poesia, tradução

zbigniew herbert

se a arte, por seu objeto,
tiver um vaso quebrado
uma alma pequena despedaçada
com pena de si própria

o que restará depois de nós
será como o choro de amantes
num hotel vagabundo
quando as paredes amanhecem
(zbigniew herbert, trad. de sylvio fraga neto & danuta h. da nóbrega)

a poesia do polonês zbigniew herbert (1924-1998) ainda é pouco conhecida no brasil, & aqui já posso bem dizer – muito infelizmente. formado como economista e advogado, sua obra guarda parte dessa formação clássica & sóbria, enquanto politicamente se debateu em parte contra o comunismo polonês, sem  entretanto se resumir a uma poesia de combate, ou ao engajamento stricto sensu (se é que isso de fato existe, ou interessa). sua estreia em livro foi razoavelmente tardia, em 1956, com struna światła (corda de luz), quando herbert já tinha mais de 30 anos. como no caso de wallace stevens (que lançou harmonium com mais de 40 anos), essa estreita tardia foi muito positiva, por já mostrar um poeta maduro, com uma voz poética estabelecida. seguindo o que se poderia esperar dessa primeira, o resto da sua obra foi publicada em geral com espaços longos, de modo que ao todo só lançou 9 livros de poesia ao longo de 40 anos de atividade.

o resultado disso, a meu ver, é uma poesia pensada (não necessariamente cerebral) em livros centrados por eixos, com uma construção e ordenação programáticas. dentro desses livros, sua escrita se desenvolve em meio à reescrita de mitos, ao diálogo com a história ou com a literatura clássica, & com um pendor muitas vezes moralizante voltado para os dilemas contemporâneos, sobretudo de uma polônia periférica em relação à europa e dominada por constantes problemas políticos. essa moral, porém, nunca está a serviço de um projeto político determinado, & herbert parece sempre fazer uso de muita ironia para construir qualquer esboço moral. esse processo fica bem claro nos poemas de pan congito (sr. cogito), provavelmente seu livro mais famoso, lançado em 1974. os textos, de modo implícito ou explítico, nunca estão ligados diretamente à pessoa do poeta, mas à de seu personagem (já ironicamente cartesiano desde o nome, derivado do mote cogito ergo sum), que de um modo ou de outro impõe seu modo ao poema, como vocês podem ver “o sr. cogito narra a tentação de espinoza”, onde o enquadramento do poema, que cede sua voz ao sr. cogito, só é dado pelo título, convidando o leitor a preencher os espaços entre autor e personagem e entre personagem e a narrativa poética em forma de diálogo entre deus & espinoza.

de modo similar, “a mensagem do sr. cogito” estabelece um processo autoirônico de moralização, já que as atitudes afirmativas da persona são contrariadas pela sua própria fala, ou pela desconfiança com a sociedade simbolizada na impersonalização negativa de “eles” (& assim lembro thomas pynchon, nalgum dado momento  gravity’s rainbow, quando um personagem paranoico grita – “who are they?“). nesse confronto, mesmo com uma linguagem clara (dotada de “transparência semântica”, nas palavras do próprio herbert), o que temos é uma apresentação turva dos objetos & da realidade, uma recusa a explicações fáceis ou a um posicionamento firme no mundo. assim a sua “mensagem” fica entre o imperativo de se confrontar afirmativamente no mundo & o sentimento de que todo confronto será em vão. no caso de herbert – o que torna as coisas ainda mais interessantes – , esses dois polos opostos não se anulam, nem chegam a uma suspensão dialética, mas coexistem inconciliáveis. esse problema poderia ser confundido com uma melancolia profunda diante do mundo (em algum grau, drummondiana), ou com um tipo cinismo literário; mas, se lemos as palavras do próprio herbert (tiradas de “por que os clássicos”, em trad. de rubens figueiredo que saiu neste mês pela piauí), vemos como sua posição complexa:

Não é preciso ser um grande entendido em literatura contemporânea para perceber o traço característico que a marca – a eclosão do desespero e da descrença. Todos os valores fundamentais da cultura europeia foram postos em xeque. Milhares de romances, peças e poemas épicos falam de um aniquilamento inevitável, da falta de sentido da vida, do absurdo da existência humana.
Não pretendo submeter o pessimismo a um ridículo fácil – ele é uma reação perante o mal do mundo. Todavia, acho que o tom negro da literatura contemporânea tem sua fonte na atitude dos escritores em face da realidade.

diante dessa constatação que parece ainda tão aplicável ao nosso tempo contemporaníssimo, herbert não hesita em se apresentar moralmente:

