poesia

3 poemas de rodrigo madeira

rodrigo madeira

rodrigo madeira (foz do iguaçu, 1979) mora em curitiba desde 1992 & se intitula “poeta e compositor bissexto” – uma boa tradição pra se achar. tem poemas publicados em diversas revistas literárias, como as paranaenses oroboro coyote, além da germina on line; ganhou a primeira colocação no prêmio helena kolody de poesia em 2006 & 2010; gravou o cd cartografia da hesitação, de récitas, em parceria com tullio stefano e ricardo pozzo; & teve o poema balada da cruz machado adaptado para o cinema por terence keller (2009).  publicou os livros sol sem pálpebras (2007) & pássaro ruim (2009), participou da antologia moradas de orfeu (2011) & hoje comanda o blog às moscas.

apesar de já ter toda essa trajetória, assumo que pouco conhecia, & nós tivemos a oportunidade de realmente ver a sua poesia numa noite de vox urbe, uma outra face mais – com o perdão do trocadilho infame – cara-de-pau, da sua poesia fescenina, na melhor tradição bocageana ou glaucomattosina. ouvimos também traduções, e fiquei admirado lá com aquele cara que eu mal conhecia, fora um ou outro poema visto na digníssima internet. mas hoje o fescenino deixa a cena & vemos o lírico, ou semilírico, entre coisas, restos, corpos & mentes.  acho que poderia chamá-la uma poesia de restos, porém sem o típico prazer das excrescências (se bem que elas também entram no seu jogo, os curiosos podem ver aqui). é um lírico, sem dúvida, quem para para encontrar ferrugens, & que a encontra como também desencontra conceitos para saudade (esse nosso chavão lusitano). em resumo, espero conhecer em breve mais coisas desse cara.

guilherme gontijo flores

p.s.: os poemas abaixo pertencem a o latim das moscas, ainda inédito.

4 peças para ferrugem

a)

         parafuso

não de rosca soberba
para chapas de metal.

segurou quadros? fixou
         sextavado o esqueleto da cama?
         emprenhou porcas, coadjuvou
         dobradiças e roldanas?

         um tendão de aço
         que não vale
         nada sobre nada

existirá
         sem qualquer bênção de deus
         centenas de anos

b)

skol cerveja pilsen
beijou os lábios da mulher
no verão de 85?

as axilas do tétano
cheiram a ferro de sangue.

esta veio dar na praia.

quando o sol bate
no único cm²
ainda brunido e intato
da folha-de-flandres

brilha mais que diamante

c)
quem já viu
um arpão
oxidado
no meio
de uma cidade
sem praias?

d)
         o quarto objeto
         é um poema.

         não costumam ser
         inventariados em capões
         ou ferros-velhos
         comidos de ferrugem
         os poemas.

         mas ninguém o leu
         ninguém
         sequer o escreveu
baldio
sem o que ter sido ou dito
         ninguém diz:
                             um poema!

         mais agora
que a lepra
do metal o faz
– no chão vermelho
ervas rasteiras do alfabeto –
ainda mais patético
e ilegível

exercícios banais 3

há lugares onde a saudade, não fosse ela inopinada
e irrecusável, se exerce com método:
nos bancos de praça, pelas janelas
do quinto ao sétimo andar, diante do mar
nos alpendres dos sobrados, no interior do goiás
dentro dos ônibus interestaduais
e nas penitenciárias.

há lugares onde a saudade, não fosse ela inopinada
e irrecusável, não encontra passagem:
na rua XV do zênite, no pega-pra-capar do trânsito
na fila do banco, pelas escadas carregando compras
em frente aos muros pichados, nas lojas de sapatos
celulares e ares-condicionados
dentro de túneis, elevadores e mictórios.

uma espécie de gregor samsa

a noite lá fora é distinta
da noite maníaca e cheirosa dentro da xícara.
mas a aranha a passear os móveis, mas os grilos
que parecem saltar dos meus bolsos
nivelam (ou não nivelam?) as duas noites.

então imagine que fosse
pó de café a própria terra, insone de insetos,
e que fora coado com terra, inchada de sombras e barulhos,
o café na térmica.

é o mesmo o princípio
da cafeína e dos grilos.

a xícara, com sua borra de açúcar, dorme dorme
profundo
(só quando se quebram
as coisas por um instante despertam).

partido em cacos,
sorvi toda a noite das xícaras:
é bem possível que eu não durma.
vou latejar na madrugada como uma estrela e um inseto.

(rodrigo madeira)

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s