poesia, tradução

Edna St. Vincent Millay, por Mariana Basílio

Edna St. Vincent Millay

Edna St. Vincent Millay (1892 – 1950) foi uma das mais conhecidas poetas americanas do século XX. Em vida, teve tanto da crítica literária quanto do público excelente receptividade – alguns críticos chegaram a comparar seus sonetos aos de William Shakespeare (1564 – 1616). Apesar de, por um longo período, ter sido pouco lembrada, com o passar das décadas, sua obra vem sendo mais divulgada. Seus primeiros livros são os mais conhecidos: Renascence and Other Poems (1917), A Few Figs from Thistles: Poems and Four Sonnets (1920), Second April (1921) e The Ballad of the Harp-Weaver (1922, ganhador do Prêmio Pulitzer).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Millay tentando uma equivalência harmônica entre os quesitos métrica, ritmo e rima, mas priorizando sobretudo o sentido e a sonoridade de seus versos no português, procurando não comprometer a vibe da poeta: tons crepusculares – repletos de ironia, amor, indagação – em pensamentos convexos entre sociedade e individualidade.

Não me esquecendo de dizer que, aos poucos, seu nome vem se mostrando mais presente no Brasil. Como disse certa vez Manuel Bandeira (1886 – 1968): “Nome fabuloso Edna St. Vincent Millay: é um verso, é uma maravilha! Quantas vezes me tenho surpreendido a repetir Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, como repito um verso de Villon ou de Racine ou de Mallarmé!” E assim, repito: Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay!

 Mariana Basílio

*

 OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA

Eu vou morrer, mas
isso é tudo o que farei pela Morte.
Eu a ouço tirar seu cavalo da baia;
Eu ouço pisadas no chão do celeiro.
Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e
nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã.
Mas eu não vou segurar a rédea
enquanto ela ajusta a cilha.
Ela que monte sozinha:
não darei pé na subida.

Embora ela estrale meus ombros no chicote,
não direi a ela para onde a raposa correu.
Com os cascos em meu peito, não direi onde
o garoto negro se esconde no pântano.
Eu vou morrer, mas isso é tudo que farei pela Morte.
Eu não estou em sua folha de pagamentos.

Não direi a ela o paradeiro dos amigos,
nem o dos meus inimigos.
Ainda que ela me prometa muito,
não mapearei o endereço de ninguém.
Acaso sou uma espiã na terra dos vivos
para entregar pessoas à Morte?
Irmã, senha e as plantas de nossa cidade estão
seguras comigo; a depender de mim, nunca serás derrotada.

 

CONSCIENTIOUS OBJECTOR

I shall die, but
that is all that I shall do for Death.
I hear him leading his horse out of the stall;
I hear the clatter on the barn-floor.
He is in haste; he has business in Cuba,
business in the Balkans, many calls to make this morning.
But I will not hold the bridle
while he clinches the girth.
And he may mount by himself:
I will not give him a leg up.

Though he flick my shoulders with his whip,
I will not tell him which way the fox ran.
With his hoof on my breast, I will not tell him where
the black boy hides in the swamp.
I shall die, but that is all that I shall do for Death;
I am not on his pay-roll.

I will not tell him the whereabout of my friends
nor of my enemies either.
Though he promise me much,
I will not map him the route to any man’s door.
Am I a spy in the land of the living,
that I should deliver men to Death?
Brother, the password and the plans of our city
are safe with me; never through me shall you be overcome.

§

 PRIMAVERA

Por qual propósito, Abril, de novo retornas?
A Beleza não é suficiente.
Não podes me acalmar com a vermelhidão
Das folhinhas unidas se abrindo.
Eu sei o que sei.
O sol queima a nuca quando observo
Os espinhos do croco.
O cheiro de terra é bom.
É aparente que não há a morte.
Mas o que isso significa?
Não apenas sob a terra os cérebros
São comidos por vermes.
A vida em si
Não é nada,
Uma taça vazia, lance de escadas sem tapetes.
Não basta todo ano, descendo o morro,
Abril
Chegar como um tolo, balbuciando e espalhando flores.

 

SPRING

To what purpose, April, do you return again?
Beauty is not enough.
You can no longer quiet me with the redness
Of little leaves opening stickily.
I know what I know.
The sun is hot on my neck as I observe
The spikes of the crocus.
The smell of the earth is good.
It is apparent that there is no death.
But what does that signify?
Not only under ground are the brains of men
Eaten by maggots.
Life in itself
Is nothing,
An empty cup, a flight of uncarpeted stairs.
It is not enough that yearly, down this hill,
April
Comes like an idiot, babbling and strewing flowers.

§

TARDE NA COLINA

Vou ser o que é mais alegre
Sob este sol!
Vou tocar cem flores sem
Colher uma só.

Vou olhar com calma as nuvens
E os montes, ver
A grama curvando ao vento,
Vê-la crescer.

Quando as luzes da cidade
Forem se erguendo,
Vou marcar qual é a minha,
E vou descendo!

 

AFTERNOON ON A HILL

I will be the gladdest thing
Under the sun!
I will touch a hundred flowers
And not pick one.

I will look at cliffs and clouds
With quiet eyes,
Watch the wind bow down the grass,
And the grass rise.

And when lights begin to show
Up from the town,
I will mark which must be mine,
And then start down!

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*

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC, 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins,Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara,Raimundo, entre outras. Já apareceu aqui na escamandro com poemas e traduções de Denise Levertov.
Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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Guilherme Bernardes (1993-)

 

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Guilherme Bernardes nasceu em Curitiba (1993). Terminou o curso de Letras Português/Latim com ênfase em estudos da tradução em 2017. Em 2018 começa seu mestrado sobre a obra do poeta norte-irlandês Paul Muldoon, em que também organizará uma seleção de poemas traduzidos. Faz parte do grupo de tradução e(m) performance Pecora Loca. Seu primeiro livro, de contos, O óbvio nosso de cada dia nos trai hoje, foi lançado pela editora Dybbuk em 2016. Publica esporadicamente no blog reconceber.wordpress.com.

