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Editorial

A escamandro está no seu décimo ano de vida. O que nos faz repensar pra valer o que fizemos e também queremos fazer de agora em diante. Depois de várias conversas, consideramos uma mudança editorial no formato blogue da revista. O cenário hoje é radicalmente diferente daquele que havia no início do nosso projeto, em 2011, seja por aquilo a que nos propúnhamos, seja pelo florescimento de novas e múltiplas revistas no paradigma nacional. Por isso, decidimos optar por um novo modelo, com menos postagens, porém maior intervenção de cada um de nós cinco; e isso se dá porque sentimos que a demasia de publicações de nossa parte tem gerado também um cansaço, não só nosso, mas de quem lê e se interessa: o aumento de postagens não implica num aumento de leitores; na verdade, muitas vezes ocorre o oposto. O saturamento, portanto, não parece saudável a ninguém. Isso, no entanto, não quer dizer uma aposta no menos como retorno aos velhos nomes de sempre, ou a uma pirâmide de autores e obras. A questão é que, se a internet é a possibilidade da difusão contínua e quase-anárquica de tudo (mundo que nos fascina, de fato), talvez o desafio editorial seja mesmo agora tomar partidos, fazer apostas, cruzar ideias, com o intermeio de silêncios, esses tão fundamentais em meio à algaravia do mundo, que permitam o pensamento, a reflexão e o acolhimento do efeito das poemas e poéticas. Com isso, queremos cruzar nossas cinco vozes em projetos um pouco mais pessoais de leitura do presente e do passado, sem precisarmos dar conta da imensa demanda que temos continuamente por e-mail e mensagens (fica-se com a impressão de que a revista, como está em sua forma-blogue, corria o risco de se tornar mera vitrine, sem sua intenção inicial de potência interventora). A ideia então é, mantendo a liberdade e diferença de cada editor, investir mais no desafio da crítica, seja na tradução ou no ensaio, ou mesmo numa escolha de nomes contemporâneos que gostaríamos de comentar. Ao longo do ano corrente, apesar do horror, ainda colocaremos em curso o que há em agendamentos, embora já se possa sentir, aqui e ali, pequenas diferenças no enfrentamento das demandas colocadas. As linhas editoriais da revista vão, paulatinamente, encontrando as melhores maneiras de intervenção no cenário atual, como dito anteriormente, e, ao repensarmos a velocidade das águas, entraremos no próximo ano já com os riscos do porvir, leito de rio em movimento. Tenhamos todos melhor sorte.

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tradução

Rachel Hadas (1941—), por Rodrigo Gonçalves

Rachel Hadas é autora de mais de vinte livros de poesia, ensaios e traduções. Poems for Camilla foi publicado em 2018 pela Measure Press, que lançará Love and dread ainda em 2020. Uma coleção de seleções de prosa, Piece by piece, será publicada por Paul Dry Books em 2021. Rachel Hadas é Board of Governors Professor of English na Rutgers University-Newark, Nova Jersey, EUA, onde leciona há muitos anos.

* * *

POEMS FOR CAMILLA (2018), Rachel Hadas

The Mothers on the Wall

stant pavidae in muris matres oculisque sequuntur
pulveream nubem et fulgentes aere catervas
Aeneid VIII. 590-1

The fearful mothers standing on the wall,
the cloud of dust they follow with their eyes:
millennia pass, and nothing’s changed at all
of our self-inflicted miseries.
Young men stamping; clouds of dust their feet
Stir up; the gleaming weapons and the heat –
the women, poised and fearful, gazing down
as the squadron marches out of town,
keep following its progress even when
nothing is left to see of all the men,
horses, lances, banners. Only air
trembles and registers that they were there:
dust devils, horse manure blown on the wind,
a fume of sweat are all that’s left behind.
Nothing more; the life has passed. But still,
Stricken, the mothers stare down from the wall.

As mães na muralha

stant pavidae in muris matres oculisque sequuntur
pulveream nubem et fulgentes aere catervas
Aeneid VIII. 590-1

As mães, com medo, no alto da muralha,
com os olhos seguem as nuvens de poeira:
milênios passam, nada nunca calha
mitigar nossa autoimposta miséria.
As nuvens de poeira aos pés batidas
dos jovens; o calor, armas polidas –
as mulheres, tremendo, olhando abaixo
enquanto o esquadrão se põe em marcha,
saindo da cidade, o seu progresso
perseguem até que, enfim, desaparecem
insígnias, lanças e cavalos; só
o ar registra, trêmulo, com pó
em remoinho, esterco, e mais, no vento,
a névoa de suor: tudo que resta.
E nada mais; passou a vida, olham
as mães, feridas, do alto da muralha.

§

Painted Full of Tongues

fama, malum qua non aliud velocius ullum:
mobilitate viget virisque adquirit eundo,
parva metu primo, mox sese attollit in auras
ingrediturque solo et caput inter nubile condit
monstrum horrendum, ingens, cui tot sunt corpore plumae,
tot vigiles oculi subter (mirabile dictu),
tot linguae, totidem ora sonant, tot subrigit auris.
Nocte volat caeli medio terraeque per umbram
stridens, nec dulci declinat lumina somno;
luce sedet custos aut summi culmine tecti
turribus aut altis, et magnas territat urbes,
tam ficti pravique tenax quam nuntia veri
Haec tum multiplici populos sermone replebat
gaudens, et pariter facta atque infecta canebat…
— Aeneid IV. 174-90

Fast-moving Rumor, growing as he goes,
timid and small at first, gains strength in motion
until he bumps his head against the clouds.
Swiftest of evils, flitting through the night,
Rumor never shuts his countless eyes.
He has as many eyes, tongues, ears as feathers;
flies, watches, talks, and listens all at once,
incessantly. He’s everywhere. He’s growing.
Broadcasting dappled bulletins all day
from a high tower, filling people’s minds
with bubbling streams of babble
where true and false inextricably blend,
panicking whole cities, full of glee,
gigantic, disembodied, all hot air,
he goes about his tasks: unmaking meaning
and sowing terror. He can’t be controlled
or ignored, he doesn’t stop, relentless.
Nor do his crowds of lackeys ever sleep.
Pariter facta atque infecta — reportage
in a steady stream. He never tires.
We are tired. What should we believe?
Fear, confusion, anger — all exhausting.
Crouching in his tower, he pouts and glowers,
angry and happy, happy to be angry,
and keeps on putting forth a froth of words
true and false mixed — but falsehood trumps the truth.
Virgil’s Fama is female. Not this time.

Pintado cheio de línguas

Nem ha contagio mais veloz que a Fama.
Mobil vigora, e fôrça adquire andando: 195
Tímida e fraca, eis se remonta ás auras;
No chão caminha, e a fronte ennubla e esconde.
Da ira dos deuses Terra mãe picada,
Posthuma a Celo e Encelado, he constante,
De pés leve engendrou-a e de azas lestes: 200
Horrendo monstro ingente, que, oh prodigio!
No corpo quantas plumas tem, com tantos
Olhos por baixo véla, tantas linguas,
Tantas bôcas lhe soam, tende e alerta
Ouvidos tantos. Pelo céo de noite 205
Revoa, e ruge na terrena sombra,
Nem os lumes declina ao meigo somno:
De dia, em celsa tôrre ou summo alcaçar,
Sentada espia e as capitaes aterra;
Do falso e ruim tenaz, do vero nuncia. 210
Vária e palreira então com gaudio os povos
Aturde, e o feito e por fazer pregoa:
(Eneida, IV, 174-90, Trad. Odorico Mendes)

Mais rápido entre os males, voando pela noite,
o Rumor nunca fecha os inúmeros olhos.
Tem mesmo tanto de olho, língua, orelha e pena;
ao mesmo tempo voa, espreita, fala e escuta,
sem cessar. Ele está por todo lado. E cresce.
Transmite o dia todo boletins manchados
de cima da alta torre, enchendo as nossas mentes
de um fluxo borbulhante blablabla
no qual o vero e o falso se imiscuem com força,
em gozo, põe cidades inteiras em pânico,
gigante e incorpóreo, inteiro ele é ar quente,
persegue suas tarefas: desfazer sentidos
e semear terror. Ninguém mais o controla
ou ignora, ele é imparável, implacável.
Também não dorme nunca o seu rebanho, gado.
Pariter facta atque infecta – reportagem
em fluxo estável. Ele nunca está cansado.
Nós estamos. Em que se pode acreditar?
Medo, confusão, raiva – tudo nos exaure.
Enfurnado na torre, beicinho, brabinho,
tem raiva e está feliz, feliz de estar com raiva,
e segue, escarra esturro, espuma de palavras,
verdades e mentiras mistas: ganha a trampa.
Fama é feminino em Virgílio. Agora não.

§

The Source of Thoughts

Nisus ait: ‘Dine hunc ardorem mentibus addunt,
Euryale, an sua cuique deus fit dira cupido?’
— Aeneid IX. 184-5

Tell me, do the gods implant
this ardor in our minds — is it an add-on?
Or flip it: maybe we ourselves
attribute to the gods
our hearts’ dear direst wishes?
Or take it one step further: could it be
that what we wish becomes a god to us?
Do things work outside in or inside out?
Top down or bottom up?
The passage I have fixed on — did it fly
from some high dusty shelf, some mottled page
straight into my mind
or did I rather, happening to revisit
the second half of the Aeneid
for the first time in more than fifty years
pluck the waiting words
fresh from the page like immemorial fruit?
Or (on the third hand) did my own
fears and wishes conjure up the passage?
Oh my beloved, where do thoughts come from?

A fonte do pensamento

Nisus ait: ‘Dine hunc ardorem mentibus addunt,
Euryale, an sua cuique deus fit dira cupido?’
— Aeneid IX. 184-5

Me diz, os deuses é que implantam
esse ardor na nossa mente – é um add-on?
Ou inverte: talvez nós mesmos
atribuímos aos deuses
os desejos mais selvagens dos nossos peitos?
Ou mais longe ainda: poderia ser
que o que desejamos vira um deus pra nós?
As coisas funcionam de fora pra dentro ou vice versa?
Top down ou bottom up?
A passagem em que eu me fixei – ela voou
de alguma prateleira empoeirada, a página manchada
direto pra minha mente
ou por acaso eu, ao revisitar
a segunda metade da Eneida
pela primeira vez em mais de cinquenta anos
colhi as palavras que esperavam
frescas na página como frutos imemoriais?
Ou (terceira margem) foram meus próprios
medos e desejos que conjuraram a passagem?
Oh, meu amado, de onde vêm os pensamentos?

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poesia

Miguel Martins (1969—)

Miguel Martins nasceu em Lisboa, em 1969. É poeta, prosador, crítico, tradutor, letrista de canções, arqueólogo, músico. Este é o seu 27º livro desde 1995. Traduziu, entre muitos outros, Rabelais, Lorca, Luigi Russolo, E. M. Forster, Henry Roth, Aminata Sow Fall e Heather McDonald. É membro do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura (Lisboa) e do Conselho Editorial da revista Gândara, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É colaborador da revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, desde 2009. Foi editado em Portugal, no Brasil, na Sérvia, em Espanha, em Itália, na Alemanha, na Bulgária, no México, em Cabo Verde e na Escócia.

