crítica, tradução

raul pompeia, o apanhador de versos

raul pompeia

raul pompeia

raul pompeia (1863-1895) é cânone brasileiro, é cânone escolar até. dispensa apresentações. mas, pelas simplficações que todo cânone impõe, ele precisa de aprofundamentos, desdobramentos & revisões.

por isso o post de hoje: um pedaço do trabalho cuidadoso feito por bruno d’abruzzo (meu parceiro do rilke francês) e por camila duarte, um trabalho que espero ver em livro, com a edição e o comentário das canções sem metro. daí o inesperado do assunto: a poesia das epígrafes, a poesia de se colher epígrafes para ressignificá-las em novo contexto.

ao mesmo tempo, além de algumas revelações & traduções das epígrafes, seu mero destaque forma uma espécie de florilégio de fragmentos, um conjunto selecionado por raul pompeia e reagrupado por bruno & camila.

guilherme gontijo flores

O apanhador de versos

Raul Pompeia impôs-se uma vida curta, e ficou conhecido como autor de apenas um livro, de prosa, o seu romance O Ateneu – crônica de saudades. Quando muito, temos notícia de suas crônicas, ou seja, também sua prosa.
Sua obra completa, no entanto, quando reunida no começo da década de 1980 por Afrânio Coutinho, ocupou 10 volumes, incluindo outras novelas, crônicas e diversos esparsos, ou seja, tudo aí é prosa ou quase-prosa. Mesmo quando enveredou, ou pelo menos tentou, pela poesia, escolheu o “poema em prosa” para tal.
É o caso das suas canções sem metro, publicadas postumamente no livro Canções sem metro (1ª ed. 1900). E foi a estas canções que o autor dedicou a maior parte de sua vida, escrevendo e reescrevendo-as durante quase 12 anos. Apesar de todo o esforço e burilamento, foi um projeto com o qual morreu na praia, pois não o lançou em vida como pretendia (incluindo ilustrações próprias). Tirou sua própria vida antes.
O fato é que com suas canções sem metro, publicadas em diversos periódicos a partir de 1883, Pompeia inaugura, lança, o poema em prosa no Brasil. Isso em consonância com os petits poèmes en prose baudelairianos, abrindo, assim, caminhos para uma renovação estética na literatura brasileira: a ruptura das fronteiras entre os gêneros e formas literárias. Algo já iniciado, de certa maneira e assim como lá fora, no romantismo.
Pompeia não foi um autor de versos, e mesmo seus poemas em prosa podem não ser os melhores e mais belos da nossa literatura, mas suas canções são os primeiros ensaios num gênero que mesmo na Europa ainda se firmava. E em Canções sem metro, o livro, encontramos uma série de epígrafes, praticamente uma para cada “poema” e quase todas em versos, as quais Pompeia escolhera a dedo, sendo todas à época inéditas como epígrafes. Pompeia foi, assim, um apanhador beneditino de versos.
Vamos aqui reunir essas epígrafes, apresentando suas respectivas traduções. Para as de autores mais conhecidos, como Baudelaire, usaremos versões brasileiras de tradutores e traduções já consagradas. Para outras poucas, encontramos versões raras na língua portuguesa europeia. Para algumas outras poucas ainda, tivemos a ajuda de Guilherme Gontijo Flores que as verteu do latim para o nosso português; e outras, por fim, arriscamos uma tradução descompromissada. Tudo isso, apenas com o intuito de apresentar a cosmologia poética de um autor brasileiro envolto às tendências mais modernas da lírica, ainda que tenha sido um autor de prosa, mas de uma prosa que “não quer outra coisa senão ser poesia”, como já observou Haroldo de Campos a respeito de O Ateneu.
A apresentação das epígrafes a seguir, segue a ordem e a forma em que estão no livro Canções sem metro (e conforme ficaram em suas três edições), com os textos na língua original e suas traduções, sempre identificadas e acompanhadas de alguns breves comentários sobre seus autores e obras.
O livro Canções sem metro, em sua “forma definitiva”, contém 33 textos divididos em cinco partes, mais um prólogo, que dá o tom dos princípios estrutural e estético que fundamentam seus textos: o abandono do metro e da pureza dos gêneros e a adoção do ritmo e da musicalidade verbal como unidades da criação poética.
Esta apresentação de suas epígrafes e traduções faz parte de uma nova edição de Canções sem metro que preparamos para comemorar em 2013 os 150 anos de nascimento de Raul Pompeia (1863-1895), a ser publicada em breve por alguma editora.

Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte

imagem de ema, mulher de aristarco em "o ateneu", em desenho feito por pompeia

imagem de ema, mulher de aristarco em “o ateneu”, em desenho feito por pompeia

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Les paroles qui composent le vers n’ont par elles-mêmes aucune mesure déterminée; elles n’en ont une qu’à partir du moment où elles sont prononcées dans un temps mesuré: ce qui est mesuré, ce n’est donc pas le vers, mais le temps, et la science de la mesure, la Métrique, telle que nous l’entendons dans son sens vraiment général et scientifique, peut s’appliquer à toute mesure du temps, quel qu’en soit l’agent rythmique, danse, chant ou parole.

Paul Pierson
Métrique naturelle du langage
Introduction

“As palavras que compõem o verso não possuem, nelas mesmas, qualquer medida determinada: isto só acontecerá quando forem pronunciadas dentro de um tempo medido: o que é mensurado não é o verso, mas o tempo, e a ciência da medida, a Métrica, tal como a compreendemos em seu sentido geral e verdadeiramente científico, pode se aplicar a qualquer medida do tempo, não importando seu agente rítmico, dança, canto ou palavra”. (Tradução de Sonia Brayner. In: Labirinto do espaço romanesco: tradição e renovação da literatura brasileira 1880-1920. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1979). Este trecho é o Prólogo de Canções sem metro.

***

Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.

C. Baudelaire.

Segundo quarteto do soneto “Correspondances” de Charles Baudelaire, em tradução de Ivan Junqueira:

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

***

Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazón.

J. de Espronceda.
(El Diablo Mundo).

Logo a esperança os homens
Para sempre abandonou:
As lembranças são apenas
Pastoreio de seu coração.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

[José Ignacio Javier Oriol Encarnación de Espronceda y Delgado] Don José de Espronceda (1808-1842), poeta romântico e ativista político espanhol. O trecho desta epígrafe pertence à introdução do autor ao extenso poema El Diablo Mundo (1841), uma de suas principais obras. (In: ESPRONCEDA, J. de. El Diablo Mundo. 6ª Ed. Edición, prólogo y notas de José Moreno Villa. Madrid: Espasa-Calpe, 1969).

***

The fields breathe, sweet, the daisies kiss our feet
Young lovers meet, old wives a’sunning sit.
In every street these tunes our ears do greet
Cuckoo! Jug-jug, pu-we, to witta-woo!
Spring! the sweet spring!

Thomas Nashe.

Os campos respiram, doces, as margaridas beijam nossos pés
Jovens amantes se encontram, velhas esposas ao sol se banham.
Em cada rua esses sons saúdam nossos ouvidos
Cuco! piu-piu, bem-te-vi, tagarelar e flertar!
Primavera! A doce primavera!

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

A estrofe foi extraída de uma canção presente na peça A Pleasant Comedy Called Summer’s Last Will and Testament, de Thomas Nashe (1567-1601), poeta e dramaturgo britânico. As três edições de Canções sem metro (1900; 1963; 1982) grafam equivocadamente Thomas Narh.

***

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

C. Baudelaire.

Primeira estrofe do soneto “Les deux bonnes soeurs” (“As duas boas irmãs”), de Baudelaire, em tradução de Ivan Junqueira:

A Orgia e a Morte são duas jovens graciosas,
Fartas de beijos e de frêmito incontido,
Cujo ventre engastado em ancas andrajosas
Jamais logrou um fruto em si ter concebido.

***

… Comme des fruits d’automne,
D’enfants beaux et vermeils la table se couronne.

A. Brizeux.

… como frutos do outono,
de crianças belas e coradas a mesa se adorna.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Versos extraídos da parte intitulada “Le Retour” (“O regresso”) da obra Marie, de Julien Pélage Auguste Brizeux (1803-1858), escritor bretão romântico. Marie é uma espécie de “romance em versos”, composto por doze idílios homônimos aos quais são intercalados episódios que contam uma história de amor campesina. Segundo Otto Maria Carpeaux, no romantismo francês, Brizeux representa a “nota regional […]: os seus versos, muito musicais, admirados por Leconte de Lisle, foram considerados como antecipações do Parnasse; as suas paisagens do país céltico lembram Rosalía de Castro.” (CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental, vol. IV. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1962). Brizeux foi tradutor também de A divina comédia, de Dante Alighieri.

