tradução

old ezra for schoolboys

aviso: este post vai ser longo. não vou falar demais de pound, porque todo mundo sabe – & quem não sabe, vire-se.

só uma nota sobre as traduções. eu conheço duas: uma parcial dos irmãos campos com o décio pignatari (doravante, o trio). a tradução é apenas daquela parte mais famosa, que encerra o canto (“what thou lov’st well remains, &c.“), é uma bela duma tradução – só uma coisa eu teria a comentar/criticar: deixa de lado um dos poucos momentos em que o nosso amado pound decide escrever em pentâmetros jâmbicos, aí ficamos com uma bela tradução em verso livre.

sim, estou cometendo a pior das heresias (mea culpa, mea maxima culpa) em criticar o trio concreto como tradutor. mas considerem, é uma crítica bem leve, de um período em que eles ainda estavam vindo a se tornar o patrimônio que são.

eu também posso ser um idiota.

mas voltemos: a outra é completa, do josé lino grünewald. & a tradução dele, bem… a tradução dele não é bela; claro que já é louvável pelo ímpeto de ter traduzido todos os cantos, mas é uma tradução mequetrefe dum grande poeta. fica boa em várias partes, porque o original é tão bom que aguenta até tradução marromeno. o pior, talvez, seja o simples fato de que o grünewald achata aquela variedade de registros, tons e ritmos do velho pound – essa variedade é o pound.

agora venho eu com a minha: tentei manter esses aspectos de variedade rítmica, estilística, manter aquela linguagem mais formal e arcaizante na série final e mais famosa. se presta, deixo pra vocês.

eu também posso ser um idiota. até o pound era um idiota, às vezes.

1955 - fotógrafo não identificado

CANTO LXXXI

(Ezra Pound, tradução Guilherme Gontijo Flores)

Zeus no abraço de Ceres

Taishan cercado por amores

                                                sob Citera, antes da aurora

e disse: “Hay aquí mucho catolicismo – (soava catolitismo)

            y mui poco reliCHion”

e disse: “Yo creo que los reyes desaparecen”

(O reis, eu creio, vão sumir)

Era o Padre José Elizondo

                                                em 1906 e em 1917

ou lá por 1917

            e Dolores disse: “Come pan, niño”, coma pão, minino

Sargent a tinha pintado

                                                antes de descer

(i.e. se é que ele desceu)

            mas naquele tempo ele fazia esboços,

impressões de Velázquez no Museo del Prado

e os livros custavam uma peseta,

                        candelabros de bronze em proporção,

um vento quente vinha dos charcos

      e um frio mortal das montanhas.

E depois Bowers escreveu: “mas tanto ódio,

     eu nem sequer concebi”

e os vermelhos de Londres não revelavam seus amigos

                        (i.e. amigos de Franco

trabalhando em Londres) e em Alcázar

após quarenta anos, disseram: “volte pra estação e coma

pode dormir aqui por uma peseta”

                  sinos de cabra tilintando a noite inteira

                  e o sorriso amarelo da anfitriã: Eso es luto, uha!

mi marido es muerto

                  (é luto, meu marido está morto)

quando me deu um papel pra escrever

com bordas negras de mais de meia polegada,

      digamos 5/8 avos, da locanda

“Nós chamamos todos os estrangeiros de francezinhos”

e o ovo se quebrou no bolso de Cabranez,

            e fez história. Basil diz

que tocam tambores por três dias

até que estoure as peles

            (simples fiesta de aldeia)

e quanto à sua vida nas Canárias…

Possum observou que a dança folclórica prutuguesa

era dançada pelos mesmos dancarinos em locais diversos

            numa acolhida política…

a técnica da demonstração

            foi Cole que estudou (não G. D. H., Horace )

 “Você encontra” disse o velho André Spire,

que todos naquela repartição (Crédit Agricole)

têm um cunhado

                        “Você o único, eu os poucos”

                        disse John Adams

falando de medos em abstrato

    ao seu volátil amigo Mr. Jefferson.

(Quebrar o pentâmetro, eis a primeira ânsia)

ou como diz Jo Bard:                 ele nunca se falam,

se é visivelmente padeiro e porteiro

            é audivelmente La Rochefoucauld e de Maintenon.

