crítica de tradução, tradução

Elizabeth Bishop tradutora

Como já comentei anteriormente, Elizabeth Bishop, além de poeta e prosadora, foi também tradutora nas horas vagas. Em 1972, Emanuel Brasil edita o volume de poemas traduzidos por Bishop intitulado An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry, e ela me pareceu bastante talentosa no ofício. Gostaria de transcrever, então, 3 poemas de autores brasileiros que ela verteu para o inglês (e, só de curtição, 4 sambas, como bônus), de Drummond (aproveitando o momento de homenagem a ele), Bandeira e Vinícius de Moraes, que teve recentemente seu aniversário de morte. São eles os famosos “Poema de sete faces”, “Tragédia brasileira” e “Soneto de intimidade”.

Ela também traduziu trechos, um pouco mais longuinhos, de Morte e vida severina do João Cabral, que só não reproduzo por conta da extensão, e também porque talvez tenha sido sua tradução que, ao meu ver, seja a que menos funciona, por conta do problema das rimas toantes típicas do Cabral, que ela não conseguiu captar tão bem.

Há algumas coisas que podemos comentar sobre suas traduções. A mais evidente, em Drummond, é como ela resolveu o problema do “se eu me chamasse Raimundo”, substituindo o “Raimundo” pelo nome igualmente peculiar “Eugene“, que então rima com “that’d not be what I mean“, e deixa o “universe“, que substitui o “mundo”, para rimar com “verse“, e “faster” com “vaster“. Um malabarismo engenhoso para reproduzir o jogo de palavras do original, digno de nota. No mais, é louvável também a sensibilidade de Bishop para o ritmo (que muitos tradutores menos cuidadosos ignoram quando traduzem poemas em ditos versos livres) e a expressividade oral, evidente, por exemplo, em “my eyes / Ask nothing at all.” e o verso final, com a expressão “play the devil“.

No poema de Bandeira, além dessa questão de um ritmo escondido, porém ainda presente, por uma forma ainda mais prosaica, é interessante o trabalho que Bishop faz na tradução dos nomes dos lugares por onde passaram Misael e Maria Elvira, que eu não sei se são de fato os nomes pelos quais essas regiões do Rio de Janeiro eram/são conhecidas em inglês ou se são invenção dela.

E, por fim, há o poema de Vinícius de Moraes, onde a forma do soneto faz exigências formais mais rigorosas que as dos poemas anteriores. É aqui onde podemos observar algumas alterações mais marcantes na tradução, como a troca do esquema de rimas de abba abba ccd dee para abba cddc efg efg. É notável, sobretudo, nos tercetos, a troca do esquema emparelhado do original (estrume / ciúme / ferve // verve / nenhuma / espuma) por um esquema interpolado (delicious / unenviously / hiss / unmalicious / unemotionally / piss), que, na minha opinião, somado ao adiamento da palavra “piss” para o último verso do poema somente (enquanto “mijar” aparece duas vezes no original), cria um efeito mais dramático na cena final, que funciona quase como uma quebra cômica de expectativa.

Houve também uma exigência de concisão maior, na medida em que ela altera a versificação dodecassilábica por pentâmetros jâmbicos (portanto, uma versificação decassilábica). É uma situação comum, na tradução do inglês para o português, traduzir o pentâmetro jâmbico por dodecassílabos, visto a tendência do português de ter palavras silabicamente mais longas. Assim, Bishop, presumivelmente seguindo a mesma lógica, opta pelo inverso na hora de traduzir o português para o inglês. Por isso as omissões em sua tradução, “Farm afternoons” em vez de “In farm afternoons” (“Nas tardes de fazenda”); o “(I) spit its blood at the corral” para “Vou cuspindo-lhe o sangue nos currais“; as construções com prefixos negativos “unenviously“, “unmalicious“, “unemotionally” em vez de locuções com “without“; e a concisão das frases soltas, quase telegráficas, de “The smell of cow manure is delicious. / The cattle look at me unenviously” em vez da discursividade de uma sintaxe mais amarrada: “Fico ali respirando o cheiro bom do estrume / Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme”. Ao mesmo tempo, apesar de valer-se de um número mais limitado de sílabas, ela sentiu a necessidade de alongar-se mais no 3º verso, onde o singelo “capim” vira “a blade of sticky grass“. Felizmente, ela realiza esse alongamento sem apelar para uma linguagem mais palaciana, e o “sticky” mantém algo do elemento oral, que ela também capta muito bem na redundância do primeiro verso: “há muito azul demais“: “there’s much too much blue air“. Enfim, acredito que a “perda” mais palpável tenha sido a da “festa de espuma” do último verso, que, apesar de ser uma expressão sonora, eu tenho lá minhas dúvidas sobre ser uma grande perda, ou sobre como seria possível verter para o inglês sem ficar estranho (e uma tradução mais próxima do literal, “a foamy party” seria horrorosa).