* * *

 

damien hirst: a impossibilidade física da morte na mente de alguém que vive

mas e se pelo menos por enquanto
fosse possível que considerássemos
o fim. fizéssemos dele o poder
pra que pudéssemos dar novo início.
ou mesmo imaginássemos o sempre
eterno e ínfimo mundo sem volta

e que, pra cada um a nossa volta,
será o mesmo nada. porém, quanto
êxito. precisaríamos sempre
estar prontos pra que considerássemos
a possibilidade de outro início.
mas pena que querer não é poder.

ainda acreditamos que o poder
inevitavelmente está de volta
se repetindo porque lá no início
viu-se o sol nascer e se pôr. em quanto
tempo pra que nós já considerássemos
seguro confiar nisso pra sempre.

nada garante que será pra sempre.
e nem que fosse um ser todo poder-
oso, impossível que considerássemos
seriamente o fim. ele sempre volta.
e todos dispostos a porem quanto
fosse preciso, para o novo início,

da própria vida. porque desde o início
é assim. a mesma coisa de sempre.
que vida conseguimos pôr enquanto
sentimos total falta de poder.
a vida fica totalmente envolta
num ciclo. por mais que considerássemos

que, se de fato não considerássemos
o fim como apenas fim, mas início
também, talvez já não fizesse a volta
e mudasse. dessa vez para sempre.
e agora. então finalmente poder-
íamos terminar. mas por enquanto

não há fim. sempre há fins. e tudo volta
como considerássemos o início
a fonte do poder do por enquanto.

§

 

necesse est multos timeat quem multi timent

ele tinha de epíteto temido (
o que era mais do que justificado).
não se viu ninguém sentado a seu lado

que não sentisse falta de um abrigo,
assim que possível, vendo o temido

semblante e nele inevitável fado;
a cada gesto dele um novo estado

de pânico, de não ter existido.
até que em tantos o temor crescia
tanto que ele jamais previra os danos.

apenas viu a multidão na via
não vendo nele mais um ser humano.

videntes, realizando a profecia
de que temê-lo havia sido engano.

§

 

hen panta einai

numa palavra dizer
o começo
e o fim; o que é depois e o
que vem antes;
de modo igual marcar a dois
instantes
e em ambos poder ver
desgraça e apreço; é como
uma mudança de endereço;
a mesma ação, motivos
conflitantes; perder; ganhar; questões
irrelevantes;
quem vai saber se é
impulso ou se é
tropeço
vai ser apenas aquele
que passa; se
a lágrima vem por dor
ou deleite; se o ciclo
do sol é
bom ou desgraça
qualquer chance de que alguém
aproveite tudo da vida enquanto
ela esfumaça;
se é o duplo
sentido entre útil e
enfeite;

§

 

a vida nunca é simples nesse frio

I
a vida nunca é simples nesse frio.
há tanto tempo tudo se embaralha
que o estado natural é o arrepio.

tem vezes que eu nem penso em dar um pio
e tudo se transforma em represália.
a vida nunca é simples nesse frio.

bem mais do que a temperatura hostil,
odeio ouvir dos outros, feito gralha,
que o estado natural é o arrepio.

discordo totalmente do meu tio:
o mundo sempre insiste em ser canalha;
a vida nunca. é simples: nesse frio

eterno e que não dá lugar pro estio,
qual fim pior (que encolhe a genitália)
que o estado natural? é o arrepio

final, já quando o brilho é fugidio
dos olhos, que usarei tal qual mortalha.
a vida nunca é simples nesse frio
que o estado natural é o arrepio.

II
a vida nunca é simples nesse frio.
sair da cama é sempre uma batalha.
mas sempre penso em algo mais sombrio:

tem tanta coisa estranha nesse rio,
tem tanta coisa presa nessa calha,
a vida nunca é simples nesse frio.

não acho raro estar entre o vazio
de um jeito tal que só o vazio se espalha,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

os planos de escapar são mais de mil.
mas tudo do que eu tento sempre falha.
a vida nunca é simples. nesse frio

precisa-se de um modo mais sutil
na hora de lidar com a migalha.
mas sempre penso em algo, mais sombrio,

talvez o cheiro azedo, quem sentiu
se lembra, da carniça na navalha.
a vida nunca é simples nesse frio,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

§

 

mnemosine

“protect me from what i want”
— jenny holzer

eu vou fazer de tudo que eu puder
pra sempre ter comigo essa lembrança
tua. pra sempre ter comigo alguma
fotografia nossa. como prova
de comprometimento a essa promessa,
te escrevo. quem sabe a tua memória,

ouvindo o que lembra a minha memória,
também se aguce e lembre. se não der
certo, acho que ainda vale a promessa
do início. se ainda houver a lembrança
do que ela era. se alguém desaprova
essa insistência, nós, de forma alguma,

temos motivo pra alarde ou alguma
preocupação. o que conta é a memória.
mesmo que falsa, ela ainda comprova,
no mínimo, um desejo de algum der-
radeiro momento de ser lembrança.
aquilo que eu prometo eu cumpro. meça

muito cuidadosamente a promessa
primeiro, pois não quero ouvir alguma
desculpa esfarrapada. essa lembrança
persiste grudada em minha memória:
nós, deitados na cama, ouvindo there
is a light that never goes out e prova-

ndo que sim, há, depois daquela prova
que a gente estudou tanto, na promessa
de irmos bem, mas que, mesmo assim, nos der-
rubou, e você foi buscar alguma
coisa pra beber. perder a memória
era o plano. extinguir toda lembrança

de que sequer já houve antes lembrança.
funcionou? pra mim, isso apenas prova
que não. não é possível que a memória
desse dia suma. embora a promessa
tenha sido essa. ainda que alguma
luz, de fato, se apague, se eu puder

quebro a promessa. quero essa memória.
prefiro a lembrança como uma prova
de que alguma parte vai transcender.

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Assionara Souza

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Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: http://www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro.

