuvem não é sólida
& deveria não trazer paraquedas, eu sinto

O risco tão grande em amar como é
Em votar & seu meu encontro com o amante mesmo
Nos sonhos essa outra mulher ou homem de seu próprio sexo
Parecem o jornal, muito previsível
Que tipos em que trajes irão aparecer
Fazendo o que em que posturas, ternos & poses, refazer

O mundo não é algo que as pessoas sonham o bastante, um
Não deveria usar a palavra sonho & um não deveria usar
As palavras deveria e não deveria, livrar-se do livro & não encontrar
Expectativas, compreender liberalismo não é
O mesmo que conservadorismo ou (deus me perdoe) misticismo, há
Manhã e há meio dia e há noite, há
Fases dessa lua factualmente atadas à terra

Dilacerar dicionários, eles ainda não
Contam a verdade, misturo palavras com verdade
E abstração com presença, quem liga
Sem forma quem eu sou, sei que vou em algum momento morrer
Mas vocês dois, deus e essa sua imagem a bomba nóia
Vivem para sempre a destruir o eterno o imortal
No que costumavam chamar Homem, não agora.

A woman I Mix Men Up…

A woman I mix men up
In my dreams & other ways, I wonder
If this is the same as knowing
What is & is not socialism, a man I’m sure

Does the same thing, mixing up
The mother for the lover or
Vice versa not to mention the mighty
Homosexual mix-ups which happen
Just as much, oh god whoever

He or she might be, I ask you
Why is David Lewis or Lewis Ed?
Why Anne Catherine or Catherine Ted?
Because I am not or don’t want to be sure
I raise these questions to the heavens
Wherein I might, as proposed by a child
Sit on a cloud risking falling through
Should the child know a cloud is not solid
& should she bring no parachute, I feel

The risk’s as great in loving as it is
In voting & your my lover’s meeting even in
Dreams this other woman or man of your own sex
Seems like the newspapers, all too predictable
What types in what outfits’ll appear
Doing what in what postures, suits & poses, to remake

The world is something not enough people dream of, one
Souldn’t use the word dream & one shouldn’t use
The words should and shouldn’t, cast off the book & find
No expectations, understanding liberalism’s not
the same as conservatism or (god forbid) mysticism, there is
morning and there is midday and there is night, there are
phases of this moon factually attached to the earth

scatter the dictionaries, they don’t
tell the truth yet, I mix up words with truth
and abstraction with presence, who cares
without a form who I am, I know I will timely die
but you two, God and this his image the Junky bomb
live forever to destroy the eternal the immortal
in what they used to call Man, now not.

§

Oito quarteirões

para Bill Kusher

Um vestido roxo bem bonitinho
Uma caixa de filmes coloridos
Um homem com flores para sua Outra, e então outra,
Mulheres europeias andando de braços dados
Quão sozinha estou nessa longa fila
Os policiais dizendo não é sensato ser
Uma mulherzinha de ética, ela suspira, eu gesticulo,
Ela diz, se você andar rápido você se cansa e se
Você andar devagar também, ela esquece eu esqueço
Os dedos elevados do sol nós cantamos
Em vozes justas para a virgem Sra. Kerchief-Cane
(recuar numa caminhada é ok) quem era aquele homem
Que sabia o que estava atrás de mim, agora vai chover,
Venta no paetê liso de um homem gordo
Há dois lados diferentes da rua
Entre eles há o trânsito da avenida
Na qual há quatro esquinas para se encontrar,
Cigarros franceses na janela árabe
Então a salvo na suada escola pública
Mas mães e pais estão muito adiantados
Em resgatar cada bebê de um dia de rigidez
Pais em massa como se num desastre e escondidos nos degraus
Espiam na janela da porta trancada da sala
Eis aquela mulher que vi esta manhã
Levando seus cigarros como um buquê de casamento

Eight blocks

For Bill Kushner

A very nice little purple dress
A box of colored film cans
A man with flowers for his Other, then another,
European women walking ar in arm
How lonely I am in this long line
Cops saying it’s not sensible to be
Pretty women of ethics, she sighs, I gesture,
She says, if you walk fast you get tired and if
You walk slow you still do, she forgot I forgot
The elevated fingers of the sun we sang
In just voices to virgin Mrs. Kerchief-Cane
(to backtrack on a walk’s ok) who was that man
Who knew what was behind me, now it’s gonna rain,
Wind on the fat man’s flat sequins
There are two different sides of the street
Between them is the traffic of the avenue
There are four corners on which to meet,
French cigarettes in the Arabian window
Then safe in the sweaty public school
But mothers and fathers are too early
To rescue each baby from a day of rigidity
Parents mass as at disasters and hide on steps
They peek in the window of the locked room’s door
There’s that woman I saw this morning
Carrying her cigarretes like a wedding bouquet

§

O fenômeno do caos

O amor hoje não está intento o que eu vi
Um banco, uma loja, padrões de folhas
Caindo na quadra de basquete porque
A chuva seguiu a fumaça do incêndio de onze estados

A sair do universo você poderia
Acreditar nada está conferido
Mas nós não exatamente existimos não é
Caso contrário como poderíamos

Será que você me ama quando o sol da terra
Se põe em sua canção em sua língua
Isso é ridículo o universo
Não é mais uniforme

Com isso quero dizer o universo nem é ou não é
Um padrão de nada o amor não volta mais

The Phenomenon of chaos

Love’s not intente today what did I see
A bank, a store, a pattern of leaves
Fallen to the basketball court because
Rain followed the smoke of eleven states’ fires

To exit from the universe you could
Believe nothing is checked on
But we don’t exactly exist do we
Otherwise how could we

Do you love me when the earth’s sun
Sets on your song on your tongue
This is ridiculous the universe
Is no longer uniform

By this we mean the universe’s not or aint
A standard of nothing love’s turning no more

§

Catulo #48

Eu beijaria seus olhos trezentas mil vezes
Se você me deixasse, Juventius, beijá-los
O tempo todo, seus olhos queridos, olhos de mel
E mesmo que o campo formal do beijo
Tivesse mais beijos do que há milhos nos campos de agosto
Eu ainda não teria me cansado de você

Catullus #48

I’d kiss your eyes three hundred Thousand times
If you would let me, Juventius, kiss them
All the time, your darling eyes, eyes of honey
And even if the formal field of kissing
Had more kisses than there’s corn in August’s fields
I still wouldn’t have had enough of you

§

Soneto do manicatriardo

Não sou nada a não ser uma lista de coisas a fazer
Isso não é etcetera ou chuva reta também não
Acho que fiz as coisas que podem ajudar os outros
Por Marie por Danine por Wanda pelos escritores de sci-fi
Comecei a escrever a carta sobre meu novo livro de caretas
Então parei, mãe, pra ver se você estava por perto
Apenas enganando seu preventivo de toda minha moção
Mas eu fiz mesmo assim então quer ver uma enorme arvore imóvel
Absenta das historias de sci-fi sobre dignidade
A maneira que garotas podem falar sem contar
Com uma temível seita do absoluto que ninguém aprovaria
Especialmente meus pais fanáticos que poderiam amá-la

Falem garotas falem noite adentro
Talvez haja um segundo que rime com desastre

Manicatriarchic sonnet

I am nothing but a list of things to do
This is not etcetera or red umbrella either
I think i did the things that might help others
for Marie for Danine for Wanda for the scifi writers
I started to write the letter about my new book of frowns
And the I stopped, mother, to see if you were around
Only fooling your preventer of all my motion
I did though then want to see a big immobile tree
Absent from the scifi histories of dignity
The way girls can talk without counting in
Some fearsome sect. Of the absolute no one’d aprove of
Especially my bigoted parentes who could love them

Talk girls talk on into the night
There might be a second that rhymes with disaster

§

América

Quanto a mim, quando te vi
Estavas num conto
Pensando talvez o amor também virá
Na América
Ou talvez como o que é tardio em um conto
Se torna verdade,
A cena está simplesmente descrevendo seu uso.

Você não tinha esperança
Mas a amplidão dos dias, como no céu
Sobre o qual eu já sabia.

Essa informação delicada
Vem como uma prescrição.

