poesia, tradução

Rubén Vela, por Nina Rizzi

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Rubén Vela

Rubén Vela nasceu em Santa Fé, em 1928. Começou a escrever seus poemas em 1949 e participou do movimento literário que se formou em torno da revista Poesía Buenos Aires, dirigida por Raúl Gustavo Aguirre.  Em 1973 se radicou em Brasília, onde recebeu o Prêmio Internacional do Pen Club do Brasil por seu livro Poemas (Editora Vozes, 1972); em 1980 o Pen Club argentino o premiou com a “Pluma de Plata” por seu livro El espejo (Fundación Argentina para la poesía, 1979); em 1982 recebeu o Primeiro Prêmio Internacional de Poesia de Palermo por seu livro Maneras de luchar (antologia personal, Fundación Argentina para la poesía, 1981). Nos anos 1987-89 foi eleito Presidente da Sociedade Argentina de Escritores e integrou o Corpo Diplomático Argentino. Faleceu em 29 de abril de 2018, em Buenos Aires.

Quanto a mim não foram prêmios literários meu lume, mas o puro gosto e deleite, quase sem-mais-nem-porquê. Conheci a poesia de Rubén Vela, como a de muitos outros poetas argentinos, durante a leitura da obra de Alejandra Pizarnik, que lhe dedica um poema de seu primeiro livro, e também o livro Las Aventuras Perdidas.

Inicialmente alçada à sua metapoesia, suas “Artes Poéticas” e a sedução – mais que imposição -, do silêncio poético como lugar de enigma – o que o poeta não diz, o que não sabe, diz e sabe o poema, esse Sombrero Loco. Contudo, foram suas “Américas” que me tiraram da sala de estar. Como não me encontrar ali, eu, tão genuinamente brasileira e doida pra rebentar fronteiras e com essa paixão por uma utopia (salve URSAL!), que nos pudesse fazer unos e, no entanto, como brasileira, coletivamente apartada  de uma ideia mais pungente de latinoamérica (salvo exceções, é claro), tão presente em nossos vizinhos hispânicos. E é pelo sonho, pela utopia e pelo coletivo que escolhi trazer hoje estes poemas americanos, presentes em sua antologia Poemas como piedras (Fundación Victoria Ocampo, 2000), com exceção do último – “Esto es América” –, publicado em Poemas Americanos (Editorial Losada, 1963); outros poemas com a mesma temática, e outras, podem ser encontrados na página Poetas Siglo XXI – Antología Mundial, de Fernando Sabido Sanchéz.

Não posso, entretanto, deixar de fora desta pequena seleção seus poemas dedicados postumamente a Alejandra Pizarnik; mais que pedras de toque, amor em versos pelas poemas da minha piknik poeta, porque o diálogo, tal como o silêncio, é interminável.

Embora faça exercícios criativos com regionalismos aqui e ali, como na tradução de Pink Dog de Elizabeth Bishop aqui na escamandro, nem sempre o textos que nos permitem grandes liberdades e modificações de termos culturais, por uma ou oura razão, como o desejo do autor, da editora ou da própria tradução [penso nuns rasgos daquela historiadora pretensiosa sim, mas um inferno de boas intenções que quer levar ao não-hablante não só o poema, mas todos os traços da cultura de partida como numa aula em que subia em cima da carteira dos alunos para recitar cheia de ódio aos que dormiam diante da barbárie discursos de Mussolini], porém, ao traduzir estes poemas para esta publicação, depois de ter pensado tristemente que o Brasil não compartilha muito exatamente uma unidade latinoamericana, não contive o desejo de traduzir alguns termos muy caros para a latinoamérica para algo brasiamericano, latinobrasilero, forjando assim (desejando assim) uma unidade latinoamericana a partir de termos mais significativos no Brasil, ainda que, sem querer, pareçamos mais uma vez, os EUA da América Latina. Mas não nos percamos nas aparências, simulacros que se esfumaçam; sejamos muito exatamente latinoamericanos, ursalinos (ou seja lá como se conjugue um estado de desejo e utopia).

Por essa razão incluí um poema que foge ligeiramente à temática, “Macchu Picchu”, traduzido como “Serra da Capivara”, onde a pedra é furada e o “castelo” um “boqueirão” de silêncios (ó música celeste!). Já “Viracocha” – o grande deus criador pré-Inca, se torna aqui “Ñanderu” – o grande deus criador tupi. Outras in-transposições mais simples ficaram por conta de “pampa” como “planície”; “milho” como “mandioca” (e aquele desejo-dúvida gritando: “macaxeira”! “aipim”!), entre outras.

Escolhi verter cholo para caboco. “Cholo”, refere-se a miscigenação americana branca e indígena em que geralmente prevalecem os traços étnicos indígenas. Já o “caboco”, segundo Câmara Cascudo, deriva do tupi caa-boc, “o que vem da floresta”, ou de kari’boca, “filho do homem branco”. Eis nosso Vallejo via Vela: mais que abrasileirado, latinoamericano, índio, branco, negro, poeta!

Uma versão mais caudalosa foi de “feitiçaria” para “macumba”, no poema definición/ definição. Sabemos que “macumba” é um instrumento de percussão de origem africana e que aqui na terrinha, num processo de ampliação de sentido, o termo e seu derivado “macumbeiro” – o “tocador de macumba” -, passou a se referir também às religiões de origem africana, muitas vezes num contexto pejorativo e, por isso, seu uso é evitado. Exitei junto e pensei nas pessoas que ao serem insultadas com termos como “gorda”, “viado”, “sapatão”, entre outros, os desconstroem e se proclamam “gorda sim”, “viado sim”, “sapatão sim”. Ademais, nada nesse derradeiro verso me pareceu mais musical que macumba, macumba! Música sim e, porquê não, aquela mandingazinha que todo mundo (ou todes brasileires) faz quando vira o ano pulando sete ondas, guardando sementinhas de romã ou uvas na carteira e etc, etc., e sigo no ritmo do poema: “macumbeira sim!”.

Já em Al pintor Gambartes/ Ao pintor Gambartes, optei por manter hechicería/ feitiçaria, já que se trata de uma série temática que o pintor realizou em seus últimos 20 anos. Aliás, não deixem de visitar o sítio maravilloso de Leónidas Gambartes!

No mais, a regra na tradução, como sempre, é ainda outra paixão: a escuta; ouvir o poema, ouvir sua poesia um sem-fim de vezes, então re-criá-lo como ele quer, como o ouço e como quero dizê-lo, intimamente, ao mundo.

nina rizzi

 ***

AMÉRICA

I

Tontos, estúpidos, ganhem sua ira, torçam seus braços!
Então, então, homens de boa sede! ela os quer
assim, ela é a espera.

II

Pequena de tanta morte, uma árvore de pão nascia de teus
lábios!

AMÉRICA

I
¡Tontos, estúpidos, ganad su ira, torced sus brazos!
¡Entonces, entonces, hombres de buena sed! ella os quiere
así, ella es la esperada.

II
¡Pequeña de tanta muerte, un árbol de pan nacía de tus
labios!

§
DEFINIÇÃO

América sem arco do triunfo
América sem o Davi de Michelangelo.
América sem a Vênus de Ampurias.
Nova e intacta américa
que ignorava a loucura de Paolo Uccello.

Porque quando digo américa,
digo a américa que cantou Pablo Neruda,
que cantou o Caboco Vallejo,
que cantou Huidobro como um novo maldito.

Que cantaram os homens
do tabaco e da macumba.

 

DEFINICIÓN

América sin el arco del triunfo.
América sin el David de Miguel Ángel.
América sin la Venus de Ampurias.
Nueva e intacta américa
que ignoraba la locura de Paolo Ucello.

Porque cuando digo américa,
digo la américa que cantó Pablo Neruda,
que cantó el Cholo Vallejo,
que cantó Huidobro como un nuevo maldito.

Que cantaron los hombres
del tabaco y de la hechicería.

§
AMÉRICA

A velha voz
cantando
em seus ídolos
de pedra.
“Esses senhores
eram iguais
em voz
aos deuses”.

 

AMÉRICA

La vieja voz
cantando
en sus ídolos
de piedra.
“Esos señores
eran iguales
en voz
a los dioses”.

§
AMÉRICA

Serei uma pedra.
serei o rosto dessa pedra.
serei a memória desse pedra.
Serei a inicial de um deus.
Serei o relâmpago de um deus.
Serei o sorriso de uma pampa aberta.
Serei a folha de uma mandioca, serei sua flor e seu fruto.
Serei o cansaço de um homem americano.
Serei sua sede e sua alegria.
Serei um dia eterno e memorável.

Serei também América.

 

AMÉRICA

Seré una piedra.
Seré el rostro de esa piedra.
Seré la memoria de esa piedra.
Seré la esperanza de esa piedra.
Seré la inicial de un dios.
Seré el relámpago de un dios.
Seré la sonrisa de una pampa abierta.
Seré la hoja de un maíz, seré su flor y su fruto.
Seré el cansancio de un hombre americano.
Seré su sed y su alegría.
Seré un día eterno y memorable.

Seré también América.

§
DA MINHA RAÇA

Com a pedra fixei o nome da minha raça.

Salvei-o da segunda morte, do esquecimento.

Com a pedra fiz o falo funerário, sua arrogância
e seu orgulho.

Esta é a pedra viva que fecunda os campos e
as mulheres.

Esta é a pedra fêmea, esta é pedra macho,
onde esfregam seu ventre os recém-casados.