*

Espelho meu

Estávamos na sala eu e minha mãe
[Agora é que percebo que ela manteve os cabelos longos
Somente até aquele dia]
Eu lia a história de Branca de Neve
Virando as páginas assim que as personagens do
Disquinho azul alcançavam a última linha
— Terminar de ouvir me antecipava a vontade de ouvir de novo —
Mal sabia que alimentava naquele gesto
O pequeno monstro do desejo incontrolável
Minha mãe fazia acabamentos na bainha de uma saia xadrez
O carro parou na frente de casa com uma freada brusca
Olhamo-nos com a mudez sincera dos que sabem que
As cenas do próximo capítulo vêm para abalar o coração
Bateram palmas lá fora
Ela largou a costura
Eu desliguei o disquinho
E toda a paz de nossas tardes
Foi varrida pelo vendaval da notícia que o homem trouxe
Sempre que ouço a história de Branca de Neve
Esbarro naquele ponto em que o caçador
Arranca o coração de um cervo

§

 

Para todos os efeitos, estamos felizes
Não vamos considerar
O tempo que perdemos no trânsito ou ao telefone
Tentando reconduzir a vida
Aos trilhos onde o carrinho desliza sem trancos ou sustos
É preciso confiar na eficácia da ciência
Quando os cientistas saem tarde da noite dos centros de pesquisa
Uma barata os espia roendo os resíduos das drogas que caem das mesas de trabalho
E o psiquiatra jamais adormeceria sem a pílula milagrosa que despluga pensamentos
O que importa de fato é o investimento e a publicidade
De que um mundo admirável está prestes a surgir

Para todos os efeitos, as novas marcas de café e cerveja têm dado um novo alento
Ao homem médio e sem tempo para se dedicar à
Eficiência misteriosa dos clitóris do mundo
É suficiente o uso de poucas palavras em situações burocráticas
Deixando o excesso para a solidão das páginas virtuais
E o amor, o amor, o amor…
Por favor, aguarde na linha e logo mais o atenderemos
Para todos os efeitos, o jazz e a música clássica escorrerão pelos seus ouvidos
Até que a moça do telemarketing com sua voz provinda de insuspeitos grotões
Transgrida a maciez semântica de humanidade própria da frase:
“Bom dia, em que posso ajudar?”

§

 

A Mulher de Lot

Um passo atrás
Enquanto a cidade desaba
Todos correndo
Um tumulto dos diabos
O filho, a filha, o marido
A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado
Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz
Como se ela não soubesse
Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida
Ele perguntando se a camisa vermelha
— Aquela com um só bolso no lado direito?
— Sim. Essa mesma.
Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada
E o filho indo no mesmo caminho
Tratando-a feito lixo
— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!
Estúpidos todos
Até a filha, que ela tanto ensinou
Agora andava com um centurião
Um centurião!
Maior desgosto para uma mãe
E depois dessa correria toda
Quando arrumassem pouso
Adivinhem quem prepararia o jantar?
Não teve a menor dúvida
Mirou a cidade em chamas
Uma sensação incrível
Deixar de ser uma mulher de pedra
Seu corpo inteiro puro sal rebrilhando ao sol

***

 

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A insgugliambaçó de Juó Bananére

Eu ia escrever uma apresentação da minha lavra, mas li isto aqui:

“Quando a primeira edição de La divina increnca foi lançada em 1915, em produção independente, a figura hilária e carnavalesca de Juó Bananére — pseudônimo do engenheiro Alexandre Marcondes Machado  (1892—1933) — estava no auge de sua popularidade.

No entanto, sua brilhante carreira de cronista no jornal O Pirralho, fundado por Oswald de Andrade em 1911, seria abruptamente interrompida nesse mesmo ano, em função de dois artigos jocosos sobre Olavo Bilac e seu nacionalismo ufanista. Dessa vez, até mesmo para as almas mais avançadas do período, Juó Bananére — sem dúvida um dos nomes mais instigantes do pré-Modernismo brasileiro —, tinha ido longe demais com suas blagues.

Em suas crônicas mordazes, como um caleidoscópio louco, Bananére atirava contra tudo e contra todos. Na literatura, por exemplo, atacou clássicos e modernos, parnasianos e futuristas. Na política, mesmo sendo civilista, não deixou de ironizar figura tão respeitada quanto Rui Barbosa. Sua máxima foi semelhante à do dadaísta Arthur Craven: “Todo grande artista tem a brotoeja da provocação.”

Revelando desde o princípio uma capacidade de reconstruir o mundo a partir das associações mais inusitadas, Bananére foi nesse sentido um precursor do texto-montagem, das paródias, ready mades e poemas-piada, recursos que seriam mais tarde empregados por Manuel Bandeira e Oswald de Andrade, entre outros. A exemplo das vanguardas europeias do início do século XX, instaurou o blefe e o mau gosto como procedimentos artísticos e — assim como os dadaístas — recusou com ironia o rótulo de artista.

La divina increnca, sua obra mais célebre, reúne textos que parodiam poemas clássicos de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Raimundo Correia e Olavo Bilac, ao mesmo tempo em que ridicularizam figuras públicas da época como o marechal Hermes da Fonseca (chamado Hermeze, Dudú e Maresciallo), Nair de Teffé (Nairia), o general Pinheiro Machado (Pignêro e Pentifigno), o senador Rodolfo Miranda (Capitó), Washington Luís (Oxinton) e o vereador e coronel José Piedade (Garonello).

Com sua extrema irreverência, Juó Bananére acabou escrevendo uma espécie de “antilivro”, que se assemelha, numa leitura apressada, a uma brincadeira de estudante. Entretanto, esta algaravia radicalmente popular — que, dado o desuso de certas formas do idioma, hoje chega a nos parecer quase erudita — tornou-se uma forma vitoriosa no tempo, como exemplo genial de humor, ousadia e invenção”

Escrito por Cristina Figueira, como orelha para a edição de La divina increnca, publicada em 2001 pela editora 34 e reeditada em 2007. É um caso raríssimo de concisão certeira, que dizia praticamente tudo que eu poderia querer dizer, e de modo mais preciso. Como não achei esse texto online, optei por disponibilizá-lo aqui, como empenho crítico de primeira, ainda que breve. A ela acrescento apenas quatro coisas. Em primeiro lugar, Bananére é, por assim, dizer, o grande pioneiro do também gênio Adoniran Barbosa; nesse aspecto, poderíamos pensar os vínculos da poesia cantada de Adoniran com certa vertente vanguardista de Zan Baolo. Em segundo lugar, uma série de poemas de sua lavra são também modelos muito radicais de tradução apropriativa, paródica, reviravoltante; temos de pensar nisso com cuidado, porque com Bananére vemos versões inusitadíssimas de Poe-Machado, La Fontaine, e também poetas brasileiros, como Bilac ou Correia, dentre outros; porque, afinal de contas, Bananére não escreve exatamente em português. Em terceiro lugar, parece-me que sua obra é mais um motivo para revermos com cuidado isso que chamamos porcamente de pré-modernismo, limbo vago e sem sentido com ranço de historiografia escolar da literatura brasileira. Em quarto e último lugar, aqui vai um site onde o leitor interessado poderá encontrar mais da obra de Bananére, com toda La divina increnca: http://www.bananere.art.br/.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

O GORVO
P’ru Raule

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io estava c’un brutto medó
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s’imagine o ch’io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

— Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?
— Nos signore, sô dottore…
Io stô c’un medo do signore

— Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
— Poise intó desça di lá
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p’ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p’ra elli assí:

– Boa noute Raule, come vá!
Intó vuce come stá
Vendosi adiscobrido o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!

