crítica, poesia, tradução

bertran de born (c. 1140-1210)

bertran de born, imagem do séc. xii

bertran de born, imagem do séc. xii

Gostaria aqui de me deter numa figura ainda pouco conhecida no Brasil: o poeta provençal Bertran de Born. Vejamos o que diz dele em comparação com seus contemporênos Dante, em De vulgari eloquentia:

[…] si bene recolimus, illustres viros invenimus vulgariter poetasse, scilicet Bertramum de Bornio arma, Arnaldum Danielem amorem, Gerardum de Bornello rectitudinem; Cynum Pistoriensem amorem, amicum eius rectitudinem (II, 2, 9).

[.. ]se bem me lembro, encontramos homens ilustres que poetaram em vernáculo, tais como: Bertran de Born, as armas; Arnaut Daniel, o amor; Giraut de Bornelh, a retidão; Cino da Pistoia, o amor; e seu amigo, a retidão (tradução minha).

william blake "The schismatics and sowers of discord- Moscan de'Lamberti and Bertrand de Born"

william blake “The schismatics and sowers of discord- Moscan de’Lamberti and Bertrand de Born”

Na fala de Dante, Bertran se destaca pelo interesse pelas armas. É verdade que a sua poesia, como a da maioria dos poetas de seu tempo, tratou em grande parte de temas amorosos, do louvor da mulher amada, da alegria de uma relação ambiguamente fundada no desejo e na não realização carnal desse mesmo desejo. Porém não é esse aspecto que pretendo tratar, e sim um mais radical, em que a amor e guerra não se opõem, nem se interrelacionam, mas são uma só coisa, que pretendo chamar aqui de “amor à guerra”. Mas não podemos simplificar essa amor à guerra com um julgamento moral precipitado, como o de C. C. Fauriel:

[…] the old biographer indicates the dominant trait of Bertrand’s character very distinctly; it was an unbridled passion of war. He loved it not only as the occasion for exhibiting proofs of valor, for acquiring power, and for winning glory, but also and even more on account of its hasards, on account of the exaltation of courage and of life which it produced, nay even for the sake of tumult, the disorders, and the evils which are accostumed to follow in its train. Bertrand de Born is the ideal of the undisciplined and adventuresome warrior of the Middle Age, rather than that of the chevalier in the proper sense of the term (1860, p. 483).

Ao encontrar nos versos de Bertran uma “paixão desenfreada pela guerra”, Fauriel parece não compreender como esse comportamento poético ganha seu discurso dentro de uma sociedade em que a cavalaria europeia está sofrendo uma grande reforma; é de dentro dessa reforma que Bertran de Born faz uma poesia radicalmente original – nesse ponto, não podemos contrastar a poesia de Bertran contra a de um cavaleiro, mas com a do cavaleiro, para percebermos onde ele encontra espaço para sua diferença. Não se trata, portanto, de querer tornar sua poesia única, mas, em primeiro lugar, em situá-lo numa mudança cultural drástica que permitiu a renovação tanto do pensamento da cavalaria e da nobreza, quanto a revitalização da poesia no formato musical cortês. Essa guinada está intrinsecamente ligada ao crescimento urbano na região da França.

Although European civilization remained predominantly rural, urban life grew more vital. Cities had existed in the south of France since Roman times and earlier as seats of religious an political authority; now those of Aquitaine in particular received a flow of people from the overcrowded countryside, and cities everywhere in France became points of concentrated economic activity as comerce revived, the exchange of money quickened, and prices rose. […] The new mobility of this bourgeoning society struck conservative observers as a scandal (Paden, Sankovitch & Stäblein, 1986, p. 2).

Dentro dessa série de alterações, ocorreu também uma maior independência aos senhores, que passaram a construir castelos cada vez mais fortificados, o que lhes permitia desafiar seus inimigos com menos temor, já que um cerco tomaria mais tempo e investimento monetário por parte do invasor. Esse clima de independência e disputa se espalhava por praticamente toda a nobreza; mas não apenas nela.

Warfare had traditionally been one of the nobility’s chief sources of income, along with the possession of land, but these developments tended to make it more costly at the same time as it was becoming more hazardous. Many a knight, like the troubadour Raimbaut d’Aurenga, forced into debt by his increasing expenses and decreasing value of his fixed manorial income, found himself obliged to mortgage or sell his inheritance (ibid. p. 3).

