crítica, poesia, tradução

paul celan (20 de abril)

o corpo de paul celan (pseudônimo anagramático de paul antschel, nascido em 1920, na romênia, em czernowitz, hoje pertencente à ucrânia, filho de pais judeus falantes de alemão, que foram deportados e mortos num campo de concentração, em 1942; sendo que o próprio celan também viria a ser confinado, mas sobreviveria) foi encontrado no rio sena no dia 1 de maio de 1970. em geral, costuma-se estimar a data do seu suicídio no dia 20 de abril, talvez pela coincidência terrível/irônica com o aniversário de adolf hitler… por isso, hoje, esta postagem, à guisa de comemoração melancólica (& deixemos hitler em sua cova).

mas ela – a minha estória com celan – começa antes, lá por 2007, quando me (re)deparei com a sua poesia, numa edição bilíngue alemão-francês do livro atemwende (título de tradução difícil, que já recebeu roupagens portuguesas como “mudança de ar”, “mudança de respiração”, “sopro, viragem”, e eu mesmo considero a possibilidade mais inusitada de “ar-reverso”), que me assombrou no exercício de tradução/leitura, a partir de um alemão manco e de um grande esforço de dicionário. acabei traduzindo o livro inteiro, hoje devidamente engavetado, à moda horaciana, esperando sua maturação.

(aqui um intermezzo: eu já conhecia um pouco de celan, pela tradução de cláudia cavalcanti, mas antes de conhecer o alemão, & admito que aqueles versos pouco me interessaram – mais parecia estar diante de outro poeta surrealista. foi só diante do original que sofri este novo impacto, sempre amoroso, que só pode resultar em tradução, impetuosa, descontrolada, o único modo de conviver com uma obra de nos abala por completo: dar-lhe uma forma na pátria da língua).

foi pouco depois de terminar uma primeira versão, em 2008, que conheci mariana camilo de oliveira, que na época defendeu uma dissertação sobre a poesia de celan. conversamos, planejamos publicações com ensaio dela & tradução minha, mas vida veio e me levou – meu celan ficou na gaveta, e a dissertação dela, bem… acabou de sair pela 7letras!

essa foi minha grata surpresa da semana passada: já decidido a postar pelo aniversário de morte de celan, esbarrei no volume recém-lançado, uma finura, belo trabalho, cuidadoso, sensível, sensato; então, depois de devidamente devorá-lo, faço o seguinte: mostro trechos do livro, como uma espécie de comentário à poesia de celan, e depois exponho, pela primeira vez, algumas daquelas traduções de gaveta.

antes disso, apenas elenco uma bibliografia das traduções de celan em português. felizmente, o poeta tem recebido cada vez mais espaço no brasil – & encontro já os inevitáveis ecos de sua obra sobre os poemas de gente de peso, como cláudia roquette-pinto, age de carvalho e eduardo sterzi, dentre outros.

CELAN EM PORTUGUÊS:

A morte é uma flor: poemas do Espólio. Tradução de João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1998.
Arte poética: o meridiano e outros textos. Tradução de João Barrento e
Vanessa Milheiro. Lisboa: Cotovia, 1996.
Cristal. Seleção e tradução de Cláudia Cavalcanti. São Paulo: Iluminuras, 1999.
Sete rosas mais tarde: antologia poética. Seleção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.
Hermetismo e hermenêutica: Paul Celan: poemas II. Tradução de Flávio René Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; São Paulo: Instituto Hans Staden, 1985.

guilherme gontijo flores

COMENTÁRIOS:

“Realidade poética, texto que se projeta sobre si mesmo, que se constitui como realidade, pode-se dizer: como coisa. […] a hora que não tem irmãs é a hora da morte; a poesia não mais descreve a realidade, mas faz existir o campo enegrecido. O texto não está a serviço da representação, ou melhor: passa-se do texto-representação ao texto-realidade. Há […] uma preocupação do poeta em respeitar a realidade estética de sua poesia, quase inteiramente debruçada sobre a memória dos mortos.”