Os poemas que seguem foram selecionados e organizados por Ricardo Domeneck para o livro São Miguel da Desorientação, editado pela Edições Macondo (2020).

* * *

As minhas ideias têm ideias próprias. Há muito
que é assim. Desde que perdi o coração, triturado
por uma máquina de fazer dias sem remorso
nem consideração pelas fragilidades que inventaram
o cristal e os versos. Tenho a língua coberta de musgo
e raiva, tenho uma moeda na algibeira e não telefono
nem ao Céu nem ao mar. Vou tendo mulheres
mas só dos olhos para fora. Sonho em matar
o tempo e caio para trás à beira do precipício
de todas as contingências. Como. Como-me.
Sozinho com as estrelas sem luz ou ainda tão distante
que só alumia o passado. Há-de haver um verbo
para isto. Desconheço-o. Desrecordo-o. Hoje
é dia de festa. Festa de São Miguel da Desorientação.
O Diabo mostra a sua cara no sono das crianças
e na falsa simplicidade dos frutos. As minhas ideias
impedem-me de estar presente. Logo hoje
que tanto queria dançar a vida numa malga de vinho.


Devíamos limpar os pés descalços na terra alagada com o suor
dos outros, com a boca pegar os gatos pela nuca e inoculá-los
com o vitríolo das canções mais devassas que nos fermentam
nas gengivas, preguiçar estirados sobre as algas que arribaram
cobertas de crude até termos o diabo pirogravado nas costas,
mimetizar os mortos em quanto os assemelha aos chimpanzés
e comer-lhes as flores emurchecidas, porque não há melhor
colónia balnear do que um bom cemitério de província, claro,
nem cão mais vigilante do que um padre depois de marinado
em cuspo e alhos e levado ao forno numa central atómica,
que para este efeito tanto pode ser a mais imunda cona
de um bordel de Karachi como o altar da catedral de Ávila,
onde a estátua de Teresa, de olhar esgazeado, procura ver os céus
como se tivesse comido qualquer coisa estragada ou acabasse
de entregar o seu corpo a um tremendo solo de guitarra eléctrica
embrutecido por um vendaval. Deveríamos manifestar, depois,
uma indisponibilidade total para tudo o que não esteja em chamas
e, sobretudo, para as crianças e outros pastéis de massa tenra,
como seja, por exemplo, a poesia, massagem catatónica das frases.


Sei que, por vezes, confundo a astrologia e a dinamite,
mas a minha carta astral jura-me morto e asfaltado,
como um cão que, de vísceras de fora, teima nas suas
inabaláveis convicções topográficas. Que se confunde,
também ele, com o lugar onde, sem que o soubesse,
voluntariou o seu último batimento cardíaco, na grande
batalha contra o cauchu e a cobiça do horizonte.
(Não há nisto qualquer surrealismo, nem sequer vislumbre
de demência ou intoxicação, mas, apenas, aquela lucidez
característica de quem, em vida, doou todo o realismo
à sopa dos pobres e a melhor parte do sangue à baixela
dos ricos). Estou, portanto, morto, ainda que a mão insista
nestes pequenos desenhos de forma arrevesada e conteúdo
tenso, que apenas corroboram uma insuportável propensão
para a imobilidade e para a insolência. Para a insolvência,
diria. Para o sacrificialismo das cerimónias mais sacrílegas
e superficiais. Desdenho-me, como o roto ao nu, e paro,
de repente, para alisar uma madeixa de cabelo incolor,
certo de que nisso se joga o grande destino do mundo.
A 1 de Setembro de 1939, Hitler invadia a Polónia. Mas
o que menos sabem é que, nessa mesma noite, Luigi Rossi,
napolitano de profissão indefinida e proventos irregulares,
se viu, subitamente, de posse de uma grande maquia
e decidiu tentar a sorte além-mar, como proprietário
de um bordel e cantor autoproclamado. E entre as duas coisas,
uma real e outra acabada de inventar, à pressa, a distância
é tão grande ou tão pequena como todo o absurdo de estar
vivo e ser bípede e não conseguir parar de pensar. Termino,
nem por isso mais leve, acrescentado que, apesar de tudo,
para vanglória de ambas as partes envolvidas, Hitler nunca
sequer aventou a hipótese de invadir o bordel de Luigi Rossi.

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tradução

Yves Bonnefoy, por Leila de Aguiar Costa

Yves Bonnefoy (Tours/1923- Paris/2016) é autor de extensa obra poética – em verso e em prosa, nas suas mais variadas fisionomias – e de textos sobre artes visuais, com predileção pela pintura italiana do Renascimento.
Se há um motivo a caracterizar sua poética, esse é aquele que o próprio Bonnefoy chama a “presença”: trata-se do mundo, ou melhor, da relação com o mundo e com seus objetos, suas coisas, suas figuras. Não por acaso, o poeta advogará pela causa de certa “realidade, simples, plena que carrega em si uma terra – “a terra que é vida”, dirá ele em um entrevista concedida a um de seus exegetas mais conhecidos, John E.Jackson, na revista L’Arc (1976, nº 66). Terra que se descola da abstração e que convida ao hic et nunc. Poesia que se insurge contra o conceito e que por isso mesmo se dissemina no mundo, graças a ele e nele se abrigando. Basta simplesmente prestar atenção, ser todo ouvidos para que ele aconteça, apareça desembaraçado de tudo quanto é orquestrado pelo espírito.
Os poemas para os quais proponho uma tradução ­ ─ o primeiro, em versos; o segundo, em prosa poética ─ encenam essa presença, deambulam pelo mundo e pela terra em busca de certa res que logre convidar aos sentidos e, sobretudo, à escuta.

Leila de Aguiar Costa é professora de Teoria Literária do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP). Além de seu interesse pela poesia de Yves Bonnefoy – seu atual projeto de pesquisa faz dialogar as poéticas do poeta francês e do poeta mato-grossense Manoel de Barros –, dedica-se a estudos de escritas de si contemporâneas francesa e brasileira, às relações entre texto e imagem e, ainda, às relações entre poesia e infância [da poesia]. É, enfim, há muitos anos, tradutora de textos literários franceses e de expressão francesa, dos séculos XVII ao XXI.


“Passante, são palavras” (Les Planches Courbes. Paris: Gallimard, 2006, p.40; primeira edição Mercure de France 2001)

Passant, ce sont des mots. Mais plutôt que lire
Je veux que tu écoutes : cette frêle
Voix comme en ont les lettres que l’herbe mange.

Prête l’oreille, entends d’abord l’heureuse abeille
Butiner dans nos noms presque effacés.
Elle erre de l’un à l’autre des deux feuillages,
Portant le bruit des ramures réelles
À celles qui ajourent l’or invisible.

Puis sache un bruit plus faible encore, et que ce soit
Le murmure sans fin de toutes nos ombres.
Il monte, celui-ci, de sous les pierres
Pour ne faire qu’une chaleur avec l’aveugle
Lumière que tu es encorre, ayant regard.

Simple te soit l’écoute! Le silence
Est un seuil où, par voie de ce rameau
Qui casse imperceptiblement sous ta main
. . . .qui cherche
À dégager un nom sur une pierre,

Nos noms absents désenchevêtrent tes alarmes,
Et pour toi qui t’éloignes, pensivement,
Ici devient là-bas sans cesser d’être.

Passante, são palavras. Mais do que ler
Eu quero que você escute: essa frágil
Voz que possuem as letras que a relva come.

Aplique o ouvido, ouça para começar a feliz abelha
Visitar nomes quase apagados.
Ela erra de uma para outra das duas folhagens,
Carregando o rumor dos ramos reais
Para aquelas que trespassam o ouro invisível.

Em seguida, perceba um rumor ainda mais fraco, e que isso seja
O murmúrio sem fim de todas as nossas sombras.
Ele sobe, esse aqui, de sob as pedras
Para fazer um só calor com a cega
Luz que você ainda é, que possui olhar.

Simples seja para você a escuta! O silêncio
É um limiar onde, pela via dessa ramagem
Que quebra imperceptivelmente sob sua mão que
. . . .Busca
Des-cobrir um nome sobre a pedra,

Nossos nomes ausentes desemaranham suas inquietações,
E para você que se afasta, pensativamente,
Aqui se torna lá longe sem deixar de ser.


“La sente étroite vers tout, II”. Remarques sur le dessin. La vie errante suivi de Remarques sur le dessin. Paris: Gallimard, 1999, p.168-169 ; primeira edição Mercure de France, 1993)

La sente étroite vers tout, II

Notre expérience de ce qui est, à tout un premier niveau : du langage. Nos mots puisent, là au-dehors, ce dont ils vont faires des choses, qu’ils ordonnent, qu’ils interprètent, ainsi se met en place le monde, ainsi parurent et disparurent les univers que chaque civilisation à rêvés : somptueuses figures, riches de dimensions et de mouvements, mais qui ne sont que les pages, dissipées si tôt que tournées, d’un livre que l’on n’a donc que peu de raison d’appeler la réalité.

Celle-ci n’en survit pas moins, à cet horizon dans les choses où les mots ne peuvent atteindre, ou dans l’espace qui est entre elels : semblable à ces frondaisons d’au-dessus la muraille des jardins clos. Disons que le réel, c’est l’arbre comme on le voit avant que notre intellect ne nous dise que c’est un arbre ; ou ces dilatations lentes de la nuée, ces resserrements et déchirements dans le sable de sa couleur qui défient le pouvoir des mots.

Et poésie, c’est ce que devient la parole quando on a su ne pas oublier qu’il existe un point, dans beaucoup de mots, où ceux-ci ont contact, tout de même, avec ce qu’ils ne peuvent pas dire.

A senda estreita em direção de tudo, II

Nossa experiência do que é, em um pleno primeiro nível: linguagem. Nossas palavras haurem, lá fora, aquilo com o que farão coisas que organizam, que interpretam. Assim constituem o mundo, assim apareceram e desapareceram os universos sonhados por cada civilização: suntuosas figuras, ricas em dimensões e em movimentos, mas que não são senão as páginas, dissipadas assim que viradas, de um livro que se tem pouquíssima razão de chamar a realidade.

Essa não deixa, entretanto, de sobreviver, a esse horizonte dentro das coisas onde as palavras não podem alcançar, ou no espaço que está entre elas: semelhante àquelas copas por sobre a muralha dos jardins fechados. Digamos que o real é a árvore como a vemos antes que nosso intelecto nos diga que é uma árvore; ou aquelas dilatações lentas das nuvens, aquelas retrações e aqueles rasgões na areia de sua cor que desafiam o poder das palavras.

E poesia é o que se torna a palavra quando se soube não esquecer que existe um ponto, em muitas palavras, onde essas têm contato, apesar de tudo, com o que elas não podem dizer.

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poesia, tradução

“Ode — Indícios de Imortalidade”, de Wordsworth, por Ricardo Neves

A poesia aparece em lugares inesperados. Encontrei-me com a “Ode” de Wordsworth lendo um dos livros do conhecido autor de divulgação científica Stephen Jay Gould, “Ever since Darwin”, capítulo “The Child as Man’s Real Father”. Como contraponto à argumentação puramente científica do seu texto, Gould cita um trecho da Ode:  

Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;

Essa passagem me comoveu e atiçou minha curiosidade pela Ode e por Wordsworth. Sua leitura me revelou várias passagens que confirmaram minha impressão inicial, por exemplo essa expressão tão bonita do último verso: “Thoughts that do often lie too deep for tears”. Então comecei a traduzir.