Assim, é fácil compreender como o código da cavalaria mudou nesse período. Com a decadência monetária de alguns grupos e o crescimento do número de mercenários em ação, que muitas vezes pilhavam os bens dos cavaleiros em ataques inesperados, o que vemos surgir é uma classe extremamente voltada para ideais aristocráticos de coragem individual e prodigalidade para com seus dependentes, o que, aliado a uma cultura literária já interessada nas canções de corte, reforçou ainda mais uma certa imprudência bélica. Talvez essa imagem ainda abstrata possa ser melhor compreendida com um exemplo: Ricardo Coração-de-Leão. Filho de Henrique II Plantageneta, ele assumiu o trono da Inglaterra em 1189 e ganhou fama sobretudo por seus talentos na cavalaria e por suas empreitadas bélicas recheadas de histórias sobre sua violência e coragem, mesmo em momentos de grande risco. Entre as guerras intestinas e as longas batalhas da Cruzada, além de dois anos de prisão na Alemanha, ele passou praticamente 10 anos fora da Inglaterra até morrer em 1199. Ao mesmo tempo, sabemos que se tratava de uma figura muito letrada (chegaram-nos dois poemas atribuídos a ele), com domínio do latim, do francês e do provençal; muito embora Ricardo nunca tenha aprendido a língua inglesa, pouco valorizada na época. Essa lógica de política, que mais gastava os bens do patrimônio inglês, do que propriamente se tratava de uma boa administração, era, paradoxalmente, bem vista pelo povo e pelos cortesãos exatamente por se adequar à nova ética da cavalaria; nesse sentido, Ricardo apenas seguia a postura dos seus dois irmãos mais velhos: Henrique, o Jovem e Godofredo II. É nesse contexto entre o reinado de Henrique II Plantageneta e os feitos de Ricardo Coração-de-Leão que Bertran de Born compôs suas canzos. E sua relação com o clima cultural parece bem resumida no texto de Ezra Pound: “talvez no tempo de D. Bertran até mesmo as guerras provençais podem ter-se assemelhado a um jogo, parecendo trazer em si algum elemento de esporte e acaso” (1976 [1913], p. 118).

Mas antes de partirmos para a tradução do poema, passemos brevemente por sua biografia. Bertran de Born, senhor de Autafort, nasceu entre 1140 e 1150 (a data mais específica ainda permanece um debate entre os estudiosos), era primogênito de outro Bertran de Born e de Ermengardis, uma família aparentemente estável em sua nobreza e poder local; além do trovador, seus pais tiveram pelo menos outros dois filhos: Constantine e Itier. Ao que tudo indica, ele passou a suceder seu pai na administração das terras a partir de 1178, casou-se com uma certa Raimonda, com quem teve dois filhos (Bretran e Itier). Em 1181 teria escrito seu primeiro sirventes (poema 1) – dentre os textos que chegaram até nós – por encomenda do conde Raimond V de Toulouse, e já nesse poema ele se gaba da fama como poeta bélico e assim o termina (vv. 45-6):

Totz temps vuoill que li aut baro
Sion entre lor irascut

E sempre quero que os barões
Loucos combatam entre si.

Ao comentar o texto, Frank Chambers afirma que tais versos já pertenceriam a um novo subgênero de sirventes, voltado para incitar a guerra, e que Bertran de Born seria o inventor (1985, p. 158).  No ano seguinte, o poeta teria feito poemas na corte de Henrique II Plantageneta (poemas 8 e 9) e em seguida já tomaria parte numa revolta contra Ricardo Coração-de-Leão (poemas 3), que acabou com a morte de Henrique o Jovem em 1183 e a subsequente tomada de Autafort por Ricardo (poema 17). É interessante, neste contexto, pensar nas palavras de Ezra Pound, numa carta a Felix Schelling: “De Born writes songs to provoke real war, and they were effective. This is very different from Romantic Macaulay-Tennyson praise of past battles” (1970 [1922], p. 90). Desse modo, aqui nós vemos o poeta provocar a guerra e suportar as perdas severas da batalha; ou, como poderíamos prever também pelas palavras de Paden et alii (ibid., p. 33) sobre a arte do trovador: The art of Bertran de Born springs from an obsession with conflict and a drive to master conflict. É no meio do conflito que De Born parecia encontrar seu espaço poético e político.