É a pedra de chuvas.

A alma dos meus mortos.

 

DE MI RAZA

Con la piedra fijé el nombre de mi raza.

Lo salvé de la segunda muerte, del olvido.

Con la piedra hice el falo funerario, su arrogancia
y su orgullo.

Ésta es la piedra viva que fecunda los campos y
las mujeres.

Ésta es la piedra hembra, ésta es la piedra macho,
donde frotan su vientre los reciéncasados.

Es la piedra de lluvias.

El alma de mis muertos.

§
PARA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Diante de mim
Atrás de mim
Debaixo de mim
Em cima de mim
Em torno de mim

América

Seu longo nome
sua voz adentro.

 

A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Delante de mí
Detrás de mí
Debajo de mí
Encima de mí
Alrededor de mí

América

Su largo nombre
Su voz adentro.

§

 

AO PINTOR GAMBARTES

Não falar de américa
não falar de nada
não mencionar a morte que te guarda
como um anjo sinistro
não dizer coisas
ou dizer tudo de uma vez
te descobrir te penetrar te desnudar
o sol te cai en cima
te arde em tua cova como uma lepra
te cai a sede a fome
se esqueceram as oferendas
o pagamento à terra o tabaco a coca
te cai a dor
de tant espaço ferido inutilmente
pelas gigantes aves de rapina
que chegam do norte
do centro do gelo
da região da morte
para cavar com suas garras
teu coração de américagambartes
que ainda bate.

E ainda segue vendo o mundo através de tuas mãos
grande menino cego deslumbrado pelo arco de todas as
cores

segue vendo criaturas que nascem como pólipos ou
aderências
sobre a terraíndiaferida
aferradas suspensas presas
como conglomerados de seres estranhos que olhamos com
desconfiança
de um planeta desconhecido antigoamérica
de uma terra de cobre onde todos lhe pertencemos
e onde tudonada é deles
a pedra habitada pelo relâmpago
a pedra da cor de calor
de ferro fundido de raiva de fúria
vindo tudo por tuas mãos gritndo sobre muros de
pedra
gritando o que vem do umbigo do mundo
mãopedra cobra mãopedra serpente
mãopedra do pranto
mãopedra cansaço
mãopedrafome do homem americano
mãopedra gambartes.

E nasce em mim esta alegria entre tanta ausência
ter te conhecido
ter conversado contigo
ter te olhado com teus olhos
o que você quis que meus olhos vissem
tua sabedoria tua humildade
mãepai gambartes
que construía com tuas mãos tão pequenas
os radiantes monstros do passado até o porvir
que inventava a música partida desta terra
com teu coração de poderoso mago da aurora
tuas mãos que inventavam o verdadeiro nome da
América
américagambartes
que sonhavam américa
que choravam américa
que gozavam américa.

por que é preciso dizer
voltar a repetir
quem ainda não entendeu nada disso tudo
que destroce seu corpo sobre o asfalto esburacado
desta cidade cidade disforme e tão ruim
que se suicide sem assombro
do último andar de seus anos vazios e sem esperanças
que se corte seu sexo para não perpetuar sobre o mundo
sua sombra miserável
e se depois disso tudo ainda sobrevive
que olhe pela última vez um quadro de gambartes
uma feitiçaria de gambartes
a luz cega pelo resplendor do relâmpagogambartes
e ressuscitando finalmente sobre a aurora de um distinto
novodia
se refugiar para sempre em seu ventreglória-paimãe-
gambartes.

A grande cadela por quê morreu tão cedo embora
siga tão vivo para sempre
américagambartes!


AL PINTOR GAMBARTES

No hablar de américa
no hablar de nada
no mencionar la muerte que te guarda
como un ángel siniestro
no decir cosas
o decir todo de golpe
descubrirte penetrarte desnudarte
te cae el sol encima
te arde en tu fosa como una lepra
te cae la sed el hambre
se han olvidado las ofrendas
el pago a la tierra el tabaco la coca
te cae el dolor
de tanto espacio herido inútilmente
por los pájaros gigantes de rapiña
que llegan desde el norte
desde el centro del hielo
de la región de la muerte
para escarbar con sus garras
tu corazón de américagambartes
que late todavía.

Y aún sigues viendo el mundo a través de tus manos
gran niño ciego deslumbrado por el arco de todos los
colores
sigues viendo criaturas que nacen como pólipos o
adherencias
sobre la tierraindiaherida
aferradas encimadas atrapadas
como racimos de seres extraños que miramos con
desconfianza
de un planeta desconocido antigu
de una tierra de cobre donde todos les pertenecemos
y en donde todonada es de ellos
la piedra habitada por el rayo
la piedra de color de calor
de arrabio de rabia de furia
viendo todo por tus manos gritando sobre muros de
piedra
gritando lo que viene desde el ombligo del mundo
manopiedra culebra manopiedra serpiente
manopiedra del llanto
manopiedra cansancio
manopiedrahambre del hombre americano
manopiedra gambartes.

Y me nace esta alegría entre tanta ausencia
haberte conocido
haberte hablado
haberte visto con tus ojos
lo que tú quisiste que vieran mis ojos
tu sabiduría tu humildad
madrepadre gambartes
que construías con tus manos tan pequeñas
los radiantes monstruos del pasado hacia el porvenir
que inventabas la música de las raíces profundas
en la historia partida de esta tierra
con tu corazón de poderoso mago de la aurora
tus manos que inventaban el verdadero nombre de
América
américagambartes
que soñaban américa
que lloraban américa
que gozaban américa.

por que hay que decirlo
volver a repetirlo
quien no ha entendido nada aún de todo esto
que destroce su cuerpo sobre el gastado asfalto
de esta ciudad deforme y malqueriente
que se suicide sin asombros
desde el último piso de sus años vacíos y sin esperanzas
que se corte su sexo para no perpetuar sobre el mundo
su sombra miserable
y si aún después de todo esto sobrevive
que mire por última vez un cuadro de gambartes
una hechicería de gambartes
la luz cegada por el resplandor del relámpagogambartes
y resucitando al fin sobre la aurora de un distinto
nuevodía
cobijarse para siempre en su vientregloria-padremadre
gambartes.

¡La gran perra por qué te has muerto de temprano aunque
sigas tan vivo para siempre
américagambartes!

§

 

SERRA DA CAPIVARA

É sua casa de pedra furada,
seu boqueirão de silêncios,
ali onde o tempo tece
a sede dos equinócios.

Olha bem pra ela!
uma raíz, um sonho.

 

MACCHU PICCHU

Es su casa de piedra,
su mansión de silencios,
allí donde el tiempo teje
la sed de los equinoccios.

¡Miradla bien!
una raíz, un sueño.

§
ÑAMANDU

Esse rosto quebrado,
essa pedra cansada,
esse galho caído
da árvore mais antiga
da natureza,
esses olhos que um dia
viram a primeira
gestação do mundo,
essa boca que disse
– com violento tremor de apaixonado
o nome mais íntimo
de américa!

 

VIRACOCHA

Ese rostro quebrado,
esa piedra cansada,
esa rama caída
del árbol más antiguo
de la naturaleza,
esos ojos que un día
vieron la primera
gestación del mundo,
esa boca que dijo
-con violento temblor
de enamorado-
¡el nombre más íntimo
                                           de américa!

§
AMÉRICA
PARA NINA

I
Viveremos pelados sob o sol, sempre jovens
e não haverá outra memória além da pedra

II
Só a pedra conhece o por vir.

AMÉRICA
A NINA

I
Viviremos desnudos bajo el sol, seremos siempre jóvenes
y no habrá otra memoria que la piedra.

II
Sólo la piedra conoce el porvenir.

§

AMÉRICA

“Isto é América”, diziam,
me mostrando as altas cordilheiras,
o suicídio do sol sobre os trópicos,
os grandes rios furiosos.
Só vi pés descalços,
criaturas americanas
sobre a fome e o frio
como frutos nus.
“Isto é América”. Sobre as terras
índias do centro e do sul
vi desolação. E à margem,
as grandes cidades opulentas, somente
à margem…

 

AMÉRICA

“Esto es América”, me decían,
mostrándome las altas cordilleras,
el suicidio del sol sobre los trópicos,
los grandes ríos furiosos.
Sólo vi pies descalzos,
criaturas americanas
sobre el hambre y el frío
como frutos desnudos.
“Esto es América”. Sobre las tierras
indias del centro y del sur
vi desolación. Y, al borde,
las grandes ciudades opulentas, sólo
al borde…

 

caruso

Aquarela de Santiago Caruso no livro em homenagem a Alejandra Pizarnik “El eco de mis muertes”

 

Teu esqueleto de espumas.
Tua infância até o fim dos dias.

1970

Tu esqueleto de espumas.
Tu infancia hasta el fin de los días.

1970

§

A Inocente 

Nua e vitoriosa, dá de comer
aos animais selvagens.
Eles lambem suas coxas, usam
o sexo docemente, se alimentam
dessas águas mais profundas.

Ao amanhecer, ela fecha suas
pernas. Os animais gemem
ao princípio, rugem depois,
a despedaçam com suas garras.

A bela indiferente diz: até
amanhã! e dorme.

Os animais protegem seus
despojos.

La inocente

Desnuda y victoriosa, da de comer
a los animales salvajes.
Ellos lamen sus muslos, le gastan
el sexo dulcemente, se alimentan
de esas aguas más profundas.

