crítica, poesia, tradução

Kubla Khan – Samuel Taylor Coleridge

coleridgeUm dos poemas mais famosos de um poeta pouco lido. A Samuel Taylor Coleridge (1773 – 1834), poderíamos dizer, falta, talvez, algo do charme imediato dos outros românticos ingleses – o júbilo natural proto-hippie de Wordsworth, o esteticismo elaborado de Keats, o ardor poético/político de Shelley, o visionarismo quase louco de Blake, o humor ácido de Byron… – o que talvez justifique o interesse reduzido do público por sua obra. Mas quem já leu o seu longo “The Rime of the Ancient Mariner”, ou “A Balada do Velho Marinheiro”, como é conhecido em português (o outro poema mais popular de Coleridge, que ganhou homenagem inclusive até pelo Iron Maiden) já pôde averiguar o talento do poeta – que chegou a influenciar tanto Wordsworth quanto Keats e Shelley, bem como, mais tarde, também Edgar Allan Poe – e pode provavelmente imaginar o baque que essa sinistra viagem proto-simbolista deve ter causado nos leitores acostumados ainda a uma poética neoclássica do final do séc. XVIII. Não por acaso, a reedição de 1834 da “Balada” incluía, além da revisão de algumas estrofes, uma glosa em prosa à margem do texto explicando o que acontecia em cada momento do poema.

“Kubla Khan” é também um poema bastante “viajado”, por assim dizer: fruto de um sonho psicodélico de Coleridge (que, como bem se sabe hoje, fazia uso pesado do ópio) numa noite em que ele lia um relato de viagem sobre a ida de Marco Polo à China, o poema se constrói como uma visão fragmentária de Xanadu (ou Shang-du), a capital de veraneio do imperador mongol da China do século XIII, Kublai Khan, neto de Gêngis Khan. Famosamente, a composição do poema se deu, a princípio, com a tentativa de Coleridge de se lembrar de seu sonho alucinado; depois, após uma interrupção social que o impediu de se lembrar do restante do sonho, ele compôs a segunda parte.

Na primeira parte, então, temos uma representação desse lugar que é Xanadu – em parte inspirada pelo livro sobre Marco Polo e, em boa parte, fictícia, considerando que não existe um rio Alph na China, mas trata-se, segundo um comentador, de uma transposição do rio grego Alpheu – , ao que se segue uma descrição da nascente (encantada e violenta) desse sacro rio Alph.  Depois, na segunda parte, dá-se a tentativa de Coleridge de rememorar a música que ele ouviu em sua visão (na voz de uma outra pessoa, a de uma “donzela abissínia”), que leva a um encerramento metapoético, uma vez que, segundo o eu-lírico do poema, tal canção seria capaz de reconstruir no ar o milagre do “domo ao sol com grutilhões de gelo” – a união da cúpula ao sol construída por Kubla, portanto, artificial e civilizada, com o mundo natural das grutas de gelo subterrâneas reveladas pela violência do rio. Os últimos versos descrevem, por fim, qual seria a reação das pessoas que testemunhassem esse feito, com uma imagem de um profeta de tom bíblico. Apesar de seu caráter fragmentário (Coleridge pretendia fazer dele um poema mais longo), trata-se de um poema que pode ser lido como completo e acabado em si, o que não é um fenômeno raro entre os românticos – vide ainda, por exemplo, o Don Juan de Byron, O Triunfo da Vida, de Shelley, o Hipérion de Keats, ou o grande poema sem nome que Wordsworth jamais concluiu, do qual “O Prelúdio”, “O Recluso” e “A Excursão” seriam parte. Sua composição data de 1797 (sendo, assim, anterior até mesmo às Baladas Líricas), mas ele só vê a luz do dia muito tardiamente (apesar de ter sido lido em jantares e reuniões particulares muito antes de sua publicação) em 1816 – quando recebe uma maioria esmagadora de resenhas negativas, ainda que o seu prefácio tentasse evitar a crítica ao afirmar que a publicação do poema se dava “mais por interesses psicológicos do que pelos seus méritos poéticos”. E então, meio que para compensar isso, ele é publicado junto de um outro poema que, supostamente, deveria ser melhor (“The pains of sleep”), mas que de modo algum me parece ser o caso.

