crítica, xanto

XANTO | o que as coisas mínimas ensinam sobre as revoluções: uma leitura de “a primavera das pragas” de ana carolina assis, por julya tavares

rascunho3

“rascunho” de joana lavôr para a capa do livro de ana carolina assis

e envolto em tempestade, decepado
entre os dentes segura a primavera
secos & molhados

“praga” é o nome que se dá a ervas ou pequenos animais que destroem plantas, móveis de madeira, livros; é, ainda, o nome da capital da república tcheca, lugar que historicamente teve um papel importante de resistência a um socialismo caduco e autoritário. outro uso muito frequente dessa palavra, em alguns lugares do brasil, se dá na zanga de mães e avós quando querem se referir a suas próprias crianças, que provavelmente estão a aprontar qualquer coisa. no livro bíblico, as dez pragas enviadas pelo deus de israel ao egito só tiveram fim após a libertação dos hebreus escravizados pelo faraó. com isso, pode-se dizer, de algum modo, que as pragas estão intimamente ligadas a desestabilizações, sejam elas políticas, ecossistêmicas ou familiares. ao mesmo tempo, parecem ser ainda as pragas a construir a via para alguma terra prometida possível, também ela política, afetiva e até mesmo ecossistêmica.
ao menos isso é o que imagino quando leio “a primavera das pragas”, livro de ana carolina assis que foi lançado pela editora 7letras em abril de 2019, mês que é o auge da primavera no hemisfério norte, mas não no hemisfério sul. quem tem a força de saber que existe? talvez essa seja uma possibilidade de formulação da pergunta que ana traz entre os dentes e, por meio desse livro, procura compartilhar, uma vez que a primavera, aqui, é das pequenas coisas: lesma, tardígrado, inseto, fungo, criança. porém, antes dos micromundos [alguns quase invisíveis], talvez seja importante pensar também a “primavera”, signo que nomeia a época do ano posterior ao inverno e certos movimentos revolucionários, como a própria primavera de praga [1968], que ecoa no título do livro, e a primavera árabe [2011], citada na orelha. entre a fase do recomeço para a agricultura e as revoluções, o que há para além da proposição de alguma novidade? no caso das estações, ainda, que novidade afinal seria essa, já que seu tempo é cíclico?
na mitologia grega, as estações do ano são explicadas a partir do episódio em que hades, deus do submundo, sequestra perséfone, filha de zeus e deméter. depois de algumas tentativas de trazer perséfone de volta de vez, zeus estabelece um acordo com hades: ela passará nove meses com a mãe, período correspondente à primavera, ao verão e ao outono, mas ficará os outros três, época do inverno, no submundo, ao lado do senhor dos mortos. com isso, pode-se dizer que a chegada da primavera, representada pelo retorno de perséfone à terra, é também um momento de abertura de uma espécie de canal de comunicação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. ou, de outro modo, a primavera se revela, pela figura de perséfone, uma mensageira das tensões entre o mundo das coisas expostas ao sol, visíveis, e o das coisas não tornadas à luz, invisíveis. em última instância, essa estação cria um circuito possível entre formas de vida distintas e sugere que o mesmo solo sustentador das dicotomias viabiliza contaminações inimagináveis.
nesse sentido, “a primavera das pragas” nos convoca a pensar uma possibilidade de leitura, menor mas não menos importante, dos trabalhos das revoluções: fazer das desestabilizações um espaço de criação de formas de estar no mundo. para isso, é preciso recuperar no corpo um sopro de vida atento à temporalidade e ao modo de funcionamento das coisas mínimas, do universo íntimo e familiar, dos bichos, do cotidiano. é preciso, ainda, reconhecer a linguagem poética como um lugar de experimentação de encontros e desencontros, afinal a comunicabilidade e a incomunicabilidade negociam o tempo todo os sentidos da graça e do horror. a casa não é o mundo, bicho não é gente, o micro não é o macro. mas, há algo de um que ressoa ou pode ressoar no outro: enxergar as diferenças, testar as contaminações.
o primeiro verso do poema que abre “a primavera das pragas” diz “seca seca seca”, como se anunciasse uma paisagem pro livro, a condição de secura do solo sobre o qual ele se firma. ao mesmo tempo, a palavra “seca” pode expressar uma ação no imperativo afirmativo, indicando que talvez haja algum líquido a escorrer dos poemas. por conta desse duplo sentido, a cena cotidiana narrada, de uma criança salgando lesmas para “controlar a febre na praia das pedrinhas”, adquire uma dimensão mais ampla e, a partir dela, é possível imaginar formas de ver a secura.

seca seca seca
aos sete anos adquiriu o costume
de salgar lesmas
pra controlar a febre na praia das pedrinhas

uma colher de sal
pra cada, a vó dizia
são animais viscosos

e por isso
demoram feito charque
– pela pele mole
sem a qual não
seriam brilho
hermafrodita translúcido
quando transam
sem a qual não
chiariam apitos ao desidratar
sem a qual não
seriam vínculo
de carne pouca
com a criança –

[…]

esse poema desenha ainda, pelas imagens da “pele mole e da “carne pouca”, uma aproximação entre a criança e a lesma, como se no processo de salgá-las a criança incorporasse alguma coisa da vida desses bichos. a “pele” aparece também em “[estrangeira parque d’água]”, dessa vez como matéria da fruta e das coxas da criança que sobe na árvore tendo os bichos como cúmplices: “o pássaro olha/ a criança que rasga coxas/ caule acima/ atrás de rasgar a pele da fruta/ depois de seis meses de espera/ os bichos se encaram/ o pássaro firma, cúmplice”. nesse caso, a aproximação entre a criança e a fruta se dá também pelo rasgo, por aquilo que imprime alguma diferença na pele, e mostra que alguns vínculos doem mais que outros.
em “caranguejo” e “bicho sem mar”, o líquido imaginado diante da secura ganha corpo, uma vez que esses poemas parecem rogar um mar em meio à sua própria ausência. o caranguejo e o siri, bichos em torno dos quais eles orbitam, transitam de esguelha entre ilha das flores e ipanema, o primeiro como “retroescavadeira/ na areia preta”, “carne pouca/ pra tanto lodo”, e o segundo como fonte de renda de “adolescentes doidas por um trocado”, entre calos e micoses. o que o mar sim aprende do sem mar?

entre lama
e fuzileiros navais
um caranguejo
de carne pouca
pra tanto lodo
ilha das flores

***

o caldo escorre pelos casacos
das adolescentes doidas por um trocado
debruçadas sobre a caixa úmida
o caldo
entra pelas unhas da vó verdes e ocas
muita micose
um quilo de siri agora custa
cinquenta reais em ipanema

o líquido que escorre, portanto, é viscoso, entre o cozimento, a decomposição e a lama, fazendo ecoar na imagem do mar, ainda que discretamente, as condições difíceis dos lugares marcados por sua ausência; dando a ver, ao mesmo tempo, o tanto que o mar se alimenta do sem mar.
esse último poema começa num tom instrutivo, indicando o passo a passo de como se deve desmontar algo que, a princípio, não se sabe exatamente o que é, mas logo adiante se revela nos versos “coração é coisa que desmonta/ feito caixa de siri cozido”. por meio dessa analogia, “bicho sem mar” sugere que as instruções servem para abrir tanto o bicho quanto o coração. ou seja, que é possível intercambiar modos de fazer entre diferentes esferas da vida e, principalmente, que os mais diversos usos das coisa, das formas de lidar com elas, são criados em nosso dia a dia. outros poemas também imaginam essas trocas, como é o caso de “samburá”:

um samburá serve
pra guardar peixes
uns sobre os outros enquanto
a pesca ainda acontece

é feito de cipó ou taquara
pra que a água escorra
não é feito pra pássaro

mas a vó eta prendeu a galinha, vó
você também fala tanto
de dar outro jeito nas coisas
as gambiarras as gambiarras.

