poesia, tradução

Aniversário de 168 anos de Paul Verlaine: sonetos eróticos

Há 168 anos, nascia o poeta maldito Paul-Marie Verlaine.  A maioria o conhece (i.e. dos que o conhecem) por sua poesia localizada entre o simbolismo e o parnasianismo – “Des sanglot longs /Des violons / De l’automne”, etc – e por seu relacionamento conturbado com o juvenilíssimo poeta revoluncionário Arthur Rimbaud, que resultou em seu encarceramento (lembremos que “sodomia” era crime à época), um tiro na mão e uma vida, em geral, bastante miserável – para os curiosos, fica a recomendação do filme Eclipse de uma Paixão, que embora tenha um título brega e o Leonardo DiCaprio no elenco (apesar de que eu acho que ele faz um Rimbaud bastante convincente… não tanto como seria o River Phoenix, que era a intenção do diretor, mas razoável ainda assim), funciona bem para apresentar a biografia dos dois poetas. Desse aspecto de sua poesia, temos traduções muito boas de autoria de Onestaldo de Pennafort (Poesias Escolhidas, pela Livraria do Globo, bastante antiga, de 1945) e de Guilherme de Almeida (A Voz dos Botequins e Outros Poemas, mais fácil de encontrar, pela editora Hedra).

Há um lado da obra de Verlaine, porém, que não sei se muitos conhecem, e que me parece ser o mais interessante, que é sua vertente erótica. Ela é interessante não tanto pela putaria em si ou pelo aspecto cômico (como no famoso “soneto do cu”, que ele escreveu com Rimbaud), mas porque ele consegue realmente poetizar o ato sexual e fazer dele algo lírico, ao mesmo tempo em que o faz sem perder o que há de eróticoe pornográfico.

Enfim, para ilustrar o que estou dizendo, posto 3 poemas da série “Amigas”. Em tradução minha e na de Heloisa Jahn (da edição completa intitulada Para ser caluniado, editora brasiliense, bastante difícil de se achar, por sinal).

PRIMAVERA

Tenra, a ruivinha jubilante
De viço e inocência pura
Diz, com voz baixa e de ternura,
Assim, à jovem, loura amante:

“Seiva ascendente e flor pulsante,
Uma alameda, a infância tua,
Deixa ao prado ir meu dedo errante
Onde a rosa em botão fulgura.

Deixa-me, em meio à relva clara,
Sorver as gotas orvalhadas
Das tenras pétalas molhadas

A fim que o prazer, minha cara,
A tua cândida fronte acenda,
Como a alva na nuvem pudenda.”

(trad. Adriano Scandolara)

PRIMAVERA

Com ternura, a jovem ruiva
Que tanta inocência estimula,
Diz baixinho à menina loura
Estas palavras, numa voz quente:

“Seiva que aflora e flor que cresce,
A tua infância é uma alameda:
Deixa meus dedos nesse musgo
Onde o botão de rosa brilha,

“Deixa que eu, nessa erva clara,
Vá beber as gotas do orvalho
Com que é regada a tenra flor, –

Para que o prazer, ó querida,
Ilumine tua fronte pura
Como a aurora o céu indeciso.”

(trad. Heloisa Jahn)

                                           PRINTEMPS

                                           Tendre, la jeune femme rousse,
                                           Que tant d’innocence émoustille,

                                           Dit à la blonde jeune fille
                                           Ces mots, tout bas, d’une voix douce:

                                           “Sève qui monte et fleur qui pousse,
                                           Ton enfance est une charmille:
                                           Laisse errer mes doigts dans la mousse
                                           Où le bouton de rose brille.

                                           Laisse-moi, parmi l’herbe claire,
                                           Boire les gouttes de rosée
                                           Dont la fleur tendre est arrosée;

                                           Afin qui le plaisir, ma chère,
                                           Illumine ton front candide,
                                           Comme l’aube l’azur timide.”

VERÃO

E a criança responde, espantada
Com tal afago fervilhante
De sua senhora ofegante
“Morro, ó, minha bem amada!

Morro; tua garganta abrasada
Pesa, opressora e sobejante,
Tua carne, de um ar embriagante,
É estranhamente perfumada.

