crítica, poesia

Trato de silêncios, de Luci Collin

Luci Collin é uma dessas figuras meio subestimadas do Paraná, do tipo que, diga-se de passagem, Curitiba tem algum prazer em produzir (pense no caso do romancista Cristóvão Tezza, que só ganhou uma maior popularidade há poucos anos graças ao seu Filho Eterno). Sua trajetória literária inclui traduções (a mais recente delas sendo de A Cela Enorme, de e. e. cummings, mas ela trabalhou já com a tradução dos poetas Gary Snyder, Gertrude Stein, entre outros), prosa (Precioso Impreciso (2001), Vozes num Divertimento (2008), Com que se pode jogar (2011)) e, claro, poesia (Estarrecer (1984), Espelhar e Esvazio (1991), Ondas e Azuis (1992), Todo Implícito (1998)), que lhe rendeu prêmios em concursos de literatura no Brasil e nos EUA e participação em antologias como Geração 90 – os transgressores (2002) e 25 Mulheres que estão fazendo a literatura brasileira (2004). Seus livros, no entanto, até o momento haviam sido lançados apenas por editoras dedicadas, porém menores (Kafka Edições, Ciência do Acidente), de menor visibilidade. Agora o seu mais recente volume, Trato de silêncios, marca sua entrada no catálogo de uma editora muito maior e influente que é a 7Letras.

É difícil falar de Trato de silêncios, em parte porque, ao que me parece, trata-se, de fato, de um livro difícil. O próprio título, já de cara, é ambíguo, na medida em que “trato” pode ser tanto um terreno, um lapso, um acordo (um tratado), um tratamento, quanto a primeira pessoa do verbo “tratar”: eu trato de silêncios (todas essas leituras me parecem adequadas). Mas essa não é bem uma dificuldade que torne o texto impenetravelmente opaco, a ponto de afastar o leitor por conta de uma hostilidade à leitura, mas uma dificuldade que atrai, por indicar que existe algo importante por trás dela, algo que precisa ser dito – e isso transparece especialmente nos momentos em que Luci consegue aliviar a linguagem e deixar alguma clareza vir à tona.

Parte desse efeito deriva do vocabulário, que às vezes recorre a algumas palavras mais raras (sem que os poemas recaiam, no entanto, naquele preciosismo novecentista que é tão típico dos poetas palacianos presos ao passado), mas que um dicionário facilmente explicita e, longe de parecer um mero ornamento literário dispensável, a palavra, uma vez compreendido seu significado, subitamente lança uma nova luz ao poema. É o caso, por exemplo, de “Ntumbuluku” e “Ontivo”, que selecionei aqui, junto de outros 2 poemas, como aperitivo. Para elucidar as palavras que lhes dão título, dou voz aqui ao Houaiss:

ontivo:
na teoria de Lucien Tesnière (linguista francês, 1893-1954), designação comum à primeira e à segunda pessoas do verbo, referentes a seres que participam do ato de comunicação.

ntumbuluku:

a origem da Natureza e da Humanidade (origem: Moçambique)

Mas isso é só uma pequena parte. A maneira como Luci lida com a esfera poética da logopeia (segundo as noções de Ezra Pound, expostas em seu ABC da Literatura, de 1934) também contribui tanto para dificultar a compreensão, quanto para deixar os poemas mais interessantes poeticamente, com seus usos inesperados da sintaxe e classes gramaticais, constantemente criando novos conceitos. E isso, de fato, é o mínimo que se espera quando se considera o assunto complicado que ela aborda, ao tratar de relacionamentos amorosos e da vida cotidiana – um assunto que pode muito facilmente descambar em má poesia, embora (ou uma vez que) términos de relacionamentos rendam farto material para inúmeras canções pop. No entanto, não é a paixão e o amor breve e sazonal que Luci aborda, com seus começos e fins tempestuosos, mas a questão do relacionamento a longo prazo, a construção da vida entre dois indivíduos, o seu desmantelamento e a posterior reconstrução ao lado de outra pessoa diferente. E alguns poemas como “Outrossim”, “Ora”, “Auricerúleo” e “Goldmining“, além de “Ontivo”, tratam disso com alguma clareza. É óbvio que a primeira questão que vem à mente é a da possibilidade de uma relação biográfica entre Luci e os poemas, mas creio, pessoalmente, que isso seja o que menos interessa. Não descarto que essa possibilidade exista, mas é muito mais interessante observar como a poeta lida com isso artisticamente do que especular, à maneira da “crítica” (fofoca) do século XIX, sobre sua vida. As figuras do ex-marido, do ex-amante e suas sombras, me parecem comuns o suficiente para serem arquetípicas, e, não por acaso, a figura clássica de Molly Bloom, ícone exponencial do amor conjugal, doméstico, parece pairar sobre alguns momentos do livro, especialmente nos “sim” do último poema, “Desconforme”.