Al amanecer, ella cierra sus
piernas. Los animales gimen
al principio, rugen luego,
la despedazan con sus garras.

La bella indiferente dice: ¡hasta
mañana! y duerme.

Los animales protegen sus
despojos.

§


ALEJANDRA PIZARNIK

1
Lembra, Alejandra, quando
o Adágio de Albinoni envolvia
teu corpo solitário, e arcanjos
surpreendidos
voavam entre vitrais coloridos
lançando buquês de luz?

2
Tão sozinha, tão frágil, tão
dolorosamente abandonada
entre jogos infantis
que repetem e repetem
uma mesma canção.
A que vai morrer tem
rachaduras nos lábios e flores
murchas arrancadas de sua pele.
A que vai morrer inventa
um sorriso que pendura
de seu rosto como dizendo
adeus.

3
faz frio e tuas mãos desenham
uma porta que se abre até
um jardim vazio. Eu irei,
dizia, sem saber, sem querer.
Abraçada a meu nome, eu
irei sem saber.

4
Rolam os dados sobre um tapete
verde. Rolam as palavras sobre
a página em branco. Rolam,
rolam até um destino incerto.
Eis aqui a escolha: escrever ou morrer.
Nada tão fácil, nada tão difícil.
E o espelho se rompe e a luz
se desvanece. Alejandra, Alejandra,
pra onde vai?

E deste silêncio
outra música nasce.

 

ALEJANDRA PIZARNIK

1

¿Te acordás, Alejandra, cuando
el Adagio de Albinoni envolvía
tu cuerpo solitario, y arcángeles
sorprendidos
volaban entre vidrios de colores
arrojando ramos de luz?

2

Tan sola, tan frágil, tan
dolorosamente abandonada
entre juegos de infancia
que repiten y repiten
una misma canción.
La que va a morir tiene
grietas en los labios y flores
desteñidas arrancadas de su piel.
La que va a morir inventa
una sonrisa que cuelga
de su rostro como diciendo
adiós.

3

Hace frío y tus manos dibujan
una puerta que se abre hacia
un jardín vacío. Yo me iré,
decías, sin saber, sin querer.
Abrazada a mi nombre, yo
me iré sin saber.

4
Ruedan los dados sobre un tapete
verde. Ruedan las palabras sobre
la página en blanco. Ruedan,
ruedan hacia un destino incierto.
He aquí la elección: escribir o morir.
Nada tan fácil, nada tan difícil.
Y el espejo se rompe y la luz
se desvanece. ¿Alejandra, Alejandra,
adonde vas?

Y desde ese silencio
otra música nace.

***

 

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Padrão
poesia

Pedro Tostes: 2 poemas e 1 movimento de 4 haicais

sem título (4 de 4)

Pedro Tostes é poeta reincidente e insistente. Graduado Nos Rolês com PhD em Pilantropia Cultural. Seus crimes foram mais conhecidos como “o mínimo” (2003), “Descaminhar” (2008), “Jardim Minado” (2014) e esta mais recente contravenção. Foi detido, averiguado e apreendido pelas autoridades por porte e comercialização de livros em prestigiosa Fresta Literária. Com a organização delituosa “Poesia Maloqueirista”, entre outros crimes, editou a infame revista “Não Funciona”, que realizou 20 golpes bem sucedidos com mais de 20 mil incidências literárias na primeira década do século. Apesar da aparência dócil e gentil, o indivíduo citado apresenta alta periculosidade. Já foi visto aqui na escamandro, mas ninguém sabe seu paradeiro. Sua cabeça está a prêmio. Caso o encontre, favor informar às autoridades.

*

A ARTE DA GUERRA SEGUNDO OVÍDIO

Amar é briga de foice –
açoite que o peito clama
enquanto a bomba ainda pulsa;

trincheira cavada no corpo
por onde percorrem os cheiros
de cuspe, de sangue, de gozo;

napalm inflamando sentidos,
o toque suave na pele
que explode o fogo do ser;

espada que fere sem fio
e encrava no meio de si
todo aço que vem no osso;

exército de terracota
enfrentando a força da chuva
pra semear as flores;

é conquistar o território
apenas pra se entregar ao
inimigo – bandeira branca,
eu quero mais é te querer

§

 

CANÇÃO DA GUERRA

Sei que de certo está
na fúria dos dentes
a arte de amar

tão bela quanto
assaltantes de banco
recitando Rimbaud.

As janelas que
nos olham não
vertem lágrimas

enquanto o néctar
dos inocentes
derrama nas noites

Das coisas que
não estão em
nossas telas,

sendo elas o abismo
encravado em
teus olhos

ou o riso das flores
na lapela do
findo transeunte.

Pois entre estrelas
que cantam pra
musa distante

eu, planeta, vagueio
orbito a pele elástica
da ampulheta.

E é tanta treta,
punheta intelecta
furtando o senso

sem sangue nem medo
nem peso nem nada
– encarando essa parada

dura e aguda como
a força da letra &
a briga de foice

testemunho na vista:
é depois do chorume
que soergue a vida.

§

 

VARANDA

1 – TREPADEIRA

Num sol de 40
escala aquilo que abala
feito o tempo tenta

2 – COLEÓPTERO

Lento pousa o tanque
no vaso seco no raso
– forte, belo e estanque.

3 – MANDACARU

A torre do cacto
com frio não perde seu fio:
permanece impacto.

4 – ESPADA DE SÃO JORGE

Vem rasgando a terra
na chuva o broto que luta,
armeiro de guerra

*

Padrão
poesia, tradução

Sarah Maguire, por Rob Packer

Sarah Maguire (1957–2017) foi uma poeta inglesa que morreu no ano passado em Londres, deixando uma obra enxuta e expansiva ao mesmo tempo. Em três coletânea (Spilt Milk, 1991; The Invisible Mender, 1997; The Pomegranates of Kandahar, 2007), ela explorou questões do corpo e da natureza, com um olhar que sempre considerava a geografia e história. Um dos poemas traduzidos aqui, por exemplo, trata da expulsão de todos os animais fêmeos do Monte Atos na Grécia; outro prevê o fluxo de migração através do Mediterrâneo que parece influenciar cada vez mais as políticas europeias mais assombrosas. Em outras ocasiões, ela escrevia sobre plantas ou juntou uma antologia sobre poemas sobre flores – uma influência clara da horticultura que ela aprendeu como jardineira depois de deixar a escola cedo.

Além de poeta, ela foi (talvez) ainda mais importante na esfera da tradução. Em 2004, ela fundou o Poetry Translation Centre (PTC) o qual ainda se dedica a traduzir poetas africanos, asiáticos e latino-americanos ao inglês, convidando poetas consagrados como tradutores ou convocando oficinas de tradução, para trabalhar com poemas escritos em zapoteca, dari, georgiano e, sobretudo, o árabe. Ela traduziu poemas dos palestinos, Mahmoud Darwish e Ghassan Zaqtan, e do sudanês, Al-Saddiq Al-Raddi. Além disso, nenhum outro poeta de expressão inglesa em vida teve um livro de poesia traduzido ao árabe.

Rob Packer

* * *

Split Milk

Two soluble aspirins spore in this glass, their mycelia
fruiting the water, which I twist into milkiness.
The whole world seems to slide into my drain by my window.

It has rained and rained since you left, the streets black
and muscled with water. Out of pain and exhaustion you came
into my mouth, covering my tongue with your good and bitter milk.

Now I find you have cashed that cheque. I imagine you
slipping the paper under steel and glass. I sit here in a circle
of lamplight, studying women of nine hundred years past.

My hand moves into darkness as I write, The adulterous woman
lost her nose and ears; the man was fined. I drain the glass.
I still want to return to that hotel room by the station

to hear all night the goods trains coming and leaving.

Leite derramado

Os esporos de duas aspirinas dissolvem no copo,
os micélios frutificam a água que eu viro láctea.
O mundo inteiro escorrega pelo ralo à minha janela.

Não para de chover desde que você partiu, as ruas escuras
e musculosas com a água. Dolorido e exausto você gozou
na minha boca, cobrindo a língua com seu leite bom e amargo.

Agora descubro que você descontou aquele cheque. Imagino
você deslizando o papel sob o aço e o vidro. Estou sentada aqui
no círculo de luz, estudando mulheres de novecentos anos atrás.

Minha mão entra na escuridão enquanto escrevo, A adúltera
perdeu o nariz e as orelhas; o homem foi multado. Viro o copo.
Ainda quero voltar ao quarto de hotel perto da estação

para ouvir a noite toda os trens de carga entrando e partindo.

§

The Garden of the Virgin

‘In the Gospel of the Egyptians … the Saviour himself said,
I am come to destroy the works of the female.’
– CLEMENT OF ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

The monks who came to cultivate
the Virgin’s garden
obeyed her law.

St Theodosius the Studite wrote:
Keep no female animal
for use in house or field:

the holy fathers
never used such –
nor does nature need them.

Ewelambs and their ewes
were slaughtered. Cows
butchered. Heifers slain.

The sow, the gilt
and the nanny goat:
all dead and banned.

Bitches murdered one
by one. Each hen
felt the press of thumbs

about her throat, the neck
snapped taut – and then
the slump. Each egg

was gathered up, each eggshell
crumpled in a viscid mess of yolk,
thrown oozing down the cliffs,

where, boiling in the waves,
it made a salty broth
the gulls sucked up.