***

E tu, lenta ginestra,
Chi di selve odorate
Queste campagne dispogliate adorni
Anche tu presto, alla crudel passanza
Soccomberai…

G. Leopardi
(La ginestra).

Versos do poema “La ginestra, o il fiore del deserto”(“A giesta, ou a flor do deserto”), de Giacomo Leopardi:

E tu, lenta giesta,
Que com matos cheirosos
Adornas estes campos despojados
Também tu, prestes, à cruel potência
Sucumbirás [ao subterrâneo fogo]…

Em tradução de Affonso Félix de Sousa (In: LEOPARDI, Giacomo. Poesia e prosa. [org. Marco Lucchesi]. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996).

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Et cuncta, in quibus spiraculum
Vitae est in terra, mortua sunt..

Gênesis. C. VII. 22.

“Tudo o que tinha fôlego de vida em suas narinas, tudo o que havia na terra seca, morreu” (Gênesis 7, 22). Esta e todas as demais traduções das epígrafes da Bíblia são de João Ferreira de Almeida.

***

… “Perché mi scerpi?
non hai tu spirto di pietade alcuno?
Uomini fummo, e or siam fatti sterpi.

Dante
(Divina Commedia).

… O que faz que me atormentes?
não tens de pena o espírito primeiro?

Homens fomos, e paus só remanentes.

Versos de A divina comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), contidos no livro “Inferno”, canto XIII, em tradução de Italo Eugenio Mauro (A divina comédia – 3 vols. – bilíngue italiano/português. São Paulo: Editora 34, 1998). Todas as demais traduções das epígrafes de Dante – A divina comédia – foram extraídas desta edição. Corrigimos também a grafia do texto em italiano de acordo com o original estabelecido nesta edição.

***

… Et praesit piscibus maris et volatilibus caeli et bestiis, universaeque terrae, omnique reptili quod movetur in terra.

Gênesis. C. I. 26.

… Tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra (Gênesis 1, 26).

***

… et replete terram, et subicite eam…

Gênesis. C. I. 28.

… enchei a terra e sujeitai-a… (Gênesis 1, 28).

***

Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!.

A. Brizeux.

Que a fornalha arda, e os pesados martelos,
Noite e dia sem cessar, atormentem os metais!

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Versos também de uma das partes intituladas “Hymne” (“Hino”) da obra Marie, de Auguste Brizeux.

***

… Le ciel
Se ferme lentement comme une grande alcôve,
Et l’homme impatient se change en bête fauve.

C. Baudelaire.

Qual grande alcova o céu se fecha lentamente,
E em besta fera torna-se o homem impaciente.

Versos do poema “O Crepúsculo Vespertino”, em tradução de Ivan Junqueira.

***

Ne me demandez point quelle est cette province,
Ni le nom de son prince:
Vous le saurez, quand il en sera temps.

Molière
(Psyché).

Não me pergunte que província é esta,
Nem o nome de seu príncipe:
Saberás quando chegar a hora.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Molière (1622-1673), da peça Psyché (Psique), ato III, cena III.

***

Qui travaille de ses mains, pense, parle et écrit tout à la fois; et si, dans la république de l’esprit, il existe des places reservées pour les intelligences superieures, l’homme de style doit céder la place à l’homme d’action.

Proudhon
(Idées Révolutionnaires).

Quem trabalha com as mãos, pensa, fala e escreve simultaneamente; e se, na república do espírito, há espaços reservados para as inteligências superiores, o homem de estilo deve ceder lugar ao homem de ação.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Parte do capítulo “Ce que la Révolution doit à la Littérature” (“O que a Revolução deve à Literatura”, em tradução livre), da obra Ideias Revolucionárias de Pierre-Joseph Proudhon (Paris: Garnier, 1849).

***

An amor dolor sit,
An dolor amor sit,
Utrumque nescio!
Hoc unum sentio:
Jucundus dolor est,
Si dolor amor est.

*** Phoenix Expirans.

Se amor é dor,
Se dor é amor,
De nada sei!
Só isto direi:
É prazerosa a dor,
Se há dor é amor

*** Fênix Expirada. Tradução de Guilherme Gontijo Flores. Segundo F. A. March, em sua obra Latin Hymns, trata-se de um poema anônimo, escrito provavelmente entre os séculos XIV e XVI, que tem como tema o Amor de Cristo. Não é impossível pensar que Pompeia tenha extraído tanto esta como as epígrafes das canções “Veritas” e “Conclusão” de alguma obra semelhante a esta de March, que muito provavelmente circulavam pelos colégios e bibliotecas de sua época (MARCH, Francis Andrew. Latin Hymns – with english notes – for use in schools and colleges. New York: Harper & Brothers, Publishers, 1874. {Douglass Series of Christian Greek and Latin Writers – For use in schools and colleges. Vol. I – Latin Hymns}). Usamos aqui esta edição como base para corrigir prováveis gralhas ortográficas nos textos em latim desta e das outras duas referidas epígrafes.