* * *

“A poesia de Celan não se cala diante do indizível, mas o cala. O silêncio é o modo de expressão adequado, o poema fala por seu silêncio. Mas o silêncio deve se manifestar, não pode existir só sem ser reduzido a nada– o silêncio não é, enfim, o nada. Algo que os poemas revelam e que devemos reter: o silêncio ruidoso que faz falhar a linguagem, não-mudo, que se faz ouvir.
Não devemos, contudo, apegar-nos a esta fórmula sem que isso tenha sido presentificado através do procedimento poético de Celan: seus cortes no interior mesmo da palavra, rupturas de unidades de sentidos, novas relações de sentido, isolamentos de palavras, prefixos e proposições em uma linha, traços (‘quando a matilha o atacou pelas costas –’, bem como ‘vescrevi cartas a –’), estrofes irregulares, questões sem resposta (‘a suave, a dolorosa, a rima alemã?’), brancos, interrupções violentas ou pausas, escalonamentos espaciais,389 asteriscos, linhas pontilhadas. Todas as marcas graficas, técnicas de silêncio ou de dizer o indizível, enfatiza Pajevic, são falantes. O silêncio – tal como é tematizado e explicitado através de tais técnicas – é a resposta poética ao uso abusivo da língua.”

* * *

“‘Escrevemo-nos’ – schreiben wir uns– Celan utiliza esta articulação atípica na língua alemã neste contexto no qual uma data-meridiano, por assim dizer, ressignifica ou reescreve um poema e nós nos escrevemosem direção às datas. O poeta parece querer reivindicar, também, seu gesto de recorrer aos fatos reais (não ser surrealista, como se lhe atribui durante um período). Reage com frustração e raiva, como comenta Harbusch, com a incompreensão a seus poemas: ‘Totalmente não herméticos’ – consta na dedicatória do livro Die Niemandsrose a seu tradutor inglês Michael Hamburger. O poeta diz a um amigo,em 1968: ‘Meu último livro é considerado cifrado. Acredite-me, cada palavra foi escrita com referência direta à realidade. Mas não, isso é o que não querem absolutamente entender…’”

* * *

“[O] excurso biográfico revela o intenso sofrimento do poeta nos últimos anos de vida, de uma vida dolorosa, intimamente imbricada à escrita – seja nos pedidos de socorro à Poesia, na retomada epistolar, nos intensos trabalhos de tradução e composição de poemas (inclusive e, por vezes, especialmente durante as internações), no caso Goll e sua permanente revivescência do “roubo” daquilo que era tão caro ao poeta – um trauma, talvez, ainda mais grave, que o priva de sua palavra; seja, também e de maneira especial, no convívio aturado com o constante fragmentar e fazer reviver a língua alemã (sempre materna e dos assassinos). A poética de Celan encontra-se em território próximo à morte, à retomada da língua e necessidade de fraturá-la. Trabalha-se às voltas com a morte – aquela que está no entorno da língua alemã, a morte produzida naquela língua, a morte daquelalíngua. A cicatriz na língua está sempre na iminência de ser aberta, é tecido frágil que não cerra.”

(In: OLIVEIRA, Mariana Camilo. “A dor dorme com as palavras”: A poesia de Paul Celan nos territórios do indizível e da catástrofe. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.)

POEMAS DE ATEMWENDE / AR-REVERSO

DU DARFST mich getrost
mit Schnee bewirten:
sooft ich Schulter an Schulter
mit dem Maubeerbaum schritt durch den Sommer,
schrie sein jüngstes
Blatt.

TU PODES sem medo
servir-me de neve:
sempre que eu ombro a ombro
à amoreira atravessava o verão,
gritava sua mais nova
folha.

STEHEN, im Schatten
des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dich
allein.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

DE PÉ, na sombra
da chaga aberta ao ar.

Por-nada-e-ninguém-De-pé.
Irreconhecido,
por ti,
só.

Com tudo que aqui tem espaço,
mesmo sem
língua.

SINGBARER REST – der Umriß
dessen, der durch
die Sichelschrift lautlos hindurchbrach,
abseits, am Schneeort.

Quirlend
unter Kometen-
brauen
die Blickmasse, auf
die der verfinsterte winzige
Herztrabant zutreib
mit dem
draußen erjagten Funken.

– Entmündigte Lippe, melde,
daß etwas geschieht, noch immer,
unweit von dir.

RESTO CANTÁVEL – silhueta
dele, que através
da escrita-foice trespassou silente,
à parte, ao lugar da neve.