No meio do caminho, encontrei este blog e uma tradução já existente da Ode para o português, mas mesmo assim resolvi continuar na empreitada e fui até o fim. Na realidade, evitei ler a tradução existente até completar a minha porque, pensei, consciente ou inconscientemente ela teria uma influência sobre mim.

Durante a tradução, que foi feita tão pouco a pouco que durou meses, recebemos em casa a visita de um casal amigo que veio com sua filha Ezguy, que não conhecíamos ainda. Ela teria uns três anos. Durante sua breve passagem por casa, Ezguy iluminou nosso jardim: “ah, uma flor!”, referindo-se a uma pequeníssima margarida no meio da relva, “ah, uma borboleta!”, “ah, uma framboesa!”. Tudo era descoberta e esplendor, exatamente como no poema de Wordsworth. Coincidência ou sincronicidade, o fato é que Ezguy me deu alento para prosseguir na tarefa.

Do ponto de vista mais formal, a Ode tem uma estrutura bastante irregular no que se refere à métrica dos versos e ao esquema de rimas. Sendo o inglês uma língua tão sintética e às vezes quase monossilábica, resultou-me impossível guardar a métrica original dos versos. Usei então versos dodecassílabos quando os versos em inglês eram decassílabos, o que ocorre em boa parte do poema, e nos demais tomei bastante liberdade com a métrica. Quanto às rimas, guardei o esquema usado por Woodsworth em cada estrofe.

Ricardo Neves

* * *

Ode – Indícios de Imortalidade, a partir de Reminiscências da Tenra Infância
(William Wordsworth)

Houve um tempo em que bosques, rios e pradaria,
A terra, a mínima coisa natural,
A mim me parecia
Envolta em luz celestial,
O esplendor de um sonho ou fantasia.
O mundo não é mais como era outrora;
Onde quer que eu esteja,
Noite ou dia seja,
As coisas que eu via eu já não vejo agora.

A visão do arco-íris, grandiosa,
E a pura beleza da rosa;
A lua no céu passeando
Nas noites claras, serena;
As águas do mar cintilando
Na noite estrelada e amena;
Luz do sol, nascer de um novo dia;
Mas sei que onde quer que eu for,
O esplendor da terra passou, que eu antes via.

E agora, enquanto as aves cantam com alegria,
E os cordeiros e o pastor
Dançam ao som do tambor,
Apenas a mim veio um pensamento triste;
Mas alguma coisa forte em mim resiste,
Me reconforta e me alivia.
Do alto da escarpa ressoam as cataratas, –
Meus pesares já não obscurecem o mundo:
Ouço seus ecos vindo do vale profundo;
Os ventos vem a mim de plagas abstratas,
E é feliz a terra inteira;
Os campos e o mar
São pura frescura e cantar,
E ao romper da primavera
Se acalma também a fera; –
Tu, alegre pastor,
Dança ao meu redor, quero ouvir teu canto,
Menino pastor!

Sim, abençoadas criaturas, bem distinto
Ouço como vos estais a falar;
Vejo os céus sorrir convosco a jubilar;
Meu coração se une à vossa festa,
As guirlandas coroam minha testa,
Sinto essa vossa benção, sim, na carne eu sinto.
Dia aziago! se eu estivesse sombrio
Enquanto adorna a Terra inteira
Essa doce manhã trigueira;
E os meninos colhem com brio
Por lugares distantes
Em mil vales verdejantes
Flores frescas; e o sol esquenta com bonança,
E nos braços da mãe salta e brinca a criança: –
Eu ouço, eu ouço, eu ouço com alegria!
Mas há uma árvore, que só conheço eu,
Um campo que uma vez eu contemplei,
Ambos me falam de algo que se perdeu:
A meus pés o amor-perfeito
Repete a seu modo e jeito:
Aonde fugiu o visionário fulgor?
Onde se esconde agora o sonho e o esplendor?

Nosso nascer é apenas sono e esquecimento;
A alma que se eleva, a Estrela da nossa vida,
Trazida por distante vento
Noutro lugar foi concebida;
Não de todo inconscientes,
Nem totalmente indigentes,
Chegamos, mas em meio a nuvens de esplendor
Saídos de Deus, nosso Senhor:
O céu nos cerca em nossa infância!
Sombras da prisão começam a se fechar
Quando o Menino cresce,
Mas ele contempla a fonte de luz jorrar,
E se alegra e floresce;
A Juventude é o sacerdote celeste
Da natureza, que desde o longínquo leste
Viaja cada dia, e em sua caminhada
Pela visão do esplendor vai amparada;
Ao longe o Homem percebe-a fenecer, sombria,
E se esvaecer na escuridão do dia a dia.

Os prazeres que a Terra busca são mistério;
Seus desejos nascem no seu âmago interno,
E, mesmo se algo tem de amor materno,
E alguma intenção honrada,
Essa ama de casa lança seu feitiço
Para que o Homem, seu filho postiço,
Esqueça o esplendor do seu primevo império,
E os palácios em que viveu, na sua chegada.

Contemplai a Criança em sua doce primavera,
Um pigmeu queridinho de seis anos!
Debatendo-se entre seus brinquedos e panos
Dos assaltos de beijos da mãe, que o venera,
E sob o olhar complascente do pai, ufanos!
Olhai, a seus pés, como esboça em filigrana
Mapas e planos, com arte aprendida agora,
Fragmentos de seu sonho de vida humana;
Uma boda ou um festival,
Um luto ou um funeral;
E seu coração nisso se afaina,
E a isso modela sua canção:
Afiará sua língua, então,
A discursos de amor, contendas ou penhoras;
Mas sem tardar, serão
Esses discursos postos de lado,
E com orgulho renovado
O pequeno ator forja um novo papel
E sai à luz um novo personagem
Nessa comédia que, em sua viagem,
A vida traz consigo em sua equipagem;
Como se fosse a imitação
Sua exclusiva vocação.

Tu, cuja aparência exterior desmente
Da tua alma a imensidade;
Tu supremo filósofo, que a tua herdade
Ainda guardas, tu entre os cegos a lucerna,
Que lês, surdo e mudo, a eterna verdade,
P’ra sempre enfeitiçado pela Mente eterna, –
Poderoso Profeta! Vidente abençoado!
Dessas verdades o guardião sagrado
Que toda a vida buscamos sem cessar,
Perdidos nas trevas, na escuridão da cova;
Tu, sobre quem senta a tua Imortalidade
E choca como o dia uma Presença nova,
Uma presença de vida e de esperança;
Para quem a cova
Não passa de um leito solitário e proibido
Na baça luz de um dia nunca amanhecido,
Paragem do pensar, onde o corpo descansa;
Tu, pequena criança, embora nascido
Em glória e poder da celeste liberdade,
Por que provocas os anos, incansável,
Para trazer ao fim o jugo inevitável,
Lutando às cegas contra a bem-aventurança?
Breve tua alma pagará a penalidade,
E a rotina cairá sobre ti com frialdade,
Profunda como a vida, aguda como a lança!

Ah, alegria! Que algo de vivo
Em nossas cinzas subsista,
Que esse fátuo fogo fugitivo
Na natureza ainda resista!
A lembrança de anos passados gera em mim
Uma perpétua bendição : mas não assim
Pelo que mais merece ser abençoado,
Deleite e liberdade, o simples credo, enfim,
Da infância, quando adormecido ou acordado
Flutua no ar um sonho sempre renovado :
– Não para essas coisas levanto
Minha gratidão e meu canto ;
Mas para esses obstinados questionamentos
Sobre sentido, mundo externo, fundamentos,
Derrocadas, desaparecimentos,
Receios confusos de uma criatura
Movendo-se em mundos não concretizados,
Altos instintos, ante os quais nossa natura
Treme, surpresa, como os condenados :
Mas para esses primeiros afetos,
Obscuras recordações, objetos
Que, seja qual for sua moradia,
São ainda a fonte de luz de nosso dia,
Os senhores da luz de nosso olhar ;
Nos sustentam – nutrem – e nos libertam ;
Fazem anos parecer momentos no altar
Do eterno Silêncio : verdades que despertam
Para não perecer jamais ;
Que nem homem ou menino mortais,
Nem indiferença, nem empreitada demente,
Nem nada que impeça de estar contente,
Pode anular ou destruir completamente !
Por isso quando o tempo está calmo e em paz,
Embora estejamos longe terra adentro,
Nossa alma avista esse mar, o mar de dentro,
Que aqui nos trouxe recém,
E pode num momento viajar além –
E ver o Menino brincar na areia,
E ouvir a eterna vaga que a golpeia.

Cantem, pois, aves, cantem a alegre canção !
E que os cordeiros e o pastor
Dancem ao som do tambor !
Me uno à vossa multidão,
Sim, essa gaita, sim, esse recreio,
Sim, tudo que hoje abriga o vosso seio
Sinta de Maio esse alegre gorjeio !
E embora essa luz antes tão resplandecente
Fuja de meus olhos agora eternamente,
E já nada possa trazer de volta a hora
Do esplendor na relva, da flor encantadora ;
Em vez de aflição, acharemos paz
E força no que ficou para trás ;
Na simpatia original e infinda
Que tendo sido deve ser ainda ;
Nos suaves e tranquilos pensamentos
Que brotam dos humanos sofrimentos ;
Na fé que mais além da morte mira a paz,
No tempo que a mente filosófica traz.

E, sim, fontes, pradarias, bosques e flores,
Prenúncio não sejais do fim de meus amores!
Meu coração vosso poder ainda sente ;
E sinto ainda, de maneira diferente,
Esse mesmo deleite que antes eu sentia ;
Amo o regato que rio abaixo se agita
Até mais do que quando, como ele, eu corria ;
A pura claridade de um nascente dia
É sempre tão bonita ;
Em torno ao sol poente as nuvens dele emprestam
As mais sóbrias cores, se essa visão emana
De um olho atento à mortal condição humana ;
Outros desafios virão, e outros triunfos restam.
Coração humano, fonte de nossos alentos,
Rendo graças a ti por rir, amar, chorar,
A ínfima flor me inspira às vezes pensamentos
Profundos demais para a lágrima expressar.

(trad. Ricardo Neves)

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tradução

Yin Lichuan, por Marina Rima

Yin Lichuan (1973-) é poeta, roteirista e cineasta chinesa. Ela é umas das fundadoras do Movimento “Lower Body”, no início dos anos 2000. É formada em Letras e Literatura pela Universidade de Pequim e estudou cinema na École supérieure libre d’études cinématographiques (ESEC), em Paris. Neste ano de 2020, a Tolsun Books publicou a tradução do chinês para o inglês de Karma, feita pela também poeta e musicista Fiona Sze-Lorrain. Seu trabalho inclui traduções de poetas contemporâneos chineses, americanos e franceses. É a partir da tradução de Sze-Lorrain que traduzimos alguns poemas de Karma.

