tradução

Jalaluddin Rumi, meu poeta contemporâneo preferido

Jalaluddin Rumi, místico persa do século XIII, é o meu poeta contemporâneo preferido. Me explico: não leio persa; assim, conheci sua poesia através de traduções. Dentre elas, foram as versões de Coleman Barks que me fizeram entender porque alguns consideram Rumi o maior escritor místico de todos os tempos.

Barks também não lê persa. É que, mais do que traduções, o que ele propõe são transcriações, baseadas em versões mais literais em inglês. Em suas palavras, a intenção é “tirar Rumi da jaula” na qual as versões mais acadêmicas o haviam colocado. De fato, não é possível reproduzir em uma língua ocidental moderna a melopéia e o sentido intuitivo de versos em um persa medieval inserido em uma rica e antiga tradição. Mas é possível, especialmente a partir do uso do verso livre contemporâneo, ser surpreendido por imagens inesperadas, abundantes nos poemas de Rumi, e ser arrebatado pelo sentido profundo dessas imagens, acessível para aqueles dispostos a olhar em direção ao silêncio, fonte de todas as palavras usadas nesses textos.

Pois Rumi é um poeta místico, mas as experiências que fundamentam seus versos não são estados supra-racionais inacessíveis, mas, aquilo que está diante de nós, aquilo que experimentamos o tempo todo e, justamente por isso, não mais percebemos. Nesse sentido, ler Rumi é um exercício de autoconhecimento, princípio da sabedoria, como diziam os gregos.

É esse Rumi sempre atual, na voz de Coleman Barks, o meu poeta contemporâneo preferido, do qual apresento essa modesta tradução da tradução da tradução (não importa muito a quantidade de intermediários, quando é boa poesia).

Venha cá onde se abrem as rosas
deixe a alma e o mundo se encontrarem
o sol traz uma lâmina afiada

de luz – podemos nos render
rir da vil arrogância que aparece
chorar por quem se separa do amigo

a cidade ferve de rumores
um louco escapou da prisão
ou uma revolta está para começar?

que dia é hoje?

é o dia em que tudo que fizemos e somos
será finalmente revelado?

sem pensar, sem sentir
sem idéias sobre a alma
sem linguagem

esses tambores contam-nos
quão vazios
somos

 

bernardo brandão

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7 comentários sobre “Jalaluddin Rumi, meu poeta contemporâneo preferido

  1. Já li Rumi também, em uma versão que comprei da Blackwell, há anos atrás. Muito bom o trabalho de recriação! Parabéns a vocês! Este ‘escamandro’ está fazendo a minha alegria diária, como outros blogs de poesia que acesso!
    (Faltou o nome do poeta que assina a tradução!)

    Abração a todos!

  2. luiz roberto paiô disse:

    .RUMI

    ao encontrá-lo
    percebi sua
    ímpar riqueza
    Rumi
    poeta ou profeta?
    ambos rsss

    parabéns!!!

  3. luiz roberto paiosin disse:

    posso afirmar que com Rumi, renasci.

    coisa de alguns anos apenas

    mas esta era a leitura

    que procurava, sem saber existir.

    agradeço seu esforço em divulgar

    algo tão íntegro.

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