poesia, tradução

Walt Whitman – Na última vez em que lilases no pátio floriram

Em fevereiro, fiz um post com algumas traduções de poemas breves do poeta Walt Whitman. E não nego que o sucesso (tanto instantâneo e tardio) do post foi uma surpresa muito positiva para todos nós do escamandro – nunca imaginaríamos que tanta gente assim gostasse de Whitman.

Pois, então, me foi sugerido que eu traduzisse agora um poema mais longo do autor, mais emblemático. Foi aí que lancei um olhar sobre o “When Lilacs Last in the Dooryard Bloom’d”, que cumpria todos os requisitos (com a vantagem ainda de ser um poema primaveril, esta estação que acabou de se anunciar enganosamente em nosso hemisfério): é mais longo, embora não impossivelmente longo, pois convenhamos que traduzir algo como o “Song of Myself” inteiro no blog seria um tanto inviável, e é um de seus poemas mais célebres e influentes – tanto, inclusive, que Harold Bloom (no Cânone Ocidental) diz ser o mais forte de todos os poemas de Whitman e o mais belo poema americano (!).

Serei breve na introdução ao poema: basicamente, ele consiste numa elegia à morte do presidente Abraham Lincoln (ainda que ele não seja nomeado diretamente), oficializando literariamente este verdadeiro culto mitológico que o povo dos EUA tem aos seus principais presidentes. Lincoln, tendo guiado os ianques contra os confederados na Guerra Civil, é assassinado em abril de 1865. Daí os três principais elementos sobre os quais o poema se concentra, na medida em que o poeta associa a morte do presidente à primavera e, consequentemente, às suas implicações míticas de morte e renascimento: o tordo, que canta no pântano uma canção lúgubre, a estrela que pende (Vênus, que brilha mais nesse período) e os lilases, que florescem na primavera.

É evidente que falar em primavera, lilases, morte e renascimento nos lembram de ainda outro poeta muito importante da literatura americana. T. S. Eliot, no seu The Waste Land, diz “April is the cruellest month, breeding / Lilacs out of the dead land, mixing / Memory and desire, stirring / Dull roots with spring rain.” (“Abril é o mês mais cruel, gerando / Lilases da terra morta, mesclando / Memória e desejo, mexendo / Raízes baças à chuva primaveril”), o que revela ecos muito significativos da poesia de Whitman, uma influência também nada surpreendente, na medida em que o alcance de Whitman vai longe e é um atestado de sua força poética.

Sem mais delongas, anuncio, então, esse que deve ser o mais positivo de todos os poemas fúnebres.

               Na última vez em que lilases no pátio floriram

                              (original aqui: “When Lilacs Last in the Dooryard Bloom’d“, por Walt Whitman)

               1

Na última vez em que lilases no pátio floriram
E a grande estrela cedo pendia no oeste do céu noturno,
Pus o luto – e continuarei em luto pela primavera de eterno retorno.

Ó, primavera de eterno retorno! certo tua trindade vem ao meu entorno;
Lilás a florir perene, e a estrela a pender no oeste,
E pensar naquele que amo.

               2

Ó, poderosa estrela caída do oeste!
Ó, vultos da noite! Ó, noite lúgubre e triste!
Ó, grande estrela desaparecida! Ó, a treva escura que esconde a estrela!
Ó, mãos crueis que me rendem sem forças! Ó, minh’alma indefesa!
Ó, nuvem áspera que me envolve e não liberta minh’alma!

               3

No pátio em frente a uma velha casa de campo, perto das cercas caiadas,
Se encontra o arbusto dos lilases, alto e crescido, com folhas de faustoso verde em coração
Com flores várias, a elevar, delicado, o forte perfume que amo,
Com cada folha um milagre……e desse arbusto no pátio,
Com flores de cores delicadas e folhas de faustoso verde em coração,
Um ramo, com flor, eu tiro.

               4

No pântano, em recessos reclusos,
Um pássaro tímido e oculto trina uma canção.

Solitário, o tordo,
O eremita, ensimesmado, evitando os acampamentos,
Canta sozinho uma canção.

Canção da garganta que sangra!
A vazão da morte na canção da vida – (pois bem, caro irmão, eu sei
Que se não tivesses o dom do canto, por certo morrerias.)