§

AMORE CO AMORE SI PAGA
Pra Migna Anamurada

XINGUÊ, xingaste! Vigna afatigada i triste
I ttiste i afatigada io vigna;
Tu tigna a arma povolada di sogno
I a arma povolada di sogno io tigna.

Ti amê, m’amasti! Bunitigno io éra
I tu tambê era bunitigna;
Tu tigna uma garigna de féra
E io di féra tigna uma garigna.

Una veiz ti begiê a linda mó,
I a migna tambê vucê begió.
Vucê mi apiso nu pé, e io non pisé no da signora.

Moltos abbracio mi deu vucê,
Moltos abbracio io tambê ti dê.
U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.

§

O LOBO I O GORDERIGNO
Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére

UN dia n’un ribeiró,
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.

Abebia o gorderigno,
Chetigno come un Jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo saì

O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
Os zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:

— Olá! ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?

— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Foi o gordêro aparlano…

Nos vê intô Incelencia,
Che du lado d’imbaixo stó io
I che nessum ribêro ne rio,
Non górre nunca p’ra cima?

— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno qui io sô un pau d’agua.

— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d’indade?!

— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo é tuo ermô.

— Giuro, ó inlustre amigo,
Che isto tambê é invençó!
Perché é verdado o che digno,
Che nunca tive un ermô.

— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c’oa migna vida.

I avendo acussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p’ru matto
I comeu illo intirigno.

MORALE: O que vale nista vida é o muque!

§

SUNETTO CRASSICO

SETTE anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da rafaella, serrana bella,
Ma non servia o pai, chi illo non era trosa nó!
Servia a Rafaella p’ra si gazá c’oella.
I os dia, na esperanza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o paio, fugindo da gumbinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quando Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaida na sparrella,
Ficô c’un brutto d’un garó di arara
I incominció di servi otros sette anno
dizeno: si o Labó non fossi o pai della
Io pigava elli i lí quibrava a gara.

§

SONETTO FUTURISTE
Pra Marietta

TEGNO una brutta paxó,
P’rus suos gabello gôr di banana,
I p’ros suos zoglios uguali dos lampió
La da igregia di Santanna.

Ê mesimo una perdiçó,
Ista bunita intaliana,
Che faiz alembrá os gagnó
Da guerre tripolitana.

Tê uns lindo pesigno
Uguali cos passarigno,
Chi stó avuáno nu matto;

I inzima da gara della
Té una pinta amarella,
Uguali d’un carrapatto.

§

UVI STRELLA

CHE scuitá strella, né meia strella!
Você stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p’ra iscuitalas montas veiz livanto,
i vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversáno c’oella,
Inguanto cha as otra lá d’un canto
St’o mi spiano. I o sol como um briglianto
Nasce. Ogliu p’ru çeu: — Cadê strella?!

Direis intó: — O’ migno inlustre amigo!
O chi é chi as strallas tidizia
Quano illas viéro acunversá contigo?

E io ti diró: — Studi p’ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz de intendê istas strella.

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Mac Adams, exposição e dois diálogos

 

No dia 18 de abril, quarta-feira, o artista britânico, naturalizado norte-americano, Mac Adams (Brynmawr, 1943) abrirá a exposição inédita Mens Rea: a cartografia do mistério, no Centro Cultural Fiesp. Além de apresentar dezessete obras e uma instalação in situ criada  para a exposição, a mostra conta também com a participação de textos literários. A partir de uma seleção de obras feita pela curadoria da exposição, foi realizado um convite para autores de diversos gêneros, faixas etárias e nacionalidades, com o objetivo de construir um diálogo com a narrativa visual de Mac Adams, um dos fundadores do Narrative Art, movimento artístico surgido nos Estados Unidos na década de 1970. Os nomes são Tal Nitzán (Israel), Ricardo Domeneck (Brasil), Dylan Thomas Hayden (Estados Unidos), Pascal Marquilly (França), Marcus Fabiano (Brasil), Johannes CS Frank (Reino Unido/ Alemanha), Victor Heringer (Brasil), Guilherme Gontijo Flores (Brasil) e Matilde Campilho (Portugal).

Os autores convidados tiveram a liberdade na interpretação da imagem e na escolha do gênero literário para cada texto. “O único desafio para cada autor foi usar o conceito Mens Rea na construção de cada texto, pois este é o elemento principal utilizado também pelo Mac Adams na sua obra”, com diz Luiz Gustavo Carvalho, curador da exposição junto com Anne-Céline Borey.

O período expositivo vai de 18 de abril a 8 de julho de 2018, na Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp: Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp), de terça a sábado, das 10h às 22h, e domingo, das 10h às 20h. Na abertura, no dia 17 de abril (terça-feira), às 18h, será feita a palestra “Fios soltos: construção e desconstrução de uma arte narrativa”, com o próprio Mac Adams e os curadores Luiz Gustavo Carvalho e Anne-Céline Borey.

Além de poder contribuir com um texto meu parao díptico “The Whisper”, tive a chance de traduzir os textos de Pascal Marquilly  e de Johannes CS Frank. Seguem abaixo o poema feito por Tal Nitzán, em tradução de Moacir Amâncio, para o díptico “Orian”.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Mac Adams, Díptico “Orianr”, 1980. Series Mysteries.


(Tal Nitzán)

Não é um banco verde no quarto das crianças
é um crocodilo
não é um crocodilo
é o futuro:

Eis o movimento lento dos seus olhos
Eis o bater das suas mandíbulas terríveis

Mas onde estão as crianças?
Este não é mesmo o quarto das crianças
Este é o quarto da infância.