Only the cats stayed on:
the cats to catch the rats
that dropped their young

despite the monks,
despite the Virgin’s stern
injunction. At night

it was the cats
who ran the place:
softening the hands and throats

of anchorites and cenobites,
their lithe fur
soothing the flesh made stiff

through deprivation.
And at night the wolves
roamed yowling

through the Virgin’s garden:
the sole beast
with cunning enough

to breach the fine neck
of isthmus.
Miles up, alone

in his stone cottage,
reaching only by chains
hung over cliffs,

a hermit wakes up, sodden
from a lycanthropic nightmare,
with his hair

on end. He had sensed
the slow breath
of the wolf, had stared

deep into her lemon eyes,
as still as oil
or candlelight, then

felt himself run off with her –
feral, hirsute, opening out his lungs
to greet the moon.

O jardim da Virgem

‘No Evangelho dos Egípcios … o Salvador mesmo disse,
Vim a destruir a obra da fêmea.’
– CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

Os monges que vieram a cultivar
o jardim da Virgem
obedeceram a sua lei.

São Teodósio o Estudita escreveu:
Não mantenha nenhuma fêmea animal
para uso em casa ou campo:

os pais santos
nunca usaram dessas –
nem a natureza precisa delas.

As ovelhas e recém-nascidas
foram abatidas. Vacas
mortas. Novilhas arrasadas.

A porca, a leitoa
e a cabra fêmea:
todas mortas e banidas.

Cadelas assassinadas uma
atrás da outra. Cada galinha
sentiu o aperto de dedões

na garganta, o pescoço
estalou tesamente – e depois
despencou. Cada ovo

foi coletado, cada casca amassada
em uma imundície víscida de gemas,
jogada esvaindo nos rochedos,

onde, borbulhando nas ondas,
virou um caldo salgado
que as gaivotas sugavam.

Apenas as gatas ficaram:
foi para caçar as ratazanas
cuja prole seguia caindo

apesar dos monges,
apesar da injunção severa
da Virgem. À noite

foram as gatas
que regiam o monte:
amolecendo as mãos e gargantas

dos ancoretas e cenobitas,
os seus pelos macios
confortavam a carne

endurecida pela privação.
E à noite as lobas
erravam e uivavam

pelo jardim da Virgem:
o único bicho
suficientemente astuto

para violar a garganta fina
do ismo.
Sozinho numa cabana de pedra,

em um lugar altíssimo
aonde só se chega através de correntes
penduradas nos rochedos,

um eremita acorda, encharcado
de um pesadelo licantropo,
com os cabelos

arrepiados. Tinha sentido
a respiração lenta
da loba, olhado

nos olhos amarelos profundos,
calmos como o óleo
ou a luz de vela, logo

sentiu como escapava com ela –
feral, hirsuto, abrindo os seus pulmões
para saudar a lua.

§

Europe

Merely an idea bruising
the far horizon, as a cold mist tightens into rain –

but at dusk we still wait
by the Bay of Tangiers, on the old city walls, gazing northwards

till the night comes on,
and a necklace of lights gathers the throat of the sea.

The young men burn –
lonely, intent on resolving that elusive littoral

into a continent of promises
kept, clean water, work. If they stare hard enough, perhaps

it will come to them.
Each night, they climb these crumbling ramparts

and face north
like true believers, while the lighthouse of Tarifa blinks

and beckons,
unrolling its brilliant pavement across the pitiless Straits.

Europa

Apenas uma ideia machucando
o horizonte distante, enquanto a névoa fria se adensa em chuva –

mas ao pôr-do-sol ainda esperamos
na Baía de Tanger, na muralha da cidade velha, fitando o norte

até que a noite avança,
e um colar de luzes enlaça a garganta do mar.

Os rapazes ardem –
solitários, determinados a resolver aquele litoral esquivo

em um continente de promessas
cumpridas, água limpa, trabalho. Se olharem fixamente demais, talvez

venha até eles.
Toda noite, eles sobem nestas muralhas decadentes

e encaram o norte
como fieis convictos, enquanto o farol de Tarifa pisca

e acena,
desenrolando sua calçada brilhante sobre o desapiedado Estreito.

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poesia

1ns inéditos de Luís Gomes

luisgomes

Luís Gomes é poeta alagoano. Nasceu em maceió, no ano 2000, escreve desde os 15. Já apareceu na escamandro com outros poemas; escreve no: azuldesolado.wordpress.com

*

p/ Ismar Tirelli Neto

i

um escasso sorriso.
amargo fumo
hoje um pouco mais perdi
o mundo.
não tenho fogo
atropelei as pedras, perdi
as horas.
diminui-se o hábito do amanhecer
(houvera alguém que me visitasse,
curvaria a cabeça e engoliria palavra de consolo)
deus me perdoe
mas é impossível neste momento
amar o próximo

ii

eternidade nenhuma. foram-se
as obviedades, as conclusões empíricas
os versículos. antigas bíblias, instantes
de santos.
impossível pedir fogo nas ruas.
estou escuro.
estou no quarto entre diálogos e tempos.
estou silencioso e sequer tenho vontade
de chorar

§

p/ roy david frankel

i

do quarto

um faquir guarda silêncio
como posso me referir?

do quarto
um faquir guarda silêncio
e o estado reelegerá um calheiros novamente

com a ordem do dia entre os dentes
muros altos,
tradições nos domingos culturais
como posso me referir
a maceió?
a alagoas?

para morte, e
ainda que exite dizer seus nomes:
pátria
bairro, estado, país
digo:
todos morrem
sem saber

jorge de lima
marcos francisco

os mortos que picharam palavras maoistas no muro
à beira pista

seja em bairros, pátrias, estado, país

ii

promessa que nos legou progresso e caminhos
inalcançáveis,
pés rotos de poeira
mortes por fome,
mãos caliçadas entre as canas-de-açúcar
maceió que tapa o alagadiço

as calçadas, as esquinas,
a morte
engole-nos
fosse meu último dia no mundo eu picharia
minha mãe é maior que o maoismo

até quanto tempo mais se juntará a mais e mais outros corpos,
estes corpos?
e até quanto
tempo mais se fixará à nossa memória estes já
corpos?
do quarto um faquir guarda silêncio

nomes velhos nas praças
desfiles de nomes, rostos comuns
nas praças

do quarto eu moço triste silencio

iii

formulam-se frases, cumprimentos.
decoram-se nomes, poemas, santos
ainda não canonizados. muito distante,
na volta, rastejando-se
solitário
farta-se
de guerras e gerações, notas
merencórias de infância
farta-se sobretudo

§

p/ carla diacov

i

cortar o vento com os
cacos de vidro que as menininhas cortam os pulsos
colorir a água com papel machê
o mundo não é um livro de colorir mas se fosse
com que cor você pintaria
as sarjetas e os mercados e as praças sonolentas
com que cor

(mais fácil seria lançar pro alto e queimar os olhos
contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

ii

olharia os pulsos
a silhueta das veias
os objetos em queda
o passado e o passado
bastaria  para ver todo o sangue bastaria
rio abaixo
o torpor do sangue
a língua a morte como
desejo mastigando [os lábios]
seria estrela seria
lembrança a ser esquecida
vaidade a escorrer ralo abaixo
destino a modo líquido
com o sangue olharia os pulsos
e qualquer gesto me diria vida

iii

um corpo-fábrica reproduzido desde
a tintura da omoplata à silhueta da garganta
em seu modo líquido
(contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

§

i

esfumaça-se
no céu nublado, o pensamento
entre os olhos
taciturnos, abaixando-se ao
modo de bichos caçados.

gastando horas, frases mágicas, caranguejos de aço
diluindo-se nos meio-termos
do medo
(dos poros dilatados do medo)

ii

ainda agora
memória
diluindo-se pelas
coisas
pelas mãos
pelas mães mortas
por povos inteiros
agora e somente
agora

iii

o primeiro amor morreu

primeiro amor, você morreu
ainda tão bonito…

iv

a insônia
não muda noite em
dia

sobe aos olhos, vidra-se
em agora

a insônia
só muda os lençóis

v

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se da inteligência, dos
presentes de natal,
de não fumar,
de fumar pouco, de estar parando de
fumar.

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se dos domingos mornos
dos filhos bem formados, das viagens
aos finais de ano.

com os números, estimo
somente a quantidade de
confeitos no jarro

e basta.

§

faz falta um guerrilheiro

pais e filhos que rezam ave-maria em oratórios
e dividem
espaço com discussões
políticas.
padres
hóstias
coronéis
eventualmente uma morte (a mando)
eventualmente um sorriso generoso,
eventualmente um crisma e festejos.
tantas vezes e pra quê
filas de supermercado
cortinas vermelhas
histórias iguais e óculos escuros
moro num país
moro numa cidade de
praças escuras.

 

***

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crítica, xanto

XANTO | Rodrigo Tadeu Gonçalves e a transfiguração do espasmo em ironia, por Sergio Maciel

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Todas as fotos deste post foram feitas pelo fotógrafo Rafael Dabul e ilustram o livro Quando o verão, de Rodrigo Tadeu Gonçalves (Kotter/Patuá, 2018).

[…]
Tudo chega de um mundo antiquíssimo
Onde encontraremos pedaços desajustados de fotografias:
Recortes de pensamentos visuais
E um amor que não quer colaborar com a morte
– Vasto pássaro bicando as montanhas lavadas.

