crítica, poesia

Comentário crítico: sobre Pus, de Sérgio Blank

Faz já quase um mês desde que eu postei uma pequena seleção de 7 poemas do livro Pus, do poeta capixaba Sérgio Blank, com a promessa de tecer algum comentário crítico a respeito. Pois bem, agora é (finalmente) hora de honrar a promessa e não deixar nenhuma pendência para o ano novo.

Gostaria de começar a partir da citação que Valdo Motta faz na contracapa do livro, especialmente o trecho em que diz: “Demolindo e reelaborando a linguagem do mundo, deformada com efeitos de estranhamento que incomodam, Blank espicaça consciências entorpecidas”. De fato, a demolição de um certo tipo de linguagem parece ser um tema recorrente neste livro de Blank, na medida em que ele utiliza diversas técnicas para distorcer o discurso cotidiano, o discurso dos chavões e o discurso da mídia e meios de comunicação.

Um dos poemas que postei, “O que dita a dor”, é o que  apresenta esse recurso de modo mais evidente, valendo-se de uma terminologia burocrática para compor um discurso amoroso (caso raro neste livro), bastante ambíguo por conta das quebras sintáticas e frases que não fecham; podemos supor, pela chave dada pelo título e pelo verso final, que se trata de um discurso do próprio sentimento requisitando o padecimento do amante, ou ainda, mais tipicamente do gênero, um discurso de um eu lírico amante para uma pessoa amada. De qualquer modo, no entanto, o resultado é cômico e aviltante, conforme a linguagem usada compõe não poesia de amor elevado, mas um poema que sugere uma desvalorização amorosa ao aproximar este amor a um ditador e a um burocrata. O crítico Sinval Paulino, autor de Sol, Solidão, ao tratar de um outro poema de Pus,o primeiro, “O Ilustre Desconhecido” (que se abre com o verso “figura eu te amo”), que há uma “impossibilidade de amar e ser amado”, na medida em que se dá uma “valorização do simulacro ao invés do real” no poema, e acredito que o mesmo ocorra aqui; em vez da emoção pura e descontrolada, há a frieza do papel, do documento oficial. O mais icônico disso é o final, em que um dos versos se destaca pelo contraste da expressão “carinhos da paixão”, o tipo de expressão que  beira o brega, mas que é sufocada logo em seguida por “decreto a lei / assino em baixo”.

Além da destruição da sintaxe, a linguagem em Blank é deformada por trocadilhos, aproximações sonoras e usos ambíguos de palavras. Podemos observar isso, por exemplo, no próprio título de “O que dita a dor”, bem como em alguns de seus versos (“propriedade de estado / de meu espírito”); no título de “Opusdapeste”, em que fica deliberadamente ambíguo se é “o pus da peste” ou “opus da peste” (e, na dúvida, aceitamos ambos os sentidos simultaneamente, claro); em “O ovo todo vazio”, na ambiguidade da palavra “rio” (se referindo tanto à coisa “rio” quanto ao verbo “rir”, um tipo de ambiguidade a que Paulino também trata em seu comentário crítico) no verso “rio à margem”, explicitada pelo verso seguinte “eu rio muito”, bem como em “estátua gípseo alvo” na “Valsa do ócio”, em que o adjetivo “gípseo”, no masculino, não parece estar adjetivando a palavra feminina “estátua”, como deveria ser o esperado, lançando, assim, ao léu três palavras em algum grau desconexas: estátua, gípseo e alvo (outra palavra sintaticamente ambígua); no verso de “Anátema”, “cristã taram tantã”, que faz simultaneamente uma piada com o adjetivo “cristã” e simula algo como o som musical de uma trombeta, mencionada nos versos seguintes; e, mais excessivamente, em “O anel que tu me deste”, nos versos “de bossa à beça / basta de bosta na festa / besta com fama de lenda / bis de novo / nada de neo / herói demitido / a moto mata os mitos” em que as imagens são compostas não tanto por alguma lógica quanto pela aproximação sonora bossa-beça-basta-bosta-festa-besta e moto-mata-mito. A essas aproximações sonoras se somam as rimas ocasionais, jamais sistematizadas, como cidade-grade, em “Opusdapeste”, situação-coração-oposição-paixão em “O que dita a dor”, analítico-político e deu(zeus) em “Anátema”, traços-braços, voz-albatroz-avestruz em “Avestruz”, e assim por diante.

