crítica, poesia

desastres e destrezas do amor, por leo gonçalves

o poeta leo gonçalves (de bh, hoje habitante de sampa) já dera o ar da sua graça por estas bandas com as traduções dos poemas homoeróticos de verlaine, com a promessa de nos agraciar inda mais com poesia própria, aqui cumprida. vale aqui, para ampliar a nota & fazer direito o meu serviço, lembrar que ele já lançou dois livros próprios: o levíssimo das infimidades (2004), que diálogava de modo mais estreito com as vertentes marginais & musicais da poesia brasileira, com seus poemas breves com uso corrente de rimas, paronomásias, aliterações, etc., tudo com uma linguagem coloquial. em seguida, veio o segundo livro, wtc babel s.a. (2008), que me impressionou demais: aqui o sr. gonçalves, a meu ver, deu um grande passo no seu uso de uma linguagem coloquial mais idiossincrática: um modus whitmaniano reaparece poliglota diante da queda das torres gêmeas & das novas (im)possibilidades do império americano: aquela leveza do primeiro livro deu lugar a uma experiência pesada de sobreposições entre indivíduo, sociedade, discursos do inconsciente, ou tomada de partido.

além disso também publicou traduções de do doente imaginário de molière, das canções da inocência e da experiência de william blake, de juan gelman (isso, em parceria com andityas soares de moura), e de diversos poetas, como aimé cesaire léopold sedar senghor, allen ginsberg, lawrence ferlighetti, édouard glissant, birago diop, &c.. atualmente ainda gerencia o blog salamalandro.

os dois poemas logo abaixo são inéditos, farão parte do novo livro intitulado “use o assento para flutuar”, que deve sair este ano, & formam uma dupla autopalinódica, dando a sensação (curiosa, se pensarmos que palinódia espera uma mudança de posição através do tempo) de que tanto um quanto o outro pode ser o primeiro, e o segundo sua negação, numa espécie de oroboro que já se anuncia no anagrama de “desastres”e “destrezas”. mas a graça principal está na fuga à dicotomia, à expressão dialética das contrariedades: em resumo, os dois poemas não se completam por oposição; eles são uma complementariedade disjuntiva, que sempre lança um espaço vazio que insiste em separá-los, pondo em cheque o nosso desejo de fechar o sentimento e sua concretização. o amor, como o corpo, é excessicamente concreto em suas dores e delícias, & ao mesmo tempo esquivo, ali onde o corpo falha, onde entra o corpo do outro, onde o próprio corpo é corpo do outro.

AS DESTREZAS DO AMOR

o amor é o alcance da mão
é tudo aquilo que ele roça
quando estica os braços
quando estica os dedos

produtos importados direto
do país das surpresas do país dos medos
delícias sobre a mesa ou ao contrário
melecas em geléia para o piquenique

o amor é tudo aquilo que a mão toca
seja com a destra seja com a sinistra
seja com a boca seja com a orelha
seja com a luva seja com a vista

ninguém reclama quando o amor ama
no meio da praça não é atentado
se o beijo escandaliza a massa
ou se o fogo incendeia o ministério público

ninguém se mete quando a moça
extasiada pela língua do poeta
inaugura uma estátua fátua
o beijo de rodin na praça principal

ninguém se liga quando a eletricidade
da cidade se embanana porque
o camarada ama ou porque a menina
agora toda nua é a culpada do apagão

o amor é um camarada raro
que brinca com ratos pela calçada
e caça palavras pelos cruzamentos
quebrando cabeça no meio dos carros

o amor com seus desastres
derrama o chocolate sobre a roupa dos amantes
obrigados a matar serviço reinventam
a manhã agora num brinquedo novinho em flor

são as destrezas do amor
tropeça todo dia nos seus próprios mortos
bebe ri dança e balança e até morre com eles
e é por isso que ele nunca está só

* * *

OS DESASTRES DO AMOR

o amor está ao alcance da mão
então você estica os braços
tenta colhê-lo e ao fazê-lo
o empurra para mais distante

a distância te ajuda a compreendê-lo
quer dizer, a tê-lo entre os dedos
mas entre os dedos não basta
então você estica os braços, quer acolhê-lo

e ao fazê-lo, empurra ainda
para mais distante: a distância
te completa de angústias
você tem que declarar seu desespero

o amor quer ser cantado a cântaros
você se derrama nas águas do amor
e o amor é tudo ao redor
você é rio você é vento luz do sol você é ar

e te pedem que brilhe
como ao meio dia
então você brilha
e a sua luz ofusca os olhos do amor

agora é guiar aquele que você procurava
você cego procura o caminho certo
e guia quem tem os olhos foscos
mas não há mais tempo:

você defendeu o amor em todas as guerras
travou lutas contra ele em favor dele mesmo
e da única causa na qual pôde crer
e assim o deixa cada dia mais distante

mas isso não é tudo
o amor está em toda parte, você
quer amá-lo quer beijá-lo degustá-lo
no entanto, você está só

(leo gonçalves)

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2 comentários sobre “desastres e destrezas do amor, por leo gonçalves

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