crítica, tradução

3 poemas de césar vallejo por felipe paradizzo

César Vallejo, escritor peruano nascido em Santiago de Chuco, em 1892, pertence ao conjunto dos maiores poetas do castelhano. Vallejo publicou em Lima seus dois primeiros livros, Los Heraldos Negros (1918) e Trilce (1922), o segundo seria reeditado quatorze anos mais tarde em Madri, para onde o poeta se muda por um curto espaço de tempo após sua estada em Paris. As duas últimas obras poéticas de Vallejo foram publicadas após sua morte em 1938. Editadas por sua esposa, como Poemas humanos (1939) e España, aparta de mi este cáliz (1940) elas contêm os poemas escritos pelo autor em Paris, em que estão impressas sua posição frente à Guerra Civil Espanhola e sua forte filiação à doutrina socialista.

Reconhecido como um expoente do vanguardismo latino-americano, Vallejo é recorrentemente vinculado por muitos de seus comentadores tanto às correntes literárias modernistas da América Hispânica quanto às vanguardas europeias, principalmente ao surrealismo e ao dadaísmo. Certamente, as influências de César Vallejo passam por Ruben Darío e Julio Reissig e são profundamente enraizadas na tradição literária peruana, cuja grande reverberação em Vallejo passa por Manuel Gonzalez Prada, José María Egueren e Abraham Valdelomar. Gonzalez Prada, pontualmente, é um autor fundamental para a literatura peruana e mais especificamente para Vallejo. A paternidade do modernismo peruano é comumente atribuída a Gonzalez Prada, sobretudo por ter incluído o índio no debate moderno de nação e identidade cultural, assim como no cenário da realidade sociopolítica do Peru. Prada publica em Baladas Peruanas, série de poemas escritos desde 1871 dedicados aos mitos de criação andinos, à crueldade da colonização espanhola e à realidade de camponeses índios, o que contribui para forjar no nascimento da modernidade literária peruana um espaço de denúncia e reflexão das questões indígenas no Peru. Os nomes que sucedem Gonzalez Prada no modernismo peruano com mais notoriedade, José Santos Chocano e José María Egueren, desenvolvem caminhos antagônicos, um atento a questões sociopolíticas nacionais em um discurso progressista, como Chocano, enquanto o outro busca uma poesia “pura”, comumente avizinhada do simbolismo europeu, de Egueren.

  Na emergência da vanguarda peruana, duas forças se fizeram reconhecer. Por um lado, o futurismo e o simplismo de Alberto Hidalgo propunham mudanças formais mais agudas, como se viu também em Carlos Oquendo, com seu léxico urbano e a disposição tipográfica de sua poesia. Por outro lado, a nova classe média provinciana peruana trazia reivindicações andinas às técnicas vanguardistas, como fez Alejandro Peralta, membro do grupo Orkopata. A revista Colónida, dirigida por Abraham Valdelomar, foi outro grande evento do vanguardismo peruano. A Colónida reunia decadentismo literário, rompimento com a mentalidade subserviente que pairava sobre o Peru do início do século, com o hispanismo e com academicismo, fazendo coro à herança de Gozalez Prada e relendo ativamente a poesia simbolista Egueren. Por força da Colónida, surgem mais tarde publicações reunindo alguns de seus antigos colaboradores, uma delas, Nuestra Época, contava com a participação de José Carlos Mariátegui e César Vallejo. Mariátegui seria mais tarde um dos articuladores da revista Amauta, publicada pela primeira vez em 1926. Nela a relação intrínseca entre a vanguarda literária e uma postura política socialista latino-americana e revolucionária se mostrou convergente.

