crítica de tradução, poesia, tradução

horácios na ode 1.11 “a leuconoe”

a imagem acima resume o ponto: esta ode de horácio é a mais pop, mesmo que nem tanta gente a tenha lido integralmente. o mote expresso no carpe diem é o resumo de um topos clássico para viver o agora, sem confianças no que possa vir ou não, no dia seguinte.

não pretendo aqui fazer uma apresentação da poesia de quinto horácio flaco (65 a.c. – 8 a.c.), das suas quatro obras (epodos, sátiras, odes & epístolas); mas, como tem virado uma praxe aqui no blog, mostrar uma série de traduções & terminar com a minha.

não pretendo aqui fazer uma crítica digna de cada tradução. em resumo, eu diria que elas são bem variadas (amém!), mas tendem para duas escolhas mais gerais: a) o uso dos versos mais tradicionais (decassílabos e hexassílabos, em geral com mistura entre eles; com o caso do britto, que opta por dodecassílabos na sua recriação); e b) verso livre (tanto do augusto de campos e do paulo leminski, com a visualidade centralizando o texto, quanto o verso mais longo e de levada anapéstica de leandro cardoso). da minha parte, como projeto que tem me consumido ultimamente (a saber, traduzir TODAS as odes de horácio, para o doutorado), tentei recriar o poema com um verso mais longo, ligeiramente anapéstico, que pudesse recriar o efeito de estranheza que o metro original devia ter gerado num romano, pouco acostumado aos metros que horácio incorporou dos gregos em suas odes (catulo também já tinha feito isso com certa sistematicidade, mas com um uso bem mais restrito quanto ao número de formas poéticas). além disso, tentei passar um pouco da secura do poema, seu tom austero e moral, sem penduricalhos (ou, como diria horácio, persicos apparatus).

antologia tradutória, ou quantos horácios cabem num poema?

1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

(quintus horatius flaccus)

* * *

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

(filinto elísio)

* * *

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

(elpino duriense)

* * *

A Leucônidis

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto:
Os vaticínios babilônios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os assentes da Sorte.

Ou Jove te destine mais invernos
À curta idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as taças
De doce vinho, apouca as esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no futuro.

(josé agostinho de macedo)

* * *

A Leucótoe

            Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
            Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão-de ser, se curtas, se compridas;

            Se o escuro lago Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
            Se neste hórrido inverno
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

            Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
            Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

(andré falcão de resende)

* * *

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
            a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
            melhor é suportar
            tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
            quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
            cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
            corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
            Enquanto conversamos
            foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

(péricles eugênio da silva ramos)

* * *

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
            Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

(ezra pound)

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
            Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

(ezra pound via adriano scandolara)

* * *

não me perguntes
                                – é vedado saber –
o fim
que a mim
e a ti
                               darão os deuses
                                                           Leucônoe
                               nem babilônios
números consultes                           antes
                               o que for           recebe
quer te atribua Júpiter muitos invernos
quer o último
                        que o mar tirreno debilita com abruptas
r
o
c
h
a
s
bebe o vinho                      sabe a vida                       e corta
a longa esperança
                                    enquanto falamos
                                                                        foge
                                                                                  invejoso
o tempo:          
                 curte o dia
                                       desamando amanhãs

(augusto de campos)

* * *

não me perguntes
                                 saber não presta
Leuconoe
                    que fim os deuses nos preparam
nem arrisque
                        números de Babel
como se fosse o máximo – o que vier: fature

se o Pai te concedeu vários invernos
ou o último
                      agora o mar tyrrheno cepilha pedras de naufragar
filtre o vinho
                                                                 sorva os coos
                                                                        prazo breve
                                                                        corta
                                                                        a espera
a era já era
                                                                antes do tempo de dizer
estamos conversados

pega este dia
                        crer no próximo
                                                      não vale um nihil

(paulo leminski)

* * *

ODES I, 11

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

Horácio no Baixo
(Odes I, 11)

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

(paulo henriques britto)

* * *

I, 11

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

(leandro cardoso)

* * *

1.11

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

(guilherme gontijo flores)

* * *

para os obcecados que chegaram até aqui & não se saciaram, um link com um punhado de versões para o inglês

guilherme gontijo flores

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8 comentários sobre “horácios na ode 1.11 “a leuconoe”

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Caro Guilherme,
    Acrescentaria à seleção a bela tradução de Márcio Thamos, publicada na revista LETRAS CLÁSSICAS de 2006, na página 212. Copio-a abaixo:

    Não queiras tu, Leucônoe, descobrir
    que fim a ti e a mim darão os deuses
    (nem é bom que se saibam essas coisas),
    esquece a astrologia babilônia:
    melhor deixar que seja lá o que for.

    Quer Júpiter te dê muitos invernos,
    quer seja o derradeiro este que agora
    fatiga o mar Tirreno contra as fragas,
    tem prudência: dilui o vinho e ajusta
    a esperança – que é longa – ao breve instante.

    Foge o tempo invejoso enquanto falo:
    — Colhe o dia e não contes que haja outro.


    Um abraço do
    Alexandre

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