poesia

décio pignatari, in memoriam (1927-2012)

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Hélio Oiticica, Décio Pignatari & José Lino Grünewald, no Rio de Janeiro, em 1978

E a geração dos grandes poetas brasileiros que floresceram na década de 1950 perde mais um de seus nomes, neste domingo, dia 2 de dezembro de 2012.

Nascido em 20/7/1927 em Jundiaí, morreu ontem em São Paulo, 2/12/12, o poeta Décio Pignatari. Um semiótico inveterado, fundou – ao lado de Roman Jakobson, Umberto Eco, Emile Benveniste, Iuri Lotman e outros – a Associação Internacional de Semiótica (Paris, 1969), da qual foi um dos vice-presidentes (1969 – 1984) (com agradecimentos ao poeta André Vallias por esse dado), publicou diversos livros sobre semiótica, comunicação e literatura (dos quais destacaríamos, por sua concisão e precisão, O que é comunicação poética?, imprescendível para qualquer um que estude ou esteja começando a se interessar por poesia) e teve sempre, no cerne de seus experimentos com a linguagem, uma preocupação das mais ferrenhas pelos mecanismos pelos quais os signos – verbais ou não – se articulam e se combinam para produzir significado.

Em 1952, o trio formado por Décio e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos inaugura a revista de poesia Noigandres – título retirado de uma canção trovadoresca provençal via Canto XX d’Os Cantos de Ezra Pound, por conta da dificuldade de definição da palavra. Com isso dava-se início ao movimento da Poesia Concreta, que logo ganharia estatuto internacional ao antecipar e influenciar muitos dos experimentos que estavam dando ou viriam a dar ainda seus primeiros passos na Europa – sobretudo na Suíça, por Eugen Gomringer e Alemanha, onde Haroldo de Campos foi convidado a dar palestras sobre o Concretismo. Antes disso, Décio já havia estreiado com alguns poemas publicados na Revista brasileira de poesia, em 1949, e com seu primeiro livro Carrossel, de 1950. Em 1965, o grupo publica um dos marcos do Concretismo que foi A Teoria da Poesia Concreta, onde se traça a linhagem para o movimento numa tradição de inovação linguística vinda de Stéphane Mallarmé, e.e. cummings, James Joyce (sobretudo o Joyce onírico e multilíngue de Finnegans Wake, que até então, como romance, se encontrava num certo limbo de rejeição) e, claro, Ezra Pound – poetas (e um prosador) até então pouco conhecidos e pouco traduzidos em português, quadro que o grupo dos 3 logo iria reverter.

Além de poeta e semiótico, Décio foi um exímio tradutor de poesia, como comprovam o seu Retrato do Amor Quando Jovem (traduções de Dante, Goethe, Shakespeare), 31 poetas, 214 poemas (que apresenta de Rigveda a Safo a Juvenal a Marcial a Byron a Browning a Apollinaire), e a sua colaboração ao volume Mallarmé, dos irmãos Campos, com um experimento radical de tripla tradução de “L’après-midi d’un faun” (talvez o processo tradutório mais radical da história da poesia brasileira até então), e assim por diante. Como nos lembra o que é provavelmente seu mais famoso poema, “beba coca cola”, Décio tinha uma forte verve satírica (de longe a mais contundente do grupo concretista), e, mais ainda do que isso, um forte gosto pela poesia erótica, o que, não por acaso, o atraiu para Marcial, nos 214 poemas (e você pode ler algumas de suas traduções do lascivo poeta latino na revista Germina, clicando aqui), e o levou a ser um dos maiores nomes da poesia erótica do século XX – uma contribuição que, partindo de um homem que também foi um influente intelectual, certamente colaborou para retirar o gênero da zona de constrangimento em que se encontrava até a geração anterior.

Por fim, fora isso, Décio publicou também, em prosa, O Rosto da Memória (1988) e Panteros (1992), a peça de teatro Céu de Lona (2004) e o infanto-juvenil Bili com Limão Verde na Mão (2009), e sua poesia reunida se encontra no volume de 1977, Poesia Pois é Poesia.

De tudo isso, poderíamos imaginar quanto se perde com sua morte. Mas não somos pessimistas: nada se perdeu; sua poesia, sua crítica, sua tradução estão conosco, assim  – como esperamos – também possam estar seu riso e sua fera.

