crítica, poesia

notas sobre o caderno inquieto de tarso de melo

onde se lê espanto,
espante-se
(tarso de melo, “aula (2)”)

tarso de melo (santo andré, 1976) tem uma das obras que eu mais admiro na poesia contemporânea brasileira. além de impressionar pelos poemas, o que mais chama atenção – a meu ver – é o percurso. tanto o percurso interno dos livros, onde estão cada um dos poemas, quanto o percurso maior entre os livros, entre o primeiro a lapso (1999) & o último lançado exames de rotina (2008). esse percurso é marcado por uma crescente concretude (nada de concretismo) da linguagem e dos temas – tarso faz parte de uma tradição de embate com o espaço urbano, de confrontamento direto com o presente, em que a poesia não serve de subterfúgio, escapatória, ou salvação. talvez ela seja para ele como a filosofia para adorno (“da filosofia só cabe esperar, na presença do desespero, a tentativa de ver todas as coisas tal como se apresentam do ponto de vista da redenção” e mais adiante “mesmo a sua impossibilidade tem que ser compreendida por ele em nome da possibilidade”, minima moralia, 153). ora, essa redenção não vai se dar na abdução salvatória, nem na paz facilitada pela harmonia dos contrastes. é nesse mundo em conflito, permeado de dor e do desejo de poesia, que sua poesia caminha. eu diria que, dos poetas brasileiros atuais que tentam esse confronto mais direto, como donizete galvão (de o homem inacabado), eduardo sterzi (de aleijão), fabiano calixto (de sanguínea) & dirceu villa (de icterofagia) – cada um bem do seu jeito, a bem da verdade) -, tarso é o que mais incomoda, porque vai direto na ferida, cada vez mais direto, sem o contorno do inefável ou do “poético”.

é aqui que entra o seu caderno inquieto (no prelo, pela dobra editorial). pra quem pode ou pôde conferir seu percurso, este livro – este nem livro, este caderno, um ato sempre inacabado de anotações – avança. e aqui eu poderia comparar sua inquietude com a de outra figura, claudia roquette-pinto, ambos pela inquietude constante da escrita que parece funcionar como uma apresentação de problemas, tentativa de respostas, com surgimento de novos problemas que por sua vez engendram a necessidade de um novo livro com suas novas perguntas, respostas e subsequentes novos problemas, num ciclo inacabável, típico do caderno. por isso selecionamos 3+1 poemas aqui. 3 poemas capazes de indicar esses novos problemas – basta ver como em “metal” o processo construtivo do automóvel ultrapassa o mero desgaste humano do operário, mas é a própria consunção desse homem, o seu corpo metamorfoseado em objeto & depois em mercadoria & fetiche, sem qualquer vislumbre de síntese harmônica. já em “escritas” & “welby”, a poesia aparece como tema central, mas de modo diverso, em sua relação com o mundo – uma relação fracassada, de certo modo, mas simultaneamente necessária; ou uma perspectiva da redenção impossível, ou um questionamento sobre a possibilidade de determinação desse fracasso, ou ainda: esse fracasso como incorporado e afirmativo, como necessidade de por na linguagem um lugar da perda.

eu poderia me alongar mais na discussão de cada um dos 3 poemas, mas o modus do blog não permite discussões com a profundidade que elas podem merecer. o blog é intencionalmente a ponta do iceberg (we’d rather have the iceberg than the ship), ponto de provocação à leitura e ao debate. por isso esse +1, “bar do pudim”, poema dedicado ao espaço do blog, derivado da cerveja e das conversas que pudemos trocar para além das pontas soltas. nesse para-além da literatura que toda boa literatura parece indicar que seja o fundamental.

guilherme gontijo flores

3 poemas

METAL

a cada dia um pouco da mão fica nas alavancas,
os cabelos incorporam às engrenagens, renascem
os seus dentes nas roldanas, manivelas instigam
e depois sugam seus músculos, a boca da máquina
cospe braços, pernas, grita sua canção monótona,
o suor lubrifica as polias, ferve os sulcos do parafuso
(ideias agora são de aço, o sonho mora no alumínio)

o dia todo se consome nessa troca;
                                                         gasta, a vida
em breve vai cruzar a cidade desfeita em cem cavalos,
em brasa, trocada por mil e quinhentas cilindradas

ESCRITAS

você sabe, entre as flores
não há qualquer tormento
não há dor, não há perda
não há muito o que temer
espinho é só espinho
uma pétala a mais, outra a menos
e tudo segue assim, jardim
engolindo a si mesmo

nem a flor outra, esta que
desce agora à terra, ponto final
na frase alheia, é mais
que uma espécie de dor
a cobrir-se de pedra
e esquecimento

WELBY

nunca li um poema seu,
Piergiorgio Welby,
nem sei se o jornal diz bem
como vinha sendo a tortura
ou por que você escolheu sair
do hospital – e da vida –
pela porta inevitável

não sei se vai fazer falta
o funeral ou se as prometidas
rezas vão ajudar na salvação
de quem fez algo inaceitável,
agora que o computador perdeu
seus olhos, agora que a distrofia
vai esquecer seus músculos

mas será, Welby, que o poema
– não o poema qualquer,
sobre o papel qualquer,
com quaisquer palavras,
mas o poema final, o sinal
último e inconfundível
de que o combate não interessa
– pode decidir, como a vida,
onde acaba o seu sentido?
+ 1

BAR DO PUDIM

deixem Curitiba em paz,
suas esquinas, guias, seus postes
não precisam de outras rimas
deixem Curitiba dormir, polida
pelo verso antigo, modelo disso
e daquilo, rima rica, obra-prima

Curitiba cabe num copo
ou dois, Curitiba não é mais
que esta mesa, sempre a mesma,
Curitiba não vai além desta escolta
honrosa garrafa a garrafa
(é fácil perder Curitiba
entre as notas do caderno
ou da carteira, entre as noites
baças, curvas, entre os bares
cheios de vultos polacos)

Curitiba não muda, não cala
nem diz mais que a frase pisada
em que os mortos se encontram
e anulam, Curitiba é suja
e lava-se nas manhãs sem culpa

[para os escamandristas]

(tarso de melo)

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