“Natureza”, de Murilo Mendes

 

Há uma miríade de sentimentos que podemos nutrir diante de situações traumáticas, e a psicologia vai dar conta disso, o que me interessa aqui, particularmente, é o modo como poeticamente utilizamos a ironia como ferramenta, como meio de transporte durante situações que se nos apresentam como desagradáveis. Tomemos como primeiro exemplo o livro de Adelaide Ivánova. Como eu disse em outra oportunidade (clique aqui), em “O Martelo temos uma narrativa, ou a tentativa de construção de uma narrativa, sobre uma situação de catástrofe. Freudianamente, dá pra dizer que se trata de uma narrativa que busca desenvolver a angústia retroativamente, onde esta faltou. Precisamente por isso, a linguagem – que todos sabemos insuficiente – se ergue sobre a ambiguidade (ou dificuldade de definição) do gênero. Cria-se uma poética sobre uma narrativa que pretende, quase jornalisticamente, retratar um acontecimento, ao passo que essa poética constantemente parece sucumbir à apresentação dos fatos – movimento, aliás, que tensiona a mesma busca pela apresentação e aceitação dos fatos na instância jurídica do crime –, como na descrição física, no relato preciso do golpe de um martelo no primeiro poema ou na notícia que é o poema para laura. Há uma tensão constante, como é costume entre poéticas que se queiram políticas, entre aquilo que se pretende poético e aquilo que se pretende factual, quase jornalístico, mas que aqui, me parece, reflete quase que um embate entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, ou seja, o adiamento da satisfação – que ocorrerá na segunda parte do livro – através da tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer”.

Bem, aquilo que eu quis dizer, mas não disse é que essas apresentações dos fatos, em Ivánova, se dão por meio de uma descrição didática de determinados eventos que se revela, no final, extremamente irônica. Lá – pintemos aqui todo o quadro que a poeta busca retratar: a violência e o silenciamento, sobretudo intelectual, que a acomete a mulher em nossa sociedade –, a ironia é moldada através do uso desse didatismo – quando não se tem outras armas que não as palavras – contra os atos, gestos construídos propositalmente para desestabilizar, para ferir. Descrever, de modo quase científico, o acontecimento físico-mecânico de um golpe de martelo é um modo irônico de se opor à violência; como se a violência velada da ironia no discurso quisesse anular a violência contra o corpo. Citando Ida Lucia Machado (clique aqui),

Por que algumas pessoas ironizam ao narrar suas vidas? Podemos arriscar algumas respostas: ironizam para tornar os acontecimentos passados mais aceitáveis, para “fazer de conta” que eles não machucaram muito o narrador que conseguiu construir uma vida, apesar de todos os obstáculos; ironizam para imaginar que essa vida é algo único e especial; mesmo se depois concluírem que todos os destinos, todas as vidas são especiais e únicas e todas podem ser objetos de narrativas.

Bem, no fundo é isso: a ironia pode servir como ferramenta para a criação de uma narrativa na qual sejamos capazes de transgredir o convencional-banal da vida, o discurso passado traumático, o medo do futuro, os dogmas, os discursos totalitários, a amargura, entre outras coisas. A ironia é uma via de trânsito possível, um escoamento clínico através do qual o sujeito pode se recompor, organizando seu tempo de vida (eu-passado, eu-presente, eu-porvir, eu-em-trânsito), e dar coerência a seu desejo em meio a um mundo completamente incoerente.

No livro de estreia de Rodrigo Tadeu GonçalvesQuando o verão (Kotter-Patuá, 2018), no entanto, ao contrário do livro de Adelaide, em que a ironia tensiona a digestão de um crime, não há um evento em específico que justifique, que deixe às claras esse recurso da ironia. Trata-se, portanto, de um modo, demasiado humano, de lidar com o medo, com a aflição, a angústia, a vivência, afinal, da morte; da transfiguração do espasmo da existência em ironia. Negar a existência dos deuses, do pós-vida, de qualquer espécie de redenção e acreditar na finitude do ser aqui mesmo na Terra não nos exime de temer constantemente esse inacabado que é viver. E, bem, é meio isso que acontece aqui no livro de Rodrigo, que se divide, basicamente, em quatro partes: i) a abertura com o longo poema que dá título ao livro; o capítulo CORPORA BARBARA, que se subdivide entre ii) corpora e iii) barbara; iv) o capítulo final psicotrópicas. A tudo isso intercalam-se fotografias de Rafael Dabul, que, pra dizer com Murilo Mendes ali em cima, parecem ‘recortes de pensamentos visuais’.

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O poema de abertura Quando o verão voltar instaura logo de início a relação que o eu-lírico estabelecerá com um tempo que se apresenta sempre externo a ele, i.e., com a expectativa, com a ânsia do futuro. É a partir dessa tensão, portanto, entre o tempo futuro, ansiado, e o eu-lírico, que aparece “desejando a finitude” (p. 21), que se instalará a ironia como método de suporte da vida. Trata-se, como no caso das instâncias performativas da linguagem de que trata Shoshana Felman, de uma espécie de promessa irônica que busca performar a cada verso essa própria finitude que se teme. No fundo, o eu-lírico não deseja presenciar o retorno do verão, senão desfazer-se de toda espécie de corpo, de linguagem – que ele tentará desfiar nos dois capítulos seguintes. Não por acaso, os dois primeiros poemas do capítulo seguinte tratam do corpo e da linguagem.

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É em corpora que aquela espécie de ironia didática, que comentei acima em relação à poética de Adelaide Ivánova, começa a exibir seus contornos – aliás, a relação entre essas duas poéticas fica extremamente clara no poema “O cavalo e o martelo” (p. 49), que é dedicado à própria Adelaide. O procedimento irônico aqui em Rodrigo parece muito semelhante àquele operado por Ivánova; trata-se do distanciamento do sujeito em relação ao assunto que discorre. O tom com que nos é apresentado o corpo, “sistema complexo composto por milhares de nomes”, repousa entre o pedante-informativo e o jocoso-irônico. É justamente nesse embate entre um registro que parece almejar ao enciclopédico ao mesmo tempo que descamba para o extremo banal que o corpo e toda sua vulnerabilidade vai se desmontando em pequenos pedaços de ironia até que o ser, desprovido de pele, pareça estar imune aos apelos da dor, do sofrimento e, principalmente, da morte. O corpo vai se transformando em subpartes incapazes de serem recompostas ou reordenadas em um único eu. O corpo do primeiro poema, que se incrusta no capítulo corpora, não é mais corpo, é antes língua, unha, “deixando inexplicado o acordo de cooperação entre orgânico e inorgânico/ do qual parece ser partícipe”. Ou seja, essa espécie de ‘desmonte’ das funções do corpo serve para escavar de suas cavidades tudo aquilo que seja humano, tudo aquilo passível de perecimento, tornando-o meio invólucro, mero meio.

Bem, se o corpo é invólucro, resta-nos então saber que coisa ele está guardando? O espírito, talvez? Possibilidade que parece ser logo descartada pelo descaso que o poema “Espírito” (p.51) revela:

ESPÍRITO

o espírito é o sopro que te leva passear
de noite, quando a insônia vai dormir cansada
o que explica mesmo com abluções recomendadas
o bafo matinal

O sopro que é o espírito aqui se equipara e equivale ao fétido e corriqueiro bafo matinal. Não é exatamente este o trato esperado com algo tão metafisicamente relevante. A linguagem, então, talvez? Vejamos o poema a seguir:

TEORIA DA LINGUAGEM

tenho a sensação
que é a imagem que impressiona.
mas a minha obsessão
não é foto,……é pathos.
o pathos que assola em reverberação associativa
por sequências de pequenas insonâncias
……..aleatórias ou não
que ritmam.

ouça este poema:
ele parte da constatação
que não foi defendida pela primeira vez por humboldt
nem por locke
nem mesmo por górgias o sofista
de que a palavra é mestre titereiro
titerando espíritos em afetos
mexendo em convulsão com seus amores;
seus sim, não dele ou dela.

apaixonando com palavra, entonação,
sotaque ou timbre,
que é muito mais paixão que peito ou olho,
que faz você escutar poema, texto,
memória de palavra ou invenção,
com a voz de quem quiser, ou corpo.

Fica claro que o trato dado aqui à linguagem, sobretudo às suas capacidades operativas no mundo, ultrapassam a faculdades do corpo. Não se trata do corpo, do espírito e nem da habilidade cognitiva linguística dos humanos. Importa a convulsão do corpo causada pelos estalos significantes da língua, pela ironia. Vejamos bem como pode funcionar esse recurso da ironia. Tomemos como exemplo o poema “Sêmen” (p.61):

SÊMEN

semente cremosa, espumosa, esbranquiçada e opalina;
em casos de abstinência sexual, amarelada
(pela morte e necrose de células haploides mais antigas)

depois de 10 a 30 minutos no ambiente
torna-se extremamente fluida
(curiosamente exposta ao ar em baixas latitudes,
a parte mais líquida evapora e fica menos fluida e mais pegajosa)
o sabor é acentuado (geralmente adstringente)
e um pouco salgado com variações relacionadas
com a alimentação de cada indivíduo

homologia une o um e o múltiplo

a ejaculação de um homem sadio varia entre 3,5 e 5 ml

Que porra, com o perdão do trocadilho, o poema acima parece introduzir de novo no mundo? Parece se tratar simplesmente da disposição em versos de uma explicação friamente científica a respeito da composição e do funcionamento biológico do sêmen, com exceção do penúltimo verso, que se pretende poético.  Isto é, semelhante à descrição do golpe do martelo citado acima no livro de Adelaide, o esmiuçamento do sêmen parece não servir a outro propósito que não o de desumanizar progressivamente qualquer resquício do corpo. É o único modo que o eu-lírico encontra de atravessar seu caminho em direção ao fim. Soma-se a esse desmembramento e consequente desumanização do corpo em corpora, a inconstância da linguagem em barbara. Gesto que parece colocar quem fala numa posição externa, indolor, capaz de assistir ao lentos avanços da morte.

