crítica, crítica de tradução, tradução

as oferendas de dirceu villa (lustra de ezra pound)

na abertura do lustra (1916) de ezra pound, lemos “Definição: Lustrum: uma oferenda pelos pecados de todo o povo, feita pelos censores ao expirarem cinco anos de serviço, etc.”, que dá boa parte do mote para compreendermos o livro como um todo (embora não tudo que o livro possa fazer, ou sequer metade dos seus problemas), bem como seus poemas. a poesia, aqui, está em função de resgate e compensação pela nossa existência – em geral – medíocre neste planeta. assim, a poesia, num sentido pagão, é o nosso elo possível com o divino ou o mistério, com a potência de renovar este mundo.

eu, porém, prefiro pensar a poesia como as oferendas dadas a todo povo como expiação dos pecados dos deuses; justificativa e celebração estética da vida, compensação pela dor, pelo sem sentido que nos é dado a cada dia. assim gosto de ver também a tradução – uma multiplicação dessa oferenda, na missão delirante de cumprir seu objetivo de oferenda a todo o povo.

esta nota é o resultado das oferendas de ezra pound multiplicadas, tranpostas em poesia por dirceu villa com um bom estudo introdutório, notas bem cuidadas & – sim, o mais importante – poesia. poesia duplicada, bilíngue, digna de ser bilíngue. e digo digna porque temos mesmo um problema na recepção de pound no brasil: a versão completa dos cantos feitas por josé lino grünewald é – apesar do louvor inegável da dedicação & do feito em si, encarar essa rocha de cabo a rabo – é indigna, é talvez um desfavor para pound, um desfavor porque não foi capaz de recriar o turbilhão de vozes, tons, sons, estilos agrupados e condensados pelo poeta norteamericano. em resumo, os cantos, em português, para o leitor que não consegue ler inglês, são um livro grande, difícil e feio, tedioso, uma massa rude e indigesta.

por outro lado, a tradução – ao seu modo recorrente de amostra grátis – dos irmãos campos & de décio pignatari (& também de mário faustino) é um primor; mas um primor em geral voltado para os interesses dos debates concretistas em desenvolvimento na segunda metade do século passado: em resumo, pound, no brasil, virou poeta pré-concreto, il miglior fabbro &c. &c.; ou simplesmente não é poeta (no caso grünewald). nesse cenário talvez nem espante que affonso romano santanna tenha escrito aquele disparate intitulado “o que fazer de ezra pound”, artigo publicado no livro homônimo de 2003. sobre esse artigo, calo-me para evitar o vitupério.

talvez por isso tudo pound seja um poeta tão citado, tão paideuma, & ao mesmo tempo tão, mas tão pouco lido, ou pelo menos bem lido no brasil; a não ser no caso dos seus ensaios (abc da literatura & arte da poesia), com aquela prosa, direto na jugular, do seu pensamento crítico.

A nota se alongou, mas chego ao ponto.

lustra, o lustra de dirceu villa, veio renovar ezra pound.

por ser um trabalho de fôlego de traduzir um livro inteiro, mas com uma tradução digna, poética. por tecer um estudo que amplie o espectro da poesia de pound sem focá-lo nos nichos dos grupos literários nacionais por pensar melhor sobre as relações das vanguardas europeias, americanas & europeico-americanas com o desenvolvimento da poesia de pound; por pensar na(s) sua(s) postura(s) política(s) para além da dicotomia que costumamos ouvir nos botecos acadêmicos: facista (os imbecis) X dane-se, era um grande poeta (os ingênuos, ou preguiçosos). por discutir as relações entre influência chinesa pré-fenollosa & cathay junto com a revisão de walt whitman, o uso do verso longo (afinal, quebrar o pentâmetro foi a primeira ânsia), as leituras da poesia francesa recente, de provençais, italianos, &c. por insistir na importância do epigrama grecolatino em fusão com a descoberta do haicai & somado às propostas do imagismo & do vorticismo. por atentar aos experimentos com o verso livre em poemas longos de tom semiépico. por explicitar o caráter “obsceno” que foi visto na obra ao tempo de seu lançamento. enfim, por tentar dar mais facetas, mais dignidade a pound (por isso deixo de exemplo três poemas por sua variedade). em resumo, por tantos &ceteras.

uma verdadeira oferenda.

ps: além disso, o livro – objeto a quem podemos amar “do amor táctil que votamos aos maços de cigarro” – é uma belezura, lindeza, como tudo que tem saído pela demônio negro. só peca num detalhe, também como sempre: preço. de qualquer modo, eu pagaria tudo outra vez. e mais um – villa merecia partilhar seu nome na capa.

ps2: dirceu villa (1975) é também poeta, com três livros publicados: mcmxcviii (Badaró, 1998), descort (hedra, 2003) e icterofagia (hedra, 2008). mantém o blog o demônio amarelo.