Tua carne tem o encanto obscuro
Das madurezas estivais,
Tanto à luz do âmbar e no escuro.

Troa-te a voz nos vendavais
E a tua cabeleira sangrenta
Brilha brusca na noite lenta.”

(trad. Adriano Scandolara)

VERÃO

A menina disse, sem forças,
Com a formigante carícia
De sua amante, que arquejava:
“Ai que eu morro, minha adorada!

“Eu morro, teu colo inflamado
Me pesa, embriaga e apera;
Teu corpo forte, que inebria,
Que estranho perfume ele tem;

“Teu corpo tem o encanto turvo
Das madurezas estivais,
Feito de âmbar e de sombras;

“Tua voz repercute no vento
E tua cabeleira de sangue
Some toda na noite lenta.”

(trad. Heloisa Jahn)

                                           ÉTÉ

                                           Et l’enfant répondit, pâmée
                                           Sous la fourmillante caresse
                                           De sa pantelante maîtresse:
                                           “Je me meurs, ô ma bien-aimée!

                                           Je me meurs; ta gorge enflammée
                                           Et lourde me soûle et m’oppresse;
                                           Ta forte chair d’où sort l’ivresse
                                           Est étrangement parfumée.

                                           Elle a, ta chair, le charme sombre
                                           Des maturites estivales,
                                           Elle en a l’ambre, elle en a l’ombre.

                                           Ta voix tonne dans les rafales,
                                           Et ta chevelures sanglante
                                           Luit brusquement dans la nuit lente.”

NO INTERNATO

Com quinze e dezesseis anos de idade,
No mesmo quarto cada uma dormia
Em noite de setembro, tão sombria;
Rubores; olho azul; fragilidade.

Cada uma delas, pondo-se à vontade,
Da fina camisola se despia.
A mais nova, seus braços estendia,
E, mãos aos seios, beija-lhe a amizade.

Depois se ajoelha, e, depois, louca
Cola a cabeça ao ventre, e com a boca,
Entre as sombras, mergulha no ouro louro;

E enquanto isso, a menina vai, querida,
Com os dedos contar bailes vindouros,
E inocente sorri, enrubescida.

(trad. Adriano Scandolara)

INTERNATO

Uma quinze anos, dezesseis a outra,
Dormiam as duas no mesmo quarto.
Numa noite abafada de setembro:
Frágeis, olhos azuis, rubor de frutas.

Para ficar a gosto as duas tiram
As finas camisolas perfumadas.
A mais moça abre os braços e se arqueia
E a beija a irmã, com as mãos nos seus seios,

Depois cai de joelhos, fica atrevida
E tumultuosa e doida e sua boca
Afunda no ouro claro, em meio às sombras

Mas a menina, nos dedos mimosos
Vai recontando as valsas prometidas
E, corada, sorri com inocência.

(trad. Heloisa Jahn)

                                           PENSIONNAIRES

                                           L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;
                                           Toutes deux dormaient dans la même chambre;
                                           C’était par un soir très lourd de septembre;
                                           Frêles; des yeux bleus; des rougeurs de fraise.

                                           Chacune a quitté, pous se mettre à l’aise,
                                           Sa fine chemise au frais parfum d’ambre.
                                           La plus jeune étend les bras, et se cambre,
                                           Et sa soeur, les mains sur ses seins, la baise.

                                           Puis tombe à genoux, puis devient farouche,
                                           Et colle sa tête au ventre, et sa bouche
                                           Plonge sous l’or blond, dans les ombres grises;

                                           Et l’enfant pendant ce temps-là recense
                                           Sur ses doigts mignons des valses promises,
                                           Et, rose, sourit avec innocence.

 

(nota: para mais traduções de poesia erótica verlainiana, pelas mãos hábeis de Leo Gonçalves, ver o nosso outro post clicando aqui.)

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4 comentários sobre “Aniversário de 168 anos de Paul Verlaine: sonetos eróticos

  1. Merveilleux! Joyeux anniversaire à Verlaine, et félicitations aussi à mon cher ami, poète et traducteur Adriano Scandolarrá, pour vos relations avec Paul et Helo …

  2. Pingback: reverlaine, despudor – les amies por leo gonçalves | escamandro

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