poesia, tradução

Alguns poemas breves de Walt Whitman

Walt Whitman (1819 – 1892) é considerado, merecidamente, um dos maiores poetas dos EUA – quando não o maior poeta – bem como de toda a literatura moderna ocidental. É lembrado, com frequência, como o inventor do verso livre, como também pela natureza sexual (bi-, homo- e autossexual, dependendo da interpretação) de seus poemas, bastante escandalosa para a época (e, bem, o que não era?), ou então ainda por sua relação apaixonada com a democracia – uma palavra perigosa de se usar por conta das conotações nefastas com que as ações dos EUA do século XX  acabaram lhe tingindo, melhor compreendida aqui se lembrarmos de seu sentido etimológico significando “poder do povo” . Devemos lembrar, porém, que há muito mais em Whitman do que isso.

Sobretudo, acredito que uma das caracterizações mais evidentes dele é o caráter celebratório e efusivo de sua poesia. Em comparação com outros angustiados poetas de destaque do século XIX, notavelmente Baudelaire (que, moderníssimo também para sua época, publica As Flores do Mal com apenas dois anos de diferença em relação ao primeiro volume das Folhas de Relva), Whitman nos parece estranhamente contente. E esse contentamento parte de sua relação com a natureza, com a literatura, com a sociedade e as pessoas em geral.

O epigrama  “To You”, por exemplo, traduzido abaixo como  “A Você”, com seu tom conciso e convidativo, aponta para esse lado inclusivo de Whitman, que reflete seu desejo, por vezes abertamente expresso em pessoa, de ser acolhido pelas massas,  o que, no entanto, não o impede de ser o autor de uma produção muito complexa – e lembramos também que “popular” em poesia é sempre muito relativo. De qualquer modo, independente do quanto ele realmente tenha sido lido pelo povo de fato, o que impressiona nesta postura é ser uma posição contrária à de “literatura somente para iniciados” que passa a predominar a partir do final do século XIX. Contraste este poema, ao lado também de “To a Stranger” (“A um Estranho”), com “A Uma Passante” de Baudelaire, e isso tudo se torna evidente. Em vez de todo o peso emocional de quem jamais encontrará a passante no fluxo contínuo de pessoas da grande cidade,  Whitman oferece uma resignação plácida, e a metafísica que um usa para o desespero (“Não te verei senão na eternidade? ”), no outro serve de conforto (“Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar”).

E essa placidez e receptividade, por sua vez, se comunicam com o aspecto messiânico de Whitman, como a figura de um Cristo americano – e Harold Bloom, de fato, lê a “Song of Myself ” de Whitman, em seu ensaio em O Cânone Ocidental, como uma canção de morte e ressurreição cristã – com seus braços abertos a todos, ao mesmo tempo em que está envolvido numa profunda relação consigo mesmo. Não me estenderei sobre o assunto, mas fica a sugestão de leitura.

Diante do tipo de sentimento que em Whitman procura expressão, não é surpreendente, portanto, que esta expressão tenha assumido forma no verso livre, mais especificamente um tipo muito particular de verso livre whitmaniano, não apenas sem métrica definida, mas longo (com frequência chegando a 20 ou mais sílabas) e, no entanto, efusivo e ritmado de modo a não soar prosaico. Há algo de profundamente musical em versos como “I hear America singing, the varied carols I hear”, que tentei manter na tradução abaixo.

E, falando em tradução, Whitman está disponível em português em pelo menos 6 edições de que tenho notícia: Canção de Mim Mesmo, de André Cardoso (ed. Imago), Canto de Mim Mesmo, de José Agostinho Baptista (português de portugal, pela ed. Assírio & Alvim), Folhas das Folhas de Relva, de Geir Campos (antologia e uma tradução bastante peculiar que quebra o verso longo em versos mais curtos, com introdução de Paulo Leminski, ed. Brasiliense), Folhas de Relva, de Rodrigo Garcia Lopes (ed. Iluminuras), Folhas de Relva, de Luciano Meira (ed. Martin Claret), e Folhas de Relva – Edição do Leito de Morte, de Bruno Gambarotto (ed. Hedra).

O critério que utilizei para a escolha dos poemas traduzidos a seguir foi o de selecionar alguns dos poemas mais curtos para servir de, digamos assim, “aperitivo”, de possível introdução para se conhecer um pouco sobre Whitman antes de partir para os poemas realmente longos e icônicos do poeta, como “Song of Myself”, inviável de se traduzir por inteiro no blogue.