[…]

o convívio familiar e os modos de organização da casa se apresentam como processos criativos que podem adquirir alguma autonomia e vazar da esfera íntima para outras esferas da vida, para outras vidas, como as revoluções, que criam formas de estar no mundo. “dar outro jeito nas coisas” não deixa de ser, ainda, um gesto de reconhecimento da falta, como a do mar em “bicho sem “mar”, mas também as que ecoam nos versos “houvesse gana cimento/ pegaríamos a br 101”; “tivéssemos dinheiro vontade/ compraríamos pão”, ambos de “[permanecem estáticas as pontes do boassú]”; e “tivesse dinheiro não tinha/ escolha ela dizia”, de “praga”. neles, a falta é usina de criação dos desejos, mas sobretudo reveladora da ausência de escolhas, da necessidade de fuga e de alguma fome. afinal, também algumas carências doem mais que outras.
as faltas anunciam, portanto, as ruínas do mundo e, como se pode fazer com o negativo de uma fotografia, levantam-no contra a luz, para que o que resta se deixe entrever. nesse instante, morte e vida convivem e negociam seus próprios sentidos: no centro da própria engrenagem, inventar contra a mola que resiste. em “[dona anita era seca]”, a figura da velha reúne deterioração e capacidade de encantamento, pois apesar de sua aparência caquética e de apresentar sinais de falência do corpo, ela se apaixona por um homem que não a rejeita de imediato, mas sim hesita:

dona anita era seca
amarela de velha
um dia se apaixonou pelo meu tio
entrava em casa quando o portão
era esquecido arreganhado
arrastava as pernas sequíssimas
era muita merda seca fedia tudo
dizia ao tio: que pão!
a vó gritava, espantava ela de casa, não dava tempo do tio decidir

tanto a cena da velha invadindo a casa portão adentro quanto essa espécie de indecisão do tio revelam um atravessamento do esperado pelo inesperado, do ordinário pelo extraordinário, e fazem com que convivam, a um só tempo, a decrepitude e algum sopro de vida, bem como a probabilidade e a improbabilidade de realização do amor. esse que, dona anita sabia, “tá sempre lascado nos veios secos”.
quem lê esse primeiro livro de ana carolina assis e se depara com as relações entre a ruína e a vida das coisas, bem como entre o esperado e o inesperado, pode reconhecer a força das desestabilizações. ou, de outro modo, diante das diferentes figurações da falta, do universo íntimo e familiar, dos bichos e da secura, tem a possibilidade de vislumbrar o mundo visível perfurado pelo invisível. de perceber, por fim, a escrita como um gesto de revolvimento da terra que separa e afirmação da existência daquilo que se ignora ou se prefere ignorar. quem tem a força de saber que existe?
agora, parece que o “quem” da pergunta imaginada pode ser nomeado de muitas formas e que cada uma delas inventa maneiras de trazer à tona os inúmeros universos que vivem apesar de pelo menos alguma indiferença. entre cascas de caranguejo, crostas, terra preta, cacos de vidro, revolver a terra parece ser um jeito de fazer com que surja algum líquido, substância capaz de contornar obstáculos ou arrebentá-los. são muitas as maneiras de abrir caminhos e, nesse sentido, acredito que “a primavera das pragas” ensaie formas revolucionárias possíveis. observar as mais variadas pragas do mundo; trazer a primavera nos dentes.

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Lucas Litrento

desdobros

Lucas Litrento é escritor, realizador cinematográfico e produtor cultural, vive na parte alta de Maceió. Como o Sobrevivendo no Inferno, nasceu em 1997. Estuda Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e integra os coletivos Mirante Cineclube e Pernoite. Os meninos iam pretos porque iam (Graciliano, 2019) é seu primeiro livro. O zine de poesia ROBYN (1TXW, 2020), foi lançado recentemente. TXOW, de contos, será lançado pela Edipucrs, como vencedor do primeiro Prêmio Delfos de Literatura. O livro também ganhou o Prêmio Malê de Literatura. Assina, com Janderson Felipe, o roteiro e a direção do curta-metragem Samuel foi trabalhar (em produção).

* * *

EXU

I

exu me deu um abraço
caminho caminho caminho
quantos braços
formando um outro braço
estendido pro abismo?

II

dentro do sopro
uma voz várias vezes
uma voz várias vezes
feito bússola dentro do sopro
tipo música dentro do corpo
uma voz várias vezes
uma voz

III

a repetição da roda:
só sabe onde termina

a porta giratória dos bancos
sempre trava a origem das ondas
onde começa o atlântico e termina o corpo preto?

IV

repetir o ponto
esperando que desçam
com respostas

e que o refrão
acabe em acalanto

V

caminho
caminho
caminho
acabe
acalanto

VI

vermelho e preto nas costas
a coluna em dobras, es-
trala

VII

a repetição da roda
é um sample
váriasvezesumavozváriasvezesumavozváriasvezesumavoz
todos os seus nomes ao mesmo tempo

§

prê

um sample de uma do d’angelo

há algo de indivisível na concha
jogada ao acaso no leito de um rio
algo de acalanto na meio de um vocativo
partícula carregada de desejo
prê
ensaiam carícias no invisível
no mesmo movimento de chamar
o que não pode se mover
quase um suspiro até as pernas
e as costelas também dizem
que tudo implode tudo é passível de dissolução
tudo é gozo se souberem fazer
sem recuar
o jogo é de mão única

§

01

frexta

vira uma página do muhammad speaks
como quem respira
não deixa que lhe tirem o ar
é ele quem fala a partir da fresta

foge sempre que betty dá à luz
a leveza das crianças é demais
pro seu corpo esguio feito de areia

com a cabeça encostada na janela do avião
cochila feito o menino que já foi
porque é um homem como todos os outros

seus passos são a geografia de uma encruzilhada
mas ainda é um homem
X é um homem como todos os outros

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poesia norte-americana, tradução

Angelina Weld Grimké, por Mariana Correia Santos

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Angelina Weld Grimké foi poeta, dramaturga, jornalista e professora, nasceu em Boston, Massachusetts (EUA), em 1880, numa família miscigenada e influente no movimento abolicionista: suas tias-avós eram Angelina e Sarah Grimké, famosas sufragistas; seu pai era Archibald Grimké, segundo negro a se formar na Universidade Harvard e vice-presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor).

É mais conhecida por seu trabalho poético e pela peça anti-racista “Rachel” (1916), cuja montagem a colocou entre os primeiros dramaturgos estadunidenses negros a terem peças performadas publicamente. Em poesia, Grimké é descrita como uma autora sentimental, mais voltada às experiências subjetivas – em temas como o amor perdido, o desejo frustrado –, se comparada aos demais escritores negros contemporâneos a ela. No entanto, alguns de seus poemas parecem se abrir para experiências daqui e de lá em encontro. Seus ensaios, contos e peças concentram sua produção mais expressamente social, ao abordar com destaque o linchamento e o racismo institucional.

Foi um nome importante para o Harlem Renaissance. Seus poemas apareceram em antologias editadas por Langston Hughes e Countee Cullen, e em periódicos da época. Publicou pouco em vida. Teve parte de seu trabalho editado postumamente pela Oxford University Press no volume The Selected Works of Angelina Weld Grimké (1991). Deixou diários e cartas, que indicam que era lésbica. Morreu na cidade de Nova Iorque, em 1958.

Mariana Correia Santos

*

Your Hands

I love your hands:
They are big hands, firm hands, gentle hands;
Hair grows on the back near the wrist……
I have seen the nails broken and stained
From hard work.
And yet, when you touch me,
I grow small ………and quiet………
………And happy………
If I might only grow small enough
To curl up into the hollow of your palm,
Your left palm,
Curl up, lie close and cling,
So that I might know myself always there,
………Even if you forgot.


As suas mãos

Amo suas mãos:
São mãos grandes, mãos firmes, mãos gentis;
Pelos crescem atrás, próximos ao pulso……
Conheço suas unhas quebradas e manchadas
Do trabalho duro.
Ainda assim, quando me toca,
Me apequeno…………. e me aquieto………..
……………….E me alegro……………………..
Se eu pudesse apenas ficar pequena o bastante
Para me encaixar no vão da sua palma,
Sua palma esquerda,
Me encaixar, deitar rente e me apegar,
Para que eu me encontre sempre lá,
………………Ainda que você me esqueça.

