poesia

Sete poemas de Sérgio Blank

Acredito que tudo que eu possa dizer para apresentar Sérgio Blank (1964) é que ele é um poeta capixaba meio lado B, deixado de lado pelo eixo Rio-São Paulo (velha história), embora tenha certo reconhecimento local, com pelo menos dois livros de estudo crítico a respeito (Porque e por Quê, de Reinaldo Santos Neves & Sol, Solidão de Sinval Paulino). É autor dos livros de poesia Estilo de ser assim, tampouco (1984), Pus (1986), Um (1989), A Tabela Periódica (1993) e Vírgula (1996), além do infanto-juvenil Safira (1998). De resto, cito as palavras do também poeta, também capixaba, Valdo Motta, que na contracapa do Pus mais do que eu pode fazer jus ao poeta: “Sérgio Blank é um poeta preocupado em exprimir o pus de sua alma agraciada com a peste, o pathos, o tormento da lucidez. Demolindo e reelaborando a linguagem do mundo, deformada com efeitos de estranhamento que incomodam, Blank espicaça consciências entorpecidas”.

Gostaria, assim, de compartilhar alguns de seus poemas com nossos leitores, transcritos abaixo, para, na sequência, poder tecer algum comentário crítico sobre o tipo de trabalho que Blank desenvolve em Pus – que eu, mesmo sem ter conhecido antes de começar a escrever poesia, poderia considerar como um precursor dessa poética que, aqui entre nós do escamandro, passamos a designar como “lira de lixo”.

Seguem os poemas. Mais tarde, no dia 19/12, postei então meu comentário crítico a respeito.

AVESTRUZ

disfarça e sai dessa cena
o quarto com lençóis te aguarda
a mãe com beijos molhados te quer
o pai com muitos dotes te possui
desce os cílios e segue a vista
vire o rosto para o lado de lá
cai o semblante até o chão
e esfregue a face no tapete
uma carreira até em casa
trancafie-se entre os braços
limpe seus traços
e não chore e não chore
aos prantos corre até o próximo ônibus
sai do banheiro e desfila no corredor
e não chore
porque eu não quero
e não chore
aos prantos ergue a cabeça
porque eu não gosto
ostenta cortes no pescoço
na ponta dos dedos esconda os olhos
e não chore
uma ave na voz
uma avis rara
pelicano ou ganso ou albatroz
no caminho de volta deixe cair uma pena
penugem & plumagem de avestruz

ANÁTEMA

(ju)deus obtusos ou
usos e costumes
humildes e
úmidos ou
ju(ízes)
tema analítico político
luz ilustre
deu(zeus)
cálculo de matemática
prova a existência
cristã taram tantã
trombetas do juízo
final

VALSA DO ÓCIO

estátua gípseo alvo
dance em vida
balé vulgar e clássico
dance em vida
música por par
ímpar do viver
veste iridescente
dance em vida
neste ímpeto bestial

O OVO TODO VAZIO

te quis
lei cortês
delicada liturgia à toa
li à altura
rio à margem
eu rio muito
página a página
capricho a interessante besteira
a crase trágica
busque as coisas
se for feio
meigo gosto de cortesia
o mês já era
passe outra hora.

O QUE DITA A DOR

estou aqui
representando o sentimento
vim solicitar
o seu município
corpo de belos membros
propriedade de estado
de meu espírito
exijo, você
tem que aderir
ao partido da situação
em que fico
lapsos no coração
o dito cujo, amor
inadmissível oposição
sua plataforma política
deve ser calcada
nesses carinhos da paixão
decreto a lei
assino em baixo

OPUSDAPESTE
(solidão)

o maior espetáculo da terra
a minha tragédia
jaula de circo
uma grande cerca
acordo cedo com o fim
deixo de ser estrela
brilhe o segredo da rua
a chave da cidade
afinal fecha a grade
além disso
obriga a praga do dia e dia
não receie ir tão longe
ali onde o grito é o lance
a décima quinta linha

O ANEL QUE TU ME DESTE

parte um

gente que nasceu em meu ano
não pensa a guerra
pedala sem tocar qualquer chão
pessoas que são poucas coisas
passeios suados de bicicletas
findando nos ônibus de rodoviárias
nas caronas já caretas

partem dois

escritórios de textos poéticos
de bossa à beça
basta de bosta na festa
besta com fama de lenda
bis de novo
nada de neo
herói demitido
a moto mata os mitos
o destino dos mortos
máquina de moer carne
resta meu rosto
farelo de rosca
risco de farsa e elo
entre tudo mesmo
eu não falo mais nada
eu não valho
a tensão presta serviço
escreve o lucro do escravo boçal
cabeça caída em távola de bar
agora eu vou
um tanto além de embora
morrer de rir
engasguei com a gargalhada
gargarejo de papo e papel
encalhe no brasil

partem todos

(da infância esquecida
ao ultrapassado das rugas)

chega

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s