No entanto, aproveitando-se das brigas internas entre o rei Henrique II e seus filhos, Bertran conseguiu reaver sua propriedade por favores de Henrique II (poema 19), dessa vez sem dividi-lo com o irmão Constantine. Enquanto seu irmão teria passado à mendicância e à prática de saltear vilarejos, ele floresceu como único senhor de Autafort, submisso apenas perante o rei da Inglaterra. Sabemos ainda que, em algum momento ao longo da década de 1180 ele se casou com outra mulher, Philippa, e que seus dois filhos do primeiro casamento foram condecorados cavaleiros. Depois, entre 1196 e 1202 converteu-se a monge cistércio, em Dalon; o que não o impediu de continuar escrevendo sua poesia satírica (poemas 46 e 47), sem que isso gerasse um conflito com a ordem religiosa. Depois disso, permaneceu num silêncio literário até morrer em 1215.

cena do filme "L'Inferno" [1911] de giuseppe liguoro.

cena do filme “L’Inferno” [1911] de giuseppe liguoro.

Vendo essa relação entre o contexto político-literário europeu e as peculiaridades da vida de Bertran de Born, se ainda por cima concordarmos com a opinião de Alfred Jeanroy (“peu de poètes de son temps l’ont egalé no seulement par l’intensité de la passion, mais par les qualités purement formelles”, 1934, vol. 2, p. 199), cabe-nos agora apresentar uma tradução que reforce esse caráter poético-amoroso em direção à guerra. Em geral essa representação dos prazeres da guerra, tal como na poesia amorosa, está em primeiro lugar sempre adiada e, portanto, retratada como um desejo de realização por vir, nunca consumada, sua apresentação é quase sempre a de uma ausência lamentável, ou como uma potencialidade ansiada pelo poeta; de modo que o trovador aparece muitas vezes solitário em relação ao seu desejo. Aqui, a meu ver, parece estar um ponto crucial no seu pensamento: o amor é um modo de descrição da guerra, e vice-versa (a guerra é uma metáfora para o amor); o que faz com que sua poesia transite entre esses espaços aparentemente antagônicos sem maior esforço. Tanto o amor quanto a guerra são vistos como exigências de atividade e virtude, ao mesmo tempo em que são sempre adiados pela não realização típica do trovadorismo. Nesse sentido, o grande guerreiro é necessariamente um grande amante (um ponto bem explícito em 30, “O Amor quer bom cavalgador / que ame as armas e o servir”), capaz de realizar seus atos; e assim não nos espanta de Godofredo Palangenta seja criticado no poema 16 como um amante passivo, pouco viril no seu desejo. Paradoxalmente, essa figura heroica, capaz de amar “as armas e o servir” parece não existir no presente de Bertran, mas está sempre adiado, como a própria guerra, como o próprio amor – o herói não está nos tempos passados, nem no presente, mas no desejo desse eu-lírico, que sofre de amor e paz, o que parece explicar porque Bertran tenha se concentrado tanto no sirventes: era o melhor veículo para expressar essa frustração fora do campo amoroso. É dessa forma que os únicos contemporâneos louvados em seus versos são mortos, como Henrique o Jovem e o próprio Godofredo, que em vida foram criticados pelo trovador tal como Ricardo Coração-de-Leão. Na morte, o cavaleiro pode ser verdadeiramente louvado como herói, porque não sofre mais da passividade da paz e do amor não correspondido típico da literatura cortês.

(trecho de um artigo de minha autoria, apresentado no “VI Simpósio Antigos e Modernos – UFPR”; dito isso, deixo uma tradução minha & outra de augusto de campos.)
guilherme gontijo flores

XXX

1
Be·m plai lo gais temps de pascor,
que fai fuoillas e flors venir;
e plai me qand auch la baudor
dels auzels que fant retintir
        lo chant per lo boscatge; 
e plai me qand vei per los pratz
tendas e pavaillons fermatz;
        et ai grand alegratge,
qand vei per campaignas rengatz
cavalliers e cavals armatz. 

2
E plaz me qan li corredor
fant las gens e l’aver fugir ;
e plaz me qand vei apres lor
granren d’armatz corren venir ;
        e plaz m’e mon coratge, 
qand vei fortz chastels assetgatz
e·ls barris rotz et esfondratz
        e vei l’ost el ribatge
q’es tot entorn claus de fossatz,
ab lissas de fortz pals serratz. 

3
Et atressi·m platz de seignor
qand es primiers a l’envazir,
en caval, armatz, ses temor,
c’aissi fai los sieus enardir
        ab valen vassalatge. 
E pois que l’estorns es mesclatz,
chascus deu esser acesmatz
        e segre·l d’agradatge,
que nuills hom non es ren prezatz
tro q’a mains colps pres e donatz. 

