crítica, poesia, tradução

O Amante de Porfíria – Robert Browning

O período romântico inglês é uma coisa cronologicamente complicada. A primeira geração começa com William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge (que juntos publicam as famosas Lyrical Ballads em 1798) e, à parte deles, William Blake. No entanto, os dons de Wordsworth e Coleridge são muito menos longevos do que eles próprios, que nascem em 1770 e 1772, respectivamente, e morrem só em 1850 e 1834. O fracasso de Wordsworth, sobretudo, em manter o seu brilho poético é famoso e comentado, inclusive, por Shelley e Byron, além de Ezra Pound, Harold Bloom e outros críticos. Já a segunda geração dos românticos ingleses é a dos nascidos perto da virada do século XVIII para o XIX. Eles, no entanto, junto de Blake, morrem todos na década de 1820: Keats em 21, Shelley em 22, Byron em 24 e Blake em 27. E isso é algo engraçado: se lembrarmos que Victor Hugo nasce em 1802, Almeida Garrett, em 1799, Gonçalves de Magalhães, em 1811, vemos logo que, enquanto o romantismo ainda estava se desenvolvendo no Brasil e maior parte da Europa – exceto pela Alemanha, cujo romantismo antecede o inglês, e a Suécia, estranhamente, que o acompanha – os grandes poetas do romantismo inglês já haviam fechado o seu círculo. A geração que veio depois ainda escreve sob essa estética romântica, mas já não dá para dizer que é bem a mesma coisa. A Inglaterra, ao contrário do Brasil e da França, não teve nem simbolismo, nem parnasianismo (apesar de identificarmos em Oscar Wilde tendências decadentistas, que de qualquer modo, é levemente distinto do simbolismo de fato) e continua com essa estética até o momento do modernismo – cujas principais figuras são, curiosamente, norte-americanas.

Robert Browning (1812 – 1889) é dessa geração seguinte do romantismo inglês tardio e, juntamente com Lord Alfred Tennyson (1809 – 1892) e Gerard Manley Hopkins  (1844 – 1889), escreveu, possivelmente, o que há de melhor da poesia do período. Toda essa geração (se é que é justo falar de todo esse pessoal nascido em datas diferentes como pertencentes à mesma geração… mas em geral se fala, de qualquer modo) é muito pouco discutida e, em parte, é com razão. Perto do que estava sendo feito no além-mar, por Whitman e Dickinson, ou na França, com todos os simbolistas, a poesia vitoriana (fora essas exceções) parece muito fraca. Eliot comenta sobre como Algernon Swinburne (1837 – 1909), por exemplo, perde feio para “seu mestre” Shelley – e isso apesar de Eliot detestar Shelley -; Pound, em sua fortuna crítica, também faz a sua cota de comentários negativos sobre a geração apesar de, em geral, louvá-los como bons tradutores (e ele mesmo teve de lidar com a influência dela sobre a sua própria poesia. Vide o seu famoso poema “Hugh Selwyn Mauberley”, de 1920); G. K. Chesterton tem um livro inteiro sobre o assunto (The Victorian Age in Literature), onde aponta alguns problemas como a “miopia” dos vitorianos e “o modo como a individualidade romântica se degenerou neles em individualismo”, entre outras questões; George Steiner dedica algumas páginas da introdução de seu Depois de Babel para apontar o que há de errado com um soneto ecfrástico de Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882), e por aí vai. E o modo como os vitorianos reescreveram e censuraram o que havia de mais rebelde nas gerações anteriores para conformá-las às suas próprias noções conservadoras de poesia, moral, religião e ideologia certamente também não ajudou – e, nisso, Swinburne e Matthew Arnold (1822 – 1888) têm lá suas parcelas de culpa.

Mas, dito isso, há ainda assim bons poemas escritos por poetas vitorianos, e alguns deles são os chamados monólogos dramáticos de Browning. Um que eu traduzi recentemente e que compartilho abaixo se chama “Porphyria’s Lover” e é escrito na voz de um homem (que não é o próprio Browning, nem uma forma de eu-lírico dele, mas um personagem de fato) que, tomado de paixão por sua amada Porfíria, após ela confessar seu enorme amor por ele, e desejando tornar imortal esse amor, a estrangula com o próprio cabelo louro. O poema, famoso e muito presente em antologias, data de 1836, mas, dada a temática, essa sondagem da psicologia deturpada do personagem que ele aborda, creio que não seria de todo estranhado por Baudelaire ou Lautreàmont (se é que eles, de fato, não foram leitores de Browning).

Antes de traduzi-lo, eu procurei por traduções já existentes, mas elas são raras, porque, mais ainda do que os românticos em geral, a popularidade dos vitorianos está muito em baixa. Fora a célebre fábula infantil do Flautista de Hamelin, só encontrei referências online a uma tradução, do lusitano João Almeida Flor, intitulada Monólogos Dramáticos. Mas ela é difícil de encontrar e, pior do que isso, muito cara. Por isso peço que perdoem minha omissão aqui da tradução de Almeida Flor.