Eis que tu te encontras nele
em teu vestido pequeno e a tua boca fechada
e todos os teus crocodilos diante de ti.

(trad. Moacir Amâncio)

§

Mac Adams, Díptico “The Whisper”, 1976-7. Series Mysteries.

Dito isso
a partir de “The Whisper” de Mac Adams
(Guilherme Gontijo Flores)

Mas escuta-me ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me. Muito embora no ofício de soldado eu já tenha matado muita gente, assunto considero de consciência premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em furá-lo aqui, sob a costela. Sim; porém ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma só coisa vos pergunto, senhor; estais realmente casado? Há segurança?

Dito isso.

Assim, de um tolo faço minha bolsa. Profanaria meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a não ser para proveito próprio ou distração. Odeio o Mouro. Há quem murmure que ele o meu trabalho já fez em meus lençóis. Se é certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo não, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vai atuar com mais certeza. Cássio é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Cássio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Cássio e seu todo insinuante o predispõem a tornar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. Ele a segura pela mão. Muito bem! Cochicha-lhe aos ouvidos. Com uma teiazinha tão pequena assim, pretendo pegar uma mosca do tamanho de Cássio. Sim, dirige-lhe sorrisos; mais um pouco, e eu te amarrarei com tuas próprias cortesias. Tendes razão: é assim mesmo. Se vierdes a perder o poste de tenente por umas frioleiras desse porte, melhor vos teria sido não ter beijado tantas vezes os três dedos, como ainda vos mostrais disposto a fazer, para vos apresentardes como senhor de respeito. Muito bem! Belo beijo! Excelente cortesia! É assim mesmo, não há dúvida. Levais mais uma vez os dedos à boca? Quiser que vos servisse com outras cânulas de clister… Oh! Por enquanto estais bem afinados, mas eu me incumbo de afrouxar as cordas que produzem tal música; tão certo como eu se gente honesta. Que amor lhe tenha Cássio, é o que acredito; que ela o ame, é quase certo e compreensível. O Mouro, embora eu suportar não o possa, por natureza é firme, nobre e amável, tendo eu plena certeza de que ele há de ser o marido ideal para Desdêmona. Mas eu também a amo, não por simples concupiscência, muito embora eu seja também passível dessa grande falta. Não; é para saciar minha vingança, pois suspeito que o Mouro luxurioso pulou na minha sela, pensamento esse que, como mineral nocivo, me corrói as entranhas, sem que nada possa ou deva deixar-me a alma aliviada antes de virmos nisso a ficar quites; é mulher por mulher. Falhando o plano, farei tal ciúme despertar no Mouro, que não possa curá-lo o raciocínio. Para obter isso — caso este sabujo de Veneza, que à trela sempre trago, saiba encontrar o rasto e correr firme — pegarei Miguel Cássio pelo flanco, pois temo que ele também tenha usado meu gorro de dormir. Assim, o Mouro me amará, ficar-me-á reconhecido, e um prêmio me dará por eu ter feito dele um asno completo, e o ter privado da paz e do sossego, até nas raias ir bater da loucura. Aqui está tudo. Meio confuso, é certo; mas inteira, nunca se mostra, nunca, a bandalheira.

Se eu puder empurrar-lhe mais um copo além do que ele já bebeu à tarde, ficará tão rixento e quereloso como uma cadelinha. Aquele tonto, Rodrigo, a quem o amor virou no avesso, esta noite, à saúde de Desdêmona bebeu potes seguidos. Vai dar guarda. Mais três rapazes de alto e nobre espírito, que em distância prudente a honra conservam, elementos desta ilha belicosa, esta noite deixei meio confusos com copos transbordantes. Todos eles irão também dar guarda. Ora, no meio de tantos bêbedos, farei que Cássio pratique qualquer ato que alboroto venha na ilha a causar. Ei-los que chegam. Se condisser com os sonhos a sequela, meu barco correrá com vento e vela. Fazei tinir a caneca! Fazei tinir a caneca!… A vida é quente, soldado é gente… Soldado… que leva a breca! Mais vinho, rapazes!

Quem poderá dizer que eu represento papel de celerado, se o conselho que eu dei é honesto e leal, muito plausível e em verdade o caminho para ao Mouro vir a reconquistar? Sim, porque é muito fácil de conseguir que a complacente Desdêmona se empenhe em qualquer súplica honesta; é dadivosa como a terra. E para obter do Mouro qualquer coisa — muito embora para ele se tratasse de abrir mão do batismo, das insígnias e símbolos de uma alma redimida — tanto ele o coração traz encadeado na afeição de Desdêmona, que tudo fazer ou desfazer ela consegue, como entender, reinando como deusa sua vontade sobre o fraco esposo. Estarei sendo, acaso, um celerado por ter mostrado a Cássio esse caminho que vai dar no seu bem, diretamente? Divindades do inferno! Quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhe emprestam, tal como agora faço. Pois, enquanto este imbecil honesto pede à bela Desdêmona que cure a sua sorte, e ela sobre isso insiste junto ao Mouro, veneno deitarei no ouvido dele, com dizer que ela o faz só por luxúria; quanto mais houver feito ela por ele, mais, junto ao Mouro, há de perder o crédito. Transformarei em pez sua virtude, e com a própria bondade apresto a rede que há de a todos pegar. E agora duas coisas: sobre Cássio falar minha mulher junto à senhora; vou concitá-la já. Nesse entrementes, chamarei o Mouro para que venha encontrar Cássio, quando falando estiver este com Desdêmona. Esse é o caminho certo; que a tardança não me faça perder a segurança.

Deveriam os homens ser somente o que parecem, ou então não parecer o que não fossem. Sendo assim, considero Cássio honesto. Acautelai-vos, senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras! Quem com sua pobreza está contente, é rico, muito rico; mas riquezas infinitas são como o frio inverno, para quem medo tem de ficar pobre. Livrai-me, céu bondoso, e as almas todas de minha tribo, de sentir ciúmes. Assim, já que o dever a isso me obriga, sincero vou falar, mas não de provas, por enquanto. Vigiai vossa consorte; observai bem como ela e Cássio falam; lançai-lhe olhar assim, nem enciumado, nem confiante demais. Não desejara que vossa natureza leal e nobre vítima viesse a ser por causa, apenas, da generosidade que lhe é própria. Vigiai-os bem. Conheço minha terra; em Veneza as mulheres não se correm de confessar ao céu as leviandades que ocultam dos maridos. Para todas a virtude consiste apenas nisto: não deixes de fazer, mas em segredo. Ao pai ela enganou com desposar-vos; ao fingir que tremia à vossa vista, mais vos era afeiçoada. Tirai a conclusão: uma donzela que finge a ponto de deixar os olhos do pai como vendados, obrigando-o a achar que era feitiço… Mas confesso-me passível de censura. Humildemente vos peço me perdoeis tanta amizade. Instantemente vos peço não tirar do meu discurso forçadas conclusões, nem distendê-lo senão até à suspeita.