§

The Black Child

I saw a little black child
Sitting in a gold circle of sunlight;
And in his little black hand,
He had a little black stick,
And he was beating, beating,
With his little black stick,
The sunlight all about him,
           And laughing, laughing. 

And he was so fat,
There were dimples at his tiny, wriggling toes,
            And at his knees,
           And at his elbows,
          And at his fingers,
        And in his cheeks,
       And in his little chin. 

And his black hair was plaited
          Into innumerable, little braids,
                    All over his little head;
        Very even, very fine, very cunning,
                 They were. 

And his skin was ebon, beautiful,
With a bloom, a shining gleam upon it.
O! he was all black,
          Save for his tiny white teeth
         And the whites of his eyes,
        And the white cloth about his little middle.

And he sat in the gold circle of sunlight
        Kicking with his little feet,
        And wriggling his little toes,
       And beating, beating
      The sunlight all about him,
     With his little black stick,
     And laughing, laughing. 

And the circle of gold slipped tip-toeing away,
          Tiptoeing away from the little black child.
          And a little black hand slid into the shadows,
                     Into black shadows,
        And a little black leg,
       And a little black foot,
      And the half of a little black braided head,
      And a little black shoulder,
     And a little black beating stick,
     And a little black beating hand,
    And all that was left,
   At the edge of the circle of gold,
   Was a little black kicking foot
               And little black wriggling toes
              Wriggling – wriggling – gone! 

A little black child
            Sat in the black shadows,
            Kicking with his little feet,
           And wriggling his little toes,
          And beating, beating
         The shadows all about him,
         With his little black stick,
         And laughing, laughing.

A criança negra

Vi uma pequena criança negra
Sentada em um círculo dourado de sol;
E em sua mãozinha negra
Ela tinha um pequeno galho preto,
E ela batia e batia
Com seu pequeno galho preto,
A luz do sol sobre ela toda,
E ela rindo, rindo.

E era tão gorda,
Com dobrinhas em seus agitados dedinhos do pé,
E em seus joelhos,
E em seus cotovelos,
E em seus dedos das mãos,
E em suas bochechas,
E em seu pequeno queixo.

E seu cabelo negro estava entrançado
Em inumeráveis trancinhas,
Por toda a sua cabecinha;
Bem-feitas, bem bonitas, bem engenhosas,
Elas eram.

E sua pele era retinta, linda,
Com certo florescer sobre ela, um brilho luminoso.
Ah! era toda negra,
Exceto os seus dentinhos brancos,
E o branco de seus olhos,
E o tecido branco sobre seu corpinho.

E sentava-se em um círculo dourado de sol
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
A luz do sol sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

E o círculo de ouro foi embora de fininho,
De fininho para longe da pequena criança negra.
E uma mãozinha negra escorregou para as sombras,
Para as negras sombras,
E uma perninha negra,
E um pezinho negro,
E parte de uma cabecinha negra trançada,
E um ombrinho negro,
E um pequeno galho preto batendo,
E uma mãozinha negra batendo,
E tudo o que restou,
Nas margens do círculo de ouro,
Foi um pezinho negro chutando
E dedinhos negros contorcendo-se
Contorcendo-se – contorcendo-se – findos!

Uma pequena criança negra
Sentada em sombras negras,
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
As sombras sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

§

Tenebris

There is a tree, by day,
That, at night,
Has a shadow,
A hand huge and black,
With fingers long and black.
        All through the dark,
Against the white man’s house,
        In the little wind,
The black hand plucks and plucks
       At the bricks.
The bricks are the color of blood and very small.
        Is it a black hand,
       Or is it a shadow?

Tenebris

Há uma árvore, na manhã,
Que, à noite,
Forma uma sombra,
Uma mão enorme e negra,
De dedos longos e negros.
Por todo o negrume,
Contra a casa do branco,
Ao menor vento,
A mão negra cutuca e cutuca
Os tijolos.
Os tijolos são da cor de sangue e bem pequenos.
É ela uma mão negra
Ou é uma sombra?

§

Fragment

I am the woman with the black black skin
I am the laughing woman with the black black face
I am living in the cellars and in every crowded place
     I am toiling just to eat
  In the cold and in the heat
     And I laugh
I am the laughing woman who’s forgotten how to weep
I am the laughing woman who’s afraid to go to sleep

Fragmento

Sou a mulher da preta preta pele
Sou a mulher que ri de preto preto rosto
Vivo nos porões e em lugares lotados
Trabalho só para comer
No frio e no calor
E rio
Sou a mulher que ri que esqueceu como chorar
Sou a mulher que ri que teme ir deitar

§

El Beso

Twilight – and you,
Quiet – the stars;
Snare of the shine of your teeth,
Your provocative laughter,
The gloom of your hair;
Lure of you, eye and lip;
Yearning, yearning,
Languor, surrender;
           Your mouth,
And madness, madness,
Tremulous, breathless, flaming,
The space of a sigh;
Then awakening – remembrance,
Pain, regret – your sobbing;
And again quiet – the stars,
Twilight – and you.

El beso

O crepúsculo – e você,
Quieta – a estrela;
A armadilha do brilho de seus dentes,
Sua risada provocativa,
A melancolia em seus cabelos;
Seu ardil, olhos e lábios;
Ansiando, ansiando,
Languidez, entrega;
Sua boca,
E insanidade, insanidade,
Trêmula, arfante, ardente,
O espaço de um suspiro;
Então acordar – lembrança,
Dor, arrependimento – os seus soluços;
E quieta, novamente – a estrela,
O crepúsculo – e você.

§

A Winter Twilight

A silence slipping around like death,
Yet chased by a whisper, a sigh, a breath;
One group of trees, lean, naked and cold,
Inking their cress ‘gainst a sky green-gold; 

One path that knows where the corn flowers were;
Lonely, apart, unyielding, one fir;
And over it softly leaning down,
One star that I loved ere the fields went brown

Um crepúsculo de inverno
Um silêncio ao redor como a morte desliza,
Ainda que seguido por um sussurro, um suspiro, um respirar;
Um grupo de árvores magras, nuas e frias,
Tingindo contra um céu verde e dourado as suas copas;

Um caminho que sabe onde ficam as flores do milho;
Solitárias, afastadas, inabaláveis, um abeto;
E inclinando-se suavemente sobre elas, por mim amada
Antes dos campos tornarem-se marrons, uma estrela.

§

Mariana Correia Santos (1996) é poeta, escritora, tradutora e assistente editorial. Nasceu em Guarujá, na Baixada Santista. Vive em São Paulo e cursa graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP), na qual se concentra em estudos de poesia, tradução e sociedade. Participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas. Publicou poemas na Revista Lavoura e no projeto Sutura, e traduções na revista catalã sèrieAlfa e nas Notícias de outras ilhas, da Revista Cult. É autora da plaquete independente de poesia espaços íntimos (2019). marianacorreiasantos.com.

*

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Poesia Brasileira Contemporânea

Mari Matos

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Mari Matos (1991, São Paulo/SP) é uma poeta e escritora que começou a escrever quase que por acidente e muito despretensiosamente. Fala sobre as violências e afetividades que atravessam a vida da mulher negra. É formada em psicologia e possui mestrado pela Universidade de Glasgow.

