poesia, tradução

microantologia da “antologia de spoon river”, de edgar lee masters

eu pensei em três jeitos de começar este post:

1 – ezra pound (eu já disse em outro post) também era um idiota às vezes. ele, por exemplo, fez o desfavor para este mundo de despaideumizar a obra de edgar lee masters (1868-1950). nós fazemos o desfavor de não sairmos de paideumas prontos; & aqui ele é dos irmãos campos via pound; i.e., by by shelley, whitman, masters, &céteras, que supostamente estão fora do formalismo inventivo ou da linha evolutiva da literatura universal (em caixa alta por favor)!

2 – um dos meus contistas favoritos, pra não dizer meu favorito, já que prefiro evitar esse tipo de julgamento, é edgar lee masters, sobretudo no seu livro intitulado spoon river anthology (1915), com mais de 200 poemas(?) baseados na vida dos seus conterrâneos provincianos de petersburg & lewistown, ficcionalizada no universo da cidade inventada de spoon river, às margens do rio homônimo.

3 – o epigrama funerário de edgar lee masters é uma das maiores contribuições da poesia moderna, um marco do modernismo americano fundado na poesia grega (mais especificamente na anthologia palatina), que quase ninguém conhece. ele é o whitman fora de si: enquanto o velho whitman incorporava tudo no canto de si mesmo, lee masters se incorporava no cantar do outro. não à toa, fica impossível não ver ecos dos seus versos no que há de melhor em w.c.w., ginsberg & bukowski, dentre outros.

dito isso, na dúvida sobre como começar, deixo três começos, sem resultado, fora a tradução de alguns desses poemas, que andaram me movendo nos últimos dias…

ps: conheci lee masters pela edição bilíngue de josé miguel silva, pela relógio d’água. eu poderia ter postado traduções dele, mas não tenho lado lusitano para traduções: elas sempre me parecem erradas, ou quando certas, certamente assim eu acho pelos motivos errados. por isso tentei repassar nestas versões o nosso coloquial literário brasileiro que definitivamente não aparece na versão portuguesa.

MICROANTOLOGIA DA ANTOLOGIA DE SPOON RIVER

HOD PUTT

Aqui jazo junto à cova
Do velho Bill Piersol,
Que enriqueceu no comércio com índios e que
Depois se aproveitou da Lei da Falência
Pra ficar mais rico ainda.
Eu cansado de labor e miséria,
Ao ver como o velho Bill e outros ganharam dinheiro,
Roubei certa noite um viajante perto de Proctor’s Grove
E sem querer acabei matando,
Então fui condenado à forca.
Foi o meu jeito de declarar falência.
Hoje nós dois que de algum jeito nos aproveitamos da lei da falência
Repousamos lado a lado.

OLLIE MCGEE

Vocês viram passar pela vila
Um homem cabisbaixo e cadavérico?
É meu marido, que por uma crueldade
Inenarrável me roubou a beleza e a juventude;
Até que enrugada, de dentes amarelos,
Sem orgulho, humilhada e submissa,
Afundei nesta cova.
Sabem o que remorde o coração do meu marido?
O rosto do que eu fui, o rosto que ele me fez!
É Isso que o traz até aqui.
Na morte, então, estou vingada.

CHASE HENRY

Em vida, eu fui o cachaceiro da cidade;
Quando morri o padre me negou enterro
Em solo santo,
O que acabou por ser a minha sorte.
Porque os protestantes compraram este lote
E me enterraram aqui.
Junto à cova do banqueiro Nicholas
E da sua mulher Priscilla.
Atentem, ó almas pias e prudentes,
Às contracorrentes da vida,
Que honram os mortos que viveram humlihados.

KINSEY KEENE

Atenção, Thomas Rhodes, gerente do banco,
Coolbaugh Whedon, editor da Argus,
Rev. Peet, pastor da igreja principal,
A. D. Blood, tantas vezes prefeito de Spoon River,
E todos vocês, membros do Clube da Pureza Social –
Atenção às palavras finais de Cambronne,
Junto aos heróis da resistência
Guardas de Napoleão, sobre monte Saint Jean,
Na batalha de Waterloo,
Quando o inglês Maitland bradou:
“Rendam-se, ó bravos franceses!” –
No final do dia, sem esperanças de vitória,
Quando um bando de homens, não mais o exército
Do grande Napoleão,
Flutuava pelo campo feito farrapos
De nuvens na tempestade.
Bem, o que Cambronne disse a Maitland
Antes que o fogo inglês aplainasse a colina
Contra a luz fugidia do entardecer,
Também eu digo, e pra todos vocês,
E pra você, mundo.
Com o engargo de gravarem
Na minha tumba.

EMILY SPARKS

Cadê meu garoto, o meu garoto –
Onde ele está neste mundo?
O garoto que mais amei em toda a escola? –
Eu, professora, solteirona, coração puro,
Que os considerava todos como filhos.
Será que eu conhecia o meu garoto
Ao pensar que era espírito ardente,
Ativo, sempre à frente?
Ah, garoto, meu garoto, por quem tanto rezava
Em tantas noites de insônia,
Você lembra da carta que escrevi
Sobre o belo amor de Cristo?
Quer tenha recebido ou não,
Garoto, onde quer que esteja,
Trabalhe pela tua alma,
Para que todo teu barro, todo teu pó
Cedam ao teu fogo,
Até que o fogo seja pura luz!…
Pura luz!