Reunidos em mais de uma década, os poemas de Karma apresentam memórias, desejos e desenganos de um eu poético que fala a partir de sua intimidade e do seu olhar sobre os costumes, as tradições, a micropolítica das relações e a impassibilidade do tempo. Há algo de inesperado nos desfechos dos poemas e uma frescura da contemporaneidade que nos alcançam em cheio no presente, feito o surto de SARS, em 2003, no poema “Isso deve ter sido combinado”. Assim como, há uma crítica a governos tiranos, de veia patriarcal e conservadora, como vê-se em “Resolução”: “plante no pátio grama deformada que não crescerá/como o gramado bem aparado do presidente de uma grande potência”. Ao mesmo tempo, alguns poemas criam uma cumplicidade com os/as leitore*as, aproximando o olhar para dentro da casa e dos pensamentos do eu poético: “eu paro de amar você de repente/ainda que muitos anos tenham passado”, como vê-se em “A vida deveria ter sido tão séria”.
Esse trabalho de tradução, embora feito de maneira indireta, a partir do inglês, almeja oxigenar um pouco o cânone ocidental, inserindo uma certa universalidade à prática poética, como pensava Benjamin (1923), em A tarefa do tradutor. Desenhou-se, aqui, uma tentativa de “olhar de relance” para a intenção da poeta, a fim de trazer à nossa língua e à nossa realidade – na medida do possível – aquilo que pode criar um elo com as nossas experiências comuns. Considerando o signo verbivocovisual, privilegiou-se ora a composição de veia mais semântica, na criação de imagens verbais, ora os aspectos sonoros da língua, reiterando as conexões entre significante e significado – um importante aspecto da escrita chinesa.

Marina Rima, poeta e pesquisadora. Seu último livro Peças avulsas num jogo de tabuleiro sairá pela Urutau, em 2021.
[os poemas contam com revisão de Ana Drawin]


Isso deve ter sido combinado

depois da nossa separação
Saddam Husseim de repente desapareceu
SARS aproveitou para aparecer
enfermeiras foram mais corajosas que freiras
meu estômago ainda dói
sua perna congelada no Monte Everest
Monte Everest mais uma vez escalado
eles disseram isso é ótimo
depois da nossa separação
nós nunca nos abraçamos
um jovem foi abruptamente espancado
os assassinos eram mais jovens que você

Junho 15, 2003

This must have been arranged

after our separation
Saddam Husseim suddenly disappeared
SARS took the chance to appear
nurses were braver than sisters
my stomach still hurt
your leg frostbitten at mount everest
mount everest was again scaled
they said this is great
after our separation
we never hugged each other
a youth was hastily beaten to death
murderers were younger than you

June 15, 2003

§

As coisas sempre acontecem de repente

o lago congela de uma vez
ele envelhece de repente
o passado desaparece de repente
nos tornamos fracos da memória
eu paro de amar você de repente
ainda que muitos anos tenham passado
antes que eu percebesse isso
muitos anos depois, como no homem cego e um elefante
nós montamos juntos
um lento desaparecimento

Novembro 25, 2005

Things always happen suddenly

the lake freezes at once
he grows old suddenly
we turn into the poor of memory
I stop loving you suddenly
yet many years have gone
before I realize this
many years later, like the blind men and the elephant
we piece together
a slow fading

November 25, 2005

§

Resolução

construa uma cabana que chegue a meio metro
para aqueles que não desejam crescer
aqueles que sofrem de inocência juvenil
dê a eles brinquedos que não se desgastarão
plante no pátio grama deformada que não crescerá
como o gramado bem aparado do presidente de uma grande potência
botões nunca morrerão ou florescerão
injete nas plantas uma droga que interrompa a reprodução
vista coloridas e justas roupas mágicas para cães e gatos
então eles nunca farão barulho e a primavera nunca morrerá

Maio, 1, 2003

Tackle

build a hut that stands at half a meter
for those who do not wish to grow up
those who suffer from youthful innocence
give them toys that won’t wear out
plant in the courtyard deformed grass that won’t grow
like a well-trimmed lawn of the president of a great power
buds will never die or blossom
inject plants with a drug that stops reproduction
put on close-fitting colorful magic clothes for cats and dogs
so they will never make a sound and spring never die

May 1, 2003

§

A vida deveria ter sido tão séria

Eu olhei de relance para ele, por acaso
casei com ele, por sinal
nós curtimos, por sinal
nunca houve uma criança
eu cozinhei uma sopa, por acaso
nós vivemos, por sinal
com alguns amigos casuais
o tempo se escapuliu, por sinal
nós envelhecemos, por sinal
ficamos gravemente doentes
até virarmos modelos, por sinal
que perfeito casal
…tanta harmonia
nós apenas tomamos nosso último suspiro
o sol lançou um olhar de relance, por sinal
na varanda vazia

Novembro 20, 2000

Life should have been so serious

I glanced at him casually
married him by the way
we fooled around by the way
never had a child
I brewed some soup casually
we lived by the way
with some casual friends
time slipped away by the way
we aged by the way
fell gravely ill
even became a model by the way
what a perfect couple
…such harmony
we just took our last breath
the sun cast a glance by the way
on a balcony with no one

November 20, 2000

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Poesia Brasileira Contemporânea

XANTO|”Tite de Lemos: cortina de espelhos”, por André Luiz Pinto

Tite de Lemos - Poemas escolhidos

Como Dante Milano (1899-1991), Tite de Lemos (1942-1989), que participa emprestando sua belíssima voz no documentário em homenagem ao poeta modernista, já era um poeta maduro em sua primeira obra, Marcas de Zorro, de 1979. Tal como Poesias, a primeira obra de Dante, publicada em 1948, Marcas de Zorro era uma obra esperada fazia tempo por um círculo nada modesto, que ia de Ivan Junqueira a Armando Freitas Filho, algo raro para um primeiro livro de poemas. Figura carimbada do cenário cultural carioca desde os anos sessenta, seja como jornalista no Jornal do Brasil, e posteriormente n’O Globo; seja como diretor e autor de teatro em peças como A tempestade, de 1964, e Alice no país divino-maravilhoso, de 1970, período em que o futuro poeta édito estabeleceu uma das parcerias mais sólidas da MPB com a cantora e compositora Sueli Costa; seja ainda como o narrador de Macunaíma, de 1969, Tite de Lemos admitiu de fato só tardiamente a veia poética, ainda que, depois de assumida em 1979, ele nunca mais abandonaria a poesia, tornando-se cada vez mais sua atividade artística principal na década seguinte, quando veio a falecer. Se a cada uma das atividades artísticas que Tite exerceu (a de homem do teatro, ator, compositor, jornalista e poeta) caberia um estudo à parte, é a atividade de poeta que nos interessa aqui. A poesia de Tite de Lemos se mostrou nos poucos livros que publicou (três em vida e dois póstumos) uma combinação de elementos a princípio díspares, como o soneto italiano, as vanguardas dos anos cinquenta e sessenta, a irreverência da geração marginal (ainda que seus poemas nunca cheguem ao desbunde), certa predileção ao aforismo e à elipse. O poeta parece se preservar dos derrames de um eu lírico muito comum na geração marginal, ainda que esse eu escape de tempos em tempos na lira de Tite, como no poema “FIDÚCIAS. confissões”, em que ele escreve: “Meu grande pai morreu onde viveu, no mesmo quarto/ por toda parte/ havia um cheiro de charuto”. Se, por um lado, esses elementos são realmente dispersos, por outro, mostram-se unificados por dois aspectos de sua personalidade artística: em primeiro lugar, por uma elegância, quase aristocrática, tanto nos temas quanto na maneira de abordá-los. Nesse ponto, a adoção do soneto que já aparecia em Marcas de Zorro e Corcovado Park e depois, de forma decisiva em Cadernos de sonetos, seu último livro publicado em vida, não está em desacordo com o ousadíssimo poema “Corcovado Park”, que dá título ao livro, em que narra o universo dos hipódromos com seus alazões, numa matemática de velocidades e estatísticas, e que nos deixa algum sabor do que devia ser a vida da Gávea e do Jardim Botânico nos anos sessenta.

Outra marca forte de sua obra artística é o jogo de cena, comum em seus poemas, mas também em suas composições, devo dizer. Jogo de cena identificado numa poesia que esconde mais do que mostra, como um vestígio de pegadas, como uma cortina de espelhos que abduz. Em resumo, Tite de Lemos nos seduz com a grata impressão de que não entendemos nada do que escreveu, mas não veja nisso petulância; pelo contrário, não está aqui em questão exibicionismo acadêmico nenhum. A poesia de Tite causa desentendimento não por academicismo, excesso de referências e beletrismo; antes, ela se faz de desentendida pelo compromisso de Tite de Lemos em não mostrar completamente o assunto de que trata, como nos espetáculos de strip dos anos quarenta quando a dançarina nos filmes apenas descia a meia-calça para delírio dos espectadores. Distinto, porém, da intimidade encenada por Ana Cristina César em A teus pés, Tite não insinua como Ana C alguma confissão; pelo contrário, ele não insinua confissão alguma, não deixa rastro pessoal quase que nenhum, ainda que incite em muito o leitor a conhecer sua personalidade:

NÃO IDENTIDADE

floresces
escrevo
teu nome
sou meu escravo
nunca fui o que eu era
me dome
como a qualquer um animal bravo
ai quem me dera
ser eu

(In: Marcas de Zorro, 1979)

Por sinal, o erotismo, às vezes ambientado por Tite no universo dos prostíbulos e dos encontros casuais, só aparecerá mesmo de forma decisiva na obra póstuma Bella Donna, em poemas como “Rita de Cássia”, “Leda Sara Diva”, “Renata Rex” e o encantador “Nancy 16 às 22h”:

uma blusa de seda
uma joia, uma obra de arte
como eu queria, sim, e quero dar-te
uma blusa de seda
uma linda blusa.
Se eu te der você usa?

e se mais tarde eu dedilhar
as cordas, primitiva lira,
do coração descompassado
e te encontrar a minha música
será que a blusa você tira?

(In: Bella Donna, 2010)

O voyeurismo de Bella Donna já começa com a fotografia da capa, em que se estampa um belo pescoço de mulher, tirada de costas. É nesse jogo de insinuações que a poética de Tite parece se intrometer, mesmo em seus sonetos, mais preocupado em nos envolver do que em acertar as regras esperadas da metrificação:

Nuvem é nuvem nunca, já desfaz-se
apenas um segundo após formar-se.
Sua forma presente é só disfarce,
face que fosse face sem ter face,

traçado que o olhar não decifrasse
embora o olhasse a ponto de cansar-se.
Seu contorno se furta de alcançar-se
e nem está mais lá. Foi-se, fugace.

Ninguém sabe se teve mãe ou pai
– d’Onde venho, aOnde vou, quem sou, existo?
Então a nuvem se transforma em chuva,

casa no céu com o céu inteiro e cai,
volúvel noiva, lágrimas de Cristo
que o sol e os outros astros enviúva.  

(Caderno de sonetos, 1988)

Falando em nuvens, talvez por ser do signo de Aquário, o mais aéreo dos signos, que a imagem do ar seja uma constante na imagética desse poeta, o que o elege, desculpe a brincadeira, de um concretismo impossível. Sua poética, contudo, não nega o experimentalismo; pelo contrário, é uma das poéticas mais experimentais que já se produziu nesse país. Tite descortina a palavra numa imaterialidade difícil de ser conhecida. O que é explorado por ele não é mais a disposição espacial, mas outros suportes da linguagem, tais como a respiração que a fala exige, em exercício quase de iogue: deste modo, é na virada das páginas do poema “Um pássaro” que você identifica o movimento do animal, o que torna sua ars poetica muito mais próxima de uma atividade como o cinema em comparação às artes plásticas.

