crítica, poesia

marcelo sandmann

marcelo sandmann (curitiba, 1963) é professor da ufpr, poeta e compositor. sua produção, por enquanto, ainda é pequena e pode ser degustada num dia, desde que se aceite que alguns sabores precisam de mais tempo, pro caso – necessário – de maturação, ou curtição, como o couro, que, trabalhado, acaba por ganhar aquele cheiro típico, que pros enólogos é algum tipo de sinal de reverência a qualidades quase transcedentais, junto com baunilha, frutados, caramelo, ou coisa que o valha.

mas eu perdi o fio da meada. voltando pra poesia de sandmann, ao contrário dos enólogos, ela é toda irreverência, daquele tipo leve e ridente, o que não implica em nada a falta de labor, em muitos pontos numa estética que recorda alguns trabalhos de josé paulo paes. mas é claro que não se limita a isso, e um dos pontos fortes da sua poesia é exatamente a variação de estilo, temas, ou modulações possíveis da leveza. por isso, na minha escolha por um só poema, creio que não posso dar uma boa do que é ler uma série de poemas de sandmann.

então façamos assim. eu paro de escrever e faço só duas coisinhas: deixo as obras, pra vocês – os não preguiçosos, claro – procurarem e curtirem, ou curarem, ou degustarem, ou devorarem; e, falando em comida, deixo também o “pato ao tucupi”.

OBRAS :

cantos da palavra (CD, em parceria com benito rodriguez), 1998
lírico renitente, 7letras, 2000.
criptógrafo amador, medusa, 2006. donde sai este “pato”

p.s.: não me aguentei. um comentário sobre o “pato ao tucupi”, que já é longo: o poema me atraiu de pronto na primeira vez que o li, pela sua duplicidade cômica. por um lado, sandmann faz uso da oitava rima, uma forma tradicional do épico camoniano e que dá um puta dum trabalho (ô se dá, tentem pra ver); porém um puta dum trabalho em nada gratuito. basta ver que enlaçado a ela está um estilo rápido, dialógico e de todo contemporâneo. é nessa duplicidade que se dá o cômico poético, mas não só nisso. há dois acontecimentos simultâneos: a incoveniência do tema (um quê de pedofilia ou crise de meia idade com tara e drogas) conveniente à linguagem, que, anacrônica ao metro, estabelece essa dúplice relação poética na forma, se eu fosse um bom estruturalista, de um triângulo. nos momentos em que ela se torna propriamente pseudocamoniana (isso mesmo, “propriamente pseudocamoniana”, e não “propriamente camoniana”) é que ela expressa um modo heroico possível do nosso tempo.

vejam versos como : “À língua perfurava fero pierci'”, em que pierci’ rima com Circe (rima tão rica vale mais do que dinheiro!), ou “Dispor propus a todos grana preta: / Alguém cascou-me o casco da escopeta”, em que a sintaxe é revista pelo vocabulário, e o próprio contexto, fundido à métrica, cria a naturalidade necessária para o seu funcionamento.

pronto, paro por aqui.

guilherme gontijo flores

PATO AO TUCUPI

 (uma breve digressão herói-cômica)

“Well, she was just seventeen,

You know what I mean”

 (“I saw her standing there” – Lennon & McCartney)

 

“A soma dos quadrados dos catetos

É igual ao quadrado da hipotenusa”.

Assim foi me dizendo, em tom faceto,

Enquanto desabotoava a blusa.

Eu, de natural um tanto obsoleto,

Com medo de encarar ali Medusa,

Os olhos para o teto desviei.

Mas em vão, que um espelho vislumbrei!

 

Ela, que rubor algum maculava,

Fitando em minhas faces forte pejo,

Já larga gargalhada desatava,

Finda a qual, sapecou-me honesto beijo.

Se do amplexo fatal eu me esquivava,

Nas gingas imitando o caranguejo,

Mais e mais ela a mim arremetia,

Decidida a pôr fim à carestia.