Formalmente, “Kubla Khan” é um quebra-cabeças estranho: os esquemas de rimas são irregulares (especialmente na última estrofe), e a métrica oscila entre tetrâmetros e pentâmetros jâmbicos, como em “In Xanadu did Kubla Khan” e “A sunny pleasure-dome with caves of ice!”, respectivamente. Mas ele também substitui, em alguns versos, o tetrâmetro jâmbico por trocaico, omitindo a primeira átona e começando o verso com uma tônica, como é o caso de “Floated midway on the wavesouIn a vision once I saw“. Em minha tradução, mais uma vez, foi esse aspecto rítmico que visei reconstituir. Até o término do meu trabalho, eu não havia ainda tido contato com a tradução de Alípio Correia de Franca Neto (encontrada em A Balada do Velho Marinheiro, pela editora Ateliê, juntamente com um comentário crítico, mais elaborado do que o meu, e uma tradução também do longo poema que dá título ao volume). Vendo-a agora, nota-se um projeto de tradução bastante diferente (mais claro semanticamente, eu diria) e, na minha opinião, muito bem executado – o que não pode ser dito da única tradução do poema que eu conhecia até então, a de José Lino Grünewald (presente no infame volume Grandes Poetas de Língua Inglesa do Século XIX), que prefiro não comentar, tampouco reproduzir.

Por último, mas certamente longe de ser menos importante, vem a tradução que eu descobri mais recentemente, e, assim, aproveitando mais uma chance de celebrar os dons do grande recém-falecido, reproduzo também uma tradução de Décio Pignatari de “Kubla Khan” – uma tradução que, diga-se de passagem, é a menos ortodoxa de todas as três. Ela se encontra em seu volume de poesia reunida Poesia Pois É Poesia, junto com traduções de Valéry, Bashô, Horácio, Goethe, Rilke, Browning, etc., e, apesar de descartar algumas coisas importantes para o sentido do poema (como a união entre as cavernas de gelo com os domos ao sol que consiste no grande “milagre” do poema, mas que, na tradução de Décio, parecem estar separadas), supera a todos nós no quesito invenção (especialmente na última estrofe), além de compor versos belíssimos.

Seguem, então, a minha tradução, a do Alípio e a do Décio (deixem-me aproveitar um dos poucos momentos na vida em que posso me pôr ao lado do Décio), juntamente com o original e uma foto de uma caverna subterrânea de gelo na China – que, por ter sido descoberta recentemente, me dá a impressão de que Coleridge (e talvez Marco Polo) não deveria saber que existia de verdade. Beware, beware!

Adriano Scandolara.

Kubla Khan

Em Xanadu, fez Kubla Khan
Construir um domo de prazer:
Onde Alph, rio sacro, em seu afã,
Por grutas amplas e anciãs,
         Ia a um mar sem sol correr.
E as milhas dez de fértil terra
Cingiam-se em fortins de guerra:
E nos jardins corriam os canais
Por incenseiros sempre a florescer;
E bosques como os montes, ancestrais,
Que o verde ensolarado ia envolver.

         E, ah! a fraga romântica inclinada
         Outeiro abaixo, de um cedral frondoso!
         Visão selvagem! Sacra e encantada,
         Como a minguante, de uivos assombrada,
         Da jovem por seu infernal esposo!
         E um caos da fraga irrompe, fervilhando,
         Como se fosse a própria terra arfando,
         Estouram fortes fontes, que, em momentos,
         Num jato atiram colossais fragmentos:
         Em arco qual granizo ao chão caído,
         Ou grão com joio no mangual moído:
         E em meio às rochas nessa grande dança
         Perene, logo o sacro rio se lança.
         Por cinco milhas na dedálea ida,
         Por bosque e vale, o rio, em seu afã,
         Cruzando grutas amplas e anciãs,
         Afunda em ruído na maré sem vida.
         E nesse ruído Kubla veio ouvir
         A guerra, em voz profética, por vir!

         A sombra do domo de prazer
         Vai pairando sobre as vagas;
         Onde ouvia-se o som crescer
         Pelas fontes, pelas fragas.
Era um milagre do mais raro zelo,
Um domo ao sol com grutilhões de gelo!
         E o que em visão foi-me mostrado:
         Saltério à mão, com voz sonora,
         Era abissínia a donzela
         E, com seu saltério, ela
         Cantava sobre o Monte Abora.
         Se o seu canto e sinfonia
         Pudesse em mim eu reavivar,
         Tal júbilo me venceria
Que co’a canção iria, no ar,
Erguer o domo ensolarado,
O domo! O grutilhão glacial!
E a todos seria mostrado:
Diriam, Cuidado! Cuidado!
O olho em luz, cabelo alado!
O olhar cerre em temor freiral,
E três voltas teça ao redor,
Pois que ele sabe o sabor
Do mel, do leite Celestial.