Os recursos formais do poema são simples de se explicar: versos em tetrâmetros jâmbicos dispostos, visualmente, no que parece ser uma única estrofe, mas que, estruturalmente, se mostra, na verdade, ser uma sucessão de 12 estrofes de 5 versos, com esquema de rimas sempre ABABB. E essas características, inclusive no funcionamento do ritmo (na medida, claro, em que minhas capacidades me permitem) foram o que eu tentei manter em minha tradução.

(Adriano Scandolara)

O Amante de Porfíria

Chegou ligeira a chuva à noite,
         E alçou-se logo o triste vento,
Que os olmos pune em seu açoite
         E vexa o lago com contento:
         Eu escutava em desalento.
Foi quando entrou Porfíria; logo
         Botando fora a chuva e o frio,
Aquece o chalé com o fogo
         Que aviva, ajoelhada e gentil;
         Depois, pondo-se em pé, despiu
As luvas sujas, a sua capa
         E o xale então encharcado;
Do chapéu seu cabelo escapa,
         E enfim sentou-se ao meu lado
         E me chamou. Quando o chamado
Não respondi, meu braço pôs
         Em seu quadril, o ombro nu em pelo,
E a loura coma ela dispôs,
         E ali me pôs, como um apelo,
         E espalhou seu louro cabelo,
Murmurando que me amava —
         Tão fraca, queria somente
Livrar do peito, que lutava,
         Do vão orgulho que se sente,
         E dar-se a mim eternamente.
E às vezes a paixão domina,
         E o festim desta noite bela
Não freia a ideia repentina
         De alguém palente de amor: ela,
         Pois,viera sob vento e procela.
Certo é que em seu olho eu olhava
         Feliz e orgulhoso; pois vi
Que Porfíria me idolatrava:
         Co’o choque, o coração, senti,
         Crescia, e eu me decidi.
Perfeita e pura: no momento,
         Pois, ela era minha, minha,
E o seu cabelo, em meu intento
         Passei em uma áurea linha
         Três vezes por sua gargantinha,
E a estrangulei. Foi indolor;
         Foi indolor, disso estou certo.
Como uma abelha presa em flor,
         Abri os olhos azuis de perto:
         E riram, puros e abertos.
Soltei do pescoço a trança
         E a face outra vez corava,
Rubente ao meu beijo em ânsia:
         Eu a ergui como costumava,
         Só que meu ombro segurava
Sua cabecinha ainda pendente:
         Feliz co’o desejo cumprido,
A fronte rósea e sorridente,
         Que o que desprezava é fugido,
         E eu, seu amor, possuído!
O amor de Porfíria: insciente
         De sua vontade realizada.
E assim sentamos juntos, rente,
         E eis-nos quietos na madrugada,
         E ainda Deus não disse nada!

(tradução de Adriano Scandolara)

        
Porphyria’s Lover

The rain set early in to-night,
         The sullen wind was soon awake,
It tore the elm-tops down for spite,
         And did its worst to vex the lake:
         I listened with heart fit to break.
When glided in Porphyria; straight
         She shut the cold out and the storm,
And kneeled and made the cheerless grate
         Blaze up, and all the cottage warm;
         Which done, she rose, and from her form
Withdrew the dripping cloak and shawl,
         And laid her soiled gloves by, untied
Her hat and let the damp hair fall,
         And, last, she sat down by my side
         And called me. When no voice replied,
She put my arm about her waist,
         And made her smooth white shoulder bare,
And all her yellow hair displaced,
         And, stooping, made my cheek lie there,
         And spread, o’er all, her yellow hair,
Murmuring how she loved me — she
         Too weak, for all her heart’s endeavour,
To set its struggling passion free
         From pride, and vainer ties dissever,
         And give herself to me for ever.
But passion sometimes would prevail,
         Nor could to-night’s gay feast restrain
A sudden thought of one so pale
         For love of her, and all in vain:
         So, she was come through wind and rain.
Be sure I looked up at her eyes
         Happy and proud; at last I knew
Porphyria worshipped me; surprise
         Made my heart swell, and still it grew
         While I debated what to do.
That moment she was mine, mine, fair,
         Perfectly pure and good: I found
A thing to do, and all her hair
         In one long yellow string I wound
         Three times her little throat around,
And strangled her. No pain felt she;
         I am quite sure she felt no pain.
As a shut bud that holds a bee,
         I warily oped her lids: again
         Laughed the blue eyes without a stain.
And I untightened next the tress
         About her neck; her cheek once more
Blushed bright beneath my burning kiss:
         I propped her head up as before,
         Only, this time my shoulder bore
Her head, which droops upon it still:
         The smiling rosy little head,
So glad it has its utmost will,
         That all it scorned at once is fled,
         And I, its love, am gained instead!
Porphyria’s love: she guessed not how
         Her darling one wish would be heard.
And thus we sit together now,
         And all night long we have not stirred,
         And yet God has not said a word!

(Robert Browning)

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