poesia, tradução

safo

pouco há para se dizer sobre safo (sappho em grego, psappho no dialeto eólico) e sua poesia. em primeiro lugar, porque todos conhecem um pouco sobre ela (ou ao menos deveriam); em segundo, porque pouco é o que há para se conhecer sobre ela:

a obra que chegou até nós está toda fragmentada; não podemos ter certeza de quanto do que é atribuído a ela possa ter sido escrito pela mulher que viveu em lesbos na virada do século VII-VI a.C. (mesmo a datação é controversa); não sabemos quase nada de fato sobre a realidade, ou o contexto social que possa ter produzido poesia homoerótica feminina dentro de um contexto mais amplo (a hélade, em geral) fortemente patriarcal. em resumo, como essa poesia chegou a existir permanece uma espécie de mistério literário e cultural. obviamente, há uma série de propostas mais ou menos felizes, mas não é o objetivo deste blog adentrar na tecnicália do debate filológico sobre a poesia grega arcaica.

fora isso tudo, o que realmente importa: não foi à toa que ela chegou a ser considerada a décima musa pelos próprios gregos. do pouco que podemos ler, para quem tiver a oportunidade de ler ou ouvir o grego original, a sonoridade é espantosa, é música pura (como era de fato, já que se trata de poesia lírica no sentido estrito; o que, em termos de grécia, significa poesia cantada ao som da lira). mesmo os fragmentos mínimos, de um ou dois versos, quando minimamente inteligíveis, parecem se realizar como haicais criados pelo acaso, tamanho é o poder de som e imagem dos poemas. & é assim que safo consegue exercer um fascínio literário acima da média da poesia grega arcaica fragmentária, porque mesmo em fragmento essa poesia vale a pena.

por isso traduzo aqui os dois poemas mais extensos & famosos, num esforço musical aportuguesado; & para ajudar ao leitor que não conhece grego, deixo ainda dois vídeos: um com a leitura do fragmento 1 em grego, & outro com uma tentativa de recriação do espírito cultural de época: jovens cantam e dançam, fazendo lírica coral acompanhada por instrumento de sopro, e no fim do vídeo, uma versão musicada do mesmo fragmento 1, acompanhada de lira.

nota sobre o texto consultado: usei a edição de Voigt, os fragmentos 1 (que parece ser o único poema integral do corpus) & o fragmento 31, que apresenta uma parte longa, mas está claramente corrompido no final, & não sabemos por quantas estrofes ele ainda poderia continuar; é o poema de base para o também famosíssimo carmen 51 de catulo, que também já traduzi aqui, embora não o poema em questão. penso em, mais adiante, também postar outras traduções de safo.

POEMAS

frag. 1 voigt

De multiflóreo manto, ó Afrodite,
prole de Zeus e tecelã de ardis,
não me domes com náuseas nem angústias
o peito, ó deusa.

Mas vem logo até mim, se alguma vez
me atendeste, ao ouvir a minha voz,
e abandonando o palácio paterno,
teu áureo carro

atrelando, vieste; atrás de belos
velozes pardais, sobre a terra negra,
num turbilhão de asas céu abaixo,
em meio ao éter.

Logo chegaram; tu, ó venturosa,
que em teu rosto imortal és só sorriso,
perguntantes por que eu de novo sofro,
de novo invoco-te,

e o que eu mais quero que aconteça em meu
ânimo insano: “Quem vou persuadir
à tua paixão, ó Safo? Quem agora
te injustiçou?

Se ela te foge, logo seguirá;
se hoje nega os presentes, há de dar;
e se não ama, logo ela amará,
queira ou não queira.”

Agora vem; liberta-me dos duros
pesares; cumpre tudo que meu peito
deseja ver cumprido; e sê a minha
aliada em lutas.

(trad. guilherme gontijo flores)

frag. 31 Voigt

Ele parece-me ser par dos deuses,
esse homem, que à tua frente agora
se senta e bem de perto à tua fa-
la doce atenta

e ao brilho amável de teu riso; juro
que me apavora o coração no peito,
porque assim que te vejo, minha fa-
la já se cala,

a língua inteira se lacera, um leve
fogo brota de pronto sob a pele,
os olhos nada veem, rugem ruí-
dos nos ouvidos,

uma água me inunda, um arrepio
me prende, estou mais verde do que a relva,
e agora já pareço estar a pon-
to de morrer

Mas tudo é suportável, já que um pobre…

(trad. guilherme gontijo flores)

VIDEOS

fragmento 1, lido em grego:

encenação com canto coral de dois fragmentos de epitalâmios, seguido do fragmento 1 em lírica monódica:

 

guilherme gontijo flores

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3 comentários sobre “safo

  1. Que belezas… E as tuas traduções, ó Guilherme, estão mais belas que flores — athanata = imortais [é isso?] — esse sábado vai ser massa lá no Paço…

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