Se existisse uma escola para ensinar literatura, um de seus exercícios básicos deveria ser a descrição não de sonhos, mas de objetos. Fora do alcance do artista, um mundo se desdobra – difícil, escuro, mas real. Não devemos perder a fé de que as palavras possam capturá-lo, fazer-lhe justiça.
Bem cedo, mais ou menos no início de minha vida de escritor, cheguei à conclusão de que devia me apoderar de algum objeto situado fora da literatura. Parecia-me vão escrever como um exercício estilístico. A poesia como arte da palavra me fazia bocejar. Compreendi também que os poemas dos outros não me bastavam como sustento. Eu precisava sair de mim mesmo e da literatura, olhar para o mundo à volta e tomar posse de outras esferas da realidade.
[…]
Não me volto para a história com o propósito de extrair dela uma lição fácil de esperança, mas sim para confrontar minha experiência com a de outras pessoas, adquirir algo que possa chamar de compaixão universal, além de um sentido de responsabilidade – responsabilidade pelo estado de minha consciência.

essa tomada de responsabilidade (um tema tão caro ao cinema de lars von trier, por exemplo), permeado por uma espécie de compaixão universal de quem encara o mal do mundo, me parece hoje digno de um lema, contra o beletrismo do “exercício estilístico” & a aniquilação do pessimismo contemporâneo, sem cairmos na mera literatura de divertimento, ou nos joguetes de mercado.

guilherme gontijo flores

ps: como parte de uma geração importante de poetas laureados (czeslaw milosz ganhou o nobel em 1980, e wislawa szymborska em 1996, ambos já traduzidos em livro no brasil) que acabaram apagando um pouco o seu nome. por isso, provavelmente, só temos poemas seus em antologias (como a dos quatro poetas poloneses, organizada por henry siewierski & josé santiago naud) ou em revistas (como a poesia sempre no. 30, com um dossiê sobre poesia polonesa moderna, editada por siewierski & marcelo paiva de souza, que apresenta traduções dos três já mencionados, além de nelson ascher, fernando mendes viana, grazyna drabik & ana cristina césar). por fim, ainda sei de traduções feitas por carlito azevedo, mas que não estão publicadas em nenhum veículo, que eu saiba. há uma edição da assírio alvim, mas ainda não conseguir por as minhas mãos nela (escolhido pelas estrelas) em casos como esse, para poder ler um pouco mais da sua poesia sem ter conhecimento algum de polonês, precisei partir para uma tradução inglesa (the collected poems 1956-1998) com toda a sua produção poética. deixo, no entanto, duas traduções & um agradecimento sincero a marcelo paiva de souza – que já contribuiu aqui com uma tradução de  cyprian norwid.

“the collected poems 1956-1998”, a capa é foto de anna beata bohdziewicz

Przesłanie Pana Cogito

Idź dokąd poszli tamci do ciemnego kresu
po złote runo nicości twoją ostatnią nagrodę 

idź wyprostowany wśród tych co na kolanach 
wśród odwróconych plecami i obalonych w proch 

ocalałeś nie po to aby żyć 
masz mało czasu trzeba dać świadectwo 

bądź odważny gdy rozum zawodzi bądź odważny 
w ostatecznym rachunku jedynie to się liczy 

a Gniew twój bezsilny niech będzie jak morze 
ilekroć usłyszysz głos poniżonych i bitych 

niech nie opuszcza ciebie twoja siostra Pogarda 
dla szpiclów katów tchórzy – oni wygrają 
pójdą na twój pogrzeb i z ulgą rzucą grudę 
a kornik napisze twój uładzony życiorys 

i nie przebaczaj zaiste nie w twojej mocy 
przebaczać w imieniu tych których zdradzono o świcie 

strzeź się jednak dumy niepotrzebnej 
oglądaj w lustrze swą błazeńską twarz 
powtarzaj: zostałem powołany – czyż nie było lepszych 

strzeż się oschłości serca kochaj źródło zaranne 
ptaka o nieznanym imieniu dąb zimowy 
światło na murze splendor nieba 
one nie potrzebują twego ciepłego oddechu 
są po to aby mówić: nikt cię nie pocieszy 

czuwaj – kiedy światło na górach daje znak – wstań i idź 
dopóki krew obraca w piersi twoją ciemną gwiazdę 

powtarzaj stare zaklęcia ludzkości bajki i legendy 
bo tak zdobędziesz dobro którego nie zdobędziesz 
powtarzaj wielkie słowa powtarzaj je z uporem 
jak ci co szli przez pustynię i ginęli w piasku 

a nagrodzą cię za to tym co mają pod ręką 
chłostą śmiechu zabójstwem na śmietniku 

idź bo tylko tak będziesz przyjęty do grona zimnych czaszek 
do grona twoich przodków: Gilgamesza Hektora Rolanda 
obrońców królestwa bez kresu i miasta popiołów 