Dito isto, cedo a voz ao grande poeta americano.

Escuto a América a Cantar

Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto;
O cantar dos mecânicos – cada um com sua canção, como deve ser, forte e contente;
O carpinteiro cantando a sua, enquanto mede a tábua ou viga,
O pedreiro cantando a sua, enquanto se prepara para o trabalho ou termina o trabalho;
O barqueiro cantando o que pertence a ele em seu barco – o assistente cantando no deque do navio a vapor;
O sapateiro cantando sentado em seu banco – o chapeleiro cantando de pé;
O cantar do lenhador – o jovem lavrador, em seu rumo pela manhã, ou no intervalo do almoço, ou ao por-do-sol;
O delicioso cantar da mãe – ou da jovem esposa ao trabalho – ou da menina costurando ou lavando – cada uma cantando o que lhe pertence, e a ninguém mais;
O dia, ao que pertence ao dia – De noite, o grupo de jovens, robustos, amigáveis,
Cantando, de bocas abertas, suas fortes melodiosas canções.

I Hear America Singing

I hear America singing, the varied carols I hear;    
Those of mechanics—each one singing his, as it should be, blithe and strong;    
The carpenter singing his, as he measures his plank or beam,    
The mason singing his, as he makes ready for work, or leaves off work;    
The boatman singing what belongs to him in his boat—the deckhand singing on the steamboat deck;
The shoemaker singing as he sits on his bench—the hatter singing as he stands;
The wood-cutter’s song—the ploughboy’s, on his way in the morning, or at the noon intermission, or at sundown;
The delicious singing of the mother—or of the young wife at work—or of the girl sewing or washing—Each    singing what belongs to her, and to none else;
The day what belongs to the day—At night, the party of young fellows, robust, friendly,
Singing, with open mouths, their strong melodious songs.

A um Estranho

Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.

To a Stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,    
You must be he I was seeking, or she I was seeking, (it comes to me, as of a dream,)
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me, or a girl with me,
I ate with you, and slept with you—your body has become not yours only, nor left my body mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass—you take of my beard, breast, hands, in return,
I am not to speak to you—I am to think of you when I sit alone, or wake at night alone,
I am to wait—I do not doubt I am to meet you again,    
I am to see to it that I do not lose you.

A Você

Estranho! se, ao passar, você me encontrar e desejar falar comigo, por que não falar comigo?
E por que eu não falaria com você?

To You

Stranger! if you, passing, meet me, and desire to speak to me, why should you not speak to me?
And why should I not speak to you?

A Base de Toda Metafísica

E agora, senhores,
Uma palavra eu lhes dou para permanecer em suas memórias e mentes,
Como base, e fim também, de toda metafísica.

(Também, para os alunos, o velho professor,
No final de seu curso apinhado.)

Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas grego e alemão,
Kant tendo estudado e exposto – Fichte e Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão – e Sócrates, maior que Platão,
E maior que Sócrates buscado e exposto – Cristo divino tenho muito estudado,
Eu vejo reminiscentes hoje aqueles sistemas grego e alemão,
Vejo as filosofias todas – igrejas cristãs e princípios, vejo,
Sob Sócrates claramente vejo – e sob Cristo o divino eu vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada – a atração de amigo por amigo,
Do marido bem-casado e a esposa mãe de crianças e os pais,
De cidade por cidade, e terra por terra.

The Base of all Metaphysics

And now, gentlemen,    
A word I give to remain in your memories and minds,    
As base, and finale too, for all metaphysics.    
 
(So, to the students, the old professor,    
At the close of his crowded course.)
 
Having studied the new and antique, the Greek and Germanic systems,    
Kant having studied and stated—Fichte and Schelling and Hegel,    
Stated the lore of Plato—and Socrates, greater than Plato,    
And greater than Socrates sought and stated—Christ divine having studied long,    
I see reminiscent to-day those Greek and Germanic systems,
See the philosophies all—Christian churches and tenets see,    
Yet underneath Socrates clearly see—and underneath Christ the divine I see,    
The dear love of man for his comrade—the attraction of friend to friend,    
Of the well-married husband and wife—of children and parents,    
Of city for city, and land for land.