*

Ofereci um buquê de ervas
Para as deusas
Pedi a cura de você

Há quem ache louca uma mulher nua a dançar com um buquê de ervas
Mas eu uso a palavra
“Livre”

§

Se eu toco minha pele
Consigo sentir o toque de cada uma das mãos que já me percorreu
Consigo ouvir cada uma das vozes que já me descreveu
Sinto os buracos do que foi roubado
A moldura do que me foi feito
Se eu toco a minha pele sinto meus dedos gelados
Passando por pelos que eu já não podo mais
Por traços que me são ancestrais
Se eu me olho no espelho
digo que sou uma mulher muito melhor do que sonhei
Se eu olho para dentro
Percebo um corpo que sempre se empresta para a necessidade de outras pessoas
e tenho a dor de saber que ainda não sei quem eu sou para além do que deixei que fizessem de mim
Se eu toco a minha pele
No silêncio de uma casa que pela primeira vez é só minha
Cercada por um monte de móveis a montar e pertences que ainda não sei onde colocar
Começo a sentir um prazer discreto
E solto um choro engasgado
Me perguntando se isso é começar a existir
30 anos depois de ter nascido

§

Entre uma violência e outra
Eles nos mandam sorrir
Parei com o gesto
Para não lhes dar a satisfação
Depois percebi
Que quando o sorriso é genuíno
Não gostam
Mulher feliz
É uma revolução

§

Tem mulheres pretas se amando
O povo todo escandalizado
A vizinhança se põe a falar
Vem a família julgar
Dizer que é errado
A avó diz que não é de Deus
Os pais decepcionados

Tanta desaprovação que fica claro
que no Brasil
Se abraça o genocídio
Se aceita a violência doméstica
Ignora-se a tragédia
E só indigna-se
Quando tem mulheres pretas se amando

Por mulheres pretas se amarem
As pessoas ficam mais escandalizadas do que com o fato de que morrem 13 mulheres assassinadas por dia no Brasil
A maior parte nas mãos de companheiros, pais, irmãos
E quem mais morre são as mulheres pretas
Sem amor algum
É sempre bom lembrar que
Tem mulheres pretas se amando
Para ninguém tentar apagar essa história (ou a vida) em nome do Senhor
E você está certo
Elas anunciam o fim da mundo tal como ele é
Neste país que foi construído em cima do trabalho escravo de mulheres pretas e do estupro de seus corpos

Por isso, repito
Tem mulheres pretas se amando
Não foi perfeito
Não foi à primeira vista
Não foi sempre fácil
Mas construído com carinho
Descoberto diariamente
Por quem ancestralmente
É impedida de amar em paz

Tem sim mulheres pretas se amando
Ouvi boatos de que sorriem como nunca
Sorrisos largos em lábios cheios
E que às vezes ficam na dúvida se sorriem, riem ou beijam
Tentando sincronizar os movimentos de alegria

Tem mulheres pretas se amando
Se encaixando perfeitamente em abraços
Se encaixando perfeitamente em outras coisas mais (se é que você me entende)

Tem mulheres pretas se amando
Há quem diga que é pecado ou revolução
um desastre ou desconstrução
Mas o importante é saber que
Tem mulheres pretas se amando
Amadas
-que sorte a nossa, ein

*

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poesia, tradução

Miriam Adelman

miriam and apollo (1 de 1)

Miriam e Apollo

Miriam Adelman nasceu, em 1955, em Milwaukee, Wisconsin (EUA). Aos 19 anos, encontrou seus primeiros caminhos “para o mundo”, indo para o México, onde permaneceu por 9 anos, dedicando-se, entre outras coisas, aos estudos em Sociologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Mora em Curitiba, desde 1991, onde é professora da UFPR. Além de lecionar nos programas de pós-graduação em Sociologia e Estudos Literários dessa instituição, dedica-se às paixões literárias, à fotografia, ao feminismo e às atividades equestres. Seu primeiro livro de poemas, multilíngue, Found in translation, encontra-se no prelo e deve ser lançado ainda em 2020, pela nosotros, editorial. Seguem alguns poemas desta publicação, em autotradução.

*

lost in translation

not really a poet
this girl
caught
between languages
and  caught
                    também
in a speeding car
winding down
every now
and then
for a closer take
on the landscape.

what a life loses
or gains
in translation,

that
is
the
question…

lost in translation

pas vraiment une poète,
cette fille
prise
entre des langues
et prise
    também
dans une voiture
qui roule trop vite
qui ralentit

de temps

en temps,
pour qu’elle puisse capturer
un peu de paysage.

Ce que la vie perd

ou gagne
en traduction,

voilà
la
question …

lost in translation

não é realmente poeta
esta moça
    presa
entre línguas
 e presa
       as well
num veículo em alta velocidade
que apenas desacelera
     de tempos
          em tempos
para facilitar a vista da
paisagem. 

O que uma vida perde
     ou ganha
   na tradução,            

    eis
       a questão…

§

war stories

 The daily underside of war slips away.
There were those who heard nothing, not even the distant
howl of wolves when their woods went up in smoke and skin
and those who missed not even the shy boys, the ones who
were dragged away, nor the rowdy who wanted to
flee when word turned to act.  In some villages
there were those who held out in the commonplace –
the card game at the tavern, the habitual visit to the
dressmaker,  reminded of dance halls or debutant daughters.
There were, like there always are, those who stashed away
tidbits of food, or those who picked the last apples nestled in branches,
then slipped away from the fields, handing the thin slices out
to the children hiding in the grass near the train tracks.
We will never know the exact numbers:  those left hidden
in attics or wine cellars, or on some tumultuous night
or in some heart that fled into madness. The stories  they told
were constantly changing:  in the sunshine, under the moon
or when the rain washed away some of the blood,
vestiges, ashes. The bones however remained a bit longer,
slowly bleaching  in ever-returning summer. And the names
and departures we cannot ascertain. We know only
that the most urgent lessons are the ones never learned.  Easier it is
to feed our little ghouls from our hands, hover over the last of
the crumbs, tie dirty rags around mouths full of words,
nurture slowly but surely a wretched imagination
unable to remember, unable to forget.

histórias de guerra

A história cotidiana da guerra se esfuma.
Há quem não escutou nem o uivo longínquo dos lobos
quando seu bosque virou todo fumaça e pele humana.
Há quem não sentiu a falta dos rapazes tímidos, dos arrastados
ou mesmo dos brabos, esses que se arrependeram quando passou-se
de palavra ao fato. Em certas cidades, havia quem se dedicasse
ao corriqueiro: ao jogo de baralho na cantina do bairro ou à visita
costumeira à costureira, pensando ainda no baile ou nas filhas debutantes.
Havia, como sempre, quem escondia o escasso alimento
assim como aqueles que repartiam o último pão ou colhiam
as maçãs ainda aninhadas  nos galhos e saíam pelos campos
distribuindo as fatias magras entre as crianças escondidas no
capim ao lado dos trilhos. Nunca saberemos exatamente quantos:
os  perseguidos escondidos no porão ou na cava
numa noite rebelde, ou num coração refugiado na loucura.
Sempre contavam versões que mudavam: com o sol, a lua,
com a chuva que limpava um pouco do sangue,
dos restos humanos, das cinzas. Os ossos ficam,
embranquecendo uns tempos sob um verão que sempre volta,
e nunca saberemos os nomes, as partidas – somente
que as lições mais urgentes nunca se aprendem. Mais fácil é
alimentar os pequenos monstros, vigiar as últimas migalhas,
amarrar o pano na boca das palavras, cultivar – aos poucos – apenas uma
aleijada imaginação, que não consegue nem lembrar
nem esquecer.

§

This is not a love poem

Hey babe, just in case you haven’t noticed
we are not nor have we ever been in
Hollywood.  There are girls out there for you, a plethora
though  not one with Angelina’s eyes and mouth, Raquel´s
bra-size and a roll of witty comments all written
into the script. No one out there for me
as sleek and daring and charming as Johnny, and of course,
no endings with that perfect closure  of babies
and no-place-like -home.
Around here things are looking more like a freak show
these days, the littered carnival grounds where –
after hours – a few desperate creatures come scampering
in to scavenge,  or like many unedited hours of footage,
and when the lights go on or when the sun comes up &
i am here alone with my headache and you,
across town, with your change strewn
across the floor to remind how much you spent
last night, looking for happiness or at least
a few tired moments of pleasure.