(tradução de Adriano Scandolara)

        

Kubla Khan

Em Xanadu, o Kubla Khan
Palácio de esplendor construiu,
Onde Alph, o rio sagrado, mana
Por grutas sem medida humana
         E rumo a um mar sombrio.

Cinco milhas mais cinco de fecundas terras
Cercaram-se de torres e muralhas férreas;
E ali jardins de luz de rios sinuosos, fontes
A floração arbórea a se embeber de olor,
E aqui florestas tão antigas quanto montes
Cingindo manchas fúlgidas pelo verdor.

Mas Ah!, que báratro romântico, inclinado
Na encosta, de través no cedro frondejante!
Lugar inóspito! Tão mágico e sacrado
Como o que fosse, no minguante, visitado
Por mulher a clamar por seu demônio-amante!
Do báratro, num torvelinho a fervilhar,
Como se a terra, em haustos, estivesse a arfar,
Por vezes, um forte manancial era expulso;
E em seu súbito, semi-intermitente impulso,
Saltavam, como gelo em ricochete, as lascas
Ou como, a golpes de mangual, os grãos das cascas;
Com as pedras a dançar, subitamente e a fio,
Por vezes irrompia em jorro o santo rio.

Cinco milhas meandrando com moção insana
O santo rio correu por vale e bosque e horto,
Então chegou a grutas sem medida humana
E se afundou com fragor de águas num mar morto.
Nesse fragor, o Kubla ouviu de longes terras
As vozes ancestrais anunciando guerras!

         Passeava a sombra do palácio
         Em meio às ondas revolutas;
         Nelas se ouvia um só compasso
         Do som das fontes e das grutas;
Era um milagre de lavor preciso:
Palácio ao sol com grutas de granizo!

         Uma donzela com uma cítara
         Numa visão eu vi outrora:
         Uma donzela da Abissínia
         Tangendo cítara tão fina
         E celebrando o Monte Abora.
         Me fosse dado reviver
         A melodia e o canto agora,
         Sucumbiria a tal prazer,
Que à longa música sonora
Eu ergueria no ar o monumento –
O Palácio ao sol! as grutas de granizo!
E ouvindo, iriam ver nesse momento,
E ouvindo, proclamar “Atento! Atento!
O olho que brilha, a cabeleira ao vento!
Faz-lhe à volta três círculos no piso,
E cerra os olhos com temor sagrado,
Pois ele de maná foi saciado
E bebeu do leite do Paraíso”.

(Alípio Correia de Franca Neto)

        

Kubla Khan

Em Xanadu, comanda Kubla Khan:
Para o lazer, para o prazer, levante-se
Um palácio de campânulas solares
Junto ao Alfa sagrado que, mais baixo,
Em grotas, rumo a um mar sem sol, se afuna,
E uma cinta de torres e muralhas
Cerque dez milhas de gleba fecunda,
Onde em jardins serpenteiem riachos,
Onde a planta de incenso arome os ares
E florestas antigas, pelos montes,
Cinjam as manchas de ouro dos pomares.

Mas, ah, aquele vórtice românti-
Cortando de través os cedros da colina!
Lugar selvagem! Não, não verás outros
Assim, como assombrado, à lua minguante,
Por gritos de mulher pelo demônio-amante!
E desse báratro em torvelinho
– A terra a arfar em breves, densos haustos –
Clamava aos jorros uma fonte em fendas,
A expelir entre os seus jatos, blocos
De pedra – como os projéteis de granizo
Ou como os grãos sob o mangual do outono.
Pelos arcos das rochas dançarinas,
O Alfa, em seu colear pelas ravinas,
Faiscava, buscando o fim da terra,
Até atirar-se pelo mar-sem-vida.
– E, além do estrondo, Kubla Khan ouvia
Vozes de outrora cassandrando a guerra!

A sombra dos domos do gozo
Sobre as ondas flutua.
Como em compasso se escuta
Som de fonte e som de gruta.
E que milagre o desse belo engenho:
Abóbadas em sol, caves em gelo!

Vi, certa vez, e ouvi,
Numa visão de mistério,
Uma donzela abissínia
Tangendo um saltério
E cantando o Monte Aborá
Cantando o Monte Aborá.