***

Sonnez, sonnez toujours, clairons de la pensée!

Victor HugoChâtiments.

Toquem, toquem sempre, clarins do pensamento!

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Primeiro verso da sétima parte, intitulada “Les sauveurs se sauveront” (“Os salvadores se salvarão”), da obra Les Châtiments (As punições, 1853), na qual Victor Hugo (1802-1885) ataca o Segundo Império proclamado por Napoleão III.

***

Haec carnis gloria, quae tanti penditur,
Sacris in litteris flos foeni dicitur.
Ut leve folium, quod vento rapitur,
Sic vita hominis luci subtrahitur.

JacoponusMundi vanitas.

Esta a glória da carne que se pende
Nas letras sacras, se diz flor de feno.
Qual leve folha alçada pelo vento
É a vida do homem – levada na luz

A vaidade do mundo, da canção sem metro “Veritas”, em tradução de Guilherme Gontijo Flores. Jacoponus, muito provavelmente se trata de Jacopone da Todi, franciscano heterodoxo autor de cânticos de louvor e sátiras, nascido por volta de 1230, na cidade de Todi, província de Perugia, região de Umbria, Itália, e faleceu em 1306, em Collazzone, cidade onde viveu em retiro junto às Clarissas após ter sofrido com as ações severas do Papa Bonifácio VIII e permanecido em cativeiro por longo tempo, por satirizar certos abusos e vícios dos sacerdotes. É considerado um dos mais importantes poetas italianos da Idade Média, ao qual é atribuído também o famoso poema Stabat Mater (referido na canção “Vermelho, guerra”), musicado por importantes compositores, como Pergolesi, Vivaldi, Verdi, Haydn, Rossini, entre muitos outros.

***

Sovra tutto ’l sabbion, d’un cader lento,
piovean di foco dilatate falde…

DanteDivina Commedia.

Sobre todo o areal, em jorro lento
choviam chispas de fogo dilatadas…

Versos também do livro “Inferno”, canto XIV, em tradução de Italo Eugenio.

***

Words, words, words…

ShakespeareHamlet. Act. Sc.

“Palavras, palavras, palavras…”, fala de Hamlet no ato II, cena II.

***

… Così tra questa
Immensità s’annega il pensier mio;
E il naufragar m’è dolce in questo mare.

G. LeopardiL’infinito.

… Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.

Versos do poema “L’infinito” (“O infinito”), em tradução de Ivo Barroso (In: LEOPARDI, Giacomo. Poesia e prosa. [org. Marco Lucchesi]. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996).

***

E quel medesmo, che si fu accorto
ch’io domandava il mio duca di lui
gridò: “Qual io fui vivo, tal son morto.

DanteDivina Commedia.

E esse, que percebeu, antes absorto,
que dele eu perguntava para o meu guia
gritou: como eu fui vivo, assim sou morto!

Versos também do livro “Inferno”, canto XIV, em tradução de Italo Eugenio.

***

¿Ont ets? – I, ai!, on l’hermosa solia els cors atraure,
lo pèlag responia: – Jo l’he engolida anit;
fes-te enllà! entre les terres per sempre em vull ajaure;
Ai d’elles, ai, si m’alço per eixamplar mon llit! –

J. VerdaguerL’Atlàntida.

A Atlântida é o grande poema épico da língua catalã, publicado em 1876 e criado por Jacint Verdaguer, escritor nascido em 1845 em Folgaroles, povoado da planície de Vic, ao norte da Catalunha, e falecido em Barcelona (Vallvidrera) em 1902. Viajou pelo Atlântico a bordo de um dos navios da Transatlântica do Marquês de Comilles como capelão e na travessia da América à Europa escreveu o monumental “L’Atlàntida”, vertido em versos para o português por José M. Gomes Ribeiro: “Onde estás? – E, onde a bela os corações prendia,/ – Eu a engoli, fazei-me praça, ronca o mar;/ entre os mundos lançar-me eu quero de hoje em dia…/ ai deles! Se me apraz meu âmbito alargar” (VERDAGUER, Jacint. A Atlântida. Trad. José M. Gomes Ribeiro. Lisboa: Livraria Férin, 1909). Em todas as edições anteriores de Canções sem metro, os versos desta epígrafe divergem bastante do original em catalão segundo verificamos em uma edição crítica de L’Atlàntida (VERDAGUER, Jacint. Edició crítica a cura de Narcís Garolera. Barcelona: Quaderns Crema, 2002). Mantivemos aqui o texto original de acordo com esta edição, que registra criteriosamente as modificações ortográficas do texto de Verdaguer nas edições de 1878, 1886, 1897 e 1902. A estrofe referente à epígrafe não apresenta nesta edição nenhuma nota apontando alguma diferença na grafia. Nas três edições anteriores de Canções os versos foram assim publicados: ¿Hont ets? – Y ay! hont l’hermosa/ solía’ls cars atraure,/ lo pìlach responía: – Yo l’he engolida á nit;/ feste enllá! entre les terres per sempre/ ’m vull ajaure;/ man llit!; ay d’elles! ay si ’m also per/ dixamplar.