Notar um amigo
Que está escrevendo uma nuvem
Que caso contrário cai indiferentemente
Não é traço distintivo.
Essa é a diferença
Entre o passado e sonhos,
Descartar uma efígie
Que parece estar cantando.

America

As for me, when I saw you
You were in a tale
Thinking perhaps love is coming too
In America
Or perhaps as what is belated in a tale
May come true.
The scene is simply describing its use.

You had no hope
But the length of days, as in the sky
About which I already knew.

This gentle information
Comes as a prescription.

To notice a friend
Who is lettering a cloud
Which otherwise falls indifferently
Is no mark of distinction.
This is the difference
Between the past and dreams,
To dismiss an effigy
Which appears to be singing.

(trad. de Stefano Calgaro)

Padrão
tradução

3 traduções para o ‘task of the translator’ da Antigonick, de Anne Carson

a2536257580_10

parece evidente afirmarmos que as fronteiras entre tradução, reescrita, adaptação e performance são de difícil estabelecimento, parecendo não haver critérios conceitualmente muito sólidos que distingam essas duas atividades além de perspectivas um tanto quanto subjetivas que as delimitam; sobretudo quando tratamos de peças teatrais que parecem figurar no limiar entre meros textos literários, pra nós, e acontecimentos espetaculares, rituais, jogos (os ludi), pros romanos and gregos, por exemplo.

na história das artes, esse processo de adaptação/tradução/reescrita do imaginário greco-latino sempre ficou ali colado na gente. os mitos e narrativas literárias que vieram da tal antiguidade clássica figuraram como uma fonte inesgotável pra a criação artística em todas as épocas. no teatro contemporâneo, por exemplo, é possível perceber um crescimento, nas últimas décadas, do interesse de dramaturgos e encenadores pelos mitos e textos gregos e romanos, e diversos estudiosos vêm analisando as relações entre a cena contemporânea e esse imaginário. esses enredos têm se mostrado um importante elemento pra criação poética, teatral e política das últimas décadas e alguns dos principais encenadores do período têm dialogado com esse universo.

no caso específico de anne carson, por exemplo, poeta fortemente influenciada pela literatura grega antiga e de sua peça antigonick (2012), a irresolução sobre o caráter do texto (tradução? reescrita? adaptação?) e a performance, centrada no corpo (estático) e na voz (monótona) (clique aqui), buscam recuperar a dimensão ritual das práticas teatrais e performáticas. o pathos trágico é recuperado na medida em que a performance evidencia “a imagem da mulher e mesmo a identidade de ‘gênero’ como uma construção que projeta o olhar masculino”, como bem disse hans lehmann. ou seja, quando o coro – essa entidade tão problemática – se manifesta no corpo e na voz de carson, ainda que sem a recuperação dos rituais de canto e dança, é possível perceber o contínuo drama social feminino, que tem sua fonte direta no incessante conflito das estruturas sociais.

portanto, é a partir dessa relação dialética mutável em que o presente não cessa de lançar luz sobre o passado que se funda a tradição e, consequentemente, o mito – e, com isso, a história das reescritas. a própria poesia romana, com os conceitos de aemulatio, imitatio e contaminatio, já mantinha uma forte relação dialética com a tradição, e no teatro romano os textos produzidos para os festivais públicos, chamados ludi scaenici (“jogos cênicos”, literalmente), que vigoraram por volta de 240 a.C. até a morte de terêncio em 159 a.C., tinham todos como modelo uma ou mais peças gregas.

o ato de verter (a uertit plautina), desse modo, opera um tipo de metamorfose no texto. muda radicalmente a forma, faz algo que, na aparência, resulta totalmente “outro” em comparação ao que era antes. essas traduções, portanto, tratam-se na verdade de relações ativas com a exterioridade, de “adaptações” e “apropriações” da tradição que possuem a capacidade de interferir politicamente no presente. isso equivale a dizer que as peças apropriadas passam a falar mais sobre quem as verteu ao bárbaro e ao tempo em que estão sendo encenadas do que sobre os próprios modelos originais. e o riso e a comiseração sobre o outro tornam-se o riso e a comiseração sobre nós mesmos. sobre os nossos modelos, sobre o nosso tempo e sobre as nossas falhas.

sem mais, passemos às três apropriações.

 

sergio maciel

* * *

the task of the translator of antigone

dear Antigone:
your name in Greek means something like “against birth” or “instead of being born”
what is there instead of being born?
it’s not that we want to understand everything
or even to understand anything
we want to understand something else

I keep returning to Brecht
who made you do the whole play with a door strapped to your back
a door can have diverse meanings
I stand outside your door
the odd thing is, you stand outside your door too

that door has no inside
or if it has an inside, you are the one person who cannot enter it
for the family who lives there, things have gone irretrievably wrong
to have a father who is also your brother
means having a mother who is your grandmother

a sister who is both your nice and your aunt
and another brother you love so much you want to lie down with him
“thigh to thigh in the grave”
or so you say glancingly early in the play
but no one mentions it again afterwards

oh you always exaggerate! my father use to tell me
and let’s footnote here Hegel calling Woman “the eternal irony of the community”
how seriouly can we take you?
are you “Antigone between two deaths” as Lacan puts it
or a parody of Kreon’s law and Kreon’s language – so Judith Butler

who also finds in you “the occasion for a new field of the human”?
then again, “an exemplar of masculine intellect and moral sense”
is George Eliot’s judgment, while to several moderno scholars you
(perhaps predictably)
sound like a terrorist

and Žižek compares you triumphantly with Tito
the leader of Yugoslavia saying NO! to Stalin in 1942
speaking of the ’40s, you made a good impression on the Nazi high command
and simultaneously on the leaders of the French Resistance
when they all sat in the audience
of Jean Anouilh’s Antigone

opening night Paris 1944: I don’t know what color your eyes were
but I can imagine you rolling them now
let’s return to Brecht, maybe he got you best
to carry one’s own door will make a person
clumsy, tired and strange

on the other hand, it may come in useful
if you go places that don’t have an obvious way in, like normality
or an obvious way out, like the classic double bind
well that’s your problem
my problem is to get you and your problem
across into English from ancient Greek
all that lies hidden in these people, your people
crimes and horror and years together, a family, what we call a family
“one of my earliest memories,” wrote John Ashbery in New York magazine 1980,
“is trying to peel off the wallpaper in my room,
not out of animosity
but because it seemed there must be something fascinating

behind its galleons and globes and telecospes”
this reminds me of Samuel Beckett who described in a letter
his own aspirations toward the language
“to bore hole after hole in it until what cowers behind it seeps through”
dear Antigone: you also are someone keeping faith

with a deeply other organization that lies just beneath what we see or what we say
to quote Kreon you are autonomos
a word made up of autos “self” and nomos “law”
autonomy sounds like a kind of freedom
but you aren’t interested in freedom
your plan

is to sew yourself into your own shroud using the tiniest of stitches
how to translate this?
I take inspiration from John Cage who, when asked
how he composed 4’33”, answered
“I built it up gradually out of many small pieces of silence”
Antigone, you do not,

any more than John Cage, aspire to a condition of silence
you want us to listen to the sound of what happens
when everything normal/ musical/ careful/ conventional or pious is taken away
oh sister and daughter of Oidipous,
who can be innocent in dealing with you
there was never a blank slate

we were always already anxious about you
perhaps you know that Ingeborg Bachmann poem
from the last years of her life that begins
“I lose my screams”
dear Antigone,
I take it as the task of the translator
to forbid that you should ever lose your screams