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É no último capítulo, Psicotrópicas, que o tema da morte corrompe todo o dizer. É somente no final, portanto, que o eu-lírico parece contemplar o fato de que “a morte é natural/ a vida acaba” (p.122). No entanto, após o intenso processo de dessensibilização provocado pela ironia com que tratou o corpo e o próprio discurso, aliado a um forte tom epicurista adquirido a partir do contato com a poética do poeta romano Lucrécio, o eu-lírico parece ir se dissolvendo no tom grave dos poemas como se buscasse evitar que aquele verão, anunciado no primeiro poema, retornasse e, assim, ele tivesse que enfrentar toda essa travessia outra vez. É nos “destroços da linguagem claustro” (p.150), “enquanto a natureza orquestra sua cura/ e a noite apaga o quente da sua têmpora”, que se busca refúgio. Agora, e somente agora, após despir-se de toda a fantasia da morte, que o poeta permite acabar-se assim:

sentir pena de si mesmo
só por ser mortal
ter medo da claustrofobia no caixão
imaginar a dor dos outros no velório
como se você tivesse ali do lado
mão no peito do cadáver
recebendo condolências

o que te dói mesmo mesmo é
ver que isso é besteira
saber que morte é
necessariamente o fim
dessa funérea fantasia

Rodrigo, enfim, através da ironia busca lidar com os apelos incessantes da morte. Insere-se numa longa tradição de gente que, querendo assumir ou não, precisar lidar com esse fim inerente a todo ser. A poesia, ou a arte, afinal, é “um amor que não quer colaborar com a morte”, pra dizer com Murilo; e, pra dizer com João, “o amor comeu meu medo da morte”. O amor nos salva, assim como a poesia.

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XANTO| Notas sobre “A Menstruação de Valter Hugo Mãe”, de Carla Diacov, por Marcelo Reis de Mello

As cólicas em muitas perspectivas

Notas sobre A Menstruação de Valter Hugo Mãe, de Carla Diacov (Casa Mãe, 2017)

Por Marcelo Reis de Mello

Na primeira vez que li A menstruação de Valter Hugo Mãe estava em Ponta Grossa, no interior do Paraná com a minha família. Meu pai, meu irmão e eu resolvemos levar as minhas sobrinhas para um acampamento no mato, perto de uma cachoeira. Levei o livro. Fiquei meio atordoado, não entendi direito. À tarde, depois de um mergulho no rio, li a entrevista como quem lê a legenda explicativa de uma obra de arte contemporânea. Ajudou um pouco. Achei a entrevista muito bonita, mas continuei nu e desconfortável diante do texto. Havia também aquelas aquarelas de sangue menstrual entre os poemas, sobre as quais eu não sabia dizer nem mesmo se gostava ou não. Seduzia-me o tom. Gostava do vermelho diluído na palidez do papel.

No primeiro semestre de 2018 ofereci um curso de poesia contemporânea na UERJ, dentro do qual retomei a leitura do livro da Carla, mas desta vez coletivamente. A experiência de uma releitura em voz alta, poema a poema, com uma turma composta quase totalmente por mulheres, abriu novas perspectivas. Não que eu tenha (ou que tenhamos, juntos) “entendido” o livro, mas fomos capaz de abri-lo e explorá-lo sob novas chaves, reivindicando outro campo de forças. A elas agradeço.[1] Veio o debate sob o signo da menstruação, sobre o que este sangue significa ou deixaria de significar; sobre o modo pelo qual a poeta chama o texto ao sangue (e o sangue ao texto) sem reforçar clichês. Não, este sangue não definiria para nós o que é a mulher. Atente-se ao título, estranho como o resto. Sua escrita sangrenta não é panfletária, é sinestésica: textura, cor, cheiro. “[Vermelho] é meu cheiro da sorte”, diz Carla na entrevista a VHM ao fim do livro.

Falando em sinestesia, que como se sabe não é apenas uma figura de linguagem, mas também uma rara condição neurológica, lembro-me de ter lido a respeito de uma chacota sofrida na escola por um aluno sinesteta, ao perguntar a um colega – “De que cor é o seu cinco?”. Isso para dizer que neste caso específico, para este livro, a escolha (editorial?) da impressão das letras em vermelho foi um tremendo acerto. Não apenas por se tratar de uma escrita de sangue. Isso o poeta russo Serguei Iessiênin já havia experimentado em 28 de dezembro de 1925. Mas principalmente porque os sinestetas que associam letras a cores costumam ter um desafio a mais quando o texto é colorido. Se a pessoa associa a letra B ao amarelo ocre, por exemplo, e o texto vem escrito em vermelho, o cérebro confunde os estímulos. Que cor estou lendo? Com isso obviamente não quero dizer que todos “sofremos” de sinestesia, mas que a poesia da Carla propõe este desarranjo ou rearranjo dos sentidos. Ali somos incitados e exorbitar as leis do olho, do nariz, dos ouvidos, da pele, da boca – ruem as normas do corpo, a nossa suposta normalidade.

Antes de prosseguir, abro um parêntesis para trazer ao debate outro livro fundamental, hoje: O útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas. Nos poemas publicados em 2012, a gaúcha investe em formas ácidas de humor, pulverizando a subjetividade e multiplicando as perspectivas ao filiar-se a procedimentos inventivos e “não-criativos”, como no caso dos três poemas escritos com “googlagem”. Os estereótipos são repetidos até se esfacelarem no riso, um riso amarelo. E os dêiticos (partículas indicadoras de pessoa, tempo, espaço) não indicam muito mais do que um embaralhamento da subjetividade (não se diz “eu” ou “tu”, mas “a mulher”). Aliás, quem ali diz? A poeta Angélica? A mulher Angélica? A mulher? Os logaritmos do mecanismo de busca? Os homens que buscam o que “a mulher quer” no Google?): poesia, portanto, onde a construção mulher vai aos poucos se desintegrando

(…)

(a mulher é uma construção
com buracos demais

vaza

(…)

Voltando ao livro da Carla, podemos perceber que o desmoronamento da construção se anuncia e enuncia também, mas de outro modo. Nos dois livros a mulher é uma construção que vaza, e nos dois livros a repetição é fundamental para esvaziar os estereótipos. Mas aqui já não sobra uma acidez e um riso amarelo; talvez um amargor delicado e um riso confuso, doido. A trapaça de Carla se dá para além da insistência na mensagem (na palavra), que, aqui, deslocada, desconjuntada dos seus referentes habituais, faz tremer o próprio código onde se insere (a língua). Não é, como também não era no caso de Angélica, uma técnica nova. Mas se realiza com equivalente habilidade. O que poderia ter virado um inventário trocadilhesco quase-engraçado se transfigura, no caso de Carla, em voragem. Ao boicotar construções previsíveis, lugares-comuns, substituindo algumas palavras por surpreendentes parônimas (palavras parecidas), acabamos diante – e simultaneamente – do familiar e do estranho. Poderíamos inclusive voltar a esta definição freudiana de estranho (unheimlich): um familiar (heimlich) que se perdeu.

O verso do livro que dá título a estas nossas notas serve como um primeiro exemplo. Ao invés de dizer “as coisas em muitas perspectivas”, a poeta diz: “as cólicas em muitas perspectivas”, como se (nos ou se ou te) perguntasse ao mesmo tempo “que coisa é uma cólica?” ou “que cólica é uma coisa?”, ou ainda “que coisa é uma perspectiva em muitas cólicas?” e assim por diante. O primeiro poema do livro já começa assim:

a vênus de willendorf tem
a capacidade aberta e usada desde sempre
(…)
era usada como amuleto era
usada como objeto de limpeza abjeto
introduzido na
capacidade das vênus ordinárias
(…)

Vemos que os substantivos femininos cavidade e capacidade se confundem, assim como o substantivo masculino objeto e o adjetivo substantivo masculino abjeto, primeiro por substituição e depois por contiguidade, amplificando o potencial analógico do texto. E acontece que estas pequenas trapaças desestabilizam a leitura como um todo, porque ao prosseguir já não sabemos se estamos diante de um elemento em seu lugar “natural” ou de uma palavra substituta, uma parônima qualquer. Ficamos como cegos numa casa que é e não é a nossa, tateando cada coisa para tentar, por via das sensações, ter acesso ao sentido. Novamente: este é o princípio sinestésico, fundador da poesia de Carla em A Menstruação de VHM. Porque se sabe, desde o início, que não há nada natural nem de sobrenatural na linguagem, apenas naturalizações e furos: movemo-nos na ficção dos corpos.

Além dessa camada intralinguística ou sublingual, ao pesquisar na internet (olha o Google de novo) ficamos sabendo que este primeiro poema explora e desdobra as discussões em torno da vênus excêntrica, a pequena e obesa Vênus de Willendorf: uma estátua esculpida entre 28.000 e 25.000 anos antes de Cristo, sobre a qual muito pouco se sabe: “seria um amuleto?”, “representava a fertilidade?”, “era enfiada na vagina?”. Depreende-se que nem sobre a deusa (aqui uma figura totalmente fora do padrão clássico) nem sobre as “vênus ordinárias” podemos conhecer muitas coisas ao certo, exceto o fato de que elas jamais deixaram de ser usadas: “hojendia os especialistas usam / a vênus de willendorf / em suas especialidades / (…)”.

