crítica

rodrigo garcia lopes

rodrigo garcia lopes (1965, londrina, pr), nome já bem reconhecido na poesia brasileira, é – para não ficar sem apresentação, ainda que pouco útil – escritor, compositor, tradutor & jornalista. publicou uma belíssima penca de livros; como os de poesia, solarium (1994), visibilia (1996, 2. ed. 2004), polivox (2001), poemas selecionados (2001) & nômada (2004); o cd polivox (2001); traduções de sylvia plath, arthur rimbaud, laura riding, walt whitman, & d’o navegante (anônimo anglo-saxão); & o livro de entrevistas vozes e visões. além de ser editor da (felizmente) longeva revista coyote & de manter o blog estúdio realidade. este ano, ele já anunciou a publicação do seu primeiro romance policial & de um novo livro de poesia, estúdio realidade, onde creio que estarão os poemas abaixo.

o que (tenho) admir(ad)o na poesia do RGL é sobretudo a versatilidade, como aquela que comentei em ricardo domeneck (que já recebeu um post) & que também estou admirando em dirceu villa (que ainda merece receber seu post por aqui). porém, curiosamente (& felizmente para nós leitores), esses 3 poetas versáteis pouco coincidem apesar do leque amplo de cada um, o que nos dá essa variedade salutar na poesia contemporânea brasileira – não, eu não tenho o clima bilioso de ficar reclamando, em tons decadentistas, sobre como “a poesia brasileira vai mal”, “a poesia brasileira está perdida”, &c.

mas voltemos ao RGL: esta brevíssima seleção de poemas tenta mostrar exatamente algumas das variantes, que aqui resumo e facilito nos já tão famosos (& banalizáveis, como eu mesmo aqui o faço) termos poundianos: da belíssima poesia-imagem, fanopeia em estado puro de “um poema”, com matiz oriental; passando pela melopeia rápida & mais coloquial de “anatomia da rima”, ou pelo modus canção de “a pé”; & finalizando na urbanidade fanologopaica de “rush”.

o que me interessa marcar como ponto-chave dos textos aqui apresentados é sobretudo como a variedade se reintegra num corpo orgânico. ao contrário do que se poderia imaginar, a poesia de RLG é mais coerente dentro da diversidade, eu poderia dizer que a diferença aqui retorna na construção de um macro-idioleto, que não tenho tempo de comentar, mas que poderia dar um bom pano pra manga, quem sabe mais pra frente…

ps: sons (poemas e canções) também podem ser achados no myspace e no soundcloud.

guilherme gontijo flores

UM POEMA

traída pelo
vento de inverno

a bela
borboleta

lenta- (asa
flor fluindo)
mente

caindo sobre
um rio
congelado

(amargo é
voar

tão longe
pra morrer:

melhor voar pra sempre)

ANATOMIA DA RIMA 

Não existem rimas pobres.
Todo som, sim, é artifício
que o tempo atrita e consome.
Vento metafísico, isto
que nos cobre, palavra
soprando de Provença
ou greta na rocha, resma
de avenca que avança —
repetição na diferença.
Tudo rima com alguma
coisa, contanto não seja rara
Naja desnuda penumbra
Ou pegue de raspão, toante,
as palavras que instantes antes,
eram caligrafia da fala,
espécie de fada, cabala.

A PÉ

Um ritmo caminhava em minha direção
Nele o nylon das ondas como testemunhas
Uma verdade qualquer se traduzindo em som
Quantas vezes nos perdemos no carinho
Não o amor que um dia foi estranho sonho
Mas essa onda volutas linha sobre linha
Eco de luz que havia sido prometida

E a vida é mais cedo que se supunha—
O que nos apressa na voragem
É essa lentidão, não esta alegria.
Mas latimos pra lua sem culpa nenhuma,
Descascamos a pele da paisagem
Com nossas próprias unhas.

RUSH

a chuva
é este pensamento
lento

agulhas de prata
se caçam, se cruzam,
alcançam a vidraça

cortina perolada
presente
dos deuses

música suave
de quem
não diz o que sabe

abençoa a cidade
dos homens
e seus corações secos

(rodrigo garcia lopes)
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