E aí eu creio ser necessária uma digressão para tratar do trocadilho e da rima. Não se pode falar dessas duas coisas na poesia brasileira atual sem se pensar no nome de Paulo Leminski. De fato, Leminski foi um mestre no emprego do trocadilho, técnica depois banalizada por seus imitadores tardios, mas essa não parece ser uma influência principal em Pus, que nos permita situá-lo ao lado desses tais imitadores. E isso se dá talvez porque a rima e o trocadilho leminskianos são estruturados e se encontram no cerne do poema: em linhas gerais, quando aparecem, eles tendem a dar o sentido de todo o poema, fechando uma ideia, motivo pelo qual costumam aparecer com frequência no último verso. Blank parece rejeitar estruturas poéticas como rejeita estruturas de poder (na medida em que se insere numa tendência de anti-autoritarismo oposicionista, ao lado de inúmeros outros poetas dos anos 80, como aponta Paulino), e, nele, seus jogos sonoros de palavras tendem a dar uma impressão de que o poema está sendo construído na hora, conforme uma ideia, um som, uma imagem surgem, são explorados durante alguns versos – como quem faz variações sobre um tema – para então darem lugar a novas ideias, sons e imagens. É mais ou menos como a lógica do improviso, para fazer uma comparação musical, embora obviamente isso não queira dizer que os poemas sejam improvisados de fato, mas é a impressão que passam. Assim, no solto “rio à margem / eu rio muito / página a página”, etc, Blank se distancia bastante de, por exemplo, “rio do mistério / que seria de mim / se me levassem a sério?” de Leminski. Essa lógica do improviso parece aproximá-lo de um outro poeta contemporâneo, porém estrangeiro, que é John Ashbery, cujo funcionamento dos poemas se dá desse mesmo modo, naquilo que gosto de chamar de “imagens em tremolo (em oposição ao stacatto de imagens soltas e imediatamente desconexas), começando com uma imagem e indo gradualmente além dela, conforme cada verso toca apenas tangencialmente o verso anterior. Ashbery, no entanto, tem uma poética mais prosaica e tende a versos e poemas mais longos, enquanto Blank é, em todos os sentidos, fragmentário.

Outra aproximação-distanciamento que podemos fazer seria com o poeta Roberto Piva, no que condiz à capacidade de destruição da linguagem. Como brevemente comentado e ilustrado pelo nosso companheiro do Escamandro, Guilherme Gontijo Flores, em seu blog pessoal, os livros Paranóia e Piazzas são destrutivos, causando uma demolição poética através de seus excessos de imagens, frequentemente absurdas, para então se criar o espaço necessário para erigir a poética mais esotérica e positiva da poesia tardia, xamanista, de Piva. Em comparação, porém, Blank, com suas distorções e deformações, também destrói, mas não é um diluidor de Piva, imitando um tipo de poética 20 anos mais tarde, pois destrói já construindo outra coisa no lugar – só que essa outra coisa se compõe dos próprios destroços daquilo que destruiu. Para ilustrar esse argumento, recorro à questão da unidade dos poemas: é difícil dizer exatamente onde um poema acaba e outro começa nesta fase inicial, destrutiva, de Piva. E isso é especialmente observável nas Piazzas, que reteriam sua força poética mesmo que seus poemas fossem repartidos, cortados, fundidos. É, por assim dizer, uma poética líquida.

Já em Blank, como pode ser visto nos 7 poemas postados aqui, há uma temática por trás de cada um que o represa e objetifica cada conjunto de versos num poema separado. “Opusdapeste” é um ótimo exemplo disso, na medida em que se abre explorando o tema da jaula e se conclui traçando sua delimitação, como ele mesmo diz, na “décima quinta linha”. O poema “Avestruz” é ainda mais impressionante, pois o que o amarra é a imagem lugar-comum do avestruz como uma ave que enfia a cabeça no chão, representando, assim, alguém que foge dos próprios problemas. Essa atitude – com o semblante caído até o chão, esfregando no tapete, e os olhos escondidos – mantém a coesão do poema enquanto ele oscila entre imagens grotescas (“a mãe com beijos molhados te quer / o pai com muitos dotes te possui”) e ordens autoritárias (“sai do banheiro e desfila no corredor / e não chore / porque eu não quero”). E o discurso se constrói de tal modo que, através da técnica, mencionada acima, do tremolo, ocorre uma metamorfose nos versos finais em que o próprio indivíduo do poema se transforma num avestruz, a princípio com “uma ave na voz”, depois com uma referência indefinida a várias aves, para então surgir uma pena e a própria palavra “avestruz” aparecer, enfim, no último verso. Desse modo, em cada um desses poemas, a linguagem é destruída para dar lugar a uma nova construção de linguagem, fechada em si, esculpida a partir de seus próprios escombros.

Obviamente, seria fútil tentar fechar o sentido desses poemas através de comentário crítico – como seria fútil tentar fazer o mesmo com praticamente qualquer poeta moderno que valha a pena ser lido. No entanto, espero que, com essas breves observações aqui feitas, eu possa fornecer algum começo rudimentar para se pensar a poesia de Sérgio Blank.

Lembro, novamente, que, para quem se interessar, existem os livros de análise e comentário crítico Porque e por Quê, de Reinaldo Santos Neves & Sol, Solidão de Sinval Paulino (que empreguei neste comentário), e que, além disso, a Editora Cousa muito recentemente fez o lançamento do volume Os dias Ímpares – Toda Poesia de Sérgio Blank, reunindo toda sua obra produzida até então, uma excelente oportunidade para conhecer o poeta.

Adriano Scandolara

Atualização de 24/8/12: à convite do prosador e poeta Reinaldo Santos Neves, apresentei uma palestra intitulada “Hermetismo e Expressão: a Trajetória Poética de Sérgio Blank”, no evento Bravos Companheiros e Fantasmas: V Seminário Sobre o Autor Capixaba (link aqui para a programação e resumo do evento), que ocorreu ontem e anteontem em Vitória. Em antecipação a esse evento, publiquei um pequeno artigo na edição de hoje do caderno Pensar, de Vitória (link aqui), intitulado “O pus das palavras”. O texto ainda está disponível online aqui. Pode-se conferir também mais 3 poemas deste livro de Blank neste link na mesma página.

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