Pudessem tanger-se em mim
Tal som, tal verso,
Que eu, imerso,
Naquele prazer sem fim,
Com música ergueria em breve
Aquelas rotundas de sol,
Com versos escavaria
Aquelas cavernas de neve
E todos as veriam lá
Todos as veriam lá
E exclamariam: Atenção! Cuidado!
Vejam seus olhos!
– Desvario.
E os seus cabelos!
– São um rio.
Fechem a roda
                 roda
                 roda
Cerrem os olhos em terror sagrado:

Este perdeu o siso:
– Comeu do maná
E bebeu do leite
Do Paraíso.

(Décio Pignatari)

      

Kubla Khan        

In Xanadu did Kubla Khan
A stately pleasure-dome decree:
Where Alph, the sacred river, ran
Through caverns measureless to man
         Down to a sunless sea.
So twice five miles of fertile ground
With walls and towers were girdled round:
And there were gardens bright with sinuous rills,
Where blossomed many an incense-bearing tree;
And here were forests ancient as the hills,
Enfolding sunny spots of greenery.

         But oh! that deep romantic chasm which slanted
         Down the green hill athwart a cedarn cover!
         A savage place! as holy and enchanted
         As e’er beneath a waning moon was haunted
         By woman wailing for her demon-lover!
         And from this chasm, with ceaseless turmoil seething,
         As if this earth in fast thick pants were breathing,
         A mighty fountain momently was forced:
         Amid whose swift half-intermitted burst
         Huge fragments vaulted like rebounding hail,
         Or chaffy grain beneath the thresher’s flail:
         And ‘mid these dancing rocks at once and ever
         It flung up momently the sacred river.
         Five miles meandering with a mazy motion
         Through wood and dale the sacred river ran,
         Then reached the caverns measureless to man,
         And sank in tumult to a lifeless ocean:
         And ‘mid this tumult Kubla heard from far
         Ancestral voices prophesying war!

         The shadow of the dome of pleasure
         Floated midway on the waves;
         Where was heard the mingled measure
         From the fountain and the caves.
         It was a miracle of rare device,
A sunny pleasure-dome with caves of ice!
A damsel with a dulcimer
         In a vision once I saw:
         It was an Abyssinian maid,
         And on her dulcimer she played,
         Singing of Mount Abora.
         Could I revive within me
         Her symphony and song,
         To such a deep delight ‘twould win me,
That with music loud and long,
I would build that dome in air,
That sunny dome! those caves of ice!
And all who heard should see them there,
And all should cry, Beware! Beware!
His flashing eyes, his floating hair!
Weave a circle round him thrice,
And close your eyes with holy dread,
For he on honey-dew hath fed,
And drunk the milk of Paradise.

(Samuel Taylor Coleridge)

Padrão

8 comentários sobre “Kubla Khan – Samuel Taylor Coleridge

  1. rodrigo t. disse:

    muito legal, adriano. o ritmo tá uma beleza. quero ver um poe ou um blake agora com essa poética pulante. daqui um tempo, um hopkins?

    • adriano scandolara disse:

      Opa, valeu, Rodrigo! Do Blake já tem “o cordeiro” e “o tigre”, e eu tava pensando em fazer “O livro de Thel” que já tem uma tradução, mas é em verso livre (o original é em heptâmetros jâmbicos)… talvez algum poema avulso que não seja das canções de inocência/experiência e nem um dos muito longos (tipo “O livro de Urizen” ou “Jerusalém”). Do Poe, um desafio técnico seria traduzir “The Bells”, mas não acho que seja um poema muito bom…

      O Hopkins realmente seria um desafio legal, mas eu preciso ver com o Luís Bueno. A gente podia, aliás, postar algumas traduções dele também, que eu lembro que são bem bonitas.

      • rodrigo t. disse:

        verdade. sem querer ser clichê tb, o corvo ia ser massa, por causa das várias traduções de ilustres. vamos fazer umas aí? ps.: a foto da caverna psicodélica ficou demais!

    • adriano scandolara disse:

      É bacana a caverna, né? achei procurando por “China ice caves” no google. Muito louco que exista de fato. O “Corvo” merecia mesmo mais um tratamento aqui no escamandro, mas acho que precisaríamos de mais de um post p/ dar conta das traduções. Mas não me comprometo a um projeto de (re)traduzi-lo antes de terminar a revisão do Shelley, haha.

