crítica

los caprichos de goya

hola, chicos.
indo direto ao assunto, acho que é meu dever trazer um pouco à luz o tesouro que está exposto no museu oscar niemeyer aqui em curitiba e sair um pouco do assunto usual neste blog distinto e garboso.
fato é que nem sempre temos notícia do que está no circuito de exposições dentro da cidade, mesmo em caso de nomes de grande expressão como o de goya. por isso, faço essa pequena contribuição em nome de uma das melhores exposições que já vi.

43. el sueño de la razón produce monstruos

43. el sueño de la razón produce monstruos: el autor soñando. su intento solo es desterrar vulgaridades prejudiciales y perpetuar con esta obra de caprichos, el testimonio sólido de la verdad.

pertencente ao instituto cervantes de madrid, los caprichos é uma série de 80 gravuras (tendo essa série atual sido impressa em 1929. existem vários artigos bastante completos na internet contando a história da coleção, como esse) que satirizam a sociedade espanhola de fins do séc. xviii, com atenção especial à nobreza e o clero (como diz toda a descrição que você procurar pela internet), mas dando muita atenção também a costumes vulgares e lendas populares de tradição espanhola. as técnicas utilizadas são predominantemente mistos de água-forte, água-tinta e ponta seca. seus traços de tendência deformante e bastante caricatural trazem um ar bastante moderno (às vezes até novecentista) para o trabalho. por vezes é possível notar claramente reminiscências expressivas da própria “musa” de goya em algumas mulheres, enquanto ao mesmo tempo se vê inúmeras criaturas do imaginário fantástico e sujeitos que pareciam ter sido tirados de histórias em quadrinhos. é uma mescla versátil e impressionante de um extenso trabalho criativo de um dos artistas mais impressionantes que eu vi nos últimos tempos.
todas as gravuras são acompanhadas por um pequeno texto. há, abaixo da imagem, um título, e ao lado um tipo de legenda em formato de aforismo (ou desaforismo, na maioria dos casos). isso se pode ver na gravura reproduzida acima, por exemplo. e é principalmente por causa disso que me motivei em trazer esse post ao blog. certamente que ler 80 legendas de 80 gravuras, observando-as atentamente, é cansativo, ainda mais se a altura das plaquinhas na exposição não está lá tão bem adequada (recomendamos uma pausa em algum banquinho no meio do espaço. ponha-se guapo e observe as moçoilas). aliás, observei no museu que muitas pessoas passavam batido pelo texto. fato é, entretanto, que 50% do sentido do trabalho se constrói exatamente pelo efeito do texto sobre a obra visual, e as duas se complementam.  os aforismos, em grande parte extremamente ácidos, em outra parte de tom reflexivo-filosófico, são por si só admiráveis (pra quem gosta da arte da ironização, como quem vos fala, é um prato cheio). isso me levou a ver algo em que eu acreditava há muito tempo ser possível em uma exposição de artes visuais mas nunca tinha visto realizado com tal nível de acerto, que é essa congregação completamente prática entre texto e imagem, de uma forma que se complementem fifty-fifty, sem sobreposição de um pelo outro, etc. saber tudo sobre a coleção, os mais curiosos podem fazê-lo facilmente em links como o que eu indiquei. mas e essa sutileza para entendê-los como um, sensivelmente? esse é precisamente o ponto que eu acredito ser mais importante. o troço é muito poético.

55. hasta la muerte

55. hasta la muerte: hace bien en ponerse guapa; son sus días; cumple setenta y cinco años y vendrán las amigas a verla.

comentários ponderados e com olhos críticos são justo o que não vemos pela internet. asneiras como “é preciso ter um espírito livre para poder apreciar a mostra” (G1) ou “goya criticou nesta estampa a violência na educação das crianças” (wikipedia) mais atrapalham que ajudam. embora ironicamente fortes, como eu já disse acima, as obras têm o poder de causar uma séria empatia com suas temáticas, já que correm desde a figuração de personagens do dia-a-dia até as absurdidades das hierarquias sociais, para culminarem na utilização de seres fantásticos, como bruxas, anões, duendes, demônios, etc, para a contação de lendas familiares. goya atua magistralmente como um crítico de sua época, tanto com seu texto como com a técnica que é de cair o queixo. a metáfora das “galinhas”, por exemplo, é um dos pontos altos da exposição, e podem ser vistas no capricho n. 72, reproduzido abaixo, embora estejam presentes de forma mais contundente em muitas outras.

 

72. no te escaparás

72. no te escaparás: nunca se escapa la que se quiere dejar coger.

por fim, concluindo que o goya é um alucinado, recomendo fortemente a presença nesse baile, que vai até 24 de abril do ano da graça de nosso senhor de 2012. pra quem gosta de surrealismo, fantástico ou de lendas e imaginário popular, é um prato cheio (embora qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade poética certamente deguste saborosamente a exposição). chega a ser chocante a composição que o artista dá a figuras e cenários, aos diabos que sempre aparecem sutilmente nos planos de fundo, às mãos esqueléticas das velhas e das bruxas, à perfeição dos tecidos, às anatomias magistrais, à criatividade e, por fim e mais legal de tudo, a integração com o texto que é de primeiríssima. termino o post reproduzindo um dos caprichos mais famosos da série, o n. 68, que está lá e com certeza é um dos melhores, embora seja praticamente impossível eleger um melhor.

Vinicius Ferreira Barth

68. linda maestra!

68. linda maestra!: la escoba es uno de los utensilios más necesarios a las brujas, porque además de ser ellas grandes barrenderas, como consta por las historias, tal vez convierten la escoba en mula de paso y van con ellaque el diablo las alcanzará.

 

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4 comentários sobre “los caprichos de goya

    • Vinicius F. Barth disse:

      valeu Rosana.
      com certeza a exposição vale mais do que uma passada. eu quero muito ver de novo e de novo.

  1. fui lá também, pra ler texto a texto. eles são mais que o fifty-fifty, eu diria que nem há complementaridade separada – eles são a coisa-só, a peça junto com as imagens. pela beleza e por darem, por assim dizer, o tom das peças.

    • Vinicius F. Barth disse:

      fiquei com uma inveja do fiadamãe, isso sim, por ter escrito aquilo tudo além de ter produzido aquelas gravuras assombrosas.

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