Dito isso.

Dentro do quarto de Cássio jogarei o lenço, para que ele o venha a encontrar. As ninharias leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da Sagrada Escritura. Disto pode sair alguma coisa. Meu veneno já produziu alterações no Mouro. Certos conceitos são por natureza verdadeiros venenos que, de início, não provocam nenhuma repugnância, mas logo que no sangue atuam, queimam como mina de enxofre. Não me engano.

Quero crer que seria uma tarefa assaz dificultosa convencê-los a se deixarem ver sob esse aspecto. O demo os carregue, se possível for a olhar de mortais, tirante o deles, vê-los deitados juntos. Que me resta para dizer? Que provas posso dar-vos? Não vos será possível ver tal coisa, embora ardentes fossem como bodes, quentes como macacos, luxuriosos como lobos no cio e tão grosseiros como ser mais alvar, quando embriagado. Contudo vos direi, se alguns indícios, circunstâncias de peso, que conduzem diretamente à porta da verdade vos deixarem convicto, haveis de tê-las. Não me agrada esse ofício. Mas já que fui tão longe nesse caso, levado pela honestidade estúpida e a amizade, tão-só, não me detenho. Passei com Cássio uma das noites últimas, mas por estar sentindo dor de dentes, não podia dormir. Ora, há pessoas de alma tão largada que no sono revelam seus negócios. Cássio é dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmuravam “Desdêmona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!” Então, senhor, pegando-me das mãos e as apertando, suspirava: “Oh criatura adorável!” e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus lábios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: “Oh fado amaldiçoado, que te foi entregar para esse Mouro!” Mas tudo isso era somente sonho. Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não viste porventura não mão de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos? Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa. Ficai calmo. Ficai calmo, torno a dizer; podeis mudar de ideia. E eu me declaro vosso por toda a vida. Será crível tal coisa? Beijar às escondidas! Ou ficar uma hora ou duas nua no leito, ao lado de um amigo, sem ruins intenções. Se nada fazem, é um pecado venial. Porém no caso de eu dar um lenço à minha esposa… Ora, senhor; seria dela o lenço. E, dela sendo, penso que podia dá-lo a quem entendesse. A honra é uma essência que não cai na vista. Muitas vezes a tem quem nunca a teve. Mas quanto ao lenço… E que se dera se eu tivesse dito que ele vos ultrajara, ou que falara por aí fora, como certos biltres que — tendo conquistado alguma dama, ou por impertinência nos assaltos, ou com o consentimento dela própria, depois de convencida — de indiscretos falam por toda parte. Sim senhor. Mas podeis ter certeza de que não disse nada que não possa negar sob juramento. Oh céu! Que tinha… Que sei eu?… Que tinha… Deitado… Com ela ou em cima dela, o que quiserdes.

Dito isso.

Trabalha meu veneno! Trabalha! Desse modo é que pegamos os idiotas crédulos. E é assim, também, que muitas damas dignas e castas, sem senão, ficam faladas. Olá, senhor! Senhor, repito! Otelo! Não deveis recorrer a veneno; estrangulai-a no leito, no próprio leito que ela poluiu.

Dito isso.

Ide logo; não choreis; tudo ainda acaba bem.

Dito isso.

Não me pergunteis nada; o que sabeis, já sabeis. Não direi, de agora em diante, nem mais uma palavra.

( Todo o texto é feito de recortes de falas de Iago, no Otelo Shakespeare, a partir da tradução de Carlos Alberto Nunes.)

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crítica, xanto

XANTO | Ficção provisória, por exemplo no megamíni de Victor Heringer, por Luiz Guilherme Barbosa

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[Texto lido no dia 27 de março desse ano na Faculdade de Letras da UFRJ, no evento em homenagem ao Victor Heringer, que contou com as participações de Flavia Trocoli, Alberto Pucheu, Danielle Magalhães, Dimitri BR, Patrick Gert Bange, Leonardo Alves de Lima.]