  2. Daniel Martineschen disse:

    ô Ade, senti falta de uma outra homenagem rock-and-rollzística: do Rush! Eles têm uma daquelas músicas épicas deles chamada “Xanadu” no álbum “Farewell to Kings” de 1977. Dá um bizóio nela pra ver como ela é colada no texto do “Kubla Khan”! Acho que é a minha preferida deles.

    “To seek the sacred river Alph
    To walk the caves of ice
    To break my fast on honeydew
    And drink the milk of Paradise…”

    I had heard the whispered tales of immortality
    The deepest mystery
    From an ancient book I took a clue
    I scaled the frozen mountain tops of eastern lands unknown
    Time and Man alone
    Searching for the lost Xanadu

    Xanadu…

    To stand within the Pleasure Dome
    Decreed by Kubla Khan
    To taste anew the fruits of life
    The last immortal man
    To find the sacred river Alph
    To walk the caves of ice
    Oh, I will dine on honeydew
    And drink the milk of Paradise

    A thousand years have come and gone but time has passed me by
    Stars stopped in the sky
    Frozen in an everlasting view
    Waiting for the world to end, weary of the night
    Praying for the light
    Prison of the lost
    Xanadu

    Xanadu…

    Held within the Pleasure Dome
    Decreed by Kubla Khan
    To taste my bitter triumph
    As a mad immortal man
    Nevermore shall I return
    Escape these caves of ice
    For I have dined on honeydew
    And drunk the milk of Paradise

    Or is it Paradise??

    • adriano scandolara disse:

      Você tem razão, Daniel! Pior que eu conhecia essa do Rush, mas eu não tinha ainda ligado uma coisa com a outra. Xanadu é uma referência meio que recorrente na língua inglesa (é o nome, por exemplo, que o Cidadão Kane dá à mansão dele), mas, realmente, o Rush tá dialogando diretamente com o Coleridge.

  3. oia a minha

    KUBLA KHAN

    Em Xanadu Kubla Kahn a feitura
    De um majestoso domo de prazer decretou:
    Onde Alfa, o sagrado rio, ruma
    Por cavernas que o homem não mensura
    E desce num mar sem sol.

    Duas vezes cinco milhas de fertilizadas terras
    Então foram rodeadas com muralhas e torres:
    E havia jardins brilhantes com sinuosos ribeiros,
    Nos quais floresceram árvores de incenso inebriante;
    E havia florestas antigas como são os outeiros,
    Cercando ensolaradas campinas verdejantes.

    Mas oh! Que abismo profundo e romântico inclinado
    A descer o verde outeiro sob a sombra dos cedros!
    Um lugar selvagem! Tão sagrado e encantado
    Que jamais sob um minguante da lua foi assombrado
    Por mulher murmurando por seu amado cruz-credo!
    E deste abismo, com incessante tumulto agitando,
    Como se a terra ansiosa estivesse respirando
    Uma potente fonte num momento foi forçada:
    Em meio a esta rápida e intermitente estourada
    Fragmentos grandes voaram tal rechaçada saraiva
    Ou resíduos de grãos sob o mangual com raiva:
    E de uma vez pra sempre em meio às rochas dançantes
    O sacrossanto rio irrompeu num instante.
    Cinco milhas meandrando com maluca moção
    Por floresta e várzea o sagrado rio rumou,
    Pra achar as grutas que o homem jamais nunca mensurou,
    E submergiu num tumulto de um oceano sem ação:
    E de longe ouviu Kubla em meio desta algazarra
    Antepassadas vozes profetizando guerras!

    A sombra do domo do hedonista
    Por através das ondas flutuava;
    Quando se ouvia melodia mista
    Tanto da fonte como das cavas.
    Era um milagre de raro juízo,
    Um solar domo com cavas de granizo!
    Uma donzela com um saltério
    Em uma visão eu vi outrora:
    Abissínia a moça era,
    E no seu saltério tocava ela,
    Cantarolando do Monte Abora.
    Se eu pudesse em mim reviver
    Sua sinfonia e sonoridade,
    Deleite tão dino e fundo conseguiria me vencer,
    E com tal música alta e com continuidade ,
    No ar daquele domo eu faria a construção,
    Aquele solar domo! As cavas de granizo!
    E todos que me ouvissem teriam deles visão,
    E todos gritariam: Atenção! Atenção!
    Seus flamejantes olhos, cabelos em confusão!
    Um triplo círculo faze ao seu redor é o aviso,
    E fecha teus olhos com respeito sagrado,
    Que de hidromel ele foi saciado,
    E também saboreou o leite do Paraíso

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