crítica

Elizabeth Bishop – Em apreciação dos poemas de Shelley

2012 é um bom ano para a poeta Elizabeth Bishop. Além de termos um filme, intitulado The Art of Losing ou Flores Raras, em português, saindo este ano, sobre a relação amorosa dela com a arquiteta Lota de Macedo Soares, a Companhia das Letras recentemente publicou um volume de poesia da autora chamado “Poemas do Brasil” (tradução de Paulo Henriques Britto). Curiosamente, tive notícia desses acontecimentos enquanto preparava este post, que, pelo fato de eu não ter encontrado na internet o texto que aqui traduzo (o que me forçou a ter que traduzir com o livro em mãos), acabou demorando um tempinho.

Bishop já não é nenhuma estranha aqui no escamandro, e não preciso professar mais uma vez meu gosto por sua poesia. Sendo assim, de posse de sua obra completa (coleção Library of America), uma vez lida a parte de sua breve produção poética, eu fui me embrenhando pelos outros textos da autora e acabei descobrindo coisas muito interessantes. E, dentre as coisas interessantes que encontrei, está um breve ensaio de Bishop sobre o poeta romântico Percy Bysshe Shelley, intitulado “In appreciation of Shelley’s poems”. Quem me conhece, sabe que estudo Shelley desde a época da monografia, e que, agora em minha dissertação, meu foco é o estudo e tradução de seu drama lírico Prometeu Desacorrentado. É sempre uma experiência muito reveladora observar o que um autor de quem você gosta pensa sobre outros autores, ainda que essa possa ser uma experiência potencialmente frustrante – como costuma ser no caso, por exemplo, da leitura dos comentários críticos de Ezra Pound, que, apesar de ter algum fascínio, decepciona com a lista de autores que desconsidera, como John Milton ou Edgar Lee Masters, que postamos já aqui no escamandro, além de Virgílio, os românticos, quase toda a poesia alemã, etc.

Poderíamos ter algumas ressalvas quanto às opiniões de Bishop, sobretudo se quisermos levar seu comentário a sério (digamos, academicamente), no que diz respeito ao caráter impressionista do texto e a uma certa ingenuidade que Bishop expressa… no entanto, vale a pena lembrar que ela tinha apenas 16 anos quando escreveu este texto. Mas, apesar da pouca idade, sua erudição, sensibilidade e lucidez são notáveis, e as conclusões a que ela chega no penúltimo parágrafo, em especial, são prova disso.

De qualquer modo, mesmo para quem não tem interesse em Shelley, acredito que esse texto diga tanto sobre Bishop quanto diz sobre Shelley.

Em apreciação dos poemas de Shelley

Passei este verão em Cape Cod[1], cercada por bosques pitorescos, sob a sombra de pinheiros-da-Virgínia, dunas desoladas e brilhosas de sol e baías cujo azul intenso amortece os sentidos à tudo que não seja cor. Tais coisas são extremamente condutoras à leitura de poesia e, a princípio, eu me fartei com todo tipo de iguarias de várias antologias, mas no final acabei devotando todo o meu tempo a Shelley. Claro que li alguns outros livros, o mais impressionante deles sendo A Saga Forsyte de John Galsworthy. Suas numerosas altercações familiares e casamentos internos muito me empolgaram, mas o estilo realista do livro não combinava nem um pouco com os meus arredores, e logo me vi lendo-o somente nos dias chuvosos cujo tom sombrio lhe conferia o pano de fundo certo. Mas Shelley estava perfeito. Eu fui cativada por ele desde que memorizei a primeira estrofe de “A Nuvem” na segunda série; então decidi definitivamente estudá-lo. Com seus poemas num bolso, e Ariel, sua biografia escrita por Andre Maurois[2], no outro, e as nuvens e os barcos à vela que ele tantou amava ao meu redor, eu sentia que havia ganho uma compreensão e apreciação mais profundas em relação a ele.

O único verdadeiro modo de se compreender a poesia é conhecendo a vida e as crenças do poeta, e isso é válido sobretudo para Shelley, cujos poemas foram todos escritos ou para estender suas ideias filosóficas ou para expressar uma de suas sutis mudanças de humor. Biografias costumam ser muito secas, sugando tudo que há de vivo naqueles de quem falam, mas Ariel é diferente ao extremo. Ele traz Shelley a um nível terrestre sem tirar nada de sua estranha espiritualidade. Eu, que prefiro levar meus poetas a sério, por vezes não gostei do tratamento irônico dado às desventuras de Shelley, mas foi a única falha que pude encontrar no livro.

O melhor modo de se compreender Shelley é ler uma parte de sua biografia e depois ler os poemas que foram escritos durante esse mesmo período de sua vida[3]. O caráter de Shelley não era daqueles que costumavam mudar muito. Ele era uma chama clara e firme à qual a desilusão e a tragédia conferiram cores mais profundas. Um bom exemplo disso é o Prometeu Desacorrentado, seu maior drama[4]. Ele foi escrito, em sua maior parte, enquanto Shelley vivia em Roma, durante um dos períodos mais felizes de sua vida. É repleto das mais belas imagens da natureza, refletindo todas as coisas que ele via ao seu redor, e o lirismo singular de todo o poema expressa sua felicidade na época. Ele mostra as mesmas crenças e esperanças de reformar a humanidade que os seus primeiros poemas, mas não há mais uma listagem fútil das falhas da Terra. Shelley chegou ao ponto de entender que ele sozinho poderia fazer muito pouco contra a ignorância e a convenção, e, sem tentar simplificar seus poemas para ter um maior apelo ao público geral, como fizera anteriormente, ele escrevia exatamente como se sentia. O resultado é um padrão intrincado de espíritos, tempestades, música e nuvens, todos movidos por suas ideias arrebatadoras. É impossível lê-lo e ver as coisas exatamente como eram antes.