***

Las creencias que abandonas,
Los templos, las religiones
Que pasaron, y que luego
Por mentira reconoces,
¿Son, quizá, menos mentira
Que las que ahora te forges?

J. de EsproncedaEl Diablo mundo.

As crenças que abandonas,
Os templos, as religiões
Que passaram e que logo
Como mentira reconheces,
São porventura menos mentira
Que aquelas que agora crias?

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Versos também da introdução do autor ao poema El Diablo Mundo (In: ESPRONCEDA, J. de. El Diablo Mundo. 6ª Ed. [Edición, prólogo y notas de José Moreno Villa]. Madrid: Espasa-Calpe, 1969).

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Caeli enarrant gloriam Dei, et opera manuum eius annuntiat firmamentum.

L. Psalm. – XVIII2.

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” (Livro dos Salmos, 18, 2). A edição da Bíblia da qual tiramos esta tradução traz a referência 19, 1.

***

Les flots murmurent leur éternel murmure, le vent souffle, les nuages fuient, les étoiles scintillent, froides et indifferentes – et un fou attend reponse.

H. HeineLa mer du Nord
Trad. de Gérard de Nerval.

O trecho pertence à sétima parte intitulada “Questions” do segundo ciclo do poema “La mer du Nord” (1825-1826), de Heinrich Heine (1797-1856), poeta romântico alemão, traduzido em prosa para o frânces por Gérard de Nerval (HEINE, H. L’Intermezzo. La mer du nord. Nocturnes. Deux traductions et préfaces par Gérard de Nerval. Paris: Atelier de Jean Crès, 1946). O trecho que precede o da epígrafe é: “[Au bord de la mer, au bord de la mer déserte et nocturne, se tient un jeune homme, la poitrine pleine de doute, et d’un air morne il dit aux flots: ‘Oh! expliquez-moi l’énigme de la vie, la douloureuse et vieille énigme qui a tourmenté tant de têtes: têtes coiffées de mitres hiéroglyphiques, têtes en turbans et en bonnets carrés, têtes à perruques, et mille autres pauvres et bouillantes têtes humaines. Dites-moi ce que signifie l’homme? d’où il vient? ou il va? qui habite là-haut au-dessus des étoiles dorées?’]. Les flots murmurent leur éternel murmure, le vent souffle, les nuages fuient, les étoiles scintillent, froides et indifférentes, et un fou attend une réponse”. Que traduzimos: “[Na beira do mar, à margem do mar deserto e noturno, encontra-se um jovem homem, o peito repleto de dúvidas, e com um ar desolado diz às ondas: ‘Ó, expliquem-me o enigma da vida, o doloroso e velho enigma que atormenta tantas cabeças: cabeças com tiaras de hieroglifos, cabeças em turbantes e gorros quadrados, cabeças com perucas, e mil outras cabeças pobres e a ferver. Digam-me, o que significa o homem? De onde ele vem? Para onde ele vai? Quem habita acima das estrelas douradas?’]. As ondas murmuram seu murmúrio eterno, o vento sopra, as nuvens fogem, as estrelas cintilam, frias e indiferentes, e um louco espera uma resposta.” (Trad. Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte).

***

Omnis mundi creatura
Quasi liber et pictura
Nobis est, et speculum;
Nostrae vitae, nostrae mortis,
Nostri status, nostrae sortis
Fidele signaculum.

Alanus Insulanus.

No mundo cada criatura,
Como que livro e pintura,
É para nós espelho!
Da nossa vida, nossa morte,
Nosso estado, nossa sorte
Um símbolo fiel.

Epígrafe da canção sem metro “Conclusão”, em tradução de Guilherme Gontijo Flores. Alanus Insulanus (ou ainda Alanus de Lille, Alain de Lille e Alanus ab Insulis) foi um teólogo e poeta francês nascido em Lille, por volta de 1128, falecendo em Cister, em 1202 (F. A. March registra 1114 para o nascimento, e 1203 para a sua morte). Foi considerado Doctor Universalis pela variedade e profundidade de seus conhecimentos.

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