COMISSION

Go, my songs, to the lonely and the unsatisfied,
Go also to the nerve wracked, go to the enslaved by convention,
Bear to them my contempt for their oppressors.
Go as a great wave of cool water,
Bear my contempt of oppressors.

Speak against unconscious oppression,
Speak against the tyranny of the unimaginative,
Speak against bonds.
Go to the bourgeoise who is dying of her ennuis,
Go to the women in suburbs.
Go to the hideously wedded,
Go to them whose failure is concealed,
Go to the unluckily mated,
Go to the bought wife,
Go to the woman entailed.

Go to those who have delicate lust,
Go to those whose delicate desires are thwarted,
Go like a blight upon the dullness of the world,
Go with your edge against this,
Strengthen the subtle cords,
Bring confidence upon the algae and the tentacles of the soul.

Go in a friendly manner,
Go with an open speech.
Be eager to find new evils and new good,
Be against all forms of oppression.
Go to those who are thickened with middle age,
To those who have lost their interest.

Go to the adolescent who are smothered in family –
Oh how hideous it is
To see three generations of one house gathered together!
It is like an old tree with shoots,
And with some branches rotted and falling.

Go out and defy opinion,
Go against this vegetable bondage of the blood.
Be against all sorts of mortmain.

COMISSÃO

Vão, canções, ao solitário e ao insatisfeito,
Vão também ao neurótico, ao escravo por conveniência,
Levem-lhes meu desdém por seus opressores.
Vão como onda enorme de água fresca,
Levem meu desdém por opressores.

Falem contra a opressão inconsciente,
Falem contra a tirania dos sem imaginação,
Falem contra os laços.
Vão à burguesa que morre com seus ennuis,
Vão às mulheres nos subúrbios.
Vão aos muito mal-casados,
Vão aos de fracasso ainda oculto,
Vão à esposa comprada,
Vão à mulher comprometida.

Vão aos de luxúria delicada,
Vão aos de desejos delicados e impedidos,
Vão como praga sobre a estupidez do mundo;
Vão só lâmina contra isso,
Fortaleçam as cordas sutis,
Tragam confiança às algas e aos tentáculos da alma.

Vão de modo amigo,
Vão abertas ao diálogo.
Levem em conta novos males, novo bem,
Sejam contra toda forma de opressão.
Vão aos encrencados na meia-idade,
Aos que perderam o interesse.

Vão ao adolescente sufocado na família –
Ah como é horrendo
Ver três gerações de uma casa reunidas!
É como a velha árvore com brotos,
E com uns galhos podres e caducos.

Vão e desafiem a opinião.
Vão contra essa vegetal sanha do sangue.
Sejam contra todo tipo de mão-morta.

 MEDITATIO

When I carefully consider the curious habits of dogs
I am compelled to conclude
That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man
I confess, my friend, I am puzzled.

MEDITATIO

Quando considero com cuidado os curiosos hábitos dos cães
Sou compelido a concluir
Que o homem é o animal superior.

Quando considero os curiosos hábitos do homem
Confesso, meu jovem, fico perplexo.

THE ENCOUNTER

All the while they where talking the new morality
Her eyes explored me.
And when I arose to go
Her fingers were like the tissue
Of a Japanese paper napkin.

O ENCONTRO

O tempo todo em que falavam da nova moral
Os olhos dela me exploraram.
E ao me erguer para sair
Seus dedos foram como a fibra
De um guardanapo de papel japonês.

(traduções de dirceu villa)

guilherme gontijo flores

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Um comentário sobre “as oferendas de dirceu villa (lustra de ezra pound)

  1. Vinicius F. Barth disse:

    sobre affonso romano, calo-me para evitar o vitupério.

    belo post e bela tradução. fiquei com o dedo coçando pra comprar.

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