poesia, tradução

Charles Simic – 6 de 60 poemas

charles_simicNascido em 1938, Dušan Simić, ou Charles Simic, como é conhecido atualmente, é um poeta ioguslavo (da época em que existia a Iugoslávia) que se mudou para Paris e depois para os EUA aos 15 e 16 anos, respectivamente – de modo a escapar da brutalidade da Segunda Guerra. Escrevendo em inglês, então, ele publicou muitos e muitos volumes de poesia, começando no final dos anos 60 e continuando até hoje, traduziu para o inglês diversos poetas do leste europeu (e.g. Ivan V. Lalić,  Vasko Popa, Günter Grass, entre outros), ganhou prêmios como o Pulitzer e o Wallace Stevens Award e foi eleito poeta laureado da Biblioteca do Congresso em 2007 (não que esses títulos e prêmios digam algo por si, mas seria uma falta meio grave omiti-los aqui entre as informações mais objetivas sobre o poeta, não?).

Meu primeiro contato com Simic, no entanto, não foi com seus poemas, mas com um texto de sua autoria na coluna do NY Review of Books, chamado “Why I Still Write Poetry”, no qual relata, comicamente, o choque e a decepção de sua mãe velhinha ao descobrir que ele ainda escrevia poesia (além de confessar o “nobre” motivo por trás de ele ter começado a escrever poesia e em inglês em vez de sérvio). Como sua obra é muito vasta (pelo menos 35 volumes, na minha contagem) e como, até onde tinha visto, não havia encontrado traduções disponíveis para o português, tratei de encomendar a coletânea Sixty Poems (2008), que reúne, como entrega o título, 60 poemas, retirados de 9 livros entre 1986 e 2005 – o que me pareceu uma introdução razoável ao poeta (ainda que falte ao volume um texto introdutório propriamente dito).

O estilo de Simic, ao que tudo indica, me soa algo prosaico, com situações concretamente cotidianas em uma linguagem seca, mas as descrições sempre parecem deixar oculto justamente aquilo que falta para fazer a cena se fechar e fazer sentido de fato, com a presença ocasional de uma imagem inesperada (por vezes descritas como “surrealistas”, um termo que eu pessoalmente hesito em usar), um momento de intrusão do poético no cerne do prosaico. Os horrores da guerra – não necessariamente os horrores do front, mas a intrusão da guerra no banal  da vida cotidiana, como a bomba que o fez acordar, ainda criança, no meio da noite em 1941, caindo num edifício na frente de sua casa, conforme conta Simic nesta entrevista à revista Agulha – ainda o marcam profundamente e surgem aqui e acolá em seus poemas, embora não seja o foco geral da poética em si, pelo menos não tanto quanto o quadro mais amplo das questões sociais, morais, ideológicas e políticas, filtradas sempre pelo viés subjetivo de quem testemunhou a coisa pessoalmente.

Prédio bombardeado na Bósnia, por Rhys Baker

Prédio bombardeado na Bósnia, por Rhys Baker

Simic, porém, não é muito conhecido no Brasil. Há uma edição em português de Portugal, chamada Previsão do Tempo para Utopia e Arredores (2002), traduzida por José Alberto Oliveira, para a Assírio & Alvim, mas me parece ser um volume pequeno e de difícil acesso, logisticamente. Há, no entanto, algumas dessas traduções aqui neste link e algumas outras, brasileiras, avulsas pela internet, como essas duas traduções de Carlos Machado no algumapoesia.

Tratei, então, de selecionar 6 poemas dos 60 dos Sixty Poemas e traduzi-los, conforme podem ver abaixo, sendo cada poema retirado de um livro diferente (indicado abaixo também), de modo a representar uma seleção concisa, mas abrangente, na medida do possível, como uma possível introdução ao leitor interessado.

Adriano Scandolara

                         

CONTRA O QUE QUER QUE ESTEJA INVADINDO

O melhor de tudo é o ócio,
E mais ainda numa quinta,
E sorver vinho enquanto se estuda a luz:
Como ela envelhece, amarela, empalidece
E então hesita para sempre
No limiar da noite
Que podia ser a que trará a primeira geada.

É bom ter uma mulher consigo nesta hora,
E duas é melhor ainda.
Que sussurrem uma para a outra
E te olhem com um sorrisinho.
Que arregassem as mangas e desabotoem um pouco as blusas
Como merece esse bom e velho pôr-do-sol,

E o garotinho em idade escolar
Que voltou para casa para um quarto quase escuro
E agora assiste de olhar arregalado
Os adultos erguerem-lhe suas taças,
A mulher ruiva, toda zonza
Com os olhos bem cerrados,
Como se prestes a irromper em choro ou canto.