Enquanto eu Ponderava em Silêncio

1

Enquanto eu ponderava em silêncio,
Retornando sobre meus poemas, considerando, muito demorando-me
Um Fantasma ergueu-se diante de mim, de aspecto desconfiado,
Terrível em beleza, idade e poder,
O gênio de poetas de antigas terras,
Como se a mim direcionasse seus olhos feito chama,
Com dedo apontado para muitas canções imortais
E voz ameaçadora, O que cantas tu?, disse;
Não sabes que há senão um tema para bardos sempiternos?
E que esse é o tema da Guerra, a fortuna das batalhas,
A feitura de soldados perfeitos?

2

Que assim seja, pois, respondi,
Também eu, altivo Vulto, canto a guerra – e uma maior e mais longa do que qualquer outra,
Travada em meu livro com fortunas várias – com fuga, avanço e retirada – a Vitória trêmula e deferida,
(No entanto, creio, certa, ou quase o mesmo que certa, afinal,) – O campo o mundo;
Pois a vida e a morte – para o Corpo, e para a Alma eterna,
Vede! também venho, entoando o canto das batalhas,
Eu, sobretudo, promovo bravos soldados.

As I Ponder’d in Silence

1

As I ponder’d in silence,
Returning upon my poems, considering, lingering long,
A Phantom arose before me, with distrustful aspect,
Terrible in beauty, age, and power,
The genius of poets of old lands,
As to me directing like flame its eyes,
With finger pointing to many immortal songs,
And menacing voice, What singest thou? it said;
Know’st thou not, there is but one theme for ever-enduring bards?
And that is the theme of War, the fortune of battles,
The making of perfect soldiers?

2

Be it so, then I answer’d,    
I too, haughty Shade, also sing war—and a longer and greater one than any,
Waged in my book with varying fortune—with flight, advance, and retreat—Victory deferr’d and wavering,
(Yet, methinks, certain, or as good as certain, at the last,)—The field the world;
For life and death—for the Body, and for the eternal Soul,
Lo! too am come, chanting the chant of battles,
I, above all, promote brave soldiers.

Cidade de Orgias

Cidade de orgias, passarelas e gozos!
Cidade em quem vivi e cantei em seu meio, que um dia farei ilustre,
Não os seus pajens – não são seus tableaux inconstantes, seus espetáculos que me compensam;
Não as suas fileiras intermináveis de casas – não os navios nos cais,
Não suas procissões nas ruas, nem suas claras janelas, com suas mercadorias;
Nem dialogar com pessoas instruídas, ou trazer a minha parte na festa ou banquete;
Não isso – mas, enquanto passo, Ó, Manhattan! seu relâmpago frequente e ligeiro de olhos que me oferecem amor,
Que oferecem resposta ao meu próprio – estes me compensam;
Amantes, contínuos amantes, apenas, me compensam.

City of Orgies

City of orgies, walks and joys!
City whom that I have lived and sung in your midst will one day make you illustrious,
Not the pageants of you—not your shifting tableaux, your spectacles, repay me;    
Not the interminable rows of your houses—nor the ships at the wharves,    
Nor the processions in the streets, nor the bright windows, with goods in them;
Nor to converse with learn’d persons, or bear my share in the soiree or feast;
Not those—but, as I pass, O Manhattan! your frequent and swift flash of eyes offering me love,
Offering response to my own—these repay me;
Lovers, continual lovers, only repay me.

Às Vezes com Alguém que Amo

Às vezes com alguém que amo, me encho de fúria, pelo medo de extravasar amor sem retorno;
Mas agora penso não haver amor sem retorno – o pagamento é certo, de um jeito ou de outro;
(Eu amei certa pessoa ardentemente, e meu amor não teve retorno;
No entanto, disso escrevi estas canções.)

Sometimes with One I Love

Sometimes with one I love, I fill myself with rage, for fear I effuse unreturn’d love;
But now I think there is no unreturn’d love—the pay is certain, one way or another;
(I loved a certain person ardently, and my love was not return’d;    
Yet out of that, I have written these songs.)

 

Atualização de véspera de domingo de Páscoa: pois bem, aproveitando a época e a temática da ressurreição, bastante cara a Whitman, decidi traduzir mais alguns poemas para compartilhar com vocês, leitores de nosso blogue. Eles são parte da sessão “Children of Adam” da obra de Whitman. Imagino que, através deles, dê para ver como é a relação que Whitman estabelece com essa temática, bem como com o cristianismo e a questão do corpo e do pecado (ou falta dele), em geral Espero que gostem.

