poesia, tradução

4 traduções no jornal relevo

Essas quatro traduções – feitas por nós quatro do escamandro, cada um trabalhando com um idioma diferente e com um autor já trabalhado aqui – foram publicadas no Jornal RelevO, edição de novembro de 2012, disponível em versão impressa, mas também online, clicando aqui.

Um poema de Rumi, via Coleman Barks

I

eis a alquimia da condição humana:
no momento em que são aceitas as fadigas
portas se abrem

abraçar a dificuldade como a um antigo companheiro
alegrar-se na tormenta
remendar as roupas velhas com a tristeza
e em seguida retirá-las

esse despir
o corpo que se encontra por baixo
é a doçura que vem
após a dor

II

contemplo a ascensão de Maomé
o Amigo está aqui
em toda parte

o amor é uma corrente
e o corpo
fogo

peço-lhe que me mostre o caminho
ele me exorta a deixar a cabeça
sob as solas dos pés

tantos são os caminhos de ascensão
quanto preces
ao amanhecer

III

um jarro de água não mais nos basta
desejamos rio
a face da paz
o Sol

não mais a lua sob as nuvens
mas a manhã clara
e a presença daquele cujo trabalho
permanece inacabado

para que também o realizemos
ociosos e atentos
ao sair de cena

IV

você que dá vida ao planeta
você que vai para além da lógica, venha!
sou uma flecha que se estende
no arco do Amado
prestes a alçar vôo

por causa do amor
a tigela caiu do telhado
deixe de lado a escada
para recolher os pedaços

onde está o telhado?
de onde quer que a alma venha
para onde quer que ela vá durante a noite
ali ele está

de onde quer que surja a primavera para dar vida ao solo
de onde quer que se manifeste o desejo da busca

a procura mesma é um traço
do que procuramos

mas nos assemelhamos mais ao homem
que monta em um burro
e lhe pergunta para onde ir

espere!
pode ser que o oceano
que tanto desejamos
nos queira aqui na terra firme um pouco mais

todos os variados caminhos que traçamos
sempre acabam por encontrar o mar

(Jalaluddin Rumi, tradução de Bernardo Brandão, via Coleman Barks)

Amargo acorde

Ou mesmo ao meio-dia de um outubro
De harmônicas colinas
Em meio a densas nuvens descedentes
Os cavalos dos Dióscuros,
Perante cujas patas
Eis um menino extático,
Sobre as ondas andavam

(Por um amargo acorde recordado
À sombra de bananas
E gigantes errantes
Tartarugas nos blocos
Da enorme água impassível:
Sob outra ordem de astros
Entre incomuns gaivotas)

Eu voo até a planície onde o menino
Revirando a areia,
Pelo fulgor dos raios inflamada
A transparência dos queridos dedos
Banhados pela chuva contra o vento,
Apreendia os elementos todos.

Mas a morte é incolor e sem sentido
E como sempre, desatenta às leis,
Já o tocava
Com dentes impudicos.

(Giuseppe Ungaretti, tradução de Guilherme Gontijo Flores)

Areia movediça

Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
E você
Como uma alga no lento afago do vento
Sonha na areia do teu leito em movimento
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Mas ao ver de perto os teus olhos entreabertos
Duas ondinhas ficam entre os amantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
Duas ondinhas para me afogar em instantes.

(Jacques Prévert, tradução de Adriano Scandolara)

Preciosa e o ar

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem
por um anfíbio sendeiro
de cristais e de louros leves.
O silêncio sem estrelas,
fugindo do sonsonete,
cai onde o mar bate e canta
sua noite cheia de peixes.
Nos altos picos da serra
carabineiros dormecem
vigiando as brancas torres
onde vivem os ingleses.
E a ciganagem da água
levanta co’ algum prazer,
carrosséis de caracóis
e ramos de pinho verde.

*

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem.
Ao vê-la se põe erguido
o vento que não dormece.
São Cristóvão desnudado,
cheio de línguas celestes,
olha a menina tocando
uma doce gaita ausente.

Moça, deixa que levante
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos arcaicos
a rosa azul de teu ventre.

Preciosa atira o pandeiro
e corre sem se deter.
O vento-machão persegue
com espada incandescente.

Franze seu rumor o mar.
Olivas empalidecem.
Cantam as flautas de sombra
e o liso gongo da neve.

Preciosa, corre, Preciosa,
que te agarra o vento verde!
Preciosa, corre, Preciosa!
Olha por onde ele vem!
Sátiro de estrelas baixas
com suas línguas reluzentes.

*

Preciosa, cheia de medo,
entra na casa existente,
mais acima dos pinheiros,
consulado dos ingleses.

Assustados pelos gritos
três carabineiros vêm,
suas negras capas cingidas
e gorros em suas frentes.