               5

Sobre o seio da primavera, a terra, entre cidades,
Entre alamedas e por antigos bosques, (onde há pouco as violetas vieram espiar do solo, malhando os cinzentos destroços;)
Entre a relva nos campos dos dois lados das alamedas – passando a relva infindável;
Passando a lança amarela do trigo, cada grão a erguer-se de seu sudário nos campos pardos;
Passando a golpes da macieira de branco e rosa nos pomares;
Carregando um corpo até onde repousará no túmulo,
Noite e dia viaja um caixão.

               6

Caixão que passa por alamedas e ruas,
Dia e noite, com a grande nuvem a ensombrecer a terra,
Com a pompa das bandeiras arriadas, com cidades vestidas de preto,
Com o desfile dos próprios Estados, como das mulheres em véus crepe, de pé,
Com procissões longas e sinuosas e os círios noturnos,
Com as incontáveis tochas acesas – com mar silente de rostos, e as cabeças desnudas,
Com o depósito à espera, o caixão a chegar, e as faces sombrias,
Com as elegias ao longo da noite, com mil vozes a se erguer, solenes e fortes;
Com todas as elegíacas vozes dos enlutados, despejadas ao redor do caixão,
Com as igrejas à penumbra e os trêmulos órgãos – Por esse meio você viaja,
Com o dobrar, o dobrar dos sinos, seu perpétuo tinido;
Aqui! caixão que lento passa
Dou-lhe o meu ramo de lilases.

               7

(Não para você, para um só, apenas;
Flores e verdes ramos a todos os caixões eu trago:
Pois renovado como a aurora – assim entoaria eu uma canção a você, Ó, sã e sacra morte.

Sobre buquês de rosas,
Ó, morte! Eu lhe cubro de rosas e os primeiros lírios;
Mas principalmente e agora floriu o lilás primeiro,
Copioso, eu tiro, tiro os ramos dos arbustos;
Com braços cheios eu venho, lançando-os por você,
Por você e todos os caixões seus, Ó, morte.)

               8

Ó, orbe do oeste, a velejar os céus!
Agora sei o que você quis dizer, que faz um mês desde que caminhamos,
Que caminhamos para cima e para baixo no azul escuro e místico,
Que caminhamos em silêncio pela noite sombria e transparente,
Que eu vi que você tinha algo a dizer, no que você se dobrava a mim, noite após noite,
Que você pendia baixa no céu, como se para o meu lado (sob o olhar de todas as outras estrelas;)
Que vagamos juntos a noite solene, (pois algo, não sei o quê, não me deixava dormir;)
Que a noite foi avançando, e eu vi nas beiradas do oeste, antes de você partir, como estava tão cheia de pesares;
Que eu estava sobre o solo a se elevar na brisa, na noite fria e transparente,
Que eu vi por onde você passou e se perdeu no ínfero escuro da noite,
Que minha alma em seu transtorno, insatisfeita, afundou-se como você, triste orbe,
Concluiu, caiu na noite e sumiu.

               9

Continua a cantar, lá no pântano!
Ó, cantor acanhado e terno! Ouço suas notas – ouço seu chamado;
Ouço – e venho depressa – eu lhe entendo;
Mas por um momento demoro – pois a estrela lustrosa me detém;
A estrela, meu camarada que parte, me mantém e detém.

               10

Ó, como trinarei meu peito pelo morto que amei?
E como talharei meu canto pela enorme e doce alma que partiu?
E o que deverá ser meu perfume, pelo túmulo de quem amo?

Maresias, a soprar leste e oeste,
A soprar do mar do leste e a soprar do mar do oeste, até lá nas pradarias se encontrarem:
Elas, e com elas, o alento de meu canto,
O perfume do túmulo de quem amo.

               11

Ó, onde as pendurarei nas paredes da câmara?
E quais serão as imagens que pendurarei nas paredes,
Para adornar o mausoléu de quem amo?

Imagens de medras da primavera, e lares, e sítios,
Com a tarde do quarto mês a se pôr, e a cinzenta fumaça lúcida e clara,
Com enxurradas do ouro amarelo do sol indolente e belo a afundar, ardendo e expandindo os ares;
Com ervas frescas e doces sob os pés, e folhagem verde e pálida abundante nas árvores;
Na distância o brilho fluido, o seio do rio, com ôndulas aqui e ali;
Com colinas a estender-se das margens, com linhas várias contra o céu, e sombras;
E a cidade à mão, com moradas tão densas e pilhas de chaminés,
E todas as cenas da vida, e as oficinas, e os trabalhadores às casas retornando.