Hey babe, this is just the first cold winter of a
new millennium where we can still sit in warm cafés and read
the newspaper and argue about the worth of our words. Put your
pen to the paper. Love your daughter. Open your heart and
this time, don’t be late: next train to paradise, quarter past twelve.

 

Este não é um poema de amor

 Ei, meu anjo, caso você não tenha percebido
não estamos, nunca estivemos em
Hollywood. Há muitas garotas aí pra você, verdadeira riqueza
mas nenhuma tal qual suas estrelas prediletas, os olhos de Angelina,
o busto da Raquel e esse monte de falas espirituosas formando parte
no roteiro.
Nem tem ninguém para mim assim elegante e ousado
Nem desfecho perfeito de bebês, doce lar.
Por aqui as coisas são mais parecidas
com um show de horrores ou com o final do circo
– criaturas desesperadas para recolher os dejetos –
ou como muitas horas de filmagem
sem editar e quando as luzes acendem ou o sol nasce,
tô aqui sozinha com minha dor de cabeça e você,
do outro lado da cidade, com suas moedas espalhadas
pelo chão para se lembrar do quanto
gastou ontem à noite, em busca de felicidade
ou de alguns momentos fatigados de prazer. 

Ei, meu anjo, este é apenas o primeiro inverno frio do
novo milênio e ainda podemos nos sentar em cafés quentes,
lendo jornal e discutindo o valor das palavras.
Coloque seu lápis no papel. Ame sua filha.
Abra seu coração e desta vez, não se atrase:
próximo trem ao paraíso, às doze e quinze.

§

A matter of water

We were all glad when
the rain came. Not quite
the violent tide, but some
remnant of the sea
for this hot interior. Days of
breathing in a useless earth.
And then the water, in one
sudden flood, enough
at least to overflow the river,
crack the old bridge in two,
push the floating debris down
a few miles:  a doll without arms,
plethora of plastics, spineless
bed frame. Water was once

the least of our worries.
Now you see, things are
simpler: a matter of breath,
of liquids, or where you can
place a hand, put down
a foot.

 

Questão de água

Tão felizes ficamos quando chegou
a chuva. Não exatamente a maré
copiosa, mas bem um vestígio de
mar para este interior quente. Dias
de respirar uma terra inútil. Até
vir a água, enchente abrupta,
suficiente, então, para transbordar
o rio,  partir a velha ponte em
duas, empurrar detritos flutuantes
corrente abaixo: uma boneca sem braços,
infindáveis plásticos, uma armação de
cama desvertebrada. A água já foi
o que menos angustiava. Agora, você
vê, tudo se tornou tão simples: é
questão de ar, de líquidos ou de um
lugar para colocar um pé, uma
mão.

*

Padrão
poesia, tradução

Forough Farrokhzad, por Thaís Chagas

ff

Forough Farrokhzad foi uma poeta e cineasta nascida no Teerã, Irã em 1934. Sua escrita fala sobre a falha das convenções familiares, a tentativa redenção através da espera, a solidão e o amor. A obra de Forough apresenta o não-trânsito na vida de uma mulher independente e separada na sociedade iraniana nas décadas de 1950 e 1960. Além disso, sua linguagem poética alia espaços e ações domésticas ao desconforto da injustiça. Em seus textos, o amor cresce e é o fio necessário da escrita. Os poemas aqui traduzidos são da obra Tavalodi Digar (تولدی دیگر) de 1964.

* * *

outro nascimento (تولدی دیگر )

toda minh’alma é canto obscuro
que te atravessa
que te carrega à aurora
da eterna evolução e florescer
neste canto te sussurro, ah
neste canto te cubro
de árvore
de água
de fogo

talvez a vida seja
uma longa rua onde uma mulher
com uma cesta caminha todos os dias

talvez a vida seja
uma corda com que um homem
que se enforca num galho
talvez a vida seja uma criança
que volta da escola para casa

talvez a vida seja
o acender de cigarro do fumante
que repousa entre dois amantes
ou o olhar vazio de um transeunte
que levanta seu chapéu a outro transeunte
com um vazio sorriso e bom dia

talvez a vida seja
aquele momento íntimo
quando meu olhar
se destrói nas pupilas
dos seus olhos
com a sensação
que me uno a percepção
da lua
e a recepção da escuridão
noturna,

numa sala
grande como a solidão
meu coração
grande como o amor
olha aos simples pretextos
de sua felicidade
ao murchar das flores
nos vasos
a muda que você plantou
no nosso canteiro
ao som dos canários
que cantam para janela, ah

este é meu terreno
este é meu terreno

meu terreno é
um céu que me tomam
com o cair das cortinas
meu terreno é
a queda de uma escada
abandonada
que se recupera entre
a podridão e a nostalgia
meu terreno é
o caminhar triste ao jardim
das memórias
e morre com pesar da voz
que me diz
eu amo tuas mãos

plantarei no jardim minhas mãos
germinarei — eu sei, eu sei, eu sei
e as andorinhas ovos botarão
nos buracos dos meus dedos sujos
de tinta

colocarei brincos de cereja
nas minhas orelhas
colocarei pétalas de dália
nas minhas unhas

há um beco onde
os meninos que me amavam
ainda têm cabelos bagunçados,
pernas magras e pescoços finos
e pensam nos sorrisos ingênuos
de uma menina
que uma noite foi soprada
pela ventania

há um beco onde
meu coração foi roubado
das ruas de minha infância

a jornada de um tipo de linha do tempo
cobre a linha do tempo com o tipo
um tipo consciente da imagem
que retorna com prazer do espelho

e é dessa maneira
que alguém morre
e alguém permanece

não há pescador que pérola ache
num riacho
feito poça de tão vazio

conheço uma pequena fada triste
que mora no oceano
e tão sutilmente
toca seu coração
na flauta mágica
uma pequena fada triste
que morre com um beijo
toda noite
que renasce com um beijo
toda aurora

تولدی دیگر

همه هستی من ایه تاریکیست
که ترا در خود تکرار کنان
به سحرگاه شکفتن ها و رستن های ابدی خواهد برد
من در این ایه ترا آه کشیدم آه
من در این ایه ترا
به درخت و آب و آتش پیوند زدم
زندگی شاید
یک خیابان درازست که هر روز زنی با زنبیلی از آن می گذرد
زندگی شاید
ریسمانیست که مردی با آن خود را از شاخه می آویزد
زندگی شاید طفلی است که از مدرسه بر میگردد
زندگی شاید افروختن سیگاری باشد در فاصله رخوتنک دو همآغوشی
یا عبور گیج رهگذری باشد
که کلاه از سر بر میدارد
و به یک رهگذر دیگر با لبخندی بی معنی می گوید صبح بخیر
زندگی شاید آن لحظه مسدودیست
که نگاه من در نی نی چشمان تو خود را ویران می سازد
و در این حسی است
که من آن را با ادرک ماه و با دریافت ظلمت خواهم آمیخت
در اتاقی که به اندازه یک تنهاییست
دل من
که به اندازه یک عشقست
به بهانه های ساده خوشبختی خود می نگرد
به زوال زیبای گلها در گلدان
به نهالی که تو در باغچه خانه مان کاشته ای
و به آواز قناری ها
که به اندازه یک پنجره می خوانند
آه …
سهم من اینست
سهم من اینست
سهم من
آسمانیست که آویختن پرده ای آن را از من می گیرد
سهم من پایین رفتن از یک پله متروکست
و به چیزی در پوسیدگی و غربت واصل گشتن
سهم من گردش حزن آلودی در باغ خاطره هاست
و در اندوه صدایی جان دادن که به من می گوید
دستهایت را دوست میدارم
دستهایم را در باغچه می کارم
سبز خواهم شد می دانم می دانم می دانم
و پرستو ها در گودی انگشتان جوهریم
تخم خواهند گذاشت
گوشواری به دو گوشم می آویزم
از دو گیلاس سرخ همزاد
و به ناخن هایم برگ گل کوکب می چسبانم
کوچه ای هست که در آنجا
پسرانی که به من عاشق بودند هنوز
با همان موهای درهم و گردن های باریک و پاهای لاغر
به تبسم معصوم دخترکی می اندیشند که یک شب او را باد با خود برد
کوچه ای هست که قلب من آن را
از محله های کودکیم دزدیده ست
سفر حجمی در خط زمان
و به حجمی خط خشک زمان را آبستن کردن
حجمی از تصویری آگاه
که ز مهمانی یک اینه بر میگردد
و بدینسانست
که کسی می میرد
و کسی می ماند
هیچ صیادی در جوی حقیری که به گودالی می ریزد مرواریدی صید نخواهد کرد
من
پری کوچک غمگینی را
می شناسم که در اقیانوسی مسکن دارد
و دلش را در یک نی لبک چوبین
می نوازد آرام آرام
پری کوچک غمگینی که شب از یک بوسه می میرد
و سحرگاه از یک بوسه به دنیا خواهد آمد

