crítica, poesia, tradução

federico garcía lorca: preciosa e o ar (1928)

Federico García Lorca (1898-1936), o principal nome da chamada ‘geração de 27’ é, talvez por unanimidade, o maior poeta de língua espanhola do século XX. Nascido em Granada, na Espanha, possui uma vasta produção poética e teatral. Entre estas, destacam-se, por exemplo, Bodas de Sangue e a Casa de Bernarda Alba. Sobre a poesia, nota-se já nas primeiras leituras a peculiaridade com que Lorca trata seus temas em relação ao contexto literário europeu, distanciando-se da mentalidade vanguardista dominante na Europa e procurando um equilíbrio entre a inovação formal e a sensibilidade humana. Podemos ver, sob esse aspecto, um elemento marcante da poética de toda essa ‘geração de 27’, que elege o sentimento em vez do intelectualismo. Qualquer leitura de um poema de Lorca parece deixar isso muito explícito. Outros nomes da ‘geração de 27’ seriam, então: Jorge Guillén, Pedro Salinas, Rafael Alberti, Dámaso Alonso, Gerardo Diego, Luis Cernuda, Vicente Aleixandre, Manuel Altolaguirre e Emilio Prados.

Feita essa brevíssima apresentação, eu, que ainda muito recentemente adentrei a poesia de Lorca (e espero voltar ao blog tratando mais a fundo do seu trabalho), trago essa tradução de Preciosa y el aire, presente no livro intitulado Romancero Gitano, de 1928. Esse poema traz um dos elementos mais interessantes da poesia de García Lorca, que é a retomada de temáticas populares e cancioneiros do século XV, revigoradas em uma poesia novecentista de ares bastante ‘frescos’. O Romancero Gitano, especificamente, traz como motivo a figura do cigano e seu imaginário, que o autor reconstrói a partir da tradição da sua própria terra.

A edição base do texto espanhol que utilizei foi a contida na Obra Poética Completa de García Lorca, publicada em formato bilíngue pela Martins Fontes e com tradução de William Agel de Mello.

Vinicius Ferreira Barth

soloelmisterioIlustração de García Lorca presente na abertura do Romancero Gitano, como se apresenta nessa edição da Martins Fontes. Ela contém a seguinte inscrição: “Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio / Só o mistério nos faz viver. Só o mistério”

Preciosa e o ar

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem
por um anfíbio sendeiro
de cristais e de louros leves.
O silêncio sem estrelas,
fugindo do sonsonete,
cai onde o mar bate e canta
sua noite cheia de peixes.
Nos altos picos da serra
carabineiros dormecem
vigiando as brancas torres
onde vivem os ingleses.
E a ciganagem da água
levanta co’ algum prazer,
carrosséis de caracóis
e ramos de pinho verde.

*

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem.
Ao vê-la se põe erguido
o vento que não dormece.
São Cristóvão desnudado,
cheio de línguas celestes,
olha a menina tocando
uma doce gaita ausente.

Moça, deixa que levante
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos arcaicos
a rosa azul de teu ventre.

Preciosa atira o pandeiro
e corre sem se deter.
O vento-machão persegue
com espada incandescente.

Franze seu rumor o mar.
Olivas empalidecem.
Cantam as flautas de sombra
e o liso gongo da neve.

Preciosa, corre, Preciosa,
que te agarra o vento verde!
Preciosa, corre, Preciosa!
Olha por onde ele vem!
Sátiro de estrelas baixas
com suas línguas reluzentes.

*

Preciosa, cheia de medo,
entra na casa existente,
mais acima dos pinheiros,
consulado dos ingleses.

Assustados pelos gritos
três carabineiros vêm,
suas negras capas cingidas
e gorros em suas frentes.

O inglês dá à cigana
um copo de um morno leite,
e uma taça de genebra
que Preciosa, então, não bebe.

E enquanto conta, chorando,
a aventura àquela gente,
nas telhas de ardósia o vento,
furioso, mete-lhe os dentes.

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