poesia, tradução

Thomas Bernhard – Na Terra e no Inferno

Thomas Bernhard

Thomas Bernhard

Thomas Bernhard (1931-1989) é mais conhecido como um dos mais importantes prosadores austríacos do século XX. Entretanto, também cultivou a poesia no início de sua carreira literária. Seu livro de poemas Na Terra e no Inferno foi publicado em 1957, seis anos antes do primeiro romance, Frost.

Segundo José Palma Caetano, na introdução à sua tradução portuguesa de Na Terra e no Inferno, “esses poemas, mesmo com alguns aspectos menos conseguidos que se lhes possam apontar, denunciam já o talento de um grande escritor, ainda, é certo a dar os primeiros passos, contêm em embrião os principais temas que vão constituir o fulcro da obra da maturidade, revelam uma linguagem cheia de ritmo e musicalidade e uma imagística riquíssima, conquanto ainda não devidamente apurada, e permitem assim compreender melhor toda a evolução do escritor, de um escritor em que, desde as primeiras tentativas, se reconhece a vontade de o ser e que caminha decididamente, à procura da sua melhor forma de expressão”.

Transcrevo aqui três poemas, na tradução de Palma Caetano, que mostram bem a atmosfera do livro, no qual a angústia da existência e a busca por Deus, encontrado justamente no sofrimento, andam lado a lado.

bernardo lins brandão

O DIA DOS FANTASMAS

Amanhã é o dia dos fantasmas. Vão
erguer-se como pó
e desatar às gargalhadas.
Amanhã é o dia dos fantasmas, que
caíram na terra das batatas. Não posso
negar que eu
sou culpado desta morte dos rebentos.
Sou culpado!
Amanhã é o dia dos fantasmas, que trazem
na fronte o meu tormento,
que possuem o meu trabalho diário.
Amanhã é o dia dos fantasmas, que dançam
como carne no muro do cemitério
e me mostram o Inferno.
Porque tenho eu de ver o Inferno? Não há outro caminho
para Deus?

Uma voz: Não há outro caminho! E este caminho
passa pelo dia dos fantasmas,
passa pelo inferno.

 

NUM TAPETE DE ÁGUA

Num tapete de água
vou bordando os meus dias,
os meus deuses e as minhas doenças.

Num tapete de verdura
vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,
as minhas manhãs azuis,
as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

Num tapete de terra
vou bordando a minha efemeridade.
Nele vou bordando a minha noite
e a minha fome,
e a minha tristeza
e o navio de guerra dos meus desesperos,
que vai deslizando p’ra mil outras águas,
para as águas do desassossego,
para as águas da imortalidade.

 

NO JARDIM DA MINHA MÃE

No jardim da minha mãe
o meu ancinho junta as estrelas
que caíram enquanto eu cá não estive.
A noite está quente e os meus membros
exalam a proveniência verde,
flores e folhas,
o grito do melro e o bater do tear.
No jardim da minha mãe
piso, descalço, as cabeças das cobras
que avançam, a espreitar, pelo portão ferrugento
com línguas de fogo.

(Thomas Bernhard, trad. de Palma Caetano)

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