crítica, poesia

Reinaldo Santos Neves: Muito soneto por nada

Seria muita queimação de filme contar que nós, do escamandro, lemos poesia em bar? (às vezes em cafés, também, quando estamos mais civilizados) Pois bem, talvez seja, mas não mais do que a queimação de filme maior que é já a exposição de escrever (e publicar) poesia. Dito isso, um dos poetas que se destacou numa dessas nossas leituras de bar mais recentes foi Reinaldo (ou Reynaldo) Santos Neves. Capixaba, de 1946, confesso que eu não o conhecia até muito recentemente, quando entrou em contato comigo, por conta do Sérgio Blank, poeta de que já falamos aqui no escamandro.

Reinaldo Santos Neves não é bem um poeta assumido, e, de fato, se fossemos enquadrá-lo numa categoria, dada sua carreira, estaríamos mais propensos a rotulá-lo como um romancista. Ele é autor dos romances O reino dos medas (de onde um trecho serve de epígrafe a Pus de Blank), A crônica de Malemort, As mãos no fogo: o romance graciano, Sueli: romance confesso, A confissão e, mais recentemente, A folha de hera, que faz um trabalho experimental estranhíssimo (no bom sentido) de simular ser a edição crítica de um manuscrito medieval de uma tradução quatrocentista para o inglês de uma crônica francesa. Ele é bilíngue, em inglês médio e português, e é uma demonstração de inventividade e erudição sem paralelo. Para quem gosta de estudos medievais e é fã, por exemplo, de Umberto Eco, é um prato cheio. Fica, então, a sugestão de leitura.

Mas, estávamos a falar de poesia, não é? O único livro de poemas de que tenho notícia de Reinaldo se chama Muito Soneto por Nada, que saiu pela cultural ES em 1998, mas cujos poemas foram compostos entre 1988 e 1991. Agora, a experiência me diz que romancistas dedicados raramente dão bons poetas (e vice-versa, vide James Joyce, por exemplo), mas aqui, felizmente, não é o caso. Reinaldo Santos Neves pode não atender por poeta, nem ter escrito volumes e volumes de poesia, mas o que ele escreveu certamente vale a pena ser lido.

Poderíamos resumir Muito Soneto por Nada como uma releitura anos 80 da tradição antiquíssima do ciclo de sonetos amorosos. Obviamente, o ato de se escrever poesia amorosa repousa no próprio cerne da tradição lírica (vide Safo), mas a forma do soneto, tal como engendrada por Giacomo da Lentini e perpetuada por Petrarca – como chamamos, o soneto petrarquiano –,  permitiu um modo de expressão muitíssimo apropriado à temática. Pense na constituição formal do soneto, com seus dois quartetos e dois tercetos, divididos por uma linha que, tipicamente, determina o momento de se renovar as rimas – e com essa renovação, promover uma reviravolta retórica, uma volta (em itálico, porque é italiano), que pode tanto desenvolver o argumento inicial do poema quanto contradizê-lo. Tendo em mente essa tensão, esse movimento duplo, não me parece estranho que a forma tenha servido tão bem para tratar dos paradoxos, das tensões internas, das dissonâncias do sentimento amoroso. Camões, por exemplo, que o diga. Seu aspecto formular, também, permitia a composição em série, uma vez dominada a forma, o que, com seu tamanho fixo e limitado nos 14 versos (com pequenas e muitíssimo ocasionais variações ao longo dos séculos anteriores ao XX), encorajou a produção de ciclos de sonetos. E, desse modo, cantou Petrarca seu amor irrealizável por Laura; Dante, por Beatriz (embora seja na Comédia, e não em seus sonetos, o lugar em que ele eleva essa condição às últimas consequências); Shakespeare, pelos anônimos “fair youth” e “dark lady”, etc, e assim por diante. Desnecessário glosar que a forma encontrou vários outros usos, e o século XX ainda permitiu que o nome “soneto” fosse atribuído a poemas que compartilham poucos atributos da forma do soneto tradicional. Como um exemplo rápido e fácil, pense no “Soneto da perdida esperança”, de Drummond, que descarta os recursos de rima e métrica, embora mantenha a estrutura de 14 versos; ou no poeta contemporâneo Paulo Henriques Britto, outro sonetista irremediável (cujo último livro, Formas do Nada, foi lançado muito recentemente e será logo comentado aqui no escamandro), que tem trabalhado e manipulado a forma de modo a fazer o que chama de “sonetoides”, “sonetos simétricos” e assim por diante.

Quanto a Reinaldo, podemos ver que ele mantém do soneto tradicional, além da relação com a tradição do ciclo de sonetos amorosos, apenas o número de versos (embora haja um único poema em que ele ultrapasse os 14, mas o faz dentro de parênteses) e a métrica decassilábica. Alguns poemas também fecham com uma chave de ouro rimada, mas não ao estilo parnasiaso: são chaves de ouro cômicas e carregadas de (auto-)ironia, na medida em que terminam com rimas como “Nefertiti” e “sex-symbol de elite”. À moda tradicional, a voz poética de Reinaldo tem uma musa chamada Jose, com quem tem um relacionamento de amor não-correspondido, que é o que o leva a compor os sonetos. O mais interessante, porém, é a autoconsciência da atividade exercida, a compreensão da situação patética em que o eu-lírico dos poemas se encontra, que ele mesmo ironiza, ao mesmo tempo em que nega seu desejo real por Jose para afirmar desejá-la apenas como musa, apenas no soneto. Para fazer um símile bem cretino, poderíamos dizer que ela está para os sonetos de Reinaldo como um andaime para a construção de um prédio: essencial, mas descartável assim que a obra se completa. E ele tem plena consciência disso, subvertendo, assim, a tradição clássica ao cantar não para imortalizar a musa (como fez Shakespeare), maldizendo-a, inclusive, em vários momentos. O elogio clássico da beleza dá lugar ao escárnio pela moça que tem a beleza como única qualidade, como diz no soneto 15:

Duvido ouvido tenhas pra ouvir Mingus,
ou poema algum de Cummings (…)
pra digerir um filme de Fellini
sem que germine logo uma enxaqueca.

E assim por diante. Poderíamos encontrar ainda nessa relação dupla de desejo (tensionado ainda entre o desejo real e o desejo literário) e repulsa algo da poesia de Catulo (clique aqui para conferir o que eu estou falando, na transcriação excelente do Guilherme), que marca um movimento a partir de um ponto inicial de amor e louvor por Lésbia (vide poemas 3, 5, 43, etc) rumo ao desprezo e ao sentimento ambíguo de desejo com o conhecimento de que ela o faz sofrer. A isso podemos somar um estilo, uma voz poética, que não difere muito da do supracitado Paulo Henriques Britto (embora a temática seja completamente distinta), na medida em que mistura uma dicção elevada, i.e., discursiva, em 2ª pessoa, com palavras e referências eruditas (ninfa, Tântalo, Sísifo, etc) – que tanto apela ao gosto dos poetas palacianos anacrônicos – com a linguagem coloquial, repleta de palavrões (temos “cu doce” já de cara, no primeiro poema), referências à cultura de massa (Coca-cola e outros produtos), expressões estrangeiras não eruditas e trocadilhos (“Em plena happy hour, happy não estou” diz o poema 25). Parte desse humor, desse gosto do trocadilho não nega a época em que os poemas foram compostos, mas é um exemplo do que há de melhor dessa poética oitentista.

Pois bem, fica isso como minha introdução e brevíssima análise, e dos 50 poemas que compõem o livro, então, selecionei 5 para servir de apresentação.

Adriano Scandolara

1

Te quero, eu que o diga, e quero à risca,
mas se queres a mim eu nem pergunto
e, não sendo perguntada, não declares
nada, nada, só escuta, ninfa, quem
te chama – Jose, Jose! – pelo nome
e, chamada, sem cu doce, vamos, vem,
no andamento do soneto, anda, vem,
trazendo teu sorriso por escrito,
bem como a coma coligida em trança
– ou espargida em chusma de cabelos –,
e o corpo, o corpo, humano e feminino,
trajado todo em branco ou todo em preto –
joelho à vista e a coxa cáqui tanto
que dê água na boca à mim – e a Tântalo.

11

Recende o teu corpo à flor da tua idade,
misteriosa flor, sem nome flor, qual
não existe fora dentro da metáfora,
e todavia quanto me inebria, flor
como que de lótus, como se de ópio,
só de pensar que um dia eu possa, eu, poeta,
passar a língua em ponto nesse tigre
tatuado no teu ombro, e fazer-te,
eu, amante, de amor a pele marejar-te,
e de suor, que eu beba, eu, apaixonado,
gota a gota, até chegar à tua boca –
e aí me dês tua saliva de honra
e tua palavra: que eu engula, e morra.

28

Não penses que eu te quero de verdade,
por amada ou por amantes ou pura-
mente concubina, só porque o digo
e assevero em dialeto de soneto.
O que faria eu de ti? Não tens qualquer
talento além do corpo, e o teu corpo
duvido que ofereça o que alardeiam
tuas campanhas de publicidade.
Te quero, na verdade, de mentira,
que é da mentira que extraio poesia,
e é no poema que minto sem perjúrio,
promovendo uma hilota a ninfa e musa.
Te quero é no poema: é no papel;
melhor do que num quarto de motel.

29

Querendo ou não, agora é na berlinda,
Jose, o teu lugar. Sim. Anda na língua
de artistas o teu nome, e de poetas.
Como se fosses atração turística,
vênus egípcia, há quem de longe venha
pelo regalo de te ver passar
com teus requintes de sensualidade.
Teu mais bastardo gesto, teu sorriso
mais mascavo, teu olhar, são prato cheio
pras mais pedantes digressões estéticas.
Minha é a culpa de estares na berlinda:
de tanto lapidar-te com palavras,
de Jose transformei-te em Nefertiti:
em mito: em ninfa: em sex-symbol de elite.

48

Pronto, está feito o que tínhamos, Jose,
de fazer, só pra saber que não tínhamos,
Jose, de fazer. Mas pronto. Ainda
Jose és, musa não mais. Em teu corpo
cada coisa está em seu lugar, só
as qualidades literárias do teu
corpo já não endoidam o poeta
vagabundo que te comeu em verso
e agora só te quer pra te botar
uma pedra em cima. Que mais que falta?
Ah, sim, jogar, em seu devido lugar,
jogar lá no lixo as latas de Coca.
E é só. Desculpa qualquer coisa. E não temas:
dou minha palavra: fim dos poemas.

Reinaldo Santos Neves

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