crítica, poesia

As verdadeiras formas do nada

É difícil negar que Paulo Henriques Britto seja um dos principais nomes da poesia brasileira contemporânea – bem como da tradução literária também (tendo recentemente traduzido o beemote que é o Contra o Dia, de Thomas Pynchon). E o certo frisson causado nos círculos literários pelo lançamento de seu último livro de poemas, Formas do Nada (Cia das Letras), há alguns meses já, é prova disso. Sendo assim, não poderíamos ficar sem comentá-lo aqui no escamandro, uma tarefa que se provou ser mais difícil do que eu esperava, em parte porque o problema que apontarei neste comentário no desenvolvimento da poética de Britto é um problema com o qual eu também preciso aprender a lidar pessoalmente.

Para quem não conhece o autor, indico esta resenha do meu amigo Irinêo Baptista Netto, que saiu no jornal Gazeta do Povo, em abril, onde está apresentada de uma forma muito clara – a clareza que só os jornais podem ter – a trajetória do autor, seu currículo, publicações, etc, e o que podemos ver como um dos apelos de sua poética, que é como ele atinge o poético através do banal e do cotidiano, com a própria linguagem do cotidiano (nenhuma novidade para quem tem contato com uma certa tradição oralizante, de Horácio a Wordsworth e além, mas digno de nota pelo modo como Britto incorpora isso).

Quem, porém, já conhece Britto de outros carnavais, não deve ter se surpreendido com Formas do Nada, encontrando nele, além daquilo comentado no artigo da Gazeta, a já esperada preferência pelas formas fixas (sobretudo a do soneto) e rimadas (com algum gosto pela rima toante e imperfeita), com poemas às vezes escritos em grupos (“Cinco sonetos frívolos”, “Seis sonetos soturnos”, etc), a dicção que mescla o erudito e o cotidiano, com uma certa timidez, que me soa como bastante típica de quem passa a vida na companhia dos livros, além de, claro, o seu típico tom pessimista/melancólico. Tudo bastante familiar. Pois Britto não é Ferreira Gullar, que transitou entre o neoconcretismo, a poesia de cordel, a poesia engajada, a poesia suja e hoje anda fazendo estranhas revisitações sentimentais da poesia do século XX. Em vez de procurar a experimentação e a variedade, Britto foi atrás da definição de uma voz poética, símbolos e temáticas muito próprias e distintivas, a contrapelo do que quer que se estivesse em voga na época – e isso fica evidente desde os seus primeiros livros, na medida em que Liturgia da Matéria, publicado em 1982, em nada lembra o que se esperaria de um poeta carioca dos anos 80. Não deixa de ser louvável que ele tenha conseguido se estabelecer como poeta sem o apoio de uma cena, um grupo de outros poetas semelhantes.

E acredito que Britto tenha mantido bem o seu fôlego poético ao longo dos anos, como espero demonstrar com os poemas que selecionei e transcrevi abaixo – 3 poemas tirados de seu último livro, que, além de compartilharem o fato de serem o número 5 nas séries em que aparecem (pura coincidência, juro), são também particularmente fortes.

Cinco sonetos frívolos

    V

Súbito? Não. A coisa morre à míngua,
um risco vira traço e o traço, ponto.
Por exemplo: uma manhã de domingo, a
mesa posta pro café, tudo pronto
pra não se fazer nada – ou então
a noite de uma terça-feira inane,
sob o quebranto da televisão –
mas isso não importa; que se dane
o tempo, e o lugar também (um boteco?
o elevador?) – pois chegou ao final
um processo previsível, perverso,
trivial, que reduziu o universo
a uma bolinha de papel, da qual
você se livra com um peteleco.

Biographia literaria

    V

Céu azul. Cores vivas. Você rindo
de alguma coisa ou alguém que está à esquerda
do fotógrafo. É talvez domingo.
É claro que essa sensação de perda

não está na foto, não – não está na imagem
extremamente, absurdamente nítida.
E se fosse menor a claridade,
ou se estivesse sem foco, ou tremida,

ou se fosse em sépia, ou preto e branco,
talvez a foto não doesse tanto?
Você, às gargalhadas. O motivo

você não lembra. A foto é muito boa.
Naquele tempo você ria à toa,
você lembra. Você ainda era vivo.

