poesia, tradução

o amor segundo robert creeley

robert creeley

p/ fernanda & íris

há sempre uma sedução no arbitrário. lembro-me de uma conversa, faz pouco tempo, com tarso de melo, sobre a inevitável arbitrariedade das antologias literárias: não se trata de uma falha, é claro, mas da própria constituição antológica – nós podemos livremente fazer antologias de poetas bissextos, de poetas mais ou menos contemporâneos, de poetas fenomenológicos, antroposóficos, uma antologia da poesia sobre modess, &c. a graça dessas seleções nunca estaria numa perfeição do método, ou no acerto inquestionável das escolhas, mas no próprio arbitrário de uma seleção subjetiva, ou mesmo sentimental, que se dá desde a proposta inicial. por isso mesmo, penso que há toda uma inutilidade no questionamento objetivo de qualquer antologia – não é a isso que ela se presta.

essa fala inicial pode parecer um pouco exagerada, porém marca a própria origem desta antologia poética de robert creeley (1926-2005). embora ele tenha escrito um livro bastante famoso intitulado for love, o que poderia me justificar; não foi essa a causa imediata da seleção, & sim um poema de leandro rafael perez, que encontrei por acaso em seu blog, fumante entre cavalos:

RC (Robert Creeley/Roberto Carlos)

tinha que haver mais “urgência”
não sei por que me agarro tanto a algo que quando é real urge

deve ser a falta que você me faz,
do tamanho de uma explanação contundente

Só nos falta o imperativo
— vem com pressa, a tarde

é fria, imagina a noite
(leandro rafael perez)

a relação inusitada entre as consoantes iniciais de roberto carlos & robert creeley dentro de um poema amoroso (belo poema amoroso, por sinal), associada ao outro acaso de eu amar profundamente uma mulher apaixonada por roberto carlos, me instigou, devido ao terceiro acaso desta série (a saber, ter acabado de comprar a poesia completa de creeley em 2 vols.), a iniciar o projeto de traduzir todos os poemas que contivessem a palavra love em seu título, ou no primeiro verso. o projeto se mostrou maior do que as possibilidades de um blog: creeley escreveu muitos poemas que se enquadravam no meu mote antológico. por isso, este recorte foi ainda mais abreviado & arbitrário, resumindo-se a meros 8 poemas. peço, portanto, a vênia dos maus críticos de plantão, tanto pelo absurdo gracioso da idéia, quanto pela incompletude do método; & fecho esta abertura com duas observações:

  1.  para aumentar a arbitrariedade do todo, traduzi o poema “the language“, que não se enquadra plenamente na proposta inicial, porque, por outro lado, ele retoma o post de adriano scandolara sobre os paradoxos da linguagem, ao mesmo tempo em que utiliza a afirmação amorosa como exemplar desses paradoxos;
  2.  pretendo mais adiante apresentar outros poemas, como “for love” & “the act of love“, que não entraram aqui por serem muito longos, embora já estejam traduzidos.
guilherme gontijo flores

“the last tango in prague”, 2000, de jan saudek


Amor

A coisa acontece
sozinha
               (Olha lá
e veja
               o gato & o esquilo,
                                                      um
destroçado, um troço vermelho,
                                             & o outro
de algum modo imaculado

Love

The thing comes
of itself
               (Look up
to see
               the cat & the squirrel,
                                                            the one
torn, a red thing,
                                                       & the other
somehow immaculate

Amor

Não basta. A questão: o que é.
Dado: graça
                              o tempo deste instante
que não vejo como tempo.
Detalhes: carvalho, o grão do, carvalho.
E o que sombras elásticas podem
virar aqui.

Fale algo que eu já não saiba.
Do amor, eu ouço, diga:
conte-me, do amor…
                                             A mão agachada.
Infatigável.
                              Mas ande logo, mas sem
delongas!

… a mancha do amor recobre o mundo!

Que eu não escrevi.

Love

Not enough. The question: what is.
Given: grace
                              the time of this moment
which I do not see as time.
The particulars: oak, the grain of, oak.
And what supple shadows may come
to be here.

Tell me something I don’t know.
Of love, and I hear it, say:
speak to me, of love . . .
                                             The crouched hand.
The indefatigable.
                              But quicken, but be
the quick!

. . . the stain of love is upon the world!

Which I have not written.

Amor

No rastro dessa
tristeza interminável –

como disse alguém,
vire o disco.

Love

Tracking through this
interminable sadness –

like somebody said,
change the record.

AMOR –
deixe-o

Solto,
Abra

Mais,
mais vorazmente –

Em toda parte
todo mundo.

LOVE –
let it

Out,
open up

Very
Very voraciously –

Everywhere,
everyone.

O AMOR, SEU frágil traço . . .

LOVE’S FAINT trace . . .

Amor

Tu serás pó
Ao ler isto?

Tu serás triste
Se eu me for?

3/19

Love

Will you be dust,
reading this?

Will you be sad
when I’m gone.

3/19

Amor

Há palavras voluptuosas
como a carne
em sua umidade,
seu calor.

Tangíveis, dizem
a paz,
o alívio,
de ser humano.

Não falá-las
torna abstrato
todo desejo
e sua morte por fim.

Love

There are words voluptuous
as the flesh
in its moisture,
its warmth.

Tangible, the tell
the reassurances,
the comforts,
of being human.

Not to speak them
makes abstract
all desire
and its death at last.

 A Língua

Encontre eu
te amo nalgum
lugar dos

dentes e
olhos, morda
mas

cuidado pra não
ferir, você quer

tanto tão
pouco. Palavras
dizem tudo.

Eu
te amo
de novo,

e o vazio
pra que
serve? Pra

encher, encher.
Ouvi palavras
e palavras cheias

de buracos,
doendo. A fala
é uma boca.

The Language

Locate I
love you some-
where in

teeth and
eyes, bite
it but

take care not
to hurt, you
want so

much so
little. Words
say everything.

I
love you
again,

then what
is emptiness
for. To

fill, fill.
I heard words
and words full

of holes
aching. Speech
is a mouth.

(traduções guilherme gontijo flores)

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4 comentários sobre “o amor segundo robert creeley

  1. Queria parabenizá-los pelo blog. Já li vários posts aqui, e me admira a qualidade do trabalho de vcs. Contextualizando os poetas escolhidos, e sempre discorrendo de forma agradável. Gosto muito daqui e agradeço a todos pelo apreço no trato com a poesia.

    Abraços!

  2. Pingback: O amor/A língua | diários de metacrítica

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