 

§

janela (پنجره )

uma janela é suficiente
uma janela para olhar
uma janela para ouvir
uma janela
que chegue ao coração da terra
feito o aro do poço até seu fim
que se abra para alcançar a área
da constante benevolência azul

uma janela
que encha as pequenas mãos da solidão
com noturna recompensa de estrelas generosas

uma janela que invoque o sol
pela estranheza dos gerânios

uma janela me servirá

venho da terra natal das bonecas
embaixo dos tons
das árvores de papel
do jardim de um álbum de fotos
das estações inférteis
de amores desérticos
de áridos locais da inocência
dos anos de cultivo pálido
das letras do alfabeto
detrás das mesas
de escolas tuberculosas
do minuto que as crianças
escrevem “pedra” no quadro
e pássaros frenéticos voam
para galhos secos da velha árvore

venho do núcleo das raízes
de plantas carnívoras
com minha mente inundada
pelo terrível grito da borboleta
seca, com alfinetes crucificada
dentro do caderno

quando minha confiança
foi pendurada pelo frágil fio da justiça
desta cidade, apagaram minha luz

quando o escuro lenço da lei
vendou os olhos inocentes
do meu amor

quando fontes de sangue
jorraram por todas as veias
dos meus sonhos

quando minha vida nada era
além do tiquetaque do relógio
percebo que
preciso
preciso
preciso amar
loucamente

uma janela me servirá

uma janela para o momento de lucidez,
de luz
de paz

agora a muda da nogueira
está tão alta, tão alta, tão alta
que já posso contar a história
do muro para as jovens folhas

pergunte ao espelho
o nome do salvador
o tremor da terra embaixo
de seus pés
não é mais solitário que você?

os profetas trouxeram
a missão da destruição
de nosso século
as consecutivas explosões
e nuvens envenenadas
não são a reverberação
dos versos sagrados?

você, camarada,
confidente, irmão,
quando você alcança
a lua, escreve a história
do massacre das flores

os sonhos sempre caem
de ingênuas alturas e morrem.

eu cheiro o trevo
de quatro folhas
que cresce no túmulo
das crenças arcaicas

não é a mulher
enterrada no sacro
caixão da esperança
o vestígio
da minha juventude?

subirei os degraus
da curiosidade
para saudar o bom deus
que passeia na cobertura?

sinto que o tempo passou
sinto que o momento
é a minha parte das páginas
de história
sinto que a mesa
é a falsa distância
entre minhas madeixas
e as mãos deste triste estranho

fale comigo
o que mais alguém
que te oferece
a doçura da carne
quer de você?
nada além de sentir
o calor da vida

fale comigo
sou a janela do refúgio
sou ligada ao sol.

پنجره

یک پنجره برای دیدن
یک پنجره برای شنیدن
یک پنجره که مثل حلقه ی چاهی
در انتهای خود به قلب زمین می رسد
و باز می شود به سوی وسعت این مهربانی مکرر آبی رنگ
یک پنجره که دست های کوچک تنهایی را
از بخشش شبانه ی عطر ستاره های کریم
سرشار میکند
و می شود از آنجا
خورشید را به غربت گل های شمعدانی مهمان کرد
یک پنجره برای من کافی است.

من از دیار عروسکها می آیم،

از زیر سایه های درختان کاغذی
در باغ یک کتاب مصور
از فصل های خشک تجربه های عقیم دوستی و عشق
در کوچه های خاکی معصومیت
از سال های رشد حروف پریده رنگ الفبا
در پشت میز های مدرسه مسلول
از لحظه ای که بچه ها توانستند
بر روی تخته حرف سنگ را بنویسند
و سارهای سراسیمه از درخت کهنسال پر زدند.
من از میان
ریشه های گیاهان گوشتخوار می آیم
و مغز من هنوز
لبریز از صدای وحشت پروانه ای است که او را
دردفتری به سنجاقی
مصلوب کرده بودند.

وقتی که اعتماد من از ریسمان سست عدالت آویزان بود
و در تمام شهر
قلب چراغ های مرا تکه تکه می کردند،
وقتی که چشم های کودکانه عشق مرا
با دستمال تیره قانون می بستند
و از شقیقه های مضطرب آرزوی من
فواره های خون به بیرون می پاشید،
وقتی که زندگی من دیگر
چیزی نبود هیچ چیز بجز تیک تاک ساعت دیواری
دریافتم باید باید باید
دیوانه وار دوست بدارم

یک پنجره برای من کافی است،
یک پنجره به لحظه ی آگاهی و نگاه و سکوت.
اکنون نهال گردو
آن قدر قد کشیده که دیوار را برای برگهای جوانش
معنی کند.

از آینه بپرس
نام نجات دهنده ات را،
آیا زمین که زیر پای تو می لرزد
تنها تر از تو نیست ؟
پیغمبران رسالت ویرانی را
با خود به قرن ما آوردند.
این انفجار های پیاپی
و ابرهای مسموم
آیا طنین آینه های مقدس هستند ؟
ای دوست، ای برادر، ای همخون،
وقتی به ماه رسیدی
تاریخ قتل عام گل ها را بنویس.

همیشه خوابها
از ارتفاع ساده لوحی خود پرت می شوند و می میرند.
من شبدر چهار پری را می بویم
که روی گور مفاهیم کهنه رویید است.

آیا زنی که در کفن انتظار و عصمت خود خاک شد جوانی من بود ؟
آیا دوباره من از پله های کنجکاوی خود بالا خواهم رفت
تا به خدای خوب که در پشت بام خانه قدم می زند سلام بگویم ؟

حس می کنم که وقت گذشته است.
حس می کنم که “لحظه” سهم من از برگهای تاریخ است.
حس میکنم که میز فاصله ی کاذبی است میان گیسوان من و دستهای این غریبه ی غمگین.

حرفی به من بزن،
آیا کسی که مهربانی یک جسم زنده را به تو می بخشد
جز درک حس زنده بودن از تو چه می خواهد ؟

حرفی بزن،
من در پناه پنجره ام.
با آفتاب رابطه دارم.

 

* * *
Thaís Chagas (1993) é formanda em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professora e revisora. Também atua como pesquisadora em literatura contemporânea e se interessa por traduções do persa e árabe. Lançou seu primeiro livro Alinhavar (2019). pela Editora Urutau.

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

João Gabriel Madeira Pontes

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João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É autor de Saúvas avulsas (Garupa, 2019).