Hoje volto aqui a esse auditório, retorno à Faculdade de Letras como ex-aluno para homenagear outro ex-aluno, com quem muitos de nós conviveu. Ter estado ao longo de anos sentando nessas salas e andando por esses corredores nos irmana como a todos que aqui estiveram e estão, estudam e trabalham. Mas foi noutro círculo, mais difuso, que convivemos um pouco e trocamos algumas palavras. Temos frequentado bares depois de lançamentos, temos lido livros depois de lançados e escrito nossas impressões pros autores, temos nos beijado e jogado futebol juntos e começado namoros e viajado juntos, temos cozinhado uns pros outros e editado livros e plaquetes uns dos outros, temos nos traduzido e brigado, temos produzido críticas uns dos outros e arrumado emprego uns pros outros, de repente o Victor era um de nós e estava do nosso lado e poderia ser ele a dizer, se quisesse, eu era um de nós, e era todos os outros. Quero dizer que convivemos, um pouco, principalmente no último ano. Trocávamos algumas palavras, nos encontrávamos às vezes, sempre em bando. Éramos dois ex-alunos daqui, aonde retorno hoje para dizer umas poucas palavras sobre ter estado, ter feito, ter convivido, ter conversado, ter escrito, ter estudado. Gostaria, assim, de dizer poucas palavras e me dirigir a vocês para lembrar do Victor no futuro, este que conheço no estranho encontro entre o que leio assinado pelo Victor Heringer e o que lembro dos encontros com o Victor. E só consigo falar desse depois pela frequentação do texto. Tenho lido. Insisto nessa expressão: o verbo ter, no presente, acompanhado de um particípio. Tenho lido. Alguma coisa começa nela para chegar ao texto que desejo ler hoje. Tenho lido textos do Victor e tenho lembrado dele, como uma amiga tem sonhado com ele, são coisas que têm acontecido, ou seja, estão acontecendo inscritas num tempo que já passou mas, pela frequência com que acontecem, é provável que continuem acontecendo. É nessa dúvida que me pego pensando: não digo que estou lendo e sim que tenho lido, esse tom parece mais próximo do que acontece. Se digo que estou lendo, é certo que continua acontecendo, agora, hoje ou hoje em dia, mas se digo que tenho lido, não é certo que continue acontecendo, e o futuro, na dúvida, existe como promessa, e rezamos. Esse tempo verbal, o pretérito perfeito composto, guarda mesmo esse aspecto daquilo que se repete e ainda não cessou de se repetir, guarda esse aspecto que a gramática denomina como iterativo imperfectivo, guarda a imperfeição de um evento que, repetindo-se, não se completou perfeitamente inteiro. Mas com esse nome, iterativo imperfectivo, não se nomeia a dúvida quanto ao que vem, eu digo que tenho lido mas não sei se, a partir de hoje, continuarei a ler. O presente é provisório. Parece que, dizendo assim, o que aconteceu e o que vai acontecer são o mesmo e o outro, não cabendo à imaginação decidir pelo que vem, suspensa na imperfeição do que acontece. Pode ser que aconteça, é possível, é verossímil. Se comecei a pensar no tempo e na gramática, não foi apenas porque vacilamos ao falar daquilo que amamos, antes é uma maneira de corrigir o verbo, o tempo do verbo, e dizer, em vez de dizer que conheci o Victor, que tenho conhecido o Victor. Se ambos fomos alunos da Faculdade de Letras da UFRJ mas, nesse momento, não somos mais, é mais certo dizer que temos sido alunos dessa Faculdade, do que dizer que fomos alunos dessa Faculdade. Pois mesmo ao dizer que somos ex-alunos, dizemos no presente e dizemos alunos, pois mesmo ao dizer que somos ex-alunos, há um traço que liga o não ser ao ser aluno. Temos sido alunos, todos, dessa Faculdade de Letras quando temos lido o Victor Heringer. Que leio como escritor, O escritor Victor Heringer. O retrato em forma de plaquete que Victor compôs num megamíni, em 2015, começa, talvez, com um rosto, talvez não. Sua assinatura como um ex-libris, Victor, na primeira página do livro, parece um rosto, de um ciclope. O V, o I e o T organizam a face, as linhas que se encontram no vértice do queixo, V, a linha do nariz que sobre até a testa e funde I a T, as orelhas C e R, e o olho, O, no meio da face. O retrato tipográfico do escritor Victor Heringer. Parece que a letra erra o rosto do escritor, falta um olho. Viro a página. Agora vejo as duas mãos do escritor Victor Heringer. Elas estão em close, sobre uma superfície lisa e clara, onde fazem sombra, e não sei, ao vê-las, se de fato são as suas mãos. Ambas estão em concha, posicionadas prestes a pegar algum objeto volumoso que se agarra com os dedos todos, mas menor do que a mão. Sapatos, um ferro de passar, o erê padroeiro, uma pedra de rio. Estão nuas, exceto por um band-aid no dedo indicador da mão direita. Olhando assim, não dá para saber qual é a destra, qual a canhota: a fotografia poderia mentir, editada. E ainda que, ao final da plaquete, esteja indicado que à esquerda está a mão esquerda e à direita, a direita, não sei qual delas tem mais destreza, qual a mais gauche. Temos escrito com as duas mãos. Elas compõem um verso em ritmo troqueu, um ritmo manco: “Tenho apenas duas mãos”. As mãos de quem escreve à máquina de escrever, ao teclado do computador, mãos de quem digita com as mãos vazias, dançando os dedos pelas teclas, sem nada que pegar para escrever: a máquina, não mais pena agarrada, excedeu as mãos e dispõe, para os olhos e o tato dos dedos, cada tipo possível que, combinados indefinidamente, compõem qualquer texto, e um rosto. Que, virando a página, o passaporte e a carteira de trabalho do escritor Victor Heringer sejam os próximos elementos fotografados, apenas confirma o território drummondiano em que nos mexemos, desamparado, irônico, apaixonado pelo verso: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo / mas estou cheio de escravos”. Mãos, passaporte, carteira de trabalho. Basta virar mais uma página para a estrofe se completar: vemos, segundo a descrição da imagem, os sapatos do pai morto, embora nada nele, gasto, de couro, os cadarços amarrados, confirme ao olhar a designação que recebe. Agora a estrofe está completa: mãos, passaporte, carteira de trabalho, sapatos do pai. “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo / mas estou cheio de escravos / minhas lembranças escorrem / e o corpo transige / na confluência do amor”. O escritor Victor Heringer compõe versos como quem fotografa. Seu procedimento parece estabelecer, entre realidade e ficção, uma relação irônica de repetição, a saber: esses sapatos que você vê fotografados e impressos na página são sapatos quaisquer. E quando lemos, ao final da plaquete, que são do pai os sapatos, e olhamos de novo para os sapatos, então agora esses sapatos são, para nós, que lemos, os sapatos do pai do escritor Victor Heringer. Não sabemos ao certo, nem mesmo temos indícios, na imagem, que confirmem, apesar do couro enrugado, de modo que nossa relação com a memória do sapato é ficcional, e por isso esse atributo abre um universo. Penso que esse procedimento, que eu gostaria de chamar, hoje, de ficção provisória, foi descrito em alguns versos de O escritor Victor Heringer:

 

o escritor vuitton heringuer
foi criado por babás que ele amava muito
foi com babás que o pequeno escritor vitorrérgin
conheceu a pobreza
não a pobreza abjeta, uma pobreza calma e brasileira
uma pobreza vraiment manuel bandeira

o estictor vtor heringcer
uma vez chutou o dedo de uma babá muito amada
porque ela não quis comprar canetinhas hidrocor
para o scriptor vitto err

aí a babá chorou e foi pra casa
aí o escrivirré ficou de castigo num quarto pobrezinho
aí a irmã da babá apareceu no quarto e disse:
vão ter que arrancar fora o dedo da babá amada!
o pqn esq vh quis morrer queimado, mas não
arrancaram o dedo não

