poesia, tradução

Ingeborg Bachmann

Nascida em Klagenfurt, Áustria, em 1926, Ingeborg Bachmann se tornou uma das mais interessantes poetas de língua alemã do pós-guerra. Influenciados pela poesia de Rilke e Celan, mas também por filósofos como Heidegger e Wittgenstein (doutorou-se em filosofia pela Universidade de Viena com a tese Recepção Crítica da Filosofia Existencial de Martin Heidegger), seus poemas, repletos de evocações da natureza e imagens herméticas apontam para o silêncio que está além das palavras e para o tempo que contém em si a própria superação.

Também refletem, como seria de se esperar em uma obra poética em língua alemã que se desenvolve sobretudo nos anos 50 (seus dois grandes livros de poesia, Die gestundete ZeiteAnrufung des grossen Baren são respectivamente de 1953 e 1956), a inquietação de um mundo que viu suas ilusões serem destruídas por bombardeios e câmaras de gás.

Todos esses temas, obviamente, não são capazes de explicar a beleza de seus poemas. É antes na maneira como os aborda, como os transforma em linguagem e símbolo que está sua força. Apesar de seu trabalho filosófico, Bachmann não foi autora de um tratado sobre o ser e o tempo, mas de um livro chamado Tempo Aprazado.

Aliás, esse também é o título de uma coletânea em português de sua poesia, que apesar dissopossui poemas de suas diversas fases, publicada, em uma edição bilingue, pela editora Assírio & Alvim de Portugal em 1992, tendo como tradutores João Barrento e Judite Berkemeier. É dessa edição que seleciono os três poemas que se seguem:

 

DESPRENDE-TE, CORAÇÃO

Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.

Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

 

TEMPO APRAZADO

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areai sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães

Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

 

DIZER TREVAS

Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.

Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda úmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.

Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.

A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.

E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.

Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.

 

bernardo lins brandão

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