crítica, poesia, tradução

gaspara stampa (1523-54)

gaspara stampa, edição de 1738

gaspara stampa, edição de 1738

gaspara stampa (1523-54) é provavelmente a maior poetisa italiana do renascimento; mas insistir especificamente no fato de que seria a maior “poeta mulher” pode parecer prêmio de consolação, já que não havia tantas escrevendo em seu tempo, num espaço patriarcal como se pode imaginar para a itália dos séculos xv & xvi.

não se trata disso, portanto. ela é uma poeta maior, sem qualquer distinção de gênero (não à toa, recebeu elogios de rainer maria rilke & de grabriele d’annunzio); porém que fez do seu gênero, de sua feminilidade amorosa, a chave-mestra do jogo do poético. a maior parte dos seus poemas, publicados postumamente por sua irmã cassandra, no ano de sua morte, tratam do seu amor por collaltino di collalto, conde de treviso. nesses poemas, dois problemas principais entram em jogo: 1) a diferença de status entre os dois, já que gaspara – apesar de ter recebido a melhor das educações & de ser uma virtuose na música & na poesia – provinha de uma antiga família nobre já empobrecida & próxima de uma certa classe média (seu pai teve de se tornar joalheiro para sustentar a família); enquanto collaltino vivia a plenitude de sua nobreza, criando uma espécie de abismo para o relacionamento dos dois; fato que levou, & ainda leva, muitos comentadores a pensarem que gaspara stampa talvez fosse uma espécie de cortesã (pessoalmente, prefiro acreditar que sua educação & sua vida de musicista a poderiam deixar mais livre na vida amorosa). 2) a diferença dos sexos, que por ela é invertida: collaltino, embora nobre, aparece na poesia de gaspara como uma figura fugidia, que despreza a sua amante, bem na linha esperada do petrarquismo que assolava toda a itália (&, por que não? quase toda a europa); de modo que gaspara parecia tentar – & conseguir – criar uma certa originalidade dentro do modelo, com o crescimento da figura feminina, que supera a masculina tanto no intelecto quanto no sentimento, atravessando o abismo social e sexual, ao mesmo tempo que o desvela no seu sofrimento de modo mais violento que a média dos escritores de seu tempo.

como se pode esperar, pouco sabemos da vida de gaspara stampa, mas seu relacionamento com collaltino di collalto foi, além de conturbado, muito curto.  muito curta também, infelizmente, foi a sua vida, & e a jovem morreu com apenas 31 anos, ao que tudo indica por envenenamento, enquanto sofria uma doença aparentemente crônica. sobre sua morte, muito se discutiu & ainda pouco ou nada se sabe: alguns supõe envenenamento acidental, outros suicídio (ninguém, creio, insistiu na ideia de assassinato); das hipóteses de suicídio, por muito tempo se julgou que estaria relacionado com o casamento de collaltino, mas hoje sabemos que ele só veio a se casar 3 anos depois da morte da poeta; & também é importante lembrar que gaspara já havia passado por outro relacionamento, que parece ter sido muito mais tranquilo – até pela falta de poemas sobre o assunto…

importa, portanto, ler nessa poesia não a biografia que nela se possa encontrar (& que, ao que tudo indica, de fato se encontra), mas a potência que as emoções retratadas alcançam no seu texto. para isso, traduzi alguns sonetos & coletei outras traduções, de éric ponty (no blog o paideuma de zenão), de ivo barroso &, finalmente, de sérgio duarte, o único que publicou em livro algumas traduções numa obra interessantíssima intitulada três mulheres apaixonadas (cia. das letras, 1999), onde, além de gaspara stampa, aparecem também poemas de louise labé e de elizabeth barrett browning. por fim, acrescentei ainda um madrigal, por considerar de grande importância o aspecto musical da sua obra, já que parte dela foi conhecida em vida, não apenas pelas declamações nas rodas poéticas, como também em apresentações musicais, muitas delas performadas pela própria gaspara stampa. por fim, julgo interessante fazer uma breve citação da edição americana que sigo (sellected poems, de 1994), feita por laura stortoni & mary lillie, & que parece resumir o que eu pretenderia expressar aqui:

“Seus poemas reunidos têm um fio narrativo, solto que seja, e tal como nos poemas de Petrarca, cada um é um arco de seu amor. Porém, enquanto ela trabalhava dentro da tradição petrarquista – que era praticamente obrigatória para um poeta lírico de seu tempo – ela transcendeu os limites com sua natureza original e tempestuosa. Sua educação musical e seu ouvido excepcional concederam-lhe o dom de escrever versos altamente musicais e, ao mesmo tempo, ela desdenhava do excesso de polimento, do excesso de melodia. Sua paixão era agressiva, e os versos que a expressavam eram diretos e fortes. Também a persona que ela escolheu assumir na história de amor era ”masculina’, ela era a perseguidora, ela era a caçadora.”

deixo então com vocês, em nossas tentativas de recriação, um pouco do som (& que som) & da fúria da sua poesia.

guilherme gontijo flores

suposto retrato de gaspara stampa

suposto retrato de gaspara stampa

2

É próximo do fez-se do Criador,
que nem a alteza honrada restou dor,
da forma humana vem se explicar,
ventre virginal parir cena dar.
Quando fez do honrado do meu senhor,
por que eu fiz tantos prantos esparsos,
pode alçar-me ninho mais presunçosos,
tecer ninhos e amparo interior.
Onde eu dela fiz rara alta ventura,
aceite alegre, que meu sol se tarda,
é minha fé de lei de eterna cura.
Meu pensamento só faz com olhares,
recua eles todos, dúbio alcance ares,
claro e belo, com sol gira resguarda.

