crítica, poesia, tradução

Shelley: Ode to Heaven

Percy Bysshe Shelley, retratoPercy Bysshe Shelley (1792 – 1822), além de marido de Mary Shelley – que, ironicamente, acabou se tornando mais famosa que ele, especialmente por conta de seu romance, Frankenstein – foi um poeta romântico, participante daquilo que podemos ver como um segundo momento do Romantismo inglês, ao lado de Lorde Byron e John Keats, e que sucedeu Wordsworth e Coleridge, apesar de estes dois últimos acabarem sobrevivendo a todos os três anteriores. Shelley, por sua vez, apesar de ter tido pouca circulação durante seu (curto) tempo de vida, foi lido e imitado ad nauseum pelas gerações que se sucederam, de Dante Gabriel Rossetti, Algernon Charles Swinburne e Robert Browning até William Butler Yeats e Wallace Stevens, para, então, cair no anonimato com o Modernismo inglês e com o movimento americano da Nova Crítica, junto com o restante dos românticos, que passaram a ser vistos como “inocentes”, “piegas”, “afetados”, “afeminados”, “sentimentais”, etc. Tal preconceito, por sinal, perdura até hoje – basta ver o que vem à mente quando se pensa na expressão “música romântica”– mas, felizmente, parece estar sendo superado pouco a pouco, conforme tradutores e críticos vão reencontrando alguma graça nos românticos, como Augusto de Campos fez em 2009 com Keats e Byron, e André Vallias, no alemão, fez recentemente com a obra de H. Heine.

No entanto, apesar de ser difícil de se acreditar ao se ver ESTE rosto na imagem acima, Shelley era um inconformado: envolvido em escândalos pessoais, expulso de Oxford por circular um panfleto intitulado A Necessidade do Ateísmo, censurado em várias de suas obras por conta de seu teor político, incluindo uma tradução peculiaríssima do Banquete de Platão, que só circulou após sua morte. Como outro contemporâneo seu, William Blake (que ele não leu, mas que partilha com ele semelhanças curiosas), a obra de Shelley compõe uma teologia singular, equiparando o impulso que leva o homem à religião e ao mito ao poder da linguagem poética, e oferecendo-a como alternativa à linguagem oca, falsa, fria, desgastada do cotidiano, onde predomina o ordinário senso comum e o discurso de poder e de manutenção de poder da ideologia. É claro, isso não passa de um resumo brutal e grosseiro de um trabalho de milhares e milhares de versos, mas basta para observar os ecos daquilo que veríamos mais tarde na ideia de religião da arte do Simbolismo, na visão nietzscheana da linguagem como composta de metáforas gastas, e no célebre dito de Mallarmé da poesia para “purificar as palavras da tribo”.

Em português, as traduções de Shelley não são muitas: temos meia dúzia de poemas na coletânea de José Lino Grünewald, Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX (editora Nova Fronteira), que, infelizmente, faz um enorme desfavor ao poeta, tanto pela seleção, que foca poucos poemas curtos e de menor relevância, quanto pela execução das traduções, que achatam todo ritmo e simplesmente destroem as rimas (um poema específico,  “Filosofia do Amor”, teve todas as várias e diversas rimas trocadas por rimas em “– ar”); e, mais recentemente, o poema longo O Triunfo da Vida, traduzido por Leonardo Fróes (editora Rocco), as coletâneas Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, de Péricles Eugênio da Silva Ramos (editora Hedra) e Sementes Aladas, de John Milton & Alberto Marsicano (editora Ateliê), que, sem dúvida, fazem um trabalho muito mais louvável de tradução, embora ainda não exatamente minucioso no que diz respeito à manutenção das formas poéticas. Fora essas publicações em livro, destaco três publicações em mídia virtual, uma (To Night) na revista Eutomia, de autoria de Paulo Henriques Britto, e duas (The Tower of Famine e Ozymandias) no blogue do Ivan Justen Santanna.

O poema que publico abaixo, no entanto, não faz parte de nenhuma destas coletâneas e é notável tanto pelo uso de formas típicas do poeta – i.e. o uso de versos em métricas irregulares, mas ainda assim musicais (tanto que até mesmo Eliot, que não simpatizava com Shelley, admitia sua musicalidade) e uma estrutura de coros, como em teatro grego antigo – quanto pela temática de impulso mitopoético que domina a melhor porção de sua poética.

