poesia

josé craveirinha (1922-2003)

josé craveirinha, nos anos 60

josé craveirinha, nos anos 60

cada homem é sofisma
bem engendrado

este texto será breve. o motivo de escrevê-lo é duplo: em primeiro lugar, comemorar (ainda que com certo atraso) a iniciativa da editora da ufmg de fazer uma coleção “poetas de moçambique”, um trabalho que ajuda muito o nosso contato com a literatura de língua portuguesa feita em outras regiões periféricas, como o brazil. o segundo é apresentar alguns poemas de josé craveirinha (1922-2003), um dos poetas que saiu nessa coleção, junto com rui knopfli (1932-1997).

craveirinha, circa 1955

craveirinha, circa 1955

ler esses poetas, ler este poeta é aprender, na prática, que não existe propriamente uma história. existem histórias, elas são concomitantes. & nessas várias histórias, as técnicas poéticas que aqui podem soar datadas, ou passadas, lá (seja lá onde for) elas podem ganhar uma força impressionante & inesperada. basta ler um poema como “áfrica”, onde os versos & boa parte do estilo nos lembram nossa tradição modernista, mas em seu próprio contexto eles detêm um outro poder poético por tratarem de uma questão muito viva nos anos 60 em moçambique (vale a pena lembrar que a guerra de independência se iniciou em 1964, no mesmo ano que saiu o livro xigubo). a afirmação da cor & da cultura aqui não é mera celebração estética, é batalha cultural, política, violenta; não é/foi fácil sobrepor-se à “farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África”.

mas em craveirinha aprendemos mais, & por isso este post. foi um poeta versátil, cantou a guerra & o amor (vejam os dolorosos poemas de maria, feitos para sua esposa morta, vejam os poemas sobre tortura de cela I & de poemas da prisão, vejam o triste cortejo de desfigurados, desmembrados e mortos na carnificina de babalaze de hienas); variou seu verso, sua voz, seu tempo & assim foi se mudando aos poucos. mais do que poeta de alguns versos marcantes, escreveu uma obra no sentido amplo que qualquer poeta gostaria de dar à sua própria obra. esta microantologia, com poemas de cada um dos seus livros publicados, é feita cronologicamente para revelar um pouco dessas vozes.

guilherme gontijo flores

ÁFRICA (de Xigubo, 1964)

Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturado com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.

Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de striptease e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina ao vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das balas e aos gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens que inventaram
A confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre o ninho morno de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo do Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
Perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meu povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a táctica harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.

MAMPSINCHA (de Karingana ua Karingana, 1974)

A mampsincha
é um fruto africano
rasteiro ali onde nasce
e cresce de cor verde
enquanto púrpuro se não torna
e já sazonado o levanta
nas puras mãos de ébano
o negrinho na gula do seu caroço.

CONTRA-SENHA (de Karingana ua Karingana, 1974)

Êxtase
de esferas de beijos.
Fomes azuis de horizonte
e tu, querida
flor inânime na madrugada
espírito presente
artérias em assombrações.

Minutos gritados em vão.
Crânios estilhaçados.
Cúmulos de estertor.
E no desbotado anil do céu
as pupilas vazadas a bicos de baioneta
pintam um pesadelo de gengivas amarelas

Leve
teu corpo de impala
e o bico de teus peitos
arando-me o tórax na alucinação.

LÂMPADA (de Cela I, 1980)

Sei
que depois a pele transpira
até à lâmpada replandecente
e que no Verão dos vóltios
os meus dentes batem de frio.

Obviamente então
a metamorfose dos mudos
quando tem de suceder
sucede luminosamente.

NÃO SEI SE É UMA MEDALHA (de Cela I, 1980)

Alguma vez
um cigarro aceso sentirá o delicioso
sabor de ter fumar de repente
o ombro direito?

Pois
sobre isso eu juro
que é tudo pura mentira.

Juro
que nunca um cigarro LM
apagou sua idiossincrática boca de lume
no calor escuro da minha omoplata.

E também juro
que nunca plagiei um cinzeiro moçambicano
sentado a cheirar o bafo da própria cinza
com o subchefe de brigada Acácio
um deus fantasmagórico envolto
na especial nuvem de tabaco
mistura de Virgínia com pele.

E também confesso
que se esta invenção tivesse acontecido
muito provavelmente seria em mil novecentos
e sessenta e seis à tarde numa certa Vila Algarve
enquanto pela duodécima vez
eu abanava a cabeça
e dizia: – Não sei!

Por acaso
a mancha desta mentira está.
Não sei se é uma medalha.
Mas não sai mais.

[1967]

A BOCA (de Babalaze das Hienas, 1997)

Jucunda boca
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.

Alva dentadura
antónima do riso
às escancaras desde a cilada.

Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.

GUMES DE NÉVOA (de Maria, 1998)

Lágrimas?

Ou apenas
dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?

INTERROGATÓRIO (de Poemas da prisão, 2003)

Era não!
mas o tabaco
é um vício.

E o vício
fumado nas omoplatas
põe-nos sobre a língua a nicotina
e descera os lábios
para o sim.

SINFONIA DO ZÉ (de Poemas eróticos, 2004)

Entretanto
quando me gemes
as duas simples letras
do meu banal diminutivo
ao meu ouvido
o sussurrante som da sílaba
na pauta dos teus lábios
ultrapassa um sinfónico
ditirâmbico universo
de milhentos Zés.

(José Craveirinha)

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