crítica, poesia, tradução

alejandra pizarnik: un signo en tu sombra (1955)

o amor, que com creeley, como visto no post abaixo, assume variadas formas e atos, e pelas nossas próprias mãos veste trapos ou ilustres mantos, torna-se sublime ou sujo ou vulgar ou natural, poeticamente ou não, o amor, enfim, encontra em pizarnik uma realização obscurecida e angustiante. não à toa os leitores de hilda hilst se encontrarão bastante familiarizados com essa poesia do amor ao outro, do vazio, da perda, do escuro e, não devemos esquecer, de uma esperança gasta e envelhecida. esses mesmos leitores reconhecerão o surreal, a subjetividade que flutua e deságua em sentimentos que às vezes, de tão pouco claros, são imediatamente reconhecíveis àquele que identifica em si mesmo o mínimo tom agoniado de uma alma em desespero na busca do toque amado/amoroso. portanto, nessa pequena coleção de seis poemas intutulada ‘un signo en tu sombra’, veremos uma pizarnik bastante próxima ainda da que vimos em ‘la tierra más ajena’ (obra que traduzi integralmente e postei em duas partes neste blog; clique para ler a pt. 1 e a pt. 2). sendo do mesmo ano, estilisticamente ainda vemos a mesma pizarnik, embora tematicamente vejamos uma poesia bastante mais concentrada em uma única temática: o TU. em ‘un signo en tu sombra’, pizarnik dedica toda a sua poesia a esse outro ausente, ansiando pelo toque, dualisticamente comparando a sujeira de seu amor terreno ao limpo amor celeste, frequentemente se utilizando de imagens relativas à noite e à fumaça, ao vinho, aos barcos e ao borbulhar das águas. o silêncio, como no primeiro livro, continua incomodamente presente, como o amor que espera e “chora, com seu coração por dentro atado” (argonáuticas, 1.274) de tamanho dano que sofreu. assim, como uma apresentação a este livro de alejandra pizarnik, publico como um tipo de epígrafe o poema de hilda hilst intitulado ‘roteiro do silêncio’, da obra homônima publicada em 1959.

vinicius ferreira barth


hilda hilst – roteiro do silêncio

Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

gabriel pacheco

arte por: gabriel pacheco (2011) – link

ALEJANDRA PIZARNIK
UM SIGNO EM TUA SOMBRA (1955)


IR-ME EM UM BARCO NEGRO

as sombras amparam a fumaça veloz que
dança na trama
deste festival silencioso
as sombras escondem vários pontos escuros que
giram e giram entre teus olhos
minha pena retarda o TU ofegante
minha têmpora pulsa mil vezes TEU nome
se teus olhos pudessem vir!
aqui sim amor aqui
entre as sombras a fumaça e a dança
entre as sombras o escuro e eu

CÉU

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de uma ducha gelada)

as nuvens se movem

penso em teu rosto e em ti e em tuas mãos e
e no ruído de tua pena e em ti
mas teu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo aderido a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro de tela adesiva
sigo caminhando

um coquetel mental ladrilha minha fronte
não sei se pensar no céu ou em ti
e se jogasse uma moeda? (cara tu coroa céu)
não! teu ser não se arrisca e
eu te desejo te de-se-jo!
céu pedaço de cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos de meu amor

pensemos nos dois

os dois tu + céu = minhas galopantes sensações
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes

longe

sim amor estás longe como o mosquito
sim! esse que persegue a uma mosquita junto
ao farol amarelosujo que vigia sob o
céu negrolimpo esta noite angustiosa
cheia de dualismos

VOU CAINDO

1

o vinho é como um choro desolado que
umedece minha juventude frente a teus beijos que
outra engole
o vinho é o elixir que pulveriza os
pestilentos desejos de
meu corpo que
esvoaça gemendo frente à tua efígie de
sombra estrovinhada

2

o vinho se aclara misturado às minhas
lágrimas tão mudas
teu rosto de cigano enfarinhado aparece em
cada borbulho
minha garganta é um arquipélago maldito
minha fronte a tampa de um poço imundo
desejar-te amor e enfrentar tua altura com
bregas angústias!

SÓ UM AMOR

meu amor se amplia.
é um paraquedas perfeito.
é um clique que se exala e
seu peito se faz imenso.
meu amor não ruge
não clama
não roga
não ri.
seu corpo é um olho.
sua pele um mapamundi.
minhas palavras perfuram o
último sinal de seu nome.
meus beijos são enguias que ele
se ufana em deixar resvalar.
minhas carícias um jorro reminiscente de
música sobre fontes de Roma.
ninguém pôde fugir ainda de seu território
anímico.
não há rotas nem dobras nem insetos.
tudo é tão limpo que minhas lágrimas se
sublevam.
minha criação é uma pantomimice junto a
sua loura carroceria.
nestes momentos o tinteiro alça voo e
se alinha até os limites inacabáveis de
mosquitos fazendo amor.
soa o fatídico som. já não voo.
é meu amor que se amplia.

ALÉM DO ESQUECIMENTO

alguma vez de uma borda da lua
verás cair os beijos que brilham em mim
as sombras sorrirão altivas
brilhando o segredo que geme vagando
virão as folhas impávidas que
algum dia foram o que meus olhos
virão as murchas fragrâncias que
inatas descenderam do alado ser
virão as rubras alegrias que
borbulham intensas no sol que
redondeia as harmonias equidistantes
na fumaça dançante do cachimbo de meu amor.

DISTÂNCIA

meu ser repleto de barcos brancos.
meu ser rebentando sentires.
toda eu sob as reminiscências de
teus olhos.
quero destruir o comichão de tuas
pestanas.
quero evitar a inquietude de teus
lábios.
por que tua visão fantasmagórica re-
dondeia os cálices
destas horas?

(traduções de vinicius ferreira barth)

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