Em Novembro de 1985, pouco depois de lançar Corcovado Park ao lado de Armando Freitas Filho com seu 3×4, futuro ganhador do Jabuti de 1986, Tite de Lemos participou do evento Eletropoesia no Centro Cultural Cândido Mendes. Nele, era passada uma mensagem que corria sem parar através de um vídeo-play. De forma sintética, quase hermética, o poeta postou o seguinte poema de título “Poisia-tri-quadri ou tentalingue”:

Kungfucius said: no vayas jamás por questa via. Inutile! Ele “o discípulo” foi e não voltou.?

Capacidade de síntese e experimentalismo é o que não falta nesse fazer poético. No atinente ao experimentalismo de Tite de Lemos, o que há de concreto na sua palavra é o desenho que se rabisca. Chama, por exemplo, atenção o poema “Suíte Yhab”, que se encontra em Corcovado Park, nas palavras do poeta, “para barítono, cordas e percussão”. Nele existe apenas o registro cursivo, suave, a ponto de não ser possível determinar se o objeto em questão se trata de um desenho ou de uma escrita. Mas se objeto se trata de algo escrito, é a escrita do que exatamente? E a resposta é óbvia: daquilo mesmo que se vê, como que a estragar a velha distância entre o significante e o significado. A obra de Tite de Lemos é feita de ciladas, de desvarios vãos, que só enriquecem um talento desaparecido tão cedo.

André Luiz Pinto

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sessão vagalume, tradução

sessão vagalume | Natasha Sardzoska, por Prisca Agustoni

Natasha Sardzoska (Skopje, Macedônia, 1979) é poeta, ensaísta, escritora, tradutora e intérprete literária da Macedônia e trabalha com várias línguas (francês, italiano, espanhol, inglês, português, croato e catalão). Doutora em Antropologia pela Universidade Eberhard Karls de Tübingen, Universidade Sorbonne Nouvelle em Paris e Universidade de Bergamo, atualmente é pesquisadora afiliada do Centro de Estudos Avançados do Sudeste Europeu, em Rijeka, na Croácia, e professora assistente do Instituto de Antropologia e Etnologia da Santos Cirilo e Metodio University em Skopje.
Colaborou com inúmeras revistas literárias italianas e hispano-americanas.
Escreve sua obra principalmente em macedônio e italiano, e se auto traduz em inglês, espanhol e francês. Tem poemas traduzidos em mais de 15 idiomas, publicados em revistas e antologias internacionais. Entre suas publicações mais recentes estão os livros La camera azzurra, Pelle (publicado nos Estados Unidos e na Itália) e Osso sacro (Milão, Interno Poesia, 2019), escritos em italiano; desse último livro foram retirados esses poemas.
É a tradutora em macedônio de, entre outros, Pier Paolo Pasolini, Umberto Saba, Eugenio Montale, Eduardo Sanguineti, Andrea Zanzotto, José Saramago, Fernando Pessoa, Antonio Tabucchi, Gonçalo Tavares, Mia Couto. Como poeta, foi convidada para inúmeros festivais literários internacionais, quais Ars Poetica Festival de Bratislava, Poesiefestival de Berlim, Parole Spalancate de Genova, Festival Internacional de Poesía de Medellín na Colômbia e o Festival Sha’ar em Tel Aviv.


selvaggi nel cuore
(fours hands)

partiremo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .noi siamo profughi

forgeremo il silenzio dei nuovi paesi

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .non scoperti

oseremo la libertà

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .non obbedienti

semineremo seme piccante

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .vorremmo

almeno per un attimo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .essere vicini di casa

nei due atri

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .dei nostri cuori

Selvagens no coração
(four hands)

Partiremos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .nós somos os prófugos

forjaremos o silêncio dos novos países

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .não descobertos

ousaremos a liberdade

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .não obedientes

semearemos a semente que arde

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .gostaríamos

pelo menos por um tempo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .de sermos vizinhos

nos dois átrios

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .de nossos corações

§

testamento

mio padre mi ha detto
a casa bisogna avere sempre candele
se salta via la corrente
se avviene un corto circuito
perché io possa vedere
chiaro
ma voleva dirmi
devo fare il patto
se suonano alla porta
non devo cadere
perché non mi accechi
il chiarore dell’alba

testamento

meu pai me disse
é preciso ter velas em casa, sempre,
por si faltar a energia
se ocorrer um curto-circuito
para que eu possa ver
com clareza
mas queria me dizer
devo fazer o pacto
se tocarem à porta
não devo cair
para que não me cegue
o brilho da manhã

§

squame

verifico e cerco
l’uomo che una volta ero io
e cerco il guscio
incastrato nella gola
sui fogli vuoti
le gocce d’inchiostro
i fili dei nervi
sulle mia dita
nelle sabbie mobili
le mie gambe gonfiate:

dai vestiti intimi
che non ho mai
mai indossato

escamas

verifico e procuro
o homem que uma vez já fui
e procuro a concha
presa na garganta
nos papéis vazios
as gotas de tinta
os filamentos dos nervos
sobre meus dedos
nas areias movediças
minhas pernas inchadas:

da roupa íntima
que nunca
jamais vesti

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poesia, poesia norte-americana, tradução

Louis Zukofsky, por Arthur Lungov

PDN Photo of the Day | “[Louis Zukofsky],” 1976. © The Estate of Ralph  Eugene Meatyard/Courtesy Blanton Museum of Art

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um dos poetas estadunidenses mais inventivos e instigantes do século XX. Poeticamente, Zukofsky segue na linha dos grandes vanguardistas norte-americanos, em especial Pound e T. S. Eliot. Zukofsky vê no poema um objeto linguístico que deve ser manipulado e composto a fim de levar a linguagem e a tradição poética ao máximo de suas tensões. Sua maior obra, o poema épico A, escrito durante 41 anos e composto por 24 cantos, é considerado um dos mais difíceis e herméticos já escritos em inglês, e desafia os estudiosos de sua obra até hoje.

Traduzi seu poema “Julia’s Wild”, de 1960, por considerar que ele condensa habilmente parte significativa de suas preocupações poéticas. O poema parte de um verso da 4ª Cena do 4º Ato da peça shakespeariana Dois cavalheiros de Verona, de uma fala da personagem Júlia, que na peça se fantasia de pajem para surpreender seu amado em Milão, que estar apaixonado por outra mulher. A partir desse verso (“Come shadow, come, and take this shadow up,”), Zukofsky passa a fazer um jogo permutacional com as palavras, gerando significados ambíguos e novas sonoridades, fatiando o verso para entender suas potencialidades. O próprio título do poema se vale desse procedimento: pode ser lido graficamente como “a selva de Júlia” (o que faz sentido no contexto da peça, uma vez que a personagem convence sua rival a fugir da cidade para a floresta, onde é capturada e quase morta); quanto sonoramente como “Júlia é selvagem” (representando sua coragem e sua obstinação).

A tradução que realizei incorpora graficamente e sonoramente essas questões. As ambiguidades geradas pela alteração de lugar da palavra “shadow” (que pode servir tanto como substantivo quanto como verbo, às vezes como os dois ao mesmo tempo) estão representadas pelo tamanho das fontes, que criam uma simultaneidade das palavras sombra/sombreia/sombrear que não compromete o jogo semântico do original. Ainda, seguindo o impulso do poeta em brincar com a linguagem ao máximo, na tradução colori as palavras que se reptem assim como suas variantes, para destacar o caráter reiterativo, quase musical que vem com essa repetição dos mesmos sons, e com os diferentes sons que se formam por sua interação. De maneira que podemos ver as palavras repetidas como temas ou notas musicais em uma partitura, que vão se alternando para gerar uma melodia (sugestão que tirei de procedimento parecido que Augusto de Campos faz em seu “Poetamenos”).

Zukofsky segue sendo um poeta infelizmente pouco traduzido para o português, ainda que sua obra possa ser comparada em magnitude e complexidade a toda a gama de modernistas que inspiraram seu trabalho, desde Joyce até WCW, passando pelos já mencionados Pound e Eliot. Com essa pequena contribuição, espero poder ajudar em sua divulgação no Brasil.  

Arthur Lungov

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poesia norte-americana, tradução, xanto

XANTO | Joy Harjo: poeta da terra, voz do vento, por Rafael Sobral

A natureza enraizada em terra germina sementes que crescem, florescem e frutificam, suas folhas respiram e fazem respirar, seus caules, troncos e tocos são fundamentos desde antes de pegadas marcadas no chão pela exploração e apropriação do que depois chamou-se de humano, logo o sumo do sumo sempre permanece liquefeito e sublimado como relva sobre as flores e folhas das estações do tempo ou sobre os frutos apodrecidos que outrora retornam às suas raízes para germinar e reviver seu ciclo de vida: a natureza enraizada segue o fluxo da vida da terra assim como o vento segue constante e sibilante. Assim sendo, flor frutífera materializada e encarnada, Joy Harjo (1951—) é uma filha da terra, criança Muscogee Creek estadunidense que cresceu e amadureceu ao ouvir a voz do vento soar em seus ouvidos, poeta por aprender através das giras sob a luz das fogueiras e soar das narrativas de tradição oral as palavras de suas/seus ancestrais e professoras/es traduzidas/os em suas avós, avôs, mãe, pai, tias, tios, irmãs e irmãos, sementes compartilhadas da terra da qual sua genealogia se faz, musicista pelo compasso dos dias e instrumentista pelo ritmo da dança das estrelas. Nascida em Tulsa (Oklahoma), tornou-se a primeira poeta indígena a ser nomeada poeta laureada dos Estados Unidos da América (USA), em 2019, tendo recebido o título novamente pelo segundo ano consecutivo em 2020. Sua voz é um sopro em eco em nossos ouvidos, ressoa vozes e espíritos ancestrais que dão vida aos povos da terra, plantas e animais, caboclas e caboclos das matas, mestras e mestres do encanto, índias e índios (das Américas colonizadas) e filhas e filhos sobreviventes do terceiro-mundo pandêmico. Sua obra incorpora seres míticos e símbolos ameríndios ao longo de poemas e prosa usualmente autobiográficos e/ou inspirados nas experiências ancestrais pelo sentir do corpo arrepiado, trêmulo e dormente ao contato com a natureza que interage de maneira sagrada e singela. Alguns de seus livros incluem “The Last Song” (1975), “She Had Some Horses” (1983), “The Woman Who Fell From the Sky” (1994), “A Map to the Next World: Poetry and Tales” (2000), “How We Became Human: New and Selected Poems, 1975-2001” (2004), “Crazy Brave” (2012), “An American Sunrise: Poems” (2019), dentre muitos outros, incluindo memórias, peças teatrais, ensaios e literatura infanto-juvenil. Além disso, possui álbuns musicais de poesia falada e cantada em produção conjunta com a banda Poetic Justice ou independentemente, tais como “Letter from the End of the Twentieth Century” (1997), “Native Joy for Real” (2004), “She Had Some Horses” (2006), dentre outros, também performados em turnês ao redor das Américas e outros países. Entretanto, todas as obras completas de Joy Harjo ainda não possuem traduções para o português brasileiro, salvo alguns poemas e/ou trechos de poemas, comentários, ensaios e/ou recortes memoriais traduzidos livremente e publicados pela internet ou em poucas pesquisas acadêmicas fundamentadas em estudos de línguas e literaturas ameríndias — Curiosamente, uma das primeiras traduções de Joy Harjo — e talvez a primeira — ao português brasileiro se deu pela atribuição do título de “Oração Cherokee” — nome que referencia tribos e/ou nações de pessoas nativas e ancestrais indígenas estadunidenses — a um excerto de um comentário da poeta durante uma entrevista concedida a Laura Coltelli, presente no livro “Winged Words: American Indian Writers Speak” (1990), tendo sido incrementada com outras palavras e compartilhada inúmeras vezes ao longo das camadas da internet (redes sociais, sites e blogs religiosos, arquivos de manuais e/ou livros xamânicos e/ou indígenas, dentre outros), porém, sem a identificação de quem traduziu. Para esta nota explicativa usa-se como referência a versão da tradução presente no livro “Espiritualidade escoteira: orações” (NETO, 2008, p. 78), apenas por ser um dos registros mais antigos e formais que apresentam a tradução (apesar da não identificação do/a tradutor/a), ao mesmo tempo em que isso não significa lhe atribuir a autoria da tradução. Às outras traduções de Joy Harjo ao português brasileiro incluem-se: duas traduções de excertos do poema “I Give You Back”, por Vieira (2016, p. 109) e por Lopes, Ferreira e Relvas (2018, p. 60-61); duas traduções do poema “Remember”, por Sobral (2018, p. 11) e por Santos (2019); algumas traduções de excertos do livro “Crazy Brave”, por Schneider (2019); e uma tradução do poema “Perhaps the World Ends Here”, por Braga (2020). A poesia de Joy Harjo ainda é urgente e necessária, apesar dos mais de 40 anos de produção poética e musical, é preciso enfatizar a demanda pela disseminação de sua obra, a inclusão de seus textos em materiais de produção poética e de estudos de línguas e literaturas ameríndias e/ou estrangeiras, e ainda de tradução a devir sob os cocares de penas e a fumaça de seus cachimbos que defumam as palavras de sua poesia. Aqui, a intenção é ecoar a (po)ética de Joy Harjo com as traduções de três poemas que ilustram e representam parte de sua genealogia poética e ancestral, pela importância que exercem em sua obra e pela inspiração mitológica desencadeada ao som de sua flauta e retumbar de tambores percutindo sobre as palavras ora traduzidas em português brasileiro. Às traduções seguem alguns comentários com o intuito de referenciar o processo tradutório e as inspirações que incorporam as palavras poéticas.

