poesia, tradução

6 poemas de Jacques Prévert

Não sei vocês, mas meu primeiro, e até pouco tempo, único, contato com a poesia de Jacques Prévert havia sido um poeminha engraçadinho chamado “Mea culpa”, que transcrevo abaixo:

C’est ma faute
C’est ma faute
C’est ma très grande faute d’orthographe
Voilà comment j’écris
Giraffe

(in Histoires)

…que traz consigo também uma discussão chata que ronda os estudos da tradução sobre a tradução de Mário Laranjeiras do poema, que, para sermos breves, considera a “girafa” (escrita errado em francês) do último verso semanticamente irrelevante – i.e. ela serve para rimar com “orthographe” e para estar escrito errada (o certo é girafe) – e a substitui por uma “bassia”, assim:

Minha culpa
Minha culpa
Minha máxima culpa em ortografia
Vejam como escrevi
Bassia

A discussão sobre se a decisão de Laranjeiras é uma boa decisão ou não e blá blá blá já foi repetida inúmeras vezes e quem tiver paciência, pode ter alguma ideia sobre ela nos artigos da primeira página de busca do google por “mea culpa” prévert laranjeiras. Eu, pessoalmente, acho válida a substituição, mas me incomoda um pouco a “bassia”… não é por nada, não, mas sinto que falta algo da expressividade sonora e da exoticidade da palavra girafa, que acho que tem a ver com a poética do Prévert. Eu pensei, talvez, em algo como harpia (arpia) ou lichia (lixia), que são mais estranhos do que uma “bacia”, mas para não fazer uma tradução que seja mera cópia de uma já existente com uma alteração do último verso, eis uma versão minha tentando manter a rima, a girafa e o erro de ortografia:

Eu errei
Eu errei
Eu errei muitíssimo como se ortografa
Olhem como escrevi
Jirafa.

Agora esqueçam este poema, que a obra do poeta é infinitamente mais rica do que este pequeno chiste.

Nascido em 1900 e morto em 1977, Jacques Prévert foi um importante membro do surrealismo francês, ao lado de Marcel Duchamp e do cofundador da Oulipo, Raymond Queneau. Ele escreveu 7 livros de poemas (Paroles, SpectacleGrand bal du printemps, La pluie et le beau temps, Histoires, Fatras e Choses et autres), alguns livros infantis e redigiu roteiros para uma dezena de filmes e animações, sobretudo para o diretor Marcel Carné, cujo filme Boulevard do Crime (Les infants du Paradis) é considerado por muitos um dos melhores do cinema francês. E ainda em se falando de aproximações com o cinema, acredito que não seria um exagero aproximar Prévert de Buñuel, não o Buñuel que todo mundo conhece de Um Cão Andaluz, mas de sua obra mais tardia como a bizarra comédia O Fantasma da Liberdade – ou poderíamos ainda aproximá-lo a filmes posteriores ainda mais bizarros como A Montanha Sagrada, de Jadorowski, e Eu irei como um cavalo louco, de Fernando Arrabal –, em que a famosa porralouquice de imagens do surrealismo se encontra carregada de uma dimensão política e de crítica social, que, convém lembrar, são parte integrante já do surrealismo, pois, afinal de contas, Prévert não só viveu e escreveu durante o período da guerra, como estava na França na época da invasão nazista. Esse é um “detalhe” que parece se perder no meio das imagens loucas de Dali que são mais prováveis de vir a mente ao se falar em “surreal”.

Seu projeto mais curioso, na minha opinião, é o livro Fatras – que, em francês significa algo como “baderna”, “bagunça”, “zona”- , de 1966, uma obra esquisita, que faz jus ao título, ao misturar poemas com imagens surreais, feitas pelo autor através de colagens, mais uns textos em prosa, que, às vezes compõem sketches teatrais, às vezes simulam colagens de frases de outras pessoas, reais ou imaginárias. Procurei algumas das imagens no google para compartilhar com vocês, para não ter que scanear o livro, e, embora não tenha achado exatamente as que eu queria, pelo menos eu as encontrei a cores (enquanto as da minha edição são em preto e branco).

Infelizmente, Prévert se encontra pouco traduzido para o português. A única edição de que tenho notícia é a da editora Nova Fronteira, entitulada simplesmente Poemas, um antologia traduzida por Silviano Santiago. Sua escolha de poemas é boa, porém a execução com frequência deixa muito a desejar, especialmente quando alguma dificuldade de tradução se apresenta. O problema principal que podemos citar é que o tradutor parece ter seguido o caminho da tradução literal, perdendo as rimas e ignorando a expressividade do vocabulário de Prévert. No poema “O meteoro”, por exemplo, Santiago traduz a palavra “éclaboussé” por “sujo”, e, embora ele não esteja errado, “sujo” me parece mais adequada para traduzir a palavra “sale” do que “éclaboussé“, cujo comprimento de 4 sílabas e o uso das consoantes sugere algo mais icônico, mais sujo… por isso optei por “lambuzado”, que acho que passa melhor essa noção.