* * *

Manobra de Heimlich

Chegará o dia em que todos os argumentos, mesmo os mais infundados/ o confuso marulho dos helicópteros em movimento, o embrulho, estes montes/ rasos que nos espreitam, a febre terçã, as rugas nos teus pesadelos, o gênero/ da maçã, a prisão das fortunas, as tribunas, os meus tantos conselhos tardios/ romperão, feito abrolhos solares sobre tumbas de arrepios, o parco entendimento/ do cão invisível que dorme aos nossos calcanhares, sem maiores sobressaltos/ (apenas os tremores sucintos de quem também consome pesadelos e atalhos)/ para ocupar as cavidades desta garganta, a única garganta do mundo, e desdobrá-la/ ao modo mais jagunço, até que reste só a chaga urgente e seca, a ser temperada/ e digerida, traduzida, dita e vivida, no dia em que o teu filho nascer e, antes de abrir/ os olhos, pôr-se a caçar o teu seio esquerdo, tão esquerdo quanto a mão/ com que agora escreves, não sem medo, a entrada mais recente do teu diário// e certamente nos lembraremos do que comemos naquele dia e das conversas ocas/ que nossas bocas tergiversas trocaram, as bulas e os recortes de jornal engasgando/ os anos seguintes, os poucos requintes da minha coleção de dicionários, os livros/ do Mario Levrero, repletos de anotações, as encomendas, as malas desfeitas, as lições/ de matemática que escaparam à consciência errática do teu único filho, o teu menino/ e, assim, talvez este cachorro poderá ganhar corpo, som e desaforo, no lodo/ dos planos clandestinos que não tocarão a realidade, tampouco a língua áspera/ e covarde do tempo, a lamber os teus ossos lentos, abrindo sulcos entre os coqueiros/ da tua memória, sorvendo os óleos de que precisarás para acalmar os bichos/ matreiros que despertarão na tua cabeça quando, da Praça Mauá, assistires/ a última embarcação deixar o porto, sua quilha de açúcar mascavo a roçar/ o tombadilho, o pavilhão a beijar o favo das tuas mágoas dormidas, as lágrimas/ no rosto do teu filho, que hoje tem o seu próprio filho, reflexo justaposto à imagem/ de quem não mais te parece familiar, mera miragem às quatro da madrugada/ hora em que costumavas desterrá-lo dos teus braços, o relógio a te negar intervalo/ para o descanso, mas, embora estranha, esta nova imagem amansa e consolida/ o espírito do teu menino, como no famoso autorretrato pintado por Parmigianino/ a partir de um espelho convexo e do seu reflexo disforme, imagem em que coube/ (segundo especularia o poeta John Ashbery séculos depois) a alma pequena do artista/ italiano, condenada à imobilidade enquanto intercalam-se chuvas, ventos, outonos/ e, entretanto, absolutamente capaz de provocar em qualquer observador atento// comoção similar à que o filho do teu filho experimentou diante do pescado/ agonizante que te açoitava a rabanadas, o clarão do meio-dia quarando as escamas/ prateadas, suas guelras asfixiando em prece, pois o que é a prece senão a mais pura/ forma de asfixia, todo o peso de Deus sobre o teu diafragma, nada ao alcance/ das barbatanas e, no anzol, a garganta que não constará dos manuais de anatomia.

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Poesia Brasileira Contemporânea, Uncategorized

Victor H. Azevedo

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Victor H. Azevedo (1995) é tradutor, ilustrador, pesquisador e poeta. Nasceu e vive em Natal/RN, onde, junto do poeta Ayrton Alves Badriah, comanda a Munganga Edições, pequena editora artesanal focada na obra de poetas esquecidos ou totalmente desconhecidos. Também em dupla com Ayrton, conduz o blog-projeto “poesia subterrânea” que visa o resgate da obra de velhos (e novos) autores, nascidos e/ou que atuaram literariamente no Rio Grande do Norte, numa tentativa de (re)colocar no circuito literário obras esgotadas ou de difícil acesso. Como tradutor, Victor já traduziu texto de autores como Luís Omar Cáceres, Alice Corbin Henderson, José Luís Hidalgo, Amy Lowell, Jack Spicer, Peter Orlovsky e Richard Brautigan. Como autor, publicou Cachorro Morto (Munganga Edições, 2019), JBG (Shiva Press, 2019), canivete bubaloo (Publicação online, 2017) e Põe duas horas no super nintendo qu’eu quero esquecer da minha vida (La bodeguita edições, 2016). A fotografia que estampa a postagem é de Cecília Pacheco, e as ilustrações são do próprio autor.

* * *

RETRATO FALADO
p/ Camillo José

vi em algum vídeo-ensaio
de que existe um poema
perdido em algum caderno
de anotações dedicado

ao rosto de uma mulher
que nenhum retratista
conseguiu reproduzir.
seu semblante à tinta

era como o rastro
de um animal em fuga.
quem tentasse galgar
em um sfumato seu nariz,

acabava por tomar a via
errada e fazia um rastro
de fumaça, desses que
os aviões deixam quando

cruzam o firmamento.
dos cílios acabavam
surgindo pernas e
braços de letras

findando que os olhos
ficavam amuralhados
de versos quilo-
métricos feitos de cílios.

a tinta era indomável,
desobediente à mão destra
do pintor. luzes e sombras
se desconheciam em qualquer

daguerreotipo que tirassem
da mulher. mármore virava
manteiga no labor do escultor.
por isso o único meio viável

de retratar tal vênus era por
meio de um poema. segundo
constam as fontes, esse tal poema
poderia estar em qualquer lugar.

poderia está escondido nos créditos
finais de um filme de post horror.
poderia está no raio x de uma
das pinturas da artemisia gentileschi.

poderia até mesmo está tatuado
em numa partícula que acaba
de sucumbir a existência em
algum colisor de hádrons por aí.

microfonia

(FALSA TRADUÇÃO DE UM POEMA DO AMADO NERVO)

Não, eu não procuro a grandeza física
Que mensura a existência da montanha.
Prefiro a audição da música sísmica
Andejando a aldeia de tinta tísica,
Que retroalimenta as minhas entranhas.

Vou indo bem — obrigado — por tal via,
Sem mendigar denários ou serviço
Braçal, pois me basta a minha existência
Em terra condenada à luz do dia —
Trazendo alma cheia de carrapicho.

herbanário

quero dizer que a respiração é a mãe
que nos ensina a cair em qualquer tipo de terreno
mesmo que nesse terreno exista um magnetismo
tão excessivo que o tombo seja apenas a prova viva
de que ainda temos joelhos a serem gastos.

ela nos instrui a escancarar bem as guelras
quando a sombra é aguda
e quando há tanta luz líquida
que é preciso ter instalado no coração
uma colônia de nuvens
para absorver e fazer chover
sobre essa estiagem de cometas.

nos faz ter a ciência de que andar descalço
é como se deixássemos nossos pés se confessarem a terra
e que dormir após o almoço é a melhor meditação
que se pode ter em dias de terremotos na carne.

fala também através de códigos secretos
fala que mais valioso que uma mochila lotada de árvores
é o alfabeto que criamos a partir do labirinto
que os pássaros traçam com sua fuga.

Padrão
poesia, poesia norte-americana, tradução

Harryete Mullen, por Rafael Mendes

a

 

Harryete Mullen (1953, Alabama, EUA) é poeta e professora de literatura Afro-americana e escrita criativa na Universidade da Califórnia. Seus poemas exploram questões de gênero, raça, consumo e tradição. Segundo Harryete sua poesia busca “combinar pensamento crítico com os prazeres do ritmo e jogos de/com palavras”. Ainda, segundo a poeta, ela escreve para olhos e ouvidos, buscando uma “intersecção entre oralidade e escrita”. Durante seu doutorado, escreveu uma tese sobre narrativas da escravidão, influenciando seu trabalho que, por muitas vezes, trata das vidas dos Afro-americanos e de suas diásporas. Mullen tem diversas coleções publicadas, dentre elas: S*PeRM**K*T (1992), Muse & Drudge (1995) e Sleeping with the Dictionary (2002), este foi indicado para diversos prêmios literários, como o National Book Award e National Book Critics Circle Award. Seus livros são inéditos no Brasil. Ela é vencedora do Gertrude Stein Award, Jackson Poetry Award, entre outros.

* * *

Nós não somos responsáveis

Nós não somos responsáveis por seus parentes perdidos ou roubados.
Nós não garantimos sua segurança se você desobedecer nossas regras.
Nós não apoiamos as causas e reclamações de pessoas implorando por panfletos.
Nós preservamos o direito de negar atendimento para qualquer um.

Sua passagem não garante que iremos honrar sua reserva.
Para facilitar nossos procedimentos, por favor limite sua reprodução.
Antes da decolagem, favor abolir todos ressentimentos em cozedura .