4
Massas e brans, elms de color,
escutz traucar e desgarnir
veirem a l’intrar de l’estor
e maing vassal essems ferir,
        don anaran aratge 
cavaill dels mortz e dels nafratz.
E qand er en l’estor intratz,
        chascus hom de paratge
non pens mas d’asclar caps e bratz,
que mais val mortz qe vius sobratz. 

5
E·us dic qe tant no m’a sabor
manjar ni beure ni dormir
cum a qand auch cridar: “A lor!”
d’ambas las partz, et auch bruir
        cavals voitz per l’ombratge, 
et auch cridar: “Aidatz! Aidatz!”
e vei cazer per los fossatz
        paucs e grans per l’erbatge,
e vei los mortz que pels costatz
ant los troncons ab los cendatz. 

6
Amors vol drut cavalgador,
bon d’armas e larc de servir,
gen parlan e gran donador
e tal qi sapcha far e dir
        fors e dinz son estatge 
segon lo poder qi l’es datz.
E sia d’avinen solatz,
        cortes e d’agradatge.
E domna c’ab aital drut jaz
es monda de totz sos pechatz. 

7
Pros comtessa, per la meillor
c’anc se mires ni mais se mir
vos ten hom, e per la genssor
dona del mon, segon q’auch dir.
        Biatritz d’aut lignatge, 
bona dompn’en ditz et en fatz,
fonz lai on sorz tota bontatz,
        bella ses maestratge,
vostre rics pretz es tant poiatz
qe sobre totz es enanssatz. 

8
        Donzella d’aut linhage,
tal en cui es tota beutatz,
am fort, e sui per leis amatz;
        e dona·m tal corage
qe ja no pens esser sobratz 
per un dels plus outracujatz.

9
        Baron, metetz en gatge
castels e vilas e ciutatz
enans c’usqecs no·us gerreiatz!

10
        Papiol, d’agradatge 
ad Oc e No t’en vai viatz;
digas qe trop estan en patz.

XXX

1
Eu quero a primavera, o ardor
que folhas traz e faz florir;
e quero escutar o estentor
das aves, quando retinir
        seu canto na ramagem;
e quero ver ainda mais
no prado as tendas colossais;
        e acho uma bela imagem,
se vejo armados entre iguais
os cavaleiros e os metais.

2
Adoro quando o explorador
atiça o povo p’ra fugir,
e adoro ver em tal clamor
os homens d’arma a perseguir,
        e adoro ter miragem
do forte em cercos marciais,
ou das muralhas terminais,
        e as hostes noutra margem
que passam a fossa voraz
e uma paliçada por trás.

3
Também adoro se o senhor
for o primeiro a invadir
montado, armado, sem temor,
que assim nos outros faz surgir
        valente vassalagem.
Se a batalha se refaz,
prepare-se cada rapaz
        para a longa viagem:
ninguém é louvado jamais –
somente entre golpes mortais.

4
Maças, gládios, elmos de cor
e escudos logo a se partir
veremos, e até o sol se por
vassalos iremos ferir,
        fugirão sem fardagem,
co’o dono morto, os animais.
E na batalha, o homem vivaz
        só pense na carnagem
e em degolar todos os mais,
pois antes morto que incapaz.

5
Ah, para mim não há sabor
em comer, beber, ou dormir,
igual ao de ouvir o clamor
de duas linhas e o zunir
        dos corcéis na pilhagem
e homens gritando “Atrás! Atrás!”
e vê-los na fossa voraz,
        junto ao rés da relvagem,
e ver as flâmulas fatais
varando o arnês que se desfaz.

6
O Amor quer bom cavalgador
que ame as armas e o servir,
gentil na fala, grão doador,
que saiba o que dizer e agir,
        em qualquer estalagem,
pelo poder de que é capaz.
Um companheiro como apraz,
        cortês em sua linguagem.
A dama que acaso o compraz
não tem pecados cardeais.

7
Ó grã condessa, és a melhor
(todos estão a repetir),
e tua nobreza é a maior
do mundo, pelo que eu ouvi.
        Beatriz de alta linhagem ,
senhora no que diz e faz
ó fonte do bem mais primaz,
        belíssima ancoragem:
o teu valor é tão veraz,
que sobre todas sobressais.

8
        Virgem de alta linhagem
e da beleza mais tenaz,
amado eu amo forte e audaz:
        ela me dá coragem –
não temo a perda que me traz
nem mesmo o pulha mais mendaz.

