poesia, tradução

alejandra pizarnik: la tierra más ajena (1955), pt. 2

caros, segue abaixo a segunda e última parte de la tierra más ajena de alejandra pizarnik.
veja aqui o primeiro post.

vinicius ferreira barth

 

pizarnik 

 

… DO MEU DIÁRIO

Olhava os carros em arranjo
sem suas vestimentas metálicas
as partes dianteiras pareciam
caveiras recém libertadas.
Um sol amarelo deixava cair indiferente
pedaços luminosos de algo colorido
mas as sombras persistiam
ainda nos retalhos do astro.
Sentia-se cansada ante os nevoeiros
que não se moviam
um blue ruminava enfadado em seu interior
passos extravagantes marcavam seus dedos
mobilidade compassada de carpete e ballet.

 

 

REMINISCÊNCIAS QUIROMÂNTICAS

duas mãos de flores pendentes resumem a
tosca escultura de exóticas formas que
brilham vendendo às bruxas o
augusto signo de vida por morte
lendo nas linhas as milhares de
vezes que vences ou gemes ou choras ou ris ou
inicias caminho a um passo firme que
luta na noite repelindo os
vis ataúdes que brande o fracasso

 

 

DESENHO

o joelho da enseada
cheira a primores bem escritos
geadas salientes molham seu
corpo arqueado
mil relógios zumbem
as horas das mil distâncias
e o floreiro renasce
embaixo à sombra de uma catacumba

 

 

XADREZ

ainda assim a enclítica não destrói
os peões reverentes ante as
milhares de montanhas
rebentam prazerosas
diante do sol rubro
(não sol amarelo)
pensar inato em moldadas barras
torta transfumegante de vela sem fogão
quisera ser massa linguística
para cortar-lhe a barba
ondas em precioso lume
alçar bandeira gratuita
quilômetros de nozes
e golpes em relevante torniquete

 

 

HOMEM COMUM

sempre renega azuis
conforme a rota
negra a linha reta
negra a terra sana
tremor estranho que não se agita
peitos sim e não peludos
esperanças não fundidas misturam
a ele a ela a todos
vede! sua carne transborda
reminiscências gado opaco

 

 

SEGUIREI

molde partido centra este todo
da árvore castrada chorando
medir cada passo aos poucos
se não se perturba a lua
a luz redondeia brancuras
de nabos ralados
tirar cada envoltura
se não se distorce o negro
a música enrubesce a rota
de cada pequeno úmido
girar girar girar
perceber junto ao molde partido
sentires de tacos e dentes
querer agarrá-lo todo

 

 

UM BILHETE OBJETIVO

          1

entre os sopros de tantas artérias
tateio encolhida nos bolsos de
                  minha jaqueta
tratando de achar algo que faça
                  pairar minha destripada
                  aurora

          2

vejo rostos busco rostos acho rostos
a imagem de sua igualdade esfria a
                  estética
da janela sobre os trilhos meu
                  assento é o topo
                  do mundo

          3

voam unhas braços anéis peixes
volvem sons azuis vermelhos verdes
desfile que ferve em tremendos
                  borbulhares
mas nada altera insinuante a
                  segurança em meu
                  assento

 

 

EU SOU…

minhas asas?
duas pétalas podres

minha razão?
pequenas taças de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um talho no assento

meu vaivém?
um gongo infantil

meu rosto?
um zero dissimulado

meu olhos?
ah! nacos de infinito

 

 

DÉDALUS JOYCE

Homem funesto de chaves noturnas e corpo desnudo junto ao rio profundo de brilhantes escarradas. Homem de olhos anti-míopes exploradores de infinidade. Homem de rosto em sombra e corpo gênio abstrato. Homem sem medo de pena em mãos nem de olhos em ser nem sorriso supremo. Homem deus chegaste só de infinitudes assombrofantasmais ornado de lágrimas de superioridade envergonhada. Homem destruidor de tabus e céus estrelados. Homem dos frágeis vestidos que caem deixando irmãos desnudos. Homem sem alimento para outorgar aos que buscam. Homem de altos mares de sulcos desolados. Homem-barco branco. Homem arrancaste o vômito para sepultar o mito. Homem de tempo e espaço que arrastam sadias loucuras. Homem superhomem, frigidez e frouxidão conjuntas. Homem.

 

 

PORTO ADIANTE

Noite morna. Sensação prazerosa. Os sons abstratos das vias enchiam seus ouvidos eufóricos. Pensava no porto que via tão frequente… porto de cores impressionistas e homens sujos de braços molhados e brilhosos e cabelo crescido e úmido. Homens impassíveis à distância maravilhosa, ao céu entre os barcos, à paisagem combinada, ao solo recheado de objetos de lugares remotos como pedaços de mundo no melancólico coração de um mar…
Sim. Afundar-se uma noite nas ruas do porto. Caminhar, caminhar…
Sim. Sozinha. Sempre sozinha. Lenta, tão lentamente. E o ar estará suavizado, será um ar cosmopolita e o solo cheio de papéis de cigarros que alguma vez existiram, brancos e belos.
Sim. Seguirá caminhando. Afundar-se, escuridão, caminhar…
Sim. E uma estrela dará sua cor à âncora de prata que levava em seu peito. Jogar a âncora. Sim. Muito próximo a esse barco gigante de listras vermelhas e brancas e verdes… ir-se, e não voltar.

 

 

NO PANTANINHO

                  a don Federico Valle

          1

Mil passos arrastam pacientes as solas maduras em rochas diversas.
Talvez uma gota gema desejando a antiga espessura em tardes mais livres que esta (balbuciante de colorido impuro, de sol inibido, de água cobreada, de potros com caudas etéreas, de pranto de cacto impotente…). A cascata reverdeia os pastos silenciosos que nutrem a negra penugem da terra vestida de brilho.
Sombras persistentes, imagens constantes que obrigam as retinas a carregarem-nas alegremente em frágeis topos. Montanhas vibrantes de cercania solar, de chuva inaudita, de flores invisíveis possíveis de criar sob tanto céu, tanta luz cromática, tanta conjectura de lugar.

          2

Meus dedos teclam iguais… (quem sabe contribuam com seus ruídos para aumentar os fundos dos ruídos naturais).
As vozes que se elevam querendo matizar as aspirações de solidão a que obrigam os espaços. Cânticos pujantes de fragrância primaveril caem surpreendentemente na névoa. Os lábios adensam as notas. Lábios fechados por rugas habilmente conseguidas. Lábios dobrados sobre dentes felizes. Lábios que riem sob a opressão tensa do ungido manto de vários tons (eu vermelho, tu azul, ele verde, ela cinza…). Começa a lide cromática. Cada cor requer um maior espaço na tela. Claro que nenhuma quer sucumbir. Claro que nenhuma deseja dissolver-se anonimamente. E assim se segue, assim se caminha, assim se veem esfumar as brancoepretas folhinhas deste calendário que transpira o suor de um calor intangível.

          3

As montanhas permanecem impávidas. Tremenda dúvida: arranhar-se sob o manto carnal ou remover os talos difusos tratando de encontrar à luz de um embelezo descolorido o perfil da flor única.

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