 

a tarefa do tradutor de antígona (tradução buana)

antígona, mulher:
em grego teu nome significa algo tipo “contra o nascer” ou “ao contrário de nascer”
mas o que existe ao invés de nascer?
não que a gente queira entender tudo
ou mesmo entender alguma coisa
a gente quer entender uma outra coisa

eu fico voltando pra brecht
que te fez passar a peça toda com uma porta colada nas costas
uma porta tem vários significados
eu fico parada diante dessa porta
e o estranho é, tu fica do lado de fora da tua porta também

a porta não tem parte de dentro
ou se tiver, tu és a pessoa que não pode entrar
porque pra família que vive lá, as coisas deram bem errado
ter um pai que é também teu irmão
significa ter uma mãe que é tua avó

uma irmã que é ao mermo tempo tua sobrinha e tua tia
e um outro irmão que tu ama tanto que tu quer pegar ele
“coxa com coxa na cova”
ou ao menos você diz que quer, bem no comecinho da peça
mas ninguém fala disso de novo, depois

e como tu sempre exagera! meu pai me dizia
e aqui bora enfiar uma nota de hegel chamando a mulher de “a eterna piada da comunidade”
quão a sério a gente pode te levar?
tu és “antígona entre duas mortes” como lacan diz
ou uma paródia da lei e da língua de kreon — tão judith butler

que inclusive encontra em você “a ocasião para um novo campo do humano”?
e mermo assim, “um exemplo de intelecto masculino e senso moral”
é o julgamento de george eliot, enquanto que para vários estudiosos você
(talvez previsivelmente)
soa como uma terrorista

e zizek te compara afetadamente com tito
o líder iuguslavo que disse não! pra stálin em 1942
falando nisso, tu causasse uma boa impressão no alto comando nazista
e ao mesmo tempo entre os líderes da resistência francesa
quando eles todos se sentaram na plateia
da antígona de jean anouilh

noite de estreia paris 1944: eu não sei a cor dos teus olhos
mas posso imaginar tu girando eles com tédio
bora voltar pra brecht, talvez ele tenha sido o que melhor te entendeu
carregar a própria porta faz de alguém
um sujeito desastrado, cansado e estranho

por outro lado, pode ser proveitoso
se tu for para lugares que não têm uma entrada óbvia, tipo a normalidade
ou uma saída óbvia, tipo síndrome de estocolmo
bom problema teu
meu problema é entender tu e teu problema
cruzando do grego antigo para o inglês
tudo que se mantém escondido nesse povo, teu povo
crimes e horrores e anos tudo misturado, uma família, ou o que chamamos de família
“uma das minhas primeiras memórias”, escreveu john ashbery na new york magazine em 1980,
“é eu tentando descascar o papel de parede do meu quarto,
não porque tivesse irritado
mas porque parecia haver algo fascinante

atrás daqueles navios e planetas e telescópios”
isso me lembra samuel beckett que mais tarde descreveu
suas aspirações em relação à língua
“cavar um buraco atrás do outro, até que aquilo que se esconde escorra pelo furo”
antígona, mulher: tu também és alguém de fé

com uma organização profundamente própria que se encontra logo abaixo daquilo que a gente vê ou diz
para citar kreon, tu és autônoma
uma palavra feita de autos (o self) e nomos (a lei)
autonomia soa como um tipo de liberdade
teu plano

“é costurar tu mesma na tua própria mortalha usando a linha mais fina”
como traduzir isso?
eu me inspiro em john cage que, quando perguntado
como ele compôs 4’33”, disse
“eu fiz gradualmente juntando muitos pedacinhos de silêncio”
antígona, tu não aspira,

mais do que john cage, a uma condição de silêncio
tu queres é que a gente escute o som dos acontecimentos
quando tudo que for normal/musical/cauteloso/convencional ou piedoso nos for tirado
ai, irmã e filha de édipo
quem é que pode ser inocente ao dar rolê contigo?
nunca houve uma tábula rasa

a gente sempre ficou passado com a senhora
talvez tu conheça aquele poema de ingeborg bachmann
dos fim da vida dela que começa
“perdi meus gritos”
antígona, mulher,
eu tomo como a tarefa do tradutor a seguinte:
fazer com que tu nunca perca teus gritos

(trad. adelaide ivánova)

a tarefa de quem traduz antígona

cara Antígona:
seu nome em grego significa algo como “contra a progenitura” ou “em vez de nascer”
que existirá em vez de nascer?
não que desejemos compreender tudo
ou mesmo compreender alguma coisa
desejamos compreender algo mais

torno sempre ao Brecht
que fez você atravessar a peça inteira com uma porta amarrada às costas
uma porta pode comportar diversos significados
posto-me do lado de fora de sua porta
o estranho é que você também se acha postada do lado de fora de sua porta

a porta não tem um lado de dentro
ou, caso o tenha, é você a única pessoa que não pode adentrá-lo
para a família que reside lá as coisas resultaram irrevogavelmente más
ter um pai que é também seu irmão
significa ter uma mãe que é também sua avó

uma irmã tão sobrinha quanto tia
e um outro irmão que você ama a ponto de querer deitar-se com ele
“na cova coxa contra coxa”
pelo menos é o que diz de relance no início da peça
mas ninguém o menciona depois

ora você sempre exagerando! costumava dizer o meu pai
e aqui convocamos Hegel em nota de rodapé chamando a Mulher de “eterna ironia da comunidade”
até que ponto devemos levá-la a sério?
será você “Antígona entre duas mortes” tal como o quis Lacan
ou uma paródia da lei de Kreonte e da linguagem de Kreonte – conforme Judith Butler

que também lhe descobre “ocasião para um novo campo do humano”?
no entretanto, “um exemplo de intelecto masculino e senso moral”
é o juízo de George Eliot, ao passo que para diversos acadêmicos contemporâneos você
(previsivelmente, talvez)
soa como uma terrorista

e Zizek a compara triunfantemente a Tito
líder da Iugoslávia dizendo NÃO! a Stalin em 1942
falando dos anos 1940, que boa impressão causou você junto ao alto comando nazi
e simultaneamente aos líderes da Resistência Francesa
quando sentaram-se todos na plateia
aquando da estreia da Antígona

de Anouilh Paris 1944: não sei de que cor eram seus olhos
mas posso imaginá-la revirando-os agora
voltemos a Brecht, talvez ele tenha sido o que melhor a compreendeu
carregar a própria porta tornará uma pessoa
desastrada, cansada e estranha

por outro lado, pode resultar útil
se se vai a lugares que não têm entrada óbvia, como a normalidade
ou uma saída óbvia, como o clássico impasse
bom eis aí o seu problema
o meu problema é transportar a você e a seu problema
até o Inglês do Grego Antigo
tudo o que jaz oculto nestas pessoas, os seus
crimes horror anos conjuntos, uma família, aquilo a que nomeamos família
“uma das minhas primeiras memórias”, escreveu John Asbhery 1980 na revista New York
“é de tentar arrancar o papel de parede do meu quarto
não por animosidade
mas porque me parecia que devia haver algo fascinante

atrás de seus galeões e globos e telescópios”
isto me lembra o Samuel Beckett que descreveu em uma carta
sua própria aspiração no que concerne a linguagem
“abrir nela sucessivos buracos até que aquilo que se acovardava por detrás escorra para fora”
cara Antígona: você é também alguém que mantém a fé

com uma organização profundamente outra que subjaz ao que vemos ou dizemos, bem no limite
citando Kreonte você é autônoma
palavra composta de autos “eu” e nomos “lei”
autonomia soa como uma espécie de liberdade
mas não é a liberdade que a interessa
seu plano

é costurar a si em sua própria mortalha usando o menor dos pontos
como traduzi-lo?
extraio inspiração de John Cage, o qual, quando lhe perguntaram
como havia composto o 4’33”, respondeu
“Eu o construí gradualmente usando muitos pequenos pedaços de silêncio”
Antígona, você não,

não mais que John Cage, aspira a uma condição de silêncio
você quer que escutemos o som do que se passa
quando tudo que é normal/musical/cuidadoso/convencional ou piedoso é eliminado
ó irmã e filha de Édipo
quem poderá ser inocente no trato consigo
nunca houve tábula rasa

sempre estivemos ansiosos de antemão a seu respeito
talvez conheça aquele poema de Ingeborg Bachmann
de seus últimos anos de vida que começa com
“Eu perco meus gritos”
cara Antígona
tomo como a tarefa de quem traduz
impedir que jamais perca os seus gritos

(trad. ismar tirelli neto)