TRAINOR, O FARMACÊUTICO

Só um químico sabe dizer, mas nem sempre,
O que resulta da mistura
Entre fluidos e sólidos.
E quem sabe dizer
Como interagem homens e mulheres
Entre si, ou que filhos daí resultam?
Por exemplo, Benjamin Pantier e sua mulher,
Bons em si mesmos, maus um para o outro:
Ele oxigênio, ela hidrogênio,
Seu filho, um fogo devastador.
Eu, Trainor, o farmacêutico, que misturo químicos,
Morto durante um experimento,
Nunca me casei.

KNOWLT HOHEIMER

Fui as primícias na batalha de Missionary Ridge,
Quando senti a bala entrar no coração,
Desejei ter ficado em casa ou sido preso
Por roubar os porcos de Curl Trenary,
Em vez de fugir e entrar para o exército.
Mil vezes a prisão municipal
Do que jazer sob uma imagem de mármore com asas
E as palavras “Pro Patria”.
O que que isso quer dizer?

LYDIA PUCKETT

Knowlt Hoheimer fugiu pra guerra
Um dia antes de Curl Trenary
Arranjar a ordem de prisão com o juiz Arnett
Por roubar seus porcos.
Mas não foi por isso que virou soldado.
Ele me pegou correndo com Lucius Atherton.
Brigamos e eu disse pra ele nunca mais
Aparecer na minha frente.
Aí ele roubou os porcos e foi pra guerra –
Por trás de cada soldado há uma mulher.

FRANK DRUMMER

De uma cela para este breu –
O fim aos vinte e cinco!
Minha língua não sabia explicar o que acontecia dentro de mim,
E a cidade me achava louco.
Mas no início havia uma visão clara,
Um desígnio sublime e urgente em minha alma
Que me fez a tentar decorar
A Enciclopédia Britânica!

LUCIUS ATHERTON

Quando eu enrolava o bigode
E os meus cabelos eram pretos,
E usava calças apertadas
E um alfinete de diamante,
Fui um grande valete de copas, com mil truques.
Mas quando comecei a ficar grisalho –
Ah! Uma nova geração de jovens
Riam de mim, sem me temer,
E eu não tinha mais aquelas aventuras
Onde quase levei tiros por diabas sem coração,
Mas só casos sem graça, casos mornos
De outros tempos e outros homens.
E o tempo passou e eu fui morar no restaurante Mayer’s,
Entre pratos do dia, grisalho, maltrapilho
Desdentado, descartado, um tosco Don Juan…
Há uma imensa sombra aqui que canta
Uma certa Beatriz,
E vejo agora que a força que o fazia grande
Me levou pra fossa da vida.

O POETA THEODORE

Quando jovem, Theodore, você passava horas sentado
Nas margens do turvo Spoon,
Com olhar pregado na porta da cova do caranguejo,
Esperando que ele aparecesse e mostrasse
Suas antenas ondulantes feito palha de feno,
E então seu corpo na cor da pedra-pomes,
Cravado de olhos de azeviche.
E imaginava num transe do pensar
O que ele saberia, desejava e por que sequer vivia.
Depois sua visão procurou homens e mulheres
Escondidos nas covas do destino entre grandes cidades,
Na espera de que a suas almas saíssem,
Para você ver
Como vivam e pra quê,
E por que rastejavam tão sérios
Pelo areial por onde a água é escassa
Enquanto o verão declina.

RABEQUEIRO JONES

A terra insiste em vibrar
Dentro do peito, e isso é você.
E se sacam que que você é bom na rabeca,
Vai ficar na rabeca pelo resto da vida.
Você vê uma colheita de trevos?
Ou um prado que vai dar no rio?
O vento vem no milho, você esfrega as mãos
Porque o gado está pronto pro mercado;
Ou então ouve o rumor das saias
Como quando as garotas dançam em Little Grove.
Para Cooney Potter, um pilar de pó,
Ou o redemunho de folha, é sinal de dura seca;
Eles me pareciam o Sammy Ruivo
Nos passos de seu “Toor-a-Loor”.
Como eu poderia arar quarenta acres,
Nem falo em comprar outros,
Com um bando de trompas, fagotes e flautins
Fervendo em meu cérebro, com corvos e melros,
Ou o ranger do moinho – só isso?
E eu nunca comecei a lavrar nesta vida,
Sem que alguém parasse na estrada
Pra me levar à dança ou ao piquenique.
Acabei com quarenta acres;
Acabei com uma rabeca quebrada –
E um sorriso quebrado e mil lembranças,
E nem um remorso sequer.

GEORGE GRAY

Atentei muitas vezes
Ao mármore esculpido em minha tumba –
Um barco ancorado, com velas recolhidas.
Ele não representa o meu destino,
Mas minha vida.
Poi me ofereceram o amor, e eu temi desilusões;
A mágoa bateu em minha porta, e eu tive medo;
A ambição me chamou, mas não ousei.
Só que sempre ansiei por sentido em minha vida.
E agora sei que é preciso dar velas
E aceitar os ventos do destino
Aonde quer levem nosso barco.
Dar sentido à vida pode acabar em loucura,
Mas a vida sem sentido é uma tortura
De desassossego e de desejo vago –
É um barco que anseia o mar e ainda tem medo.


APÊNDICE: A LÁPIDE DE EDGAR LEE MASTERS

Caros amigos, para os campos…
Depois de caminhar um pouco, eu peço perdão:
Estou com sono. Não há nada mais doce,
nem fado mais abençoado do que o sono.
Sou um sonho saído dum sono abençoado –
Vamos andar e ouvir a cotovia.

guilherme gontijo flores

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