crítica, poesia, tradução

Omar Khayyam

Omar Khayyam foi um sábio que viveu na Pérsia entre os séc. X-XI. Escreveu textos de matemática, astronomia e metafísica, mas se tornou especialmente conhecido no Ocidente após a tradução de Edward FitzGerald, no século XIX, de alguns de seus rubaiyat.

A questão da autoria desses poemas é bastante controversa. É apenas no séc. XII que encontramos uma citação de versos seus e apenas no séc. XV que começam a aparecer pequenas coletâneas de quartetos (em persa rubai, pl. rubaiyat) em seu nome. Além disso, muitos dos quartetos aparecem em manuscritos medievais com o nome de outros autores.

Tudo indica que o Khayyam poeta é, antes de tudo, uma persona poética utilizada por vários escritores no decorrer dos séculos para veicular um certo tipo de poesia. Parece-me que Khayyam representa a voz do sábio, que após dominar todo o conhecimento humano, reconhece que a sua falta de importância diante da brevidade da vida e da incerteza do mundo.

Uma outra controvérsia interessante diz respeito à possibilidade de interpretar esses poemas em uma perspectiva mística. O Khayyam de FitzGerald é uma espécie de sábio estoico desiludido com a vida e o conhecimento. Mas essa não é a única leitura possível. Alguns dos elementos que estão constantemente presentes nesses quartetos, como o vinho, aparecem em outros autores persas como o símbolo do êxtase místico. Além disso, temas como a brevidade da vida, a fugacidade do mundo, a necessidade de viver o momento presente e a insuficiência do raciocínio discursivo foram tão usados por aqueles que falam de uma experiência supra-discursiva quanto por céticos e niilistas. Por isso não é de se estranhar que, ainda no séc. XIX, tenhamos, ao lado da versão de FitzGerald, a tradução francesa de J.B. Nicolas, que se encaminha mais para essa interpretação mística, que aliás, Nicolas parece aprendido com um mestre sufi do Teerã.

De qualquer modo, essa ambiguidade parece ser recorrente na poesia persa medieval, aparecendo, de um modo ainda mais nítido, em autores como Hafez. Os dois poemas que transcrevo aqui, na versão em português feita por Otávio Tarquínio de Sousa, são bons exemplos de textos que podem ser lidos nessa perspectiva.

 

I.
Bebe vinho!
Só ele te dará a mocidade,
ele é a vida eterna!

Divina estação das rosas
do vinho e dos bons amigos!

Sê feliz um instante,
o instante fugidio
que é tua vida

 

II.
Não pedi
a vida a ninguém

Esforço-me por acolher
sem espanto e sem cólera
tudo o que a vida me oferece.

Partirei sem indagar
o motivo da minha misteriosa
estada neste mundo

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s