 

Como leoa esfaimada que deixa

Seus cachorrinhos todo um dia ao léu;

Léguas e léguas percorre, sem queixa,

Sob sol rigoroso no ancho do céu;

Té que manada cerque, que desleixa

Tenra rês em meio ao grosso escarcéu;

Da pobre no dorso as garras cravando

E na garganta as presas incrustando:

 

Tal e qual ela ali me acarinhou.

Ou das vodcas com limão que libamos,

Que Diônisus Polaco prostrou;

Ou do vidro de rollmops que emborcamos,

Quitute que Tiestes desdenhou;

Sobre estar eu há muito entrado em anos:

Quanto mais junto a mim já se inclinara,

Tanto mais do escrutínio eu declinara.

 

Canta-me a cólera, ó Musa, daquela

Pequena, dir-se-ia vera Circe,

Que ao artelho premia jóia bela,

À língua perfurava fero pierci’,

Tatuada do cachaço às canelas

(Quem pudera dali, então, partir-se?),

Logo a mim metamorfo me querendo

Em pato ao tucupi, ó caso horrendo!

 

“Ora sus!”, trovejou, a cavaleiro.

Mas por mais que eu vibrasse na rabeca,

O som saía cavo e não brejeiro.

Levar prevendo eu cá uma fubeca

E a fama conquistar de potoqueiro,

Palpar-lhe ofereci por ceca e meca,

E quando já adentrava Santarém:

Ai-meu-Jesus-José-Maria-amém!

 

(Em lendo, acaso, o derradeiro dístico,

Julgar, leitor, que um tanto já me excedo,

Eu juro: meu intuito é cabalístico,

Que prezo de ser sublimado aedo.

Pesar pois do pendor folhetinístico,

Deveras, qu’ele-o-há, isso eu concedo,

Matéria assaz subida e meritória

Subjaz lá nos desvãos da nossa história.)

 

No couro, enfim, convindo que eu não dava,

No couro, sim, quis dar-me, por desplante.

Co’a meia com que os pés agasalhava,

Meus pulsos preste atava, ó terna amante!

Saca da saia a cinta, fibra brava.

Zurze já o frigobar, febricitante.

Mas antes que lambasse por detrás:

“Cruz-credo! Te arrenego, Satanás!”

 

Ó, que não sei de nojo como o conte!

Agora que me vi predestinado

Ao carro, só, tirar de Automedonte,

Ai!, crendo-me mui firme e bem picado,

Ei-la: faz-se de serpe aglifodonte.

Maldito o malo dia em que fui nado!

Que a ver se recobrava a robustez,

Nas artes confiava do Marquês.

 

Pois ela, no nariz já me afagando,

“Benzinho”, disse assim, “deixa pra lá!”

E a crua tessitura desatando,

Bem certa de não ver-me ao deus-dará,

Ao colo, muito casto e muito brando

(Menina que aninhasse o seu preá),

A mim de modo terno recebeu,

E ao prélio descanso breve ora deu.

 

Juntinhos, bem juntinhos sobre o tálamo

(A tudo, enfim, supera a pura estima!),

As unhas, deslizando como cálamo

(A quanto não obriga o amor da rima!),

Furunc’lo lacerou. Reclamo: “Ai, amor!”

(E nova vez maculo est’obra-prima.

Pois onde lá me falham consoantes,

Eu meto, sem piscar, tonitruantes.)

 

Passada esta propícia moratória,

Havendo dos trabalhos repousado,

Cioso de evitar objurgatória,

À pugna, pois, me fiz reconvocado.

Às artes recorrendo da oratória,

Expus algum receio bem fundado.

Da bolsa ela boceta retirou,

Que tal a de Pandora se mostrou.

 

Grânulos brancos de pequena ampola

Sobre caco de cristal esparzia,

Em que a pintura, a fim de recompô-la,

Do rosto ali mirar lesta soía.

“Pões-te logo a arrulhar, pequena rola,

Ufana de ciscar fina iguaria!”

Com lâmina, que penugem estirpava,

Estreitos, seis carreiros perfilava.