               12

Vede! corpo e alma! esta terra!
Poderosa Manhattan, com suas cúspides, e, apressadas, as marés faiscantes, e os navios;
A terra variada e ampla – o Sul e o Norte à luz – as margens de Ohio, e o Missouri a brilhar,
E as pradarias se estendendo ao longe, cobertas de relva e milharais.

Vede! o excelentíssimo sol, tão calmo e altivo;
A aurora púrpura e violeta, com brisas recém-sentidas;
A luz gentil e suave, imensurável;
O milagre, a espalhar-se, banhando a todos – o zênite realizado;
A tarde por vir, deliciosa – a noite bem-vinda, e as estrelas,
Sobre minhas cidades iluminando todas, envolvendo homem e terra.

               13

Canta! canta, pássaro cinzento e pardo!
Canta dos pântanos, dos recessos – despeja seu canto dos arbustos;
Ilimitado, pelo ocaso, pelos cedros e pinheiros.

Canta, caríssimo irmão – trina sua canção flautada;
Alta canção humana, com voz do mais profundo pesar.

Ó, líquido e livre e terno!
Ó, selvagem e solto à minh’alma! Ó, maravilhoso cantor!
Só a você tenho ouvidos…..no entanto a estrela me mantém, (mas logo partirá;)
No entanto, o lilás, com dominante odor, me mantém.

               14

Agora enquanto eu me sentava ao dia e observava
No final do dia, com sua luz e campos primaveris e o fazendeiro preparando as plantações
No grande cenário inconsciente da minha terra, com seus lagos e bosques,
Na beleza aérea celestial, (após os perturbados ventos e as tormentas;)
Sob os céus arqueados da tarde ligeira a passar, e as vozes de crianças e mulheres,
As multimoventes marés, – e eu vi os navios a navegá-las,
E o verão chegando com faustosidade, e os campos ocupados em labores,
E as infinitas casas separadas, como elas prosseguiam, cada uma com suas refeições e as minúcias dos usos diários;
E as ruas, como latejavam seus latejos, e as cidades retesas – ó! ali e então,
Caindo sobre eles todos e entre eles todos, me envolvendo com o resto,
Surgiu a nuvem, surgiu a trilha longa e negra;
E eu conheci a Morte, seu pensamento, e o saber sagrado da morte.

               15

Pois com o saber da morte andando ao meu lado,
E o pensamento na morte por perto – andando ao meu outro lado,
E eu no meio, como companheiros, e como se dando as mãos a companheiros,
Eu parti rumo à noite acolhedora e velante, que nada fala,
Até às margens d’água, o caminho pelo pântano no escuro,
Aos cedros à sombra e solenes, e tão calmos os pinheiros fantasmais.

E o cantor tão tímido ao restante me acolheu;
O pássaro cinzento e pardo que conheço, acolheu a nós três camaradas;
E entoou o que parecia ser a canção da morte, e versos àquele que amo.

Dos recessos profundos, reclusos,
Dos cedros fragrantes, e tão calmos pinheiros fantasmais,
Veio a canção do pássaro.

E o encanto da canção me arrebatou,
No que eu segurava, como se pelas mãos, meus camaradas na noite;
E a voz de meu espírito fez-se gêmea do canto do pássaro.

               CANÇÃO DA MORTE

               16

Vem, suave e amável Morte,
Ondule em torno do mundo, serena chegando, chegando,
No dia, na noite, a todos, a cada um,
Mais cedo ou mais tarde, delicada Morte.

Louvado seja o insondável universo,
Pela vida e graça, e por objetos e o curioso saber;
E pelo amor, doce amor – Mas louvor! louvor! louvor!
E pelos braços de certo enrosco da frio-envolvente Morte.

Obscura Mãe, sempre a pairar por perto, com leve pé,
Ninguém jamais cantou por ti um canto de pleníssimas boas-vindas?

Pois eu o canto por ti – glorifico-te acima de tudo;
Trago a ti uma canção para que quando tiveres enfim de chegar, chega sem falta.

Aproxima-te, forte Libertadora!
Quando for assim – quando me tomares, eu canto alegre os mortos,
Perdidos no teu amado, flutuante oceano,
Banhados na enxurrada de teu êxtase, Ó, Morte.