Seis sonetos soturnos

    V

As coisas sempre podem piorar.
Não há limite para o abismo estreito
que se abre justamente no lugar
onde a relação entre causa e efeito
parece indicar que a crosta é mais dura
e é mais remoto o risco da ruptura.

E no entanto, aberta a fenda, uma vez
desmascarada a aparência enganosa
de integridade e estrita solidez,
a mente busca uma saída honrosa
e com algo assim por fim se contenta:
Agora sei onde a corda arrebenta.

Refeita, pois, do golpe, e sem temer mais nada,
expõe um novo flanco à próxima porrada.

*

Como eu disse, Britto tem mantido um estilo mais ou menos estável desde o seu início de carreira, mas, pelo que fica evidente sob um olhar mais detido, uma análise de sua trajetória poética revela o que eu gostaria de chamar de um processo de destilação do seu estilo.

Explico. Se observarmos, por exemplo, os seus primeiros livros, Mínima Lírica e Liturgia da Matéria, veremos técnicas e procedimentos que Britto abandonou no caminho, de modo análogo a como as impurezas vão sendo deixadas para trás por um processo de destilação – digamos, num alambique. Não que esses procedimentos, sobre os quais me deterei agora, sejam “impurezas” por si, mas, em alguns casos, eles talvez diluíssem um pouco aquilo que Britto tinha a dizer, que agora ele declara quase que sem distrações.

A primeira coisa que me salta aos olhos na comparação com os livros anteriores é a falta de poemas de temática amorosa, que apareciam sobretudo nos primeiros livros e um pouco ainda nos poemas em inglês em Macau, de forma mais comedida – e, em se falando de poemas em inglês, eles também são uma minoria em Formas do Nada, se resumindo ao poema “Lagniappe” (uma palavra estranha que quer dizer, talvez algo significativamente, um brinde) e às auto-traduções.

Em segundo lugar, sumiram o humor e a escatologia. A sujeira, a preocupação com as coisas mais baixas do corpo, de poemas como “Concerto campestre” (Liturgia), “Um pouco de Strauss” (Trovar Claro) e “O Metafísico Constipado” (Tarde), por exemplo, estão ausentes aqui. Contraste também as aberturas, sempre metapoéticas (outra constante) de Macau, que se inicia com o poema “Biodiversidade” (e só), com a sequência de vários poemas metapoéticos que abrem Formas do Nada: contra a imagem absurda e cômica do poema como um cágado virado com as pernas pro ar, temos agora versos tácitos como “A coisa vai mal”. E isso reflete ainda outra perda, que é a das imagens – pense na imagética de “9 variações sobre um tema de Jim Morrison”, também em Macau, ou outras imagens de efeito, como, anteriormente, “Bendita a boca, / essa ferida funda e má” (“Elogio do mau”, Liturgia) e “O tempo era uma lagarta enorme / sem patas” (“Mantra”, Mínima Lírica), etc. Alguma coisa imagética ainda sobrevive aqui e ali, como em “Pequeno manual de retórica”, ou o verso “Dias de amarrar barbante ao redor /do nada, e capturar um deus menor”, no primeiro dos “cinco sonetos frívolos”; mas a impressão que se tem é que Formas do Nada é o mais realista até então, onde reina nem mesmo uma realidade banal vista sob a ótica do fantástico, mas o mero banal. E ponto. Um poema como “Tríptico para hotel e sirene”, em três partes, é um sinal disso, assim como os sonetos que postei acima.

Tríptico para hotel e sirene

II

Esta é a hora inaugural da noite.
Toda a energia esbaldada do dia
agora se recolhe compungida
por trás das persianas. Seis e oito.

Escurece. Os prédios olham de esguelha
pro trânsito feroz, domesticado
a custo. Uma sirene desgrenhada
se esvai, desafinando. Seis e meia.

Alguém no quarto ao lado liga um rádio.
No corredor, uma risada breve
responde a um inaudível comentário.

Mais risos soltos: a noite promete.
Lá fora está escuro – estamos em maio,
o inverno se aproxima. Quase sete.