Assim sendo, me parece que as traduções de Elizabeth Bishop fazem um ótimo trabalho em apresentar um aperitivo (ela, infelizmente, assim como com sua produção poética própria, não traduziu em grande volume) do modernismo brasileiro para o público anglófono interessado na produção do nosso país, além de ser uma curiosidade das mais interessantes para quem tem gosto por sua poesia e por questões de relação entre como os poetas produzem poesia própria e traduzem a poesia alheia.

Adriano Scandolara

Seven-sided Poem

When I was born, one of the crooked
angels who live in shadows, said:
Carlos, go on! Be gauche in life.

The houses watch the men,
men who run after women.
If the afternoon had been blue
there might have been less desire.

The trolley goes by full of legs:
white legs, black legs, yellow legs.
My God, why all the legs?
my heart asks. But my eyes
ask nothing at all.

The man behind the moustache
is serious, simple, and strong.
He hardly ever speaks.
He has a few, choice friends,
the man behind the spectacles and the moustache.

My God, why has Thou forsaken me
if Thou knew’st I was not God,
if Thou knew’st I was weak?

Universe, vast universe,
if I had been named Eugene
that would not be what I mean
but it would go into verse
faster.
Universe, vast universe,
my heart is vaster.

I oughtn’t to tell you,
but this moon
and this brandy
play the devil with one’s emotions.

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

(Carlos Drummond de Andrade)

Brazilian Tragedy

Misael, civil servant in the Ministry of Labor, 63 years old,
Knew Maria Elvira of the Grotto: prostitute, syphilitic, with ulcerated fingers, a pawned wedding ring and teeth in the last stages of decay.
Misael took Maria out of “the life”, installed her in a two-storey house in Junction City, paid for the doctor, dentist, manicurist… He gave her everything she wanted.
When Maria Elvira discovered she had a pretty mouth, she immediately took a boy-friend.
Misael didn’t want a scandal. He could have beaten her, shot her, or stabbed her. He did none of these: they moved.
They lived like that for three years.
Each time Maria Elvira took a new boy-friend, they moved.
The lovers lived in Junction City. Boulder. On General Pedra Street, The Sties. The Brickyards. Glendale. Pay Dirt. On Marquês de Sapucaí Street in Villa Isabel. Niterói. Euphoria. In Junction City again, on Clapp Street. All Saints. Carousel. Edgewood. The Mines. Soldiers Home…
Finally, in Constitution Street, where Misael, bereft of sense and reason, killed her with six shots, and the police found her stretched out, supine, dressed in blue organdy.

Tragédia Brasileira

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura… Dava tudo o que ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos…
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

(Manuel Bandeira)

Sonnet of Intimacy

Farm afternoons, there’s much too much blue air.
I go out sometimes, follow the pasture track,
Chewing a blade of sticky grass, chest bare,
In threadbare pajamas of three summers back,

To the little rivulets in the river-bed
For a drink of water, cold and musical,
And if I spot in the brush a glow of red,
A raspberry, spit its blood at the corral.

The smell of cow manure is delicious.
The cattle look at me unenviously
And when there comes a sudden stream and hiss

Accompanied by a look not unmalicious,
All of us, animals, unemotionally
Partake together of a pleasant piss.

Soneto de Intimidade

Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

(Vinícius de Moraes)

Bônus:
FOUR SAMBAS

Rio de Janeiro,
My joy and my delight!
By day I have no water,
By night I have no light.

—-

Kick him out of the office!
He’s a greedy boy!
I’ve nothing to investigate,
What I want is joy!
Justice has arrived!
“Pull” won’t work again!
Some have fled to Uruguay;
Some have fled to Spain!

Marshál, Illustrious Marshál,
Consider the problem
Of the suburbs of the Centrál!
I’m sorry for poor Juvenal
Hanging in the old Central
All year long…
He works in Leblon
And lives in Delight,
And gets to work mornings
Late at night.
Marshál!

Come, my mulatta,
Take me back.
You’re the joker
In my pack,
The prune in my pudding,
Pepper in my pie,
My package of peanuts
The moon in my sky.

(translations by Elizabeth Bishop)

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3 comentários sobre “Elizabeth Bishop tradutora

    • adriano scandolara disse:

      Obrigado pela correção, Alex, vou incorporá-la ao texto.
      Depois eu vi mesmo que ela fez também um texto introdutório para essa antologia.

  1. By the way, tenho um artigo que pode ser de interesse: “Ecos do modernismo brasileiro no mundo literário anglófono: Bishop, tradutora do Drummond de Alguma poesia” – está disponível na internet. Abraço!

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