Bądź wierny Idź

A mensagem do Sr. Cogito

Vai aonde os outros até o fim obscuro
atrás do tosão de ouro do nada tua última recompensa

caminha ereto entre os que ficam de joelhos
entre os que viraram as costas e foram reduzidos a pós

sobreviveste não para viver apenas
tens pouco tempo tens de dar testemunho

sê corajoso quando falhe a razão sê corajoso
no final das contas só isto importa

deixa tua ira impotente seja como o mar
sempre que ouças a voz dos oprimidos e espancados

que nunca te abandone o teu irmão Desprezo
para com os delatores os carrascos os covardes – eles vencerão
e virão ao teu funeral e com alívio jogarão um torrão de terra
e um verme escreverá a tua ordenada biografia

e não perdoes verdadeiramente não está em teu poder
perdoar em nome daqueles que foram traídos na alvorada

mas acautela-te do orgulho sem mister
olha no espelho o teu rosto cômico
e repete: eu fui o chamado – não haverá alguém melhor

previne-te contra a aridez do coração ama a fonte matinal
o pássaro ignoto o carvalho de inverno
a lu no muro o esplendor do céu –
eles não precisam do teu hálito quente
eles estão aqui para dizer: ninguém vai te consolar

vela – e quando a luz nos montes der o sinal – ergue-te e caminha
té que o sangue faça rodar no teu peito a estrela obscura

repete os velhos sortilégios do homem as fábulas e as lendas
porque assim conquistarás o bem que não conquistarás
repete as grandes palavras repete-as obstinadamente
como aqueles que transitavam o deserto e pereciam na areia

e serás recompensado por aquilo que eles têm à mão
o açoite do riso o assassinato no monte de lixo

vai porque só assim serás recebido na comunhão dos crânios frios
a comunidade dos teus antepassados: Gilgamesh Heitor Rolando
os defensores do reino sem fim e da cidade das cinzas

Sê fiel Vai

(trad. henryk siewierski & josé santiago naud)

Pan Cogito opowiada o kuszeniu Spinozy 

Baruch Spinoza z Amsterdamu
zapragnął dosięgnąć Boga
szlifując na strychu
soczewki
przebił nagle zasłonę
i stanął twarzą w twarz

mówił długo
(a gdy tak mówił
rozszerzał się umysł jego
i dusza jego)
zadawał pytania
na temat natury człowieka
–
– Bóg gładził roztargniony brodę

pytał o pierwszą przyczynę
–
– Bóg patrzył w nieskończoność

pytał o przyczynę ostateczną
–
– Bóg łamał palce
chrząkał

kiedy Spinoza zamilkł
rzecze Bóg
–
– mówisz ładnie Baruch
lubię twoją geometryczną łacinę
a także jasną składnię
symetrię wywodów

pomówmy jednak
o Rzeczach Naprawdę
Wielkich
–
popatrz na twoje ręce
pokaleczone i drżące
– 

– niszczysz oczy
w ciemnościach
–
– odżywiasz się źle
odziewasz nędznie
–
kup nowy dom
wybacz weneckim lustrom
że powtarzają powierzchnię
–
– wybacz kwiatom we włosach
– pijackiej piosence
–
– dbaj o dochody
jak twój kolega Kartezjusz
–
– bądź przebiegły
jak Erazm
–
– poświęć traktat
Ludwikowi XIV
i tak go nie przeczyta
–
– uciszaj racjonalną furię
upadną od niej trony
i sczernieją gwiazdy
–
– pomyśl o kobiecie
która da ci dziecko
–
– widzisz Baruch
mówimy o Rzeczach Wielkich
–
– chcę być kochany
przez nieuczonych i gwałtownych
są to jedyni
którzy naprawdę mnie łakną

teraz zasłona opada
Spinoza zostaje sam

nie widzi złotego obłoku
światła na wysokościach

widzi ciemność

słyszy skrzypienie schodów
kroki schodzące w dół

O senhor Cogito narra a tentação de Espinosa

Baruch Espinosa de Amsterdã
quis alcançar Deus
polindo lentes
no sótão
varou de súbito a cortina
e achou-se face a face

falou muito
(e enquanto falava
se expandiam seu espírito
e sua alma)
fez perguntas
acerca da natureza do homem

– Deus afagou distraído a barba

perguntou sobre a causa primeira

– Deus olhou para o infinito

perguntou sobre a causa última

– Deus estalou os dedos
pigarreou

quando Espinosa calou
disse Deus

– falas bonito Baruch
gosto do teu latim geométrico
e da sintaxe clara
da simetria dos argumentos

falemos porém
de Coisas Deveras
Grandes

olha tuas mãos
machucadas e trêmulas

– destróis a vista
no escuro

– te alimentas mal
andas maltrapilho

compra uma casa nova
perdoa os espelhos venezianos
por reproduzirem a superfície

– perdoa as flores nos cabelos
– a canção bêbada

– cuida dos lucros
como teu colega Cartésio

– sê astuto
como Erasmo

– dedica um tratado
a Luís XIV
jamais o lerá afinal

– aplaca a fúria da razão
ela derrubará tronos
e toldará estrelas

– pensa
na mulher
que te dará um filho

– vês Baruch
falamos de Coisas Grandes

– quero ser amado
pelos ignorantes e violentos
são os únicos
que anseiam deveras por mim

agora a cortina cai
Espinosa fica sozinho

não vê uma nuvem dourada
luz nas alturas

vê a escuridão

ouve o ranger dos degraus
passos seguindo para baixo

(trad. marcelo paiva de souza)

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