Revirando
sob cometas-
sobrancelhas
a massa do olhar, na qual
deriva o coração-satélite
eclipsado miúdo
com a
centelha alcançada lá fora.

Lábio interdito, anuncia
que algo ainda acontece
perto de ti.

KEINE SANDKUNST MEHR, kein Sandbuch, keine Meister.

Nichts erwürfelt. Wieviel
Stumme?
Siebenzehn.

Dei Frage – deine Antwort.
Dein Gesang, was weiß er?

Tiefimschnee,
                       Iefimnee,
                                              I – i – e.

CHEGA DE ARTE-AREIA, chega de livro-areia, chega de mestre.

Sem lançar dados. Quantos
mudos?
Dez-e-sete.

Tua pergunta – tua resposta.
Teu canto, o que ele sabe?

Dentroemneve,
                               Entemeve,
                                               E – e – é.

WEGGEBEIZT vom
Strahlenwind deiner Sprache
das bunte Gerede des An-
erlebten – das hundert-
züngige Mein-
gedicht, das Genicht.

Aus gewirbelt,
frei
der Weg durch den menschen-
gestaltigen Schnee,
den Büßerschnee, zu
den gastlichen
Gletscherstuben und -tischen.

Tief
in der Zeitenschrunde,
beim
Wabeneis
wartet, ein Atemkristall,
dein unumstößliches
Zeugnis.

CAUTERIZADO pelo
vento em raios de tua fala
o palavrório multicor do con-
vivido – centi-
língua o meu/mau-
poema, o noema.

Des-
revolto,
livre
o caminho pela neve
antropomórfica,
neve penitente, às
hospitaleiras
salas e mesas glaciais.

Fundo
na fenda do tempo,
junto
ao gelo em favos,
aguarda, hausto-cristal,
o teu irrefutável
testemunho.

EINMAL,
da hörte ich ihn,
da wusch er die Welt,
ungesehen, nachtlang,
wirklich.

Eins und Unendlich,
vernichtet.
ichten.

Licht war. Rettung.

UMA VEZ,
eu o ouvi,
lavava o mundo,
invisível, noturno,
real.

Uno e Infidável,
desapareceu,
euou.

Luz nasceu. Salvação.

(trad. guilherme gontijo flores)

UM VÍDEO, POST-DICTUM
maurício cardozo empresta sua voz (e tradução) a paul celan, todesfugefunesfuga

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8 comentários sobre “paul celan (20 de abril)

  1. Ótimas traduções, Guilherme.

    Li a Todesfugue pela primeira vez quando tinha uns 9-10 anos, numa tradução publicada no caderno “Mais!”, da Folha… Como isso foi numa era pré-internet, passei anos sem saber quem era o autor. Mas nunca me esqueci de alguns versos, tamanha a força do poema.

    Quando reencontrei Celan, pela tradução da Iluminuras, também me decepcionei. Me esforcei pra espremer alguma coisa dali, mas acabou não rolando. Só fui realmente redescobri-lo alguns anos mais tarde, quando estudei um pouco de alemão e pude encarar os originais face-a-face.

    Acabei traduzindo a Todesfuge faz pouco tempo, numa tarde em que algumas células do poema “cantaram-se” insistentemente na minha cabeça, como se fossem motivos de uma fuga… O poema literalmente estava “se entregando”, e não pude resistir a traduzi-lo. A tradução ainda está engavetada, mas assim que eu adentrar um pouco mais pela selva escura de Celan, publico lá no blog.

    Bom saber desse trabalho da Mariana; vou caçar.

  2. Gui, esqueci-me de ler neste finde os poemas do Celan.Li-os agora! Muito bom o teu trabalho! Tenho tudo do Celan aqui em casa e sou apaixonada por sua poética. Em 1995, organizei um evento, no Goethe-Institut de Porto Alegre, celebrando os 25 anos de morte do poeta. Trouxemos, na ocasião, o Flávio Kothe, da UnB, para a conferência principal, pois foi ele quem iniciou as traduções do Celan no Brasil. Parabéns!

    • obrigado, rô! o kohte foi realmente o primeiro a traduzir e ainda a fazer um esforço hermenêutico sobre a obra de celan no brasil.
      e vou ver se convenço o maurício a mostrar algumas traduções de celan dele…

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