 

a tarefa da tradutora de antígone

cara Antígone:
seu nome em grego quer dizer algo como “contra o nascimento” ou “ao invés de ter nascido”
o que existe ao invés de ter nascido?
não é que a gente queira entender tudo
ou mesmo entender alguma coisa
o que a gente quer é entender algo mais

estou sempre voltando ao Brecht
que botou você a peça inteira com uma porta amarrada nas costas
uma porta pode ter sentidos diversos
eu aqui fora da sua porta
engraçado é que você também está fora da sua porta

essa porta não tem lado de dentro
ou se tem um lado de dentro, você é a única que não pode entrar
pra família que mora ali, as coisas deram irremediavelmente mal
ter um pai que é seu irmão
é ter uma mãe que é sua avó

uma irmã que é sua sobrinha e é sua tia
e outro irmão que você ama tanto que você quer deitar com ele
“coxa com coxa na cova”
você que diz de relance lá no começo da peça
mas ninguém toca no assunto depois

ai você é uma exagerada! meu pai sempre me dizia
citemos Hegel em nota aqui chamando a Mulher de “eterna ironia da comunidade”
dá pra te levar a sério?
você é a “Antígone entre duas mortes”, como diz Lacan
ou uma paródia da lei de Kreon e da linguagem de Kreon – ouJudith Butler,

que também te encontra na “ocasião para um novo campo do humano”?
ou então “um exemplar do intelecto masculino e sentido moral”
é o julgamento de George Eliot, enquanto pra vários críticos contemporâneos você (meio previsivelmente)
soa meio terrorista

e o Žižek triunfante compara você com Tito
o líder iugoslavo dizendo NÃO! pro Stalin em 1942
falando nos anos 40, você causou boa impressão no alto escalão nazista
e ao mesmo tempo nos líderes da resistência francesa
quando eles sentaram juntos pra assistir
a Antigone de Jean Anouilh

noite de estreia, Paris 1944: não sei qual era a cor dos seus olhos
mas posso imaginar você rolando eles de tédio agora
vamos voltar pro Brecht então, ele foi quem te fez melhor
carregar a própria porta faz alguém ficar
esquisito, cansado, estranho

por outro lado, pode ser que seja útil
se você frequenta lugares sem uma entrada óbvia, como a normalidade
ou uma saída óbvia, como o clássico double bind
bom, isso é problema seu
o meu problema é trazer você e o seu problema
pro inglês do grego antigo
tudo que se esconde nesse povo, o seu povo
horror e crimes e tantos anos juntos, uma família, o que nós chamamos de família
“uma de minhas memórias mais remotas”, escreveu John Ashbery na revista New York em 1980,
“é a de tentar descascar o papel de parede no meu quarto,
não por animosidade
mas porque parecia que devia ter alguma coisa fascinante
atrás dos globos, galeões e telescópios”
isso me lembra Samuel Beckett que descreveu numa carta
suas próprias aspirações quanto à linguagem
“gastar lacuna após lacuna até que vaze tudo aquilo que estiver acuado detrás dela”
cara Antígone: você também é alguém que mantém a fé

com uma organização profundamente outra que subjaz o que vemos e o que falamos
citando Kreon, você é autonomos
palavra composta de autos, “própria”, e nomos, “lei”
autonomia soa como uma certa liberdade
mas você não está interessada em liberdade
seu plano

é se costurar em sua própria mortalha com os pontos mais diminutos
como traduzir isso?
eu me inspiro em John Cage que, quando perguntado
sobre como ele compôs 4’33”, respondeu
“Eu construí essa música com muitos pedacinhos de silêncio”
Antígone, você não

não mais que John Cage, aspira a uma condição de silêncio
você quer que escutemos o som do que acontece
quando tudo que é normal/musical/cuidadoso/convencional ou pio é levado embora
ó irmã e filha de Oidipous,
quem pode ser inocente ao lidar com você
nunca houve uma tabula rasa

nós sempre estivemos ansiosos por causa de você
talvez você conheça aquele poema de Ingeborg Bachmann
dos últimos anos da vida dela que começa
“perdi meus gritos”
cara Antígone,
considero a tarefa do tradutor
não deixar você jamais perder seus gritos

(trad. rodrigo tadeu gonçalves)

Padrão
poesia

Um poema inédito de Tatiana Faia (1986-)

1438851010160

Tatiana Faia (Portugal, 1986) vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). Com José Pedro Moreira e André Simões editou a revista Ítaca: Cadernos de Ideias, Textos & Imagens (2009-2011). Actualmente é editora, com José Pedro Moreira,  Paulo Rodrigues Ferreira e Victor Gonçalves, da Enfermaria 6. É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013) e de um livro de contos, São Luís dos Portugueses em Chamas (2016). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.  

três visões do paraíso terrestre

1.

entretenho os hábitos dos culpados
como acordar a meio da noite
distrair-me com a chuva contra as janelas
a despontar das árvores
toda a minha atenção no escuro prepara
a inundação de uma visita inesperada

e ninguém em nenhuma destas casas quer saber de espanha
ou vai ser surpreendido por uma morte de sede
ou aceitará um convite para jogar
xadrez às quatro das manhã
nenhum dos habitantes deste bairro
se há-de levantar das suas camas
a meio da noite surpreendido
por coisas que os sonhos sugerem

os meus vizinhos são este tipo de pessoas
cantam na igreja ao domingo
contam as horas de sono que lhes restam a cada noite
acordam alguns minutos antes do despertador tocar
dormem muito e quando sonham
escapa-lhes que se tornaram alheios
a todo um tipo de complicações noturnas

como mulheres solitárias
em estações de comboios desertas
homens que viajam com malas vazias
que chegam a um destino qualquer que não era o seu
e se sentem estranhamente alegres
com a companhia de estranhos
gente que chega a meio
da noite a cidades desconhecidas
e se hospeda numa pensão barata

ninguém aqui alguma vez dirá que das decisões a tomar
muitas serão sempre entre duas coisas erradas
e não é provável que o resultado final seja feliz
dormem tranquilamente nas casas ao longo da estrada
são jovens e bonitos vestem-se com cuidado
gravatas cor de vinho camisas brancas casacos castanhos
as calças um pouco curtas para deixar cintilar
a possibilidade daquela escolha de peúgas ser uma provocação
a mais perigosa provocação de que seriam capazes
nas suas afirmações mais categóricas
dão o dito pelo não dito

e a mim o que me trouxe até aqui
examino as possibilidades deixadas
em aberto por alguns fragmentos
pelo lixo da memória com um cuidado
inútil arquivado em caixas
isto não é nem o melhor nem o pior
de tudo o que podia ter acontecido
é apenas o suportável

e espero pelo poeta que procure
a estátua que se afogou na sua juventude

que amor prendeu estes homens às coisas às casas
tanto que fazem o seu trabalho
e preparam com cuidado
a banalidade de regressos quotidianos
caminhando para dentro e fora de si
como setas procuram os seus alvos

que outro eco ainda podiam
as suas sombras ter prolongado
estendem as mãos para fontes distantes
desconhecem a força da água que delas
corre e de onde emana e não querem saber
desejam beber mas se trazidos até junto delas
se confrontados com o rumor da água
na pedra as suas mãos afrouxam
afinal preferem não beber

como toleraste isto tu?
rodeou-te um cuidado e outro cuidado
seguiste preso à mão que agarrou a tua no escuro
estiveste em jardins que outros
antes de ti ensaiaram
uma maçã e outra e outra
corta o escuro até já não teres
mentira nenhuma a dizer
limpas o suor das mãos à saia
a tua cabeça repousa perto do tronco
raios de luz cortam pela obscuridade das copas
suspendem as aranhas no seu trabalho

o mundo das coisas amadas
não é complicado
mãos construíram muros
e plantaram jardins dentro dos muros e deram-te
as chaves para que pudesses ir e voltar
sem horas certas como e quando quisesses
isto era então o teu poder
e quando te rodearam
em subúrbios fora do limite das cidades
disseste
nas vossas casas
vocês podem dizer-me o que quiserem

os amigos que restam
os que sobrevivem à peste
juntam-se em jardins
pedem que se fechem os portões
as vozes começam por ordem
uma a seguir à outra a seguir à outra
o que se extingue dá lugar
ao que se segue

se levamos uma vida segundo
o que não pode ser dispensado
podia então ser
este jardim fechado no meio do nada
o embalo de vozes familiares
histórias laboriosamente transportadas
de sopro em sopro até se entranharem no sangue

2.