Compartilho com vocês, então, 2 poemas da antologia de Santiago (originalmente de Histoires), em retradução minha, mais 3 poemas do 3º livro de Prévert, La pluie et le beau temps (A chuva e o tempo bom) e um de Fatras, estes inéditos. Um desses poemas, creio, merece alguma explicação sobre sua problemática de tradução, o “Sceaux d’hommes égaux morts”, cujo título, que significa literalmente “Selos de homens iguais mortos”, revela, em sua sonoridade, as palavras “Sodome et Gomorrhe“. Dois versos próximos do final do poema também repetem esse efeito e confirmam a sugestão feita pelo título: “Seaux d’eau / Mégots morts” (literalmente “Balde d’água / Bitucas mortas”), como comenta Eclair Antonio Almeida Filho, neste artigo da Revista Agulha. Daí a necessidade de quebrar um pouco com a semântica para se manter o efeito na tradução.

E, como disse, a “jirafa” lá de cima é o menos interessante por aqui.

Adriano Scandolara

O Meteoro

Pelas grades do bloco penitenciário
uma laranja
passa como um raio
e cai como uma pedra
dentro do sanitário
E o prisioneiro
todo lambuzado de merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa sempre em mim ainda.

Le Metéore

Entre les barreaux des locaux disciplinaires
une orange
passe comme un éclair
et tombe dans la tinette
comme une pierre
Et le prisonnier
tout éclaboussé de merde
resplendit
tout illuminé de joie
Elle ne m’a pas oublié
Elle pense toujours à moi.

(in Histoires)

O discurso sobre a paz

No final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado, estrebuchante
com uma bela frase furada
fica hesitante
e desampara a bocarra escancarada
resfolegante
mostra os dentes
e a cárie dentária de seu raciocínio pacificante
deixa exposto o nervo da guerra
a delicada questão do montante.

Le discours sur la paix

Vers la fin d’un discours extrêmement important
le grand homme d’Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre
la délicate question d’argent.

(in Paroles)

Confissão pública (Loteria crítica)

Misturamos tudo
é fato
Aproveitamos o dia de Pentecostes pra pendurar os ovos de Páscoa de São Bartolomeu na árvore de Natal do Catorze de Julho
Teve um mau efeito
Os ovos estavam vermelhos demais
A pomba se safou
Misturamos tudo
é fato
O dia e o ano o desejo e o remorso e o leite e o café
No mês de Maria que parecia o mais belo colocamos a Sexta-feira Treze e o Grande Domingo dos Camelos o dia da morte de Luís XVI o Ano terrível a Hora do amante e cinco minutos da pausa pro almoço.
E somamos sem rima nem razão nem ruína nem mansão sem fábrica e sem prisão a grande semana de quarenta horas e aquela das quatro quintas-feiras
E um minuto de baderna
por favor
Perdemos nosso tempo
é fato
Um minuto de surto de alegria de canções pra rir e ruídos e longas noites pra dormirmos no inverno com as horas suplementares pra sonharmos que é verão e longos dias pra fazermos amor e rios pra nos banhar e grandes sóis pra nos secarem
Perdemos nosso tempo
é fato
mas era um mau tempo
Avançamos o pêndulo
Arrancamos as folhas mortas do calendário
Mas não tocamos as campainhas
é fato
Só o que fizemos foi escorregar pelo corrimão das escadas
Falamos de jardins suspensos
vocês já vinham em fortalezas voadoras desbastar a cidade mais rápido do que um pequeno barbeiro desbasta a própria vila num domingo de manhã
Ruínas em vinte e quatro horas
o próprio tintureiro morre
Como você quer que se fique de luto

Confession publique (Loto critique)

Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Nous avons profité du jour de la Pentecôte pour accrocher les oeufs de Pâques de la Saint-Barthélemy
dans l’arbre de Noël du Quatorze Juillet
Cela a fait mauvais effet
Les oeufs étaient trop rouges
La colombe s’est sauvée
Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Les jours avec les années les désirs avec les regrets et le lait avec le café
Dans le mois de Marie paraît-il le plus beau nous avons placé le Vendredi treize et le Grand Dimanche des Chameaux le jour de la mort de Louis XVI l’Année
terrible l’Heure du berger et cinq minutes d’arrêt bufet.
Et nous avons ajouté sans rime ni raison sans ruines ni maisons sans usines et sans prison la grande semaine des quarante heures et celle des quatre jeudis
Et une minute de vacarme
s’il vous plaît
Une minute de cris de joie de chansons de rires et de bruits et de longues nuits pour dormir en hiver avec des heures supplémentaires pour rêver qu’on est en été et de longs jours pour faire l’amour et des rivières pour nous baigner de grands soleils pour nous sécher
Nous avons perdu notre temps
c’est un fait
mais c’était un si mauvais temps
Nous avons avancé la pendule
nous avons arraché les feuilles mortes du calendrier
Mais nous n’avons pas sonné aux portes
c’est un fait
Nous avons seulement glissé sur la rampe de l’escalier
Nous avons parlé de jardins suspendus
vous en étiez déjà aux forteresses volantes
et vous allez plus vite pour raser une ville que le petit
barbier pour raser son village un dimanche matin
Ruines en vingt-quatre heures
le teinturier lui-même en meurt
Comment voulez-vous qu’on prenne le deuil

A riviera

Teus jovens seios brilhavam ao luar
Mas arremeti o
Gelo frio
Da pedra gélida do ciúme
Contra o rio
Que refletia o
Dançar de tua nudez na riviera
Pelo esplendor do estio.

La rivière

Tes jeunes seins brillaient sous la lune
Mais il a jeté
Le caillou glacé
La froide pierre de la jalousie
Sur le reflet
De ta beauté
Qui dansait nue sur la rivière
Dans la splendeur de l’été.

Soldados mas iguais morrem

Nas nádegas do chefe decapitado estava tatuado o nome familiar do soldado
e o nome do chefe estava tatuado no peito do homem fuzilado
Nos dedos crispados e enlaçados parecia ainda haver algum calor
Misoginia mãe das guerras
Xícaras e talheres
O sol doma
Ego mor
Dois corpos nos escombros
sob a sombra do pudor.

Sceaux d’hommes égaux morts

Sur les fesses du chef décapité était tatoué le prénom du soldat familier
et le prénom du chef était tatoué sur la poitrine de son homme fusillé
Leurs mains enlacées et crispées faisaient semblant de vivre encore
Misogynie mère des guerres
Tasses et théières
Seaux d’eau
Mégots morts
Deux corps sous les décombres
dans l’ombre du décor.

(in La pluie et le bon temps)

O bailado velado

Na encruzilhada impossível da imobilidade
uma turba de objetos inertes
não consegue parar de se mover fremir dançar
E os carteiros do vento
como os do mar
espalham a correspondência aqui e lá
Cada coisa sem dúvida se destina a alguém
       ou a alguma coisa talvez
A pluma da ave
como a concha da ostra
a cruz da legião de honra
como a estrela do mar
ou a pinça do siri e a âncora da fragata
a perereca verde de lata
e a boneca de som
e a coleira do cão
E nesta paisagem onde nada parecia se mexer
exceto a vela do náufrago na lanterna em ferrugem
é o bailado velado
o bailado dos objetos inanimados.

La fête secrète

Au carrefour impossible de l’immobilité
une foule d’objets inertes
ne cesse de remuer de frémir de danser
Et les facteurs du vent
comme ceux de la marée
éparpillent le courrier
Chaque chose sans doute est destinée à quelqu’un
       ou à quelque chose peut-être
La plume de l’oiseau
comme l’écaille de l’huître
la croix de la légion d’honneur
comme l’étoile de mer
ou la patte du crabe et l’ancre du navire
la grenouille de fer vert
et la poupée de son
et le coller du chien
Et dans ce paysage où rien ne semble bouger
sauf la bougie du naufrageur dans la lanterne rouillée
c’est la fête secrète
la fête des objets.

(in Fatras)

Traduções de Adriano Scandolara.

Padrão

6 comentários sobre “6 poemas de Jacques Prévert

  1. Erika disse:

    mt boa essa pagina,além dos poemas ainda a historia de vida parabéns edição! me ajudou mt no meu trabalho de literatura!

  2. Obrigado por compartilhar conosco os poemas, as traduções e as outras palavras. Posso publicar trechos de um poema (confissão pública) no meu blog? Com as devidas referência, é claro. 🙂

  3. Gostei demais, Adriano! Acho que se eu fosse fazer uma versão, eu insistiria naquela recorrência fônica que o Faleiros comenta em seu artigo. Algo como:

    Uma gafe
    Uma gafe
    Uma gafe esquecer como se grafa
    Vê só como escrevi
    Jirafa

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