& o écrivain vector hér aprendeu mais sobre a
arte da ficção com a irmã da babá amada do que
com todo o cânone ocidental, até mais do que
com flaubert e machado de assis, mais até do
que com joyce que só fala de igreja

 

No dia três de março, na abertura da exposição Rejuvenesça: poesia expandida hoje, com curadoria da Pollyana Quintela, esfreguei o chão do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Centro do Rio, acompanhado por três amigos. Augusto Melo Brandão, Lucas Van Hombeeck e Rafael Zacca. Nós escolhemos cinco livros com poemas, abrimos esses livros e começamos a esfregar, não sabíamos o que podia acontecer. Eu esfreguei Os cem melhores poemas brasileiros do século no chão. Houve um momento que eu esfregava as Galáxias, e a página ia se sujando de pequenos pontos pretos, depois de manchas pretas, o papel ia se gastando, depois rasgando, e o poema se tornando menos legível à medida que esfregava. Estávamos aos pés das pessoas que visitavam a exposição, imprimindo galáxias de sujeira nas páginas dos poemas, usando, além do livro, as duas mãos. Essa ação, parte de um trabalho maior chamado Conversa infinita, trabalhou, por exemplo, com a memória e a provisoriedade de textos canonizados. Temos lido esses poemas, não sei se continuaremos a lê-los dos mesmos modos. Nesse dia, eu e Victor nos cumprimentamos. Temos nos cumprimentado. Cinco dias depois, escrevi uma postagem para ele.

 

Postagem para Victor Heringer

teve um dia / eu tinha acabado de me casar
com a jessica / e era meu aniversário
tudo era uma festa / no apartamento novo
e o victor veio / e foi o primeiro futebol
e ele não jogou / ele disse ter pernas
de cimento / todos entenderam
mas até hoje / todos duvidam

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poesia, tradução

Hilde Domin, por Valeska Brinkmann

Hilde Domin (1909 – 2006) foi uma poetisa alemã de grande importância. Filha de judeus, depois de morar na Italia imigrou em 1932 para a Republica Dominicana, onde começou a escrever poemas e de onde se origina seu nome artístico (Domin). Ganhadora de inúmeros prêmios na Alemanha e condecorada com a Ordem del Merito, na República Dominicana. Publicou, entre muitos outros: Nur eine Rose als Stütze (poesia, 1959) e Ich will dich (poesia, 1970). Os poemas abaixo traduzidos são do volume: Rückkehr der Schiffe (poesia, 1962).

Valeska Brinkmann estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Radio e TV pública de Berlin, onde vive há 14 anos.Escreve contos e histórias para crianças. Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão/ Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

Rückker 

Meine Füße wunderten sich
daß neben ihnen Füße gingen
die sich nicht wunderten.

Ich, die ich barfuß gehe
und keine Spuren hinterlasse,
immer sah ich den Leuten auf die Schuhe.

Aber die Wege feierten
Wiedersehen
mit meinen schüchternen Füßen.

Am Haus meiner Kindheit blühte
im Februar
der Mandelbaum.

Ich hatte geträumt,
er werde blühen.

Volta

Meus pés se admiram
que ao lado deles caminham pés
que não se admiram

Eu, que descalça ando
e não deixo pegadas,
sempre olho as pessoas pelos sapatos

mas os caminhos comemoram
reencontros
com meus pés tímidos

Na casa da minha infância floreia
em fevereiro
a amendoeira

Eu tinha sonhado
que ela iria florear

§

Tauben im Regen

Meine Füße die viel gegangen sind,
meine Füße zwei Tauben
die jede Nacht
das Nest deiner Hände suchten,
meine Kinderfüße.

Die du weggewiesen hast,
sie sitzen im Regen
vor deiner Tür,
aneinander geschmiegt,
zwei Tauben im Regen,

meine Kinderfüße.

Pombas na Chuva

Meus pés que muito andaram
meus pés duas pombas
que cada noite
procuram o ninho das tuas mãos,
meus pés de criança.

Que tu afastaste
eles estão na chuva
na tua porta,
aconchegados um no outro
duas pombas na chuva,

meus pés de criança.

§

Traumwasser 

Traumwasser
voll ertrunkener Tage.

Traumwasser
steigt in de Straßen.

Traumwasser
schwemmt mich hinweg.

Água dos sonhos

Água dos sonhos
cheia de dias afogados.

Água dos sonhos
avança pelas ruas.

Água dos sonhos
me inunda adiante.

§

Flut 

Ich fühle, wie das unruhige
Wasser
deines Herzens steigt.

Ich bitte dich um nichts.

Lasse mich
ertrinken.
Rette das Bild.

Maré Cheia

Eu sinto, como a agitada
água
do teu coração sobe.

Nao te peço nada.

Deixa-me
afogar.
Salva a imagem.

§

Behütet 

Ich schlafe im Schutz
meiner Traurigkeit.
Das Leid wie das Glück
baut Mauern.

Ich, ohne Haus,
immer im Schutz dieser Mauer,
wo der Krieg
stillsteht.

Wo ich an der Wunde
von einer Taube
Brustfeder
sterbe.

Protegida

Eu durmo na proteção
da minha tristeza
O sofrimento, tal como a alegria
constrói muros.

Eu, sem casa,
sempre no abrigo desses muros,
onde a guerra
está quieta.

Onde eu em volta da ferida
das plumas do peito
de uma pomba
morro.

§

April

Die Welt riecht süß
nach Gestern.
Düfte sind dauerhaft.

Du öffnest das Fenster.
Alle Frühlinge
kommen herein mit diesem.

Frühling der mehr ist
als grüne Blätter.
Ein Kuß birgt alle Küsse.

Immer dieser glänzend glatte
Himmel über der Stadt,
in den die Straßen fließen.

Du weißt, der Winter
und der Schmerz
sind nichts, was umbringt.

Die Luft riecht heute süß
nach Gestern –
das süß nach Heute roch.

Abril

O mundo tem cheiro doce
de ontem
perfumes são duradouros

Tu abres a janela
todas as primaveras
entram com esta.

Primavera que é mais
que folhas verdes.
Um beijo contém todos os beijos.

Sempre esse liso brilhante
céu sob a cidade,
na qual as ruas fluem.

Tu sabes, o inverno
e a dor
não são o que mata.

O ar hoje tem cheiro doce
de ontem-
doce que cheira a hoje.

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