Rafael de Arruda Sobral é estudante de Ciência da Computação pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), onde também se graduou em Letras – Inglês (2018). Atualmente, é professor e tradutor de inglês. Itatuba, Paraíba, Brasil.

* * *

Remember

Remember the sky that you were born under,
know each of the star’s stories.
Remember the moon, know who she is.
Remember the sun’s birth at dawn, that is the
strongest point of time. Remember sundown
and the giving away to night.
Remember your birth, how your mother struggled
to give you form and breath. You are evidence of
her life, and her mother’s, and hers.
Remember your father. He is your life, also.
Remember the earth whose skin you are:
red earth, black earth, yellow earth, white earth
brown earth, we are earth.
Remember the plants, trees, animal life who all have their
tribes, their families, their histories, too. Talk to them,
listen to them. They are alive poems.
Remember the wind. Remember her voice. She knows the
origin of this universe.
Remember you are all people and all people
are you.
Remember you are this universe and this
universe is you.
Remember all is in motion, is growing, is you.
Remember language comes from this.
Remember the dance language is, that life is.
Remember.

Se lembre

Se lembre do céu sob o qual você nasceu,
saiba todas as histórias estrelares.
Se lembre da lua, saiba quem ela é.
Se lembre do nascer do sol ao amanhecer, este é o
ponto mais forte do tempo. Se lembre do entardecer
e do entregar-se à noite.
Se lembre do seu nascimento, como sua mãe se esforçou
pra te dar forma e fôlego. Você é uma evidência da
vida dela, e da mãe dela, e da dela.
Se lembre do seu pai. Ele é sua vida, também.
Se lembre da terra da qual sua pele é:
terra vermelha, terra preta, terra amarela, terra branca
terra marrom, terra-somos.
Se lembre das plantas, árvores, vidas animais que têm suas
tribos, suas famílias, suas histórias, também. Converse com elas,
escute elas. Elas são poemas vivos.
Se lembre do vento. Se lembre da sua voz. Ela sabe a
origem deste universo.
Se lembre que você é toda gente e toda gente
é você.
Se lembre que você é este universo e este
universo é você.
Se lembre que tudo se mexe, cresce, é você.
Se lembre que a linguagem vem daí.
Se lembre a dança que a linguagem é, que a vida é.
Se lembre.

§

She Had Some Horses

I. She Had Some Horses

She had some horses.

She had horses who were bodies of sand.
She had horses who were maps drawn of blood.
She had horses who were skins of ocean water.
She had horses who were the blue air of sky.
She had horses who were fur and teeth.
She had horses who were clay and would break.
She had horses who were splintered red cliff.

She had some horses.

She had horses with eyes of trains.
She had horses with full, brown thighs.
She had horses who laughed too much.
She had horses who threw rocks at glass houses.
She had horses who licked razor blades
.

She had some horses.

She had horses who danced in their mothers’ arms.
She had horses who thought they were the sun and their
bodies shone and burned like stars.
She had horses who waltzed nightly on the moon.
She had horses who were much too shy, and kept quiet
in stalls of their own making.

She had some horses.

She had horses who liked Creek Stomp Dance songs.
She had horses who cried in their beer.
She had horses who spit at male queens who made
them afraid of themselves.
She had horses who said they weren’t afraid.
She had horses who lied.
She had horses who told the truth, who were stripped
bare of their tongues.

She had some horses.

She had horses who called themselves, “horse.”
She had horses who called themselves, “spirit,” and kept
their voices secret and to themselves.
She had horses who had no names.
She had horses who had books of names.

She had some horses.

She had horses who whispered in the dark, who were afraid to speak.
She had horses who screamed out of fear of the silence, who
carried knives to protect themselves from ghosts.
She had horses who waited for destruction.
She had horses who waited for resurrection.

She had some horses.

She had horses who got down on their knees for any saviour.
She had horses who thought their high price had saved them.
She had horses who tried to save her, who climbed in her
bed at night and prayed as they raped her.

She had some horses.

She had some horses she loved.
She had some horses she hated.

These were the same horses.

II. Two Horses

. . . . . . . . .I thought the sun breaking through Sangre de Cristo
Mountains was enough, and that
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . wild musky scents on my body after
. . . . . . . long nights of dreaming could
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . unfold me to myself.
. . . . . . . . . . . .I thought my dance alone through worlds of
odd and eccentric planets that no one else knew
. . . . . would sustain me. I mean
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . I did learn to move
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . after all
. . . . . . .and how to recognize voices other than the most familiar.
. . . . . . .But you must have grown out of
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .a thousand years dreaming
. . . . . . . . . . . . . . just like I could never imagine you.
. . . . . . . . . . . You must have
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . broke open from another sky
to here, because
. . . . . . . . . . . . . . . . now I see you as a part of the millions of
. . . . . . . other universes that I thought could never occur
. . . . . . . in this breathing.
. . . . . . . . . . . . . . . . And I know you as myself, traveling.
. . . . In your eyes alone are many colonies of stars
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . and other circling planet motion.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .And then your fingers, the sweet smell
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . of hair, and
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . your soft, tight belly.
. . . . . . . My heart is taken by you
. . . . . . . . . . and these mornings since I am a horse running towards
a cracked sky where there are countless dawns
. . . . . . . . . . . . . . . . . . breaking simultaneously.
There are two moons on the horizon
and for you
. . . . . . . . . . I have broken loose.

III. Drowning Horses

She says she is going to kill
herself. I am a thousand miles away.
Listening.
. . . . . . . . . To her voice in an ocean
of telephone sound. Grey sky
and nearly sundown; I don’t ask her how.
I am already familiar with the weapons:
a restaurant that wouldn’t serve her,
the thinnest laughter, another drink.
And even if I weren’t closer
to the cliff edge of the talking
wire, I would still be another mirror,
another running horse.

Her escape is my own.
I tell her, yes. Yes. We ride
out for breath over the distance.
Night air approaches, the galloping
other-life.

No sound.
No sound.

IV. Ice Horses

These are the ones who escape
after the last hurt is turned inward;
they are the most dangerous ones.
These are the hottest ones,
but so cold that your tongue sticks
to them and is torn apart because it is
frozen to the motion of hooves.
These are the ones who cut your thighs,
whose blood you must have seen on the gloves
of the doctor’s rubber hands. They are
the horses who moaned like oceans, and
one of them a young woman screamed aloud;
she was the only one.
These are the ones who have found you.
These are the ones who pranced on your belly.
They chased deer out of your womb.
These are the ice horses, horses
who entered through your head,
and then your heart,
your beaten heart.

These are the ones who loved you.
They are the horses who have held you
so close that you have become
a part of them,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . an ice horse
galloping
. . . . . . . . . . . . . . into fire.

V. Explosion

The highway near Okemah, Oklahoma exploded

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . They are reasons for everything
Maybe . . . . . .there is a new people, coming forth
. . . . . . . . . . . being born from the center of the earth,
. . . . . . . . . . . like us, but another tribe.

Maybe . . . . . they will be another color that no one
. . . . . . . . . . .has ever seen before. Then they might be hated,
. . . . . . . . . . .and live in Muskogee on the side of the tracks
. . . . . . . . . . .that Indians live on. (And they will be the
. . . . . . . . . . .ones to save us.)

Maybe . . . . . there are lizards coming out of rivers of lava
. . . . . . . . . . .from the core of this planet,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . coming to bring rain

. . . . . . . . . . .to dance for the corn,
. . . . . . . . . . .to set fields of tongues slapping at the dark
. . . . . . . . . . .earth, a kind of a dance.

But maybe the explosion was horses,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . bursting out of the crazy earth
near Okemah. They were a violent birth,
flew from the ground into trees
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . to wait for evening night
mares to come after them:

then. . . . . . . into the dank wet fields of Oklahoma
then. . . . . . . their birth cords tied into the molten heart
then. . . . . . . they travel north and south, east and west
then. . . . . . . into wet while sheets at midnight when everyone
. . . . . . . . . . .sleeps and the baby dreams of swimming in the
. . . . . . . . . . .bottom of the muggy river.
then. . . . . . . into frogs who have come out of the earth to
. . . . . . . . . . .see for rain
then. . . . . . . a Creek woman who dances shaking the seeds in
. . . . . . . . . . .her bones
then. . . . . . . South Dakota, Mexico, Japan, and Manila
then. . . . . . . into Miami to sweep away the knived faces of
. . . . . . . . . . .hatred

Some will not see them.

But some will see the horses with their hearts of sleeping volcanoes
and will be rocked awake
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .past their bodies

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .to see who they have become.