um homem não perde uma cabeça
por esta poder ser cortada
pelo cálice de uma flor

um homem perde a cabeça mesmo se
o seu nome continua a ser o seu nome
e não um rio gelado
a apagar-se dos percursos da infância
onde os barcos se colam às pontes
se perdem na letargia azulada dos caminhos
e assomam em noites que podem durar uma estação inteira
e eu não tenha falhado o encontro
para assistir à ausência daqueles que tenho amado

partidas definitivas todos os dias interrompem
os amigos mais próximos entram pela sua fala
e ela deixa ver a profundidade que se abre a partir de dentro
e inunda os timbres das vozes até elas
se afundarem numa linha que cai em más ligações
e o regresso que daí virá é ainda uma flor desconhecida
de uma estação demasiado tarde, demasiado longe
um pedido que não pode ser feito porque ninguém
existe apenas para te salvar de estar vivo
e o medo da solidão precisa de ser alimentado
todos os dias um pouco para que como um medíocre
não julgues que ganhaste o amor cego dos outros

e este regresso pode bem ser a tatuagem
que não receberás mais tarde
a cara que ainda não mereceste
onde o teu amor falhou era preciso
mais peso mais força uma coragem cega
ou alguém que soubesse como é
falar mais alto
ocupar cada palavra inteiramente

3.

não te demores em livrarias
especialmente nas secções de livros de viagens
não reserves um pouco dos dias para esse silêncio
nessa água rasa nenhuma frase que leias ficará contigo
nenhuma fotografia de lugar nenhum
voltará mais tarde como se fosse uma memória tua
e mesmo aqui não és tu é outra mulher
que suspira impacientemente entre ti
e os países que ocupam a secção entre o d e o i

e não te ponhas a explicar-te que te demoras
por sentimentalidade
que na mais utilitária das secções desta livraria
pessoas procuraram mapas
para caminhos onde esperaram perder-se
desertos onde se morre de calor
latitudes polares onde ninguém imaginaria viver
ilhas imaginárias onde crescem folhas
que se mastigadas te deixariam esqueceres-te de ti

não interrompas os outros na utilidade das suas rotinas
ao empregado de escritório perdoa-se que deixe o emprego
mais cedo para levar a mulher a jantar
a um restaurante suburbano qualquer
ou para frequentar centros comerciais
mas nunca o escapulir-se para ler kafka na biblioteca

aceita que tudo
pode ser perdido realmente
que o que perdeste agora não é um adiamento
algo a que poderás voltar mais tarde
alguma coisa morre em cada pausa
e essa é a única aprendizagem

e não regresses não venhas aqui demorar-te
não imagines que as caras vão ser familiares
que o cheiro a humidade e madeira velha
não foi aquilo que esqueceste
tu não te lembras de nada
nem o que ficou à superfície dos cadernos
é testemunha disto
é outro cheiro são outros rostos
os que agora levantam para ti o olhar
e nunca te vão ver como outros te viram
nos lugares que foram os teus

aprende que o que perdes é a única força
com que o futuro te visita
e quando chegar não sejas hipócrita
não o confundas com esperança nenhuma
convence-te de que não é a ti
que vais encontrar do outro lado
que os teus amantes não te esperaram
que os teus amigos te esquecem um pouco a cada dia
que quando regressas não és tu que regressas
não é de ti que eles estão à espera

convence-te de que nada vai voltar a ser o que foi
nem que voltes mil vezes aos mesmos lugares
nem que te sentes nas mesmas cadeiras
nas mesmas posições às mesmas horas
nem que implores os mesmos pensamentos
os que partem não perdoam
os que partem não são perdoados

e continuam a avançar sempre e não se perturbam
comboios continuam a percorrer em círculos
linhas que mudam a cada estação
é outra cidade a mesma que te devora a cada dia
e nem que implores com o medo estampado
no olhar inoportuno lançado ao homem do relógio
come o relógio e não te procures nos mesmos lugares
aprende que ao partires o que se parte não será renovado
o que te foi dado uma vez e desperdiçaste
não voltará a ser-te confiado

e ao subires as escadas
encaminhando-te para a saída reconhece
que é insuportável a fome subserviente
que sustenta os anjos nos vitrais
a obediência febril que leva gente
a impor sobre gente a vantagem da sua autoridade
mesmo se um deles te estende a mão
e um dedo gelado pousa sobre os teus lábios
tu não estás vivo no que eles tocam
e não vai haver em mim gabriel
silêncio que chegue
nunca houve
e mesmo o sopro
é uma antecipação do toque da trombeta
todos os dias
de sonhos que não cabem dentro de um corpo
e se acalmam só por um pouco
porque a intervalos algumas coisas nos permitem
deixar de existir
permitem a ocupação temporária de outros corpos
permitem que a consciência se anule
e volte como certos elos numa sequência de música
que uma mão deixou para trás há séculos
e só isto explica
que possamos pertencer a tempos onde nunca existimos
e eu sei que a minha vida nesta cidade
ocupou todo o tempo e todo o espaço
e tudo nela foi mesmo meu

e não regresso procuro o teu nome em cidades
que não foram construídas para o meu assalto
delas talvez um pouco se perca a cada regresso
e sei que é impertinente o meu cerco
os meus anjos não se preocupam gabriel
eles não te procuram não apertam as mãos
daqueles que não amam
eles são tão literais que se vestem de vermelho
procuram as sombras dos jardins ao entardecer
e murmuram com os mortais mexericos incoerentes

nunca adormecem com as cabeças entre flores
só porque estão certos de que delas será
sempre esse florescimento inesperado

Padrão
poesia, tradução

Mostra: Del Triángulo de las Bermudas a Lisboa, por Sandra Santos

asas

foto de Alison Scarpulla

Apresentamos aqui uma breve mostra poética da antologia “Del Triángulo de la Bermudas a Lisboa: 18 poetas puertorriqueños” que preparou o poeta porto-riquenho Jonatán Reyes com a tradução portuguesa da poeta e tradutora Sandra Santos e um excerto do prólogo de Pedro Arturo Estrada.

“Del Triángulo de las Bermudas a Lisboa”, sugere um encontro intercultural tão significativo quanto belo: o nosso Caribe dialoga, se enlaça mais além do Atlântico, ao sonhador e nostálgico Portugal, irmão antigo de navegações sem fim, na geografia de um espírito comum, na afinidade profunda que inclusivamente no sangue se reconhece, e na qual é possível a recomposição de uma poiesis original, um reencontro de memórias, de almas, de raízes.

[“Del Triángulo de las Bermudas a Lisboa”, sugiere un encuentro intercultural tan significativo como bello: el Caribe nuestro dialoga, se abraza allende el Atlántico, al soñador y nostálgico Portugal, hermano mayor de navegaciones sin fin, en la geografía de un espíritu común, en la afinidad profunda que incluso desde la sangre se reconoce, y en la que es posible la recomposición de una poiesis original, un reencuentro de memorias, de almas, de raíces.]

-Pedro Arturo Estrada

 

* * *

Margarita Pintado

UN EFECTO DE MAR

Recorto la tarde.
Difumino opacidad.
Busco claridades, busco
Tramo de luz.

Te coloco dentro de un cuadrado
Azul.
Duermes. Agito los colores del cielo.
Teorizo: nubes, posibles truenos,
Aguacero.

Todo llega tarde y sereno…
Fondo blanco, rastro azul
A lo lejos se crea

Un efecto de mar.

UM EFEITO DE MAR

Recorto a tarde.
Dissipo a opacidade.
Procuro a clareza, procuro
O rastro de luz.

Coloco-te dentro de um quadrado
Azul.
Dormes. Agito as cores do céu.
Teorizo: nuvens, possíveis trovões,
Aguaceiro.

Tudo chega tarde e sereno…
Fundo branco, rastro azul
Ao longe se cria

Um efeito de mar.

Margarita Pintado (Puerto Rico, 1981). Es poeta y crítica literaria. Es autora de los poemarios Ficción de Venado (2012) y Una muchacha que se parece a mí (2016; Premio de Poesía del Instituto de Cultura Puertorriqueña).