9
        Barões, é mais vantagem
hipotecar vossos currais
do que se a guerra renegais.

10
        Papiol, eis a viagem,
ao Senhor Sim-e-Não irás
dizer que muito estão em paz .

(trad. guilherme gontijo flores)

III

Un sirventes cui motz no falh
Ai fait, qu’anc no·m costet un alh,
Et ai apres un’ aital art
Que, s’ai fraire, germa ni quart,
        Part li l’ou e la mealha
E s’el pois vol la mia part,
        Eu l’en giet de comunalha.

Tot lo sen ai dintz lo seralh,
Sitot m’an donat gran trebalh
Entre n’Ademar e·n Richart:
Lonctemps m’an tengut en regart,
        Mas aras an tal trebalha
Que lor enfan, si·l reis no·ls part,
        N’auran pro en la coralha.

Guilhems de Gordo, fort batalh
Avetz mes a vostre sonalh,
E eu am vos, si Deus me gart!
Pero per fol e per musart
        Vos tenen de la fermalha
Li vescomte, e es lor tart
        Que diatz en lor frairalha.

Totjorn contendi e·m baralh
M’escrim em defen e·m tartalh,
E·m fon hom ma terra e la m’art
E·m fai de mos ãrbres eissart
        E mescial gra en la palha
E non ai ardit ni coart
        Enamic qu’ar no m’assalha.

Totjorn ressoli e retalh
Los baros e·ls refon e·ls calh,
Que cujava metre en eissart;
E sui be fols quar m’en regart,
        Qu’il son de pejor obralha
Que non es lo fers saint Leunart,
        Per qu’es fols qui s’en trebalha.

Talairans no trota ni salh
Ni nos mou de son arenalh
Ni no geta lanza ni dart,
Anz viu a guisa de lombart.
        Tant es farsitz de nualha
Que, quan la autra gens s’en part,
        El s’estendilha e badalha.

A Peiregors, pres del muralh,
Tan quei posca om getar ab malh,
Venrai armatz sobre Baiart,
E sei trob Peitavi pifart,
        Veiran de mon bran com talha,
Que sus el cap li farai bart
        De cervel mesclat ab malha.

Baro, Deus vos salv’e vos gart
        E vos ajut e vos valha
Eus do que digatz a’n Richart
        So quel paus dis a la gralha.

III

Um serventês que em nada falha
E que não me custa uma palha
Campus para dizer com arte
Que irmão ou primo me comparte
        Do ovo a ultima migalha,
Mas se depois que minha parte,
        Não quero mais a comunalha.

Do meu lugar não me tresmalho.
Por maior que seja o trabalho
Que dão Ademar e Ricardo,
Ergo bem alto o estandarte.
        A rixa agora os atrapalha:
Se não houver rei que os aparte,
        Amigo a amigo se estraçalha.

Guilherme de Gourdon, bimbalha
Grande sino em vossa muralha,
Eu vos estimo, Deus nos guarde!
Mas que sois frouxo e sois covarde,
        De vós assim já se assoalha
Aos viscondes, se não entrardes
        Junto com eles na batalha.

O dia todo me esfrangalho
E esgrimo e resisto e retalho.
Movem-me guerra com alarde,
Já minha terra toda arde,
        Não há valente nem paspalho
Que contra mim, ou cedo ou tarde,
        Não arremeta seu chanfalho.

Debalde, como um espantalho,
Busco barões por todo atalho,
Na vanguarda ou na retaguarda,
Para fundir numa albarda
        De bom metal contra a canalha.
Que até os anéis de São Leonardo
        São mais rijos do que essa tralha.

Talleyrand não trota nem malha.
Como os demais da sua igualha
Não sabe armar lança nem dardo.
Engorda só, como um Lombardo;
        De guardanapo e de toalha
Vai engrossando a pão e lardo:
        A boa vida o amortalha.

A Périgord, junto à muralha,
Onde o tumulto mais farfalha,
Virei armado em mey Baiardo,
E se topar algum testardo,
        Verá meu gládio como talha:
Que irei servir ao molho pardo
        Miolos mexidos com malha.

Barões, Deus vos tenha em resguardo
        E vos anime e vos valha,
Para dizerdes a Ricardo
        O que o pavão disse à gralha.

(trad. augusto de campos)

Padrão

2 comentários sobre “bertran de born (c. 1140-1210)

  1. Alexandre Ferreraujo disse:

    Adoro essa canção:

    Álbum: “Sequentia – Dante and the Troubadours”
    Terceira música: “Rassa, tan creis e monta e poia”

    • olá alexandre,

      muito bom você ter deixado esse link! infelizmente, por bobeira mesmo, eu deixei de lado a música na hora de fazer o post.
      com ela esses poemas se realizam por inteiro, som & senso.
      grande abraço!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s