E, o que me parece surpreendente, o próprio livro já antecipa essa reação, por parte do leitor, de tendência biografista, conforme as temáticas da ficcionalização, do palco, da maquiagem do palhaço e da máscara utilizada pelos atores do teatro grego surgem já no primeiro poema (“Desta feita”), ressurgem no penúltimo (cujo título “Nestes termos”, ecoa o do primeiro) e encontram ressonâncias ao longo de todo o livro. É a problematização de uma questão antiga na poesia lírica, de Safo e Catulo até Charles Bukowski, E. Bishop, Roberto Piva, Glauco Mattoso, etc, que é como a obra se constrói, inevitavelmente, a partir da vida do poeta, ainda que ele ou ela possa fazer um esforço ativo para demarcar, distorcer ou apagar essa relação direta.

E há ainda poemas como “Distorção” e “Cena muda” (título teatralmente sugestivo), cujo eu-lírico é masculino e vem complicar a relação do jogo das vozes utilizadas. A meu ver, no caso de “Cena muda”, por exemplo, trata-se de um monólogo que parece escrito na voz do ex-marido, a figura do primeiro relacionamento, conforme indícios dados pelos outros poemas, especialmente pela abordagem do tema da riqueza material – mas posso muito bem estar muito enganado também. Um outro poema, “Pareceres”, pela sua repetição de “Amei aquele homem” e “Amei aquela mulher”, também faz suas contribuições para a complexidade do jogo de vozes do livro.

Enfim, há muito mais que eu poderia escrever sobre Trato de silêncios: ainda sobre essa questão do(s) amor(es), ou sobre o silêncio presente no próprio título do livro, que se manifesta na forma de um certo laconismo, um silêncio sugestivo entre os versos, sobre como Luci consegue, felizmente, evitar os lugares-comuns do que se espera da chamada “poesia feminina”, ou sobre como sua voz poética vem evoluindo desde os seus primeiros livros, sobre como ela consegue exorcizar o fantasma da voz dominadora de Paulo Leminski, que até hoje se insinua sobre a poesia paranaense e boa parte da poesia brasileira contemporânea em geral. Mas por ora irei me calar – o lançamento de Trato de silêncios é muito recente ainda, há tempo para futuras e mais bem resolvidas críticas – e deixarei que os versos dela falem por si só.

ONTIVO

Nos encontraremos e eu estarei atarefada
e você estará imerecível
e eu estarei cansada para o cafezinho
e você estará exausto para um cinema
e eu estarei amorfa
e você palimpsesto
e eu estarei rendida às evidências mais ocultas
e você descompassado às vivências absolutas
e eu estarei com pressa
e você naquela hora imprevisível
e eu estarei naquela hora portentosa
e você estará naquele momento incrível
e eu estarei naquela manhã chuvosa
e você estará naquela noite audível
e eu retrocederei até auroras
e você avançará aos ocidentes
e eu compreenderei infinitudes
e você desvestirá os contratempos
e eu deslizo pela superfície e vou embora
e você mergulha mar adentro e refloresce

CENA MUDA

eu que era único
e indivisível
agora criei tentáculos
ávidos
que não controlo

roubam vermelhos vivos
que nem sei para que servem
desejam tanto, usurpam
violam cantos sagrados
espalham cinzas
riem
esbofeteiam

cinicamente esfarelam
pedaços lícitos de pão
distribuem as fichas
embaralham cartas
trapaceiam noite adentro
alheios ao meu desconforto
trazem ouro profano para casa
abarrotam mesas

e eu, mudo e multifacetado,
olho a insana riqueza
que meus próprios braços acumulam
e tentando escutar meu vão discurso
não consigo
porque as frenéticas mãos que não controlo
                                   aplaudem ruidosamente

NTUMBULUKU

Na folha limpa
A destreza deste sentimento
Que não se quis armadura
Que rarefez esperanças
Se reformulou obséquios
E viveu hoje
E aqui

A presença enorme
Em contentamento
Pequena em peso

Lírios

Riso

Vento

DESCONFORME

quis sustentar rastros e areias
por desconhecer a caligem
que adviria do aço maior
e do pó

combinar palavras luz
eu quis
por desconhecer que as moscas sim
são mais preparadas
que às deusas sim
são mais úmidas
que as primaveras
mais rotas

e a poesia estava cheia de
moscas tigres primaveras
ineptos ao toque
os ossos
que colecionamos

no mundo enlameado
nomes todos juntos
isto é o mundo
isto são as meninas de mãos dadas
a uma única velocidade

quando figuro e noticio
a vida simplificada
em dálias e deserto
tudo um uníssono

e a tarde estava cheia de
cromos
que saltam sem dor nenhuma
mãos que nunca mais
hesitam
são agora

dedos de escritura
dedos artesianos representam
os lapsos e o lençol
                                 em chama e em cinza

(poemas de Luci Collin, comentário de Adriano Scandolara)

Padrão

Um comentário sobre “Trato de silêncios, de Luci Collin

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s