“Te cavero le budella”

                        “La corata a te”

Em menos que uma era geológica

                             disse Henry Mencken

“Uns cozinham, outros não cozinham

            certas coisas não se alteram”

Ιυγξ ….. ἐμὸν ποτί δῶμα τὸν ἄνδρα

O que vale é o nível cultural,

     valeu Benin, pela mesa ex embalagens

     “num diga pa ninguém queu fiz”

                        de uma máscara qualquer de Frankfurt

“Vai ti tirá do chão”

                        Leve como a rama de Kuanon

E de cara, desapontado com aquele quais fajuto

e devastado, mas depois viu as

grandes rodas de carroça

                        e reconciliou-se,

Geoger Santayana ao chegar no porto de Boston

E conservou até o fim da vida o vago thethear

do espanhol

                        feito uma graça quase imperceptível

tal como Muss com o v e o u de Romagna

e dizia que a dor é um ato pleno

            renovado a cada condolência

crescendo até seu clímax.

E George Horace disse que “cooptaria Beveridge” (o senador)

Beveridge não falaria e ele não escreveria aos jornais

mas George o fisgou acampado em seu hotel

e assediando para almoço café e janta

                        três artigos

e o meu velho inda carpia o milho

      enquanto George lhe falava,

atravesse um terreno baldio

            onde se possa ver um coelho selvagem

ou tarveis um que escapou

      AOI!

      uma folha no fluxo

                                    em minhas grades nada de Althea

libretto

Mas

Antes que esfriasse a estação

Levado nos ombros dum zéfiro

Me alcei no céu dourado

                                    Que Lawes e Jenkins guardem teu descanso

                                    Que Dolmetsch em teu lar tenha remanso,

Será que temperou a madeira da viola

Pra reforçar            o grave                        e o agudo?

Será que nos curvou o bojo do alaúde?

                                    Que Lawes e Jenkins guardem teu descanso

                                    Que Dolmetsch em teu lar tenha remanso

Será que tu criaste um clima tão petiz

      Para extrair a folha da raiz?

Será que encontraste             a nuvem            tão leve

      Que não pareça sombra ou bruma?

                        Então me explica, fala curto e breve

                        Se Waller canta ou Dowland apruma.

            Teus ói matárume de súbito

            Num resisti a tal beauté

E por 180 anos quase nada.

Ed ascoltando al leggier mormorio

     veio uma nova sutileza de olho à minha tenda,

seja de espírito ou de hipóstase,

      mas o que a venda oculta

ou no carnaval

                        e nenhum par mostrou desgosto

      Só viu seus olhos e a postura entre os olhos,

cor, diástase,

      incauto e desatento de que não havia

   todo o espaço da tenda

nem havia lugar para um Ειδὼς completo

transpassar, penetrar

      lançando apenas sombra além das outras luzes

            clarão do céu

            maré da noite

            verde do poço na montanha

            brilhou do olhar desmascarado num espaço a meia máscara.

O que bem amas resta,

                                    o resto é pó

O que bem amas não será roubado

O que bem amas é a real herança

Mundo de quem: meu, deles,

                        de ninguém?

Veio o visível, depois o palpável

      Elísio, mas nas câmaras do inferno,

O que bem amas é a real herança.

O que bem amas não será roubado.

A formiga é um centauro em seu mundinho.

Abaixo à vaidade, não é o homem

Quem construiu coragem, ordem, graça,

      Abaixo à vaidade, eu disse abaixo.

No mundo verde vê teu posto e abraça

Na escala da invenção, ou no artifício,

Paquin, abaixo à vaidade,

                                              abaixo!

O casco verde venceu tua elegância.

“Domina-te, que os outros te suportam”

      Abaixo à vaidade

Tu és um cão surrado, no granizo,

U’a pega inchada sob um sol errático,

Que meio negra e meio branca

Confundes asa e rabo

Abaixo à vaidade

                        Os ódios vis,

Filhos da falsidade,

                        Abaixo à vaidade,

Veloz destróis, avaro em caridade,

Abaixo à vaidade,

                        eu digo abaixo.

Mas ter agido, em vez de calar

                        não é vaidade

Ter, com decência, batido

Para que um Blunt abrisse

            Ter recolhido do ar a tradição mais viva

ou de um belo olho velho a chama imbatível

Não é vaidade.

       Aqui o erro consiste em não agir,

em timidez que vacilou…

 

(tradução guilherme gontijo flores)

ps1: ouçam o velho ezra declamando, http://mp3bear.com/canto-lxxxi-second-reading-ezra-pound-spoleto-1967

ps2: pra quem quiser conferir, o texto original com notas – http://www.uncg.edu/eng/pound/canto.htm

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Um comentário sobre “old ezra for schoolboys

  1. Vinicius F. Barth disse:

    agora que pude ler com cuidado essa tradução.
    ficou demais. o trecho final em especial.

    no mais, o Pound é um idiota mesmo.
    =]

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