poesia

paulo roberto sodré

em geral nós conhecemos primeiro o poeta – sua obra poética – antes de, de fato, conhecermos o indivíduo por trás da poesia. esse reconhecimento, muitas vezes frustante, da mera humanidade por trás da obra, poderia reduzir essa mesma obra, mas isso é coisa de tolos: na humanidade simples, mequetrefe, do dia a dia, o poeta completa e de fato significa sua escrita, & não numa aura de perpétua poeticidade.

mas vez por outra o caso se inverte: de uma pessoa que já tinha sua aura humana, um amigo, um parente, um professor, podemos descobrir um poeta. nesses casos, o indivíduo conhecido parece fazer o contrário, desdobrar-se, ampliar-se para um lado inesperado onde sua humanidade já estava (ou passa agora a ficar) bem acomodada sem que o soubéssemos – nele predomina, mesmo sem querer, o humano.

paulo roberto sodré, foto de fernando maués

foi essa a minha alegria ao descobrir em paulo roberto sodré (vitória, 1962), no meu professor de literatura portuguesa nos tempos da graduação em letras na ufes, no pesquisador sobre poesia medieval galego-portuguesa, também um poeta. vejam – descobri agora, tardio, uma década depois, por puro descuido, falta de curiosidade minuciosa sobre a vida alheia, que resultou em não saber que ele já publicava desde o ano do meu nascimento. foi só com a recente edição da sua poesia quase completa, poemas desconcertantes, seguidos de senhor branco ou o indesejado das gentes(pela editora cousa, 2012), que essa figura-sodré desvelou-se-me também, para além do professor amigo, num poeta que impressionou.

aqui eu não teria tempo, espaço, ou condições de resenhar o livro como um todo, já que, por cobrir 20 anos de criação, ali se encontram vários livros, com vários poetas mesmo em cada livro; um ponto que ainda se amplia pela capacidade que o sodré tem de se desdobrar em diversas personas, pela incorporação de novas vozes, tons, meneios estílisticos, que vão do semiépico, passam pelo trovadoresco, até o submundo urbano e lírico, entre homens, mulheres, travestis, mas sem cair na farsa, ou na mera expressão da virtuose. essa alteridade da sua poesia (penso eu, de grande influência pessoana, embora não se trate de uso heteronímico) parece vir fácil, direto nas entranhas, como se por ele nos fosse dado saber a (com o perdão do chiste) a dor & a delícia de ser o que não é.

acho que consigo exemplificar esse movimento poético com um brevíssimo comentário ao livro ulisses a telêmacos e outras epístolas (originalmente de 1998), em que todos os poemas estão centrados no conflito entre pai & filho, todos assumindo uma persona paterna histórico-literária (ulisses, jessé, dom joão, &c.) que tentar dar conta daquilo que no filho é germe negativo do pai. porém nesses poemas forma-se uma imagem do parricídio (psicanalítico) pela voz do cadáver, ou melhor, pela ressurreição da voz do pai, que se duplica entre tentar matar o filho, apagar as frustrações de o filho ser irremediavelmente outro, e o desejo de imortalizar o filho para nesse mesmo processo imortalizar-se. penso aqui, por exemplo, em versos de gil scott-heron (da música/poema parents) que tratam de um conflito parecido: they want you to live on / because they want to live on. entretanto, & aí está toda a potência, a cena do conflito se reencena em uma série de diferenças, pois cada jogo-poema entre pai & filho é marcado por sentimentos diversos: um certo desinteresse, ou mesmo descaso (ulisses); uma admiração incontida que resulta na noção da própria pequenez (jessé); a perda social (pietro di bernardone), ou física (dom joão); até os conflitos de profissão (vicenzo galilei & buonarroti simoni), permeados de um abismo sentimental que tenta ser preenchido pelo entendimento do que vem a ser esse filho amável & parricida.

escolhi, portanto, dois desses poemas para mostrar um dos seus desconcertos.

guilherme gontijo flores

são francisco

De Pietro di Bernardoni a Francesco

I
Assis ouviu seu choro e sorriu
com minha alegria cheia.
Cantaram os jograis sua estrela,
e as ruas se encheram de manhã,
quando seu nome virou Francisco.

Ah, meu filho pequeno, pássaro
para meus anos envelhecidos.

Ah, meu pequeno menino, broto
para meus passos virarem um sempre
de meu nome e de minha fortuna.

Assis ouviu seu riso e chorou
com minha dor enraivecida,
quando ao sol sua nudez
esvaziou-se de mim e deixou-me
numa espessa noite sem filho.

II
Ouço a revoada de luzes
filho, em seus olhos,
e lamentos me vêm:
neles não tilintam
a seda os florins, o prestígio.

Não sei se pranteio as moedas em silêncio,
se minha família sem sua voz,
se meu rosto jovem em você sem mim.

