crítica, poesia, tradução

Hafez e o gazel

Na poesia persa, o gazel é um poema breve, de aproximadamente sete a quinze dísticos cuja rima é aa, ba, ca, etc. Uma de suas características mais marcantes é a afirmação do eu poético através da alusão ao nome artístico do poeta nos versos finais. Mas, como no caso da elegia erótica romana, não se deve pensar, por causa disso, que ele seja uma expressão da experiência subjetiva de seu autor. Trata-se, na verdade, de um recurso convencional que é bastante útil para tratar da temática amorosa, seu assunto por excelência.

O gazel formou-se na poesia oral da Pérsia, mas as primeiras versões escritas datam do século XII d.C. É também nesse período que sua temática amorosa se torna um veículo de expressão do amor místico a Deus vivido pelos sufis. A partir daí, vemos surgir uma interessante sobreposição entre o tema do amor profano e divino, de modo que, em muitos casos, é difícil saber a qual tipo o poema se refere, se é que tal distinção pode ser legitimamente em alguns desses casos.

Isso é particularmente notável na poesia de Hafez (séc. XIV). Alguns de seus poemas permitem tanto uma leitura profana quanto religiosa, que produzem, por sua vez, efeitos bem diferentes no leitor. O poema que apresento aqui, traduzido por Aurélio Buarque de Holanda, é um bom exemplo do que quero dizer, se nos lembramos que, no simbolismo da poesia persa, o vinho representa a graça divina, a embriaguez é a experiência mística do sufi e Deus se apresenta como um jovem de cabelos cacheados:

Ao raiar do dia, após uma noite devassa, tomei o alaúde, a taça e o vinho. Disse adeus à prudência e arrastei-a pelo caminho que vai ter ao país encantado da embriaguez.

Aquele que vende o suco da vinha fitou-me uns olhos acariciantes, e esse olhar libertou-me das mentiras do tempo.

Falei a estas mentiras: “ide armar a outro pássaro as vossas armadilhas; a águia constrói seu ninho nas alturas!”

O companheiro, o músico, o escanção, todos eles são fantasmas, um pouco de argila e de água! Tudo é só ilusão.

Traze-me uma taça de vinho para que eu me possa orientar com segurança fora deste mar sem porto.

Hafiz, a vida é um enigma. O esforço para resolvê-lo – um ridículo e uma vaidade.

 

bernardo lins brandão

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