(trad. éric ponty)

Era vicino il dì che ‘l Creatore,
che ne l’altezza sua potea restarsi,
in forma umana venne a dimostrarsi,
dal ventre virginal uscendo fore,
quando degnò l’illustre mio signore,
per cui ho tanti poi lamenti sparsi,
potendo in luogo più alto annidarsi,
farsi nido e ricetto del mio core.
Ond’io sì rara e sì alta ventura
accolsi lieta; e duolmi sol che tardi
mi fè degna di lei l’eterna cura.
Da indi in qua pensieri e speme e sguardi
volsi a lui tutti, fuor d’ogni misura
chiaro e gentil, quanto ‘l sol giri e guardi.

SONETO DE AMOR (6)

Se quereis conhecer o meu senhor,
Suponde alguém de vago e doce aspecto,
Jovem na idade e velho no intelecto,
A imagem do triunfo e do valor;
Claro o cabelo e a tez de viva cor,
De boa altura e de garboso peito,
Em tudo quanto faz um ser perfeito,
Só que um pouco (ai de mim!) cruel no amor.
E se quiserdes conhecer meu porte,
Vede alguém que nos gestos e semblante
É a imagem dos martírios e da morte;
Fortaleza da fé, pura e constante,
Alguém que embora sofra, arda e suporte,
Não faz piedoso ao seu cruel amante.

(trad. ivo barroso)

Chi vuol conoscer, donne, il mio signore,
Miri un signor di vago e dolce aspetto,
Giovane d’anni e vecchio d’intelletto,
Imagin della gloria e del valore.
Di pelo biodo, e di vivo colore,
Di persona alta e spazioso petto,
E finalmente in ogni opra perfetto,
Fuor ch ‘un poco (oimè lassa!) empio in amore.
E chi vuol poi conoscer me, rimiri
Una donna in effetti ed in sembiante
Imagin de la morte e de’ martìri,
Un albergo di fé salda e costante,
Una, che, perché pianga, arda e sospiri,
Non fa pietoso il suo crudel amante.

9

Se acaso Amor me devolver-me um dia
para afastar-me deste ímpio senhor;
pois mais do que desejo, incita horror
este gozo que à dor já se alicia;
em vão me invocarás a idolatria,
a fé, o imenso e desmedido amor,
por tua crueldade e teu error
tardo em remorso; e quem pois te ouviria?
Mas eu, cantando a minha liberdade,
solta de nós cruéis e sem esp’rança,
alegre alcançarei futura idade.
E se a um justo pedido o céu afiança,
até verei nas mãos da Crueldade
a tua vida envolta em minha vingança.

(trad. guilherme gontijo flores)

S’avien ch’un giorno Amor a me mi renda,
e mi ritolga a questo empio signore;
di che paventa, e non vorrebbe, il core,
tal gioia del penar suo par che prenda;
voi chiamerete invan la mia stupenda
fede, e l’immenso e smisurato amore,
di vostra crudeltá, di vostro errore
tardi pentito, ove non è chi intenda.
Ed io, cantando la mia libertade,
da cosí duri lacci e crudi sciolta,
passerò lieta a la futura etade.
E, se giusto pregar in ciel s’ascolta,
vedrò forse anco in man di crudeltade
la vita vostra a mia vendetta involta.

56

Fazei depois também o meu retrato,
Como vereis que sou na realidade:
Sem alma e coração, pela vontade
Do milagroso Amor, que não combato.
Sou nave sem comando ou imediato
Sem vela ou mastro, em meio à tempestade,
Buscando essa bendita claridade
Que em toda parte aponta o rumo exato.
E prestai atenção que meu semblante
Seja do lado esquerdo aflito e incerto
E do direito, alegre e triunfante;
A dupla face exprimirá, decerto,
Tanto o prazer de estar com meu amante
Quanto o temor de que outra ande por perto.

(trad. sérgio duarte)

Ritraggete poi me da l’altra parte,
come vedrete ch’io sono in effetto:
viva senz’alma e senza cor nel petto
per miracol d’Amor raro e nov’arte;
quasi nave che vada senza sarte,
senza timon, senza vele e trinchetto,
mirando sempre al lume benedetto
de la sua tramontana, ovunque parte.
Ed avvertite che sia ‘l mio sembiante
da la parte sinistra afflitto e mesto;
e da la destra allegro e trionfante:
il mio stato felice vuol dir questo,
or che mi trovo il mio signor davante;
quello, il timor che sarà d’altra presto.