A proximidade de César Vallejo com o pensamento de Mariátegui e sua filiação política denotam a imersão do poeta no espaço de debate intelectual e político do início do século XX no Peru, e os poemas “Huaco” e “Los Dados Eternos” carregam consigo aspectos da relação entre literatura de vanguarda e o movimento indigenista peruano. Mariátegui afirma que indigenismo “representa el color y la tendencia más característicos de una época por su afinidad y coherencia con la orientación espiritual de las nuevas generaciones, condicionada, a su vez, por imperiosas necesidades de nuestro desarrollo económico y social”. A partir da leitura do ensaísta peruano, a poesia vanguardista, que terá Vallejo como seu nome mais representativo, reinseriria o efervescente cenário da poesia e suas rupturas formais no grande tema do debate político peruano: o papel dos indígenas na sociedade e no estado moderno.

A escolha desses de “Huaco” e “Los Dados Eternos” visou sublinhar essa parte fundamental de Los Heraldos Negros, que segundo minha pesquisa em andamento contém uma ânsia mais comunicativa expressa nos elementos formais e temáticos da poesia de Vallejo. Por enquanto, me parece possível sugerir que diante da efervescência intelectual do debate dualista no Peru do início do século XX, Vallejo tenha “optado” por uma poética que entrasse no debate com mais eficiência comunicativa do que o fez, se fez, em sua mais aclamada obra, o hermético Trilce. O poema “Huaco” traz traços significativos das implicações políticas da lírica de Vallejo, em sua primeira fase, expressos a partir dos temas andinos e indigenistas. Já o título do poema apresenta o solo temático e o campo lexical que será ativado pelo poeta. Huaco é uma palavra derivada do quéchua, wáku, e designa as peças de cerâmica encontrada em sepulcros e templos pré-colombianos. O poema é também o ponto de maior presença da língua quéchua e tal presença reforça concomitantemente às poderosas imagens o paralelismo de dualidades por elas criadas. Nota-se que a linguagem é parte fundamental do projeto de denúncia social de Los Heraldos Negros, projeto esse que se alinha mais uma vez às proposições de Mariátegui sobre a inerente e a profunda relação da literatura moderna peruana com o dualismo cultural e a identidade nacional do Peru. O eu-lírico se apresenta como um coraquenque, ave de rapina andina que no poema “La Aparición Del Coraquenque”, de Manuel Gonzalez Prada, aparece como o emissário da morte na cerimonia do Intip-Raymi, festival em homenagem ao Deus-sol que acontecia em Cusco durante o solstício de inverno.Segundo Mariátegui, Gonzalez Prada “representa, de toda suerte, un instante – el primer instante lúcido –, de la conciencia del Perú”, e tal admiração é compartilhada por Vallejo em Los Heraldos Negros, dedicando-lhe o poema  “Los Dados Eternos”. No poema de Gonzalez Prada, o coraquenque invade a cerimônia trazendo a mensagem do “holocausto solemne”. No de Vallejo, a ave andina cega, enxerga pela lente de uma ferida o mundo presente ao qual está presa, como a um artefato de ruinas: um mundo relicárioda morte, resto sobrevivente da sepultura de um passado.

Trilce é a imersão de Vallejo na vanguarda; para alguns, uma vanguarda latino-americana que se encontrou com a europeia, mais do que uma aproximação do poeta peruano aos movimentos emergentes do velho mundo. Mas esse é outro e vasto assunto. Propomos brevemente, com o poema “Altura e Pelos”, parte dos Poemas de Paris, publicado no livro póstumo Poemas Humanos, vislumbrar anos mais tarde o retorno de Vallejo à força comunicativa de sua poesia. Passado Trilce, o hermetismo vanguardista que marca a primeira vista sua lírica dá lugar a um estilo que se assemelha às primeiras produções peruanas, deslocando suas implicações políticas do debate indigenista para a reflexão do humano.

Huaco

Eu sou o coranquenque cego
que observa pela lente de uma chaga,
e que atado está ao Globo,
como a um huaco estupendo que girava.

Eu sou a lhama, a quem tão só alcança
a ignorância hostil de tosquiar
ornatos de clarim
ornatos de clarim brilhantes de asco
e bronzeadas de um velho yaraví.

Sou carne de condor já desplumado
por latino arcabuz;
e à flor de humanidade pairo os Andes,
como um perene Lázaro de luz.