AGAINST WHATEVER IT IS THAT’S ENCROACHING

Best of all is to be idle,
And especially on a Thursday,
And to sip wine while studying the light:
The way it ages, yellows, turns ashen
And then hesitates forever
On the threshold of the night
That could be bringing the first frost.

It’s good to have a woman around just then,
And two is even better.
Let them whisper to each other
And eye you with a smirk.
Let them roll up their sleeves and unbutton their shirts a bit
As this fine old twilight deserves,

And the small schoolboy
Who has come home to a room almost dark
And now watches wide-eyed
The grown-ups raise their glasses to him,
The giddy-headed, red-haired woman
With eyes tightly shut,
As if she were about to cry or sing.

                          (de Unending Blues, 1986)

                         

A GRANDE GUERRA

Brincávamos de guerra durante a guerra,
Margaret. Soldados de brinquedo estavam em grande demanda,
Aqueles feitos de argila.
Os de chumbo derreteram para fazer balas, imagino.

Você nunca viu nada tão bonito
Quanto aqueles regimentos de argila! Eu ficava deitado no chão
Durante horas olhando-os nos olhos.
Lembro-me deles me olhando de volta maravilhados.

Como deveria ser estranho para eles
Manter a atenção, duros
Diante de uma criatura enorme e incompreensiva
Com um bigode de leite.

Com o tempo, eles quebraram, ou eu os quebrei de propósito.
Tinham arame em seus membros,
Em seus peitos, mas nada na cabeça!
Margaret, eu verifiquei.

Nada mesmo na cabeça…
Só um braço, de vez em quando, o braço de um oficial,
Brandindo um sabre de uma rachadura
No chão da cozinha de minha avó surda.

THE BIG WAR

We played war during the war,
Margaret. Toy soldiers were in big demand,
The kind made from clay.
The lead ones they melted into bullets, I suppose.

You never saw anything as beautiful
As those clay regiments! I used to lie on the floor
For hours staring them in the eye.
I remember them staring back at me in wonder.

How strange they must have felt
Standing stiffly at attention
Before a large, incomprehending creature
With a moustache made of milk.

In time they broke, or I broke them on purpose.
There was wire inside their limbs,
Inside their chests, but nothing in the heads!
Margaret, I made sure.

Nothing at all in the heads…
Just an arm, now and then, an officer’s arm,
Wielding a saber from a crack
In my deaf grandmother’s kitchen floor.

                          (de The Book of Gods and Devils, 1990)

                         

MOTEL PARAÍSO

Milhões morreram; todo mundo era inocente.
Eu fiquei no meu quarto. O Presidente
Falava da guerra como se fosse uma poção do amor mágica.
Meus olhos se abriam em espanto.
Num espelho meu rosto me parecia
Um selo de postagem duplamente cancelado.

Eu vivia bem, mas a vida era horrível.
Tinha tantos soldados naquele dia,
Tantos refugiados enchendo as estradas.
Naturalmente, todos sumiram
Com um toque da mão.
A história lambia os cantos da boca sangrenta.

No canal pago, um homem e uma mulher
Trocavam beijos famintos e arrancavam
As roupas um do outro enquanto eu olhava
Com o som no mudo e o quarto escuro
Exceto pela tela onde a cor
Tinha tons vermelhos demais, rosados demais.

PARADISE MOTEL

Millions were dead; everybody was innocent.
I stayed in my room. The President
Spoke of war as of a magic love potion.
My eyes were opened in astonishment.
In a mirror my face appeared to me
Like a twice-canceled postage stamp.

I lived well, but life was awful.
There were so many soldiers that day,
So many refugees crowding the roads.
Naturally, they all vanished
With a touch of the hand.
History licked the corners of its bloody mouth.

On the pay channel, a man and a woman
Were trading hungry kisses and tearing off
Each other’s clothes while I looked on
With the sound off and the room dark
Except for the screen where the color
Had too much red in it, too much pink.

                          (De A Wedding in Hell, 1994)

                         

UMA PONTINHA

Tive um papel pequeno, sem falas
Num épico sangrento. Eu era parte da
Humanidade bombardeada e em fuga.
Ao longe nosso grande líder
Cantava como um galo de uma varanda,
Ou será que era um grande ator
Se passando por nosso grande líder?

Aquele ali sou eu, eu disse à criançada.
Estou espremido entre o homem
Que ergue as duas mãos cheias de ataduras
E a velha senhora boquiaberta
Como se nos mostrasse um dente

Que doía demais. As cem vezes
Em que rebobinei a fita, nem uma única vez
Eles conseguiram me ver
Naquela turba cinza imensa
Que era igual a qualquer outra turba cinza imensa.