Ela Tinha Alguns Cavalos

I. Ela Tinha Alguns Cavalos

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que eram corpos de areia.
Ela tinha cavalos que eram mapas desenhados com sangue.
Ela tinha cavalos que eram películas de água oceânica.
Ela tinha cavalos que eram o azulado ar do céu.
Ela tinha cavalos que eram pelos e dentes.
Ela tinha cavalos que eram barro e se quebravam.
Ela tinha cavalos que eram dispersas falésias vermelhas.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos com olhos de trens.
Ela tinha cavalos com fartas coxas marrons.
Ela tinha cavalos que riam muito.
Ela tinha cavalos que jogavam pedras em casas de vidro.
Ela tinha cavalos que lambiam lâminas de navalhas.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que dançavam nos braços das mães.
Ela tinha cavalos que pensavam que eram o sol e seus
corpos brilhavam e queimavam como estrelas.
Ela tinha cavalos que valsavam às noites sobre a lua.
Ela tinha cavalos que eram muito tímidos e ficavam quietos
em estábulos de sua própria construção.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que gostavam de músicas Creek Stomp Dance.
Ela tinha cavalos que choravam as mágoas.
Ela tinha cavalos que cuspiam em rainhas masculinas que faziam
eles temerem a si mesmos.
Ela tinha cavalos que diziam não temer.
Ela tinha cavalos que mentiam.
Ela tinha cavalos que diziam a verdade, que eram despidos
de vez de suas línguas.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que chamavam a si mesmos “cavalo”.
Ela tinha cavalos que chamavam a si mesmos “espírito” e mantinham
suas vozes em segredo e para si.
Ela tinha cavalos que não tinham nomes.
Ela tinha cavalos que tinham livros de nomes.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que sussurravam no escuro, que temiam falar.
Ela tinha cavalos que gritavam pelo medo do silêncio, que
carregavam facas para se proteger dos fantasmas.
Ela tinha cavalos que esperavam por destruição.
Ela tinha cavalos que esperavam por ressurreição.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que ficavam de joelhos para qualquer salvador.
Ela tinha cavalos que pensavam que seus altos preços lhes salvaram.
Ela tinha cavalos que tentavam lhe salvar, que subiam em sua
cama a noite e rezavam ao lhe estuprar.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha alguns cavalos que ela amava.
Ela tinha alguns cavalos que ela odiava.

Eram todos os mesmos cavalos.

II. Dois Cavalos

. . . . . . . . . . .Eu pensava que o sol partindo-se ao longo do Monte
Sangre de Cristo era o bastante, e que
. . . . . . . . . . .. . . . .aromas almiscarados selvagens em meu corpo depois
. . . . . . . . . . .de longas noites de sonhos poderiam
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . desabrochar-me a mim mesma.
. . . . . . . . . . .Eu pensava que minha dança sozinha através de mundos de
estranhos e excêntricos planetas que ninguém mais conhecia
. . . . . . . . . . .me sustentariam. Quero dizer
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .eu aprendi a seguir
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. depois de tudo
. . . . . . . . . . .e a reconhecer outras vozes que não as mais familiares.
. . . . . . . . . . .Mas você deve ter evoluído de
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .mil anos sonhando
. . . . . . . . . . .só por que eu nunca poderia te imaginar.
. . . . . . . . . . .Você deve ter
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .aberto outro céu
até aqui, por que
. . . . . . . . . . .. . .agora eu posso te ver como parte de milhões de
. . . . . . outros universos que eu pensava que nunca poderiam acontecer
. . . . . .neste respirar.
. . . . . . . . . . .. . . . E eu te conheço como a mim mesma, viajando.
. . .Em seus olhos sozinhos existem muitas colônias de estrelas
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . .e outros movimentos de planetas circulares.
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .E então seus dedos, o doce aroma
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .de cabelo, e
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . sua suave, pequena barriga.
. . . . . . Meu coração é tomado por você
. . . . . . . . . . .e por essas manhãs logo eu sou um cavalo galopando até
um céu fissurado onde há incontáveis amanheceres
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .abrindo-se simultaneamente.
Há duas luas no horizonte
e por você
. . . . . . . . . . .eu tenho me libertado.

III. Submersos Cavalos

Ela diz que vai matar
a si mesma. Estou a milhas de distância.
Ouvindo.
. . . . . . . . . . .A sua voz em um oceano
de som telefônico. Céu cinza
e quase entardecendo; eu não a pergunto como.
Já estou familiarizada com as armas:
um restaurante que não lhe serviria,
a risada mais fraca, outra bebida.
E mesmo se eu não estivesse mais perto
da beira da falésia do fio
da conversa, eu ainda seria outro espelho,
outro cavalo galopante.

O escape dela é o meu.
Eu digo a ela, sim. Sim. Superamos
o fôlego da distância.
Abordagens ao ar noturno, galopar
outra-vida.

Sem som.
Sem som.

IV. Gélidos Cavalos

Esses são os que escapam
depois que a última dor torna-se interior;
eles são os mais perigosos.
Esses são os mais quentes,
mas tão gélidos que sua língua se espeta
a eles e é despedaçada porque é
congelada ao mover dos cascos.
Esses são os que cortam suas coxas,
cujo sangue você deve ter visto nas luvas
de borracha das mãos do doutor. Eles são
os cavalos que gemiam como oceanos, e
sobre um deles uma jovem mulher gritou alto;
ela era a única.
Esses são os que te encontraram.
Esses são os que empinavam em sua barriga.
Eles caçaram cervos de dentro de seu ventre.
Esses são os gélidos cavalos, cavalos
que entraram em sua cabeça,
e então em seu coração,
seu surrado coração.

Esses são os que te amaram.
Eles são os cavalos que te tiveram
tão perto que você se tornou
parte deles,
. . . . . . . . . . .. . . . . . um gélido cavalo
galopando
. . . . . . . . . . .ao fogo.

V. Explosão

A estrada perto de Okemah, em Oklahoma, explodiu

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .São razões para tudo
Talvez. . . . . .haja um novo povo, vindo adiante
. . . . . . . . . . .nascidos do centro da terra,
. . . . . . . . . . .como a gente, mas de outra tribo.

Talvez. . . . . sejam de outra cor que ninguém
. . . . . . . . . . .nunca viu antes. Daí devem ser odiados,
. . . . . . . . . . .e viver em Muscogee ao lado da pista
. . . . . . . . . . .em que indígenas vivem. (E serão os
. . . . . . . . . . .que nos salvarão).

Talvez. . . . . .existam lagartos saindo de rios de lava
. . . . . . . . . . .do fundo deste planeta,

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .vindo trazer a chuva

. . . . . . . . . . .para dançar pelo milho,
. . . . . . . . . . .para configurar campos de línguas estapeando-se na escura
. . . . . . . . . . .terra, um tipo de dança.

Mas talvez a explosão foram cavalos,
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .eclodindo de dentro da terra absurda
perto de Okemah. Eles foram um parto violento,
voaram do chão até às árvores
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .para esperar pelo crepúsculo pesadelo no-
turno a chegar depois deles:

daí. . . . . . . . . . .até os úmidos campos de Oklahoma
daí. . . . . . . . . . .os fios de seus nascimentos amarrados ao fundido coração
daí. . . . . . . . . . .viajam ao norte e sul, leste e oeste
daí. . . . . . . . . . .até molhados papeis em branco à meia-noite quando todos
. … . . . . . . . . . .dormem e o bebê sonha em nadar no
. .. . . . . . . . . . . fundo do rio sufocante.
daí. . . . . . . . . . .até sapos que saíram de dentro da terra para
. . .. . . . . . . . . . .ver a chuva
daí. . . . . . . . . . .uma mulher Creek que dança chacoalhando as sementes em
. . .. . . . . . . . . . .seus ossos
daí. . . . . . . . . . .Dakota do Sul, México, Japão e Manila
daí. . . . . . . . . . .até Miami para eliminar as cortantes faces de
. . .. . . . . . . . . . .rancor

Alguns não os verão.

Mas alguns verão os cavalos com seus corações de vulcões adormecidos
e serão abalados a acordar
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .passados os seus corpos

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . .para ver quem eles se tornaram.

§

The Myth of Blackbirds

The hours we counted precious were blackbirds in the density of Washington. Taxis toured the labyrinth with passengers of mist as the myth of ancient love took the shape of two figures carrying the dawn tenderly on their shoulders to the shores of the Potomac.

We fled the drama of lit marble in the capitol for a refuge held up by sweet, everlasting earth. The man from Ghana who wheeled our bags was lonesome for his homeland, but commerce made it necessary to carry someone else’s burdens. The stars told me how to find us in this disorder of systems.

Washington did not ever sleep that night in the sequence of eternal nights. There were whirring calculators, computers stealing names, while spirits of the disappeared drank coffee at an all-night cafe in this city of disturbed relativity.

Justice is a story by heart in the beloved country where imagination weeps. The sacred mountains only appear to be asleep. When we finally found the room in the hall of mirrors and shut the door I could no longer bear the beauty of scarlet licked with yellow on the wings of blackbirds.

This is the world in which we undressed together. Within it white deer intersect with the wisdom of the hunter of grace. Horses wheel toward the morning star. Memory was always more than paper and cannot be broken by violent history or stolen by thieves of childhood. We cannot be separated in the loop of mystery between blackbirds and the memory of blackbirds.

And in the predawn when we had slept for centuries in a drenching sweet rain you touched me and the springs of clear water beneath my skin were new knowledge. And I loved you in this city of death.

Through the darkness in the sheer rise of clipped green grass and asphalt our ancestors appear together at the shoreline of the Potomac in their moccasins and pressed suits of discreet armor. They go to the water from the cars of smokey trains, or dismount from horses dusty with fatigue.

See the children who become our grandparents, the old women whose bones fertilized the corn. They form us in our sleep of exhaustion as we make our way through this world of skewed justice, of songs without singers.

I embrace these spirits of relatives who always return to the place of beauty, whatever the outcome in the spiral of power. And I particularly admire the tender construction of your spine which in the gentle dawning is a ladder between the deep in which stars are perfectly stars, and the heavens where we converse with eagles.

And I am thankful to the brutal city for the space which outlines your limber beauty. To the man from Ghana who also loves the poetry of the stars. To the ancestors who do not forget us in the concrete and paper illusion. To the blackbirds who are exactly blackbirds. And to you sweetheart as we make our incredible journey.

O Mito dos Pássaros Negros

As horas consideradas preciosas eram pássaros negros na densidade de Washington. Táxis viajavam pelo labirinto com passageiros em névoa logo que o mito do amor ancestral incorporava como duas figuras carregando a aurora suavemente em seus ombros até às costas do Potomac.

Escapamos do drama de mármores iluminados da capital para um refúgio conservado pela amável contínua terra. O ganense que carregou nossas bagagens estava triste sobre sua terra natal, mas o comércio fez necessário carregar o fardo dos outros. As estrelas me contaram como nos encontrarmos nesta desordem de sistemas.

Washington nunca chegou a dormir naquela noite de sequenciais noites eternas. Haviam calculadoras sibilantes, computadores roubando nomes, enquanto os espíritos dos desaparecidos bebiam café em uma cafeteria noturna nesta cidade de perturbada relatividade.

A justiça é uma história de coração no amado país onde a imaginação chora. As sagradas montanhas apenas parecem estar adormecidas. Quando finalmente encontramos a sala no corredor de espelhos e fechamos a porta eu não pude mais suportar a beleza lânguida escarlate e amarela nas asas dos pássaros negros.