Eu sou a graça incaica que se rói
em áureos corincachas batizados
de fosfato de errância e de cicuta.
Às vezes em minhas pedras se encabritam
os nervos gastos de um extinto puma.

Um fermento de Sol;
levedura de sombra e coração!

Huaco

Yo soy el coraquenque ciego
que mira por la lente de una llaga,
y que atado está al Globo,
como a un huaco estupendo que girara.

Yo soy el llama, a quien tan sólo alcanza
la necedad hostil a trasquilar
volutas de clarín,
volutas de clarín brillantes de asco
y bronceadas de un viejo yaraví.

Soy el pichón de cóndor desplumado
por latino arcabuz;
y a flor de humanidad floto en los Andes,
como un perenne Lázaro de luz.

Yo soy la gracia incaica que se roe
en áureos coricanchas bautizados
de fosfatos de error y de cicuta.
A veces en mis piedras se encabritan
los nervios rotos de un extinto puma.

Un fermento de Sol;
levadura de sombra y corazón!

Os Dados Eternos

Para Manuel González Prada,
Esta emoção bravia e seleta, uma das
que, com mais entusiasmo,
me aplaudiu o grande poeta.

Meu Deus, estou chorando o ser que vivo;
me pesa por te haver tomado o pão;
mas esse pobre barro pensativo
não é crosta fermentada ao teu lado:
E tu não tens Marias que se vão!

Meu Deus, si tu houvesses sido homem,
saberias ser Deus;
porém tu, que estiveste sempre bem,
nada sentes da tua criação.
E o homem, sim, te sofre: O Deus ele é.

Hoje em meus olhos bruxos há candelas,
como em um condenado,
Meu Deus, acenderás as tuas velas,
e jogaremos com o velho dado…
Talvez, ó jogador, lançada a sorte
do universo todo,
olheiras surgirão da própria morte Morte,
como dois ases fúnebres de Todo.

Meu Deus, e esta noite surda, obscura,
não poderás jogar, porque esta Terra
É um dado roído e já redondo
por força de girar à aventura,
que só pode parar em um buraco,
Num buraco de imensa sepultura.

Los Dados Eternos

Para Manuel González Prada esta
emoción bravía y selecta, una de
las que, con más entusiasmo
 me
ha aplaudido el gran maestro.

Dios mío, estoy llorando el ser que vivo;
me pesa haber tomádote tu pan;
pero este pobre barro pensativo
no es costra fermentada en tu costado:
tú no tienes Marías que se van!
 

Dios mío, si tú hubieras sido hombre,
hoy supieras ser Dios;
pero tú, que estuviste siempre bien,
no sientes nada de tu creación.
Y el hombre sí te sufre: el Dios es él!

Hoy que en mis ojos brujos hay candelas,
como en un condenado,
Dios mío, prenderás todas tus velas,
y jugaremos con el viejo dado…
Tal vez ¡oh jugador! al dar la suerte
del universo todo,
surgirán las ojeras de la Muerte,
como dos ases fúnebres de lodo. 

Dios mío, y esta noche sorda, oscura,
ya no podrás jugar, porque la Tierra
es un dado roído y ya redondo
a fuerza de rodar a la aventura,
que no puede parar sino en un hueco,
en el hueco de inmensa sepultura.

Altura e Pelos

Quem não tem seu vestido azul?
Quem não almoça e não pega o bonde,
Com seu cigarro contratado e sua dor de bolso?
Eu que tão só nasci!
Eu que tão só nasci!

Quem não escreve uma carta?
Quem não fala de um assunto importantíssimo,
Morrendo de costume e chorando de ouvido.
Eu que somente nasci!
Eu que somente nasci!

Quem não se chama Carlos ou qualquer outra coisa?
Quem ao gato não diz gato gato?
Ai, eu que só nasci somente!
Ai, eu que só nasci somente!

Altura y Pelos

¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!

¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!

¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que sólo he nacido solamente!
¡Ay, yo que sólo he nacido solamente!


Tradução e comentário de Felipe Paradizzo.

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