Eu me lembro de estar navegando num fim de uma tarde deste verão para uma ilha bem distante da baía. Era um lugar soturno e deserto – nada a não ser areia e gaivotas. Nós, os marinheiros do acampamento em que eu estava, planejávamos acampar lá durante a noite. Durante todo o longo percurso lemos Shelley a partir de uma cópia em brochura e molhada da água do mar. Era uma noite fria e pontuada de estrelas, e eu dormi com a música de seus versos ecoando em meu cérebro. De manhã cedo, nós nos sentamos para ver o sol nascer. Começou com uns dedos róseos e apagados alcançando o leste e por fim flamejou num ouro candente que raiou pelas águas e manchou as dunas e as gaivotas em voo com seu dourado. Na hora, me pareceu que Shelley era um espírito da alvorada – uma de suas próprias criaturas, sobre a qual ele diz:

Vê onde, com alados pés, o filho
Do Céu extingue a luz da aurora oblíqua.[5]

(texto de Elizabeth Bishop, tradução e introdução de Adriano Scandolara)

Notas:

[1] Uma península ao leste do estado de Massachusetts, nos EUA.

[2] Essa famosa biografia de Shelley foi traduzida para o português por Manuel Bandeira (editora Record).

[3] É interessante apontar como, de fato, essas alterações são visíveis na produção de Shelley. Seus primeiros poemas maduros (i.e. que não fazem parte do que se chama de sua juvenília) são compostos em 1816, ano em que fez uma viagem com Mary Shelley e Lord Byron à Suíça. Em 1819, ano do Massacre de Peterloo, seus poemas ganham uma aura marcadamente política, mas ele os simplifica a fim de que pudesse ser lido para o povo. Entre 1820-22 (quando morre), sua obra é marcada pela intensa produção de poesia mitopeica.

[4] Prometheus Unbound, no original, releitura da peça perdida de Ésquilo de mesmo nome na tradição de tradução inglesa, última da trilogia iniciada por Prometeu Acorrentado. Prometeu Desacorrentado é o título que escolhi para a tradução que desenvolvi ao longo do meu curso de mestrado.

[5] Prometheus Unbound. Ato 1. vv. 437-8.

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6 comentários sobre “Elizabeth Bishop – Em apreciação dos poemas de Shelley

  1. sueli cavendish disse:

    O problema com as apreciações de poetas é que não tem qualquer objetividade. Eu deixei de lê-las desde que Eliot considerou Keats mau poeta, assim como Yeats. Prefiro nesse caso os especialistas. E os poetas são vaidosos demais para serem assim considerados.
    Abraços

    • a fala da sueli faz todo sentido, com certeza, mas há um ponto que foi deixado de lado: em geral são os poetas, na sua luta por inventarem uma tradição que embase a sua própria escrita, que renovam as possibilidades do cânone, por assim darem maior relevo à discussão; enquanto os críticos costumam se acomodar em torno de um cânone bem estabelecido, ou se contentar com discussões de grupos fechados, entre especialistas. por isso pound foi mais importante na reabilitação dos poetas provençais, por exemplo, embora suas obras fossem estudadas regularmente: pound reabilitou a poesia deles, e não seu historicismo, ou coisa parecida. Nesse sentido, eu acho esse caráter opinativo (tantas vezes equivocado, ou no mínimo exagerado e raso) dos poetas pode ser muito salutar para desemperrar ou chacoalhar nossas leituras pré-estabelecidas.

  2. scdish disse:

    Embora considere importantíssima a contribuição dada por Eliot para o resgate de poetas que haviam caído no esquecimento, como é o caso de John Donne, dos metafísicos em geral e também de Gerard Manley Hopkins. Parece-me que quando Yeats, não ele, Eliot, já estava mais velho, ele reconsiderou as suas avaliações sobre o grande poeta irlandês. Mas o erro jamais foi apagado e quando é cometido por alguém com a autoridade que Eliot alcançou, justamente pela grandeza de The Waste Land, hoje considerado por muitos um poema romântico (o que é bastante irônico) pode ser desastroso. Digo que não era objetivo porque a única medida era a da própria poética que professava, e assim fez dessa poética uma espécie de cama de procusto. A vaidade então, que geralmente cega, não o deixava ver para além daqueles que o cercavam e que se aglutinavam em torno dele.

    • adriano scandolara disse:

      Faz sentido isso que você diz, Sueli. Os poetas em geral estão lá p/ levar adiante sua própria poética. Faz parte do jogo, a construção de uma linhagem poética (no caso do Eliot, a coisa dos metafísicos e tal, e a recusa aos românticos. No caso dos irmãos Campos, por exemplo, eles emprestaram muita coisa da dupla Eliot & Pound, somando ainda o barroco e Sousândrade). No final das contas, em humanas, o problema da falta de objetividade é algo do qual não dá p/ se desvencilhar.
      Shelley sofreu bastante por isso também. Ele foi lido e copiado à exaustão pelos vitorianos, mas os modernos – o que inclui a dupla Eliot & Pound e alguns grupos, não de poetas, mas de críticos que se pressupunham objetivos, como a Nova Crítica e o grupo acadêmico do F. R. Leavis – bateram tanto nele que era praticamente um crime falar em Shelley na academia até lá pelos anos 50, quando surgiu um pessoal (como o Bloom) que começou a defender os românticos.

      • Verdade Adriano! No entanto os românticos foram praticantes de uma poesia crítica! sem falar que são retumbantemente bons!

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