Zarpem já para a cama, eu disse enfim.
Eu sabia que estava lá. Um take só.
Só dava tempo para isso.
Enquanto nos estarrecíamos na cidade em chamas,
Mas é claro que isso eles não filmaram.

CAMEO APPEARANCE

I had a small, nonspeaking part
In a bloody epic. I was one of the
Bombed and fleeing humanity.
In the distance our great leader
Crowed like a rooster from a balcony,
Or was it a great actor
Impersonating our great leader?

That’s me there, I said to the kiddies.
I’m squeezed between the man
With two bandaged hands raised
And the old woman with her mouth open
As if she were showing us a tooth

That hurts badly. The hundred times
I rewound that tape, not once
Could they catch sight of me
In that huge gray crowd,
That was like any other gray crowd.

Trot off to bed, I said finally.
I know I was there. One take.
Is all the had time for.
We ran, and the planes grazed our hair,
And then they were no more
As we stood dazed in the burning city,
But, of course, they didn’t film that.

                          (de Walking the Black Cat, 1996)

                         

AS VIDAS DOS ALQUIMISTAS

O maior trabalho sempre foi o de apagar-se,
Ressurgir como algo inteiramente distinto;
O travesseiro de uma jovem apaixonada,
Uma bola de sujeira fingindo ser uma aranha.

Pretos tédios de noites chuvosas do campo
A folhear os escritos de adeptos ilustres
Oferecendo conselhos sobre como continuar a transmutação
De um figmento do tempo na eternidade.
O verdadeiro mestre, um dos do conselho,
Requer cem anos para aperfeiçoar sua arte.

Nesse ínterim, o segredinhos arcanos da frigideira,
O cheiro de azeite de oliva e alho soprando
De cômodo a cômodo vazio, a gata preta
Se esfregando na sua perna descoberta
Enquanto você hesita em ir até a luz distante
E o tilintar de copos na cozinha.

THE LIVES OF THE ALCHEMISTS

The great labor was always to efface oneself,
Reappear as something entirely different;
The pillow of a young woman in love,
A ball of lint pretending to be a spider.

Black boredoms of rainy country nights
Thumbing the writings of illustrious adepts
Offering advice on how to proceed with the transmutation
Of a figment of time into eternity.
The true master, one of the counseled,
Needs a hundred years to perfect his art.

In the meantime, the small arcana of the frying pan,
The smell of olive oil and garlic wafting
From room to empty room, the black cat
Rubbing herself against your bare leg
While you shuffle toward the distant light
And the tinkle of glasses in the kitchen.

                          (de Night Picnic, 2001)

                         

NO PLANETÁRIO

Até-então-inigualado, o blockbuster em wide-screen
Que fica cada vez mais e mais confuso
Depois de uma cena de abertura espetacular.
O ritmo, até para os mais pacientes
É fatalmente lento apesar da premissa
De um final de deixar o trânsito parado, o olho arregalado:
O súbito encolher do todo
Ao seu ínfimo ponto inicial, apagando tudo –
Incluindo este saco de pipoca que dividimos.

Sim, é intrigante mas no fim, irritante,
Este quebra-cabeças sem resposta emergindo esta noite
Do grande elenco de estrelas e galáxias
No que pode-se chamar de um prodigioso
Desperdício de tempo, dinheiro e talento.
“Porra, vamos embora daqui”, eu disse
Bem na hora em que os olhos dela marejaram
E ela me confidenciou, alto até demais,
“Nunca vi nada tão bonito!”

IN THE PLANETARIUM

Never-yet-equaled, wide-screen blockbuster
That grew more and more muddled
After a spectacular opening shot.
The pace, even for the most patient
Killingly slow despite the premise
Of a shop-stopping, eye-popping ending:
The sudden shriveling of the whole
To its teensy starting point, erasing all
Including this bag of popcorn we are sharing.

Yes, an intruguing but finally irritating
Puzzle with no answer forthcoming tonight
From the large cast of stars and galaxies
In what may be called a prodigious
Expenditure of time, money and talent.
“Let’s get the fuck out of here,” I said
Just as her upraised eyes grew moist
And she confided to me, much too loudly,
“I have never seen anything so beautiful”.

                          (de My Noiseless Entourage, 2005)

(Charles Simic, tradução de Adriano Scandolara)

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Um comentário sobre “Charles Simic – 6 de 60 poemas

  1. Carol Timm disse:

    Que bom encontrar um pouco mais de Charles Simic aqui, Desde que li o primeiro poema dele No Trapézio, sem Rede que fui à nocaute. Pena haver apenas um livro dele em português, e ” claro, de difícil acesso”. Mas esses outros poemas aqui traduzidos e os outros já é um começo. Obrigada e parabéns pela ESCAMANDRO. Ótima referência de poesia. Carol

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