Daí a impressão de que os poemas são “meio loucos”. Daí eu não ter “entendido” ao ler o livro depois de um banho de cachoeira com as minhas sobrinhas. Um amigo poeta chegou a me dizer que só entendia “os poemas da Diacov” depois de fumar maconha. Outro dia nos encontramos novamente, este amigo e eu. Propus a ele uma solução mais careta, porém não menos divertida: ao invés de fumar (ou ao invés de apenas fumar), enfrentar pelo menos três vezes cada poema. De preferência coletivamente. Porque poemas escritos em solidão não cobram, necessariamente, uma leitura solitária. Assim como poemas narcotizantes não pedem, necessariamente, um complemento material. De qualquer modo, ficam aqui pelo menos duas dicas de leitura.

Outro aspecto que merece menção é o fato de que a poeta está, desde o início, em diálogo com o escritor português Valter Hugo Mãe. Não apenas um homem, mas um homem que trouxe ao próprio nome o nome Mãe. Útero é uma palavra que nos acompanha aqui. Este é o nome de um dos livros dele, também. E foi Mãe, famoso por seus Romances, quem propôs à Carla escrever este poemário – A menstruação…, em contato ou não com os seus próprios livros. O contato acontece, em maior ou menor profundidade a cada página, colocando-nos diante de outro rasgo, mais uma desd(obra). Se pensarmos no poema de abertura sobre a estátua da Vênus de Willendorf, e que ela pode estar começando ali uma conversa com a e o Mãe, percebemos o tamanho do abismo. Mise em abyme. Isso é força. Uma força de formiga que se comunica pelo cheiro, guiando-se por trilhas de feromônio:

(…)
ELA CARREGA ATÉ CEM VEZES SEU PESO
NÃO SEGUE LINHAS RETAS
ANDA AOS BANDOS TROPEÇA
SE ALGUÉM OU ALGO ATRAVESSAR SEU CAMINHO
ELA SE PERDE DO CHEIRO DAS OUTRAS FORMAS
                                                                                   FORMIGAS
SE PERDE DA PRÓPRIA FORMAÇÃO
(…)

Some-se a todos os desafios para entrar no livro (um pouco cegos, um pouco com uma formiga) o fato de que ao lado dos poemas encontramos pinturas mais ou menos figurativas, feitas com o sangue das paredes internas do útero da poeta. Pode-se e deve-se continuar batendo na tecla dos tabus que persistem ainda hoje, no discurso marqueteiro e bizarro da indústria de absorventes, que vende uma falaciosa sujidade do sangue menstrual, na quase sempre deturpada visão do contingente masculino sobre o tema (onde inevitavelmente me incluo), na catarse dos traumas pessoais (episódios de vazamentos em público), tudo isso que de algum modo vem no livro, direta ou indiretamente.

Mas eu gostaria de insistir, sem atenuar a urgência das pautas, no quanto o signo do sangue, seja por via das “aquarelas” ou dos versos vermelhos deste livro, devém aqui como estratégia de abertura. Abertura dos significados aos quais gostaríamos de nos agarrar, mas que acabam cedendo, vazam, como se os próprios poemas fossem uma espécie de resíduo fecundante porém não fecundado de um óvulo, como se as palavras fossem de algum modo tão inúteis (frente a uma visão de “vida útil” e organizada: um “ciclo reprodutivo”) e sobrassem, sanguinolentos, apenas alguns versos torcidos entre discretos coágulos – este vermelho que lava, que leva consigo uma certa ideia de humanidade, este sangue – não o sangue do meu sangue – mas este, o filho possível:

um
filho mergulha salta
ao brilho à fundição das dimensões
um filho flutua
um ovo vingado a mil segredos
um filho entoa o nome de um pai de um deus
liquidifica no caldo filho a família mãe todos os fios
um filho existe desde quando
um filho de sangue dizem de sangue
sangue do meu sangue
não
um filho mergulha salta
flutua antes da palavra gole
antes da criação
um filho insiste
é o filho que vem ao ventre anunciar
é o filho que vem ao peito bater
é dia de festa é dia de chuva é dia de lua é dia de cão
ao filho que não vingou cabe a
estrutura da conjectura a estrutura à ideia glandular
outro filho uma vez mais essa sopa
a frágil trama de gelo sobre a figueira na folha
o filho que sim o filho que chega
perdido entre os próprios pés
cá já estava mergulhando flutuante
o filho que estende a mãozinha ao sol
o sol que cobre o filho antes da folha antes
do gelo antes da casca
um filho de sangue dito
sangue do meu sangue
esse não

meu filho me agasalha me beija as xícaras
meu filho me guarda o hálito e o hálito meu
filho me olha absorto
meu filho meu
hálito um novelo da lã primeira

que todo filho é seiva que todo dia é de chuva
que todo o sangue é motivo que cada motivo
é terra é verbo é estalo é aparição

Niterói, Julho de 2018.

[1] Agradeço aqui nominalmente à Julia Ramôa, Julia Medina, Vivian Almeida, Larissa Vaz, Cristina Viana, Ceci Penido, Gabi Gabiroba e Maria Carol. Também ao Rafael Zacca e ao Heyk Pimenta, por todas as conversas.

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6 poemas de Roberto Bolaño, por Cide Piquet e Camila de Moura

Este é o nosso terceiro post voltado para a poesia de Roberto Bolaño, se quiser saber mais, olhe aqui.

Os poemas “Os cachorros românticos”, “Autorretrato aos vinte anos”, “Ressurreição”, “Sujo, malvestido” e “Godzilla no México” são de Los perros románticos (1993); “Os homens duros não dançam” é de La universidad desconocida (2007). As traduções são de Cide Piquet, com colaboração de Camila de Moura.

guilherme gontijo flores

* * *

OS CACHORROS ROMÂNTICOS

Naquele tempo eu tinha vinte anos
e estava louco.
Tinha perdido um país
mas tinha ganhado um sonho.
E se eu tinha esse sonho
o resto não importava.
Nem trabalhar nem rezar
nem estudar de madrugada
com os cachorros românticos.
E o sonho vivia no vazio do meu espírito.
Uma casa de madeira,
em penumbras,
num dos pulmões do trópico.
E às vezes eu me revirava dentro de mim
e visitava o sonho: estátua eternizada
em pensamentos líquidos,
um verme branco se retorcendo
no amor.
Um amor desbocado.
Um sonho dentro de outro sonho.
E o pesadelo me dizia: crescerás.
Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto
e esquecerás.
Mas naquele tempo crescer teria sido um crime.
Estou aqui, eu disse, com os cachorros românticos
e aqui vou ficar.

LOS PERROS ROMÁNTICOS

En aquel tiempo yo tenía veinte años
y estaba loco.
Había perdido un país
pero había ganado un sueño.
Y si tenía ese sueño
lo demás no importaba.
Ni trabajar ni rezar
ni estudiar en la madrugada
junto a los perros románticos.
Y el sueño vivía en el vacío de mi espíritu.
Una habitación de madera,
en penumbras,
en uno de los pulmones del trópico.
Y a veces me volvía dentro de mí
y visitaba el sueño: estatua eternizada
en pensamientos líquidos,
un gusano blanco retorciéndose
en el amor.
Un amor desbocado.
Un sueño dentro de otro sueño.
Y la pesadilla me decía: crecerás.
Dejarás atrás las imágenes del dolor y del laberinto
y olvidarás.
Pero en aquel tiempo crecer hubiera sido un crimen.
Estoy aquí, dije, con los perros románticos
y aquí me voy a quedar.

§

AUTORRETRATO AOS VINTE ANOS

Me deixei levar, me lancei e nunca soube
até onde teria podido chegar. Ia cheio de medo,
com o estômago fraco e um zumbido na cabeça:
acho que era o ar frio dos mortos.
Não sei. Me deixei levar, pensei que era uma pena
acabar tão rápido, mas por outro lado
escutei aquele chamado misterioso e convincente.
Ou você escuta ou não escuta, e eu escutei
e quase comecei a chorar: um som terrível,
nascido no ar e no mar.
Um escudo e uma espada. Então,
apesar do medo, me deixei levar, encostei o meu rosto
no rosto da morte.
E foi impossível fechar os olhos e não ver
aquele espetáculo estranho, lento e estranho,
ainda que embutido numa realidade velocíssima:
milhares de rapazes como eu, imberbes
ou barbudos, mas todos latino-americanos,
de rostos colados com a morte.

AUTORRETRATO A LOS VEINTE AÑOS

Me dejé ir, lo tomé en marcha y no supe nunca
hacia dónde huibera podido llevarme. Iba lleno de miedo,
se me aflojó el estómago y me zumbaba la cabeza:
yo creo que era el aire frío de los muertos.
No sé. Me deje ir, pensé que era una pena
acabar tan pronto, pero por otra parte
escuché aquella llamada misteriosa y convincente.
O la escuchas o no la escuchas, y yo la escuché
y casi me eché a llorar: un sonido terrible,
nacido en el aire y en el mar.
Un escudo y una espada. Entonces
pese al miedo, me dejé ir, puse mi mejilla
junto a la mejilla de la muerte.
Y me fue imposible cerrar los ojos y no ver
aquel espectáculo extraño, lento y extraño,
aunque empotrado en una realidad velocísima:
miles de muchachos como yo, lampiños
o barbudos, pero latinoamericanos todos,
juntando sus mejillas con la muerte.