Intitulado “Ode to Heaven”, como veremos, seria talvez mais apropriado denominá-lo uma anti-ode, conforme suas três partes marcam três perspectivas sobre o posicionamento da humanidade no universo: primeiramente a dos deístas do século XVIII; depois, a perspectiva platônica do mundo presente como uma ilusão imperfeita se comparada com a realidade espiritual; e, por último, uma visão que desdenha da ideia da humanidade como sendo relevante no grande esquema das coisas (como afirmam Reiman & Fraistat na página 296 da Norton Critical Edition de Shelley), como extensão de um pensamento desdenhoso da própria relevância do mundo natural, sendo, para Shelley como para Blake, “as dust upon my feet”. O que confere valor na relação mítica entre a humanidade e o mundo natural, então, seria a capacidade criativa do ser humano, capaz justamente de estabelecer esse tipo de relação – e é exatamente isso que este poema, em sua materialidade, faz ao mesmo tempo que celebra.

Ode ao Céu

CORO DE ESPÍRITOS

Cúpula que as nuvens fende!
Éden que áurea luz resplende!
     Infindo, Vasto, Ilimitado,
          És agora e fostes ontem!
     Do presente e do passado
          Do sempiterno Quando e Onde,
               Câmara, santuário, lar,
               Fixo domo a perdurar,
               Dos atos e eras por passar!

Sopras vida a nobres mundos
Que constelam vãos profundos
     E as mais desertas brenhas tuas,
          Que a Terra seguem em sua dança;
     E o alvo e frio cristal das luas;
          E estrelas de fulgente trança;
               E outros mundos verdejantes;
               E, além da noite, os sóis distantes,
               Átomos de luz radiantes.

Até o teu nome é como um deus,
Céu! pois mora em templos teus
     Poderes em que enxerga o homem
          Seu feitio, qual fosse espelho.
     Vêm as gerações, e somem,
          E a ti veneram de joelho.
               Eles mesmos, seu panteão,
               Fugazes, como um rio se vão:
               Persiste — a tua imensidão. —

UMA VOZ MAIS REMOTA

És um átrio à Mente, apenas,
Aonde sobem ânsias terrenas
     Como insetos numa catacumba,
          Iluminados por sincelos;
     Mas abre um mundo o umbral da tumba,
          De graças que farão singelos
               Teus feitos, mesmo o mais sobejo,
               Não mais que um diurnal lampejo,
               Breve sombra de um ensejo!

UMA VOZ AINDA MAIS ALTA E REMOTA:

Paz! Nascido do átomo, coroas
O abismo em ódio com tais loas!
     Que é o Céu? E o que és e fazes,
          Tu, que herdas sua extensão mais mínima?
     Que são sóis e astros fugazes
          Que o pulso desse Espírito anima,
               Da qual és não mais que uma parte?
               Quinhão que a Natureza comparte
               Pingando em finas veias! Parte!

Que é o Céu? Um globo de orvalho,
Pela aurora a estilar do galho
     No olho de uma jovem flor
          Entre esferas impretensas:
     Intactas nuvens de fulgor,
          Dobram-se órbitas imensas,
               Neste orbe a sucumbir,
               Com outros milhões irão se unir,
               Vibrar, faiscar e então sumir.

(tradução de Adriano Scandolara)

Ode to Heaven

CHORUS OF SPIRITS:
Palace-roof of cloudless nights!
Paradise of golden lights!
      Deep, immeasurable, vast,
          Which art now, and which wert then
     Of the Present and the Past,
          Of the eternal Where and When,
               Presence-chamber, temple, home,
               Ever-canopying dome,
               Of acts and ages yet to come!

Glorious shapes have life in thee,
Earth, and all earth’s company;
     Living globes which ever throng
          Thy deep chasms and wildernesses;
     And green worlds that glide along;
          And swift stars with flashing tresses;
               And icy moons most cold and bright,
               And mighty suns beyond the night,
               Atoms of intensest light.

Even thy name is as a god,
Heaven! for thou art the abode
     Of that Power which is the glass
          Wherein man his nature sees.
     Generations as they pass
          Worship thee with bended knees.
               Their unremaining gods and they
               Like a river roll away:
               Thou remainest such—alway!—

A REMOTER VOICE:
Thou art but the mind’s first chamber,
Round which its young fancies clamber,
     Like weak insects in a cave,
          Lighted up by stalactites;
     But the portal of the grave,
          Where a world of new delights
               Will make thy best glories seem
               But a dim and noonday gleam
               From the shadow of a dream!

A LOUDER AND STILL REMOTER VOICE:
Peace! the abyss is wreathed with scorn
At your presumption, atom-born!
     What is Heaven? and what are ye
          Who its brief expanse inherit?
     What are suns and spheres which flee
          With the instinct of that Spirit
               Of which ye are but a part?
               Drops which Nature’s mighty heart
               Drives through thinnest veins! Depart!

What is Heaven? a globe of dew,
Filling in the morning new
     Some eyed flower whose young leaves waken
          On an unimagined world:
     Constellated suns unshaken,
          Orbits measureless, are furled
               In that frail and fading sphere,
               With ten millions gathered there,
               To tremble, gleam, and disappear.

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3 comentários sobre “Shelley: Ode to Heaven

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