Vejo-o em vão; em vão espero que meus netos
cirandem em minha velhice
continuando minha fecundidade.

III
Rezo Kyrie eleison todos os dias,
filho, e nada de minha alma
repousa.

Rezo Ave Maria todos os dias,
filho, e nenhum de meus prantos
silencia.

Seus passos pobres enchem de ruídos
meu sono desassossegado.

Por que você rasgou nosso abraço, filho?
Porque sua manhã encheu-me de vespas?

Olhá-lo ensombrece meus espelhos.

IV
Altíssimo, bom Senhor, beneditíssimo
dono dos louvores e das bênçãos e da glória.
Nenhum homem é digno de nomear-te.

Louvado sejas, bom Senhor bendito,
pelo sol, pela lua, pela terra, pelas criaturas.
Louvado sejas, bom senhor querido,
pelo vento, pelo fogo, pela água, pelos frutos.

Louvado sim, Senhor, mas não pelo caminho
que incendiaste nos olhos do meu Francisco.

Louvado sim, Senhor, mas não pela sombra
que sopraste entre meu beijo e o rosto de meu filho.

Oh, Senhor, não te bastate perder teu Filho;
tinhas que saquear de mim o meu pequeno
e de meu sonho o ser-me nele.

V
Vejo-o e perco-me no que poderia ser.

Onde haveria seda e brocado, encontro sarja;
onde haveria poder e ouro, encontro pó;
onde haveria elegância e cortesia, encontro pão;
onde haveria justas e damas, encontro pardais.

Ouço-o e todos os meus nortes ficam sós.

Às horas de cristianos dias, filho, deixo-o
e parto para meu nome deserto.

Chegará o dia para o sossego de minha noite.

Kyrie eleison.

VI
Sei que celebras por nós a cristiana bênção.
Sei que abençoas os homens com as chagas
que tomas para ti, homem de sol e lua.
Sei que reparas os erros de nossas mãos sôfregas.

Mas como posso desistir de ti, meu menino,
se ao olhar-te sou menos, pois me ausento em ti?

Não tens meu brasão nem meus olhos
sorridentes para o farol do mundo.
Não rezas como penso nos altares;
não jejuas como obedeço à Quaresma;
não falas de Maria como oferto dízimos.

Perco-te e, mais que essa angústia,
perco-me por não abandonar meu nome
nem receber o batismo iluminado do teu.

De Buonarrotti Simoni a Michelangelo

I
Disse-lhe: Fala, filho de meu nome!
e você chorou como quem amanhece.

Disse-lhe: Ande, filho de meu gesto!
e você tropeçou como quem descobre.

Disse-lhe: Seja, filho de meu tempo!
e você sofreu como quem prenuncia.

II
Das pedras que tirei menos lascas,
nos dias de todo e qualquer dia.

Acostumei-me, filho, com martelos e ruínas
que vinham das extrações inumeráveis.

Os gritos da têmpera do aço,
sobre a pele faiscante dos granitos,
nunca tocaram a alma de meus dedos,
nem rasgaram minha cegueira
para a textura de maçãs dos mármores.

Escravizei as pedras, filho, à ausência de brilho

III
Como me descobri, ao olhar as suas pedras!

Olhei para minhas mãos
e pranteei os anos vazios
deixados nas britas,
na poeira das ausências.

Os blocos áridos; as infecundas penhas;
os ruídos de morte; as faíscas fátuas:
tudo dançou na lembrança
como cadáveres maninhos.

Nenhuma lágrima vingou, filho,
senão uma grave do que revolveu
cada jazida desvanecida em nada.

Suas pedras vivas olharam-me,
e já não logrei saber se era
seu pai, se seu fiasco, se seu vazio.

IV
Sempre quis que meu nome
acompanhasse seu corpo e seus passos.

Quebrei pedras, como quem colhe peixes,
para que seus anos conhecessem letras e astros
e nada do mundo escapasse a seus sentidos.

Vi-o com pincéis arrumando paisagens
e humanas criaturas e divinas e corpóreas;
vi-o em capelas e palácios e ruas e mosteiros
e sorria com seus zelos de cor em cor.

Mas quando vi-o criar, filho, homens e mulheres
de pedras que eu sempre reduzi a quadrados toscos,
não pude evitar perceber a distância
entre o que fiz com minhas mãos
e o que você faz com as que eu lhe dei do meu corpo.

V
Disseram-me que você pediu à pedra:
Fala!
e ela ofereceu um duro silêncio.

Disse-lhe eu: Cale-se!
e ela gritou, enormemente,
luz.

(paulo roberto sodré)

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2 comentários sobre “paulo roberto sodré

  1. caramba! os poemas são mesmo espantosos!

    um pai que vê o filho enlouquecer de Deus e caridade; e o outro – à visão de seu filho esculpindo em carrara – “cuspido e escarrado”.

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