104

Ó noite, em mim mais clara e abençoada
que os mais abençoados dias claros,
noite digna dos grandes e mais raros
engenhos, não só meu, por ser louvada;
tu, a fiel ministra para cada
um dos gozos; os prantos mais amaros
da vida tu trouxeste doces, caros,
para os meus braços, quando acorrentada.
Pois só faltava transformar-me agora
na afortunada Alcmena, pra quem tanto
se demorou em retornar a aurora.
Não sei falar de ti com tanto espanto
ó noite branca, pra que então não fora
vencido pelo assunto o dom do canto.

(trad. guilherme gontijo flores)

O notte, a me più chiara e più beata
che i più beati giorni ed i più chiari,
notte degna da’ primi e da’ più rari
ingegni esser, non pur de ma, lodata;
tu de le gioie mie sola sei stata
fida ministra; tu tutti gli amari
de la mia vita hai fatto dolci e cari,
resomi in braccio lui che m’ha legata.
Sol mi mancò che non divenni allora

la fortunata Alcmena, a cui stè tanto
più de l’usato a ritornar l’aurora.
Pur così bene io non potrò mai tanto
dir di te, notte candida, ch’ancora
da la materia non sia vinto il canto.

208

Amor me arrasa até que viva em brasa,
qual nova salamandra ao mundo, e igual
àquele outro estranhíssimo animal,
que vive e morre nesta mesma casa.
Minha delícia é onde eu abro a asa:
viver ardendo e não sentir seu mal,
sem nem pensar que quem me induz a tal
com meu bem ou meu mal já se compraza.
Mal se extinguira o meu primeiro ardor,
queimou-me um outro Amor, que agora sinto
e chega a ser mais vivo e bem maior.
Mas eu de arder amando não ressinto,
desde que aquele que me deu fervor
encontre em meu ardor um bem distinto.

(trad. guilherme gontijo flores)

Amor m’ha fatto tal ch’io vivo in foco,
qual nova salamandra al mondo, e quale
l’altro di lei non men stranio animale,
che vive e spira nel medesmo loco.
Le mie delizie son tutte e ‘l mio gioco
viver ardendo e non sentire il male,
e non curar ch’ei che m’induce a tale
abbia di me pietà molto né poco.
A pena era anche estinto il primo ardore,
che accese l’altro Amore, a quel ch’io sento
fin qui per prova, più vivo e maggiore.
Ed io d’arder amando non mi pento,
pur che chi m’ha di novo tolto il core
resti de l’arder mio pago e contento.

221

Para o alto-mar, onde vaguei três anos
Em traiçoeiro vento, e quase aporto,
Reconduziu-me Amor, por meus enganos
Tão generoso em dar-me desconforto.
E exarcebando os sonhos meus arcanos
Pôs em meus olhos a visão de um porto
Que me consola os prantos mais insanos
E do sofrer sem fim me traz conforto.
Calor como o primeiro agora sinto;
E se em tão pouco tempo há tanto ardor
Temo que este arda mais que o fogo extinto.
Mas como hei de deixar arder de amor
Se por desejo meu passar consinto
De um fogo a outro, e de uma dor a outra dor?

(trad. sérgio duarte)

A mezzo il mare, ch’io varcai tre anni
fra dubbi venti, ed era quasi in porto,
m’ha ricondotta Amor, che a sì gran torto
è ne’ travagli miei pronto e ne’ danni;
e per doppiare a’ miei disiri i vanni
un sì chiaro oriente agli occhi ha pòrto,
che, rimirando lui, prendo conforto,
e par che manco il travagliar m’affanni.
Un foco eguale al primo foco io sento,
e, se in sì poco spazio questo è tale,
che de l’altro non sia maggior, pavento.
Ma che poss’io, se m’è l’arder fatale,
se volontariamente andar consento
d’un foco in altro, e d’un in altro male?

232

Se o prato que aos seus servos nutre Amor
é de dor e sofrer,
como posso eu morrer
nutrida pela dor?
O peixe mais vulgar,
que vive dentro d’água e ali respira,
num só instante expira
se sair do seu lar;
e o animal que vive em flama e brasa,
morre ao trocar de casa.
Se tu queres que eu morra,
Amor, dá gozo e tira-me a modorra;
porque com o pranto, o meu prato vital,
tu não me fazes mal.

(trad. guilherme gontijo flores)

Se ’l cibo, onde i suoi servi nutre Amore,
è ’l dolore e ’l martìre,
come poss’io morire
nodrita dal dolore?
Il semplicetto pesce,
che solo ne l’umor vive e respira,
in un momento spira
tosto che de l’acqua esce;
e l’animal, che vive in fiamma e ’n foco,
muor come cangia loco.
Or, se tu vòi ch’io moia,
Amor, trammi di guai e pommi in gioia;
perché col pianto, mio cibo vitale,
tu non mi puoi far male. 

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4 comentários sobre “gaspara stampa (1523-54)

  1. quero lhe agradecer a a tradução de Stampa e dizer que em meu blogue acrescentei outras. Se tivesse financiamento eu faria uns trinta sonetos.eric ponty

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