§

Johanny Vázquez Paz

CONSEJOS DE MI MADRE: EXTREMAUNCIÓN

Cuando te duela el pecho, mi’ja,
mete los dedos hasta el fondo
del pote de Vicks VapoRub,
y embadúrnate el cuello, la garganta, los senos,
en la cuevita detrás de las orejas,
y en la punta de la nariz, ponte un chin chin.
Pintarrajéate toda con esta crema milagrosa
hasta que estés bien protegida y guarecida
y no haya germen, ni mal de ojo ni mal de amores
que debilite tu fuerza y enmudezca tu voz.

Úntate Vicks donde el ramalazo te castigue,
donde la amargura te tuerza la sonrisa
y el disgusto te arrugue la frente.
Cuando la tos interrumpa tus palabras
y la fiebre dibuje espejismos en tus ojos.

Úntate Vicks en los golpes bajos de los falsos amigos,
en las manchas permanentes de las lágrimas
y las cicatrices que las despedidas dejan en la piel.
Cuando tambalees por los pies hinchados
y el estómago se te retuerza de verdades dolorosas.

Siente la energía de tu mano santa.
Huele el aroma del eucalipto entrando por la nariz,
el alcanfor y la menta perfumando el aire.
Sube la cabeza, engorda el pecho,
inhala fuerte y decidida,
descongestiona el camino obstruido,
desinfecta los pensamientos mordaces
y respira hondo y profundo,
hasta que olvides el dolor y la pena
igual que yo hago todos los días.

CONSELHOS DA MINHA MÃE: EXTREMA-UNÇÃO

Quando te doa o peito, minha filha,
mete os dedos até ao fundo
do frasco de Vicks VapoRub,
e unta o pescoço, a garganta, os orifícios,
na cova atrás das orelhas,
e na ponta do nariz, coloca um poucochinho.
Besunta-te toda com este creme milagroso
até que estejas bem protegida e sarada
e não haja gérmen, nem mau-olhado nem mal de amores
que debilite a tua força e emudeça a tua voz.

Unta-te com Vicks onde a dor te castigue,
onde a amargura te torça o sorriso
e o desgosto te enrugue o rosto.
Quando a tosse interrompa as tuas palavras
e a febre desenhe miragens nos teus olhos.

Unta-te com Vicks nos golpes baixos dos falsos amigos,
nas manchas permanentes das lágrimas
e nas cicatrizes que as despedidas deixam na pele.
Quando cambaleies por conta dos pés inchados
e o estômago se retorça de verdades dolorosas.

Sente a energia da tua mão santa.
Cheira o aroma de eucalipto entrando pelo nariz,
a cânfora e a menta perfumando o ar.
Ergue a cabeça, incha o peito,
inala forte e decidida,
descongestiona o caminho obstruído,
desinfecta os pensamentos mordazes
e respira fundo e profundo,
até que esqueças a dor e a pena
tal como eu faço todos os dias.

Johanny Vázquez Paz (San Juan, Puerto Rico). Entre sus libros se encuentran Sagrada familia (ganador del 2015 International Latino Book Award), Querido voyeur (Ediciones Torremozas, 2012) y Poemas callejeros/Streetwise Poems (Mayapple Press, 2007). Recibió el primer premio en poesía en el Concurso de Cuento y Poesía Consenso 2012 de la Universidad Northeastern Illinois.

§

Jonatán Reyes

MEMORABILIA

No me gusta la rima ni la melodía; no sé bailar
nací muy cansado como para salir bailando de la nada
pero puedo maniobrar mi caída al suelo
para disimular un ataque de nervios, de vida y de sol
un ataque de océano agravando la marea en mi sangre
(mientras en la lejanía) un mambo
dando tumbos a tropezones se le salen las frutas
y no soy nada, soy danza

Torpe me arrimo a esa calle rota
donde nacimos espuma, diáfanos
jugando a las escondidas y al exilio
donde las brujas invierten su magia para prender inciensos
y un jazz suena ebrio de madrugada hasta perder los colores
donde un perro Gran danés desordena todas sus manchas
con cadencia y rabia, y los relojes babean leche de sombra
y simulábamos ser felices
a media cuadra el mar agitando todos sus hechizos
llegando un otoño hallowinesco, de postal, disléxico
derramando la piel de las hojas
alborotando la diáspora de los atardeceres
alterando la alquimia del salitre y la nostalgia

La cena maldita del alba, donde están servidas las escenas
las azucenas decoradas de polvo
los fantasmas bebiendo del llanto amorfo de las piedras
cómplices de todo júbilo y de todo crimen
mientras organizan mi primer colapso
entre los acuerdos rotos del viento
la ravenala palpitando
(bombeando a machetazos la luz)
y entre la hojarasca desafiando la forma precisa de la belleza
no hemos vuelto a saber de nosotros

MEMORABILIA

Não gosto da rima nem da melodia; não sei dançar
nasci muito cansado para surgir dançando do nada
mas posso obrar a minha queda no chão
para dissimular um ataque de nervos, de vida e de sol
um ataque de oceano aumentando o fluxo no meu sangue
(enquanto na lonjura) um mambo
que aos tombos e tropeços faz derrubar as frutas
e não sou nada, sou dança

Inábil me apoio nessa rua triste
onde nascemos espuma, diáfanos
jogando às escondidas e ao exílio
onde as bruxas invertem a sua magia para atar incensos
e um jazz ecoa ébrio de madrugada até perder a cor
onde um dogue alemão mistura todas as suas manchas
com cadência e raiva, e os relógios expelem leite de sombra
e simulávamos ser felizes
a meia quadra o mar agitando todos os seus feitiços
chegando um outono hallowinesco, de postal, disléxico
derramando a pele das folhas
perturbando a diáspora dos entardeceres
alterando a alquimia do salitre e a nostalgia

A ceia maldita da alvorada, onde estão servidas as cenas
as açucenas decoradas de pó
os fantasmas bebendo do choro amorfo das pedras
cúmplices de todo o júbilo e de todo o crime
enquanto organizam o meu primeiro colapso
entre os acordos quebrados do vento
a ravenala palpitando
(bombeando a golpes a luz)
e entre a folhagem desafiando a forma precisa da beleza
não voltamos a saber de nós

Jonatán Reyes (San Juan, Puerto Rico, 1984). Poeta y editor. Ha publicado los libros Actias Luna (2013), Aduana (2014), y Sunny Sonata (2014). Fue finalista del III Premio Internacional de Poesía “Pilar Fernández Labrador”. Su poesía ha sido traducida al italiano y al griego.

§

Yarisa Colón

RECOJO ROJO

De todas de las hojas anchas y pequeñas de las recién
nacidas y las secas extraigo el color que alimenta el bastón de
las viejas

de toda la gráfica entintada y esparcida por la tierra de las
venas que corren hacia la fiesta de los latidos fibras y frutas
frescas saco el líquido oloroso que me monta alza eleva
enterrándome en las letras que no canjean agua por sed

de todas las vasijas elegidas por las cuevas de los códices del
alcohol y la madera de las carnes y del chorro entre las piernas
recojo rojo y me pinto los talones para subir la cuesta

porque del rojo soy hija del cuerpo sin orillas del encarnado
brillante que seduce y engendra la oscuridad con su candela.

REÚNO RUBOR

De todas as folhas grandes e pequenas das recém
nascidas e das secas extraio a cor que alimenta a bengala
das velhas

de toda a tipografia tingida e dispersa pela terra das
veias que correm para a festa dos latidos fibras e frutas
frescas retiro o líquido cheiroso que me sobe aumenta eleva
enterrando-me nas letras que não trocam a água pela sede

de todas as vasilhas eleitas pelas covas dos códices do
álcool e a madeira das carnes e do jacto entre as pernas
reúno rubor e pinto os calcanhares para subir a encosta

porque do rubor sou filha do corpo sem limites do encarnado
brilhante que seduz e engendra a escuridão com a sua candeia.

Yarisa Colón Torres (Puerto Rico). Poeta y amante del arte. Ha publicado los libros: Silencios, serie de libros acordeón (2011), Enredadera y colmillo (2010), Caja de voces (junto a Waleska Rivera, 2007), ¿Entrelínea o secuestro? y Sin cabeza para Atarraya Cartonera. Su trabajo ha sido presentado en Estados Unidos, Puerto Rico y Francia.