De mim a ti alegres serenatas,
Danças a ti eu proponho, saudando a ti – ornamentos e festins a ti;
E as visões da paisagem aberta, e o céu aberto, são dignas,
E a vida e os campos, e a noite imensa e pensativa.

A noite, em silêncio, sob muitas estrelas;
A costa oceânica, e a onda de roucos sussurros, cuja voz eu conheço;
E a alma tornando a ti, Ó vasta e velada Morte,
E o corpo gratamente se aninhando em ti.

Sobre as copas eu alço a ti uma canção!
Sobre as ondas que se elevam e afundam – sobre a miríade de campos, e as vastas pradarias;
Sobre todas as densas cidades, e os cais e vias abundantes,
Alço esta canção com graça, a ti com graça, Ó, Morte!

               17

Ao gêmeo de minh’alma,
Alto e forte prosseguiu o pássaro cinzento e pardo,
Com notas puras, deliberadas, espalhando, preenchendo a noite.

Alto por sombrios pinheiro e cedro,
Claro no úmido frescor, no perfume pantanoso;
E eu com meus camaradas ali na noite.

Enquanto a minha visão presa aos olhos se descerrava,
Como se para longos panoramas de visões.

               18

De soslaio eu vi os exércitos;
E vi, como em sonhos sem ruídos, centenas de bandeiras de batalha;
Alçadas na fumaça das batalhas e perfuradas por projéteis, eu as vi,
E carreguei aqui e lá pela fumaça, e desfeito e ensanguentado;
E por fim com alguns retalhos sobrando nos mastros, (e tudo em silêncio,)
E os mastros todos em lascas e partidos.

Eu vi os cadáveres da batalha, miríades deles,
E os esqueletos brancos dos jovens – eu os vi;
Eu vi os destroços e destroços de todo soldado morto da guerra;
Mas vi que não eram como se pensava;
Eles próprios estavam em paz – nada sofriam;
Os vivos ficavam e sofriam – a mãe sofria,
E a esposa e os filhos, e o camarada pensativo sofria,
E os exércitos que ficaram sofriam.

               19

Passando as visões, passando a noite;
Passando, desatando o enlace das mãos dos meus camaradas,
Passando a canção do pássaro eremita, e a canção gêmea de minh’alma,
(Canção vitoriosa, canção vazante da morte, mas canção vária e sempre alterada,
Embora baixa e uivante, as notas claras, elevando-se e caindo, inundando a noite,
Afundando tristes e sumindo, como se a avisar e a avisar, e ainda assim estourando de graça,
Cobrindo a terra, e preenchendo a extensão do céu,
Como aquele poderoso salmo na noite que ouvi dos recessos,)
Passando, eu te deixo, lilás das folhas em coração;
Eu te deixo lá no pátio, a florir, retornando na primavera,
Eu cesso minha canção por ti;
De meu olhar a ti no oeste, diante do oeste, em comunhão contigo,
Ó lustroso camarada, de argêntea face na noite.

               20

No entanto, guardo toda, cada uma das coisas recobradas da noite;
A canção, o canto maravilhoso do pássaro cinzento e pardo,
E o canto gêmeo, o eco instigado em minh’alma,
Com a estrela a pender lustrosa, com as feições cheias de pesar,
Com o lilás alto, e suas flores de dominante odor;
Com os companheiros me acompanhando, mãos dadas, perto do chamado do pássaro,
Camaradas meus, e eu no meio, e sua memória para sempre eu guardo – para o morto que tão bem amei;
Para a mais doce e sábia alma de todos os meus dias e terras… e isso por ele, tão caro;
Lilás e estrela e pássaro, embrenhados no canto da minh’alma,
Lá nos fragrantes pinheiros, e os cedros de sombra e ocaso.

(tradução de Adriano Scandolara)

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4 comentários sobre “Walt Whitman – Na última vez em que lilases no pátio floriram

  1. O que posso comentar? Li, mas sou honesta comigo mesma para dizer-lhe que não li por inteiro. Comento que não tenho conhecimento suficiente para qualquer análise sobre um poema tão profundo e complexo. Comento que o título te remete a qualquer idéia menos à da morte. Comento que a sua capacidade de tradução é de quem é especialista, em repor para o português a essência do poema. Um grande abraço.

  2. João Ferreira Lins disse:

    Sou um quase-poeta e preciso aprofundar-me mais nos poemas do referido poeta para dar uma opinião objetiva. Mas pelo que li até o dado momento, só sei explanar que a sua poesia é fascinante.

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