Ao jardim, o mundo

Ao jardim, o mundo, renovado em ascensão,
Parceiros potentes, filhas, filhos, em prelúdio,
O amor, a vida de seus corpos, ser e sentido,
Curioso, contemple aqui minha ressurreição, após o sono;
Os ciclos em revolução, em seu amplo movimento, aqui me trouxeram outra vez,
Amoroso, maduro – tudo belo para mim – tudo maravilhoso;
Meus membros, e o fogo trêmulo que folga neles, pelos mais maravilhosos motivos;
Existindo, eu perscruto e penetro ainda,
Contente com o presente – contente com o passado,
Ao meu lado, ou atrás de mim, Eva me seguindo,
Ou à frente, e eu a segui-la do mesmo jeito.

To the Garden the World

To the garden, the world, anew ascending,
Potent mates, daughters, sons, preluding,
The love, the life of their bodies, meaning and being,
Curious, here behold my resurrection, after slumber;
The revolving cycles, in their wide sweep, have brought me again,
Amorous, mature—all beautiful to me—all wondrous;
My limbs, and the quivering fire that ever plays through them, for reasons, most wondrous;
Existing, I peer and penetrate still,
Content with the present—content with the past,
By my side, or back of me, Eve following,
Or in front, and I following her just the same.

Vinda do Oceano Revolto, a Multidão

1

Vinda do oceano revolto, a multidão, chegou suave a mim uma gota,
Sussurrando, eu te amo, antes que um dia eu morra,
Fiz uma longa viagem, para meramente te ver, te tocar,
Pois eu não podia morrer até eu te ver uma vez,
Pois eu temia poder depois te perder.

2

(Agora nos conhecemos, nos vimos, estamos seguros;
Retorne em paz ao oceano, meu amor;
Sou também parte deste oceano, meu amor – nós não estamos tão separados;
Contemple a grande curvatura – a coesão de tudo, como é perfeita!
Mas, quanto a mim, a você, o irresistível mar irá nos separar,
A hora nos carrega, distintos – mas não pode nos carregar assim para sempre;
Não seja impaciente – por um pequeno espaço – Eu te conheço, eu saúdo o ar, o oceano e a terra,
Todo dia, no ocaso, por você, meu amor.)

Out of the Rolling Ocean, the Crowd

1

Out of the rolling ocean, the crowd, came a drop gently to me,    
Whispering, I love you, before long I die,
I have travel’d a long way, merely to look on you, to touch you,
For I could not die till I once look’d on you,
For I fear’d I might afterward lose you.
 
2

(Now we have met, we have look’d, we are safe;    
Return in peace to the ocean, my love;    
I too am part of that ocean, my love—we are not so much separated;    
Behold the great rondure—the cohesion of all, how perfect!    
But as for me, for you, the irresistible sea is to separate us,
As for an hour, carrying us diverse—yet cannot carry us diverse for ever;    
Be not impatient—a little space—Know you, I salute the air, the ocean and the land,    
Every day, at sundown, for your dear sake, my love.)

Eras e eras, retornando em intervalos

Eras e eras, retornando em intervalos,
Invulnerado, imortal errante,
Luxurioso, fálico, com lombos potentes e originais, perfeitamente suave,
Eu, entoador de canções Adâmicas,
Pelo novo jardim, o Ocidente, o chamado das grandes cidades,
Em delírio, preludio assim o que é gerado, oferecendo isso e oferecendo a mim mesmo,
Banhando-me, banhando minhas canções em Sexo,
Rebentos de meus lombos.

Ages and Ages, Returning at Intervals

Ages and ages, returning at intervals,
Undestroy’d, wandering immortal,
Lusty, phallic, with the potent original loins, perfectly sweet,    
I, chanter of Adamic songs,
Through the new garden, the West, the great cities calling,
Deliriate, thus prelude what is generated, offering these, offering myself,
Bathing myself, bathing my songs in Sex,
Offspring of my loins.

Feito Adão, de Manhã Cedo

Feito Adão, de manhã cedo,
Saindo de sob os galhos, renovado de sono;
Contemplem-me enquanto passo – ouçam-me a voz – aproximem-se,
Toquem-me – toquem com a palma da mão meu Corpo enquanto passo;
Não tenham medo do meu Corpo.

As Adam, Early in the Morning

As Adam, early in the morning,    
Walking forth from the bower, refresh’d with sleep;
Behold me where I pass—hear my voice—approach,
Touch me—touch the palm of your hand to my Body as I pass;
Be not afraid of my Body.