§

Azhar Amara

LA OSTRA 

tengo un rosario de perlas para contar las vidas que nos faltan
mis dedos se vuelven avenidas sin fondo
el tiempo se hiere las rodillas corriendo tras de ti
vas dejando una hilera de rosas muertas
como un niño en una boda que no entiende que es amar hasta la muerte
no sabe que la muerte se viste de blanco
déjame limpiar tus cielos grises
aceitar las viejas puertas que se quejan del sonido de tu risa
sé que tu almohada es razón para darlo todo
para soñarte dentro de mi vientre
como un pájaro sin alas
una criatura sin lengua
tu voz es la que invento
conspiro por ti
vas sintiendo cómo naces de nuevo
respiras el agua de mi placenta violeta
amarrado al hilo de mi ombligo
los ojos cerrados
yo solo miro lo que quieres ver del mundo
y me detengo por horas a mirar la luna vestida de negro
que no te haga nunca falta la lumbre cuando solo te tengas a ti
aunque me bebas a diario para sentirte vivo
vuelvo a contar mi rosario de perlas
se han ido los años como las horas
enroscada en las cenizas de ese último abril
me pregunto cómo será sentir dolor para la ostra
la amargura de la arena pisada tantas veces
gemir el ardor de la sal en su guerra con el agua
comerse el musgo de todos los amores muertos
y llorar, llorar y llorar
y yo sin saber que el collar de perlas que viste mi pecho
era el poema que agonizaba la ostra

A OSTRA

tenho um rosário de pérolas para contar as vidas que nos faltam
os meus dedos se convertem em estradas sem saída
o tempo fere os joelhos correndo atrás de ti
vais deixando uma fileira de rosas mortas
como uma criança numa boda que não entende o que é amar até à morte
não sabe que a morte se veste de branco
deixa-me limpar as tuas nuvens pesadas
aceitar as velhas portas que se queixam do som do teu riso
sei que a tua almofada é a razão para dar tudo
para sonhar dentro do meu ventre
como um pássaro sem asas
uma criatura sem língua
a tua voz é aquela que invento
conspiro por ti
vais sentindo como nasces de novo
respiras a água da minha placenta violeta
amarrado ao fio do meu umbigo
os olhos fechados
eu só vejo o que queres ver do mundo
e detenho-me horas e horas a contemplar a lua vestida de negro
que nunca te falte o lume quando apenas estejas entregue a ti
ainda que me bebas diariamente para sentir-te vivo
volto a contar o meu rosário de pérolas
passaram os anos como horas
enroscada nas cinzas desse abril último
pergunto-me como será para a ostra sentir dor
a amargura da areia pisada tantas vezes
gemer o ardor do sal na sua guerra com a água
comer o musgo de todos os amores mortos
e chorar, chorar e chorar
e eu sem saber que o colar de pérolas que orna o meu peito
era o poema que afligia a ostra

Azhar Amara (San Juan, Puerto Rico,1993). Poeta y declamadora. Estudia Historia de Puerto Rico en la Universidad de Puerto Rico en Río Piedras. Actualmente trabaja en un poemario inédito para publicar próximamente. Ha publicado en revistas de poesía nacionales e internacionales.

* * *

A antologia integral pode ser lida também aqui:

http://www.otroparamo.com/del-triangulo-de-las-bermudas-a-lisboa-18-poetas-puertorriquenos/

Padrão
poesia

4 poemas inéditos de Carla Diacov

img_2672

Carla Diacov (São Bernardo do Campo, SP, Brasil, 1975), formada em Teatro. Estreia em livro, além da participação em algumas antologias, com Amanhã Alguém Morre no Samba, (Douda Correria, Portugal, 2015). Tem participação em diversas revistas on-line e impressas.

Se atraca com as plásticas o tempo inteiro, movimento que a serve a construir em conjunto de matérias ou que a traz de volta às letras somando algo da extração da borracha. Gosta de abordar o sangue. Tende a ser serial.

Em Agosto de 2016, publicou A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora).

Em 22 de Setembro, foi publicado o primeiro volume de Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, Portugal, 2016).

Em 2017 lança mais dois livros de poesia.

* * *

cartão chinês

uma chuva que vai e que volta
uma que só volta
não é de procurar
entende-se aos poros
estende-se aos povos
ao indivíduo ou
seja a montanha
ou seja um quadrúpede nela
é o momento do grito e do labirinto
é o momento do papel estendido à tinta
momento do homem que lê e da árvore que
estica o galho na direção proposta antes bem
antes do homem
uma chuva que leva
uma que deixa eu não
eu nunca eu um quadrúpede e três trovões

esganadura

com a escuridão entre os dedões
dos pés
sentiu pela primeira vez
comunhão com o mundo
fez questão
ali mesmo
com escuridão entre os dedões
oblíqua questão de ser
um corpo
apesar da comunhão
um corpo com um pássaro atravessado
da ideia pássaro e da
religião pássaro
apesar de ser
envergadura
fez assim
asas com as mãos
pássaro sob os dedões
fome sede tonalidades fome e sede

§

coração

eu inventei que era chá
inventei que era uma raiz que
nasce só lá na Índia
nasce só e sozinha
uma por ano
dizem
inventei que dizem que
olho muito pequeno é sangue
muito engrossado nas partes íntimas
invento para amanhã que
será chuva junto das
montanhas na Índia
lá em
bem perto da
raiz só
invento que espirro
é ultimato pra libélula de
coração negligenciado
agora invento que não você
sabe que as libélulas quando pro
criam formam um hexágono exatamente irregular?

§

boeuf bourguignon

com a DENTADURA PERFEITA da Angélica Freitas
mordendo meus miolos

escolho falar com você carne
de segunda
pretendida talhada martelada de segunda
não vamos falar de amor e nem vamos
trincar sobre o ódio
quero contar meus medos
carne quase mignon meus medos
a coleção só faz aumentar
imagino que com você é o mesmo
disso a escolha
a carne de segunda deve de
quase meiga por pouco mais dava pra encantadora
decidi por ter medo de colocar muitas
unhas na fala
imaginava e agora sei chicha de segunda
vejo sua retração
sua retração concorda comigo com
o medo das unhas na fala
e a carne de segunda é amaciada
soca-se uns alhos pelas retrações
ervas vinho barato libertinagem então fogo
o assado está como nunca
como nunca fica um assado como nunca
cheiroso enganado e fatiado
imediatamente partimos para
discussões de primeira

§

horas bolas

o menino ganha uma bola
e não sabe o que fez para ganhar
tamanho mistério
em seus 15 meses de vida nunca viu
tamanho exemplo
nos desafiamos como nos amamos tudo
junto empilhado alternando o cume
a menina desvenda a bola
por isso ganha um vestido de bolas
em seus 39 meses a menina caberá no vestido
em seus 93 meses recortará as bolas
em seus 203 meses vai fazer do vestido uma bolsa
onde tudo tudo tudo cai bem com gás de pimenta
o menino repetirá para o resto da vida
NINGUÉM ME DÁ BOLA
o menino repetirá tamanho exemplo

Padrão
Uncategorized

Carina Sedevich, por Jennifer Araújo

carina-semi

Carina Sedevich nasceu em Santa Fé, Argentina em 1972 e atualmente reside em Córdoba, Argentina. Licenciada em Comunicação pela Universidade Nacional de Vila Maria e doutora em Semiótica pela Universidade Nacional de Córdoba, a poeta publicou até o momento 10 livros de poesia: La violencia de los nombres (Ediciones Fe de Ratas, Santa Fé, 1998); Nosotros No (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Cosas dentro de otra cosa (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Como segando un cariño oscuro (Llanto de Mudo Ediciones, Córdoba, 2012); Incombustible (Alción Editora, Córdoba, 2013); Escribió Dickinson (Alción Editora, Córdoba, 2014); Klimt (Suburbia Ediciones, Gijón, España e Club Hem Editores, La Plata, 2015); Gibraltar (Dínamo Poético Editorial, Córdoba, 2015); Un cardo ruso (Ediciones del Movimiento, Maracaibo, Venezuela e Alción Editora, Córdoba, 2016); Cuadernos de Lolog (Pasto Ediciones, Córdoba, 2016).