(adriano scandolara & guilherme gontijo flores)

Epitáfio (de Noigandres 1, 1952)

Décio Pignatari menino imenso e castanho com tremores
nascido sob o signo mais sincero e para e per e por e sem ternura
quem te dirá do mando que exerceram sobre os teus cabelos
os amigos rápidos as mulheres velozes e os que comem dentro do prato
Estás cansado Pignatari e teu desprezo entumesceu como uma árvore tamanha
Estás cansado como uma avassalada aberta enorme porta enorme
e quando abres os braços repousas os ombros em amplos arcos de pássaros vagarosos
Lento e fundo é o ar de tuas tardes nos teus poros
e dentro dele se desenredam fundos e atentos mesmo os esforços mais assíduos
e se mergulhares tua mão na água que repousa à água acrescentarás a mão e a água
Décio Pignatari menino castanho e meu como um cachorro grande
que atravessa o portão sereno inflorescendo aos poucos no jardim seu garbo
com a calma grandiosa das nuvens que se abrem lentas na tarde para envolver o ar
devagar tua cabeça almeja devagar a superfície sem temores
e tuas pálpebras se inclinam aos eflúvios da sesta mundial de imensos paquidermes
que avolumam na sombra como grandes bulbos insonoros em cavernas dormidas
Mansa dinastia de gestos nas ruínas dulcificando as intempéries da memória
descansa como um cortejo de crepúsculos antigos na cordilheira turva da semana
Crescente como o céu de março nas ameias das torres elevadas e redondas
e à tua própria sombra no mundo que perdeste descansa Pignatari.

O jogral e a prostituta negra (de Carrossel, 1950)

Farsa trágica

Onde eras a mulher deitada, depois
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

É à hora carbôni-
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.

A legião dos ofendidos demanda
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.

É a hora do rio, o grosso rio que lento flui
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miraste no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter (ataúde e espelho) morres.

Teu lustre em volutas (polvo
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:

Tudo passa neste rio, menos o rio.

Minérios, flora e cartilagem
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu te componha, recompondo:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das
persianas. Guilhotinas de luz lapidam o teu dorso em
rosa: tens um punho decepado e um seio bebendo
na sombra. Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas.)

Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
“Há uma estátua afogada…” (Em câmara lenta! – disse).
“Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz(ardo -o
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos.”

Choremos por todos – soluço, e entoandum
litúrgico impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicédio AAquela
que deitada era um poema e o não é mais.

Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo
subterrâneo de retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

LIFE (1957)

ORGANISMO (1960)

Três poemas ideológicos de amor (1986)

Você já arranhou parde?
          já sentiu o ácaro da rosa ausente
          já mastigou pano
          já viu a romã dar-se à luz em grená
          e o golfinho saltando para o teu útero
Você já ouviu um pintassilgo ouvindo Beteljosa

I amo você

***

ventrava estrelas
                 e azul teu cheiro
                                 e cheiros
                 beiravam pregas
                 de luz e pele
                                 e enchiam o
                                                        cosmos um corpo
                                                        que se beijava
                                                                                por inteiros

***

Morrer em Nínive
desmemoriado
insensível a tudo

não fôra
a grandeza do fim

não fôra a lembrança
daquela terra
de índios e suipsitacídios

onde teus olhos
me falolharam
por tuas bocas

pela primeira vez

(Décio Pignatari)

Padrão

Um comentário sobre “décio pignatari, in memoriam (1927-2012)

  1. vai fazer muita falta. era um inegável talento e uma inteligência e erudição invejáveis…

    vou ser sincero: sempre o achei antipático. e essa impressão só piorou qd assisti a algumas de suas entrevistas no youtube.
    no entanto, tenho esses poemas de sua primeira fase – e nem conheço muitos deles – em altíssima conta: são poemas elegíacos, imagéticos, maduros (embora ele beirasse os 20 anos), reflexivos e rilkeanos (bem mais do que qualquer dos “rilkeanos” poetas da geração de 45). e isso tudo já animado por um espírito transgressor e inquieto, o mesmo que o levaria pouco depois ao concretismo. considero, aliás, que qualquer de suas fases subsequentes são menores do que essa. augusto de campos é de longe o grande mestre concretista. quase todos os poemas concretos do décio me causam apenas algum tipo de prazer intelectual (ou coceguinha verbivocovisual); já os dois primeiros poemas que vcs postaram aqui – puta merda, esses sim! – me deixam boquiaberto e emocionado.

    espero que o primeiro pignatari seja em breve reeditado…

    abçs

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