§

RESSURREIÇÃO

A poesia entra no sonho
como um mergulhador em um lago.
A poesia, mais valente que qualquer um
entra e cai
como chumbo
num lago infinito como o Lago Ness
ou turvo e infausto como o lago Balatón.
Contemplai-a desde o fundo:
um mergulhador
inocente
envolto nas plumas
da vontade.
A poesia entra no sonho
como um mergulhador morto
no olho de Deus.

RESURRECCIÓN

La poesía entra en el sueño
como un buzo en un lago.
La poesía, más valiente que nadie,
entra y cae
a plomo
en un lago infinito como Loch Ness
o turbio e infausto como el lago Balatón.
Contempladla desde el fondo:
un buzo
inocente
envuelto en las plumas
de la voluntad.
La poesía entra en el sueño
como un buzo muerto
en el ojo de Dios.

§

SUJO, MALVESTIDO

No caminho dos cães minha alma encontrou
meu coração. Destroçado, mas vivo,
sujo, malvestido e cheio de amor.
No caminho dos cães, lá onde ninguém quer ir.
Um caminho que só percorrem os poetas
quando não lhes resta nada a fazer.
Mas eu ainda tinha tantas coisas por fazer!
E no entanto ali estava: me fazendo matar
pelas formigas vermelhas e também
pelas formigas negras, percorrendo as aldeias
vazias: o espanto que se elevava
até tocar as estrelas.
Um chileno educado no México pode suportar tudo,
pensava, mas não era verdade.
Às noites meu coração chorava. O rio do ser, diziam
uns lábios febris que logo descobri eram os meus,
o rio do ser, o rio do ser, o êxtase
que se curva na ribeira dessas aldeias abandonadas.
Sumulistas e teólogos, adivinhos
e assaltantes de estrada emergiram
como realidades aquáticas no meio de uma realidade
metálica.
Só a febre e a poesia provocam visões.
Só o amor e a memória.
Não estes caminhos nem estas planuras.
Não estes labirintos.
Até que por fim minha alma encontrou meu coração.
Estava doente, sim, mas estava vivo.

SUCIO, MAL VESTIDO

En el camino de los perros mi alma encontró
a mi corazón. Destrozado, pero vivo,
sucio, mal vestido y lleno de amor.
En el camino de los perros, allí donde no quiere ir nadie.
Un camino que sólo recorren los poetas
cuando ya no les queda nada por hacer.
¡Pero yo tenía tantas cosas que hacer todavía!
Y sin embargo allí estaba: haciéndome matar
por las hormigas rojas y también
por las hormigas negras, recorriendo las aldeas
vacías: el espanto que se elevaba
hasta tocar las estrellas.
Un chileno educado en México lo puede soportar todo,
pensaba, pero no era verdad.
Por las noches mi corazón lloraba. El río del ser, decían
unos labios afiebrados que luego descubrí eran los míos,
el río del ser, el río del ser, el éxtasis
que se pliega en la ribera de estas aldeas abandonadas.
Sumulistas y teólogos, adivinadores
y salteadores de caminos emergieron
como realidades acuáticas en medio de una realidad metálica.
Sólo la fiebre y la poesía provocan visiones.
Sólo el amor y la memoria.
No estos caminos ni estas llanuras.
No estos laberintos.
Hasta que por fin mi alma encontró a mi corazón.
Estaba enfermo, es cierto, pero estaba vivo.

§

GODZILLA NO MÉXICO

Considere isto, meu filho: as bombas caíam
sobre a cidade do México
mas ninguém se dava conta.
O ar carregou o veneno através
das ruas e das janelas abertas.
Você estava acabando de comer e via na tv
os desenhos animados.
Eu lia no quarto ao lado
quando soube que íamos morrer.
Apesar da tontura e da náusea me arrastei
até a sala e te encontrei no chão.
Nos abraçamos. Você perguntou o que estava acontecendo
e eu não disse que estávamos no programa da morte
mas sim que íamos começar uma viagem,
mais uma, juntos, e que não tivesse medo.
Ao ir embora, a morte nem sequer
fechou nossos olhos.
O que somos?, você me perguntou uma semana ou um ano depois,
formigas, abelhas, cifras equivocadas
na grande sopa apodrecida do acaso?
Somos seres humanos, meu filho, quase pássaros,
heróis públicos e secretos.

GODZILLA EN MÉXICO

Atiende esto, hijo mío: las bombas caían
sobre la ciudad de México
pero nadie se daba cuenta.
El aire llevó el veneno a través
de las calles y las ventanas abiertas.
Tú acababas de comer y veías en la tele
los dibujos animados.
Yo leía en la habitación de al lado
cuando supe que íbamos a morir.
Pese al mareo y las náuseas me arrastré
hasta el comedor y te encontré en el suelo.
Nos abrazamos. Me preguntaste qué pasaba
y yo no dije que estábamos en el programa de la muerte
sino que íbamos a iniciar un viaje,
uno más, juntos, y que no tuvieras miedo.
Al marcharse, la muerte ni siquiera
nos cerró los ojos.
¿Qué somos?, me preguntaste una semana o un año después,
¿hormigas, abejas, cifras equivocadas
en la gran sopa podrida del azar?
Somos seres humanos, hijo mío, casi pájaros,
héroes públicos y secretos.

§

OS HOMENS DUROS NÃO DANÇAM
Uma estrutura de sombras no continente americano
Dirigida por Norman Mailer

Os homens duros não dançam
Os homens duros chegam a povoados distantes em horas escuras
Os homens duros não têm dinheiro, gastam mal o dinheiro, buscam um pouco de dinheiro em quartos pequenos e úmidos
Os homens duros não usam pijama
Os homens duros têm paus grandes e duros que o tempo vai consumindo e amolecendo
Os homens duros seguram seus paus com uma mão e mijam vastamente sobre escarpas e desertos
Os homens duros viajam em trens de carga pelos grandes espaços da América do Norte
Pelos grandes espaços dos filmes série B
Filmes violentos onde o prefeito é infame e o xerife um filho da puta e as coisas vão de mal a pior
Até que aparece o homem duro atirando a torto e a direito
Peitos arrebentados por balas de grosso calibre se projetam
Em nossa direção
Como hóstias de redenção definitiva
Os homens duros fazem amor com camareiras
Em quartos femininos pobremente decorados
E vão embora antes que amanheça
Os homens duros viajam em transportes miseráveis pelos grandes espaços da América Latina
Os homens duros compartilham a paisagem da viagem e a melancolia da viagem com porcos e galinhas
Para trás ficam bosques, prados, montanhas com dentes de tubarão, rios sem nome, esforços vãos
Os homens duros recolhem as migalhas da memória sem uma queixa
Nós comemos, dizem, fodemos, nos drogamos, conversamos até o sol nascer com amigos de verdade
O que mais podemos pedir?
Os homens duros deixam seus filhos espalhados pelos grandes espaços da América do Norte e da América Latina
Antes de enfrentarem a morte
Antes de receberem com o rosto esvaziado de esperanças a visita da Magrela, da Caveira
Antes de receberem com o rosto enrugado pela indiferença a visita da Madrinha, da Soberana
Da Indesejada, da Peluda, da Mais Feia do Baile
Da Mais Feia e Mais Famosa do Baile

LOS HOMBRES DUROS NO BAILAN
Una estructura de sombras en el continente americano.
Dirigida por Norman Mailer

Los hombres duros no bailan
Los hombres duros llegan a pueblos limítrofes en horas oscuras
Los hombres duros no tienen dinero, malgastan el dinero, buscan un poco de dinero en habitaciones minúsculas y húmedas
Los hombres duros no usan pijama
Los hombres duros tienen vergas grandes y duras que el tiempo va cuarteando y emblandeciendo
Los hombres duros cogen sus vergas con una mano y mean largamente sobre acantilados y desiertos
Los hombres duros viajan en trenes de carga por los grandes espacios de Norteamérica
Los grandes espacios de las películas de serie B
Películas violentas en donde el alcalde es infame y el sheriff es un hijo de puta y las cosas van de mal en peor
Hasta que aparece el hombre duro disparando a diestra y siniestra
Pechos reventados por balas de grueso calibre se proyectan
Hacia nosotros
Como hostias de redención definitiva
Los hombres duros hacen el amor con camareras
En habitaciones femeninas pobremente decoradas
Y se marchan antes de que amanezca
Los hombres duros viajan en transportes miserables por los grandes espacios de Latinoamérica
Los hombres duros comparten el paisaje del viaje y la melancolía del viaje con cerdos y gallinas
Atrás quedan bosques, llanuras, montañas como dientes de tiburón, ríos sin nombre, esfuerzos vanos
Los hombres duros recogen las migajas de la memoria sin una queja
Hemos comido, dicen, hemos culeado, nos hemos drogado, hemos conversado hasta el amanecer con amigos de verdad
¿Qué más podemos pedir?
Los hombres duros dejan a sus hijos desperdigados por los grandes espacios de Norteamérica y Latinoamérica
Antes de enfrentarse con la muerte
Antes de recibir con el rostro vaciado de esperanzas la visita de la Flaca, de la Calaca
Antes de recibir con el rostro arrugado por la indiferencia la visita de la Madrina, de la Soberana
De la Pingüina, de la Peluda, de la Más Fea del Baile
De la Más Fea y la Más Señalada del Baile

 

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