Carina nunca viu a literatura como carreira, sendo a poesia, desde a infância, um prazer e não uma (futura) profissão para a autora.  Carina Sedevich acredita não seguir ou pertencer a nenhum movimento literário e diz não saber apontar quais são as influências de sua escrita, pois não tem formação em específica em literatura e quando questionada, em entrevista, sobre os autores pelos quais se interessa a poeta faz uma longa lista de nomes de diferentes nacionalidades e estilos. Entretanto, apesar de a autora não dar nomenclatura, formato ou rótulo a sua poesia, o leitor pode perceber, logo nos primeiros contatos, uma escrita intimista e, ao passo que descobre um pouco mais sobre sua vida, nota um forte traço biográfico. O leitor pode ver claramente essa questão autobiográfica nas poesias de Carina, principalmente após ver suas entrevistas, pois a própria autora afirma que seus livros acompanham sua vida, sendo perceptível o relato sutil e por vezes explícito de acontecimentos pessoais como depressão, divórcio e mudança do filho.  Quanto à forma, sua poesia não apresenta forma fixa, métrica ou rima exata, o formato de seus textos muda de livro para livro, de poema para poema. Quanto a temática, Carina escreve sobre temas cotidianos, como amor, desamor, passado, morte, mudanças interiores e exteriores, entre outros, em suma, a autora diz escrever sobre a vida, pois acredita que não é possível escrever sobre outra coisa:

          “Con respecto a los temas de mi escritura debo decir que no los elijo: los temas de mi escritura vienen a mí como viene la vida. Escribo sobre la vida, creo que es imposible escribir sobre otra cosa. Siempre digo que no hay muchos temas para el ser humano: la vida, por ende la muerte. Y dentro del infinito tema de la vida caben todas las cuestiones en que las personas pueden pensarse, sentirse, ser: el amor, el desamor, el sentido, el sinsentido.  Así que no hago otra cosa que escribir sobre eso.” (Carina Sedevich em entrevista 26/10/2016).

***

  1. (de Gibraltar, 2015)

 El olvido es un fruto que requiere trabajo.

Casi siempre tardío, pero rara vez dulce.
No es uva ni es la parra donde pende el racimo.

No es como la sombra que daría la parra
ni como sus raíces contraídas y bruscas.

Se parece a la piedra del cantero y la fuente
que apisona la parra, que la ordena y la ciñe.

*

Hay que hacer saltar el olvido de un golpe
como a una piedra caliza en la cantera.

Que se entibie en la mano que quiera tallarla.
Sea opaca a los ojos. Sea venérea y ajena.

*

Una piedra tan blanca es casi como un niño.
Casi un sacramento para mí.

Inclino mis huesos como panes ácimos
sobre cunas que guardan el amor ajeno.

Qué fue de la ternura que pude sentir.
La siento en la garganta bajar como una hostia.

O esquecimento é um fruto que requer trabalho.

Quase sempre tardio, porém raramente doce.
Não é uva nem é a videira de onde pende o cacho.

Não é como a sombra que a videira daria
nem como suas raízes comprimidas e ásperas.

Se parece com a pedra do cercado e a fonte
que pisoteia a vide, que a ordena e a cinge.
*

Deve-se arremessar o esquecimento de súbito
como uma pedra de calcário na pedreira.

Que se aquece na mão que queira esculpi-la.
Seja opaca aos olhos. Seja venérea e alheia.
*

Uma pedra tão branca é quase como um filho.
Quase um sacramento para mim.

Dobro meus ossos como pães ázimos
sobre berços que guardam o amor ao outro.

O que houve com a ternura que pude sentir.
A sinto na garganta descendo como uma hóstia.
§

  1. (de Escribió Dickinson, 2014)


Enciendo la lámpara de sal de la montaña

junto a mi cama.
Me suelto el pelo
recordando las canas invisibles.
Me acuesto entre las sábanas de hilo
con la bata dorada de la China.
Debajo mi piel blanca no desea
ni en sus botones rosados
ni en sus lunares pálidos.
Sobre la almohada se escuchan mis anillos
porque está fresco, quizás,
y se afinaron mis dedos.
El oro, la plata, la amatista.
Afuera la noche se ha espesado
porque terminó la luna llena.
Empieza el mes que precede al invierno.

Qué ligera que soy sin tus deseos.

Qué dulce corre el alma
en mi esqueleto.
Qué cierta es esta cara y estos flancos
qué ciertos que son,
qué delicados.
Me admira mi gata, blanca y parda,
y yo la admiro a ella en su silencio.
Hasta el perfume rojo de las flores
tengo.

Qué ligera que soy sin mis deseos.

Acendo a lâmpada de sal da montanha
ao pé de minha cama.
Solto meu cabelo
recordando os grisalhos invisíveis.
Me deito entre os lençóis de linho
com o chambre dourado da China.
Por baixo, minha pele branca não deseja
nem com seus botões rosados
nem com suas pintas pálidas.
Sobre a almofada se ouvem meus anéis
porque está fresco, talvez,
e se afinaram meus dedos.
O ouro, a prata, a ametista.
Lá fora a noite está mais espessa
porque terminou a lua cheia.
Inicia o mês que precede o inverno.

Como sou ágil sem seus desejos.

Como corre suave a alma
em meu esqueleto.
Como é pura esta cara e estas curvas
como são puras,
tão delicadas.
Minha gata me admira, branca e parda,
e eu a admiro em seu silêncio.
Até o perfume vermelho das flores
tenho.

Como sou ágil sem meus desejos.
§

3. (de Cuadernos de Lolog, 2016)

 

 Palermo, Buenos Aires

 

 El viento mueve las hojas de los árboles

como señales de luz intermitente

junto al sendero donde sé que vive

el hombre aquel, que yo quería tanto.

Vuelve su nombre, cada vez más raro,

como una caja que se quedó vacía.

*

No voy a verlo.

Cae la semilla de los plátanos.

Vuelan los pájaros,

demasiado bajo.

Mujeres hermosas

pasan muchas.

Más que los copos

que caen de las ramas

o la bandada

de palomas locas.

*

Yo envejezco.

*

Estoy lejos de todo.

De la Belleza,

de la Inmensidad.

Ahora que Comprendo

y Compadezco,

ahora que cualquier lugar

es bueno,

estoy arribando siempre tarde.

*

Pasan los hombres sin Misterio

sobre mi corazón sin Inquietud.

*

Sólo cuando lo olvido todo

el tiempo se mueve, intempestivo.

Profundamente,

como un atentado.

*

-Estas flores blancas que se abren

sobre los árboles, para Navidad,

parece que lo hicieran a propósito.-

Palermo, Buenos Aires

O vento move as folhas das árvores

como sinais de luz intermitente

junto ao caminho onde sei que vive

o homem  a quem eu amava tanto.

Seu nome volta, cada vez menos,

como uma caixa que ficou vazia.

*

Não vou vê-lo.

Cai a semente das árvores.

Voam os pássaros,

muitíssimo baixo.

Mulheres formosas

passam muitas.

Mais que os flocos

que caem dos galhos

ou a revoada

de pombas loucas.

*

Eu envelheço.

*

Estou distante de tudo.

Da Beleza,

da Imensidão.

Agora que Compreendo

e Compadeço,

agora que qualquer lugar

é bom,

estou chegando sempre tarde.

*

Passam os homens sem Mistério

sobre meu coração sem Inquietude.

*

Só quando o esqueço por completo

o tempo muda, intempestivo.

Profundamente,

como um atentado.

*

– Estas flores brancas que se abrem

sobre as árvores, para o Natal,

parece que o fizeram de propósito.-

***

Jennifer Araújo, graduanda no curso de Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa, com habilitação em Português como Língua Estrangeira) na Universidade Estadual de Campinas.

Padrão
Uncategorized

Lucas Perito (1985-)

2016-06-17-fotos-profissionais-karpat-114-de-119

Lucas Perito nasceu em São Paulo em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico Caminhos da Mantiqueira (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo e Revista Saúva. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

* * *

À Ungaretti

Como aquela pedra de S. Michele,
Dura, ainda que natural
A mim se aproxima
Sua gélida face;
Cinza e amorfa
Confunde-se com que se tem
De inverso;
Distingue-se, pois figura eternidade.

Padrão