Ao que foi crucificado

Meu espírito está com o teu, caro irmão,
Não te importes porque tantos, dizendo teu nome, não te compreendem;
Eu não digo teu nome, mas te compreendo (há outros também;)
Eu te especifico com graça, Ó, meu camarada, para saudar a ti e saudar àqueles que estão contigo, antes e depois – e aos que virão também,
Todos nós labutamos juntos, transmitindo o mesmo fardo e sucessão;
Nós poucos, iguais, indiferindo a terra, indiferindo o tempo;
Nós, que cingimos todo continente, toda casta – permitindo toda teologia,
Compaixonados, perceptivos, em harmonia com os homens,
Nós andamos silentes entre disputas e asserções, sem rejeitar os que disputam, nem o que é assertido;
Nós ouvimos berros e barulhos – somos tocados por divisões, ciúmes, recriminações por todo lado,
Eles se fecham peremptoriamente sobre nós, para cercar-nos, meu camarada,
No entanto andamos irrestritos, livres, por todo o mundo, em jornada por alto ou baixo, até deixarmos nossa marca indelével sobre o tempo e diversas eras,
Até saturarmos o tempo e as eras, que os homens e mulheres de raças e eras por vir, possam provar-se como nossos irmãos e amantes, como nós somos.

To Him that was Crucified

My spirit to yours, dear brother;    
Do not mind because many, sounding your name, do not understand you;    
I do not sound your name, but I understand you, (there are others also;)    
I specify you with joy, O my comrade, to salute you, and to salute those who are with you, before and since—and those to come also,
That we all labor together, transmitting the same charge and succession;
We few, equals, indifferent of lands, indifferent of times;
We, enclosers of all continents, all castes—allowers of all theologies,
Compassionaters, perceivers, rapport of men,
We walk silent among disputes and assertions, but reject not the disputers, nor any thing that is asserted;
We hear the bawling and din—we are reach’d at by divisions, jealousies, recriminations on every side,
They close peremptorily upon us, to surround us, my comrade,
Yet we walk unheld, free, the whole earth over, journeying up and down, till we make our ineffaceable mark upon time and the diverse eras,
Till we saturate time and eras, that the men and women of races, ages to come, may prove brethren and lovers, as we are.

(Traduções de Adriano Scandolara)

Padrão

17 comentários sobre “Alguns poemas breves de Walt Whitman

  1. Renan disse:

    São os poemas mais lindos que eu já vi… Eu também sou poeta e certamente quem mais admiro é Walt Whitman.

  2. Whitman é, ao lado de Poe e Baudelaire, um dos maiores representantes da lírica moderna, influencia principal de vários poetas no século XX. Tenho gosto pela sua poesia, muito embora esta me desagrade em alguns aspectos. É uma boa tradução esta, levando em consideração o dificultoso e ingrato trabalho de traduzir do inglês para o português, nos deixado sempre um pouco insatisfeitos. Existe uma boa tradução feita por Mário Ferreira de “Saudação ao Mundo”, talvez tu já a conheças, em todo caso, se não a conheces, é uma ótima tábua de apoio. Parabéns!

  3. Mauricio Jose Goncalves De Oliveira disse:

    Me emociono muito a cada relida de seus poemas,ainda mais sabendo do desapego e amor que exercitou durante sua vida,e a sublimidade de tudo isso.

  4. Paulo Leite disse:

    Walter Whitman é considerado o maior poeta Americano ao lado de Emily Dickinson. Te congratulo pelo trabalho feito — um apreciador da boa poesia. Que tal explorar o trabalho de outros como William Blake?

    • Obrigado pelo comentário, Paulo. Sobre o Blake, a gente já fez algumas postagens sobre ele (que você pode conferir clicando na tag aqui: https://escamandro.wordpress.com/tag/william-blake/ ), o que inclui algumas traduções minhas de poemas como “The Lamb”, “The Tyger” e “The Sick Rose”. Eu tenho interesse também sobre a poesia mítica mais longa de Blake, mas preciso ver o que já foi traduzido dele antes, porque prefiro evitar chover muito no molhado nesses casos de poemas longos.

  5. MARIA ANGELICA GUEDES ALVES disse:

    Isso é que faz ter sentido a tecnologia: a gente poder ter acesso a poemas tão lindos, a literatura tem encantos assim…isso enriquece nossa cultura e nossas almas!

  6. Ester Abreu disse:

    Como não leio em inglês e só tenho acesso às leituras poéticas traduzidas ao português, espanhol ou francês, por isso obrigada por esta oportunidade de ler Whitman. Parabéns pela escolha. Ester

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