Este é o mundo em que nos despimos juntos. Interiormente um cervo branco intersecciona-se com a sabedoria do caçador do encanto. Cavalos cavalgam rumo à estrela da manhã. A memória sempre foi mais que papel e não pode ser fragmentada pela violenta história ou roubada por ladrões de infâncias. Não podemos ser separadas pelo ciclo do mistério entre pássaros negros e a memória de pássaros negros.

E na madrugada quando tínhamos dormido por séculos sob uma amável chuva encharcada você me tocou e as nascentes de águas claras sob minha pele eram novos conhecimentos. E eu te amei nesta cidade de morte.

Através da escuridão no puro nascer da verde relva aparada e o asfalto nossas ancestrais aparecem juntas na orla do Potomac em seus mocassins e engomados trajes de discreta armadura. Elas vão até a água dos carros de comboios esfumaçados, ou desmontam dos cavalos empoeirados com fadiga.

Vejam as crianças que se tornam nossas avós, as velhas mulheres cujos ossos fertilizaram o milho. Elas nos dão forma em nosso sono de exaustão ao passo que fazemos nosso caminho neste mundo de justiça distorcida, de músicas sem músicos.

Eu incorporo esses espíritos familiares que sempre retornam ao lugar da beleza, não importa o desfecho na espiral de poder. E eu particularmente admiro a terna construção de sua coluna que na suave aurora é uma escada entre a profundeza na qual as estrelas são perfeitamente estrelas e os céus onde conversamos com as águias.

E eu sou grata à cidade brutal pelo espaço que destaca sua beleza flexível. Ao ganense que também ama a poesia das estrelas. Às ancestrais que não nos esquecem na concreta e impressa ilusão. Aos pássaros negros que são exatamente pássaros negros. E a você amor ao passo que fazemos nossa incrível jornada.


Sobre “Remember” — “Se lembre”:

“Remember” — “Se lembre” — foi o primeiro poema que eu li da Joy Harjo, tornando-se subsequentemente a minha primeira tradução da poeta. A primeira versão da tradução foi publicada em 2017, no Facebook, mas depois publicada com algumas poucas alterações em minha monografia de conclusão do curso de Letras – Inglês pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em 2018, sendo a mesma versão aqui republicada. Entre outras palavras, o poema e a sua tradução soam como a voz do vento que o eu-lírico aconselha ouvir, desde os versos sibilantes ao compasso das palavras que parecem surgir de uma mesma lufada de ar: a voz do vento não cansa de repetir o fundamento memorial. Tal fundamento também é traduzido com vistas a explicitar a marca da oralidade das narrativas ameríndias, também transfigurada em português brasileiro pelo uso do pronome reflexivo anteriormente ao verbo, desde o título do poema ao paralelismo desencadeado ao longo de todos os versos, logo o uso da expressão normativa de objeto direto “Lembre-se” contradiz a sua oralidade cotidiana beirando a informalidade, por conseguinte, “Se lembre” é uma alternativa que introduz o fundamento memorial e a oralitura enquanto demanda do sujeito ao se agenciar. Para tanto, as palavras soam aos sopros dos corres do dia-a-dia, são versos para serem lidos em voz alta e reproduzidos de pessoa para pessoa, de geração para geração, por toda a gente, por todo o povo. A escolha tradutória mais erudita em todo o poema é o uso de “terra-somos” enquanto quase um neologismo em alternativa à tradução da consonância de todo o verso e à materialidade “da terra da qual sua pele é” — “earth whose skin you are” —, uma vez que “terra-somos” — “we are earth” — evoca tanto o fluxo poético incorporado anteriormente, quanto a sua materialidade, isto é, a cor da terra, de outra terra que não se sabe a cor, mas que materializa-se ao ser lida, interpretada e agenciada, dentre tantas outras cores mencionadas, pois “somos terra” também não produziria tais questões. O poema possui apenas uma rima nos dois penúltimos versos — “Remember language comes from this. / Remember the dance language is, that life is.” — “Se lembre que a linguagem vem daí. / Se lembre a dança que a linguagem é, que a vida é.” — e que eu não traduzi por acreditar não ser essencial, apesar de optar pelo uso de palavras acentuadas agudas — “daí” e “é” — como ênfase ao fundamento do poema, logo é isso mesmo que a voz do vento nos diz, afinal: na hora alta do tempo, se lembre da dança da vida e dos movimentos da linguagem de toda a natureza, portanto, de tudo o que ela materializa e incorpora.

Sobre “She Had Some Horses” — “Ela Tinha Alguns Cavalos”:

Esta tradução foi feita em meio à absurda epifania do contexto pandêmico que mudou o mundo neste ano, foi um processo tradutório que muito dialoga com a premente necessidade de autoconhecimento, ao mesmo tempo em que demanda alteridade e a compreensão de que o mundo tecnológico ainda tem muito a aprender com o mais elementar e ancestral: as forças inanimadas e imensuráveis da natureza. Em “She Had Some Horses” — “Ela Tinha Alguns Cavalos” —, essas forças parecem surgir rasgando o céu abaixo ou eclodindo de dentro do fundo da terra para nos reconfigurar e dimensionar a pequenez humana à galope de um ser ancestral dentre a normalidade terráquea (in)compreendida. Para tanto, o eu-lírico é uma mulher, ser ancestral capaz de materializar e subverter todas essas forças dentro de si mesma, desde seu ventre ao carregar o sol ao amanhecer de novas vidas vindas à luz, até às Orixás das tradições afro-americanas, deusas míticas egípcias, bruxas medievais e índias e caboclas transfiguradas em animais selváticas de nossa história e cultura ocidentalizada, também marcada pela exploração corporal e sexual, pela violência doméstica e psicológica, pela colonização de saberes, desejos, espaços e experiências. A perspectiva do poema é indissociável aos feminismos e movimentos sociais e ativistas do terceiro-mundo por igualdade de gêneros e desconstrução de poderes piramidados e falocêntricos, uma vez que as suas palavras estão marcadas pelos prazeres e dores femininas, assim como pela colonização corporal e sexual atentada às mulheres de nossa vida, ainda que os versos melhor produzam metáforas e imagens que primam e enfatizam a beleza da libertação feminina urgente em nosso mundo, principalmente, através do reconhecimento e respeito ao gozo feminino enquanto fundamento ancestral de vida. Em “She Had Some Horses” — “Ela Tinha Alguns Cavalos” —, o sujeito “she”/“ela” é agente de si mesma, tal qual a nossa avó, a nossa mãe, as nossas irmãs, as nossas amigas, as nossas vizinhas, as nossas professoras, as nossas amadas, as nossas inominadas não conformadas com a disposição normativa binária de gêneros e que ainda se reconhecem nesse mesmo lugar de sujeito. Não obstante, o poema é um dos mais significativos dentro do arcabouço poético de Joy Harjo, tanto por ser o título de um de seus livros, quanto por ser um de seus poemas mais disseminados até os dias de hoje, seja pela perspectiva de empoderamento e descolonização feminina, seja pela indissociabilidade de tais marcas aos saberes e práticas de mulheres indígenas, enfatizando-se assim a descolonização de saberes étnicos, raciais e sagrados ao povos de nossas terras: índias, caboclas, mestras, rezadeiras e juremeiras que sentem o giro do mundo no chacoalhar e dançar de seus corpos, artefatos e canto. Entretanto, o poema e o seu conteúdo é demasiado extenso para uma análise detalhada de sua tradução — por hora —, tornando-se mais pertinente para este comentário tradutório explicitar a potência do saber ancestral feminino materializada ao longo de todos os versos paralelos que repetem que a singela “she”/“ela” contém muito poder dentro de si mesma. Esse poder galopa ao ritmo dos versos com vistas à tradução da resistência feminina indígena sobrevivente e transfigura-se em animais de fundamento do povo Muscogee Creek e demais povos indígenas pelas Américas, ou ainda através das terras magmáticas ou águas oceânicas que explodem e dimensionam a força da natureza. Portanto, a ciência ancestral sagrada feminina expressa no poema pode ser traduzida a qualquer lugar, a qualquer povo, a qualquer tempo, logo ela vem vindo por aí muito em breve a chegar à galope de seu som verborrágico assentado que percute em todas as diásporas ameríndias ao tom da chuva que desaba sob todos os céus.

Sobre “The Myth of Blackbirds” — “O Mito dos Pássaros Negros”:

Tenho o hábito de fazer traduções apenas em minha mente, deixando para depois a materialização impressa. A primeira vez em que traduzi este poema foi em 2018, quando o ouvi como uma faixa do álbum de poesia falada e cantada da Joy Harjo junto da banda Poetic Justice, “Letter from the End of the Twentieth Century” (2003), porém, não em sua completude, pois a faixa musical não recita todos os versos do poema ora traduzido e finalmente selecionado do livro “How We Became Human: New and Selected Poems, 1975-2001” (2004). Entretanto, ambas versões (em poesia falada e poesia escrita) foram usadas para produzir esta tradução. Dentre outras palavras, é preciso enfatizar que “The Myth of Blackbirds” — “O Mito dos Pássaros Negros” — é sobre amor. No poema, o amor ancestral está materializado através da escolha de palavras metafóricas aos sentimentos e desejos transfigurados em elementos de conexão ancestral, seja ao toque das plantas ou da chuva, seja ao longo das caminhadas aos sítios, rios, montes e serras em busca do amor genuíno. Assim, o amor ancestral configura-se através de duas/dois personagens sobreviventes da cidade de pedra e da vida cosmopolita, tecnológica e globalizada, tal como enfatiza as suas pequenas alegrias compartilhadas do dia-a-dia ao cantar dos pássaros, sob a chuva que encharca os corpos, sobre a relva do amanhecer, abaixo do brilho das estrelas, através dos animais com quem se comunicam, em vida revivida. O amor enfatizado não apenas diz respeito aos desejos e prazeres humanos transfigurados em águas claras, mas também diz respeito ao amor pela terra e suas raízes ancestrais, seus frutos e suas flores, animais, histórias estrelares e fundamentos nascentes de infâncias. A beleza dos versos importa justamente pelo seu caráter paradoxal e melódico-narrativo: ao mesmo tempo em que se vivencia a crueldade terceiro-mundista de tecnologias precipitadas e mal desenvolvidas, da exploração racializada do trabalho humano, da expropriação das terras e nascentes que outrora seguiam seu fluxo ininterrupto, ou ainda ao longo dos encontros e desencontros em um sistema de poderes desordenados e doentes, existe e resiste o singelo ato de amar outra vida, porém, não como condição, mas enquanto sabedoria que possibilita a compreensão de que um sorriso ou um beijo, braços dados ou mãos abertas, experiências únicas, ainda podem transformar a (sobre)vivência diária. Aqui, não há demais explicações racionalizadas sobre tanto, mas apenas a expressão de que o amor ancestral tal qual inexplicável voa sobre as asas de pássaros negros. Nesse sentido, esta tradução busca sobretudo o amor pela linguagem, pelas palavras e pelos fundamentos narrativos através das identificações mitológicas e musicalidade ameríndia que conduz os passos personificados. Ainda, mais que isso, esta tradução busca produzir identificações em amores mitológicos e ancestrais, de outras vidas, de outros tempos, ao passo que estão marcados nas trilhas de nossa incrível jornada.

Referências

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