*
Mas o que mais se sente falta é daquela pontinha de experimentalismo, que deu resultados muito desengonçados no começo de carreira, como “Barcarola”, mas culminou no genial “Até segunda ordem” (Trovar Claro), escrito como uma série de mensagens que dão a entender o acontecimento de alguma atividade ilegal e clandestina, que fica sugerido ser o próprio ato poético. Talvez esse seja o passo para trás dado no desenvolvimento da poética que agora nos traz Formas do Nada. Sem todas essas coisas para dourar a pílula, como se diz, o que refulge aqui é algo que já aparecia lá em Liturgia, que é o tema do completo fracasso: “Falhei até no fracasso” (“Balancete”), “Então viver é isso” (“Duas Bagatelas”): o vazio, o nada (daí, evidentemente, o título). Do fracasso de uma empreitada qualquer falida ao fracasso definitivo do corpo, da memória, da vida, todas as coisas contra as quais não temos poder. A poesia que, em sua encarnação moderna, nasce do fracasso da palavra, da impossibilidade de se expressar claramente o que se queria e deveria expressar, é, assim, também outro fracasso, e, se a atividade de escrever para quase ninguém soava engraçadinho antes, agora já não se ri mais.

E assim vamos chegando ao principal problema de Formas do Nada. Há um probleminha, menor, de ser também um livro um pouco desigual – sobretudo por conta dos poemas que usam a forma fixa das quadras rimadas em redondilha –, mas o que talvez incomode mais seja esse vazio existencial que, sem nada que o dilua, acaba por tomar conta do livro e lembrar as noções do absurdismo – de Albert Camus (O Mito de Sísifo), Samuel Beckett, etc – de que a existência não tem sentido e que sofremos por tentar encontrar sentido nisso tudo, mas que se deve continuar vivendo mesmo assim, apesar disso, ainda que os autores absurdistas sejam, como os existencialistas, dos mais dolorosos e (com perdão do trocadilho sartreano) nauseantes de se ler. A única tentativa de restaurar algum “otimismo” aqui parte da tradução que Britto faz da ode 1.11 de Horácio (intitulada “Horácio no baixo” e postada já aqui, junto com tantas outras traduções), mas que, no contexto, não convence, nem anima, o carpe diem sendo facilmente incorporado pelo absurdismo. A questão acaba sendo não tanto se vale a pena incorporar (ainda que não declaradamente, mas as semelhanças são difíceis de ignorar) um pensamento nascido no pós-guerra, o momento indiscutivelmente mais desiludido e desesperado da história do Ocidente, mas ao que isso leva? Em Beckett, que melhor encarna o absurdismo, ainda que também seja muitíssimo cômico a princípio, a culminação é o silêncio, a pantomima, as micro-peças que duram entre 5 minutos e 30 segundos (vide Breath), o “nada a fazer” de Didi e Gogo.

Enfim, não é que eu esteja fazendo pouco caso de Formas do Nada – e, afinal, quem sou eu para isso? Não é essa a questão. É um livro de poemas sólido e, ainda que não meu favorito da carreira de Britto (para mim, esse lugar pertence a Macau), é muito acima da média, como espero ter demonstrado com os 3 sonetos que compartilhei, de evidente força emocional (“Você ainda era vivo”, um soco no estômago). No contexto da poesia brasileira contemporânea, então, especialmente em contraste com o que é produzido em alguns círculos, a poesia de Britto é ainda mais preferível por ter o mérito de conseguir manter sempre em vista o humano, algo que alguns escritores e leitores por vezes esquecem na empolgação frenética com a parafernália e a pirotecnia da linguagem. A questão é que, uma vez destilada e nua, a poética de Britto nos leva a isso: ao nada, sem as distrações do humor, das imagens impactantes, das relações humanas, e feito tão evidente por esse processo de destilação que está aberto e escancarado na própria capa.

(Adriano Scandolara, poemas de Paulo Henriques Britto.)

(Agradecimentos ao Irinêo, pela resenha e pelas conversas à época do lançamento do livro; ao Guilherme por ter me acompanhado na discussão e na evolução do pensamento sobre o assunto todo; e à Letícia, pela empréstimo da metade da bibliografia que me faltava)

PS: para quem caiu aqui procurando uma análise para o vestibular da UFMG: utilizem minhas opiniões por sua conta e risco. Não me responsabilizo pelo resultado de ninguém no vestibular.

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