poesia, tradução

rilke, ainda

como disse no último post, também fiz traduções do rilke alemão, realizadas em parceria com maurício cardozo, que saíram na tradução em revista, & que vocês podem acessar aqui, para lerem a intro e ainda outros poemas.

aquilo que interessa, ou ao menos me interessa nesse rilke dos novos poemas é o mesmo que me cativou na poesia francesa: essa captura da alma do objeto; portanto, não se trataria simplesmente de dinggedichte, poesia de coisas, que tanto interessou a augusto de campos, mas de uma poesia pela alma das coisas. & não vejo nisso uma transcendência do objeto numa metafísica epifânica da observação, mas a alma concreta, a vida do objeto, que só pode depender do olhar, ou do pensamento.

sem mais, vão aí, então, mais 2 sonetos, e uma imagem do leonardo MAthias, pra fechar a singeleza da semana.

sorvedouro, de leonardo MAthias

Früher Apollo

Wie manches Mal durch das noch unbelaubte
Gezweig ein Morgen durchsieht, der schon ganz
im Frühling ist: so ist in seinem Haupte
nichts was verhindern könnte, daß der Glanz

aller Gedichte uns fast tödlich träfe;
denn noch kein Schatten ist in seinem Schaun,
zu kühl für Lorbeer sind noch seine Schläfe
und später erst wird aus den Augenbraun

hochstämmig sich der Rosengarten heben,
aus welchem Blätter, einzeln, ausgelöst
hintreiben werden auf des Mundes Beben,

der jetzt noch still ist, niegebraucht und blinkend
und nur mit seinem Lächeln etwas trinkend
als würde ihm sein Singen eingeflößt.

Apolo primitivo

Como por vezes dentre desfolhada
rama se vê a aurora, inteira em pura
primavera; em sua cabeça nada
é capaz de impedir que o que fulgura

na poesia nos fira um golpe cruel;
pois não existem sombras no seu rosto,
as têmporas são frias pr’ o laurel,
e mais tarde dos cílios, de alto posto,

excelso roseiral surge da toca,
e cada pétala caída, quanto
ganha vida no tremular da boca

sempre imóvel, sem uso, reluzente,
e em seu sorriso algo de absorvente
sorve, como se lhe insuflassem canto.

(trad. guilherme gontijo flores)

Gesang der Frauen an den Dichter

Sieh, wie sich alles auftut: so sind wir;
denn wir sind nichts als solche Seligkeit.
Was Blut und Dunkel war in einem Tier,
das wuchs in uns zur Seele an und schreit

als Seele weiter. Und es schreit nach dir.
Du freilich nimmst es nur in dein Gesicht
als sei es Landschaft: sanft und ohne Gier.
Und darum meinen wir, du bist es nicht,

nach dem es schreit. Und doch, bist du nicht der,
an den wir uns ganz ohne Rest verlören?
Und werden wir in irgend einem mehr?

Mit uns geht das Unendliche vorbei.
Du aber sei, du Mund, daß wir es hören,
du aber, du Uns-Sagender: du sei.

Canto das mulheres ao poeta

Como tudo que surge: somos tal
e qual, de uma alegria que não finda.
O que era sangue e sombra no animal,
cresceu em nós como alma e grita ainda

como alma. E é por ti que grita e clama.
Você de certo sente e só cogita
o olhar sem rosto: tépido e sem gana.
Não, não achamos que é por ti que grita.

Mas não seria enfim você, quiçais,
aquele um em quem nos consumimos?
E nalgum outro, havemos de ainda mais?

Conosco o infinito um fim enseja.
Você, boca, você seja, que ouvimos,
você, o que-nos-diz: você, que seja.

(trad. mauricio mendonça cardozo)

guilherme gontijo flores

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