Se você não fala inglês, você será removido do caminho
No evento de uma perda, é melhor você se virar sozinho.
Seu seguro foi cancelado porque nós não podemos mais dar conta
de suas reclamações pavorosas. Nossos guardas perderam sua mala e nós
somos incapazes de achar o número do seu processo penal.

Você foi detido para interrogatório porque você se encaixa no perfil.
Você não é presumido inocente se a polícia
suspeitar que você está carregando um guarda-chuva escondido.
Não é nossa culpa se você nasceu vestindo cores do pavilhão 9.
Não é nossa obrigação informá-lo sobre seus direitos.

Na parede, por favor, enquanto nosso cabo inspeciona sua marra.
Você não tem direitos que devemos respeitar.
Por favor se acalme, ou nós não seremos responsáveis
pelo que acontecer com você.

 

We Are Not Responsible

We are not responsible for your lost or stolen relatives.
We cannot guarantee your safety if you disobey our instructions.
We do not endorse the causes or claims of people begging for handouts.
We reserve the right to refuse service to anyone.

Your ticket does not guarantee that we will honor your reservations.
In order to facilitate our procedures, please limit your carrying on.
Before taking off, please extinguish all smoldering resentments.

If you cannot understand English, you will be moved out of the way.
In the event of a loss, you’d better look out for yourself.
Your insurance was cancelled because we can no longer handle
your frightful claims. Our handlers lost your luggage and we
are unable to find the key to your legal case.

You were detained for interrogation because you fit the profile.
You are not presumed to be innocent if the police
have reason to suspect you are carrying a concealed wallet.
Its not our fault you were born wearing a gang color.
It is not our obligation to inform you of your rights.

Step aside, please, while our officer inspects your bad attitude.
You have no rights we are bound to respect.
Please remain calm, or we can’t be held responsible
for what happens to you.

§

Elíptico

Eles simplesmente não conseguem … Eles devem se esforçar mais para… Eles deveriam ser mais .. Nós todos desejamos que eles não fossem tão .. Eles nunca .. Eles sempre .. Algumas vezes eles .. De vez em quando eles .. No entanto é óbvio que eles .. A tendência deles tem sido de .. As consequências disso foram … Eles parecem não entender que .. Se ao menos eles fizessem esforço para .. Mas nós sabemos como é difícil para eles .. Muito deles permanecem ignorantes de que .. Alguns que deveriam saber melhor se recusam a .. Claro, a visão deles tem sido limitada por .. Por outro lado, eles claramente sentem-se no direito de .. Não podemos esquecer que eles .. Nem pode ser negado que eles .. Nós sabemos que isso teve um enorme impacto neles .. Apesar disso o comportamento deles nos choca como .. Nossas intenções infelizmente foram ..

Elliptical

They just can’t seem to . . . They should try harder to . . . They ought to be more . . . We all wish they weren’t so . . . They never . . . They always . . . Sometimes they . . . Once in a while they . . . However it is obvious that they . . . Their overall tendency has been . . . The consequences of which have been . . . They don’t appear to understand that . . . If only they would make an effort to . . . But we know how difficult it is for them to . . . Many of them remain unaware of . . . Some who should know better simply refuse to . . . Of course, their perspective has been limited by . . . On the other hand, they obviously feel entitled to . . . Certainly we can’t forget that they . . . Nor can it be denied that they . . . We know that this has had an enormous impact on their . . . Nevertheless their behavior strikes us as . . . Our interactions unfortunately have been . . .

§

Tudo que ela escreveu

Me desculpe, não sou boa nisso. Não posso escrever de volta. Eu
nunca li sua carta.
Não posso dizer que recebi seu bilhete. Eu não tive a força
para abrir o envelope.
As cartas se empilham perto da porta. Sua letra é ilegível.
Seus cartões postais estavam
desfigurados. Lave seu cabelo molhado? Qualquer documento que você
pensou em me enviar ainda
será entregue. O bagunçado sistema de encomendas não entregou.
Sinto dizer que eu sou
incapaz de responder aos seus desejos mudos. Eu não
recebi o livro que você enviou.
Inclusive, meu computador foi roubado. Agora sou incapaz
de processar palavras. Eu
sofro de afasia. Eu acabei de voltar do Quénia
e da Coréia. Você não
recebeu meu cartão ainda? O que posso lhe dizer? Eu esqueci
o que eu ia
dizer. Não consigo achar uma caneta que funcione e depois eu quebrei
meu lápis. Você sabe
como o papel é raro ultimamente. Eu confesso que não venho reciclando. Eu
nunca
tenho tempo para ler O Globo. Estou sem sacola de mercado para colocar
as notícias velhas.
Eu não fui ao mercado. Eu queria checar os descontos. Eu
ainda não li
as cartas do correio. Eu não consigo passar pela porta para trabalhar, então eu liguei doente. Eu
fui pra
cama com cólicas de escritora. Se eu não conseguisse escrever, eu
pensei que colocaria minha
leitura em dia. Então a Ana Maria Braga apareceu com um autor fabuloso
conectando
seu livro mais vendido.

All she wrote

Forgive me, I’m no good at this. I can’t write back. I never read
       your letter.
I can’t say I got your note. I haven’t had the strength to open the
       envelope.
The mail stacks up by the door. Your hand’s illegible. Your
       postcards were
defaced. Wash your wet hair? Any document you meant to send
       has yet to
reach me. The untied parcel service never delivered. I regret to
       say I’m
unable to reply to your unexpressed desires. I didn’t get the book
       you sent.
By the way, my computer was stolen. Now I’m unable to process
       words. I
suffer from aphasia. I’ve just returned from Kenya and Korea.
      Didn’t you
get a card from me yet? What can I tell you? I forgot what I was
      going to
say. I still can’t find a pen that works and then I broke my pencil.
      You know
how scarce paper is these days. I admit I haven’t been recycling. I
      never
h   ave time to read the Times. I’m out of shopping bags to put the
      old news
in. I didn’t get to the market. I meant to clip the coupons. I
      haven’t read
the mail yet. I can’t get out the door to work, so I called in sick. I
      went to
bed with writer’s cramp. If I couldn’t get back to writing, I
      thought I’d catch
up on my reading. Then Oprah came on with a fabulous author
      plugging her
best selling book.

 

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 “Ensaio sobre o belos e o caos” pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas e traduções já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Revista Gueto, Mallamargens,Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução: https://poetrybilingue.wordpress.com/

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Mariana Botelho

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Mariana Botelho nasceu em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha/MG. Publicou seu primeiro livro (o silêncio tange o sino) pela Ateliê Editorial em 2010 e em seguida o “K” pela Clãdestina Cartonera em 2015. Tem publicações em meios digitais e impressos espalhados pela internet, revistas acadêmicas e jornais diversos. Prepara um terceiro livro, a ser lançado quando Deus der o bom tempo, com estes poemas dentro.

* * *

CAVALO I

intempérie
assolou o quintal

devorou alface
(sonhos
do sol
sobre as folhas
às quatro da tarde
com café novo
no bule)

– não é fácil
respirar –

rasga meu sono

põe as patas
no meu peito

me aperta entre
vida e morte:

por cima
sem cuidado

por dentro e
através

§

a força
do esvaziamento

presença
excessiva
do corpo
no corpo

– do corpo
no chão –

como que plantado
na queda

a “mói” de um trator
sabe explicar
todas as ruínas

um fio na chuva, –
se tivesse
ainda
outro lugar por
onde chorar

chorava

§

é como estar debaixo d’água

em transe
numa casa
de vários quintais:
o amor

família inteira à espera
(araras
no cerrado
às seis da tarde) –
talvez
para jantar –

à luz de um sol

(talvez dois)

dos olhos mais
bonitos
que já vi

§

um corpo cai

nem as feridas atestam a veracidade
do que parece sonho

inaugura todos os dias
uma nova vertigem
para a mesma viagem:

um trem de ferro que passa
ao largo
de nossa morte

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