crítica, poesia, tradução

federico garcía lorca: libro de poemas (1921)

autorretrato de Lorca

Voltando com mais algumas traduções do mestre Lorca, hoje escolhi alguns poemas de seu primeiro livro, o Libro de Poemas, de 1921. Embora sejam de temática um pouco diversa do Romancero Gitano (leia aqui), sem fazer referências ao imaginário cigano de sua vila de criação, Lorca apresenta algumas peculiaridades recorrentes e bastante interessantes, como a animização de forças naturais (p.e.: o vento em Preciosa, assim como a lua e a morte em… A Lua e a Morte =D ) , a divisão entre os sentimentos do eu lírico que observa uma paisagem e reflete os sentimentos evocados dentro de si próprio, o repertório de descrições da natureza, etc.

A minha intenção inicial era de traduzir e publicar apenas um poema curto de cada vez, devido ao tempo apertado, mas não resisti porque o cara é foda demais. Realmente, creio que os tipos de sensações que ele evoca são únicas e cada leitor criará a sua própria identificação com o que é descrito. Portanto, leiam com carinho e atenção.

Por fim, segue a referência do livro que utilizei como original-base (não foi o citado no último post por motivos logísticos):
GARCÍA LORCA, Federico. Libro de poemas. Edición, introducción y notas de Mario Hernández. Madrid: Alianza Editorial, 1998.

o don perlimpim de García Lorca; peguei daqui http://www.filipamalva.net/2011/05/perlimpin-de-garcia-lorca.html


árvores (1919)
  árvores!
terão sido flechas
caídas do azul?
que terríveis guerreiros as lançaram?
terão sido as estrelas?

vossas músicas vêm da alma dos pássaros,
dos olhos de Deus,
da paixão perfeita.
árvores!
conhecerão vossas raízes toscas
meu coração em terra?

a lua e a morte (1919)
  a lua possui dentes de marfim.
que velha e triste assoma!
estão os canais secos,
os campos sem verdores
e as árvores sombrias
sem ninhos e sem folhas.
Dona Morte, enrugada,
passeia por salgueiros
com absurdo cortejo
de ilusões remotas.
vai revendendo cores
de cera e de tormenta
como fada de conto
malvada e ardilosa.

a lua, pois, comprou
pinturas para a Morte.
nesta noite tão turva
está a lua louca!

eu entretanto ponho
em meu peito sombrio
uma feira sem músicas
com as tendas de sombra.

ninho (1919)
  que é o que guardo nesses
momentos de tristeza?
ai!, quem poda meus bosques
dourados e floridos?
que leio no espelho
de prata comovida
que a aurora me oferece
sobre a água do rio?
que grande olmo de idéia
irrompeu por meu bosque?
que chuva de silêncio
me deixa estremecido?
se amor meu deixei morto
numa ribeira triste,
que arbustos me ocultam
algo recém nascido?

hora de estrelas (1920)
  o silêncio arredondado da noite
sobre o pentagrama
do infinito.

eu saio desnudo pela rua,
maduro de versos
perdidos.
o negro, esburacado
pelo canto do grilo,
tem esse fogo fátuo,
morto,
do ruído.
essa luz musical
que percebe
o espírito.

os esqueletos de mil mariposas
dormem em meu recinto.

há uma juventude de brisas loucas
sobre o rio.

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