O inglês dá à cigana
um copo de um morno leite,
e uma taça de genebra
que Preciosa, então, não bebe.

E enquanto conta, chorando,
a aventura àquela gente,
nas telhas de ardósia o vento,
furioso, mete-lhe os dentes.

(Federico García Lorca, tradução de Vinicius Ferreira Barth)

         

Learn the alchemy…

I.
learn the alchemy true human beings know
the moment you accept what troubles you’ve been given, the door opens.

Welcome difficulty as a familiar comrade.
Joke with torment brought by a Friend.

Sorrows are the rags of old clothes and jackets
that serve to cover
and then are taken off.

That undressing
and the beautiful naked body underneath
is the sweetness that comes after grief

II.
today I see Muhammad ascend
the friend is everywhere, in every action
love, a lattice
body, a fire
I say, show me the way

you say, put your head under your feet
that way you rise through te stars
and see a hundred other ways to be with me

there are as many as there are
flightpaths of prayer at dawn

III.
jars of springwater are not enought anymore
take us down to the river
the face of peace, the sun itself

no ore the slippery cloudlike moon
give us one clear morning after another
and the one whose word remains unfinished
who is our word as we diminish
idle, though occupied, empty, and open

IV.

You that give new life to this planet,
you that transcend logic, come.
I am only an arrow. Fill your bow with me
and let fly. Because of this love for you,
my bowl has fallen from the roof.
Put down a ladder and collect the pieces.

People ask, Which roof is your roof?
I answer, Wherever the soul came from
and wherever it goes back to at night,
my roof is in that direction.

From wherever spring arrives
to heal the ground, from wherever searching rises

(Rumi)

         
Amaro accordo

Oppure in un meriggio d’un ottobre
Dagli armoniosi colli
In mezzo a dense discendenti nuvole
I cavalli dei Dioscuri,

Alle cui zampe estatico
S’era fermato un bimbo,
Sopra i flutti spiccavano

(Per un amaro accordo dei ricordi
Verso ombre di banani
E di giganti erranti
Tartarughe entro blocchi
D’enormi acque impassibili:
Sotto altro ordine d’astri
Tra insoliti gabbiani)

Volo sino alla piana dove il bimbo
Frugando nella sabbia,
Dalla luce dei fulmini infiammata
La trasparenza delle care dita
Bagnate dalla pioggia contro vento,
Ghermiva tutti e quattro gli elementi.

Ma la morte è incolore e senza sensi
E, ignara d’ogni legge, come sempre,
Già lo sfiorava
Coi denti impudichi.

(Ungaretti)

         

Sables mouvants

Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s’est retirée
Démons et merveilles
Vents et marées
Et toi
Comme une algue doucement caressée par le vent
Dans les sables du lit tu remues en rêvant
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s’est retirée
Mais dans tes yeux entrouverts
Deux petites vagues sont restées
Démons et merveilles
Vents et marées
Deux petites vagues pour me noyer.

(Prévert)

         

Preciosa y el aire

Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene
por un anfibio sendero
de cristales y laureles.
El silencio sin estrellas,
huyendo del sonsonete,
cae donde el mar bate y canta
su noche llena de peces.
En los picos de la sierra
los carabineros duermen
guardando las blancas torres
donde viven los ingleses.
Y los gitanos del agua
levantan por distraerse,
glorietas de caracolas
y ramas de pino verde.
          *
Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene.
Al verla se ha levantado
el viento que nunca duerme.
San Cristobalón desnudo,
lleno de lenguas celestes,
mira la niña tocando
una dulce gaita ausente.
Niña, deja que levante
tu vestido para verte.
Abre en mis dedos antiguos
la rosa azul de tu vientre.
          *
Preciosa tira el pandero
y corre sin detenerse.
El viento-hombrón la persigue
con una espada caliente.
Frunce su rumor el mar.
Los olivos palidecen.
Cantan las flautas de umbría
y el liso gong de la nieve.
¡Preciosa, corre, Preciosa,
que te coge el viento verde!
¡Preciosa, corre, Preciosa!
¡Míralo por dónde viene!
Sátiro de estrellas bajas
con sus lenguas relucientes.
          *
Preciosa, llena de miedo,
entra en la casa que tiene,
más arriba de los pinos,
el cónsul de los ingleses.
Asustados por los gritos
tres carabineros vienen,
sus negras capas ceñidas
y los gorros en las sienes.
El inglés da a la gitana
un vaso de tibia leche,
y una copa de ginebra
que Preciosa no se bebe.
Y mientras cuenta, llorando,
su aventura a aquella gente,
en las tejas de pizarra
el viento, furioso, muerde.

         
(García Lorca)

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