 

Qual hexagrama ch’ien, o criativo,

Que ao próprio céu semelha tem a imagem;

Que àquele a quem, em lance consultivo,

Tirar coube da sorte na triagem

Já favorece, pois, por forte e ativo,

Perseverante e inflo de coragem:

O esquisso tal ali foi debuxando,

Eflúvios positivos instilando.

 

Cédula de cem mangos requestou,

Que um tanto a contragosto forneci.

Nos dedos, já bem hábeis, enrolou,

Canudo muito fino obtendo aqui.

Um extremo à fossa destra achegou

Do nariz; o outro depôs bem ali

Onde o primeiro carreiro se via.

Num relance, por inteiro o sorvia.

 

Tais passos segui, de fio a pavio,

Fiado, ao fim, de alcançar salvação.

Varado fui por súbito arrepio,

A que seguiu-se forte comichão.

Privado assim de qualquer alvedrio

(Toldado se via o sol da razão),

Presto, terceira trilha palmilhei:

Piparote prestíssmo tomei.

 

Co’as mentes afiladas a estilete,

Convictos de rasgar todo o ilusório,

Sentamo-nos em lótus no tapete,

Início dando logo ao parlatório.

Idéias vêm e vão em ricochete,

Imagens de fulgor fulminatório,

Conceitos entre si tão concertados,

Que cá ficamos nós desconcertados.

 

Paroxismos de intelectivo gozo

Coroavam a festa dos sentidos.

Iluminações em fluxo assombroso,

Transubstanciações de toda a libido.

Mas quando, enfim, o Verbo portentoso

Já nada ocultava a nossos ouvidos,

Ouvimos algures um forte rataplã,

Pancadas abruptas: pam! pam! pam! pam!

 

Fora dos gonzos, a porta esboroa.

“Parado todo mundo, documento!”

Quatro gorilas pós uma elefoa

Congestionavam nosso apartamento.

“Uchoa, junta as roupa’ do coroa”,

Disse aquela, de um modo virulento.

Este, recém-fardado cabo-mor:

“A mina, capitão, é de-menor.”

 

(A menos que enganado muito esteja,

À estrofe acima cabe revisão,

Já pelo emaranhado que sobeja,

Já pelo mistifório em profusão.

Ai de quem na gramática manqueja!

Por mais que brote o estro em borbotão,

Se num lapso mero acento esquecesse,

Logo excluso de Parnaso vivesse.)

 

Três lanços nós descemos, manietados,

Vestidos só c’orvalho madrugueiro,

Contritos, cabisbaixos, mui vexados,

Cercados por aqueles perdigueiros.

De minha amiga vi-me separado;

Trancado fui em camburão coiceiro.

Dispor propus a todos grana preta:

Alguém cascou-me o cabo da escopeta.

 

Memória inda metida em torvelim,

A nuca dolorida e latejando,

Aos poucos, de mansim, assim-assim,

Do transe atroz me fui recuperando.

A tudo explicar, tintim por tintim,

Em torpe distrito foram-me instando.

Jurando haver ali crocodilagem,

Incluso já me vi na carceragem.

 

Quiçá tivesse ao fim eu boa xênia!

Já séc’lo e meio empós a escravidão,

Mesclada sempre mais nossa progênia,

Conceitos, preconceitos em questão,

Aos afro-descendentes peço vênia:

A cela estava cheia de negão!!!

Quem vai orar por mim, ó alma minha?

Acaso, minha mãe, eu sou neguinha?

 

O que ali dentro depois sucedeu

É segredo que guardo cá comigo.

Por que bramar que Deus nos esqueceu,

Que foi o Demo quem nos deu abrigo?

Ao fim e ao cabo, sim, tudo valeu,

Mormente quando safos do perigo.

Em breve, pois, aqui, segunda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

 

(marcelo sandmann)

 

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2 comentários sobre “marcelo sandmann

  1. Vinicius F. Barth disse:

    foram tantos os trechos que eu pensei em ressaltar em um possível comentário que até acabei desistindo. “serpe aglifodonte” foi foda demais. adorei o poema, como era de se esperar da minha pessoa cretina.

    tirando isso, Guilherme, teu comentário sobre vinho lá em cima foi mó palaciano.
    =D

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